X
Tres semanas depois, por uma tarde quente, com
um ceu triste de trovoada, e no momento em que
estavam cahindo algumas gotas grossas de chuva,—Carlos
apeava-se d'um coupé de praça, que viera
parar, de vagar, á esquina da Patriarchal, com os
stores verdes mysteriosamente corridos. Dous sujeitos
que passavam sorriram-se, como se o vissem escoar-se
desgeitosamente d'uma portinha suspeita. E
com effeito a velha traquitana de rodas amarellas acabava
de ser uma alcova d'amor, perfumada de verbena,
durante as duas horas que Carlos rolara dentro
d'ella, pela estrada de Queluz, com a sr.
a
condessa
de Gouvarinho.
A condessa tinha descido no largo das Amoreiras.
E Carlos aproveitara a solidão da Patriarchal para se
desembaraçar do calhambeque d'assento duro, onde
durante a ultima hora suffocára, sem ousar descer
as vidraças, com as pernas adormecidas, enfastiado
de tantas sedas amarrotadas e dos beijos interminaveis
que ella lhe dava na barba...
Até ahi, durante essas tres semanas, tinham-se encontrado
n'uma casa da rua de Santa Izabel, pertencente
a uma tia da condessa que fôra para o Porto
com a criada, deixando-lhe a chave da casa e o cuidado
do gato. A boa titi, uma velha pequenina, chamada
miss Jones, era uma santa, uma apostola militante
da Egreja Anglicana, missionaria da Obra da
Propaganda; e todos os mezes fazia assim uma viagem
de cathechisação á provincia,
distribuindo Biblias,
arrancando almas á treva catholica, purificando (como
ella dizia) o tremedal papista... Já na escada
havia
um cheirinho adocicado e triste a devoção e a
virgem
velha: e no patamar pendia um largo cartão, com
um distico em letras de ouro entrelaçadas de lyrios
roxos, rogando aos que entravam que preserverassem
nas vias do Senhor! Carlos entrou, tropeçando
logo n'um montão de Biblias. O quarto todo era um
ninho de Biblias; havia-as ás pilhas por cima dos
moveis, transbordando de velhas chapelleiras, misturadas
a pares de galochas, cahidas para o fundo da
bacia d'assento, todas do mesmo formato, entaladas
n'uma encadernação negra como n'uma armadura de
combate, carrancudas e aggressivas! As paredes resplandeciam,
forradas de cartonagens impressas em
lettras de côr, irradiando versiculos duros da Biblia,
asperos conselhos de moral, gritos dos psalmos, ameaças
insolentes do inferno... E no meio d'esta religiosidade
anglicana, á cabeceira d'um leitosinho de
ferro, rigido e virginal, duas garrafas quasi vasias
de cognac e de gin, Carlos bebeu o gin da santa; e
o leito rigido ficou revolto como um campo de batalha.
Depois a condessa começou a ter medo d'uma visinha,
uma Borges, que visitava a titi, e era viuva de
um antigo procurador dos Gouvarinhos. Uma occasião
em que, no casto leito de miss Jones, elles fumavam
languidamente cigarrilhas, tres enormes argoladas á
porta atroaram a casa. A pobre condessa quasi desmaiou;
Carlos, correndo á janella, viu um homem
que se affastava, com uma estatueta de gesso na mão,
outras dentro d'um cesto. Mas a condessa jurava que
fôra a Borges quem mandára o italiano das imagens
atirar-lhes para dentro aquellas aldrabadas, como tres
avisos, tres rebates da Moral... Não quizera voltar
mais ao beatifico cuté da titi. E n'essa tarde, como
não havia ainda outro escondrijo, tinham abrigado os
seus amores dentro d'aquella tipoia de praça.
Mas Carlos vinha de lá enervado, amollecido, sentindo
já na alma os primeiros bocejos da saciedade.
Havia tres semanas apenas que aquelles braços perfumados
de verbena se tinham atirado ao seu pescoço,—e
agora, pelo passeio de S. Pedro d'Alcantara, sob
o ligeiro chuvisco que batia as folhagens da alameda,
elle ía pensando como se poderia desembaraçar da
sua
tenacidade, do seu ardor, do seu peso... É que a condessa
ía-se tornando absurda com aquella
determinação
anciosa e audaz de invadir toda a sua vida,
tomar n'ella o logar mais largo e mais profundo—como
se o primeiro beijo trocado tivesse unido não só
os labios de ambos um momento, mas os seus destinos
tambem e para sempre. N'essa tarde lá tinham
voltado as palavras que ella balbuciava, cahida sobre
o seu peito, com os olhos affogados n'uma ternura
supplicante:
Se tu quizesses! que felizes que
seriamos!
que vida adoravel! ambos sós!... E isto
era claro—a
condessa concebera a idéa extravagante de fugir
com elle, ir viver n'um sonho eterno de amor lyrico,
n'algum canto do mundo, o mais longe possivel da
rua de S. Marçal!
Se tu
quizesses! Não, com mil demonios,
não queria fugir com a sr.
a condessa
de Gouvarinho!...
E não era só isto—mas ainda exigencias,
egoismos,
explosões tumultuosas d'um temperamento cioso: já
mais de uma vez, n'essas duas curtas semanas, por
pieguices, ella despropositára, fallara de morrer, debulhada
em lagrimas... Ah! nas lagrimas havia ainda
uma voluptuosidade, faziam parecer mais tenro o setim
do seu collo! O que o inquietava eram certos clarões
que lhe sulcavam o rosto, um dardejar nervoso
dos olhos seccos, revelando a paixão que se accendera
n'aquelles nervos de mulher de trinta e tres annos,
e a queimava até ás profundidades do seu ser...
Certamente este amor punha na sua vida um luxo
mais, e um perfume. Mas o seu encanto estava em
conservar-se facil, sereno, sem penetrar mais fundo
que a epiderme. Se ella, por qualquer cousa, tinha
os olhos turvos d'agua, e fallava em morrer, e torcia
os braços, e queria fugir com elle—então adeus!
Tudo estava estragado; e a sr.
a condessa com a
sua
verbena, os seus cabellos côr de braza, e o seu pranto,
era apenas um trambolho!
O chuveiro parara, um bocado d'azul lavado appareceu
entre nuvens. E Carlos descia a rua de S. Roque—quando
encontrou o marquez, sahindo d'uma
confeitaria, tristonho, com um embrulho na mão, e o
pescoço abafado n'um enorme cache-nez de seda branca.
—Que é isso? Constipação? perguntou
Carlos.
—Tudo, disse o marquez, pondo-se a caminhar ao
lado d'elle com uma lentidão de moribundo. Deitei-me
tarde. Cançasso. Oppressão no peito. Pigarreira.
Dôres
no lado. Um horror... Levo já aqui rebuçados.
—Não seja piegas, homem! Você o que precisa
é
roast-beef e uma garrafa de Borgonha... Não é
hoje
que você janta lá no Ramalhete?... É,
até tem lá o Craft
e o Damaso... Então descemos por essa rua do Alecrim,
que já não chove, depois pelo Aterro
fóra, a
passo gymnastico, e em chegando lá você
está curado.
O pobre marquez encolheu os hombros. Apenas
sentia o menor encommodo, uma dôr, um arrepio,
considerava-se logo, como elle dizia,
liquidado. O
mundo começava a findar para elle: tomavam-no terrores
catholicos, uma preoccupação angustiosa da
Eternidade. N'esses dias fechava-se no quarto com o
padre capellão—com quem ás vezes, todavia,
terminava
por jogar as damas.
—Em todo o caso, disse elle, tirando cautelosamente
o chapeu ao passar pela porta aberta da egreja
dos Martyres, deixe-me você ir primeiro ao Gremio...
Quero escrever á Manoeleta que não conte
comigo esta noite...
Depois, distrahida e melancolicamente, perguntou
noticias d'esse devasso do Ega. Esse devasso do Ega
lá estava em Celorico, na quinta materna, ouvindo arrotar
o padre Seraphim, e refugiando-se, segundo
dizia, na grande arte: andava a compor uma comedia
em cinco actos, que se devia chamar o
Lodaçal—escripta
para se vingar de Lisboa.
—O peor, murmurou o marquez, depois de um silencio,
e abafando-se mais no cache-nez, é se eu estou
assim no domingo para as corridas!
—O quê! exclamou Carlos, então as corridas
são
já no domingo?
O marquez foi-lhe explicando, em quanto desciam
o Chiado, que as corridas se tinham apressado a pedido
do Clifford, o grande
sportman de
Cordova, que
devia trazer dois cavallos inglezes... Era um bocado
humilhante depender do Clifford. Mas emfim o Clifford
era um
gentleman e com os seus
cavallos de
raça, os seus jockeys inglezes, constituia a unica
feição
séria do Hyppodromo de Belem. Sem o Clifford
aquillo era uma brincadeira de pilecas e
d'
abas...
—Você não conhece o Clifford?.. Bello rapaz! Um
pouco
poseur, mas oiro de lei.
Tinham entrado no pateo do Gremio, o marquez
estendeu o braço a Carlos.
—Veja esse pulso!
—O pulso está excellente... Vá você
dar lá esse
golpe á Manoela, que eu fico aqui á espera.
No domingo pois, d'ahi a cinco dias, eram as corridas...
