Quantos luares eu lá vi!
Que doces manhãs d'abril!
E os ais que soltei alli
Não foram sete, mas mil!
Pois então já vocês vêem,
rapazes, que tenho razão
para conhecer Sitiaes...
O poeta lançou ao ar um vago suspiro, e durante um
instante caminharam todos tres callados.
—Dize-me uma cousa, Alencar, perguntou Carlos
baixo, parando, e tocando no braço do poeta. O Damaso
está na Lawrence?
Não, que elle o tivesse visto. Verdade seja que na
vespera, apenas chegara, fôra-se deitar, fatigado; e
n'essa manhã almoçara só com dois
rapazes inglezes.
O unico animal que avistara fôra um lindo cãosinho
de
luxo, ladrando no corredor...
—E vocês onde estão?
—No Nunes.
Então o poeta parando de novo, contemplando Carlos
com sympathia:
—Que bem que fizeste em arrastar cá o maestro, filho!...
Quantas vezes eu tenho dito áquelle diabo, que se
mettesse no omnibus, viesse passar dous dias a Cintra.
Mas ninguem o tira de martelar o piano. E olha tu
que mesmo para a musica, para compor, para entender
um Mozart, um Choppin, é necessario ter visto
isto, escutado este rumor, esta melodia da ramagem...
Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhava
adiante, enlevado:
—Tem muito talento, tem muita idéa melodica!...
Olha que andei com aquillo ás cabritas... E a
mãe,
menino, foi muitissimo boa mulher.
—Vejam vocês isto! gritou Cruges que parara,
esperando-os. Isto é sublime.
Era apenas um bocadito d'estrada, apertada entre
dous velhos muros cobertos d'hera, assombreada
por grandes arvores entrelaçadas, que lhe faziam um
toldo de folhagem aberto á luz como uma renda: no
chão tremiam manchas de sol: e, na frescura e no silencio,
uma agoa que se não via ia fugindo e cantando.
—Se tu queres sublime, Cruges, exclamou Alencar,
então tens de subir á serra. Ahi tens o
espaço,
tens a nuvem, tens a arte...
—Não sei, talvez goste mais d'isto, murmurou o
maestro.
A sua natureza de timido preferiria, de certo, estes
humildes recantos, feitos de uma pouca de folhagem
fresca e de um pedaço de muro musgoso, logares
de quietação e de sombra, onde se aninha com
um conforto maior o scismar dos indolentes...
—De resto, filho, continuou Alencar, tudo em Cintra
é divino. Não ha cantinho que não seja
um poema...
Olha, alli tens tu, por exemplo, aquella linda
florinha azul...—e, ternamente, apanhou-a.
—Vamos andando, vamos andando, murmurou Carlos
impaciente, e agora, desde que o poeta fallara do
cãosinho de luxo, mais certo de que ella estava na
Lawrence, e que a ia brevemente encontrar.
Mas, ao chegar a Sitiaes, Cruges teve uma desillusão
diante d'aquelle vasto terreiro coberto de herva,
com o palacete ao fundo, enxovalhado, de vidraças
partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em
pleno ceu, o seu grande escudo de armas. Ficara-lhe
a idéa, de pequeno, que Sitiaes era um montão
pittoresco
de rochedos, dominando a profundidade de um
valle; e a isto misturava-se vagamente uma
recordação
de luar e de guitarras... Mas aquillo que elle alli
via era um desapontamento.
—A vida é feita de desapontamentos, disse Carlos,
Anda para diante!
E apressou o passo atravez do terreiro, em quanto
o maestro, cada vez mais animado, lhe gritava a chalaça
do dia:
—E v. ex.
a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem
experiência de hespanholas!...
Alencar, que se demorara atraz a accender o cigarro,
estendeu o ouvido, curioso, quiz saber o que
era isso de hespanholas? O maestro contou-lhe o encontro
no Nunes e os furores da Concha.
Iam ambos caminhando por uma das alamedas lateraes,
verde e fresca, de uma paz religiosa, como um
claustro feito de folhagem. O terreiro estava deserto;
a herva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrellada
de botões de ouro brilhando ao sol, e de malmequersinhos
brancos. Nenhuma folha se movia:
atravez da ramaria ligeira o sol atirava mólhos de
raios de ouro. O azul parecia recuado a uma distancia
infinita, repassado de silencio luminoso; e só se
ouvia, ás vezes, monotona e dormente, a voz de um
cuco nos castanheiros.
Toda aquella vivenda, com a sua grade enferrujada
sobre a estrada, os seus florões de pedra roídos
da chuva, o pesado brazão rococó, as janellas
cheias
de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia
estar-se deixando morrer voluntariamente n'aquella
verde solidão,—amuada com a vida, desde
que d'alli tinham desapparecido as ultimas graças do
tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de
anquinhas tinham roçado essas relvas... Agora Cruges
ía descrevendo ao Alencar a figura do Eusebiosinho,
com a chavena de café na mão, a ir pedir
perdão á Concha; e a cada momento o poeta, com o
seu grande chapéo panamá, se agachava a colher
florinhas
silvestres.
Quando passaram o Arco, encontraram Carlos sentado
n'um dos bancos de pedra, fumando pensativamente
a sua cigarette. O palacete deitava sobre aquelle
bocado de terraço a sombra dos seus muros tristes;
do valle subia uma frescura e um grande ar; e algures,
em baixo, sentia-se o prantear de um repuxo. Então
o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo, fallou
com nojo do Eusebiosinho.—Ahi está uma torpeza
que elle nunca commettera, trazer meretrizes a Cintra!
Nem a Cintra, nem a parte nenhuma... Mas
muito menos a Cintra! Sempre tivera, todo o mundo
devia ter, a religião d'aquellas arvores e o amor d'aquellas
sombras...
—E esse Palma, accrescentou elle, é um traste!
Eu conheço-o; elle teve uma especie de jornal, e
já
lhe dei muita bofetada na rua do Alecrim. Foi uma
historia curiosa... Ora eu t'a conto Carlos... Aquelle
canalha! quando me lembro!... Aquella vil bolinha
de materia putrida!... Aquelle chouricinho de pus!
Levantou-se, passando a mão nervosa sobre os bigodes,
já excitado pela lembrança d'aquella velha
desordem, vergastando o Palma com nomes ferozes,
todo n'uma d'essas fervuras de sangue que eram a
sua desgraça.
Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava
a grande planicie de lavoura que se estendia em baixo,
rica e bem trabalhada, repartida em quadrados verde-claros
e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um
panno feito de remendos assim que elle tinha na
meza do seu quarto. Tiras brancas de estradas serpeavam
pelo meio: aqui e além, n'uma massa de arvoredo,
branquejava um casal: e a cada passo, n'aquelle
solo onde as aguas abundam, uma fila de pequenos
olmos revelava algum fresco ribeiro, correndo e reluzindo
entre as hervas. O mar ficava ao fundo, n'uma
linha unida, esbatida na tenuidade diffusa da bruma
azulada: e por cima arredondava-se um grande azul
lustroso como um bello esmalte, tendo apenas, lá no
alto, um farraposinho de nevoa, que ficara alli esquecido,
e que dormia enovellado e suspenso na luz...
—Tive nojo! exclamava o Alencar, rematando fogosamente
a sua historia. Palavra que tive nojo! Atirei-lhe
a bengala aos pés, crusei os braços e disse-lhe:
ahi tem você a bengala, seu covarde, a mim
bastam-me as mãos!
—Que diabo, não me hão de esquecer as queijadas!
murmurou Cruges, para si mesmo, affastando-se
do parapeito.
Carlos erguera-se tambem, olhava o relogio. Mas
antes de deixar Sitiaes, Cruges quiz explorar o outro
terraço ao lado: e, apenas subira os dous velhos degraus
de pedra, soltou de lá um grito alegre:
—Bem dizia eu! cá estão elles... E
vocês a dizer
que não!
