Conservava sempre as suas grandes idéas do trabalho,
querendo que no seu dia só houvesse horas nobres,—e que
aquellas que não pertenciam ás puras felicidades
do amor, pertencessem ás
alegrias fortes do estudo. Ia ao laboratorio, ajuntava algumas linhas
ao seu manuscripto. Mas antes da visita á rua de S.
Francisco não podia
disciplinar o espirito, inquieto, n'um tumulto d'esperanças;
e depois de voltar de lá, passava o dia a recapitular o que
ella dissera, o que elle respondera, os seus gestos, a graça
de certo sorriso... Fumava então cigarrettes, lia os poetas.
Todas as noites no escriptorio d'Affonso se formava a partida de
whist. O marquez
batia-se ao dominó com o Taveira, enfronhados ambos
n'aquelle vicio, com um rancor crescente que os levava a injurias.
Depois das corridas, o secretario de Steinbroken
começára a vir ao Ramalhete; mas era
um inutil, nem cantava sequer como o
seu chefe as balladas da Filandia; cahido no fundo d'uma poltrona, de
casaca, de vidro no olho, bamboleando a perna, cofiava silenciosamente
os seus longos bigodes tristes.
O amigo que Carlos gostava de vêr entrar era o Cruges—que
vinha da rua de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria
Eduarda respirava. O maestro sabia que Carlos ia todas as
manhãs ao predio vêr a «miss
ingleza»; e muitas vezes, innocentemente, ignorando o
interesse de coração com que Carlos o escutava,
dava-lhe as
ultimas noticias da visinha...
—A visinha lá ficou agora a tocar Mendelhson... Tem
execução, tem expressão, a
visinha... Ha alli estofo... E entende o seu Choppin.
Se elle não apparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa
buscal-o: entravam no Gremio, fumavam um charuto n'alguma sala isolada,
fallando da visinha; Cruges achava-lhe «um verdadeiro typo de
grande dame».
Quasi sempre encontravam o conde de Gouvarinho, que vinha ver (como
elle dizia a faiscar d'ironia) o que se passava «no paiz do
snr.
Gambetta». Parecera remoçar ultimamente, mais
ligeiro nos modos, com uma claridade d'esperança nas
lunetas, na fronte erguida. Carlos perguntava-lhe pela condessa.
Lá estava no Porto, nos seus deveres de filha...
—E seu sogro?
O conde baixava a face radiante, para murmurar cava e resignadamente:
—Mal.
Uma tarde, Carlos conversava com Maria Eduarda, acariciando
Niniche que se
lhe viera sentar nos joelhos, quando Romão entreabriu
discretamente o reposteiro, e baixando a voz, com um ar
embaraçado, um ar de cumplicidade, murmurou:
—É o snr. Damaso!...
Ella olhou o Romão, surprehendida d'aquelles modos, e quasi
escandalisada.
—Pois bem, mande entrar!
E Damaso rompeu pela sala, carregado de luto, de flôr ao
peito, gorducho, risonho, familiar, com o chapeu na mão,
trazendo dependurado por um barbante um grande embrulho de papel
pardo... Mas ao vêr Carlos alli, intimamente, de cadellinha
no collo, estacou assombrado, com o olho esbugalhado, como tonto. Emfim
desembaraçou as mãos, veio comprimentar Maria
Eduarda quasi de leve,—e voltando-se logo para Carlos, de
braços abertos, todo o seu espanto trasbordou ruidosamente:
—Então tu aqui, homem? Isto é que é
uma
surpreza!
Ora quem me diria!... Eu estava mais longe...
Maria Eduarda, incommodada com aquelle alarido, indicou-lhe vivamente
uma cadeira, interrompeu um instante o bordado, quiz saber como elle
tinha chegado.
—Perfeitamente, minha senhora... Um bocado
cançado, como é natural... Venho direitinho de
Penafiel... Como v. exc.
a vê—e
mostrou o seu luto
pesado—acabo de passar por um grande desgosto.
Maria Eduarda murmurou uma palavra de sentimento, vaga e fria. Damaso
pousára os olhos no tapete. Vinha da provincia cheio de
côr, cheio de sangue; e como cortára a barba (que
havia mezes deixára crescer para imitar Carlos) parecia
agora mais bochechudo e mais nedio. As côxas
roliças estalavam-lhe de gordura dentro da calça
de casimira preta.
—E então, perguntou Maria Eduarda, temol-o por
cá algum tempo?
Elle deu um puxãosinho á cadeira, mais para junto
d'ella, e outra vez risonho:
—Agora, minha senhora, ninguem me arranca de Lisboa! Podem-me
morrer... Isto é, credo! teria grande ferro se me morresse
alguem. O que quero dizer é que ha de custar a arrancar-me
d'aqui!
Carlos continuava muito socegadamente a acariciar os pêllos
da
Niniche. E houve então um pequeno
silencio. Maria Eduarda
retomára o bordado. E Damaso, depois de sorrir, de tossir,
de dar um geito ao bigode, estendeu a mão para acariciar
tambem
Niniche sobre os joelhos de
Carlos. Mas a cadellinha, que havia momentos o espreitava com o olho
desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa.
—
C'est moi, Niniche! dizia Damaso,
recuando a cadeira.
C'est moi, ami... Alors,
Niniche...
Foi necessario que Maria Eduarda reprehendesse severamente
Niniche. E, aninhada de
novo no collo de Carlos, ella continuou a espreitar Damaso, rosnando, e
com rancor.
—Já me não conhece, dizia elle
embaçado, é curioso...
—Conhece-o perfeitamente, acudiu Maria Eduarda muito séria.
Mas não sei o que o snr. Damaso lhe fez, que ella tem-lhe
odio. É sempre este
escandalo.
Damaso balbuciava, escarlate:
—Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Caricias, sempre
caricias...
E então não se conteve, fallou com ironia,
amargamente, das amizades novas de Mademoiselle
Niniche. Alli estava nos
braços d'outro, emquanto que elle, o amigo velho, era
deitado ao canto...
Carlos ria.
—Ó Damaso, não a accuses de
ingratidão... Pois se a snr.
a D.
Maria Eduarda
está a dizer que ella sempre te teve odio...
—Sempre! exclamou Maria.
Damaso sorria tambem, lividamente. Depois, tirando um lenço
de barra negra, limpando os beiços e mesmo o suor do
pescoço, lembrou a Maria Eduarda como ella o tinha
desapontado no dia das corridas... Elle toda a tarde á
espera...
—Eram vesperas de partida, disse ella.
—Sim, bem sei, o marido de v. exc.
a... E como
vai o snr. Castro
Gomes? V. exc.
a já recebeu noticias?
—Não, respondeu ella com o rosto sobre o bordado.
Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoiselle Rosa.
Depois por Cri-cri. Era necessario não esquecer Cri-cri...
—Pois v. exc.
a—continuou elle, cheio
subitamente de
loquacidade—perdeu, que as corridas estiveram esplendidas...
Nós ainda não nos vimos depois das corridas,
Carlos. Ah, sim, vimo-nos na estação... Pois
não é
verdade que estiveram muito
chics?
Olhe, minha senhora, d'uma
coisa póde v. exc.
a estar certa,
é que
hippodromo mais bonito não ha lá fóra.
Uma vista
até á barra, que é d'appetite...
Até se vêem entrar os navios... Pois
não é assim, Carlos?
—Sim, disse Carlos, sorrindo. Não é propriamente
um campo de corridas... É verdade que não ha
tambem propriamente cavallos de corridas... Verdade seja que
não ha jockeys... Ora é
verdade que não ha
apostas... Mas é verdade
tambem que não ha publico...
Maria Eduarda ria, alegremente.
—Mas então?
—Vêem-se entrar os navios, minha senhora...
Damaso protestava, com as orelhas vermelhas. Era realmente querer dizer
mal á força...
Não senhor, não senhor!... Eram muito boas
corridas. Tal qual como lá fóra, as mesmas
regras, tudo...
—Até na pesagem, acrescentou elle muito sério,
fallamos sempre inglez!
Repetiu ainda que as corridas eram
chics. Depois não achou
mais nada:—e fallou de Penafiel, onde chovera sempre tanto que elle
vira-se forçado a ficar em casa, estupidamente, a
lêr...
—Uma massada! Ainda se houvesse alli umas mulheres para ir dar um
bocado de cavaco... Mas qual! Uns monstros. E eu, lavradeiras,
raparigas de pé descalço, não
tolero... Ha gente
que gosta... Mas eu, acredite v. exc.
a,
não tolero...
Carlos corára: mas Maria Eduarda parecia não ter
ouvido, occupada a contar attentamente as malhas do seu bordado.