E
ella estaria lá, elle
ia conhecel-a, emfim! Durante
essas tres ultimas semanas vira-a duas vezes:
uma occasião, estando a conversar com o Taveira á
porta do hotel Central, ella chegara a uma das varandas,
de chapeu, calçando uma grande luva preta;
d'outra vez, havia dias, por uma tarde de chuva, ella
viera parar á porta do Mourão, ao Chiado, n'um
coupé
da Companhia, e ficara esperando emquanto o trintanario
levava dentro á loja um embrulho que tinha
a fórma d'um cofre, apertado com uma fita vermelha.
D'ambas as vezes ella vira-o, demorara os olhos n'elle
um momento: e parecera a Carlos que o ultimo
olhar se prolongara mais, como abandonando-se, humedecendo-se,
n'uma leve doçura, ao pousar no seu...
Era talvez uma illusão; mas isto decidiu-o, na sua
impaciencia,
a realisar a antiga idéa (ainda que desagradavel)
de ser apresentado pelo Damaso ao Castro
Gomes. O pobre Damaso, ao principio, diante d'esta
exigencia, ficou perturbado; e com um ar de cão que
defende o seu osso, lembrou logo a Carlos o deploravel
comportamento do Castro Gomes, que não viera
como lh'o annunciara, havia tres semanas, deixar o
seu cartão ao Ramalhete... Mas Carlos desdenhava
essas formalidades estreitas entre rapazes: o Castro
Gomes parecia-lhe um homem de gosto e de
sport;
nem todos os dias apparecia em Lisboa quem soubesse
dar com correcção o nó da
gravata; e seria
agradavel, mesmo para elle Damaso, reunirem-se todos
de vez em quando, com o Craft, com o marquez,
a fumar um charuto e a fallar de cavallos. Isto
decidiu Damaso, que terminou por propôr a Carlos o
leval-o uma tarde ao hotel Central. Carlos porém
não
queria entrar pelo hotel dentro, de chapeu na mão,
atraz do Damaso. Resolveram então esperar pelas
corridas, onde os Castro Gomes tencionavam ir. «Ahi,
no recinto da pesagem, disse o Damaso, a
apresentação
é mais
chic...
É mesmo pôdre de
chic.»
—Deus queira com effeito que não chova no domingo,
murmurou Carlos quando o marquez desceu,
mais tristonho, mais abafado no seu cache-nez.
Foram seguindo pelo meio da rua, em direcção ao
Ferregial. Adiante do Gremio, encostado ao passeio,
estava um coupé da Companhia, com um trintanario
de luvas brancas esperando junto ao portal. Carlos
olhou, casualmente; e viu, debruçado á
portinhola, um
rosto de creança, d'uma brancura adoravel sorrindo-lhe,
com um bello sorriso que lhe punha duas covinhas
na face. Reconheceu-a logo. Era Rosa, era Rosicler:
e ella não se contentou em sorrír, com o seu
doce olhar azul fugindo todo para elle,—deitou a
mãosinha de fóra, atirou-lhe um grande adeus. No
fundo do coupé, forrado de negro, destacava um perfil
claro d'estatua, um tom ondeado de cabello louro.
Carlos tirou profundamente o chapeu, tão perturbado,
que os seus passos hesitaram.
Ella
abaixou a
cabeça, de leve; alguma cousa de luminoso, um confuso
rubor d'emoção, espalhou-se-lhe no rosto. E
fugitivamente
foi como se, da mãe e da filha, ao mesmo
tempo, viesse para elle uma suave e quente
emanação
de sympathia.
—Caramba, aquillo pertence-lhe? perguntou o
marquez, que notara a impressão de Madame Gomes.
Carlos córou.
—Não, é uma senhora brazileira a quem eu curei
aquella pequerrucha...
—Irra! que gratidão! rosnou o outro de dentro
das dobras do seu cachenez.
Caminhando em silencio pelo Ferregial, Carlos revolvia
uma idéa que lhe viera de repente, ao receber
aquelle doce olhar. Por que é que Damaso não
levaria
uma manhã o Castro Gomes aos Olivaes, a vêr
as collecções do Craft?... Elle estaria
lá, abria-se
uma garrafa de Champagne, discutiam
bric-à-brac.
Depois, muito naturalmente, elle convidava Castro
Gomes a almoçar no Ramalhete, para lhe mostrar o
grande Rubens, e as suas velhas colxas da India. E
assim, já antes das corridas existiria entre elles uma
camaradagem, talvez um tratamento de
você.
No Aterro, temendo o ar do rio, o marquez quiz
tomar uma tipoia; e, até ao Ramalhete, continuaram
callados. O marquez, outra vez inquieto, apalpava a
garganta. Carlos discutia complicadamente comsigo
aquella lenta inclinação de cabeça, o
olhar d'ella, o
vivo rubor fugitivo... Ella até ahi não o
conhecia
talvez. Mas, depois de atirar o seu grande
adeus,
Rosa, ainda sorrindo, voltara-se para a mãe, a dizer-lhe
decerto que aquelle era o medico que a curara,
a ella e á boneca... E então a linda
côr que
lhe enternecera o rosto tomava uma significação
mais
profunda—era como a surpreza feliz, o enleio casto,
ao saber que o homem que ella notára já de algum
modo tinha penetrado na sua intimidade, beijara a
sua filha, se tinha mesmo sentado á beira do seu
leito...
Depois ia refazendo o plano da visita aos Olivaes,
mais largo agora, mais brilhante. Porque não iria ella
tambem vêr as curiosidades do Craft? Que tarde encantadora,
que festa, que lindo idyllio! O Craft arranjava
um
lunch delicado no seu velho
serviço de
Wedgewood. Elle ficava á meza junto d'ella. Depois
iam vêr o jardim já em flôr; ou tomavam
chá no pavilhão
japonez, forrado de esteiras. Mas, o que mais
lhe appetecia era percorrer com ella as duas salas
de Craft, parando ambos diante d'uma bella faiença
ou d'um movel raro, e sentindo, atravez da concordancia
dos seus gostos, subir, como um perfume, a
sympathia dos seus corações... Nunca a vira
tão
formosa como n'essa tarde, dentro do coupé forrado
de escuro, onde brilhava mais puramente a brancura
do seu perfil. Sobre o regaço do vestido negro pousava
o tom claro das suas luvas; e no chapéo frisava-se
a ponta de uma penna cor de neve.
A tipoia parara ao portão do Ramalhete, estavam
agora entre as silenciosas tapessarias da ante-camara.
—Como é que ella conhece os Cruges? perguntou
de repente o marquez, com um tom desconfiado,
desembaraçando-se
do cache-nez.
Carlos olhou para elle, como mal acordado.
—Ella quem? Aquella senhora? Como conhece o
Cruges?... Homem, sim, tem você razão!.. Aquella
era a casa do Cruges! a carruagem estava parada à
porta do Cruges!.. Talvez alguem que móre n'outro
andar.
—Não móra ninguem, disse o marquez, dando um
passo para o corredor. Em todo o caso, é um
mulherão.
Carlos achou a palavra odíosa.
Do corredor ouvia-se já no escriptorio de Affonso,
atravez da porta aberta, a voz petulante do Damaso
fallando alto d'
handicap e de
dead-beat... E foram-n'o
encontrar discursando sobre as corridas, com
convicção,
com auctoridade, como membro do Jockey-Club.
Affonso, na sua velha poltrona, escutava-o, cortez e
risonho, com o reverendo Bonifacio no collo. Ao canto
do sophá, Craft folheava um livro.
E o Damaso appellou logo para o marquez. Não
era verdade, como elle estivera dizendo ao sr. Affonso
da Maia, que iam ser as melhores corridas que se
tinham feito em Lisboa? Só para o grande premio
nacional de seiscentos mil réis havia oito cavallos
inscriptos!
E além d'isso, o Clifford trazia a
Mist.
—Ah, é verdade, oh marquez, é necessario que
você appareça sexta-feira á noite no
Jockey-Club,
para acabarmos o
handicap!
O marquez arrastara uma cadeira para o pé de
Affonso, para lhe fazer a confidencia dos seus achaques;
mas como Damaso se mettia entre elles, fallando ainda
da
Mist, decidindo que a
Mist era chic, querendo apostar
cinco libras pela
Mist contra o
campo—o marquez
terminou por se voltar, enfastiado, dizendo que
o sr. Damazosinho se estava a dar ares patuscos...
Apostar pela
Mist! Todo o patriota
devia apostar
pelos cavallos do visconde de Darque, que era o
unico criador portuguez!...
—Pois não é verdade, sr. Affonso da Maia?
O velho sorrio, amaciando o seu gato.
—O verdadeiro patriotismo talvez, disse elle, seria,
em logar de corridas, fazer uma boa tourada.
Damazo levou as mãos á cabeça. Uma
tourada!
Então o sr. Affonso da Maia preferia touros a corridas
de cavallos? O sr. Affonso da Maia, um inglez!...
—Um simples beirão, sr. Salcede, um simples
beirão,
e que faz gosto n'isso; se habitei a Inglaterra é
que o meu rei, que era então, me pôz
fóra do meu
paiz... Pois é verdade, tenho esse fraco portuguez,
prefiro touros. Cada raça possue o seu
sport proprio,
e o nosso é o toiro: o toiro com muito sol, ar de dia
santo, agua fresca, e foguetes... Mas sabe o sr. Salcede
qual é a vantagem da toirada? É ser uma grande
escola de força, de coragem e de destreza... Em
Portugal não ha instituição que tenha
uma importancia
egual á tourada de curiosos. E acredite uma cousa:
é que se n'esta triste geração moderna
ainda ha em
Lisboa uns rapazes com certo musculo, a espinha direita,
e capazes de dar um bom socco, deve-se isso
ao touro e á tourada de curiosos...