Foram-n'o encontrar triumphante, diante de um
montão de penedos, polidos pelo uso, já com um
vago feitio de assentos, deixados ali outr'ora, poeticamente,
para dar ao terraço uma graça agreste de selva
brava. Então, não dizia elle? Bem dizia elle que
em
Sitiaes havia penedos!
—Se eu me lembrava perfeitamente!
Penedo
da
Saudade, não é que se chama,
Alencar?
Mas o poeta não respondeu. Diante d'aquellas pedras
crusara os braços, sorria dolorosamente; e immovel,
sombrio no seu fato negro, com o panamá
carregado para a testa, envolveu todo aquelle recanto
n'um olhar lento e triste.
Depois, no silencio, a sua voz ergueu-se, saudosa
e dolente:
—Vocês lembram-se, rapazes, nas
Flôres e Martyrios,
de uma das cousas melhores que lá tenho, em
rimas livres, chamada
6 de Agosto?
Não se lembram
talvez... Pois eu vol-a digo, rapazes!
Machinalmente tirara do bolso o lenço branco. E
com elle fluctuante na mão, puxando Carlos para junto
de si, chamando do outro lado o Cruges, baixou a
voz como n'uma confidencia sagrada, recitou, com
um ardor surdo, mordendo as syllabas, tremulo,
n'uma paixão ephemera de nervoso:
Vieste! Cingi-te ao peito.
Em redor que noite escura!
Não tinha rendas o leito,
Nem tinha lavores na barra
Que era só a rocha dura...
Muito ao longe uma guitarra
Gemia vagos harpejos...
(Vê tu que não me esqueceu)...
E a rocha dura aqueceu
Ao calor dos nossos beijos!
Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras
brancas batidas do sol, atirou para lá um gesto triste,
e murmurou:
—Foi alli.
E affastou-se, alquebrado sob o seu grande chapéo
panamá, com o lenço branco na mão.
Cruges, que
aquelles romantismos impressionavam, ficou a olhar
para os penedos como para um sitio historico. Carlos
sorria. E quando ambos deixaram esse recanto do
terraço—o poeta, agachado junto do arco, estava
apertando o atilho da ceroula.
Endireitou-se logo, já toda a emoção o
deixara,
mostrava os maus dentes n'um sorriso amigo, e exclamou,
apontando para o arco:
—Agora, Cruges, filho, repara tu n'aquella tela
sublime.
O maestro embasbacou. No vão do arco, como dentro
de uma pesada moldura de pedra, brilhava, á luz
rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma
composição
quasi phantastica, como a illustração de uma
bella lenda de cavallaria e de amor. Era no primeiro
plano o terreiro, deserto e verdejando, todo salpicado
de botões amarellos; ao fundo, o renque cerrado de
antigas arvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo
da grade uma muralha de folhagem reluzente; e
emergindo abruptamente d'essa copada linha de bosque
assoalhado, subia no pleno resplendor do dia,
destacando vigorosamente n'um relevo nitido sobre
o fundo de céu azul claro, o cume airoso da serra,
toda côr de violeta escura, coroada pelo castello da
Pena, romantico e solitario no alto, com o seu parque
sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as
cupulas brilhando ao sol como se fossem feitas de
ouro...
Cruges achou aquelle quadro digno de Gustavo
Doré. Alencar teve uma bella phrase sobre a
imaginação
dos arabes. Carlos, impaciente, foi-os apressando para diante.
Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo
de subir á Pena. Alencar, por si, ía tambem com
prazer. A Pena para elle era outro ninho de
recordações.
Ninho? Devia antes dizer cemiterio... Carlos
hesitava, parado junto da grade. Estaria ella na Pena?
E olhava a estrada, olhava as arvores, como se podesse
adivinhar pelas pegadas no pó, ou pelo mover
das folhas, que direcção tinham tomado os passos
que
elle seguia... Por fim teve uma idéa.
—Vamos indo primeiro á Lawrence. E depois se
quizermos ir á Pena, arranjam-se lá os burros...
E nem mesmo quiz escutar o Alencar, que tivera,
tambem uma idéa, fallava de Collares, de uma visita
ao seu velho Carvalhosa; accelerou o passo para a
Lawrence, emquanto o poeta tornava a arranjar o
atilho da ceroula, e o maestro, n'um enthusiasmo bucolico,
ornava o chapéo de folhas de hera.
Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro
na bocca, não tendo podido apoderar-se dos
inglezes, preguiçavam ao sol.
—Vocês sabem, perguntou-lhes Carlos, se uma
familia, que está aqui no hotel, foi para a Pena?...
Um dos homens pareceu adivinhar, exclamou logo,
desbarretando-se.
—Sim, senhor, foram para lá ha bocado, e
aqui está o burrinho tambem para v. Ex.
a,
meu
amo!
Mas o outro, mais honesto, negou. Não senhor, a
gente que fôra para a Pena estava no Nunes...
—A familia que o senhor diz foi agora ali para
baixo, para o palacio...
—Uma senhora alta?
—Sim senhor.
—Com um sujeito de barba preta?
—Sim senhor.
—E uma cadellinha?
—Sim senhor.
—Tu conheces o sr. Damaso Salcede?
—Não senhor... É o que tira retratos?
—Não, não tira retratos... Tomae lá.
Deu-lhes uma placa de cinco tostões; e voltou ao
encontro dos outros, declarando que realmente era
tarde para subirem á Pena.
—Agora o que tu deves vêr, Cruges, é o palacio.
Isso é que tem originalidade e cachet! Não
é verdade,
Alencar?...
—Eu vos digo, filhos, começou o auctor de
Elvira,
historicamente fallando...
—E eu tenho de comprar as queijadas, murmurou
Cruges.
—Justamente! exclamou Carlos. Tens ainda as queijadas;
é necessario não perder tempo; a caminho!
Deixou os outros ainda indecisos, abalou para o
palacio, em quatro largas passadas estava lá. E logo
da praça avistou, saindo já o portão,
passando rente
da sentinella, a famosa familia hospedada na Lawrence
e a sua cadellinha de luxo. Era, com effeito, um
sujeito de barba preta, e de sapatos de lona branca;
e, ao lado d'elle, uma matrona enorme, com um mantelete
de seda, cousas de ouro pelo pescoço e pelo
peito, e o cãosinho felpudo ao collo. Vinham ambos
rosnando o quer que fosse, com mau modo um para
o outro, e em hespanhol.
Carlos ficou a olhar para aquelle par com a melancolia
de quem contempla os pedaços d'um bello marmore
quebrado. Não esperou mais pelos outros, nem
os quiz encontrar. Correu á Lawrence por um caminho
differente, avido de uma certeza:—e ahi, o criado
que lhe appareceu, disse-lhe que o sr. Salcede e os
srs. Castro Gomes tinham partido na vespera para
Mafra...
—E de lá?...
O criado ouvira dizer ao sr. Damaso que de lá
voltavam a Lisboa.
—Bem, disse Carlos atirando o chapéo para cima
da meza, traga-me você um calice de cognac, e uma
pouca d'agua fresca.
Cintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta
e triste. Não teve animo de voltar ao palacio,
nem quiz sahir mais d'ali; e arrancando as luvas
passeiando em volta da meza de jantar, onde murchavam
os ramos da vespera, sentia um desejo desesperado
de galopar para Lisboa, correr ao Hotel Central,
invadir-lhe o quarto, vêl-a, saciar os seus olhos
n'ella!... Porque, o que o irritava agora era não
poder encontrar, na pequenez de Lisboa, onde toda
a gente se acotovella, aquella mulher que elle procurava
anciosamente! Duas semanas farejara o Aterro
como um cão perdido: fizera
perigrinações ridiculas
de theatro em theatro: n'uma manhã de domingo
percorrera as missas! E não a tornara a vêr. Agora
sabia-a em Cintra, voava a Cintra, e não a via tambem.