De repente Damaso recordou-se que tinha alli um presentinho para a
snr.
a D. Maria Eduarda. Mas não
imaginasse que era alguma
preciosidade... Verdadeiramente até o presente era para
Mademoiselle Rosa.
—Olhe, para não estar com mysterios, sabe o
que é? Tenho-o alli no
embrulhosinho de papel pardo... São seis barrilinhos d'ovos
molles d'Aveiro. É um dôce muito
célebre, mesmo
lá fóra. Só o de Aveiro é
que tem
chic... Pergunte v. exc.
a
ao
Carlos. Pois não é verdade, Carlos, que
é uma delicia, até conhecido lá
fóra?
—Ah, certamente, murmurou Carlos, certamente...
Pousára
Niniche no
chão, erguera-se, fôra buscar o seu
chapéo.
—Já?... perguntou-lhe Maria Eduarda, com um sorriso que era
só para elle. Até ámanhã,
então!
E voltou-se logo para o Damaso, esperando vêl-o erguer-se
tambem. Elle conservou-se installado, com um ar de demora, familiar, e
bamboleando a perna. Carlos estendeu-lhe dois dedos.
—
Au revoir, disse o outro. Recados
lá no Ramalhete; hei de apparecer!...
Carlos desceu as escadas, furioso.
Alli ficava pois aquelle imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente,
tão obtuso que não
percebia o enfado d'ella, a sua regelada seccura! E para que ficava?
Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em
calão, e de perna traçada? E de repente
lembrou-lhe o que elle lhe dissera na noite do jantar do Ega,
á porta do Hotel Central, a respeito da própria
Maria Eduarda, e do seu systema com mulheres «que era o
atracão». Se
aquelle idiota, de repente, abrazado e bestial, ousasse
um ultraje? A
supposição era insensata,
talvez—mas reteve-o no pateo, applicando o ouvido para cima, com
idéas ferozes de esperar alli o Damaso, prohibir-lhe de
tornar a subir aquella escada, e, á menor
reflexão d'elle, esmagar-lhe o
craneo nas lages...
Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e sahiu vivamente, no receio de
ser assim surprehendido á escuta. O coupé do
Damaso estacionava na rua. Então veio-lhe uma curiosidade
mordente de saber quanto tempo elle ficaria alli com Maria Eduarda.
Correu ao Gremio; e apenas abrira uma vidraça—viu logo o
Damaso sahir do portão, saltar para o coupé,
bater com força a portinhola.
Pareceu-lhe que trazia o ar escorraçado, e subitamente teve
dó d'aquelle grutesco...
N'essa noite, depois de jantar, Carlos só no seu quarto
fumava, enterrado n'uma poltrona, relendo uma carta do Ega recebida
n'essa manhã,—quando appareceu o Damaso. E, sem pousar
mesmo o chapéo, logo da porta, exclamou, com o mesmo espanto
da manhã:
—Então dize-me cá! Como diabo te vou eu
encontrar hoje com a brazileira?... Como a conheceste tu? Como foi
isso?
Sem mover a cabeça do espaldar da poltrona, cruzando as
mãos sobre os joelhos em cima da carta do Ega, Carlos, agora
cheio de bom humor, disse, com uma dôce
reprehensão paternal:
—Pois então tu vaes expôr a uma senhora as
tuas opiniões
lubricas sobre as lavradeiras de Penafiel!
—Não se trata d'isso, sei muito bem o que hei de
expôr! exclamou o outro, vermelho. Conta lá,
anda... Que diabo! Parece-me que tenho direito a saber... Como a
conheceste tu?
Carlos, imperturbavel, cerrando os olhos como para se recordar,
começou, n'um tom lento e solemne de recitativo:
—Por uma tepida tarde de primavera, quando o sol se afundava em nuvens
d'oiro, um mensageiro esfalfado pendurava-se da campainha do Ramalhete.
Via-se-lhe na mão uma carta, lacrada com sello heraldico; e
a expressão do seu semblante...
Damaso, já zangado, atirou com o chapéo para cima
da mesa.
—Parece-me que era mais decente deixar-te d'esses mysterios!
—Mysterios? Tu vens obtuso, Damaso. Pois tu entras n'uma casa onde
existe ha quasi um mez uma pessoa gravemente doente, e ficas
assombrado, petrificado, ao encontrar lá o medico! Quem
esperavas tu vêr lá? Um photographo?
—Então quem está doente?
Carlos, em poucas palavras, disse-lhe a bronchite da ingleza—emquanto
o Damaso, sentado á beira do sofá, mordendo o
charuto sem lume, olhava para elle desconfiado.
—E como soube ella onde tu moravas?
—Como se sabe onde mora o rei; onde é a
alfandega; de que lado luz a estrella
da tarde; os campos onde foi Troia... Estas coisas que se aprendem nas
aulas de instrucção primaria...
O pobre Damaso deu alguns passos pela sala, embezerrado, com as
mãos nos bolsos.
—Ella tem agora lá o Romão, o que foi meu
criado, murmurou depois d'um silencio. Eu tinha-lh'o
recommendado... Ella leva-se muito pelo que eu lhe digo...
—Sim, tem, por uns dias, emquanto o Domingos foi á
terra. Vai mandal-o embora, é um imbecil, e tu
tinhas-lhe ensinado más maneiras...
Então Damaso atirou-se para o canto do sofá e
confessou que ao entrar na sala, quando dera com os olhos em Carlos, de
cadellinha no collo, ficára furioso... Emfim, agora que
sabia que era por doença, bem, tudo se explicava... Mas
primeiro parecera-lhe que andava alli tramoia... Só com
ella, ainda pensou em lhe perguntar: depois receou que não
fosse delicado; e além d'isso ella
estava de mau humor...
E acrescentou logo, accendendo o charuto:
—Que apenas tu sahiste, pôz-se melhor, mais á
vontade... Rimos muito... Eu fiquei ainda até tarde, quasi
duas horas mais; era perto das cinco quando sahi. Outra coisa, ella
fallou-te alguma vez de mim?
—Não. É uma pessoa de bom gosto; e sabendo que
nos conhecemos, não se atreveria a dizer-me mal de ti.
Damaso olhou-o, esgazeado:
—Ora essa!... Mas podia ter dito bem!
—Não; é uma pessoa de bom senso, não
se atreveria tambem.
E erguendo-se vivamente, Carlos abraçou Damaso pela cinta,
acariciando-o, perguntando-lhe pela herança do titi, e em
que amores, em que viagens, em que cavallos de luxo ia gastar os
milhões...
Damaso, sob aquellas festas alegres, permanecia frio, amuado, olhando-o
de revez.
—Olha que tu, disse elle, parece-me que me vaes sahindo tambem um
traste... Não ha a gente fiar-se em ninguem!
—Tudo na terra, meu Damaso, é apparencia e engano!
Seguiram d'alli á sala do bilhar fazer «a partida
de reconciliação». E pouco a pouco, sob
a influencia que exercia sempre sobre elle o Ramalhete, Damaso foi
socegando, risonho já, gozando de novo a sua intimidade com
Carlos no meio d'aquelle luxo sério, e tratando-o outra vez
por «menino». Perguntou pelo snr. Affonso da Maia.
Quiz saber se o bello marquez tinha apparecido. E o Ega, o grande
Ega?...
—Recebi carta d'elle, disse Carlos. Vem ahi, temol-o talvez
cá no sabbado.
Foi um espanto para o Damaso.
—Homem! essa é curiosa! E eu encontrei os
Cohens, hoje!... Vieram ha dois
dias de Southampton... Jógo eu?
Jogou, falhou a carambola.
—Pois é verdade, encontrei-os hoje, fallei-lhes um
instante... E a Rachel vem melhor, vem mais gorda... Trazia uma
toilette ingleza
com coisas brancas, coisas côr de rosa...
Chic a valer, parecia um
moranguinho! E então o Ega de volta?... Pois, menino, ainda
temos escandalo!
II
No sabbado, com effeito, Carlos, recolhendo ao Ramalhete de volta da
rua de S. Francisco, encontrou o Ega no seu quarto, mettido n'um fato
de cheviotte claro, e com o cabello muito crescido.
—Não faças espalhafato, gritou-lhe elle, que eu
estou em Lisboa
incognito!
E em seguida aos primeiros abraços declarou que vinha a
Lisboa, só por alguns dias, unicamente para comer bem e para
conversar bem. E contava com Carlos para lhe fornecer esses requintes,
alli, no Ramalhete...
—Ha cá um quarto para mim? Eu por ora estou no
Hotel Hespanhol, mas ainda nem
mesmo abri a mala... Basta-me uma alcova, com uma mesa de pinho, larga
bastante para se escrever uma obra sublime.