O marquez enthusiasmado bateu as palmas. Aquillo
é que era fallar! Aquillo é que era dar a
philosophia
do toiro! Está claro que a tourada era uma grande
educação phisica! E havia imbecis que fallavam em
acabar com os touros! Oh, estupidos, acabaes então
com a coragem portugueza!...
—Nós não temos os jogos de destresa das outras
nações, exclamava elle, bracejando pela sala e
esquecido
dos seus males. Não temos o
cricket, nem o
foot-ball,
nem o
running, como os inglezes:
não temos a
gymnastica como ella se faz em França; não temos
o
serviço militar obrigatorio que é o que torna o
allemão
solido... Não temos nada capaz de dar a um rapaz
um bocado de fibra. Temos só a tourada... Tirem a
tourada, e não ficam senão badamecos derreados da
espinha, a mellarem-se pelo Chiado! Pois você não
acha, Craft?
Craft, do canto do sophá, onde Carlos se fôra
sentar
e lhe fallava baixo, respondeu, convencido:
—O que, o touro? Está claro! o touro devia ser
n'este paiz como o ensino é lá fóra:
gratuito e obrigatorio.
Damazo no entanto jurava a Affonso compenetradamente
que gostava tambem muito de touros. Ah
lá n'essas cousas de patriotismo ninguem lhe levava
a palma... Mas as corridas tinham outro
chic! Aquelles
Bois de Boulogne, n'um dia de
Grand-Prix, hein!...
Era de embatucar!
—Sabes o que é pena? exclamou elle voltando-se
de repente para Carlos. É que tu não tenhas um
four-in-hand, um
mail coach. Iamos todos d'aqui,
cahia
tudo de chic!
Carlos pensou tambem comsigo que era uma pena
não ter um
four-in-hand.
Mas gracejou, achando mais
em harmonia com o Jockey Club da travessa da
Conceição
irem todos dentro d'um omnibus.
Damazo voltou-se para o velho, deixando cahir os
braços, descorçoado:
—Ahi está, sr. Affonso da Maia! Ahi está por que
em Portugal nunca se faz nada em termos! É por
que ninguem quer concorrer para que as cousas saiam
bem... Assim não é possivel! Eu cá
entendo isto:
que n'um paiz, cada pessoa deve contribuir, quanto
possa, para a civilisação.
—Muito bem, sr. Salcede! disse Affonso da Maia.
Eis ahi uma nobre, uma grande palavra!
—Pois não é verdade? gritou Damazo, triumphante,
a estoirar de goso. Assim eu, por exemplo...
—Tu, o quê? exclamaram dos lados. Que fizeste,
tu pela civilisação?...
—Mandei fazer para o dia das corridas uma sobrecasaca
branca... E vou de véo azul no chapéo!
Um escudeiro entrou com uma carta para Affonso,
n'uma salva. O velho, sorrindo ainda das idéas de Damaso
sobre a civilisação, puxou a luneta, leu as
primeiras
linhas; toda a alegria lhe morreu no rosto, ergueu-se
logo, tendo depositado cuidadosamente sobre
a sua almofada o pesado Bonifacio.
—Isto é que é ter gosto, isto é que
é comprehender
as cousas! exclamava o Damaso, agitando os braços
para Carlos, quando o velho desappareceu atravez
do reposteiro de damasco. Este teu avô, menino,
é podre de chic!..
—Deixa lá o chic do avô... Anda cá,
que te quero
dizer uma cousa.
Abriu uma das janellas do terraço, levou para lá
o Damaso, e disse-lhe ahi, á pressa, o seu plano da
visita aos Olivaes, e a linda tarde que poderiam passar
na quinta com os Castro Gomes... Elle já fallara ao
Craft, que estava de accordo, achava delicioso, ia encher
tudo de flores. E agora só restava que Damaso
amigo, como amabilidade sua, convidasse os Castro
Gomes...
—Caramba! murmurou Damaso desconfiado, estás
com furor de a conhecer!
Mas emfim concordou que era chic a valer! E via
ahi uma bella occasião para elle!... Em quanto Carlos
e Craft andassem mostrando as curiosidades ao
Castro Gomes e lhe fallassem de cavallos, elle, zás,
ia para a quinta passear com ella... A calhar!
—Pois vou ámanhã já fallar-lhes...
Estou convencido
que aceitam logo. Ella pela-se por bric-a-brac!
—E vens dizer-me se acceitaram ou não...
—Venho dizer-te... Tu vaes gostar d'ella; tem
lido muito, entende tambem de litteratura; e olha
que ás vezes a conversar atrapalha...
O marquez veiu chamal-os para dentro, impaciente,
querendo fechar a porta envidraçada, outra vez preoccupado
com a garganta. E desejava antes de jantar
ir ao quarto de Carlos gargarejar com agua e sal...
—E é isto um portuguez forte! exclamou Carlos,
travando-lhe alegremente do braço.
—Eu sou piegas na garganta, replicou logo o marquez,
desprendendo-se d'elle e olhando-o com ferocidade.
E você é-o no sentimento. E o Craft é-o
na
respeitabilidade. E o Damasosinho é-o na tolice. Em
Portugal é tudo Pieguice e Companhia!
Carlos rindo, arrastou-o pelo corredor. E de repente,
ao entrarem na ante-camara, deram com Affonso
fallando a uma mulher, carregada de luto, que
lhe beijava a mão, meia de joelhos, suffocada de lagrimas:
e ao lado outra mulher, com os olhos turvos
d'agua tambem, embalava dentro do chaile uma criancinha
que parecia doente e gemia. Carlos parara embaraçado;
o marquez instinctivamente levou a mão á
algibeira. Mas o velho, assim surprehendido na sua
caridade, foi logo empurrando as duas mulheres para
a escada: ellas desciam, encolhidas, abençoando-o,
n'um murmurio de soluços; e elle voltando-se para
Carlos, quasi se desculpou n'uma voz que ainda tremia:
—Sempre estes peditorios... Caso bem triste
todavia... E o que é peior é que por mais que se
dê
nunca se dá bastante. Mundo muito mal feito, marquez.
—Mundo muito mal feito, sr. Affonso da Maia,
respondeu o marquez commovido.
No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no
seu phaeton de oito molas, levando ao lado Craft que
durante os dois dias de corridas se installara no Ramalhete,
parou ao fim do largo de Belem, no momento
em que para o lado do Hyppodromo estavam já estalando
foguetes. Um dos criados desceu a comprar
o bilhete de pesagem para o Craft, n'uma tosca guarita
de madeira, armada alli de vespera, onde se mexia
um homemsinho de grandes barbas grisalhas.
Era um dia já quente, azul ferrete, com um d'esses
rutilantes soes de festa que enflammam as pedras
da rua, doiram a poeirada baça do ar, poem fulgores
d'espelho pelas vidraças, dão a toda a cidade
essa
branca faiscação de cal, d'um vivo monotono e
implacavel,
que na lentidão das horas de verão
cança a alma,
e vagamente entristece. No largo dos Jeronymos silencioso,
e a escaldar na luz, um omnibus esperava,
desatrelado, junto ao portal da Egreja. Um trabalhador
com o filho ao collo, e a mulher ao lado no
seu chaile de ramagens, andava alli, pasmando para
a estrada, pasmando para o rio, a gosar ociosamente
o seu domingo. Um garoto ia apregoando desconsoladamente
programmas das corridas que ninguem comprava.
A mulher da agua fresca, sem freguezes, sentara-se
com a sua bilha á sombra, a catar um pequeno.
Quatro pesados municipaes a cavallo patrulhavam
a passo aquella solidão. E a distancia, sem cessar, o
estalar alegre de foguetes morria no ar quente.
No entanto o tritanario continuava debruçado na
guarita, sem poder arranjar lá dentro o troco d'uma
libra. Foi necessario Craft saltar da almofada, ir lá
parlamentar—emquanto Carlos, impaciente, raspando
com o chicote as ancas das egoas, luzidias como um
setim castanho, riscava no largo uma volta brusca e
nervosa. Desde o Ramalhete viera assim governando,
irritadamente, sem descerrar os labios. É que toda
aquella semana, desde a tarde em que combinara
com o Damaso a visita aos Olivaes, fôra desconsoladora.
O Damaso tinha desapparecido, sem mandar a resposta
dos Castro Gomes. Elle, por orgulho, não procurara
o Damaso. Os dias tinham passado, vazios;
não se realisara o alegre idyllio dos Olivaes; ainda
não conhecia Madame Gomes; não a tornara a ver;
não a esperava nas corridas. E aquelle domingo de
festa, o grande sol, a gente pelas ruas, vestida de
casimiras e de sedas de missa, enchiam-n'o de melancolia
e de malestar.
Uma caleche de praça passou, com dous sujeitos
de flores ao peito, acabando de calçar as
luvas;
depois
um dog-cart, governado por um homem gordo,
de lunetas pretas, quasi foi esbarrar contra o Arco.
Emfim, Craft voltou com o seu bilhete, tendo sido
descomposto pelo homem de barbas propheticas.
Para além do arco, a poeira suffocava. Pelas janellas
havia senhoras debruçadas, olhando por debaixo
de sombrinhas. Outros municipaes, a cavallo, atravancavam
a rua.