Ella cruzava-o uma tarde, bella como uma
deusa transviada no Aterro, deixava-lhe cahir n'alma
por accaso um dos seus olhares negros, e desapparecia,
evaporava-se, como se tivesse realmente remontado
ao céo, d'ora em diante invisivel e sobrenatural:
e elle ali ficava, com aquelle olhar no coração,
perturbando
todo o seu ser, orientando surdamente os
seus pensamentos, desejos, curiosidades, toda a sua
vida interior, para uma adoravel desconhecida, de
quem elle nada sabia senão que era alta e loira, e
que tinha uma cadellinha escosseza... Assim acontece
com as estrellas d'acaso! Ellas não são d'uma
essencia diferente, nem contéem mais luz que as outras:
mas, por isso mesmo que passam fugitivamente
e se esvaem, parecem despedir um fulgor mais divino,
e o deslumbramento que deixam nos olhos é
mais perturbador e mais longo... Elle não a tornara
a vêr. Outros viam-n'a. O Taveira vira-a. No Gremio,
ouvira um alferes de lanceiros fallar d'ella, perguntar
quem era, porque a encontrava todos os dias. O
alferes encontrava-a todos os dias. Elle não a via, e
não socegava...
O criado trouxe o cognac. Então Carlos, preparando
vagarosamente o seu refresco, conversou com elle,
fallou um momento dos dois rapazes inglezes, depois
da hespanhola obesa... Emfim, dominando uma
timidez, quasi córando, fez, atravez de grandes silencios,
perguntas sobre os Castro Gomes. E cada resposta
lhe parecia uma acquisição preciosa. A senhora
era muito madrugadora, dizia o criado: ás sete
horas tinha tomado banho, estava vestida, e sahia só.
O sr. Castro Gomes, que dormia n'um quarto separado,
nunca se mexia antes do meio dia; e, á noite,
ficava uma eternidade á meza, fumando cigarettes e
molhando os beiços em copinhos de cognac e agua. Elle
e o sr. Damaso jogavam o dominó. A senhora tinha
montões de flôres no quarto; e tencionavam ficar
até
domingo, mas fôra ella que apressára a partida...
—Ah, disse Carlos depois de um silencio, foi a senhora
que apressou a partida?...
—Sim, senhor, com cuidado na menina que tinha
ficado em Lisboa... V. ex.
a toma mais cognac?
Com um gesto Carlos recusou, e veiu sentar-se no
terraço. A tarde descia, calma, radiosa, sem um estremecer
de folhagem, cheia de claridade dourada,
n'uma larga serenidade que penetrava a alma. Elle
tel-a-hia pois encontrado, ali mesmo n'aquelle terraço,
vendo tambem cahir a tarde—se ella não estivesse
impaciente por tornar a vêr a filha, algum
bébésinho
loiro que ficára só com a ama. Assim, a brilhante
deusa era tambem uma boa mamã; e isto
dava-lhe um encanto mais profundo, era assim que
elle gostava mais d'ella, com este terno estremecimento
humano nas suas bellas fórmas de marmore.
Agora, já ella estava em Lisboa; e imaginava-a nas
rendas do seu
peignoir, com o
cabello enrolado à
pressa, grande e branca, erguendo ao ar o bébé
nos
seus explendidos braços de Juno, e fallando-lhe com
um riso d'ouro. Achava-a assim adoravel, todo o seu
coração fugia para ella... Ah! poder ter o
direito
de estar junto d'ella, n'essas horas d'intimidade, bem
junto, sentindo o aroma da sua pelle, e sorrindo tambem
a um bébé. E, pouco a pouco, foi-lhe surgindo
na alma um romance, radiante e absurdo: um sopro
de paixão, mais forte que as leis humanas, enrolava
violentamente, levava juntos o seu destino e o d'ella;
depois, que divina existencia, escondida n'um ninho
de flôres e de sol, longe, n'algum canto da Italia...
E, toda a sorte de idéas d'amor, de
devoção absoluta,
de sacrificio, invadiam-n'o deliciosamente—emquanto
os seus olhos se esqueciam, se perdiam, enlevados
na religiosa solemnidade d'aquelle bello fim
da tarde. Do lado do mar subia uma maravilhosa côr
d'ouro pallido, que ia no alto diluir o azul, dava-lhe
um branco indeciso e opalino, um tom de desmaio
doce; e o arvoredo cobria-se todo de uma tinta loura,
delicada e dormente. Todos os rumores tomavam uma
suavidade de suspiro perdido. Nenhum contorno se
movia como na immobilidade de um extase. E as casas,
voltadas para o poente, com uma ou outra janella
accesa em braza, os cimos redondos das arvores apinhadas,
descendo a serra n'uma espessa debandada
para o valle, tudo parecera ficar de repente parado
n'um recolhimento melancolico e grave, olhando a partida
do sol, que mergulhava lentamente no mar...
—Oh Carlos, tu estás ahi?
Era em baixo, na estrada, a voz grossa do Alencar
gritando por elle. Carlos appareceu á varanda do
terraço.
—Que diabo estás tu ahi a fazer, rapaz? exclamou
Alencar, agitando alegremente o seu panamá. Nós
lá estivemos à espera, no covil real... Fomos ao
Nunes...
Iamos agora procurar-te á cadeia!
E o poeta riu largamente da sua pilheria—emquanto
Cruges, ao lado, de mãos atraz das costas, e
a face erguida para o terraço, bocejava desconsoladamente.
—Vim
refrescar, como tu dizes,
tomar um pouco
de cognac, que estava com sêde.
Cognac? eis ahi o mimo por que o
pobre
Alencar
estivera anciando toda a tarde, desde Sitiaes. E galgou
logo as escadas do terraço—depois de ter gritado
para dentro, para a sua velha Lawrence, que
lhe mandasse acima
meia da fina.
—Viste o Paço, hein, Cruges? perguntou Carlos
ao maestro, quando elle appareceu, arrastando os
passos. Então, parece-me que o que nos resta a fazer
é jantar, e abalar...
Cruges concordou. Voltava do palacio com um ar
murcho, fatigado d'aquelle vasto casarão historico,
da voz monotona do cicerone mostrando a cama de
S. M. El-Rei, as cortinas do quarto de S. M. a Rainha,
«melhores que as de Mafra,» o tira-botas de S. A.;
e trazia de lá uma pouca d'essa melancolia que erra,
como uma atmosphera propria, nas residencias reaes.
E aquella natureza de Cintra, ao escurecer, dizia
elle, começava a entristecel-o.
Então concordaram em jantar ali, na Lawrence, para
evitar o espectaculo torpe do Palma e das damas,
mandar vir á porta o break, e partir depois ao nascer
do luar. Alencar, aproveitando a carruagem, recolhia
tambem a Lisboa.
—E, para ser festa completa, exclamou elle, limpando
os bigodes do cognac, emquanto vocês vão
ao Nunes pagar a conta, e dar ordens para o break,
eu vou-me entender lá abaixo á cosinha com a
velha
Lawrence, e preparar-vos um
bacalhau á
Alencar,
recipe meu... E vocês verão o que é um
bacalhau! Porque,
lá isso, rapazes, versos os farão outros melhor;
bacalhau, não!
Atravessando a praça, Cruges pedia a Deus que
não encontrassem mais o Eusebiosinho. Mas, apenas
pozeram os pés nos primeiros degraus do Nunes, ouviram
em cima o chalrar da sucia. Estavam na ante-sala,
já todos reconciliados, a Concha contente—e installados
aos dois cantos de uma meza, com cartas. O
Palma, munido d'uma garrafa de genebra, fazia uma
batotinha para o Eusebio; e as duas
hespanholas, de
cigarro na bocca, jogavam languidamente a bisca.
O viuvo, enfiado, perdia. No monte, que começára
miseravelmente com duas corôas, já luzia ouro; e
Palma triumphava, chalaceiando, dando beijocas na
sua moça. Mas, ao mesmo tempo, fazia de cavalheiro,
fallava de dar a desforra, ficar ali, sendo necessario,
até de madrugada.
—Então vv. ex.
as não se
tentam? Isto
é para passar o
tempo... Em Cintra tudo serve... Valete! Perdeu
você outro mico no rei. Deve a libra mais quinze
tostões, sô Silveira!