Decerto! Havia o quarto em cima, onde elle estivera depois de deixar a
Villa Balzac. E mais sumptuoso agora, com um bello leito da
Renascença, e uma cópia dos
Borrachos
de Velasquez.
—Optimo covil para a arte! Velasquez é um dos Santos Padres
do naturalismo... A proposito, sabes com quem eu vim? Com a Gouvarinho.
O pai Tompson esteve á morte, arribou, depois o conde foi
buscal-a. Achei-a magra; mas com um ar ardente; e fallou-me
constantemente de ti.
—Ah! murmurou Carlos.
Ega, de monoculo no olho e mãos nos bolsos, contemplava
Carlos.
—É verdade. Fallou de ti constantemente, irresistivelmente,
immoderadamente! Não me tinhas mandado contar isso... Sempre
seguiste o meu conselho, hein? Muito bem feita de corpo, não
é verdade? E que tal, no acto d'amor?
Carlos córou, chamou-lhe grosseiro, jurou que nunca tivera
com a Gouvarinho senão
relações superficiaes. Ia lá
ás vezes tomar uma chavena de
chá; e á hora do Chiado acontecia-lhe, como a
todo o mundo, conversar com o conde sobre as miserias publicas,
á esquina do Loreto. Nada mais.
—Tu estás-me a mentir, devasso! dizia o Ega. Mas
não importa. Eu hei de descobrir tudo isso com o meu olho de
Balzac, na segunda-feira.... Porque nós
vamos lá jantar na segunda-feira.
—Nós... Nós, quem?
—Nós. Eu e tu, tu e eu. A condessa convidou-me
no comboio. E o Gouvarinho,
como compete ao individuo d'aquella especie, acrescentou logo que
haviamos de ter tambem «o nosso Maia». O Maia
d'elle, e o Maia d'ella... Santo accordo! Suavissimo arranjo!
Carlos olhou-o com severidade.
—Tu vens obsceno de Celorico, Ega.
—É o que se aprende no seio da Santa Madre Igreja.
Mas tambem Carlos tinha uma novidade que o devia fazer estremecer. O
Ega porém já sabia. A chegada dos Cohens,
não é verdade?
Lêra-o logo n'essa manhã, na
Gazeta
Illustrada, no
high-life. Lá se dizia
respeitosamente que s. exc.
as tinham regressado
do seu passeio pelo
estrangeiro.
—E que impressão te fez? perguntou Carlos rindo.
O outro encolheu brutalmente os hombros:
—Fez-me o effeito de haver um cabrão mais na cidade.
E, como Carlos o accusava outra vez de trazer de Celorico uma lingua
immunda, o Ega, um pouco córado, arrependido talvez,
lançou-se em
considerações criticas, clamando pela necessidade
social de dar ás coisas o nome exacto. Para que servia
então o grande movimento naturalista do seculo? Se o vicio
se perpetuava, é porque a sociedade, indulgente e romanesca,
lhe dava nomes que o embellezavam, que o idealisavam... Que escrupulo
póde ter uma mulher em beijocar um
terceiro entre os
lençoes conjugaes, se o mundo chama a isso sentimentalmente
um romance, e os poetas o cantam em estrophes d'ouro?
—E a proposito, a tua comedia, o
Lodaçal? perguntou
Carlos, que entrára um instante para a alcova de banho.
—Abandonei-a, disse o Ega. Era feroz de mais... E além
d'isso fazia-me remexer na podridão
lisboeta, mergulhar outra vez na sargeta humana... Affligia-me...
Parou diante do grande espelho, deu um olhar descontente ao seu
jaquetão claro e ás botas com mau verniz.
—Preciso enfardelar-me de novo, Carlinhos... O Poole naturalmente
mandou-te fato de verão, hei de querer examinar esses
córtes da alta
civilisação... Não ha negal-o, diabo,
esta minha linha está
chinfrim!
Passou uma escova pelo bigode, e continuou fallando para dentro, para a
alcova de banho:
—Pois, menino, eu agora o que necessito é o regimen da
Chimera. Vou-me atirar outra vez ás
Memorias. Ha de se
fazer ahi uma quantidade d'arte colossal n'esse quarto que me destinas,
diante de Velasquez... E a proposito, é necessario ir
comprimentar o velho Affonso, uma vez que elle me vai dar o
pão, o tecto, e a enxerga...
Foram encontrar Affonso da Maia no escriptorio, na sua velha poltrona,
com um antigo volume da
Illustração
franceza aberto sobre os joelhos,
mostrando as estampas a um
pequeno bonito, muito moreno, d'olho vivo, e cabello encarapinhado. O
velho ficou contentissimo ao saber que o Ega vinha por algum tempo
alegrar o Ramalhete com a sua bella phantasia.
—Já não tenho phantasia, snr. Affonso da Maia!
—Então esclarecêl-o com a tua clara
razão, disse o velho rindo. Estamos cá precisando
d'ambas as coisas, John.
Depois apresentou-lhe aquelle pequeno cavalheiro, o snr. Manoelinho,
rapazinho amavel da visinhança, filho do Vicente, mestre
d'obras; o Manoelinho vinha ás vezes animar a
solidão d'Affonso—e alli folheavam ambos livros d'estampas
e tinham conversas philosophicas. Agora, justamente, estava elle muito
embaraçado por não lhe saber explicar como
é que o general Canrobert (de quem estavam admirando o garbo
sobre o seu cavallo empinado) tendo mandado matar gente, muita gente,
em batalhas, não era mettido na cadêa...
—Está visto! exclamou o pequeno, esperto e
desembaraçado, com as mãos cruzadas atraz das
costas. Se mandou matar gente deviam-no ferrar na cadêa!
—Hein, amigo Ega! dizia Affonso rindo. Que se ha de responder a esta
bella logica? Olha, filho, agora que estão aqui estes dois
senhores que são formados em Coimbra, eu vou estudar esse
caso... Vai tu vêr os bonecos alli para cima da mesa...
E depois
vão
sendo horas d'ires lá dentro
á Joanna, para merendares.
Carlos, ajudando o pequeno a accommodar-se á mesa com o seu
grande volume d'estampas, pensava quanto o avô, com aquelle
seu amor por crianças, gostaria de conhecer Rosa!
Affonso no emtanto perguntava tambem ao Ega pela comedia. O
quê! Já abandonada? Quando
acabaria então o bravo John de fazer bocados incompletos
d'obras-primas?...—Ega queixou-se do paiz, da sua
indifferença pela arte. Que espirito original não
esmoreceria, vendo em torno de si esta espessa massa de burguezes,
amodorrada e crassa, desdenhando a intelligencia, incapaz de se
interessar por uma idéa nobre, por uma phrase bem feita?
—Não vale a pena, snr. Affonso da Maia. N'este paiz, no
meio d'esta prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de
gosto deve limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o
Herculano...
—Pois então, acudiu o velho, planta os teus legumes.
É um serviço á
alimentação publica. Mas tu nem isso fazes!
Carlos, muito sério, apoiava o Ega.
—A unica coisa a fazer em Portugal, dizia elle, é plantar
legumes, emquanto não ha uma
revolução que faça subir á
superficie alguns dos elementos originaes, fortes, vivos, que isto
ainda encerre lá no fundo. E se se vir então que
não
encerra nada, demittamo-nos logo voluntariamente da
nossa posição de paiz para que não
temos elementos, passemos a ser
uma fertil e estupida provincia hespanhola, e plantemos mais legumes!
O velho escutava com melancolia estas palavras do neto em que sentia
como uma
decomposição da vontade, e que lhe pareciam ser
apenas a glorificação da sua inercia.
Terminou por dizer:
—Pois então façam vocês essa
revolução. Mas pelo amor de Deus,
façam alguma coisa!
—O Carlos já não faz pouco, exclamou Ega, rindo.
Passeia a sua pessoa, a sua toilette e o
seu phaeton, e por esse facto educa o gosto!
O relogio Luiz XV interrompeu-os—lembrando ao Ega que devia ainda,
antes de jantar, ir
buscar a sua mala ao Hotel Hespanhol. Depois no corredor confessou a
Carlos que, antes d'ir
ao Hespanhol, queria correr ao Fillon, ao photographo, vêr se
podia tirar um bonito retrato.
—Um retrato?
—Uma surpreza que tem d'ir d'aqui a tres dias para Celorico, para o
dia d'annos d'uma
creaturinha que me adoçou o exilio.
—Oh Ega!