Á entrada para o hyppodromo, abertura escalavrada
n'um muro de quintarola, o phaeton teve de
parar atráz do dog-cart do homem gordo—que não
podia tambem avançar porque a porta estava tomada
pela caleche de praça, onde um dos sujeitos de flor
ao peito berrava furiosamente com um policia. Queria
que se fosse chamar o sr. Savedra! O sr. Savedra,
que era do Jockey-Club, tinha-lhe dito que elle
podia entrar sem pagar a carruagem! Ainda lh'o
disséra na vespera, na botica do Azevedo! Queria que
se fosse chamar o sr. Savedra! O policia bracejava,
enfiado. E o cavalleiro, tirando as luvas, ia abrir a
portinhola, esmurrar o homem—quando, trotando na
sua grande horsa, um municipal de punho alçado correu,
gritou, injuriou o cavalleiro gordo, fez rodar
para óra a caleche. Outro municipal entrometteu-se,
brutalmente.
Duas senhoras, agarrando os vestidos, fugiram
para um portal, espavoridas. E atravez do reboliço,
da poeira, sentia-se adiante, melancolicamente,
um realejo tocando a
Traviata.
O phaeton entrou—atraz do dog-cart, onde o homem
gordo, a estoirar de furia, voltava ainda para
traz a face escarlate, jurando dar parte do municipal:
—Tudo isto está arranjado com decencia, murmurou
Craft.
Diante d'elles, o hyppodromo elevava-se suavemente
em colina, parecendo, depois da poeirada quente da
calçada e das cruas reverberações da
cal, mais fresco,
mais vasto, com a sua relva já um pouco crestada
pelo sol de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando
aqui e além. Uma aragem larga e repousante
chegava vagarosamente do rio.
No centro, como perdido no largo espaço verde,
negrejava, no brilho do sol, um magote apertado de
gente, com algumas carruagens pelo meio, d'onde sobresahiam
tons claros de sombrinhas, o faiscar d'um
vidro de lanterna, ou um casaco branco de cocheiro.
Para além, dos dois lados da tribuna real forrada de
um baetão vermelho de mesa de
Repartição, erguiam-se
as duas tribunas publicas, com o feitio de traves
mal pregadas, como palanques d'arraial. A da esquerda
vasia, por pintar, mostrava á luz as fendas do taboado.
Na da direita, bezuntada por fóra d'azul claro,
havia uma fila de senhoras quasi todas de escuro
encostadas ao rebordo, outras espalhadas pelos primeiros
degraus; e o resto das bancadas permanecia
deserto e desconsolado, d'um tom alvadio de madeira,
que abafava as côres alegres dos raros vestidos de
verão. Por vezes a briza lenta agitava no alto dos dois
mastros o azul das bandeirolas. Um grande silencio
caía do ceu faiscante.
Em volta do recinto da tribuna, fechado por um
tapume de madeira, havia mais soldados de infanteria,
com as bayonetas lampejando ao sol. E no homem
triste que estava á entrada, recebendo os bilhetes,
mettido dentro d'um enorme collete branco, reteso
de gomma, e que lhe chegava até aos joelhos—Carlos
reconheceu o servente do seu laboratorio.
Apenas tinham dado alguns passos encontraram
Taveira á porta do buffete onde se estivera reconfortando
com uma cerveja. Tinha um molho de cravos
amarellos ao peito, polainas brancas,—e queria animar
as corridas. Já vira a
Mist, a egoa de Clifford, e
decidira apostar pela
Mist. Que
cabeça d'animal, meninos,
que finura de pernas!...
—Palavra que me enthusiasmou! E está decidido,
um dia não são dias, é necessario
animar isto! Aposto
trez mil réis. Quer você Craft?
—Pois sim, talvez, depois... Vamos primeiro vêr
o aspecto geral.
No recinto em declive, entre a tribuna e a pista,
havia só homens, a gente do Gremio, das Secretarias
e da Casa Havaneza; a maior parte á vontade, com
jaquetões claros, e de chapéo côco;
outros mais em
estylo, de sobrecasaca e binoculo a tiracollo, pareciam
embaraçados e quasi arrependidos do seu chic. Fallava-se
baixo, com passos lentos pela relva, entre
leves fumaraças de cigarro. Aqui e além um
cavalheiro,
parado, de mãos atraz das costas, pasmava languidamente
para as senhoras. Ao lado de Carlos dois brazileiros
queixavam-se do preço dos bilhetes, achando
aquillo «uma semsaboria de rachar.»
Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada,
guardada por soldados: e junto á corda, do outro
lado, apinhava-se o magote de gente, com as carruagens
pelo meio, sem um rumor, n'uma pasmaceira
tristonha, sob o peso do sol de junho. Um rapazote,
com uma voz dolente, apregoava agua fresca. Lá ao
fundo o largo Tejo faiscava, todo azul, tão azul como
o ceu, n'uma pulverisação fina de luz.
O visconde de Darque, com o seu ar placido de
gentleman louro que começa a engordar, veio apertar
a mão a Carlos e a Craft. E mal elles lhe fallaram
dos seus cavallos (
Rabbino, o
favorito, e o outro
potro) encolheu os hombros, cerrou os olhos, como
um homem que se sacrifica. Então, que diabo, os rapazes
tinham querido!... Mas elle, realmente, não
podia apresentar um cavallo decente, com as suas
côres, senão d'ahi a quatro annos. De resto
não apurava
cavallos para aquella melancolia de Belem, não
imaginassem os amigos que elle era tão patriota: o
seu fim era ir a Hespanha, bater os cavallos de Caldillo...
—Emfim, vamos a vêr... Dê você
cá lume. Isto
está um horror. E depois, que diabo, para corridas
é necessario cocottes e Champagne. Com esta gente
seria, e agua fresca, não vae!
N'esse momento um dos commissarios das corridas,
um rapagão sem barba, vermelho como uma papoula,
a pingar de suor sob o chapéo branco deitado
para a nuca, veio arrebatar o Darque, «que era muito
preciso, lá na pesagem, para uma duvidasinha.»
—Eu sou o diccionario, dizia o Darque, tornando
a encolher os hombros resignadamente. De vez em
quando vem um d'estes senhores do Jockey-Club, e
folheia-me... Veja você, Maia, em que estado eu fico
depois das corridas! Ha-de ser necessario encadernar-me
de novo...
E lá foi, rindo da sua pilheria—empurrado para
diante pelo commissario, que lhe dava palmadas familiares
nas costas, e lhe chamava
catita.
—Vamos nós vêr as mulheres, disse Carlos.
Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruçadas no
rebordo, n'uma fila muda,
olhando vagamente, como d'uma janella em dia de procissão,
estavam ali todas as senhoras
que vêem no high-life dos jornaes, as dos camarotes de S.
Carlos, as das terças-feiras dos
Gouvarinhos. A maior parte tinha vestidos serios de missa. Aqui e
além um d'esses grandes
chapéos emplumados á Gainsborough, que
então se começavam a usar, carregava d'uma
sombra maior o tom trigueiro d'uma carinha miuda. E na luz franca da
tarde, no grande ar da
collina descoberta, as pelles appareciam murchas, gastas, molles, com
um baço de pó de
arroz.
Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira, magrinhas,
loirinhas, ambas correctamente
vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa d'Alvim, nedia e branca,
com o corpete negro
reluzente de vidrilhos, tendo ao lado a sua terna inseparavel, a
Joaninha Villar, cada vez mais
cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos.
Adiante eram as
Pedrosos, as banqueiras, de côres claras, interessando-se
pelas corridas, uma de programma
na mão, a outra de pé e de binoculo estudando a
pista. Ao lado, conversando com Steinbroken,
a condessa de Soutal, desarranjada, com um ar de ter lama nas saias.
N'uma bancada isolada,
em silencio, Villaça com duas damas de preto.
A condessa de Gouvarinho ainda não viera. E não
estava tambem aquella que os olhos de
Carlos procuravam, inquietamente e sem esperança.
—É um canteirinho de camelias meladas, disse o
Taveira, repetindo um dito do Ega.
Carlos, no entanto, fôra fallar á sua velha amiga
D. Maria da Cunha que, havia momentos, o chamava
com o olhar, com o leque, com o seu sorriso
de bôa mamã. Era a unica senhora que ousara descer
do retiro ajanellado da tribuna, e vir sentar-se
em baixo, entre os homens: mas, como ella disse, não
aturara a séca de estar lá em cima perfilada,
á espera
da passagem do Senhor dos Passos. E, bella ainda
sob os seus cabellos já grisalhos, só ella
parecia divertir-se
alli, muito á vontade, com os pés pousados
na travessa d'uma cadeira, o binoculo no regaço,
cumprimentada
a cada instante, tratando os rapazes por
meninos... Tinha comsigo uma parenta
que apresentou
a Carlos, uma senhora hespanhola, que seria bonita
se não fossem as olheiras negras, cavadas até
ao meio da face. Apenas Carlos se sentou ao pé
d'ella, D. Maria perguntou-lhe logo por esse aventureiro
do Ega. Esse aventureiro, disse Carlos, estava
em Celorico compondo uma comedia para se
vingar de Lisboa, chamada o
Lodaçal...
—Entra o Cohen? perguntou ella, rindo.
—Entramos todos, sr.
a D. Maria. Todos
nós somos
lodaçal...
N'esse momento, por traz do recinto, rompia, com
um taran-tan-tan mollengão de tambores e pratos, o
hymno da Carta, a que se misturou uma voz de official
e o bater de coronhas. E, entre dourados de
dragonas, El-rei appareceu na tribuna, sorrindo, de
quinzena de velludo, e chapéo branco. Aqui e
além,
raros sujeitos cumprimentaram, muito de leve: a senhora
hespanhola, essa, tomou o oculo
do
regaço
de D. Maria, e de pé, muito descançadamente,
poz-se a examinar o rei. D. Maria achava ridicula a
musica, dando ás corridas um ar de arraial...