Carlos passára, sem responder, seguido pelo criado—no
momento em que Euzebiosinho, furioso, já desconfiado,
quiz verificar, com as lunetas negras sobre
o baralho, se lá estavam todos os reis.
Palma alastrou as cartas largamente, sem se zangar.
Entre amigos, que diabo, tudo se admittia! A
sua hespanhola, essa sim, escandalisou-se, defendendo
a honra do seu homem: então Palmita havia de ter
empalmado o rei? Mas, a Concha, zelava o dinheiro
do seu viuvo, exclamava que o rei podia estar perdido...
Os reis estavam lá.
Palma atirou um calice de genebra ás goelas, e
recomeçou a baralhar magestosamente.
—Então v. ex.
a não se
tenta? repetia elle para
o
maestro.
Cruges, com effeito, parára, roçando-se pela
meza,
com o olho nas cartas e no ouro do monte, já sem
força, remexendo o dinheiro nas algibeiras. Subitamente
um az decidiu-o. Com a mão nervosa, escorregou-lhe
uma libra por baixo, jogando cinco tostões,
e de porta. Perdeu logo. Quando Carlos voltou do
quarto com o criado que descia as malas, o maestro
estava em pleno vicio, com a libra entalada, os olhos
accezos, o ar esguedelhado.
—Então tu?...—exclamou Carlos com severidade.
—Já desço, rosnou o maestro.
E, á pressa, foi á paz da libra, n'um terno
contra
o rei. Cartada de colicas! como disse o Palma: e foi
com emoção que elle começou a puxar as
cartas, espremendo-as
uma a uma, n'um vagar mortal. A apparição
de um bico arrancou-lhe uma praga. Era apenas
um duque, Eusebiosinho perdia mais uma placa.
Palma teve um suspirinho de alivio; e, escondendo
com ambas as mãos o baralho, erguendo as lunetas
faiscantes para o maestro:
—Então, sempre continúa toda a libra?
—Toda.
Palma teve outro suspiro, d'anciedade; e, mais pallido,
voltou bruscamente as cartas.
—Rei! gritou elle, empolgando o ouro.
Era o rei de paus, a sua hespanhola bateu as palmas,
o maestro abalou furioso.
Na Lawrence o jantar prolongou-se até ás oito
horas,
com luzes;—e o Alencar fallou sempre. Tinha esquecido
n'esse dia as desillusões da vida, todos os
rancores litterarios, estava n'uma veia excellente; e
foram historias dos velhos tempos de Cintra,
recordações
da sua famosa ida a Paris, cousas picantes de
mulheres, bocados da chronica intima da
Regeneração...
Tudo isto com estridencias de voz, e
filhos
isto! e
rapazes
aquillo! e gestos que faziam oscillar
as chammas das vellas, e grandes copos de Collares emborcados
de um trago. Do outro lado da meza, os
dois inglezes, correctos nos seus fraques negros, de
cravos brancos na botoeira, pasmavam, com um ar
embaraçado a que se misturava desdem, para esta
desordenada exhuberancia de meridional.
A apparição do bacalhau foi um triumpho:—e a
satisfação
do poeta tão grande, que desejou mesmo, caramba,
rapazes, que ali estivesse o Ega!
—Sempre queria que elle provasse este bacalhau!
Já que me não aprecia os versos, havia de me
apreciar
o cozinhado, que isto é um bacalhau de artista
em toda a parte!... N'outro dia fil-o lá em casa dos
meus Cohens; e a Rachel, coitadinha, veiu para mim
e abraçou-me... Isto, filhos, a poesia e a cozinha
são
irmãs! Vejam vocês Alexandre Dumas...
Dirão vocês
que o pae Dumas não é um poeta... E
então d'Artagnan? D'Artagnan é um poema...
É a faisca
é
a phantasia, é a inspiração,
é o sonho, é o arrobo!
Então, pôço, já
vêem vocês, que é poeta!... Pois
vocês
hão-de vir um dia d'estes jantar commigo, e ha-de
vir o Ega, e hei-de-vos arranjar umas perdizes á hespanhola,
que vos hão-de nascer castanholas nos dedos!...
Eu, palavra, gosto do Ega! Lá essas cousas
de realismo e romantismo, historias... Um lyrio é
tão natural como um persevejo... Uns preferem
fedôr
de sargeta; perfeitamente, destape-se o cano publico...
Eu prefiro pós de marechala n'um seio branco;
a mim o seio, e, lá vae á vossa. O que se quer,
é coração. E o Ega tem-n'o. E tem
faisca, tem rasgo,
tem estylo... Pois, assim é que elles se querem, e,
lá vae á saude do Ega!
Pousou o copo, passou a mão pelos bigodes, e rosnou
mais baixo:
—E, se aquelles inglezes continuam a embasbacar
para mim, vae-lhes um copo na cara, e é aqui um
vendaval, que ha-de a Gran-Bretanha ficar sabendo
o que é um poeta portuguez!...
Mas não houve vendaval, a Gran-Bretanha ficou
sem saber o que é um poeta portuguez, e o jantar
terminou n'um café tranquillo. Eram nove horas, fazia
luar, quando Carlos subiu para a almofada do
break.
Alencar, embuçado n'um capote, um verdadeiro capote
de padre de aldêa, levava na mão um ramo de
rosas: e agora, guardara o seu panamá na
maleta,
trazia um bonet de lontra. O maestro, pesado do jantar,
com um começo de
spleen,
encolheu-se a um canto
do break, mudo, enterrado na gola do paletot, com a
manta da mamã sobre os joelhos. Partiram. Cintra
ficava dormindo ao luar.
Algum tempo o break rodou em silencio, na belleza
da noite. A espaços, a estrada apparecia banhada
d'uma claridade quente que faiscava. Fachadas de
casas, caladas e pallidas, surgiam, d'entre as arvores
com um ar de melancolia romantica. Murmurios
de agoas perdiam-se na sombra; e, junto dos muros
enramados, o ar estava cheio d'aroma. Alencar accendera
o cachimbo, e olhava a lua.
Mas, quando passaram as casas de S. Pedro, e entraram
na estrada, silenciosa e triste, Cruges mexeu-se,
tossiu, olhou tambem para a lua, e murmurou
d'entre os seus agasalhos:
—Oh Alencar, recita para ahi alguma cousa...
O poeta condescendeu logo—apesar de um dos
criados ir ali ao lado d'elles, dentro do break. Mas,
que havia elle de recitar, sob o encanto da noite
clara? Todo o verso parece frouxo, escutado diante
da lua! Emfim, ía dizer-lhe uma historia bem verdadeira
e bem triste... Veiu sentar-se ao pé do Cruges,
dentro do seu grande capotão, esvaziou os restos
do cachimbo, e, depois de acariciar algum tempo os
bigodes, começou, n'um tom familiar e simples:
Era o jardim d'uma vivenda antiga,
Sem arrebiques d'arte ou flôres de luxo;
Ruas singellas d'alfazema e buxo,
Cravos, roseiras...
—Com mil raios! exclamou de repente o Cruges,
saltando de dentro da manta, com um berro que
emmudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada,
assustou o trintanario.
O break parára, todos o olhavam suspensos; e, no
vasto silencio da charneca, sob a paz do luar, Cruges,
succumbido, exclamou:
—Esqueceram-me as queijadas!
IX
O dia famoso da soirée dos Cohens, ao fim d'essa
semana tão luminosa e tão doce, amanheceu
enevoado
e triste. Carlos, abrindo cedo a janella sobre
o jardim, vira um céu baixo que pesava como se
fosse feito de algodão em rama enxovalhado: o arvoredo
tinha um tom arripiado e humido; ao longe
o rio estava turvo, e no ar molle errava um halito
morno de sudoeste. Decidira não sahir—e desde as
nove horas, sentado á banca, embrulhado no seu
vasto robe-de-chambre de velludo azul, que lhe
dava o bello ar de um principe artista da Renascença,
tentava trabalhar: mas, apesar de duas chavenas de
café, de cigarettes sem fim, o cerebro, como o
céu
fóra, conservava-se-lhe n'essa manhã afogado em
nevoas.