—É horroroso, mas então? É a filha do
padre Corrêa, filha conhecida como tal; além
d'isso
casada com um proprietario rico da visinhança, reaccionario
odioso... De modo que, bem vês,
esta dupla peça a pregar á Religião e
á Propriedade...
—Ah! n'esse caso...
—Ninguem se deve eximir, amigo, aos seus grandes deveres democraticos!
Na segunda-feira seguinte choviscava quando Carlos e Ega, no
coupé fechado, partiram
para o jantar dos Gouvarinhos. Desde a chegada da condessa Carlos
vira-a só uma vez, em
casa d'ella; e fôra uma meia hora desagradavel, cheia de
malestar, com um ou outro beijo frio,
e recriminações infindaveis. Ella
queixára-se das cartas d'elle, tão raras,
tão seccas. Não se
puderam entender sobre os planos d'esse verão, ella devendo
ir para Cintra onde já alugára
casa, Carlos fallando no dever de acompanhar o avô a Santa
Olavia. A condessa achava-o
distrahido: elle achou-a exigente. Depois ella sentou-se um instante
sobre os seus joelhos e
aquelle leve e delicado corpo pareceu a Carlos de um fastidioso peso de
bronze.
Por fim a condessa arrancára-lhe a promessa de a ir
encontrar, justamente n'essa
segunda-feira de manhã, a casa da titi, que estava em
Santarem;—porque tinha sempre o
appetite perverso e requintado de o apertar nos braços
nús, em dias que o devesse receber na
sua sala, mais tarde, e com ceremonia. Mas Carlos
faltára,—e agora, rodando para casa d'ella,
impacientavam-n'o já as queixas que teria de ouvir nos
vãos de janella, e as mentiras chôchas
que teria de balbuciar...
De repente o Ega, que fumava em silencio, abotoado no seu paletot de
verão, bateu no
joelho de Carlos, e entre risonho e sério:
—Dize-me uma coisa, se não é um segredo
sacrosanto... Quem é essa brazileira com
quem tu agora passas todas as tuas manhãs?
Carlos ficou um instante aturdido, com os olhos no Ega.
—Quem te fallou n'isso?
—Foi o Damaso que m'o disse. Isto é, o Damaso que m'o
rugiu... Porque foi de dentes
rilhados, a dar murros surdos n'um sofá do Gremio, e com uma
côr d'apoplexia, que elle me
contou tudo...
—Tudo o quê?
—Tudo. Que te apresentára a uma brazileira a quem se
atirava, e que tu, aproveitando a
sua ausencia, te metteras lá, não sahias de
lá...
—Tudo isso é mentira! exclamou o outro, já
impaciente.
E Ega, sempre risonho:
—Então «que é a verdade»,
como perguntava o velho Pilatus ao chamado Jesus Christo?
—É que ha uma senhora a quem o Damaso suppunha ter
inspirado uma paixão, como
suppõe sempre, e que, tendo-lhe adoecido a governante
ingleza com uma bronchite, me
mandou chamar para eu a tratar. Ainda não está
melhor, eu vou vêl-a todos os dias. E Madame
Gomes, que é o nome da senhora, que nem brazileira
é, não podendo tolerar o Damaso, como
ninguem o tolera, tem-lhe fechado a sua porta. Esta é a
verdade; mas talvez eu arranque as
orelhas ao Damaso!
Ega contentou-se em murmurar:
—E ahi está como se escreve a historia... vá-se
lá a gente fiar em Guizot!
Em silencio, até casa da Gouvarinho, Carlos foi ruminando a
sua cólera contra o Damaso.
Ahi estava pois rasgada por aquelle imbecil a penumbra suave e
favoravel em que se abrigára
o seu amor! Agora já se pronunciava o nome de Maria Eduarda
no Gremio: o que o Damaso
dissera ao Ega, repetil-o-hia a outros, na Casa Havaneza, no
restaurante Silva, talvez nos
lupanares: e assim o interesse supremo da sua vida seria d'ahi por
diante constantemente
perturbado, estragado, sujo pela tagarellice reles do Damaso!
—Parece-me que temos cá mais gente, disse o Ega, ao
penetrarem na ante-camara dos
Gouvarinhos, vendo sobre o canapé um paletot cinzento e
capas de sonhem.
A condessa esperava-os na salinha ao fundo, chamada «do
busto», vestida de preto, com
uma tira de velludo em volta do pescoço picada de tres
estrellas de diamantes. Uma cesta de
esplendidas flôres quasi enchia a mesa, onde se accumulavam
tambem romances inglezes, e
uma Revista dos Dois Mundos em evidencia, com a faca de marfim entre as
folhas. Além da
boa D. Maria da Cunha e da baroneza d'Alvim, havia uma outra senhora,
que nem Carlos nem Ega conheciam,
gorda e vestida d'escarlate; e de pé, conversando baixo com
o conde, de mãos atraz das costas, um cavalheiro alto,
escaveirado, grave, com uma barba rala, e a commenda da
Conceição.
A condessa, um pouco córada, estendeu a Carlos a
mão amuada e frouxa: todos os seus sorrisos foram para o
Ega. E o conde apoderou-se logo do querido Maia, para o apresentar ao
seu amigo o snr. Sousa Netto. O snr. Sousa Netto já tinha o
prazer de conhecer muito Carlos da Maia, como um medico distincto, uma
honra da Universidade... E era esta a vantagem de Lisboa, disse logo o
conde, o conhecerem-se todos de reputação, o
poder-se ter assim uma apreciação mais justa dos
caracteres. Em Paris, por exemplo, era impossivel; por isso havia tanta
immoralidade, tanta
relaxação...
—Nunca sabe a gente quem mette em casa.
O Ega, entre a condessa e D. Maria, enterrado no divan, mostrando as
estrellinhas bordadas das meias, fazia-as rir com a historia do seu
exilio em Celorico, onde se distrahia compondo sermões para
o abbade: o abbade recitava-os; e os sermões, sob uma
fórma mystica, eram de facto
affirmações revolucionarias que o santo
varão lançava com fervor, esmurrando o pulpito...
A senhora de vermelho, sentada defronte, de mãos no
regaço, escutava o Ega, com o olhar espantado.
—Imaginei que v. exc.
a tinha ido já
para Cintra,
veio dizer Carlos
á senhora baroneza, sentando-se junto d'ella. V. exc.
a
é sempre a primeira...
—Como quer o senhor que se vá para Cintra com um tempo
d'estes?
—Com effeito, está infernal...
—E que conta de novo? perguntou ella, abrindo lentamente o seu grande
leque preto.
—Creio que não ha nada de novo em Lisboa, minha senhora,
desde a morte do snr. D. João VI.
—Agora ha o seu amigo Ega, por exemplo.
—É verdade, ha o Ega... Como o acha v. exc.
a,
senhora
baroneza?
Ella nem baixou a voz para dizer:
—Olhe, eu como o achei sempre um grande presumido e não
gosto d'elle, não posso dizer
nada...
—Oh senhora baroneza, que falta de caridade!
O escudeiro annunciára o jantar. A condessa tomou o
braço de Carlos,—e, ao atravessar o
salão, entre o frouxo murmurio de vozes e o rumor lento das
caudas de sêda, pôde dizer-lhe
asperamente:
—Esperei meia hora; mas comprehendi logo que estaria entretido com a
brazileira...
Na sala de jantar, um pouco sombria, forrada de papel côr de
vinho, escurecida ainda por dois antigos paineis de paizagem tristonha,
a mesa oval, cercada de cadeiras de carvalho lavrado, resaltava alva e
fresca, com um esplendido cesto de rosas entre duas serpentinas
douradas. Carlos ficou
á direita da condessa, tendo ao lado D. Maria da Cunha, que
n'esse dia parecia um pouco mais velha, e sorria com um ar cansado.
—Que tem feito todo este tempo, que ninguem o tem visto? perguntou-lhe
ella, desdobrando o guardanapo.
—Por esse mundo, minha senhora, vagamente...
Defronte de Carlos, o snr. Sousa Netto, que tinha tres enormes coraes
no peitilho da camisa, estava já observando, emquanto
remexia a sopa, que a senhora condessa, na sua viagem ao Porto, devia
ter encontrado nas ruas e nos edificios grandes mudanças...
A condessa, infelizmente, mal tinha sahido durante o tempo que estivera
no Porto. O conde, esse, é que admirara os progressos da
cidade. E especificou-os: elogiou a vista do Palacio de Crystal;
lembrou o fecundo antagonismo que existe entre Lisboa e Porto; mais uma
vez o comparou ao dualismo da Austria e da Hungria. E
através d'estas coisas graves, lançadas d'alto,
com superioridade e com peso, a baroneza e a senhora d'escarlate, aos
dois lados d'elle, fallavam do convento das Selesias.