Além
d'isso, que tolice, o hymno, como n'um dia de parada!
—E este hymno, então, que é medonho, dizia
Carlos.
A sr.
a D. Maria não sabe a
definição
do Ega, e
a sua theoria dos hymnos? Maravilhosa!
—Aquelle Ega! dizia ella sorrindo, já encantada.
—O Ega diz que o hymno é a definição
pela musica
do caracter d'um povo. Tal é o compasso do
hymno nacional, diz elle, tal é o movimento moral
da nação. Agora veja a sr.
a
D. Maria os
differentes
hymnos, segundo o Ega. A
Marselheza
avança com
uma espada núa. O
God save the
queen adianta-se,
arrastando um manto real...
—E o hymno da Carta?
—O hymno da Carta ginga, de rabona.
E D. Maria ria ainda, quando a hespanhola, sentando-se
e repousando-lhe tranquillamente o binoculo
no regaço, murmurou:
—Tiene cara de buena persona.
—Quem, o rei? exclamaram a um tempo D. Maria
e Carlos. Excellente!
No entanto uma sineta tocava, perdida no ar. E
no quadro indicador subiram os numeros dos dois
cavallos que corriam o primeiro premio dos
Productos.
Eram o n.º 1 e o n.º 4. D. Maria Telles quiz-lhe
saber os nomes, com o appetite de apostar e ganhar
cinco tostões a Carlos. E como Carlos se erguia
para arranjar um programma:
—Deixe estar o menino, disse ella, tocando-lhe no
braço. Ahi vem o nosso Alencar, com o programma...
Olhe para aquillo! Veja se ainda hoje os ha por ahi
com aquelle ar de sentimento e de poesia...
Com um fato novo de cheviote claro que o remoçava,
de luvas gris-perle, o seu bilhete de pezagem na botoeira,
o poeta vinha-se abanando com o programma,
e já de longe sorrindo á sua boa amiga D. Maria.
Quando chegou junto d'ella, descoberto, bem penteado
n'esse dia, com um lustre d'oleo na grenha,
levou-lhe a mão aos labios, fidalgamente.
D. Maria fôra uma das suas lindas contemporaneas.
Tinham dançado muita ardente mazurka nos salões
de Arroios. Ella tratava-o por
tu.
Elle dizia sempre
boa amiga, e
querida Maria.
—Deixa vêr os nomes d'esses cavallos, Alencar...
Senta-t'ahi, anda, faze companhia.
Elle puchou uma cadeira, rindo do interesse que
ella tomava pelas corridas. E elle que a conhecera
sempre uma enthusiasta de toiros!... Pois os nomes
dos cavallos eram
Jupiter e
Escossez...
—Nenhum d'esses nomes me agrada, não aposto.
E então que te parece tudo isto, Alencar?... A nossa
Lisboa vae-se sahindo da concha...
Alencar, pousando o chapéo sobre uma cadeira, e
passando a mão pela sua vasta fronte de bardo,
confessou que aquillo tinha realmente um certo ar de
elegancia, um perfume de côrte... Depois, lá em
baixo, aquelle maravilhoso Tejo... Sem fallar na
importancia do apuramento das raças cavallares...
—Pois não é verdade, meu Carlos? Tu que entendes
superiormente d'isso, que és um mestre em
todos os
sports, sabes bem que o
apuramento...
—Sim, com effeito, o apuramento, muito importante...—disse
Carlos, vagamente, erguendo-se a
olhar outra vez á tribuna.
Eram quasi tres horas, e agora, de certo,
ella já
não vinha: e a condessa de Gouvarinho não
apparecia
tambem... Começava a invadil-o uma grande lassitude.
Respondendo, com um leve movimento de
cabeça, ao sorriso doce que lhe dava da tribuna a
Joaninha Villar, pensava em voltar para o Ramalhete,
acabar tranquillamente a tarde dentro do seu robe-de-chambre,
com um livro, longe de todo aquelle
tédio.
No entanto, ainda entravam senhoras. A menina
Sá Videira, filha do rico negociante de sapatos d'ourello,
passou pelo braço do irmão, abonecada, com
o arsinho petulante e enojado de tudo, fallando alto
inglez. Depois foi a ministra da Baviera, a baroneza
de Craben, enorme, empavoada, com uma face macissa
de matrona romana, a pelle cheia de manchas
côr de tomate, a estalar dentro d'um vestido de
gorgorão azul com riscas brancas: e atraz o
barão,
pequenino, amavel, aos pulinhos, com um grande
chapéo de palha.
D. Maria da Cunha erguera-se para lhes fallar: e
durante um momento ouviu-se, como um glou-glou
grosso de perú, a voz da baroneza achando
que c'était
charmant, c'était très beau. O
barão, aos pulinhos,
aos risinhos,
trouvait ça
ravissant. E o Alencar, diante
d'aquelles estrangeiros que o não tinham saudado,
apurava a sua attitude de grande homem nacional, retorcendo
a ponta dos bigodes, alçando mais a fronte
núa.
Quando elles seguiram para a tribuna, e a boa
D. Maria se tornou a sentar, o poeta, indignado,
declarou que abominava allemães! O ar de sobranceria
com que aquella ministra, com feitio de barrica
deixando sahir o cebo por todas as costuras do vestido,
o olhára, a elle! Ora, a insolente baleia!
D. Maria sorria, olhando com sympathia o poeta.
E voltando-se de repente para a senhora hespanhola:
—Concha, deja-me presentar-te D. Thomaz de
Alencar, nuestro gran poeta lyrico...
N'esse momento, algum dos rapazes mais amadores,
dos que traziam binoculos a tiracollo, apressaram
o passo para a corda da pista. Dois cavallos
passavam n'um galope sereno, quasi juntos, sob as
vergastadas estonteadas de dois jockeys de grande
bigode. Uma voz erguendo-se disse que tinha ganhado
Escossez. Outros affirmavam que
fôra
Jupiter.
E no silencio que se fez, de lassidão e de desapontamento,
ondeou mais viva no ar, lançada pelos flautins
da banda, a valsa de
madame Angot.
Alguns
sujeitos tinham-se conservado de costas para a pista,
fumando, olhando a tribuna—onde as senhoras continuavam
debruçadas no parapeito, á espera do
Senhor dos Passos. Ao lado de Carlos, um cavalheiro
resumiu as impressões, dizendo que tudo
aquillo era
uma intrujice.
E quando Carlos se ergueu para ir procurar o Damaso,
Alencar, muito animado com a hespanhola, fallava
de Sevilha, de malagueñas e do coração
d'Espronceda.
O desejo de Carlos agora era achar Damazo, saber
porque falhara a visita aos Olivaes—e depois ir-se
embora para o Ramalhete, esconder aquella melancolia
que o enevoava, estranha e pueril, misturada
de irritabilidade, fazendo-lhe detestar as vozes que
lhe fallavam, os rantatans da musica, até a belleza
calma da tarde... Mas ao dobrar a esquina da tribuna,
topou com Craft, que o deteve, o apresentou
a um rapaz loiro e forte com quem estava fallando
alegremente. Era o famoso Clifford, o grande
sportman de Cordova. Em redor sujeitos tinham parado,
embasbacados para aquelle inglez legendario
em Lisboa, dono de cavallos de corridas, amigo do
rei d'Hespanha, homem de todos os
chics. Elle, muito
á vontade, um pouco
poseur, com um simples veston
de flanella azul como no campo, ria alto com o Craft
do tempo em que tinham estado no collegio de Rugby.
Depois pareceu-lhe reconhecer Carlos, amavelmente.
Não se tinham encontrado havia quasi um anno, em
Madrid, n'um jantar, em casa de Pancho Calderon? E
assim era. O aperto de mão que repetiram foi mais
intimo—e Craft quiz que fossem regar aquella flor
d'amisade com uma garrafa de mau Champagne. Em
roda crescera a pasmaceira.
O buffete estava installado debaixo da tribuna, sob
o taboado nú, sem sobrado, sem um ornato, sem
uma flor. Ao fundo corria uma prateleira de taberna
com garrafas e pratos de bolos. E, no balcão tosco,
dois criados, estonteados e sujos, achatavam á pressa
as fatias de sandwiches com as mãos humidas da
espuma da cerveja.
Quando Carlos
e os seus amigos
entraram, havia
junto d'um dos barrotes que especavam os degraus da
tribuna, n'um grupo animado, com copos de champagne
na mão, o marquez, o visconde de Darque, o Taveira,
um rapaz pallido de barba preta, que tinha debaixo
do braço enrolada a bandeira vermelha de
Starter, e o commissario imberbe,
com o chapéo
branco cada vez mais atirado para a nuca, a face
mais esbrazeada, o collarinho já molle de suor. Era
elle que offerecia o champagne; e apenas viu entrar
Clifford, rompeu para elle, de taça no ar, fez tremer
as vigas, soltando o seu vozeirão:
—Á saude do amigo Clifford! o primeiro sportman
da península, e rapaz cá dos nossos!... Hip hip,
hurrah!
Os copos ergueram-se, n'um clamor d'hurrahs,
onde destacou, vibrante e enthusiasta, a voz do
starter.
Clifford agradecia, risonho, tirando lentamente
as luvas—em quanto o marquez, puxando Carlos pelo
braço para o lado, lhe apresentava rapidamente o
commissario, seu primo D. Pedro Vargas.