Tinha d'estes dias terriveis; julgava-se então
«uma besta»; e a quantidade de folhas de papel,
dilaceradas,
amarfanhadas, que lhe juncavam o tapete
aos pés, davam-lhe a sensação de ser
todo elle uma
ruina.
Foi realmente um allivio, uma tregoa n'aquella lucta
com as idéas rebeldes, quando Baptista annunciou
Villaça, que lhe vinha fallar de uma venda de montados
no Alemtejo, pertencentes á sua legitima.
—Negociosinho, disse o administrador, pousando
o chapéo a um canto da mesa e dentro um rolo de
papeis, que lhe mette na algibeira para cima de dois
contos de réis... E não é mau
presente, logo assim
pela manhã...
Carlos espreguiçou-se, crusando fortemente as
mãos
por trás da cabeça:
—Pois olhe, Villaça, preciso bem de dous contos
de réis, mas preferia que me trouxesse ahi alguma
lucidez de espirito... Estou hoje d'uma estupidez!
Villaça considerou-o um momento, com malicia.
—Quer v. ex.
a dizer que antes queria escrever
uma bonita pagina do que receber assim perto de
quinhentas libras? São gostos, meu senhor, são
gostos...
Elle é bom sahir-se a gente um Herculano ou
um Garrett, mas dous contos de réis, são dous
contos
de réis... Olhe que sempre valem um folhetim.
Emfim, o negocio é este.
Explicou-lh'o, sem se sentar, apressado, emquanto
Carlos, de braços cruzados, considerava quanto era
medonho o alfinete de peito que Villaça trazia (um
macacão de coral comendo uma pera de ouro) e distinguia
vagamente, atravez da sua neblina mental, que
se tratava de um visconde de Torral e de porcos...
Quando Villaça lhe apresentou os papeis, assignou-os
com um ar moribundo.
—Então não fica para almoçar,
Villaça? disse
elle, vendo o procurador metter o seu rolo de papeis
debaixo do braço.
—Muito agradecido a v. ex.
a Tenho de me
encontrar
com o nosso amigo Eusebio... Vamos ao ministerio
do reino, elle tem lá uma pertenção...
Quer
a commenda da Conceição... Mas este governo
está
desgostoso com elle.
—Ah, murmurou Carlos com respeito e atravez
d'um bocejo, o governo não está contente com o
Eusebiosinho?
—Não se portou bem nas eleições.
Ainda ha dias,
o ministro do reino me dizia, em confidencia: «O Eusebio
é rapaz de merecimento, mas atravessado...»
V. ex.
a n'outro dia, disse-me o Cruges,
encontrou-o
em Cintra.
—Sim, lá estava a fazer jus á commenda da
Conceição.
Quando Villaça saiu Carlos retomou lentamente a
penna, e ficou um momento, com os olhos na pagina
meio-escripta, coçando a barba, desanimado e esteril.
Mas quasi em seguida appareçeu Affonso da Maia,
ainda de chapéo, á volta do seu passeio matinal
no
bairro, e com uma carta na mão, que era para Carlos,
e que elle achara no escriptorio misturada ao seu correio.
Além d'isso, esperava encontrar ali o Villaça.
—Esteve ahi, mas deitou a correr, para ir arranjar
uma commenda para o Eusebiosinho—disse Carlos,
abrindo a carta.
E teve uma surpreza, vendo no papel—que cheirava
a verbena como a condessa de Gouvarinho—um
convite do conde para jantar no sabbado seguinte,
feito em termos de sympathia tão escolhidos que eram
quasi poeticos; tinha mesmo uma phrase sobre a amisade,
fallava dos
atomos em gancho de
Descartes. Carlos
desatou a rir, contou ao avô que era um par do
reino que o convidava a jantar, citando Descartes...
—São capazes de tudo, murmurou o velho.
E dando um olhar risonho, aos manuscriptos espalhados
sobre a banca:
—Então, aqui, trabalha-se, hein?
Carlos encolheu os hombros:
—Se é que se póde chamar a isto trabalhar...
Olhe ahi para o chão. Veja esses destroços... Em
quanto se trata de tomar notas, colligir documentos,
reunir materiaes, bem, lá vou indo. Mas quando se
trata de pôr as idéas, a
observação, n'uma fórma de
gosto e de symetria, dar-lhe côr, dar-lhe relevo,
então...
Então foi-se!
—Preoccupação peninsular, filho, disse Affonso
sentando-se ao pé da mesa, com o seu chapéo
desabado
na mão. Desembaraça-te d'ella. É o que
eu dizia
n'outro dia ao Craft, e elle concordava... O portuguez
nunca póde ser homem de idéas, por causa da
paixão da fórma. A sua mania é fazer
bellas phrases
vêr-lhes o brilho, sentir-lhes a musica. Se fôr
necessario
falsear a idéa, deixal-a incompleta, exageral-a,
para a phrase ganhar em belleza, o desgraçado não
hesita... Vá-se pela agoa abaixo o pensamento, mas
salve-se a bella phrase.
—Questão de temperamento, disse Carlos. Ha sêres
inferiores, para quem a sonoridade de um adjectivo
é mais importante que a exactidão de um
systema...
Eu sou d'esses monstros.
—Diabo! então és um rhetorico...
—Quem o não é? E resta saber por fim se o estylo
não é uma disciplina do pensamento. Em verso,
o avô sabe, é muitas vezes a necessidade de uma
rima que produz a originalidade de uma imagem...
E quantas vezes o esforço para completar bem a cadencia
de uma phrase, não poderá trazer desenvolvimentos
novos e inesperados de uma idéa... Viva
a bella phrase!
—O sr. Ega annunciou o Baptista, erguendo o reposteiro,
quando começava justamente a tocar a sineta
do almoço.
—Fallae na phrase...—disse Affonso, rindo.
—Hein? Que phrase? O que?..—exclamou Ega,
que rompeu pelo quarto, com o ar estonteado, a barba
por fazer, a gola do paletot levantada. Oh! por aqui
a esta hora sr. Affonso da Maia! Como está v. ex.
a?
Dize-me cá, Carlos, tu é que me podes tirar d'uma
atrapalhação... Tu terás por acaso uma
espada que
me sirva?
E, como Carlos o olhava assombrado, acrescentou,
já impaciente:
—Sim, homem, uma espada! Não é para me batter,
estou em paz com toda a humanidade... É para
esta noute, para o fato de mascara.
O Mattos, aquelle animal, só na vespera lhe dera
o costume para o baile: e, qual é o seu horror, ao
vêr que lhe arranjara, em logar de uma espada artistica,
um sabre da guarda municipal! Tivera vontade
de lh'o passar atravez das entranhas. Correu ao
tio Abrahão, que só tinha espadins de
côrte, reles e
pelintras como a propria côrte! Lembrara-se do Craft
e da sua collecção; vinha de lá; mas
ahi eram uns
espadões de ferro, catanas pesando arrobas, as durindanas
tremendas dos brutos que conquistaram a
India... Nada que lhe servisse. Fôra então que lhe
tinham vindo á idéa as panoplias antigas do
Ramalhete.
—Tu é que deves ter... Eu preciso uma espada
longa e fina, com os copos em concha, d'aço rendilhado,
forrados de velludo escarlate. E sem cruz,
sobretudo sem cruz!
Affonso, tomando logo um interesse paternal por
aquella difficuldade do John, lembrou que havia no
corredor, em cima, umas espadas hespanholas...
—Em cima, no corredor? exclamou Ega, já com
a mão no reposteiro.
Inutil precipitar-se, o bom John não as poderia encontrar.
Não estavam á vista, arranjadas em panoplia,
conservavam-se ainda nos caixões em que tinham
vindo de Bemfica.
—Eu lá vou, homem fatal, eu lá vou, disse
Carlos,
erguendo-se com resignação. Mas olha que
ellas
não têem bainhas.