Carlos, no emtanto, comendo em silencio a sua sopa, ruminava as
palavras da condessa. Tambem ella conhecia já a sua
intimidade com a
«brazileira». Era evidente pois que já
andava alli, diffamante e torpe, a tagarellice do Damaso. E quando o
criado lhe offereceu Sauterne, estava decidido a bater no Damaso.
De repente ouviu o seu nome. Do fim da mesa uma voz dizia, pachorrenta
e cantada:
—O snr. Maia é que deve saber... O snr. Maia já
lá esteve.
Carlos pousou vivamente o copo. Era a senhora d'escarlate que lhe
fallava, sorrindo, mostrando uns bonitos dentes sob o buço
forte de quarentona pallida. Ninguem lh'a apresentára, elle
não sabia
quem era. Sorriu tambem, perguntou:
—Onde, minha senhora?
—Na Russia.
—Na Russia?... Não, minha senhora, nunca estive na Russia.
Ella pareceu um pouco desapontada.
—Ah, é que me tinham dito... Não sei
já quem me disse, mas era pessoa que sabia...
O conde ao fundo explicava-lhe amavelmente que o amigo Maia estivera
apenas na Hollanda.
—Paiz de grande prosperidade, a Hollanda!... Em nada inferior ao
nosso... Já conheci mesmo um hollandez que era
excessivamente instruido...
A condessa baixára os olhos, partindo vagamente um bocadinho
de pão, mais séria de repente, mais secca, como
se a voz de Carlos, erguendo-se tão tranquilla ao seu lado,
tivesse avivado os seus despeitos. Elle, então, depois de
provar devagar o seu Sauterne, voltou-se para ella, muito naturalmente
e risonho:
—Veja a senhora condessa! Eu nem tive mesmo idéa d'ir
á Russia. Ha assim uma infinidade
de coisas que se dizem e que
não são exactas... E se se faz uma
allusão ironica a ellas, ninguem comprehende a
allusão nem a ironia...
A condessa não respondeu logo, dando com o olhar uma ordem
muda ao escudeiro. Depois, com um sorriso pallido:
—No fundo de tudo que se diz ha sempre um facto, ou um bocado de facto
que é verdadeiro. E isso basta... Pelo menos a mim
basta-me...
—A senhora condessa tem então uma credulidade infantil.
Estou vendo que acredita que era uma vez uma filha d'um rei que tinha
uma estrella na testa...
Mas o conde interpellava-o, o conde queria a opinião do seu
amigo Maia. Tratava-se do livro de um inglez, o major Bratt, que
atravessára a Africa, e dizia coisas perfidamente
desagradaveis para Portugal. O conde via alli só inveja—a
inveja que nos têm todas as nações por
causa da
importancia das nossas colonias, e da nossa vasta influencia na
Africa...
—Está claro, dizia o conde, que não temos nem os
milhões, nem a marinha dos inglezes. Mas temos grandes
glorias; o infante D. Henrique é de primeira ordem; e a
tomada d'Ormuz é um primor... E eu que conheço
alguma coisa de systemas coloniaes, posso affirmar que não
ha hoje colonias nem mais susceptiveis de riqueza, nem mais crentes no
progresso, nem mais liberaes que as nossas! Não lhe parece,
Maia?
—Sim, talvez, é possivel... Ha muita verdade n'isso...
Mas Ega, que estivera um pouco silencioso, entalando de vez em quando o
monoculo no olho e sorrindo para a baroneza, pronunciou-se alegremente
contra todas essas explorações da Africa, e essas
longas missões geographicas... Porque não
se deixaria o preto socegado, na calma posse dos seus manipansos? Que
mal fazia á ordem das coisas que houvesse selvagens? Pelo
contrario, davam ao Universo uma deliciosa quantidade de pittoresco!
Com a mania franceza e burgueza de reduzir todas as regiões
e todas as raças ao mesmo typo de
civilisação, o mundo ia tornar-se d'uma
monotonia abominavel. Dentro em breve um touriste faria enormes
sacrificios, despezas sem fim, para ir a Tombuctu—para quê?
Para encontrar lá pretos de chapéo alto, a
lêr o
Jornal
dos Debates!
O conde sorria com superioridade. E a boa D. Maria, sahindo do seu vago
abatimento, movia o leque, dizia a Carlos, deleitada:
—Este Ega! Este Ega! Que graça! Que
chic!
Então Sousa Netto, pousando gravemente o talher, fez ao Ega
esta pergunta grave:
—V. exc.
a pois é em favor da
escravatura?
Ega declarou muito decididamente ao snr. Sousa Netto que era pela
escravatura. Os desconfortos da vida, segundo elle, tinham
começado com a libertação dos negros.
Só podia ser
sériamente obedecido, quem era sériamente
temido... Por isso
ninguem
agora lograva ter os seus sapatos bem envernizados, o seu arroz bem
cozido, a sua escada bem lavada, desde que não tinha criados
pretos em quem fosse licito dar vergastadas... Só houvera
duas civilisações em que o homem conseguira viver
com razoavel commodidade: a civilisação
romana, e a civilisação especial dos plantadores
da Nova Orleans. Porque? porque n'uma e n'outra existira a escravatura
absoluta, a sério, com o direito de morte!...
Durante um momento o snr. Sousa Netto ficou como desorganisado. Depois
passou o guardanapo sobre os beiços, preparou-se, encarou o
Ega:
—Então v. exc.
a n'essa idade, com a
sua intelligencia,
não acredita no Progresso?
—Eu não senhor.
O conde interveio, affavel e risonho:
—O nosso Ega quer fazer simplesmente um paradoxo. E tem
razão, tem realmente razão,
porque os faz brilhantes...
Estava-se servindo
Jambon aux
épinards. Durante um momento fallou-se de
paradoxos. Segundo o conde, quem os fazia tambem brilhantes e difficeis
de sustentar, excessivamente difficeis, era o Barros, o ministro do
reino...
—Talento robusto, murmurou respeitosamente Sousa Netto.
—Sim, pujante, disse o conde.
Mas elle agora não fallava tanto do talento do Barros como
parlamentar, como homem d'estado.
Fallava do seu espirito de sociedade, do seu
esprit...
—Ainda este inverno nós lhe ouvimos um paradoxo brilhante!
Até foi em casa da snr.
a D. Maria da
Cunha... V. exc.
a
não se lembra, snr.
a D. Maria? Esta
minha
desgraçada memoria! Ó Thereza, lembras-te
d'aquelle paradoxo do Barros? Ora sobre que era, meu Deus?... Emfim, um
paradoxo muito difficil de sustentar... Esta minha memoria!... Pois
não te lembras, Thereza?
A condessa não se lembrava. E emquanto o conde ficava
remexendo anciosamente, com a mão na testa, as suas
recordações,—a senhora
d'escarlate voltou a fallar de pretos, e de escudeiros pretos, e d'uma
cozinheira preta que tivera uma tia d'ella, a tia Villar... Depois
queixou-se amargamente dos criados modernos: desde que lhe morrera a
Joanna, que estava em casa havia quinze annos, não sabia que
fazer, andava como tonta, tinha só desgostos. Em seis mezes
já vira quatro caras novas. E umas desleixadas, umas
pretenciosas, uma immoralidade!... Quasi lhe fugiu um suspiro do peito,
e trincando desconsoladamente uma migalhinha de pão:
—Ó baroneza, ainda tens a Vicenta?
—Pois então não havia de ter a Vicenta?...
Sempre a Vicenta... A snr.
a D. Vicenta, se faz
favor.
A outra contemplou-a um instante, com inveja d'aquella felicidade.
—E é a Vicenta que te penteia?
Sim, era a Vicenta que a penteava. Ia-se fazendo velha, coitada... Mas
sempre caturra. Agora andava com a mania de aprender francez.
Já sabia verbos. Era de morrer, a Vicenta a dizer
j'aime,
tu
aimes...
—E a senhora baroneza, acudiu o Ega, começou por lhe mandar
ensinar os verbos mais necessarios.
Está claro, dizia a baroneza, que aquelle era o mais
necessario. Mas na idade da Vicenta já de pouco lhe poderia
servir!
—Ah! gritou de repente o conde, deixando quasi cahir o talher. Agora
me lembro!
Tinha-se lembrado emfim do soberbo paradoxo do Barros. Dizia o Barros
que os cães, quanto mais ensinados... Pois, não,
não era isto!
—Esta minha desgraçada memoria!... E era sobre
cães. Uma coisa brilhante, philosophica
até!