—Muito gosto em conhecer...
—Qual historias! Eu é que fazia furor! exclamou
o commissario. Cá a rapaziada do sport deve-se conhecer
toda... Porque isto cá é a confraria, e todo
o resto é chinfrinada!
E immediatamente arrebatou o copo ao ar, berrou
com um impeto que lhe trazia mais sangue á face:
—Á saude de Carlos da Maia, o primeiro elegante
cá da patria! a melhor mão de redea... Hip, hip,
hurrah...
—Hip, hip, hip... Hurrah!
E foi ainda a voz do starter que deu o
hurrah
mais vibrante e mais enthusiasta.
Um empregado assomou á porta do buffete, e chamou
o sr. commissario. O Vargas atirou uma libra
para o balcão, abalou, gritando já de
fóra, com o
olho acceso:
—Isto vae-se animando, rapazes! Caramba! É carregar
no liquido! E você, oh lá de baixo, o
patrão,
sô Manuel, mande vir esse gelo... Está a gente
aqui a tomar a bebida quente... Despache um proprio,
vá você, rebente! Irra!
No entanto em quanto se desarrolhava o champagne
de Craft, Carlos tinha convidado Clifford a
jantar n'essa noite no Ramalhete. O outro acceitou,
molhando os labios no copo, achando excellente que
se continuasse a tradição de jantarem juntos,
sempre
que se encontravam.
—Olá! o general por aqui! exclamou Craft.
Os outros voltaram-se. Era o Sequeira, com a face
como um pimentão, entalado n'uma sobrecasaca curta
que o fazia mais atarracado, de chapeu branco sobre
o olho, e grande chicote debaixo do braço.
Acceitou um copo de Champagne, e teve muito prazer
em conhecer o sr. Clifford...
—E que me diz você a esta semsaboria? exclamou
elle logo, voltando-se para Carlos.
Em quanto a si estava contente, pulava... Aquella
corrida insipida, sem cavallos, sem jockeys, com meia
duzia de pessoas a bocejar em roda, dava-lhe a certeza
que eram talvez as ultimas, e que o
Jockey-Club rebentava...
E ainda bem! Via-se a gente livre d'um
divertimento que não estava nos habitos do paiz.
Corridas era para se apostar. Tinha-se apostado? Não,
então historias!... Em Inglaterra e em França,
sim!
Ahi eram um jogo como a roletta, ou como o monte...
Até havia banqueiros, que eram os
bookmakers...
Então já viam!
E como o marquez, pousando o copo, e querendo calmar
o general, fallava do apuramento das raças, e da
remonta,—o outro ergueu os hombros, com
indignação:
—Que me está você a cantar! Quer você
dizer que
se apura a raça para a remonta da cavallaria?...
Ora vá lá montar o exercito com cavallos de
corridas!...
Em serviço o que se quer não é o
cavallo
que corra mais, é o cavallo que aguente mais... O
resto é uma historia... Cavallos de corridas são
phenomenos!
São como o boi com duas cabeças...
Então
historias!... Em França até lhe dão
Champagne,
homem!... Então veja lá!
E a cada phrase, sacudia os hombros, furiosamente.
Depois, d'um trago, esvasiou o seu copo de Champagne,
repetiu que tinha muito prazer em conhecer o
sr. Clifford, rodou sobre os tacões, sahiu, bufando,
entalando mais debaixo do braço o chicote—que tremia
na ponta como avido de vergastar alguem.
Craft sorria, batia no hombro de Clifford.
—Veja você! cá nós, velhos
portuguezes, não gostamos
de novidades, e de
sports... Somos
pelo toiro...
—Com razão, dizia o outro, serio e aprumando-se
sobre o collarinho. Ainda ha dias me contava na Granja,
o Rei de Hespanha...
De repente, fóra, houve um reboliço, e vozes
sobresaltadas
gritando
ordem! Uma senhora, que
atravessava
com um pequenito, fugiu para dentro do buffete,
enfiada. Um policia passou, correndo.
Era uma desordem!
Carlos e os outros, sahindo á pressa, viram ao pé
da tribuna real um magote de homens—onde bracejava
o Vargas. Do largo da pesagem, os rapazes
corriam com curiosidade, já excitados, apinhando-se,
alçando-se em bicos de pés; do recinto das
carruagens
acudiam outros, saltando as cordas da pista,
apesar dos repellões dos policias:—e agora era uma
massa tumultuosa de chapéos altos, de fatos claros,
empurrando-se contra as escadas da tribuna real, onde
um ajudante d'el-rei, reluzente de agulhetas e em cabello,
olhava tranquillamente.
E Carlos, furando, poude emfim avistar no meio
do montão um dos sujeitos que correra no premio
dos Productos, o que montava
Jupiter, ainda de botas,
com um paletot alvadio por cima da jaqueta de
jockey, furioso, perdido, injuriando o juiz das corridas,
o Mendonça, que arregalava os olhos, aturdido e
sem uma palavra. Os amigos do jockey puxavam-n'o,
queriam que elle fizesse um protesto. Mas elle batia
o pé, tremulo, livido, gritando que não se
importava
nada com protestos! Perdera a corrida por uma pouca
vergonha! O protesto alli era um arrocho! Porque o
que havia n'aquelle hyppodromo era compadrice e
ladroeira!
Individuos, mais serios, indignaram-se com esta brutalidade.
—Fóra! Fóra!
Alguns tomavam o partido do jockey; já aos lados
outras questões surgiam, desabridas. Um sujeito vestido
de cinzento berrava que o Mendonça decidira pelo
Pinheiro, que montava
Escossez, por
ser intimo d'elle;
outro cavalheiro, de binoculo a tiracollo, achava aquella
insinuação infame; e os dois, frente a frente,
com os
punhos fechados, tratavam-se furiosamente de
pulhas.
E, todo este tempo, um homem baixote, de grandes
collarinhos de pintinhas, procurava romper, erguia
os braços, exclamava, n'uma voz supplicante e rouca:
—Por quem são, meus senhores... Um momento...
Eu tenho experiencia... Eu tenho experiencia!
De repente o vozeirão do Vargas dominou tudo, como
um urro de toiro. Diante do jockey, sem chapéo, com
a face a estoirar de sangue, gritava-lhe que era indigno
de estar alli, entre gente decente! Quando um
gentleman duvida do juiz da corrida, faz um protesto!
Mas vir dizer que ha ladrões, era só d'um canalha
e d'um fadista, como elle, que nunca devia ter pertencido
ao Jockey-Club!—O outro, agarrado pelos
amigos, esticando o pescoço magro como para lhe morder,
atirou-lhe um nome sujo. Então o Vargas, com
um encontrão para os lados, abriu espaço, repuxou
as mangas, berrou:
—Repita lá isso! repita lá isso!
E immediatamente aquella massa de gente oscillou,
embateu contra o taboado da tribuna real, remoinhou
em tumulto, com vozes de
ordem e
morra, chapéos
pelo ar, baques surdos de murros.
Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os
apitos da policia; senhoras, com as saias apanhadas,
fugiam atravez da pista, procurando espavoridamente
as carruagens;—e um sopro grosseiro de desordem
relles passava sobre o hyppodromo, desmanchando
a linha postiça de civilisação e a
attitude forçada de
decoro...
Carlos achou-se ao pé do marquez, que exclamava,
pallido:
—Isto é incrivel, isto é incrivel!...
Carlos, pelo contrario, achava pittoresco.
—Qual pittoresco, homem! É uma vergonha, com
todos esses estrangeiros!
No entanto a massa de gente dispersava, lentamente,
obedecendo ao official de guarda, um moço pequenino
mas decidido, que, em bicos de pés, aconselhava
para os lados, n'uma voz de orador, «cavalheirismo»
e «prudencia...» O jockey de
paletot
alvadio affastou-se, apoiado ao braço d'um amigo, cocheando,
com o nariz a pingar sangue: e o commissario
desceu para a pista, com um cortejo atraz, triumphante,
sem collarinho, arranjando o chapéo achatado
n'uma pasta. A musica tocava a marcha do
Propheta;
em quanto o desgraçado juiz das corridas, o
Mendonça,
encostado á tribuna real, com os braços cahidos,
aparvalhado, balbuciava n'um resto d'assombro:
—Isto só a mim! Isto só a mim!
O marquez, n'um grupo a que se juntára o Clifford,
Craft, e Taveira, continuava a vociferar:
—Então, estão convencidos? Que lhes tenho eu
sempre dito? Isto é um paiz que só supporta
hortas
e arraiaes... Corridas, como muitas outras coisas
civilisadas lá de fóra, necessitam primeiro gente
educada.
No fundo todos nós somos fadistas! Do que gostamos
é de vinhaça, e viola, e bordoada, e viva
lá seu
compadre! Ahi está o que é!
Ao lado d'elle Clifford, que no meio d'aquelle desmancho
todo esticava mais correctamente a sua linha
de gentleman, mordia um sorriso, assegurando,
com um ar de consolação, que conflictos eguaes
succedem
em toda a parte... Mas no fundo parecia
achar tudo aquillo ignobil. Dizia-se mesmo que elle
ia retirar a
Mist. E alguns
davam-lhe razão. Que
diabo! Era aviltante para um bello animal de raça
correr n'um hyppodromo sem ordem e sem decencia,
onde a todo o momento podiam reluzir navalhas.
—Ouve cá, tu viste por acaso esse animal do Damaso?
perguntou Carlos, chamando para o lado o
Taveira. Ha uma hora que ando a farejal-o...