Ega ficou succumbido. E foi ainda Affonso que achou
uma idéa, o salvou.
—Manda fazer uma simples bainha de velludo negro;
isso faz-se n'uma hora. E manda-lhe cozer ao
comprido rodellas de velludo escarlate...
—Explendido, gritou Ega: o que é ter gosto!
E apenas Carlos sahiu, trovejou contra o Mattos.
—Veja v. ex.
a isto, um sabre da guarda
municipal!
E é quem faz ahi os fatos para todos os theatros!
Que idiota!.. E é tudo assim, isto é um paiz
insensato!...
—Meu bom Ega, tu não queres tornar de certo
Portugal inteiro, o Estado, sete milhões d'almas,
responsaveis
por esse comportamento do Mattos?
—Sim senhor, exclamava o Ega passeiando pelo
gabinete, com as mãos enterradas nos bolsos do paletot;
sim senhor, tudo isso se prende. O
costumier
com um fato do seculo XIV manda um sabre da guarda
municipal; por seu lado o ministro, a proposito de
impostos, cita as
Meditações de
Lamartine; e o litterato,
essa besta suprema...
Mas calou-se, vendo a espada que Carlos trazia
na mão, uma folha do seculo XVI, de grande tempera,
fina e vibrante, com copos trabalhado como uma
renda—e tendo gravado no aço o nome illustre do
espadeiro, Francisco Ruy de Toledo.
Embrulhou-a logo n'um jornal, recusou á pressa o
almoço, que lhe offereciam, deu dous vivos
shake-hands,
atirou o chapéu
para a nuca, ia abalar, quando
a voz de Affonso o deteve:
—Ouve la, John, dizia o velho alegremente, isso é
uma espada cá da casa, que nunca brilhou sem gloria,
creio eu... Vê como te serves d'ella!
Ao pé do resposteiro, Ega voltou-se, exclamou,
apertando contra o peito do paletot o ferro, enrolado,
no
Jornal do Commercio:
—Não a sacarei sem justiça, nem a embainharei
sem honra.
Au revoir!
—Que vida, que mocidade! murmurou Affonso.
Muito feliz é este John!... Pois vae-te arranjando filho,
que já tocou a primeira vez para o almoço.
Carlos ainda se demorou um instante a reler, com
um sorriso, a apparatosa carta do Gouvarinho; e ia
emfim chamar o Baptista para se vestir, quando em
baixo, á entrada particular, o timbre electrico
começou
a vibrar violentamente. Um passo ancioso ressoou
na ante-camara, o Damaso appareceu esbaforido,
d'olho esgazeado, com a face em braza. E, sem
dar tempo a que Carlos exprimisse a surpreza de o
ver emfim no Ramalhete, exclamou, lançando os
braços
ao ar:
—Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que
venhas d'ahi, que me venhas ver um doente... Eu
te explicarei... É aquella gente brazileira. Mas pelo
amor de Deus, vem depressa, menino!
Carlos erguera-se, pallido:
—É ella?
—Não, é a pequena, esteve a morrer... Mas
veste-te,
Carlinhos, veste-te, que a responsabilidade é
minha!
—É um bébé, não
é?
—Qual bébé!... É uma pequena
crescida, de seis
annos... Anda d'ahi!
Carlos, já em mangas de camisa, estendia o pé ao
Baptista, que, com um joelho em terra, apressado tambem,
quasi fez saltar os botões da bota. E Damaso,
de chapéu na cabeça, agitava-se, exagerando a sua
impaciencia, a estalar de importancia.
—Sempre a gente se vê em coisas!.. Olha que
responsabilidade a minha! Vou visital-os, como costumo
ás vezes, de manhã... E vae, tinham partido
para Queluz.
Carlos voltou-se, com a sobrecasaca meia vestida:
—Mas então?..
—Escuta, homem! Foram para Queluz, mas a pequena
ficou com a governanta... Depois do almoço
deu-lhe uma dôr. A governante queria um medico inglez,
porque não falla senão inglez... Do hotel foram
procurar o Smith, que não appareceu... E a pequena
a morrer!... Felizmente, cheguei eu, e lembrei-me
logo de ti... Foi sorte encontrar-te, caramba!
E acrescentou, dando um olhar ao jardim:
—Tambem, irem a Queluz com um dia d'estes!
Hão-de-se divertir... Estás prompto, hein? Eu
tenho
lá em baixo o coupé... Deixa as luvas, vaes muito
bem sem luvas!
—O avô que não me espere para almoçar,
gritou
Carlos ao Baptista, já do fundo da escada.
Dentro do coupé, um ramo enorme enchia quasi
o assento.
—Era para ella, disse o Damaso, pondo-o sobre
os joelhos. Pela-se por flores.
Apenas o coupé partiu, Carlos cerrando a vidraça,
fez a pergunta que desde a apparição do Damaso
lhe
faiscava nos labios.
—Mas então tu, que querias quebrar a cara a esse
Castro Gomes?..
O Damaso contou logo tudo, triumphante. Fôra
tudo um equivoco! Ah, as explicações do Castro
Gomes tinham sido d'um gentleman. Senão quebrava-lhe
a cara. Isso não, desconsiderações, a
ninguem!
a ninguem! Mas fôra assim: os bilhetes de visita
que elle lhe deixara conservavam o seu adresse do
Grand Hotel em Paris. E o Castro
Gomes, suppondo
que elle vivia lá, obdecendo
á indicação, mandara
para lá os seus cartões! Curioso, hein? E de
estupído...
E a falta de resposta aos telegrammas fôra
culpa de Madame, descuido, n'aquelle momento de
afflicção, vendo o marido com o braço
escavacado...
Ah, tinham-lhe dado satisfações humildes. E agora
eram intimos, estava lá quasi sempre...
—Emfim, menino, um romance... Mas isso é para
mais tarde!
O coupé parara á porta do Hotel Central. Damaso
saltou, correu ao guarda portão.
—Mandou o telegramma, Antonio?
—Já lá vae...
—Tu comprehendes, dizia elle a Carlos, galgando
as escadas, mandei-lhes logo um telegramma para o
hotel em Queluz. Não estou para ter mais
responsabilidades!...
No corredor, defronte do escriptorio, um criado
passava, com um guardanapo debaixo do braço:
—Como está a menina? gritou-lhe o Damaso.
O criado encolheu os hombros, sem comprehender.
Mas Damaso já trepava o outro lanço de escada,
soprando, gritando:
—Por aqui Carlos, eu conheço isto a palmos! Numero
26!
Abriu com estrondo a porta do numero 26. Uma
criada, que estava á janella, voltou-se.
Ah
bonjour, Melanie! exclamava
Damaso, no seu
extraordinario francez. A
creança estava melhor?
l'enfant
etait meilleur? Ali lhe trazia o doutor,
monsieur
le docteur Maia.
Melanie, uma rapariga magra e sardenta, disse
que Mademoiselle estava mais socegada, e ella ia avisar
miss Sarah, a governanta. Passou o espanador
pelo marmore d'uma console, ageitou os livros sobre
a meza, e sahiu, dardejando a Carlos um olhar vivo
como uma faisca.
A sala era espaçosa, com uma mobilia de réps
azul, e um grande espelho sobre a console dourada,
entre as duas janellas: a meza estava coberta de
jornaes, de caixas de charutos, e de romances de
Cappendu; sobre uma cadeira, ao lado, ficára enrolado
um bordado.
—Esta Melanie, esta desleixada, murmurava o
Damaso, fechando a janella com um esforço sobre o
feixo perro. Deixar assim tudo aberto! Jesus, que
gente!
—Este cavalheiro é bonapartista, disse Carlos
vendo sobre a meza os numeros do
Pays.
—Isso, temos questões terriveis! exclamou o Damaso.
E eu enterro-o sempre... É bom rapaz, mas
tem pouco fundo.