E, por se fallar de cães, a baroneza lembrou-se do
Tommy, o galgo da condessa;
perguntou por
Tommy. Já o
não via ha que tempos, esse bravo
Tommy! A condessa nem queria que se
fallasse no
Tommy, coitado!
Tinham-lhe
nascido umas coisas nos ouvidos, um horror... Mandára-o para
o Instituto, lá morrera.
—Está deliciosa esta galantine, disse D. Maria da Cunha,
inclinando-se para Carlos.
—Deliciosa.
E a baroneza, do lado, declarou tambem a galantine uma
perfeição. Com um olhar ao escudeiro,
a condessa fez servir de novo a
galantine: e apressou-se a responder ao snr. Sousa Netto, que, a
proposito de cães, lhe estava fallando da
Sociedade
protectora dos animaes. O snr. Sousa Netto
approvava-a, considerava-a como um progresso... E, segundo elle,
não seria mesmo de mais que o governo lhe désse
um subsidio.
—Que eu creio que ella vai prosperando... E merece-o, acredite a
senhora condessa que o merece... Estudei essa questão, e de
todas as sociedades que ultimamente se têm fundado entre
nós, á imitação do que se
faz lá
fóra, como a
Sociedade de
Geographia e outras, a
Protectora
dos animaes parece-me decerto uma das mais uteis.
Voltou-se para o lado, para o Ega:
—V. exc.
a pertence?
—Á
Sociedade protectora dos
animaes?... Não senhor,
pertenço a outra, á de
Geographia. Sou dos protegidos.
A baroneza teve uma das suas alegres risadas. E o conde fez-se
extremamente sério: pertencia á
Sociedade de
Geographia, considerava-a um pilar do Estado,
acreditava na sua missão civilisadora, detestava aquellas
irreverencias. Mas a condessa e Carlos tinham rido tambem:—e de
repente a frialdade que até ahi os conservára ao
lado um do outro reservados, n'uma ceremonia affectada, pareceu
dissipar-se ao calor d'esse riso trocado, no brilho dos dois olhares
encontrando-se irresistivelmente. Servira-se o Champagne, ella
tinha uma côrzinha
no rosto. O seu pé, sem ella saber como, roçou
pelo pé de Carlos; sorriram ainda outra vez;—e, como no
resto da mesa se conversava sobre uns concertos classicos que ia haver
no Price, Carlos perguntou-lhe, baixo, com uma reprehensão
amavel:
—Que tolice foi essa da
brazileira?... Quem lhe disse isso?
Ella confessou-lhe logo que fôra o Damaso... O Damaso viera
contar-lhe o enthusiasmo de Carlos por essa senhora, e as
manhãs inteiras que lá passava, todos os dias,
á mesma hora... Emfim o Damaso fizera-lhe claramente
entrevêr uma
liaison.
Carlos encolheu os hombros. Como podia ella acreditar no Damaso? Devia
conhecer-lhe bem a tagarellice, a imbecilidade...
—É perfeitamente verdade que eu vou a casa d'essa senhora,
que nem brazileira é, que é
tão portugueza como eu; mas é porque ella tem a
governante muito doente com uma bronchite, e eu sou o medico da casa.
Foi até o Damaso, elle proprio, que lá me levou
como medico!
No rosto da condessa espalhava-se um riso, uma claridade vinda do
dôce allivio que se fazia no seu
coração.
—Mas o Damaso disse-me que era tão linda!...
Sim, era muito linda. E então? Um medico, por fidelidade
ás suas affeições, e
para as não inquietar, não podia realmente, antes
de penetrar na
casa
d'uma
doente, exigir-lhe um certificado de hediondez!
—Mas que está ella cá a fazer?...
—Está á espera do marido que foi a negocios ao
Brazil, e vem ahi... É uma gente muito distincta, e creio
que muito rica... Vão-se brevemente embora, de resto, e eu
pouco sei d'elles. As minhas visitas são de medico; tenho
apenas conversado com ella sobre Paris, sobre Londres, sobre as suas
impressões de Portugal...
A condessa bebia estas palavras, deliciosamente, dominada pelo bello
olhar com que elle lh'as murmurava: e o seu pé apertava o de
Carlos n'uma reconciliação apaixonada, com a
força que desejaria pôr n'um abraço—se
alli lh'o podesse dar.
A senhora d'escarlate, no emtanto, recomeçára a
fallar da Russia. O que a assustava é que o paiz era
tão caro, corriam-se tantos perigos por causa da dynamite, e
uma constituição fraca devia
soffrer muito com a neve nas ruas. E foi então que Carlos
percebeu que ella era a esposa de Sousa Netto, e que se tratava d'um
filho d'elles, filho unico, despachado segundo secretario para a
legação de S. Petersburgo.
—O menino conhece-o? perguntou D. Maria ao ouvido de Carlos, por traz
do leque. É um horror d'estupidez... Nem francez sabe! De
resto não é peor que os outros... Que a
quantidade de mônos,
de semsaborões e de tolos que nos representam
lá
fóra até faz chorar... Pois
o menino não acha? Isto é um paiz
desgraçado.
—Peor, minha cara senhora, muito peor. Isto é um paiz
cursi.
Tinha findado a sobremesa. D. Maria olhou para a condessa com o seu
sorriso cansado; a senhora de escarlate calára-se,
já preparada, tendo mesmo afastado um pouco a cadeira; e as
senhoras ergueram-se, no momento em que o Ega, ainda ácerca
da Russia, acabava de contar uma historia ouvida a um polaco, e em que
se provava que o Czar era um estupido...
—Liberal todavia, gostando bastante do progresso! murmurou ainda o
conde, já de pé.
Os homens, sós, accenderam os seus charutos; o escudeiro
serviu o café. Então o snr. Sousa Netto, com a
sua chavena na mão, aproximou-se de Carlos para lhe exprimir
de novo o prazer que tivera em fazer o seu conhecimento...
—Eu tive tambem em tempos o prazer de conhecer o pai de v. exc.
a...
Pedro, creio que era justamente o snr. Pedro da Maia.
Começava eu
então a minha carreira publica... E o avô de v.
exc.
a, bom?
—Muito agradecido a v. exc.
a
—Pessoa muito respeitavel... O pai de v. exc.
a
era... Emfim, era o
que se chama «um elegante». Tive tambem o prazer de
conhecer a mãi de v. exc.
a...
E de repente calou-se, embaraçado, levando a
chavena aos labios. Depois,
lentamente, voltou-se para escutar melhor o Ega, que ao lado discutia
com o Gouvarinho sobre mulheres. Era a proposito da
secretária da legação da Russia,
com quem elle encontrára n'essa manhã o conde
conversando ao Calhariz. O Ega achava-a deliciosa, com o seu corpinho
nervoso e ondeado, os seus grandes olhos garços... E o
conde, que a admirava tambem, gabava-lhe sobretudo o espirito, a
instrucção. Isso, segundo o Ega, prejudicava-a:
porque o dever da mulher era primeiro ser bella, e depois ser
estupida... O conde affirmou logo com exuberancia que não
gostava tambem de litteratas: sim, decerto o lugar da mulher era junto
do berço, não na bibliotheca...
—No emtanto é agradavel que uma senhora possa conversar
sobre coisas amenas, sobre o artigo d'uma Revista, sobre... Por
exemplo, quando se publica um livro... Emfim, não direi
quando se trata d'um Guizot, ou d'um Jules Simon... Mas, por exemplo,
quando se trata d'um Feuillet, d'um... Emfim, uma senhora deve ser
prendada. Não lhe parece, Netto?
Netto, grave, murmurou:
—Uma senhora, sobretudo quando ainda é nova, deve ter
algumas prendas...
Ega protestou, com calor. Uma mulher com prendas, sobretudo com prendas
litterarias, sabendo dizer coisas sobre o snr. Thiers, ou sobre o snr.
Zola, é um monstro, um phenomeno que cumpria
recolher a uma companhia de
cavallinhos, como se soubesse trabalhar nas argolas. A mulher
só devia ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem.
—V. exc.
a decerto, snr. Sousa Netto, sabe o que
diz Proudhon?
—Não me recordo textualmente, mas...
—Em todo o caso v. exc.
a conhece perfeitamente
o seu Proudhon?
O outro, muito seccamente, não gostando decerto d'aquelle
interrogatorio, murmurou que Proudhon era um author de muita nomeada.
Mas o Ega insistia, com uma impertinencia perfida:
—V. exc.
a leu evidentemente, como
nós todos, as grandes
paginas de Proudhon sobre o amor?
O snr. Netto, já vermelho, pousou a chavena sobre a mesa. E
quiz ser sarcastico, esmagar aquelle moço, tão
litterario, tão audaz.
—Não sabia, disse elle com um sorriso infinitamente
superior, que esse philosopho tivesse escripto sobre assumptos
escabrosos!
Ega atirou os braços ao ar, consternado:
—Oh snr. Sousa Netto! Então v. exc.
a,
um chefe de familia,
acha o amor um assumpto escabroso?!
O snr. Netto encordoou. E muito direito, muito digno, fallando do alto
da sua consideravel
posição burocratica:
—É meu costume, snr. Ega, não entrar nunca em
discussões, e acatar todas as opiniões
alheias, mesmo quando ellas sejam absurdas...
E quasi voltou as costas ao Ega, dirigindo-se outra vez a Carlos,
desejando saber, n'uma voz ainda um pouco alterada, se elle agora se
fixava algum tempo mais em Portugal. Então, durante um
momento, acabando os charutos, os dois fallaram de viagens. O snr.
Netto lamentava que os seus muitos deveres não lhe
permitissem percorrer a Europa. Em pequeno fôra esse o seu
ideal; mas agora, com tantas occupações publicas,
via-se
forçado a não deixar a carteira. E alli estava,
sem ter visto sequer Badajoz...
—E v. exc.
a de que gostou mais, de Paris ou de
Londres?
Carlos realmente não sabia, nem se podia comparar... Duas
cidades tão differentes, duas
civilisações tão originaes...
—Em Londres, observou o conselheiro, tudo carvão...
Sim, dizia Carlos sorrindo, bastante carvão, sobretudo nos
fogões, quando havia frio...
O snr. Sousa Netto murmurou:
—E o frio alli deve ser sempre consideravel... Clima tão ao
norte!...
Esteve um momento mamando o charuto, de palpebra cerrada. Depois, fez
esta observação
sagaz e profunda:
—Povo pratico, povo essencialmente pratico.
—Sim, bastante pratico, disse vagamente Carlos, dando um passo para a
sala, onde se sentiam as risadas cantantes da baroneza.
—E diga-me outra coisa, proseguiu o snr. Sousa Netto, com interesse,
cheio de curiosidade intelligente. Encontra-se por lá, em
Inglaterra, d'esta litteratura amena, como entre nós,
folhetinistas, poetas de pulso?...
Carlos deitou a ponta do charuto para o cinzeiro, e respondeu, com
descaro:
—Não, não ha d'isso.
—Logo vi, murmurou Sousa Netto. Tudo gente de negocio.
E penetraram na sala. Era o Ega que assim fazia rir a baroneza, sentado
defronte d'ella, fallando outra vez de Celorico, contando-lhe uma
soirée de Celorico, com detalhes picarescos sobre as
authoridades, e sobre um abbade que tinha morto um homem e cantava
fados sentimentaes ao piano. A senhora d'escarlate, no sofá
ao lado, com os
braços cahidos no regaço, pasmava para aquella
veia do Ega como para as destrezas d'um palhaço. D. Maria,
junto da mesa, folheava com o seu ar cansado uma
Illustração; e
vendo que Carlos ao entrar procurára com o olhar a condessa,
chamou-o, disse-lhe baixo que ella fôra dentro vêr
Charlie, o
pequeno...
—É verdade, perguntou Carlos, sentando-se ao lado d'ella,
que é feito d'elle, d'esse lindo Charlie?
—Diz que tem estado hoje constipado, e um pouco murcho...
—A snr.
a D. Maria tambem me parece hoje um
pouco murcha.
—É do tempo. Eu já estou na idade em que o bom
humor ou o aborrecimento vêm só das
influencias do tempo... Na sua idade vem d'outras coisas. E a
proposito d'outras coisas: então a Cohen tambem chegou?
—Chegou, disse Carlos, mas não
tambem. O
tambem implica
combinação... E a Cohen e o Ega chegaram
realmente ambos por acaso... De resto isso é historia
antiga, é como os amores de
Helena e de Páris.
N'esse instante a condessa voltava de dentro, um pouco afogueada, e
trazendo aberto um grande leque negro. Sem se sentar, fallando
sobretudo para a mulher do snr. Sousa Netto, queixou-se logo de
não ter achado Charlie bem... Estava tão quente,
tão inquieto... Tinha quasi medo que fosse sarampo.—E
voltando-se vivamente para Carlos, com um sorriso:
—Eu estou com vergonha... Mas se o snr. Carlos da Maia quizesse ter o
incommodo de o vir vêr um instante... É odioso,
realmente, pedir-lhe logo depois de jantar para examinar um doente...
—Oh senhora condessa! exclamou elle, já de pé.
Seguiu-a. N'uma saleta, ao lado, o conde e o
snr. Sousa Netto, enterrados n'um
sofá, conversavam fumando.
—Levo o snr. Carlos da Maia para vêr o pequeno...
O conde erguera-se um pouco do sofá, sem comprehender bem.
Já ella passára. Carlos seguiu em silencio a sua
longa cauda de sêda preta
através do bilhar, deserto, com o gaz acceso, ornado de
quatro retratos de damas, da familia dos Gouvarinhos, empoadas e
sorumbaticas. Ao lado, por traz de um pesado reposteiro de fazenda
verde, era um gabinete, com uma velha poltrona, alguns livros n'uma
estante envidraçada, e uma escrevaninha onde pousava um
candieiro sob o abat-jour de renda côr de rosa. E ahi,
bruscamente, ella parou, atirou os braços ao
pescoço de Carlos, os seus labios prenderam-se aos d'elle
n'um beijo sôfrego, penetrante, completo, findando n'um
soluço de desmaio... Elle sentia aquelle lindo corpo
estremecer, escorregar-lhe entre os braços, sobre os joelhos
sem força.
—Ámanhã, em casa da titi, ás onze,
murmurou ella quando pôde fallar.
—Pois sim.
Desprendida d'elle, a condessa ficou um momento com as mãos
sobre os olhos, deixando desvanecer aquella languida vertigem, que a
fizera côr de cêra. Depois, cansada e sorrindo:
—Que doida que eu sou... Vamos vêr Charlie.
O quarto do pequeno era ao fundo do corredor.
E ahi, n'uma caminha de
ferro, junto do leito maior da criada, Charlie dormia, sereno, fresco,
com um bracinho cahido para o lado, os seus lindos caracoes loiros
espalhados no travesseiro como uma aureola d'anjo. Carlos tocou-lhe
apenas no pulso; e a criada escosseza, que trouxera uma luz de sobre a
commoda, disse, sorrindo tranquillamente:
—O menino n'estes ultimos dias tem andado muitissimo bem...
Voltaram. No gabinete, antes de penetrar no bilhar, a condessa,
já com a mão no reposteiro, estendeu ainda a
Carlos os seus labios insaciaveis. Elle colheu um rapido beijo. E, ao
passar na antecamara, onde Sousa Netto e o conde continuavam
enfronhados n'uma conversa grave, ella disse ao marido:
—O pequeno está a dormir... O snr. Carlos da Maia achou-o
bem.
O conde de Gouvarinho bateu no hombro de Carlos, carinhosamente. E
durante um momento a condessa ficou alli conversando, de pé,
a deixar-se serenar, pouco a pouco, n'aquella penumbra favoravel, antes
de affrontar a luz forte da sala. Depois, por se fallar em hygiene,
convidou o snr. Sousa Netto para uma partida de bilhar; mas o snr.
Netto, desde Coimbra, desde a Universidade, não
pegára n'um taco. E ia-se chamar o Ega quando appareceu
Telles da Gama, que chegava do Price. Logo atraz d'elle entrou o conde
de Steinbroken.
Então o resto da noite passou-se no salão, em
redor do piano. O ministro cantou melodias da Filandia. Telles da Gama
tocou
fados.
Carlos e Ega foram os derradeiros a sahir, depois de um
brandy and soda, de que a
condessa partilhou, como ingleza forte. E em baixo, no pateo, acabando
de abotoar o paletot, Carlos pôde emfim soltar a pergunta que
lhe faiscára nos labios toda a noite:
—Ó Ega, quem é aquelle homem, aquelle Sousa
Netto, que quiz saber se em Inglaterra havia tambem litteratura?
Ega olhou-o com espanto:
—Pois não adivinhaste? Não deduziste logo?
Não viste immediatamente quem n'este paiz é capaz
de fazer essa pergunta?
—Não sei... Ha tanta gente capaz...
E o Ega radiante:
—Official superior d'uma grande repartição do
Estado!
—De qual?
—Ora de qual! De qual ha de ser?... Da
Instrucção publica!
Na tarde seguinte, ás cinco horas, Carlos, que se
demorára de mais em casa da titi com a condessa, retido
pelos seus beijos interminaveis, fez voar o coupé
até á rua de S.
Francisco, olhando
a
cada momento o relogio, n'um receio de que Maria Eduarda tivesse sahido
por aquelle lindo dia de verão, luminoso e sem calor. Com
effeito á porta d'ella estava a carruagem da Companhia; e
Carlos galgou as escadas, desesperado com a condessa, sobretudo comsigo
mesmo, tão fraco, tão passivo, que assim se
deixára retomar por aquelles braços exigentes,
cada vez mais pesados, e já incapazes de o commover...
—A senhora chegou agora mesmo, disse-lhe o Domingos, que
voltára da terra havia tres dias, e ainda não
cessára de lhe sorrir.
Sentada no sofá, de chapéo, tirando as
luvas,
ella acolheu-o com uma dôce côr
no rosto, e uma carinhosa reprehensão:
—Estive á espera mais de meia hora antes de sahir...
É uma ingratidão! Imaginei que nos tinha
abandonado!
—Porquê? Está peor, miss Sarah?
Ella olhou-o, risonhamente escandalisada. Ora, miss Sarah! Miss Sarah
ia seguindo perfeitamente na sua convalescença... Mas agora
já
não eram as visitas de medico que se esperavam, eram as de
amigo; e essa tinha-lhe faltado.
Carlos, sem responder, perturbado, voltou-se para Rosa, que folheava
junto da mesa um livro novo d'estampas; e a ternura, a
gratidão infinita do seu coração, que
não ousava mostrar
á mãe, pôl-a toda na longa caricia em
que envolveu a filha.
—São historias que a mamã agora comprou,
dizia Rosa,
séria e presa ao seu livro. Hei de t'as contar depois...
São historias de bichos.
Maria Eduarda erguera-se, desapertando lentamente as fitas do
chapéo.
—Quer tomar uma chavena de chá comnosco, snr. Carlos da
Maia? Eu vinha morrendo por uma chavena de chá... Que lindo
dia, não é
verdade? Rosa, fica tu a contar o nosso passeio emquanto eu vou tirar o
chapéo...
Carlos, só com Rosa, sentou-se junto d'ella, desviando-a do
livro, tomando-lhe ambas as mãos.
—Fomos ao Passeio da Estrella, dizia a pequena. Mas a mamã
não se queria demorar, porque tu podias ter vindo!
Carlos beijou, uma depois da outra, as duas mãosinhas de
Rosa.
—E então que fizeste no Passeio? perguntou elle, depois
d'um leve suspiro de felicidade que lhe fugira do peito.
—Andei a correr, havia uns patinhos novos...
—Bonitos?...
A pequena encolheu os hombros:
—Chinfrinzitos.
Chinfrinzitos! Quem lhe tinha ensinado a dizer uma coisa tão
feia?
Rosa sorriu. Fôra o Domingos. E o Domingos dizia ainda outras
coisas assim, engraçadas... Dizia que a Melanie era uma
gaja... O
Domingos tinha muita graça.
Então Carlos advertiu-a que uma menina bonita,
com tão bonitos
vestidos, não devia dizer aquellas palavras... Assim fallava
a gente rôta.
—O Domingos não anda rôto, disse Rosa muito
séria.
E subitamente, com outra idéa, bateu as palmas, pulou-lhe
entre os joelhos, radiante:
—E trouxe-me uns grillos da Praça! O Domingos trouxe-me uns
grillos... Se tu soubesses!
Niniche tem medo dos grillos! Parece
incrivel, hein? Eu nunca vi ninguem mais medrosa...
Esteve um momento a olhar Carlos, e acrescentou, com um ar grave:
—É a mamã que lhe dá tanto mimo.
É uma pena!
Maria Eduarda entrava, ageitando ainda de leve o ondeado do cabello: e,
ouvindo assim fallar de mimo, quiz saber quem é que ella
estragava com mimo...
Niniche? Pobre
Niniche, coitada, ainda essa
manhã fôra castigada!
Então Rosa rompeu a rir, batendo outra vez as
mãos:
—Sabes como a mamã a castiga? exclamava ella, puxando a
manga de Carlos. Sabes?... Faz-lhe voz grossa... Diz-lhe em inglez:
Bad dog! dreadful dog!
Era encantadora assim, imitando a voz severa da mamã, com o
dedinho erguido, a ameaçar
Niniche. A pobre
Niniche, imaginando com
effeito que a estavam a reprehender, arrastou-se, vexada, para debaixo
do sofá. E foi necessario que Rosa
a tranquillisasse, de joelhos
sobre a pelle de tigre, jurando-lhe, por entre abraços, que
ella nem era mau cão, nem feio cão;
fôra
só para contar como fazia a mamã...
—Vai-lhe dar agua, que ella deve estar com sêde, disse
então Maria Eduarda, indo sentar-se na
sua cadeira escarlate. E dize ao Domingos que nos traga o
chá.
Rosa e
Niniche partiram correndo.
Carlos veio occupar, junto da janella, a costumada poltrona de reps.
Mas pela primeira vez, desde a sua intimidade, houve entre elles um
silencio difficil. Depois ella queixou-se de calor, desenrolando
distrahidamente o bordado; e Carlos permanecia mudo, como se para elle,
n'esse dia, apenas houvesse encanto, apenas houvesse
significação n'uma certa palavra de que os seus
labios estavam cheios e que não ousavam murmurar, que quasi
receava que fosse adivinhada apesar d'ella suffocar o seu
coração.
—Parece que nunca se acaba, esse bordado! disse elle por fim,
impaciente de a vêr, tão
serena, a occupar-se das suas lãs.
Com a talagarça desdobrada sobre os joelhos, ella respondeu,
sem erguer os olhos:
—E para que se ha de acabar? O grande prazer é andal-o a
fazer, pois não acha? Uma malha hoje, outra malha
ámanhã, torna-se assim uma companhia... Para que
se ha de querer chegar logo ao fim das coisas?
Uma sombra passou no rosto de Carlos. N'estas palavras, ditas de leve
ácerca do bordado, elle sentia uma desanimadora
allusão ao seu amor,—esse amor que lhe fôra
enchendo o coração
á maneira que a lã cobria aquella
talagarça, e que era obra simultanea das mesmas brancas
mãos. Queria ella pois conserval-o alli, arrastado como o
bordado, sempre acrescentado e sempre incompleto, guardado tambem no
cesto da costura, para ser o desafogo da sua solidão?
Disse-lhe então, commovido:
—Não é assim. Ha coisas que só
existem quando se completam, e que só então
dão a
felicidade que se procurava n'ellas.
—É muito complicado isso, murmurou ella,
córando. É muito subtil...
—Quer que lh'o diga mais claramente?
N'esse instante Domingos, erguendo o reposteiro, annunciou que estava
alli o snr. Damaso...
Maria Eduarda teve um movimento brusco de impaciencia:
—Diga que não recebo!
Fóra, no silencio, sentiram bater a porta. E Carlos ficou
inquieto, lembrando-se que o Damaso devia ter visto em baixo, passeando
na rua, o seu coupé. Santo Deus! O que elle iria tagarellar
agora, com os seus pequeninos rancores, assim humilhado! Quasi lhe
pareceu n'esse instante a existencia do Damaso incompativel com a
tranquillidade do seu amor.
—Ahi está outro inconveniente d'esta casa, dizia no emtanto
Maria Eduarda. Aqui ao lado d'esse Gremio, a dois passos do Chiado,
é demasiadamente accessivel aos importunos. Tenho agora de
repellir quasi todos os dias este assalto á minha porta!
É intoleravel.
E com uma subita idéa, atirando o bordado para o
açafate, cruzando as mãos sobre os joelhos:
—Diga-me uma coisa que lhe tenho querido perguntar... Não
me seria possivel arranjar por ahi uma casinhola, um cottage, onde eu
fosse passar os mezes de verão?... Era tão bom
para a pequena!
Mas não conheço ninguem, não sei a
quem me hei de dirigir...
Carlos lembrou-se logo da bonita casa do Craft, nos Olivaes—como
já n'outra occasião em que ella
mostrára desejos d'ir para o campo. Justamente, n'esses
ultimos tempos, Craft voltára a fallar, e mais decidido, no
antigo plano de vender a quinta, e desfazer-se das suas
collecções. Que deliciosa
vivenda para ella, artistica e campestre, condizendo tão bem
com os seus gostos! Uma
tentação atravessou-o, irresistivel.
—Eu sei com effeito d'uma casa... E tão bem situada, que
lhe convinha tanto!...
—Que se aluga?
Carlos não hesitou:
—Sim, é possivel arranjar-se...