—Estava ainda ha pouco do outro lado, no recinto
das carruagens, com a Josephina do Salazar... Anda
extraordinario, de sobrecasaca branca, e de véo no
chapéo!
Mas, quando d'ahi a pouco, Carlos quiz atravessar,
a pista estava fechada. Ia-se correr o
Grande premio
nacional. Os numeros já tinham subido ao
indicador,
um tom de sineta morria no ar. Um cavallo do Darque,
o
Rabbino, com o seu jockey de
encarnado e
branco, descia, trazido á redea por um groom e
acompanhado pelo Darque: alguns sujeitos paravam
a examinar-lhe as pernas, com o olho serio, affectando
entender. Carlos demorou-se um momento tambem,
admirando-o: era d'um bonito castanho escuro, nervoso
e ligeiro, mas com o peito estreito.
Depois, ao voltar-se, viu de repente a Gouvarinho,
que acabava de certo de chegar, e conversava de pé
com D. Maria da Cunha. Estava com uma toilette ingleza,
justa e simples, toda de cazimira branca, d'um
branco de creme, onde as grandes luvas negras á
mosqueteira punham um contraste audaz: e o chapéo
preto tambem desapparecia sob as pregas finas d'um
véo branco, enrolado em volta da cabeça,
cobrindo-lhe
metade do rosto, com um ar oriental que não ía
bem
ao seu narizinho curto, ao seu cabello côr de braza.
Mas em redor os homens olhavam para ella como
para um quadro.
Ao avistar Carlos, a condessa não conteve um sorriso,
um brilho de olhos que a illuminou. Instinctivamente
deu um passo para elle: e ficaram um instante
isolados, fallando baixo, em quanto D. Maria os
observava, sorrindo, cheia já de benevolencia, prompta
já a abençoal-os maternalmente.
—Estive para não vir, dizia a condessa, que parecia
nervosa. O Gastão fez-se tão desagradavel hoje!
E naturalmente tenho d'ir ámanhã para o Porto.
—Para o Porto?...
—O papá quer que eu lá vá,
são os annos d'elle...
Coitado, vae-se fazendo velho, escreveu-me uma carta
tão triste... Ha dois annos que me não
vê...
—O conde vae?
—Não.
E a condessa, depois de dar um sorriso ao ministro
da Baviera, que a cumprimentava de passagem, aos
pulinhos, acrescentou, mergulhando o olhar nos olhos
de Carlos:
—E quero uma coisa.
—O que?
—Que venhas tambem.
Justamente n'esse instante, Telles da Gama, de
programma e lapis na mão, parou junto d'elles:
—Você quer entrar n'uma
poule monstro, Maia?
Quinze bilhetes, dez tostões cada um... Lá em
cima
ao canto da tribuna está-se apostando ferozmente...
A desordem fez bem, sacudiu os nervos, todo o mundo
acordou... Quer v. ex.
a tambem, sr.
a
condessa?
Sim, a condessa tambem entrava na
poule. Telles
da Gama inscreveu-a, e abalou atarefado. Depois foi
Steinbroken que se acercou, todo florído, de
chapéo
branco, ferradura de rubis na gravata, mais esticado,
mais loiro, mais inglez, n'este dia solemne de
sport official.
—Ah, comme vous êtes belle, comtesse!... Voilá
une toilette merveilleuse, n'est ce pas, Maia?... Est
ce que nous n'allons pas parier quelque chose?
A condessa contrariada, querendo fallar a Carlos,
risonha todavia, lamentou-se de ter já uma fortuna
compromettida... Emfim sempre apostava cinco tostões
com a Filandia. Que cavallo tomava elle?
—Ah, je ne sais pas, je ne connais pas les chevaux...
D'abord, quand on parie...
Ella, impaciente, offereceu-lhe
Vladimiro. E teve
de estender a mão a outro filandez, o secretario de
Steinbroken, um moço loiro, lento, languido, que se
curvara em silencio diante d'ella, deixando escorregar
do olho claro e vago o seu monoculo d'ouro. Quasi
immediatamente Taveira excitado veiu dizer que Clifford
retirara a
Mist.
Vendo-a, assim cercada, Carlos affastou-se. Justamente
o olhar de D. Maria, que o não deixara, chamava-o
agora, mais carinhoso e vivo. Quando elle se chegou,
ella puxou-lhe pela manga, fel-o debruçar, para
lhe murmurar ao ouvido, deliciada:
—Está hoje tão galante!
—Quem?
D. Maria encolheu os hombros, impaciente.
—Ora quem! Quem ha-de ser? O menino sabe
perfeitamente. A condessa... Está de appetite.
—Muito galante, com effeito, disse Carlos friamente.
De pé, junto de D. Maria, tirando de vagar uma
cigarrette, elle ruminava, quasi com indignação,
as
palavras da condessa. Ir com ella para o Porto!...
E via alli outra exigencia audaz, a mesma tendencia
impertinente a dispôr do seu tempo, dos seus passos,
da sua vida! Tinha um desejo de voltar junto d'ella,
dizer-lhe que
não,
seccamente, desabridamente, sem
motivos, sem explicações, como um brutal.
Acompanhada em silencio pelo esguio secretario de
Steinbroken, ella vinha agora caminhando lentamente
para elle: e o olhar alegre com que o envolvia irritou-o
mais, sentindo no seu brilho sereno, no sorrir
calmo, quanto ella estava certa da sua submissão.
E estava. Apenas o filandez se affastou languidamente—ella,
muito tranquilla, alli mesmo junto de
D. Maria, fallando em inglez, e apontando para a
pista como se commentasse os cavallos do Darque,
explicou-lhe um plano que imaginara, encantador.
Em logar de partir na terça feira para o Porto—ia
na segunda á noite, só com a criada escocessa,
sua
confidente, n'um compartimento reservado. Carlos
tomava o mesmo comboio. Em Santarem, desciam ambos,
muito simplesmente, e iam passar a noite ao
hotel. No dia seguinte ella seguia para o Porto, elle
recolhia a Lisboa...
Carlos abria os olhos para ella, assombrado, emmudecido.
Não esperava aquella extravagancia. Suppozera
que ella o queria no Porto, escondido no
Francfort,
para passeios romanticos
á Foz, ou visitas furtivas
a algum casebre da Aguardente... Mas a idéa
d'uma noite, n'um hotel, em Santarem!
Terminou por encolher os hombros, indignado.
Como queria ella, n'uma linha de caminho de ferro
em que se encontra constantemente gente conhecida,
apear-se com elle na estação de Santarem, dar-lhe
o braço, maritalmente, e enfiarem para uma estalagem?
Ella, porém, pensára em todos os detalhes.
Ninguem a conheceria, disfarçada n'um grande
water-proof,
e com uma cabelleira postiça.
—Com uma cabelleira!?
—O Gastão! murmurou ella de repente.
Era o conde, por traz d'elle, abraçando-o ternamente
pela cintura. E quiz logo saber a opinião do
amigo Maia sobre as corridas. Bastante animação,
não é verdade? E bonitas
toilettes, certo ar de luxo...
Emfim, não envergonhavam. E ahi estava provado o
que elle sempre dissera, que todos os requintes da
civilisação se aclimatavam bem em Portugal...
—O nosso solo moral, Maia, como o nosso solo physico,
é um solo abençoado!
A condessa voltara para o pé de D. Maria. E Telles
da Gama, passando de novo, n'aquella faina
ruidosa em que o trazia a formação da sua
poule, chamou
Carlos para a tribuna, para elle tirar o seu bilhete,
e apostar com as senhoras...
—Oh Gouvarinho! venha tambem d'ahi, homem!
exclamou elle. Que diabo! É necessario animar isto,
é até patriotico.
E o conde condescendeu, por patriotismo.
—É bom, dizia elle, travando do braço de Carlos,
fomentar os divertimentos elegantes. Já uma vez o
disse na camara: o luxo é conservador.
Em cima, a um canto, n'um grupo de senhoras,
foram com effeito encontrar uma animação—que
quasi
fazia escandalo n'aquella tribuna silenciosa e á espera
do Senhor dos Passos. A viscondessa de Alvim
dobrava atarefadamente os bilhetes da
poule: uma
secretariasinha da Russia, de bonitos olhos garços,
apostava desesperadamente placas de cinco tostões,
estonteada, já embrulhada, rabiscando com phrenesi
o seu programma. A Pinheiro, a mais magra, com
um vestido leve de raminhos Pompadour que lhe fazia
covas nas claviculas, dava opiniões pretenciosas
sobre os cavallos, em inglez: emquanto o Taveira, de
olhos humidos no meio de todas aquellas saias, fallava
de arruinar as senhoras, de viver á custa das senhoras...
E todos os homens, acotovelando-se, queriam
fazer uma aposta com a Joanninha Villar, que,
de costas contra o rebordo da tribuna, gordinha e
languida, sorrindo, com a cabeça deitada para traz,
as pestanas mortas, parecia offerecer a todas aquellas
mãos, que se estendiam gulosamente para ella,
o seu appetitoso peito de rola.
Telles da Gama, no entanto, ia organisando a confusão
alegre. Os bilhetes estavam dobrados, era necessario
um chapéo... Então os cavalheiros affectaram
um amor desordenado pelos seus chapéos, não
os querendo confiar ás mãos nervosas das
senhoras;
um rapaz, todo de luto, excedeu-se mesmo, agarrando
as abas do seu, com ambas as mãos, aos gritos.