Melanie voltou pedindo a
Monsieur le
Docteur para
entrar um instante no gabinete de toilette. E ahi,
depois de apanhar uma toalha cahida, de dardejar a
Carlos outro olharsinho petulante, disse que Miss
Sarah vinha immediatamente, e retirou-se na ponta
dos sapatos. Fóra, na sala, ergueu-se logo a voz do
Damaso, fallando a Melanie de
sa
responsabilité, et
que il etait très affligé.
Carlos ficou só, na intimidade d'aquelle gabinete
de toilette, que n'essa manhã ainda não
fôra arrumado.
Duas malas, pertencentes de certo a Madame,
enormes, magnificas, com fecharias e cantos de aço
polido, estavam abertas: d'uma trasbordava uma cauda
rica, de seda forte côr de vinho: e na outra era um
delicado alvejar de roupa branca, todo um luxo secreto
e raro de rendas e
baptistes, d'um
brilho de
neve, macio pelo uso e cheirando bem. Sobre uma
cadeira alastrava-se um monte de meias de seda, de
todos os tons, unidas, bordadas, abertas em renda
e tão leves, que uma aragem as faria voar; e, no
chão corria uma fila de sapatinhos de verniz, todos
do mesmo estylo, longos, com o tacão baixo e grandes
fitas de laçar. A um canto estava um cesto acolchoado
de seda côr de rosa, onde de certo viajara a
cadellinha.
Mas o olhar de Carlos prendia-se sobre tudo a um
sophá onde ficará estendido, com as duas mangas
abertas, á maneira de dous braços que se
offerecem,
o casaco branco de velludo lavrado de Genova com
que elle a vira, a primeira vez, apear-se á porta do
hotel. O forro, de setim branco, não tinha o menor
acolxoado, tão perfeito devia ser o corpo que vestia:
e assim, deitado sobre o sophá, n'essa attitude viva,
n'um desabotoado de semi-nudez, adiantando em vago
relevo o cheio de dois seios, com os braços alargando-se,
dando-se todos, aquelle estofo parecia exhalar
um calor humano, e punha ali a fórma d'um corpo
amoroso, desfallecendo n'um silencio d'alcova. Carlos
sentiu bater o coração. Um perfume indefinido e
forte
de jasmim, de marechala, de tanglewood, elevava-se
de todas aquellas cousas intimas, passava-lhe pela
face com um bafo suave de caricia...
Então desviou os olhos, approximou-se da janella,
que tinha por perspectiva a fachada enxovalhada do
hotel
Shneid. Quando se voltou, miss
Sarah estava
diante d'elle, vestida de preto e muito córada: era
uma pessoa sympathica, redondinha e pequena, com
um ar de rola farta, os olhos sentimentaes, e uma
testa de virgem sob bandós lisos e louros. Balbuciava
umas palavras em francez, em que Carlos só
percebeu
docteur.
—
Yes, I am the doctor, disse elle.
A face da boa ingleza illuminou-se. Oh! era tão
bom, ter emfim com quem se entender! A menina
estava muito melhor! Oh, o doutor vinha livral-a
d'uma responsabilidade!...
Abriu o reposteiro, fêl-o penetrar n'um quarto com
as janellas todas cerradas, onde elle apenas distinguiu
a fórma d'um grande leito e o brilho de cristaes
n'um toucador. Perguntou para que eram aquellas
trevas?
Miss Sarah pensara que a escuridão faria bem à
menina, e a adormeceria. E trouxera-a ali para o
quarto da mamã, por ser mais largo e mais arejado.
Carlos fez abrir as janellas: e, quando a grande luz
entrou, ao avistar a pequena no leito, sob os cortinados
abertos, não conteve a sua admiração.
—Que linda creança!
E ficou um instante a contemplal-a, n'um enlevo
d'artista, pensando que os brancos mais mimosos,
mais ricos, sob a mais sabia combinação de luz,
não
egualariam a pallidez eburnea d'aquella pelle maravilhosa:
e esta adoravel brancura era ainda realçada
por um cabello negro, tenebroso, forte, que
reluzia sob a rede. Os seus por dois olhos grandes,
d'um azul profundo e liquido, pareciam n'esse instante
maiores, muito serios, e muito abertos para elle.
Estava encostada a um grande travesseiro, toda
quieta, com o susto ainda da dôr, perdida n'aquelle
vasto leito, e apertando nos braços uma enorme boneca
paramentada, de pello riçado, d'olhos tambem
azues e arregalados tambem.
Carlos tomou-lhe a mãosinha e beijou-lh'a,—perguntando
se a boneca tambem estava doente.
—Cri-cri tambem teve dôr, respondeu ella muito
séria, sem tirar d'elle os seus magnificos olhos. Eu
já não tenho...
Estava com effeito fresca como uma flor, com a lingoasinha
muito rosada, e a sua vontade já de lunchar.
Carlos tranquillisou miss Sarah. Oh, ella via bem
que mademoiselle estava boa. O que a assustara fôra
achar-se ali só, sem a mamã, com aquella
responsabilidade.
Por isso a tinha deitado... Oh se fosse uma
creança ingleza saía com ella para o ar... Mas
estas
meninas estrangeiras, tão debeis, tão
delicadas...
E o labiosinho gordo da ingleza trahia um desdem
compassivo por estas raças inferiores e deterioradas.
—Mas a mamã não é doente?
Oh, não! Madame era muito forte. O senhor, esse
sim, parecia mais fraco...
—E, como se chama a minha querida amiga? perguntou
Carlos, sentado à cabeceira do leito.
—Esta é Cri-cri, disse a pequena, apresentando
outra vez a boneca. Eu chamo-me Rosa, mas o papá
diz que eu que sou Rosicler.
—Rosicler? realmente? disse Carlos sorrindo d'aquelle
nome de livro de cavallaria, rescendente a
torneios, e a bosques de fadas.
Então, como colhendo simplesmente
informações de
medico, perguntou a miss Sarah se a menina sentira
a mudança de clima. Habitavam ordinariamente Paris,
não é verdade?
Sim, viviam em Paris no inverno, no parque Monceaux;
de verão iam para uma quinta da Touraine
ao pé mesmo de Tours, onde ficavam até ao
começo
da caça; e iam sempre passar um mez a Dieppe. Pelo
menos fora assim, nos ultimos tres annos, desde que
ella estava com Madame.
Emquanto a ingleza fallava, Rosa, com a sua boneca
nos braços, não cessava de olhar Carlos
gravemente
e como maravilhada. Elle, de vez em quando
sorria-lhe, ou acariciava-lhe a mãosinha. Os olhos da
mãe eram negros: os do pae d'azeviche e pequeninos:
de quem herdara ella aquellas maravilhosas pupillas
d'um azul tão rico, liquido e doce.
Mas a sua visita de medico findara, ergueu-se para
receitar um calmante. Emquanto a ingleza preparava
muito cuidadosamente o papel, e experimentava a
pena, elle examinou um momento o quarto. N'aquella
installação banal d'hotel, certos retoques d'uma
elegancia
delicada revelavam a mulher de gosto e de luxo:
sobre a commoda e sobre a meza havia grandes ramos
de flores: os travesseiros e os lençoes não eram
do
hotel, mas proprios, de bretanha fina, com rendas
e largos monogrammas bordados a duas côres. Na
poltrona que ella usava uma cachemira de Tarnah
disfarçava o medonho reps desbotado.
Depois, ao escrever a receita, Carlos notou ainda
sobre a meza alguns livros de encadernações
ricas,
romances e poetas inglezes: mas destoava ali, estranhamente,
uma brochura singular—o
Manual de
interpretação dos sonhos. E ao
lado, em cima do toucador,
entre os marfins das escovas, os cristaes dos
frascos, as tartarugas finas, havia outro objecto estravagante,
uma enorme caixa de pó de arroz, toda
de prata dourada, com uma magnifica safira engastada
na tampa dentro d'um circulo de brilhantes
miudos, uma joia exagerada de cocotte, pondo ali
uma dissonancia audaz de explendor brutal.