A secretariasinha da Russia, impaciente, terminou
por offerecer o barrete de marujo do seu pequeno—uma
creança obesa, pousada alli para um lado
como uma trouxa. Foi a Joanninha Villar que levou
em roda os bilhetes, rindo e chocalhando-os preguiçosamente;
emquanto o secretario de Steinbroken,
grave, como exercendo uma funcção, recolhia no
seu
grande chapéo as placas cahindo uma a uma com
um som argentino. E a tiragem foi o lindo divertimento
da
poule. Como estavam só
quatro cavallos
inscriptos, e as entradas eram quinze, havia onze bilhetes
brancos que aterravam. Todos ambicionavam
tirar o numero tres, o de
Rabbino, o
cavallo de Darque,
favorito do
Premio Nacional. Assim
cada mãosinha
soffrega que se demorava no fundo do barrete,
remexendo, tenteando os papeis, causava uma
indignação
folgasã, n'um exagero de risos.
—A sr.
a viscondessa procura de mais!... E
dobrou
os numeros, conhece-os... É necessario probidade,
sr.
a viscondessa!
—Oh, mon Dieu, j'ai
Minhoto, cette
rosse!
—Je vous l'achette, madame!
—Ó sr.
a D. Maria Pinheiro, v. ex.
a
leva dous numeros!...
—Ah! je suis perdue... Blanc!
—E eu! É necessario fazer outra
poule! Vamos
fazer outra
poule!
—Isso! Outra
poule, outra
poule!
No entanto a enorme baroneza de Craben, n'um
degrau mais elevado, que ella occupava só, como
um throno, erguera-se, com o seu bilhete na mão.
Tinha tirado
Rabbino: e affectava
superiormente não
comprehender esta fortuna, perguntava o que era
Rabbino. Quando o conde de
Gouvarinho lhe explicou
muito serio a importancia de
Rabbino, e que
Rabbino era quasi uma gloria
publica, ella mostrou a
dentuça, condescendeu em rosnar do fundo do papo
que
c'etait charmant. Todo o mundo a
invejava; e a
vasta baleia alastrou-se de novo sobre o seu throno,
abanando-se, com magestade.
E subitamente houve uma surpreza: em quanto
elles tiravam os bilhetes, os cavallos tinham partido,
passavam juntos diante da tribuna. Todos se ergueram,
de binoculos na mão. O
starter ainda estava na
pista, com a bandeira vermelha inclinada ao chão: e
as ancas de cavallos fugiam na curva, lustrosos á luz,
sob as jaquetas enfunadas dos jockeys.
Então todo o rumor de vozes caiu; e no silencio
a bella tarde pareceu alargar-se em redor, mais
suave e mais calma. Atravez do ar sem poeira, sem
a vibração dos raios fortes, tudo tomava uma
nitidez
delicada: defronte da tribuna, na collina, a relva era
d'um louro quente; no grupo de carruagens scintillava
por vezes o vidro de uma lanterna, o metal de
um arreio, ou de pé, sobre uma almofada, destacava
em escuro alguma figura de chapeo alto; e pela pista
verde, os cavallos corriam, mais pequenos, finamente
recortados na luz. Ao fundo, a cal das casas cobria-se
de uma leve agoada côr de rosa: e o distante horisonte
resplandecia, com dourados de sol, brilhos de
rio vidrado, fundindo-se n'uma nevoa luminosa, onde
as collinas, nos seus tons azulados, tinham quasi
transparencia, como feitas d'uma substancia preciosa...
—É
Rabbino! exclamou por
traz de Carlos, um
sugeito, de pé n'um degrau.
As côres encarnadas e brancas do Darque corriam
com effeito na frente. Os dous outros cavallos iam
juntos; e, o ultimo, n'um galope que adormecia, era
Vladimiro, outro potro do Darque,
baio-claro, quasi
louro á luz.
Então, a secretaria da Russia bateu as palmas,
interpellou Carlos, que justamente tirara na poule o
numero de
Vladimiro. A ella coubera
Minhoto, uma
pileca melancolica do Manoel Godinho; e tinham feito
sobre os dous cavallos uma aposta complicada de
luvas e de amendoas. Já umas poucas de vezes os
seus lindos olhos garços tinham procurado os de Carlos;
e agora tocava-lhe no braço com o leque, gracejava,
triumphava...
—Ah, vous avez perdu, vous avez perdu! Mais c'est
un vieux cheval de fiacre, vôtre
Vladimir.
Como um cavallo de fiacre?
Vladimiro
era o melhor
potro do Darque! Talvez ainda viesse a ser a
unica gloria de Portugal, como outr'ora o
Gladiador
fôra a unica gloria da França! Talvez ainda
substituisse
Camões...
—Ah, vous plaisantez...
Não, Carlos não gracejava. Estava até
prompto a
apostar tudo por
Vladimiro.
—Você aposta por
Vladimiro? gritou Telles da
Gama, voltando-se vivamente.
Carlos, por divertimento, sem mesmo saber por quê,
declarou que tomava
Vladimiro.
Então, em roda, foi
uma surpreza; e todo o mundo quiz apostar, aproveitar-se
d'aquella phantasia de homem rico, que sustentava
um potro verde, de tres quartos de sangue,
a que o proprio Darque chamava
pileca. Elle sorria,
aceitava; terminou ate por erguer a voz, proclamar
Vladimiro contra o campo. E de todos
os lados o chamavam,
n'uma sofreguidão de saque.
—Mr. de Maia, dix tostons.
—Parfaitement, madame.
—Oh Maia, você quer meia libra?
—Ás ordens.
—Maia, tambem eu! Ouça lá... Tambem eu!...
Dous mil réis.
—Ó sr. Maia, eu vou dez tostões...
—Com o maior prazer, minha senhora...
Ao longe os cavallos davam a volta, na subida do
terreno.
Rabbino já
desapparecera,—e
Vladimiro
n'um galope a que se sentia o cançasso, corria só
na pista. Uma voz elevou-se, dizendo que elle manquejava.
Então Carlos, que continuava a tomar
Vladimiro
contra o campo, sentiu que lhe puxavam de vagar
pela manga; voltou-se; era o secretario de Steinbroken,
chegando subtilmente a tomar tambem parte no
saque á bolsa do Maia, propondo dous soberanos, em
seu nome e em nome do seu chefe, como uma aposta
collectiva da legação, a aposta do reino da
Filandia.
—C'est fait, monsieur! exclamou Carlos, rindo.
Agora começava a divertir-se. Apenas vira de relance
Vladimiro, e gostara da
cabeça ligeira do potro,
do seu peito largo e fundo; mas apostava sobre
tudo para animar mais aquelle recanto da tribuna, ver
brilhar gulosamente os olhos interesseiros das mulheres.
Telles da Gama ao lado approvava-o, achava
aquillo patriotico e
chic.
—É
Minhoto! gritou de
repente Taveira.
Na volta, com effeito, fizera-se uma mudança. Subitamente
Rabbino perdera terreno, resistindo
á subida,
com o folego curto. E agora era
Minhoto, o cavallicoque
obscuro de Manuel Godinho, que se arremessava
para a frente, vinha devorando a pista, n'um esforço
continuo, admiravelmente montado por um jockey
hespanhol. E logo atraz vinham as côres escarlates
e brancas de Darque: ao principio ainda pareceu
que era
Rabbino: mas, apanhado de
repente n'um
raio oblíquo de sol, o cavallo cobriu-se de tons lustrosos
de baio claro, e foi uma surpreza ao reconhecer-se
que era
Vladimiro! A corrida
travava-se entre
elle e
Minhoto.
Os amigos de Godinho, precipitando-se para a pista,
bradavam, de chapéos no ar:
—
Minhoto, Minhoto!
E, em redor de Carlos, os que tinham apostado pelo
campo contra
Vladimiro faziam tambem
votos por
Minhoto, em bicos de pés,
junto do parapeito da tribuna,
estendendo o braço para elle, animando-o:
—Anda
Minhoto!... Isso, assim!...
Aguenta, rapaz!...
Bravo!...
Minhoto! Minhoto!
A russa, toda nervosa, na esperança de ganhar a
poule, batia as palmas.
Até a enorme Craben se erguera,
dominando a tribuna, enchendo-a com os seus gorgorões
azues e brancos:—em quanto que, ao lado d'ella,
o conde de Gouvarinho, tambem de pé, sorria, contente
no seu peito de patriota, vendo n'aquelles jockeys
á desfilada, nos chapéos que se agitavam, brilhar
civilisação...
De repente, de baixo, d'ao pé da tribuna, d'entre
os rapazes que cercavam o Darque, uma exclamação
partiu.
—
Vladimiro! Vladimiro!
Com um arranque desesperado o potro viera juntar-se
a
Minhoto: e agora chegavam
furiosamente,
com brilhos vivos de côres claras, os focinhos juntos,
os olhos esbogalhados, sob uma chuva de vergastadas.
Telles da Gama, esquecido da sua aposta, todo
pelo Darque, seu intimo, berrava por
Vladimiro. A
russa, de pé n'um degrau, apoiada sobre o hombro
de Carlos, pallida, excitada, animava
Minhoto com
gritinhos, com pancadas de leque. A agitação
d'aquelle
canto da tribuna estendera-se em baixo ao recinto—onde
se via uma linha de homens, contra a corda da
pista, bracejando. Do outro lado, era uma fila de rostos
pallidos, fixos n'uma curta anciedade. Algumas senhoras
tinham-se posto de pé nas carruagens. E atravez
da collina, para ver a chegada, dous cavalleiros, segurando
com as mãos os chapéos baixos, corriam
á
desfilada.
—