Carlos voltou junto do leito, e pediu um beijo a
Rosicler: ella estendeu-lhe logo a boquinha fresca
como um botão de rosa; elle não ousou beijal-a
assim n'aquelle grande leito da mãe, e tocou-lhe apenas
na testa.
—Quando vens tu outra vez? perguntou ella agarrando-o
pela manga do casaco.
—Não é necessario vir outra vez, minha querida.
Tu estás boa, e Cri-cri tambem.
—Mas eu quero o meu lunch... Dize a Sarah
que eu posso tomar o meu lunch... E Cri-cri tambem.
—Sim já podeis ambas petiscar alguma cousa...
Fez as suas recommendações á mestra, e
depois,
apertando a mãosinha da pequena:
—E agora adeus, minha linda Rosicler, uma vez
que és Rosicler...
E não quiz ser menos amavel com a boneca, deu-lhe
tambem um
shake-hands.
Isto pareceu captivar Rosa ainda mais. A ingleza,
ao lado, sorria, com duas covinhas na face.
Não era necessario, lembrou Carlos, conservar a
creança na cama, nem tortural-a com cautellas exageradas...
—Oh, nò, sir!
E se a dôr reapparecesse, ainda que ligeira, mandal-o
logo chamar...
—Oh yes, sir!
E ali deixava o seu bilhete, com a sua adresse.
—Oh thank you, sir!
Ao voltar á sala, o Damaso saltou do sophá, onde
percorria um jornal, como uma féra a quem se abre
a jaula.
—Credo, imaginei que ias lá ficar toda a vida!
Que estivestes tu a fazer? Irra, que estopada!
Carlos, calçando as luvas, sorria, sem responder.
—Então, é cousa de cuidado?
—Não tem nada. Tem uns lindos olhos... E um
nome extraordinario.
—Ah, Rosicler, murmurou Damaso, agarrando o
chapéo com mau modo; muito ridiculo, não
é verdade?
A creada franceza appareceu outra vez a abrir a
porta da sala,—dardejando para Carlos o mesmo
olhar quente e vivo. Damaso recommendou-lhe muito
que dissesse aos senhores, que elle tinha vindo logo
com o medico; e que havia de voltar á noite para
lhes fazer uma surpreza, e para saber se tinham gostado
de Queluz—
si ils avaient aimè
Queluz.
Depois, ao passar diante do escriptorio, metteu a
cabeça, para dizer ao guarda-livros, que a menina
estava boa, tudo ficava em socego.
O guarda livros sorrio, e cortejou.
—Queres que te vá levar a casa? perguntou elle
a Carlos, em baixo, abrindo a porta do coupé, ainda
com um resto de mau humor.
Carlos preferia ir a pé.
—E acompanha-me tu um bocado, Damaso, tu agora
não tens que fazer.
Damaso hesitou, olhando o céu aspero, as nuvens
pesadas de chuva. Mas Carlos tomara-lhe o braço,
arrastava-o, amavel e gracejando.
—Agora que te tenho aqui, velhaco, homem fatal,
quero o
romance... Tu disseste que
tinhas um
romance. Não te largo.
És meu. Venha o
romance.
Eu sei que os tens sempre bons. Quero o
romance!
Pouco a pouco Damaso sorria, as bochechas esbrazeavam-se-lhe
de satisfação.
—Vae-se fazendo pela vida, disse elle a estoirar
de jactancia.
—Vocês estiveram em Cintra?...
—Estivemos, mas isso não foi divertido... O romance
é outro!
Desprendeu-se do braço de Carlos, fez um signal
ao cocheiro para que os seguisse, e regalou-se pelo
Aterro fóra de contar o seu
romance.
—A coisa é esta... O marido d'aqui a dias vai
para o Brazil, tem lá negocios. E ella fica! Fica com
as criadas e com a pequena, á espera, dois ou tres
mezes. Diz que já andaram até a vêr
casas mobiladas,
que ella não quer estar no hotel... E eu, intimo,
a unica pessoa que ella conhece, mettido de dentro...
Hein, percebes agora?
—Perfeitamente, disse Carlos, arrojando para longe
o charuto, com um gesto nervoso. E de certo, a pobre
creatura já está fascinada! Já lhe
déste, como
costumas, um beijo ardente entre duas portas! Já a
desgraçada se surtiu da caixa de phosphoros, para
mais tarde quando a abandonares!
Damaso enfiava.
—Não venhas já tu com o espirito e com a
chufasinha...
Não lhe dei beijos que ainda não houve
occasião... Mas, o que te posso dizer, é que
tenho
mulher!
—Pois já era tempo, exclamou Carlos, sem conter
um gesto brusco, e atirando-lhe as palavras
como chicotadas. Já era tempo! Andavas ahi mettido
com umas creaturas ignobeis, uma ralé de lupanar.
Emfim, agora ha progresso. E eu gosto que os meus
amigos vivam n'uma ordem de sentimentos decentes...
Mas vê lá... Não sejas o costumado
Damaso! Não te
vás pôr a alardear isso pelo Gremio e pela casa
Havaneza!
D'esta vez Damaso estacou, suffocado, sem comprehender
aquelle modo, semelhante azedume. E terminou
por balbuciar, livido:
—Tu podes entender muito de medicina e de
bric-a-brac, mas lá a respeito de mulheres, e da maneira
de fazer as cousas, não me dás
licções...
Carlos olhou-o, com um desejo brutal de o espancar.
E de repente, sentio-o tão innofensivo, tão
insignificante,
com o seu ar bochechudo, e molle, que se
envergonhou do surdo despeito que o atravessara,
tomou-lhe o braço, teve duas palavras amaveis.
—Damaso, tu não me comprehendeste. Eu não
te quiz fazer zangar... É para teu bem... O que
eu receava é que tu, imprudente, arrebatado, apaixonado,
fosses perder essa bella aventura por uma
indiscrição...
E o outro ficou logo contente, sorrindo já, abandonando-se
ao braço do seu amigo, certo que o desejo
do Maia era que elle tivesse uma amante
chic. Não,
elle não se tinha zangado, nunca se zangava com os
intimos... Comprehendia bem que o que Carlos dizia
era por amisade...
—Mas tu, ás vezes, tens essa cousa que te pegou
o Ega, gostas do teu bocadinho de espirito...
E então tranquillisou-o. Não, por imprudencia
não
havia elle de «perder a cousa». Aquillo ia com
todas
as regras. Lá n'isso sobrava-lhe experiencia. A Melanie
já a tinha na mão; já lhe dera duas
libras.
—Isto de mais a mais é uma cousa muito seria...
Ella conhece meu tio, é intima d'elle desde pequena,
tratam-se até por
tu...
—Que tio?
—Meu tio Joaquim... Meu tio Joaquim Guimarães.
Mr. de Guimaran, o que vive em Paris, o amigo
de Gambetta...
—Ah sim, o communista...
—Qual communista, até tem carruagem!
Subitamente lembrou-lhe outra cousa, um ponto
de toilette em que queria consultar Carlos.
—Ámanhã vou jantar com elles, e vão
tambem
dois brazileiros, amigos d'elle, que chegaram ahi ha
dias, e que partem pelo mesmo paquete... Um é
chic, é da
Legação do Brazil em Londres. De maneira
que é jantar de ceremonia. O Castro Gomes
não me disse nada; mas que te parece, achas que
vá de casaca?...
—Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapella.
O Damaso olhou-o, pensativo.
—A mim tinha-me lembrado o habito de Christo.
—O habito de Christo... Sim, põe o habito de
Christo ao pescoço, e põe a rosa na botoeira.
—Será talvez de mais, Carlos!
—Não, fica bem ao teu typo.
Damaso fizera parar o coupé que os tinha seguido
a passo. E no ultimo aperto de mão a Carlos:
—Tu sempre vaes á noite, aos Cohens, de dominó?
O meu fato de selvagem ficou divino. Eu venho
mostral-o á noite á brazileira... Entro no Hotel
embrulhado n'um capote, e appareço-lhes de repente
na sala, de selvagem, de Nelusko, a cantar: