Rappel, o intimo de Gambetta! Carlos
recordava-se de ter já encontrado aquelle patriarcha no
Price com o Alencar. Comprimentou-o tambem; o outro ergueu de novo com
uma gravidade maior o seu sombrio chapéo de carbonario. Ega
entalára
vivamente o monoculo para examinar esse lendario tio do Damaso, que
ajudava a governar a França: e depois de se despedirem de
Maria, quando a caleche já subia a rua do Alecrim e elles
atravessavam para o Hotel Central, ainda se voltou seduzido por
aquelles modos, aquellas barbas austeras de revolucionario...
—Bom typo! E que magnifico chapéo, hein! D'onde diabo o
conhece a snr.
a D. Maria?
—De Paris... Este Mr. Guimarães era muito da mãi d'ella. A
Maria já me tinha fallado
n'elle. É um pobre diabo. Nem amigo de Gambetta, nem coisa
nenhuma... Traduz noticias dos jornaes hespanhoes para o
Rappel, e morre de fome...
—Mas então, o Damaso?
—O Damaso é um trapalhão. Vamos nós
ao nosso caso... Essa immundicie que me mandaste, a
Corneta? Dize lá.
Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a
historia da immundicie.
Fôra na vespera á tarde que recebera no Ramalhete
a
Corneta.
Elle já conhecia o papelucho, já
privára mesmo com o proprietario e redactor—o Palma,
chamado Palma
Cavallão
para se
distinguir d'outro benemerito chamado Palma
Cavallinho. Comprehendeu logo
que se a prosa era do Palma a inspiração era
alheia.
O Palma nada sabia de Carlos, nem de Maria, nem da casa da rua de S.
Francisco, nem da
Toca... Não era natural
que escrevesse por deleite intellectual um documento que só
lhe podia render desgostos e bengaladas. O artigo, pois,
fôra-lhe simplesmente encommendado e pago. No terreno do
dinheiro vence sempre quem tem mais dinheiro. Por este solido principio
correra a procurar o Palma
Cavallão no seu antro.
—Tambem lhe conheces o antro? perguntou Carlos, com horror.
—Tanto não... Fui perguntar á secretaria da
Justiça a um sujeito que esteve associado com elle n'um
negocio de
Almanachs
religiosos...
Fôra pois ao antro. E encontrára as coisas
dispostas pelas mãos habeis d'uma Providencia amiga.
Primeiramente, depois de imprimir cinco ou seis numeros, a machina,
esfalfada na pratica d'aquellas maroteiras, desmanchára-se.
Além
d'isso o bom Palma estava furioso com o cavalheiro que lhe
encommendára o artigo, por divergencia na
seriissima questão de pecunia. De sorte que apenas
elle propôz comprar a tiragem do jornal—o
jornalista estendeu logo a
mão larga, d'unhas roídas, tremendo de
reconhecimento e de
esperança. Dera-lhe cinco libras que tinha, e a promessa de
mais dez...
—É caro, mas que queres? continuou o Ega. Deixei-me
atarantar, não regateei bastante... E emquanto a dizer quem
é o cavalheiro que encommendou o artigo, o Palma, coitado,
affirma que tem uma rapariga hespanhola a sustentar, que o senhorio lhe
levantou o aluguer da casa, que Lisboa está carissima, que a
litteratura n'este
desgraçado paiz...
—Quanto quer elle?
—Cem mil reis. Mas, ameaçando-o com a policia, talvez
desça a quarenta.
—Promette os cem, promette tudo, comtanto que eu tenha o nome... Quem
te parece que seja?
Ega encolheu os hombros, deu um risco lento no chão com a
bengala. E mais lentamente ainda foi considerando que o inspirador da
Corneta devia ser alguem familiar
com Castro Gomes; alguem frequentador da rua de S. Francisco; alguem
conhecedor da
Toca; alguem que
tinha, por ciume ou vingança, um desejo ferrenho de magoar
Carlos; alguem que sabia a historia de Maria; e emfim alguem que era um
covarde...
—Estás a descrever o Damaso! exclamou Carlos, pallido e
parando.
Ega encolheu de novo os hombros, tornou a riscar o chão:
—Talvez não... Quem sabe! Emfim, nós vamos
averigual-o com certeza, porque, para terminar a
negociação, fiquei de me ir encontrar com o Palma
ás tres horas no
Lisbonense... E o melhor
é vires tambem. Trazes tu dinheiro?
—Se fôr o Damaso, mato-o! murmurou Carlos.
E não trazia sufficiente dinheiro. Tomaram uma tipoia para
correr ao escriptorio do Villaça. O procurador
fôra a Mafra, a um baptisado. Carlos teve de ir pedir cem mil
reis ao velho Cortez, alfaiate do avô. Quando perto das
quatro horas se apearam á entrada do
Lisbonense, no largo de Santa Justa,
o Palma no portal, com um jaquetão de velludo
coçado e calça de casimira clara collada
á côxa, accendia um cigarro. Estendeu logo
rasgadamente a mão a Carlos—que lhe não tocou. E
Palma
Cavallão, sem se
offender, com a mão abandonada no ar, declarou que ia
justamente sahir, cançado já de esperar em cima
diante d'um
grog frio. De resto
sentia que o
snr. Maia se incommodasse em vir alli...
—Eu arranjava cá o negociosinho com o amigo Ega... Em todo
o caso, se os senhores querem, vamos lá p'ra cima para um
gabinete, que se está mais á vontade, e toma-se
outra bebida.
Subindo a escada lobrega, Carlos recordava-se de ter já
visto aquella luneta de vidros grossos, aquella cara balofa
côr de cidra... Sim, fôra em Cintra, com o
Eusebiosinho e duas hespanholas,
n'esse dia em que elle
farejára pelas estradas silenciosas, como um cão
abandonado, procurando Maria!... Isto tornou-lhe mais odioso o snr.
Palma. Em cima entraram n'um cubiculo, com uma janella gradeada por
onde resvalava uma luz suja de saguão. Na toalha da mesa,
salpicada de gordura e vinho, alguns pratos rodeavam um galheteiro que
tinha moscas no azeite. O snr. Palma bateu as palmas, mandou vir
genebra. Depois dando um grande puxão ás
calças:
—Pois eu espero que me acho aqui entre cavalheiros. Como eu
já disse cá ao amigo Ega, em todo este negocio...
Carlos atalhou-o, tocando muito significativamente com a ponteira da
bengala na borda da mesa.
—Vamos ao ponto essencial... Quanto quer o snr. Palma por me dizer
quem lhe encommendou o artigo da
Corneta?
—Dizer quem o encommendou, e proval-o! acudiu o Ega, que examinava na
parede uma gravura onde havia mulheres núas á
beira d'agua. Não nos basta o nome... O amigo Palma,
está
claro, é de toda a confiança... Mas emfim, que
diabo, não é natural que nós
acreditassemos
se o amigo nos dissesse que tinha sido o snr. D. Luiz de
Bragança!
Palma encolheu os hombros. Está visto que havia de dar
provas. Elle podia ter outros defeitos, trapalhão
não! Em negocios era todo franqueza
e lisura... E, se se
entendessem, alli as entregava logo, essas provas que lhe estavam
enchendo o bolsinho, pimponas e d'escachar! Tinha a carta do amigo que
lhe encommendára a piada: a lista das pessoas a quem se
devia mandar a
Corneta: o rascunho do artigo a
lapis...
—Quer cem mil reis por tudo isso? perguntou Carlos.
O Palma ficou um momento indeciso, ageitando as lunetas com os dedos
molles. Mas o criado veio trazer a garrafa da genebra: e
então o redactor da
Corneta offereceu a
«bebida» rasgadamente, puxou mesmo cadeiras para
aquelles cavalheiros abancarem. Ambos recusaram—Carlos de
pé junto da mesa onde terminára por pousar a
bengala, Ega passando a outra gravura onde dois frades se
emborrachavam. Depois, quando o criado sahiu, Ega acercou-se, tocou com
bonhomia no hombro do jornalista:
—Cem mil reis são uma linda somma, Palma amigo! E olhe que
se lhe offerecem por delicadeza comsigo. Porque artiguinhos como este
da
Corneta, apresentados na Boa-Hora,
levam á grilheta!... Está claro, este caso
é outro, vossê
não teve intenção d'offender; mas
levam á
grilheta!... Foi assim que o Severino marchou para a Africa. Alli no
porãosinho d'um navio, com ração de
marujo e chibatadas. Desagradavel, muito desagradavel. Por isso eu quiz
que tratassemos isto aqui, entre cavalheiros, e em amizade.
Palma, com a cabeça baixa, desfazia torrões de
assucar dentro do copo de genebra. E suspirou, findou por dizer, um
pouco murcho, que era por ser entre cavalheiros, e com amizade, que
aceitava os cem mil reis...
Immediatamente Carlos tirou da algibeira das calças um
punhado de libras, que começou a deixar
cahir em silencio uma a uma dentro d'um prato. E Palma
Cavallão, agitado
com o tinir do ouro, desabotoou logo o jaquetão, sacou uma
carteira onde reluzia um pesado monogramma de prata sob uma enorme
corôa de visconde. Os dedos tremiam-lhe; por fim desdobrou,
estendeu tres papeis sobre a mesa. Ega, que esperava, com o monoculo
sôfrego, teve um brado de triumpho. Reconhecera a letra do
Damaso!
Carlos examinou os papeis lentamente. Era uma carta do Damaso ao Palma,
curta e em calão, remettendo o artigo, recommendando-lhe
«que o apimentasse». Era o rascunho do artigo,
laboriosamente trabalhado pelo Damaso, com entrelinhas. Era a lista,
escripta pelo Damaso, das pessoas que deviam receber a
Corneta: vinha lá a
Gouvarinho, o ministro do Brazil, D. Maria da Cunha, El-Rei, todos os
amigos do Ramalhete, o Cohen, varias authoridades, e a Fancelli
prima-donna...
Palma no emtanto, nervoso, rufava com os dedos sobre a toalha, junto ao
prato onde reluziam as libras. E foi o Ega que o animou, depois de relancear
os olhos aos
documentos por cima do hombro de Carlos:
—Recolha o bago, amigo Palma! Negocios são negocios, e o
baguinho está ahi a arrefecer!
Então, ao palpar o ouro, Palma
Cavallão commoveu-se.
Palavra, caramba, se soubesse que se tratava d'um cavalheiro como o
snr. Maia não tinha aceitado o artigo! Mas
então!... Fôra o Eusebio Silveira, rapaz amigo,
que lhe viera fallar. Depois o Salcede. E ambos com muitas
lérias, e que era uma brincadeira, e que o Maia
não se importava, e isto e aquillo, e muita promessa...
Emfim deixára-se tentar. E tanto o Salcede como o Silveira
se tinham portado pulhamente.
—Foi uma sorte que se escangalhasse a machina! Senão estava
agora entalado, irra! E tinha desgosto, palavra, caramba, tinha
desgosto! Mas acabou-se! O mal não foi grande, e sempre se
fez alguma coisa pela porca da vida.
Vivamente, com um olhar, recontára o dinheiro na palma da
mão: depois esvaziou a genebra, d'um trago consolado e
ruidoso. Carlos guardára as cartas do Damaso, levantava
já o fecho da porta. Mas voltou-se ainda, n'uma derradeira
averiguação:
—Então esse meu amigo Eusebio Silveira tambem se metteu no
negocio?...
O snr. Palma, muito lealmente, afiançou que o Eusebio lhe
fallára apenas em nome do Damaso!
—O Eusebio, coitado, veio só como embaixador... Que o
Damaso e eu não vamos muito na
mesma bola. Ficámos
exquisitos, desde uma péga em casa da Biscainha. Aqui p'ra
nós, eu prometti-lhe dois estalos na cara, e elle embuchou.
Passados tempos tornámos a fallar, quando eu fazia o
High-life na
Verdade. Elle veio-me pedir com bons
modos, em nome do conde de Landim, para eu dar umas piadas catitas
sobre um baile d'annos... Depois, quando o Damaso fez tambem annos, eu
dei outra piadita. Elle pagou a ceia, ficámos mais
calhados... Mas é traste... E lá o
Eusebiosinho, coitado, veio só d'embaixador.
Sem uma palavra, sem um aceno ao Palma, Carlos virou as costas, deixou
o cubiculo. O redactor da
Corneta
ainda baixou a
cabeça para a porta; depois, sem se offender, voltou
alegremente á genebra, dando outro puxão
ás
calças. Ega no emtanto accendia devagar o charuto.
—Vossê agora é que redige o jornal todo, Palma?
—O Silvestre, tambem...
—Que Silvestre?
—O que está com a
Pingada. Vossê
não conhece, creio eu. Um rapazola magro, que não
é feio... Semsaborão, escreve uma palhada... Mas
sabe coisas da sociedade. Esteve um tempo com a viscondessa de
Cabellas, que elle chama a sua
cabelluda... Que o Silvestre
ás vezes tem graça! E sabe, sabe coisas da
sociedade, assim maroteiras de fidalgos,
amigações, pulhices...
Vossê nunca leu nada d'elle? Chôcho. Tenho sempre
de lhe
arranjar o
estylo... N'este numero é que havia um folhetimzito meu,
catita, cá á moderna, como eu gósto,
alli com a piadinha realista a bater... Emfim fica para outra vez. E
outra coisa, Ega, olhe que lhe agradeço. Quando quizer, eu e
a
Corneta ás ordens!
Ega estendeu-lhe a mão:
—Obrigado, digno Palma! E
adiós!
—Pues vaya usted con Dios, Don Juanito! exclamou logo o benemerito
homem com infinito
salero.
Em baixo Carlos esperava, dentro do coupé.
—E agora? perguntou Ega, á portinhola.
—Agora salta para dentro e vamos liquidar com o Damaso...
Carlos já esboçára summariamente o
plano d'essa liquidação. Queria mandar desafiar o
Damaso como author comprovado d'um artigo de jornal que o injuriava. O
duello devia ser á espada ou ao florete, um d'esses ferros
cujo lampejo, na sala d'armas do Ramalhete, fazia empallidecer o
Damaso. Se contra toda a verosimilhança elle se batesse,
Carlos fazia-lhe algures, entre a bochecha e o ventre, um furo que o
cravasse mezes na cama. Senão a unica
explicação que Carlos
aceitaria do snr. Salcede seria um documento em que elle escrevesse
esta coisa simples: «Eu abaixo assignado declaro que sou um
infame.» E para estes serviços Carlos contava com
o Ega.
—Agradeço! agradeço! Vamos a isso! exclamava
o Ega esfregando
as mãos, faiscando de jubilo.
No emtanto, dizia elle, a etiqueta funebre reclamava outro padrinho; e
lembrou o Cruges, moço passivo e malleavel. Mas era
impossivel encontrar o
maestro,
porque invariavelmente a
criada affirmava que o menino Victorino não estava em
casa... Decidiram ir ao Gremio, mandar de lá um bilhete
chamando o Cruges—«para um caso urgente d'amizade e
d'arte».
—Com quê, dizia o Ega continuando a esfregar as
mãos emquanto a tipoia trotava para a rua de S. Francisco,
com quê, demolir o nosso Damaso?
—Sim, é necessario acabar com esta
perseguição. Chega a ser ridiculo... E com uma
estocada, ou com a carta, temos esse biltre aniquilado por algum tempo.
Eu preferia a estocada. Senão deixo-te a ti arranjar os
termos d'uma carta forte...
—Has de ter uma boa carta! disse o Ega com um sorriso de ferocidade.
No Gremio, depois de redigirem o bilhete ao Cruges, vieram esperar por
elle na sala das
Illustrações.
O conde de Gouvarinho e Steinbroken conversavam de pé, no
vão d'uma janella. E foi uma surpreza. O ministro da
Filandia abriu os braços para o
cher
Maia, que elle
não vira desde a partida d'Affonso para Santa Olavia.
Gouvarinho acolheu o Ega risonhamente, reatando uma certa camaradagem
que entre elles se formára n'esse verão, em
Cintra: mas o aperto de mão a Carlos foi sêcco
e curto. Já
dias antes, tendo-se encontrado no Loreto, o Gouvarinho
murmurára de leve e de passagem «um como
está, Maia?» em que se sentia arrefecimento. Ah!
já não eram essas
effusões, essas palmadas enternecidas pelos hombros, dos
tempos em que Carlos e a condessa fumavam cigarettes na cama da titi em
Santa Isabel. Agora que Carlos abandonára a snr.
a
condessa
de Gouvarinho, a rua de S. Marçal e o commodo
sofá em que ella cahia com um rumor de saias amarrotadas—o
marido amuava, como abandonado tambem.
—Tenho tido saudade das nossas bellas discussões em Cintra!
disse elle, dando ao Ega a palmada carinhosa nas costas que outr'ora
pertencia ao Maia. Tivemol-as de primeira ordem!
Eram realmente «pégas tremendas» no
pateo do Victor sobre litteratura, sobre religião, sobre
moral... Uma noite mesmo tinham-se zangado por causa da divindade de
Jesus.
—É verdade! acudiu o Ega. Vossê n'essa noite
parecia ter ás costas uma opa de irmão do Senhor
dos Passos!
O conde sorriu. Irmão do Senhor dos Passos não,
graças a Deus! Ninguem melhor do que elle sabia que n'esses
sublimes episodios do Evangelho reinava bastante lenda... Mas emfim
eram lendas que serviam para consolar a alma humana. É o que
elle objectára n'essa noite ao amigo Ega... Sentiam-se a
philosophia e o racionalismo capazes de consolar a mãi que
chora? Não.
Então...
—Em todo o caso, tivemol-as brilhantes! concluiu elle olhando o
relogio. E, eu confesso, uma discussão elevada sobre
religião, sobre
metaphysica, encanta-me... Se a politica me deixasse vagares
dedicava-me á philosophia... Nasci para isso, para
aprofundar problemas.
Steinbroken no emtanto, esticado na sua sobrecasaca azul, com um
raminho d'alecrim ao peito, tomára as mãos de
Carlos:
—Mais vous êtes encore devenu plus fort!... Et Affonso da
Maia, toujours dans ses terres?... Est-ce qu'on ne va pas le voir un
peu cet hiver?
E immediatamente lamentou não ter visitado Santa Olavia. Mas
quê! a familia real
installára-se em Cintra; elle fôra
forçado a acompanhal-a, fazer
a sua côrte... Depois necessitára ir de fugida a
Inglaterra d'onde acabava de chegar, havia dias.
Sim, Carlos sabia, vira na
Gazeta
Illustrada...
—Vous avez lu ça? Oh oui, on a été
très aimable, très aimable pour moi à
la
Gazette...
Tinham-lhe annunciado a partida, depois a chegada, com palavras de
amizade particularmente bem escolhidas. Nem podia deixar de ser, dada
esta affeição sincera que liga Portugal e a
Filandia... «Mais enfin on avait été
charmant,
charmant!...»
—Seulement—ajuntou elle, sorrindo com finura e voltando-se tambem
para o Gouvarinho—on a fait une petite erreur... On a dit que
j'étais venu de Southampton par le
Royal
Mail... Ce n'est
pas vrai, non! Je me suis
embarqué à Bordeaux dans les
Messageries. J'ai
même pensé à écrire
à Mr. Pinto, redacteur de la
Gazette,
qui est un charmant garçon... Puis, j'ai reflechi, je me
suis dit: «Mon Dieu, on va croire que je veux donner une
leçon d'exactitude à la
Gazette, c'est très
grave...» Alors, voilà, très
prudemment, j'ai gardé le silence... Mais enfin c'est une
erreur: je me suis embarqué à Bordeaux.
Ega murmurou que a Historia se encarregaria um dia de rectificar esse
facto. O ministro sorria modestamente, fazendo um gesto em que parecia
desejar, por polidez, que a Historia se não incommodasse. E
então o Gouvarinho, que accendêra o charuto,
espreitára outra vez o relogio, perguntou se os amigos
tinham ouvido alguma coisa do ministerio e da crise.
Foi uma surpreza para ambos, que não tinham lido os
jornaes... Mas, exclamou logo o Ega, crise porquê, assim em
pleno remanso, com as camaras fechadas, tudo contente, um
tão lindo tempo d'outono?
O Gouvarinho encolheu os hombros com reserva. Houvera na vespera,
á noitinha, uma reunião de ministros; n'essa
manhã o presidente do conselho fôra ao
paço, fardado, determinado a
«largar o poder»... Não sabia mais.
Não
conferenciára com os seus amigos, nem mesmo fôra
ao seu Centro. Como n'outras occasiões de crise,
conservára-se
retirado, calado, esperando... Alli estivera toda a manhã,
com o seu
charuto, e a
Revista dos
Dois Mundos.
Isto parecia a Carlos uma abstenção pouco
patriotica...
—Porque emfim, Gouvarinho, se os seus amigos subirem...
—Exactamente por isso, acudiu o conde com uma côr viva na
face, não desejo pôr-me
em evidencia... Tenho o meu orgulho, talvez motivos para o ter... Se a
minha experiencia, a minha palavra, o meu nome são
necessarios, os meus correligionarios sabem onde eu estou, venham
pedir-m'os...
Calou-se, trincando nervosamente o charuto. E Steinbroken, perante
estas coisas politicas, começou logo a retrahir-se para o
fundo da janella, limpando os vidros da luneta, recolhido,
já impenetravel, no grande recato neutral que competia
á Filandia. Ega no emtanto não sahia do seu
espanto. Mas porque cahia, porque cahia assim um governo com maioria
nas camaras, socego no paiz, o apoio do exercito, a
benção da Igreja, a
protecção do
Comptoir
d'Escompte?...
O Gouvarinho correu devagar os dedos pela pera, e murmurou esta
razão:
—O ministerio estava gasto.
—Como uma vela de sebo? exclamou Ega, rindo.
O conde hesitou. Como uma vela de sebo não diria... Sebo
subentendia obtusidade... Ora n'este
ministerio sobrava o talento.
Incontestavelmente havia lá talentos pujantes...
—Essa é outra! gritou Ega atirando os braços ao
ar. É extraordinario! N'este abençoado paiz todos
os politicos têm
immenso
talento. A opposição confessa
sempre que os ministros, que ella cobre d'injurias, têm,
á parte os disparates que fazem, um
talento
de primeira ordem!
Por outro lado a maioria admitte que a opposição,
a quem ella constantemente recrimina pelos disparates que fez,
está cheia de
robustissimos
talentos! De resto todo o mundo concorda que o paiz
é uma choldra. E resulta portanto este facto supra-comico:
um paiz governado
com immenso
talento, que é de todos na Europa, segundo
o consenso unanime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a
vêr: que como os talentos sempre falham, se experimentem uma
vez os imbecis!
O conde sorria com bonhomia e superioridade a estes exageros de
phantasista. E Carlos, ancioso por ser amavel, atalhou, accendendo o
charuto no d'elle:
—Que pasta preferiria você, Gouvarinho, se os seus amigos
subissem? A dos Estrangeiros, está claro...
O conde fez um largo gesto d'abnegação. Era pouco
natural que os seus amigos necessitassem da sua experiencia politica.
Elle tornára-se sobretudo um homem d'estudo e de theoria.
Além d'isso não sabia bem se as occupações da sua
casa, a sua
saude, os seus habitos lhe permittiriam tomar o fardo do governo. Em
todo o caso, decerto, a pasta dos Estrangeiros não o
tentava...
—Essa, nunca! proseguiu elle, muito compenetrado. Para se poder fallar
d'alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, é
necessario ter por traz um exercito de duzentos mil homens e uma
esquadra com torpedos. Nós, infelizmente, somos fracos... E
eu, para papeis subalternos, para que venha um Bismarck, um Gladstone,
dizer-me «ha de ser assim», não
estou!... Pois não
acha, Steinbroken?
O ministro tossiu, balbuciou:
—Certainement... C'est très grave... C'est excessivement
grave...
Ega então affirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu
interresse geographico pela Africa, faria um ministro da Marinha
iniciador, original, rasgado...
Toda a face do conde reluzia, escarlate de prazer.
—Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colonias todas
as coisas bellas, todas as coisas grandes estão
feitas. Libertaram-se
já os escravos; deu-se-lhes já uma sufficiente
noção da moral christã; organisaram-se
já os
serviços aduaneiros... Emfim o melhor está feito.
Em todo o caso ha ainda detalhes interessantes a terminar... Por
exemplo, em Loanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque
mais de progresso
a dar. Em Loanda precisava-se bem um theatro normal como elemento
civilisador!
N'esse momento um criado veio annunciar a Carlos—que o snr. Cruges
estava em baixo, no portal, á espera. Immediatamente os dois
amigos desceram.
—Extraordinario, este Gouvarinho! dizia o Ega na escada.
—E este, observou Carlos com um immenso desdem de mundano,
é um dos melhores que ha na politica. Pensando mesmo bem, e
mettendo a roupa branca em linha de conta, este é talvez o
melhor!
Acharam o Cruges á porta, de jaquetão claro,
embrulhando um cigarro. E Carlos pediu-lhe logo que voltasse a casa
vestir uma sobrecasaca preta. O maestro arregalava os olhos.
—É jantar?
—É enterro.
E rapidamente, sem alludir a Maria, contaram ao maestro que o Damaso
publicára n'um jornal, a
Corneta do
Diabo (cuja tiragem
elles tinham supprimido, não sendo possivel por isso mostrar
o numero immundo) um artigo em que a coisa mais dôce que se
chamava a Carlos era
pulha.
Portanto Ega e elle Cruges iam a casa do Damaso pedir-lhe a honra ou a
vida.
—Bem, rosnou o maestro. Que tenho eu a fazer?... Que eu d'essas coisas
não entendo.
—Tens, explicou Ega, d'ir vestir uma sobrecasaca
preta e franzir o
sobr'olho. Depois vir commigo; não dizer nada; tratar o
Damaso por «v. exc.
a»;
assentar em tudo o que eu
propuzer; e nunca desfranzir o sobr'olho nem despir a sobrecasaca...
Sem outra observação, Cruges partiu a cobrir-se
de ceremonia e de negro. Mas no meio da rua retrocedeu:
—Ó Carlos, olha que eu fallei lá em
casa. Os quartos do primeiro andar estão livres, e forrados
de papel novo...
—Obrigado. Vai-te fazer sombrio, depressa!...
O maestro
abalára, quando diante do Gremio estacou a todo o trote uma
caleche. De dentro saltou o Telles da Gama que, ainda com a
mão no fecho da portinhola, gritou aos dois amigos:
—O Gouvarinho? está lá em cima?
—Está... Novidade fresca?
—Os homens cahiram. Foi chamado o Sá Nunes!
E enfiou pelo pateo, correndo. Carlos e Ega continuaram devagar
até ao portão do Cruges. As janellas do primeiro
andar estavam abertas, sem cortinas. Carlos, erguendo para
lá os olhos, pensava n'essa tarde das corridas em que elle
viera no phaeton, de Belem, para vêr aquellas janellas: ia
então escurecendo, por traz dos
stores fechados surgira uma luz,
elle contemplára-a como uma estrella inaccessivel... Como
tudo passa!
Retrocederam para o Gremio. Justamente o
Gouvarinho e Telles atiravam-se
á pressa para dentro da caleche que esperára. Ega
parou, deixou cahir os braços:
—Lá vae o Gouvarinho batendo para o Poder, a mandar
representar a
Dama das
Camelias no sertão! Deus se amerceie de
nós!
Mas o Cruges appareceu emfim de chapéo alto, entalado n'uma
sobrecasaca solemne, com botins novos de verniz. Apilharam-se logo na
tipoia estreita e dura. Carlos ia leval-os a casa do Damaso. E como
queria ainda jantar nos Olivaes, esperaria por elles, para saber o
resultado «do chinfrin», no
jardim da Estrella, junto ao coreto.
—Sêde rapidos e medonhos!
A casa do Damaso, velha e d'um andar só, tinha um enorme
portão verde, com um arame pendente que fez resoar dentro
uma sineta triste de convento: e os dois amigos esperaram muito antes
que apparecesse, arrastando as chinelas, o gallego achavascado que o
Damaso (agora livre de Carlos e das suas pompas) já
não trazia torturado
em botins crueis de verniz. A um canto do pateo uma portinha abria
sobre a luz d'um quintal, que parecia ser um deposito de caixotes, de
garrafas vazias e de lixo.
O gallego, que reconhecera o snr. Ega, conduziu-os logo, por uma
escadinha esteirada, a um
corredor largo, escuro, com
cheiro a môfo. Depois, batendo o chinelo, correu ao fundo,
onde alvejava a claridade d'uma porta entreaberta. Quasi immediatamente
Damaso gritou de lá:
—Ó Ega, é você? Entre para aqui,
homem! Que diabo!... Eu estou-me a vestir...
Embaraçado com estes brados de intimidade e tanta
effusão, Ega ergueu a voz da sombra do corredor, gravemente:
—Não tem duvida, nós esperamos...
O Damaso insistia, á porta, em mangas de camisa, cruzando os
suspensorios:
—Venha você, homem! Que diabo, eu não tenho
vergonha, já estou de calças!
—Ha aqui uma pessoa de ceremonia, gritou o Ega para findar.
A porta ao fundo cerrou-se, o gallego veio abrir a sala. O tapete era
exactamente igual aos dos quartos de Carlos no Ramalhete. E em redor
abundavam os vestigios da antiga amizade com o Maia: o retrato de
Carlos a cavallo, n'um vistoso caixilho de flôres em
faiança: uma das colchas da India das senhoras Medeiros,
branca e verde, enroupando o piano, arranjada por Carlos com alfinetes:
e sobre um contador hespanhol, debaixo de redoma, um sapatinho de setim
de mulher, novo, que o Damaso comprára no Serra, por ter
ouvido um dia a Carlos que «em todo o quarto de rapaz deve
apparecer, discretamente disposta, alguma reliquia d'amor...»
Sob estes retoques de
chic, dados
á pressa sob a influencia do Maia, impertigava-se a
sólida mobilia do pai Salcede, de mogno e velludo azul; a
console de marmore, com um relogio de bronze dourado, onde Diana
acariciava um galgo; o grande e dispendioso espelho, tendo entalado no
caixilho uma fila de bilhetes de visita, de retratos de cantoras, de
convites para
soirées. E Cruges ia
examinar estes documentos, quando os passos alegres do Damaso soaram no
corredor. O maestro correu logo a perfilar-se ao lado do Ega, diante do
canapé de velludo, teso, commodo, com o seu
chapéo alto na mão.
Ao vêl-o, o bom Damaso, que se abotoára todo n'uma
sobrecasaca azul, florida por um botão de camelia, atirou
risonhamente os braços ao ar:
—Então esta é que é a pessoa de
ceremonia? Sempre vocês têm coisas! E eu a
pôr
sobrecasaca... Por pouco que não lhe afinfo com o habito de
Christo!...
Ega atalhou, muito sério:
—O Cruges não é de ceremonia, mas o motivo que
aqui nos traz é delicado e grave, Damaso.
Damaso arregalou os olhos, reparando emfim n'aquelle estranho modo dos
seus amigos, ambos de negro, seccos, tão solemnes. E recuou,
todo o sorriso se lhe apagou na face.
—Que diabo é isso? Sentem-se, sentem-se vocês...
A voz apagava-se-lhe tambem. Pousado á borda
d'uma poltrona baixa, junto d'uma
mesa coberta d'encadernações ricas, com as
mãos nos
joelhos, ficou esperando, n'uma anciedade.
—Nós vimos aqui, começou Ega, em nome do nosso
amigo Carlos da Maia...
Uma brusca onda de sangue cobriu a face rechonchuda do Damaso
até á risca do cabello encaracolado a ferro. E
não achou uma palavra, attonito, suffocado, esfregando
estupidamente os joelhos.
Ega proseguiu, lento, direito no canapé:
—O nosso amigo Carlos da Maia queixa-se de que o Damaso publicou, ou
fez publicar, um artigo extremamente injurioso para elle e para uma
senhora das relações d'elle na
Corneta do Diabo...
—Na
Corneta, eu? acudiu o Damaso,
balbuciando. Que
Corneta? Nunca
escrevi em
jornaes, graças a Deus! Ora essa, a
Corneta!...
Ega, muito friamente, tirou do bolso um masso de papeis. E veio
collocal-os um por um, ao lado do Damaso, na mesa, sobre um magnifico
volume da
Biblia de Doré.
—Aqui está a sua carta remettendo ao Palma
Cavallão o rascunho do artigo... Aqui está, pela
sua letra igualmente, a lista das pessoas a quem se devia mandar a
Corneta, desde o Rei
até á Fancelli... Além d'isso
nós temos as
declarações do Palma. O Damaso é
não só o inspirador, mas
materialmente o auctor do artigo... O nosso amigo Carlos
da Maia exige, pois, como injuriado, uma
reparação pelas armas...
Damaso deu um salto da poltrona, tão arrebatado—que
involuntariamente Ega recuou, no receio d'uma brutalidade. Mas
já o Damaso estava no meio da sala, esgazeado, com os
braços tremulos no ar:
—Então o Carlos manda-me desafiar? A mim?... Que lhe fiz
eu? Elle a mim é que me pregou uma partida!... Foi elle,
vocês sabem perfeitamente que foi elle!...
E desabafou, n'um prodigioso fluxo de loquacidade, atirando palmadas ao
peito, com os olhos marejados de lagrimas. Fôra Carlos,
Carlos, que o desfeitiára a elle, mortalmente! Durante todo
o inverno tinha-o perseguido para que elle o apresentasse a uma senhora
brazileira muito
chic,
que vivia em Paris, e que lhe fazia olho... E elle, bondoso como era,
promettia, dizia: «Deixa estar, eu te apresento!»
Pois, senhores, que faz Carlos? Aproveita uma occasião
sagrada, um momento de luto, quando elle Damaso fôra ao Norte
por causa da morte do tio, e mette-se dentro da casa da brazileira... E
tanto intriga, que leva a pobre senhora a fechar-lhe a sua porta, a
elle, Damaso, que era intimo do marido, intimo de
tu!
Caramba, elle é que devia mandar desafiar Carlos! Mas
não! fôra prudente, evitára o escandalo
por causa do snr. Affonso da Maia... Queixára-se de Carlos,
é
verdade... Mas no Gremio, na Casa Havaneza, entre
rapaziada amiga... E no fim Carlos
préga-lhe uma d'estas!
—Mandar-me desafiar, a mim! A mim, que todo o mundo conhece!...
Calou-se, engasgado. E Ega, estendendo a mão, observou
placidamente que se desviavam do ponto vivo da questão. O
Damaso concebera, rascunhára, pagára o artigo da
Corneta. Isso não o
negava, nem o podia negar: as provas estavam alli, abertas sobre a
mesa: elles tinham além d'isso a
declaração do Palma...
—Esse desavergonhado! gritou o Damaso, levado n'outra rajada
d'indignação que o fez
redemoinhar, estonteado, tropeçando nos moveis. Esse
descarado do Palma! Com esse é que eu me quero
vêr!... Lá a questão com o Carlos
não vale nada, arranja-se, somos todos rapazes finos... Com
o Palma é que é! Esse traidor é
que eu quero rachar! Um homem a quem eu tenho dado ás meias
libras, aos sete mil reis! E ceias, e tipoias! Um ladrão que
pediu o relogio ao Zeferino para figurar n'um baptisado, e
pôl-o no prégo!... E
faz-me uma d'estas!... Mas hei de escavacal-o! Onde é que
você o viu, Ega? Diga lá, homem!
Que quero ir procural-o, hoje mesmo, correl-o a chicotadas...
Traições não, não admitto a
ninguem!
Ega, com a tranquillidade paciente de quem sente a prêsa
certa, lembrou de novo a inutilidade d'aquellas
divagações:
—Assim nunca acabamos, Damaso... O nosso
ponto é este: o Damaso
injuriou Carlos da Maia: ou se retracta publicamente d'essa injuria, ou
dá uma reparação pelas armas...
Mas o Damaso, sem escutar, appellava desesperadamente para o Cruges,
que se não movera do sofá de velludo, esfregando,
um contra o outro, com um ar arripiado e de dôr, os dois
sapatos novos de verniz.
—Aquelle Carlos! Um homem que se dizia meu amigo intimo! Um homem que
fazia de mim tudo! Até lhe copiava coisas... Você
bem viu, Cruges. Diga! Falle, homem! Não sejam
vocês todos contra mim!... Até ás vezes
ia á
alfandega despachar-lhe caixotes...
O maestro baixava os olhos, vermelho, n'um infinito mal-estar. E Ega,
por fim, já farto, lançou uma
intimação derradeira:
—Em resumo, Damaso, desdiz-se ou bate-se?
—Desdizer-me? tartamudeou o outro, impertigando-se, n'um penoso
esforço de dignidade, a tremer todo. E de quê? Ora
essa! É boa! Eu sou lá homem que me desdiga!
—Perfeitamente, então bate-se...
Damaso cambaleou para traz, desvairado:
—Qual bater-me! Eu sou lá homem que me bata! Eu
cá é a sôcco. Que venha para
cá, não tenho medo d'elle, arrombo-o...
Dava pulinhos curtos de gordo, através do tapete, com os
punhos fechados e em riste. E queria Carlos alli para o escavacar!
Não lhe faltava mais
senão bater-se... E então duellos em Portugal,
que acabavam sempre por troça!
Ega no emtanto, como se a sua missão estivesse finda,
abotoára a sobrecasaca e recolhia os papeis espalhados sobre
a
Biblia. Depois,
serenamente, fez a ultima declaração de que
fôra
incumbido. Como o snr. Damaso Salcede recusava retractar-se e rejeitava
tambem uma reparação pelas armas, Carlos da Maia
prevenia-o de que em qualquer parte que o encontrasse d'ahi por diante,
fosse uma rua, fosse um theatro, lhe escarraria na face...
—Escarrar-me! berrou o outro, livido, recuando, como se o escarro
já viesse no ar.
E de repente, espavorido, coberto de bagas de suor, precipitou-se sobre
o Ega, agarrando-lhe as mãos, n'uma agonia:
—Ó João, ó João, tu, que
és meu amigo, por quem és, livra-me d'esta
entaladella!
Ega foi generoso. Desprendeu-se d'elle, empurrou-o brandamente para a
poltrona, calmando-o com palmadinhas fraternaes pelo hombro. E declarou
que, desde que Damaso appellava para a sua amizade, desapparecia o
enviado de Carlos necessariamente exigente, ficava só o
camarada, como no tempo dos Cohens e da
villa
Balzac. Queria pois o amigo Damaso um conselho? Era assignar uma carta
affirmando que tudo o que fizera publicar na
Corneta sobre o snr.
Carlos da Maia e certa senhora fôra
invenção falsa e
gratuita. Só isto o salvava. D'outro modo, Carlos um dia, no
Chiado, em S. Carlos,
escarrava-lhe na cara. E, dado esse desastre, Damasosinho, a
não querer ser apontado em Lisboa como um incomparavel
cobarde, tinha de se bater á espada ou á
pistola...
—Ora, em qualquer d'esses casos, você era um homem morto.
O outro escutava, esbarrondado no fundo do assento de velludo, com a
face emparvecida para o Ega. Alargou mollemente os braços,
murmurou da profundidade do seu terror:
—Pois sim, eu assigno, João, eu assigno...
—É o que lhe convém... Arranje então
papel. Você está perturbado, eu mesmo redijo.
Damaso ergueu-se, com as pernas frouxas, atirando um olhar tonto e vago
por sobre os moveis:
—Papel de carta? É para carta?
—Sim, está claro, uma carta ao Carlos!
Os passos do desgraçado perderam-se emfim no corredor,
pesados e succumbidos.
—Coitado! suspirou o Cruges levando de novo, com um ar de arripio, a
mão aos sapatos.
Ega lançou-lhe um
chut
severo. Damaso voltava com o seu sumptuoso papel de monogramma e
corôa. Para envolver em silencio e segredo aquelle transe
amargo, cerrou o reposteiro; e o vasto pano de velludo, desdobrando-se,
mostrou o brazão de Salcede, onde havia um leão,
uma torre,
um braço armado, e por baixo, a letras d'ouro, a sua
formidavel divisa:
Sou
forte! Immediatamente
Ega afastou os livros na
mesa, abancou, atirou largamente ao papel a data e a adresse do
Damaso...
—Eu faço o rascunho, você depois
copía...
—Pois sim! gemeu o outro, de novo, aluido na poltrona, passando o
lenço pelo pescoço e pela
face.
Ega no emtanto escrevia muito lentamente, com amor. E n'aquelle
silencio, que o embaraçava, Cruges terminou por se erguer,
foi coxeando até ao espelho onde se desenrolavam, entalados
na frincha do caixilho, bilhetes e photographias. Eram as glorias
sociaes do Damaso, os documentos do
chic a
valer que era a
paixão da sua vida: bilhetes com titulos, retratos de
cantoras, convites para bailes, cartas de entrada no Hippodromo,
diplomas de membro do Club Naval, de membro do Jockey Club, de membro
do Tiro aos Pombos:—até pedaços cortados de
jornaes
annunciando os annos, as partidas, as chegadas do snr. Salcede,
«um dos nossos mais distinctos
sportmen».
Desventuroso
sportman! Aquella folha
de papel, onde o Ega rascunhava, ia-o enchendo pouco a pouco d'um
terror angustioso. Santo Deus! Para que eram tantos apuros n'uma carta
ao Carlos, um rapaz intimo? Uma linha bastaria:—«Meu querido
Carlos, não te zangues, desculpa, foi
brincadeira.» Mas não! Toda uma pagina de letra
miuda com entrelinhas! Já mesmo Ega voltava a
folha, molhava a penna, como se
d'ella devessem escorrer sem cessar coisas humilhadoras! Não
se conteve, estendeu a face por sobre a mesa, até o papel:
—Ó Ega, isso não é para publicar,
pois não é verdade?
Ega reflectiu, com a penna no ar:
—Talvez não... Estou certo que não. Naturalmente
Carlos, vendo o seu arrependimento, deixa isto esquecido no fundo d'uma
gaveta.
Damaso respirou com allivio. Ah, bem! Isso parecia-lhe mais decente
entre amigos! Que lá isso, mostrar o seu arrependimento,
até elle desejava! Com effeito o artigo fôra uma
tolice... Mas então!
Em questões de mulheres era assim, assomado, um
leão...
Abanou-se com o lenço, desanuviado, recomeçando a
achar sabôr á vida. Findou mesmo por accender um
charuto, levantar-se sem rumor, acercar-se do Cruges—que, coxeando
através das curiosidades da sala, encalhára sobre
o piano e sobre os livros de musica, com o pé dorido no ar.
—Então tem-se feito alguma coisa de novo, Cruges?
Cruges, muito vermelho, resmungou que não tinha feito nada.
Damaso ficou alli um momento, a mascar o charuto. Depois, atirando um
olhar inquieto á mesa onde o Ega rascunhava
interminavelmente, murmurou, sobre o hombro do maestro:
—Uma entaladella assim! Eu é por causa da gente
conhecida... Senão não me importava! Mas veja
você tambem se arranja as coisas e se o Carlos deixa aquillo
na gaveta...
Justamente Ega erguera-se com o papel na mão e caminhava
para o piano, devagar, relendo baixo.
—Ficou optimo, salva tudo! exclamou por fim. Vai em fórma
de carta ao Carlos, é mais
correcto. Você depois copía e assigna.
Ouça
lá: «Exc.
mo
snr....» Está
claro,
você dá-lhe excellencia, porque é um
documento d'honra... «Exc.
mo
snr.—Tendo-me v. exc.
a,
por
intermédio dos seus amigos João da Ega e
Victorino Cruges, manifestado a indignação que
lhe causára um certo artigo da
Corneta do
Diabo de que eu
escrevi o rascunho e de que promovi a publicação,
venho declarar francamente a v. exc.
a que esse
artigo, como agora
reconheço, não continha
senão falsidades e incoherencias: e a minha desculpa unica
está em que o compuz e enviei á
redacção da
Corneta no momento de me achar no
mais completo estado d'embriaguez...»
Parou. E nem se voltou para o Damaso, que deixára pender os
braços, rolar o charuto no
tapete, varado. Foi ao Cruges que se dirigiu, entalando o monoculo:
—Achas talvez forte?... Pois eu redigi assim por ser justamente a
unica maneira de resalvar a dignidade do nosso Damaso.
E desenvolveu a sua idéa, mostrando quanto era generosa e
habil—emquanto o Damaso, aparvalhado, apanhava o charuto. Nem Carlos
nem elle queriam que o Damaso n'uma carta (que se podia tornar publica)
declarasse «que
calumniára por ser calumniador». Era necessario,
pois, dar á calumnia uma d'essas causas fortuitas e
ingovernaveis que tiram a responsabilidade ás
acções. E que melhor, tratando-se d'um rapaz
mundano e femeeiro, do que estar bebedo?... Não era vergonha
para ninguem embebedar-se... O proprio Carlos, todos elles alli, homens
de gosto e de honra, se tinham embebedado. Sem remontar aos romanos,
onde isso era uma hygiene e um luxo, muitos grandes homens na Historia
bebiam de mais. Em Inglaterra era tão
chic,
que Pitt, Fox e outros nunca fallavam na Camara dos communs
senão aos bordos. Musset, por exemplo, que bebedo! Emfim a
Historia, a Litteratura, a Politica, tudo fervilhava de piteiras...
Ora, desde que o Damaso se declarava borracho, a sua honra ficava
salva. Era um homem de bem que apanhára uma carraspana e que
commettera uma indiscrição... Nada mais!
—Pois não te parece, Cruges?
—Sim, talvez, que estava bebedo, murmurou o maestro timidamente.
—Pois não lhe parece a você, francamente, Damaso?
—Sim, que estava bebedo, balbuciou o desgraçado.
Immediatamente Ega retomou a leitura: «Agora que voltei a mim
reconheço, como sempre reconheci e proclamei, que
é v. exc.
a um caracter absolutamente
nobre; e as outras
pessoas, que n'esse momento d'embriaguez ousei salpicar de lama,
são-me só merecedoras de
veneração e louvor. Mais declaro que se por acaso
tornasse a succeder soltar eu alguma palavra offensiva para v. exc.
a,
não lhe devia dar v. exc.
a, ou
aquelles que a escutassem,
mais importancia do que a que se dá a uma involuntaria
baforada d'alcool—pois que, por um habito hereditario que reapparece
frequentemente na minha familia, me acho repetidas vezes em estado de
embriaguez... De v. exc.
a, com toda a estima
etc....» Rodou
sobre os tacões, pousou o rascunho na mesa—e accendendo o
charuto ao lume do Damaso, explicou com amizade, com bonhomia, o que o
determinára áquella confissão de
bebedeira incorrigivel e palreira.
Fôra ainda o desejo de garantir a tranquillidade do
«nosso Damaso». Attribuindo todas as imprudencias
em que pudesse cahir a um habito d'intemperança hereditaria,
de que tinha tão pouca culpa como de ser baixo e gordo, o
Damaso punha-se
para sempre ao
abrigo das
provocações de Carlos...
—Você, Damaso, tem genio, tem lingua... Um dia esquece-se, e
no Gremio, sem querer, na cavaqueira depois do theatro, lá
lhe escapa uma palavra contra Carlos... Sem esta
precaução, ahi
recomeça a questão, o escarro, o duello... Assim
já
Carlos
não se póde queixar. Lá tem a
explicação que tudo cobre, uma gotta de mais, a
gotta tomada por impulso de borrachice hereditaria... Você
alcança d'este modo a coisa que mais se appetece n'este
nosso seculo XIX—a
irresponsabilidade!... E depois para a sua familia não
é vergonha,
porque você não tem familia. Em resumo,
convem-lhe?
O pobre Damaso escutava-o, esmagado, enervado, sem comprehender
aquellas roncantes phrases sobre «a
hereditariedade», sobre «o
seculo XIX». E um unico sentimento vivo o dominava, acabar,
reentrar na sua paz pachorrenta, livre de floretes e de escarros.
Encolheu os hombros, sem força:
—Que lhe hei de eu fazer?... Para evitar fallatorios.
E abancou, metteu um bico novo na penna, escolheu uma folha de papel em
que o monogramma luzia mais largo, começou a copiar a carta
na sua maravilhosa letra, com finos e grossos, d'uma nitidez de gravura
em aço.
Ega no emtanto, de sobrecasaca desabotoada e charuto fumegante, rondava
em torno da mesa, seguindo sôfregamente as linhas que
traçava a
mão applicada do Damaso, ornada d'um grosso annel d'armas. E
durante um momento atravessou-o um susto... Damaso parára,
com a penna indecisa. Diabo! Acordaria emfim, no fundo de toda aquella
gordura balofa, um resto escondido de dignidade,
Damaso alçou para elle os olhos embaciados:
—Embriaguez é com
n ou
com
m?
—Com um
m, um
m só, Damaso! acudiu Ega
affectuosamente. Vai muito bem... Que linda letra você tem,
caramba!
E o infeliz sorriu á sua propria letra—pondo a
cabeça de lado, no orgulho sincero d'aquella soberba prenda.
Quando findou a cópia foi Ega que conferiu, pôz a
pontuação. Era necessario que o
documento fosse
chic e perfeito.
—Quem é o seu tabellião, Damaso?
—O Nunes, na rua do Ouro... Porque?
—Oh! nada. É um detalhe que n'estes casos se pergunta
sempre. Mera ceremonia... Pois amigos, como papel, como letra, como
estylo, está d'appetite a cartinha!
Metteu-a logo n'um enveloppe onde rebrilhava a divisa «Sou
Forte», sepultou-a preciosamente no interior da sobrecasaca.
Depois, agarrando o chapéo, batendo no hombro do Damaso com
uma familiaridade folgazã e leve:
—Pois, Damaso, felicitemo-nos todos! Isto podia acabar fóra
de portas, n'uma poça de sangue! Assim é uma
delicia. E adeus... Não se incommode você.
Então o grande sarau sempre é na
segunda-feira? Vai lá tudo, hein! Não venha
cá,
homem... Adeus!
Mas o Damaso acompanhou-os pelo corredor,
mudo, murcho, cabisbaixo. E no
patamar reteve o Ega, desafogou outra inquietação
que o
assaltára:
—Isso não se mostra a ninguem, não é
verdade, Ega?
Ega encolheu os hombros. O documento pertencia a Carlos... Mas emfim
Carlos era tão bom rapaz, tão generoso!
Esta incerteza, que o ficava minando, arrancou um suspiro ao Damaso:
—E chamei eu áquelle homem
meu
amigo!
—Tudo na vida são desapontamentos, meu Damaso! foi a
observação do Ega, saltando
alegremente os degraus.
Quando o calhambeque parou no Jardim da Estrella, Carlos já
esperava ao portão de ferro, n'uma impaciencia, por causa do
jantar na
Toca. Enfiou logo para dentro
atropellando o maestro, bradou ao cocheiro que voasse ao Loreto.
—E então, meus senhores, temos sangue?
—Temos melhor! exclamou Ega no barulho das rodas, floreando o
enveloppe.
Carlos leu a carta do Damaso. E foi um immenso assombro:
—Isto é incrivel!... Chega a ser humilhante para a natureza
humana!
—O Damaso não é o genero humano, acudiu Ega. Que
diabo esperavas tu? Que elle se batesse?
—Não sei, corta o coração... Que se
ha de fazer a isto?
Segundo o Ega não se devia publicar; seria
crear curiosidade e escandalo em torno do artigo
da
Corneta que custára trinta libras a suffocar.
Mas convinha conservar aquillo como uma ameaça
pairando sobre o Damaso, tornando-o para longos
annos nullo e inoffensivo.
—Eu estou mais que vingado, concluiu Carlos.
Guarda o papel: é obra tua, usa-o como
quizeres...
Ega guardou-o com prazer, emquanto Carlos,
batendo no joelho do maestro, queria saber como
elle se portára n'aquelle lance d'honra...
—Pessimamente! gritou Ega. Com expressões
de compaixão; sem linha nenhuma; estendido
por cima do piano; agarrando com a mão no
sapato...
—Pudera! exclamou Cruges desafogando emfim.
Vocês dizem-me que me ponha de ceremonia,
calço uns sapatos novos de verniz, estive toda
a tarde n'um tormento!
E não se conteve mais, arrancou o sapato, pallido,
com um medonho suspiro de consolação.
No dia seguinte, depois do almoço, emquanto
uma chuva grossa alagava os vidros sob as lufadas
de sudoeste, Ega, no
fumoir, enterrado n'uma
poltrona, com os pés para o lume, relia a carta do
Damaso: e pouco a pouco subia n'elle a mágoa de
que
esse colossal documento de cobardia humana, tão interessante
para a physiologia e para a arte, ficasse para sempre inaproveitado no
escuro d'uma gaveta!... Que effeito, que soberbo effeito se aquella
confissão do «nosso distincto
sportman» surgisse um dia
na
Gazeta Illustrada
ou no novo jornal
A Tarde, nas
columnas do
High-life, sob este
titulo—
Pendencia d'honra!
E
que lição, que meritorio acto de
justiça social!
Todo esse verão, Ega detestára o Damaso, certo,
desde Cintra, de que elle era o amante da Cohen—e de que, por esse
imbecil de grossas nadegas, esquecera ella para sempre a
villa
Balzac, as manhãs na colcha de setim preto, os seus beijos
delicados, os versos de Musset que lhe lia, os lunchesinhos de perdiz,
tantos encantos poeticos. Mas o que lhe tornára o Damaso
intoleravel—fôra a sua farofia radiante de homem preferido;
o ar de posse com que passeava ao lado de Rachel pelas estradas de
Cintra, vestido de flanella branca; os segredinhos que tinha sempre a
cochichar-lhe sobre o hombro; e o acênosinho desdenhoso, com
um dedo, que lhe atirava de lado, ao passar, a elle proprio, Ega... Era
odioso! Odiava-o: e através d'esse odio ruminára
sempre o desejo d'uma
vingança—pancada, deshonra ou ridiculo que tornasse o snr.
Salcede, aos olhos de Rachel, desprezivel, grutesco, chato como um
balão furado...
E agora alli tinha essa carta providencial, em que o homem solemnemente
se declarava bebedo.
«Sou um bebedo, estou sempre bebedo»! Assim o
dizia, no seu papel de monogramma d'ouro, o snr. Salcede, n'um medo vil
de cão gôso,
rastejando com o rabo entre as pernas diante de qualquer pau!...
Nenhuma mulher resistiria a isto... E havia d'encafuar tão
decisivo documento no fundo d'um gavetão?
Publical-o na
Gazeta Illustrada ou
na
Tarde não podia,
infelizmente, por interesse de Carlos. Mas porque o não
mostraria «em segredo»,
como uma curiosidade psychologica, ao Craft, ao marquez, ao Telles, ao
Gouvarinho, ao primo do Cohen? Podia mesmo confiar uma cópia
ao Taveira que, resentido eternamente da questão com o
Damaso em casa da Lola Gorda, correria a lêl-a
em segredo na Casa Havaneza, no
bilhar do Gremio, no Silva, nos camarins de cantoras... E ao fim de uma
semana a snr.
a D. Rachel saberia inevitavelmente
que o escolhido do
seu coração era por
confissão propria um calumniador e um bebedo!... Delicioso!
Tão delicioso que não hesitou mais, subiu ao
quarto para copiar a carta do Damaso. Mas quasi immediatamente um
criado trouxe-lhe um telegramma de Affonso da Maia annunciando que
chegava no dia seguinte ao Ramalhete. Ega teve de sahir, telegraphar
para os Olivaes, avisar Carlos.
Carlos appareceu n'essa noite, já tarde, transido de frio,
com um monte de bagagens—porque abandonára definitivamente
os Olivaes. Maria
Eduarda regressava tambem a Lisboa, para o primeiro andar da rua de S.
Francisco, tomado agora por seis mezes, tapetado de novo pela
mãi Cruges. E Carlos vinha muito impressionado, com
profundas saudades da
Toca. Depois
de cear, ao
fogão, acabando o charuto, relembrou infindavelmente esses
dias alegres, a sua casinhola, o banho da manhã tomado
dentro d'uma dorna, a festa do deus Tchi, as guitarradas do marquez, as
longas cavaqueiras ao café com as janellas abertas e as
borboletas voando em torno aos candieiros... Fóra as cordas
d'agua, sob o vento d'inverno, batiam os vidros na mudez da noite
negra. Ambos terminaram por ficar calados, pensativos, com os olhos no
lume.
—Quando esta tarde dei pela ultima vez uma volta na quinta, disse por
fim Carlos, já não
havia uma unica folha nas arvores... Tu não sentes sempre
uma grande melancolia n'estes fins de outono?...
—Immensa! murmurou Ega lugubremente.
Ao outro dia a manhã clareava, limpa e branca, quando Ega e
Carlos, ainda estremunhados e tiritando, se apearam em Santa Apolonia.
O comboio acabava justamente de chegar; e viram logo, entre o rumor de
gente que se escoava das portinholas abertas, Affonso, com o seu velho
capote de gola de velludo, apegado a uma bengala, debatendo-se entre
homens de boné agaloado que lhe offereciam o
Hotel Terreirense e
a
Pomba d'Ouro.
Atraz Mr. Antoine, o chefe
francez, grave, de chapéo alto, trazia o cesto em que
viajára o
reverendo Bonifacio.
Carlos e Ega acharam Affonso mais acabado, mais pesado. Todavia
gabaram-lhe muito, entre os primeiros abraços, a sua
robustez de patriarcha. Elle encolheu os hombros, queixando-se de ter
sentido desde o fim do verão vertigens, um
cansaço vago...
—Vocês é que estão excellentes,
acrescentou abraçando outra vez Carlos e sorrindo ao Ega. E
que ingratidão foi essa tua, John, mettido aqui todo um
verão sem me ir visitar?... Que tens tu feito? Que
têm vocês feito?
—Mil coisas! acudiu Ega alegremente. Planos, ideias, titulos... Temos
sobretudo o projecto d'uma
Revista,
um apparelho
d'educação superior que vamos montar com uma
força de mil cavallos!... Emfim logo se lhe conta tudo ao
almoço.
E ao almoço, com effeito, para justificarem as suas
occupações em Lisboa, fallaram da
Revista como se ella já
estivesse organisada e os artigos a imprimir na officina—tanta foi a
precisão com que lhe descreveram as tendencias, a
feição critica,
as linhas de pensamento sobre que ella devia rolar... Ega já
preparára um trabalho para o primeiro
numero—
A capital dos portuguezes.
Carlos meditava uma série
d'
ensaios
á ingleza, sob este titulo—
Porque falhou
entre nós o systema constitucional.
E Affonso escutava, encantado
com aquellas bellas ambições de lucta, querendo
partilhar da grande obra como socio capitalista... Mas Ega entendia que
o snr. Affonso da Maia devia descer á arena,
lançar tambem a palavra do seu saber e da sua experiencia.
Então o velho riu. O quê!
compôr prosa, elle, que hesitava para traçar uma
carta ao feitor? De resto o que teria a dizer ao seu paiz, como fructo
da sua experiencia, reduzia-se pobremente a tres conselhos em tres
phrases: aos politicos—«menos liberalismo e mais
caracter»; aos homens de letras—«menos eloquencia
e mais ideia»; aos cidadãos em
geral—«menos
progresso e mais moral».
Isto enthusiasmou o Ega! Justamente, ahi estavam as verdadeiras
feições da reforma espiritual que a
Revista devia
prégar! Era necessario tomal-as como moto symbolico,
inscrevel-as em letras gothicas no frontispicio—porque Ega queria que
a
Revista fosse original logo na capa.
E então a
conversação desviou para o exterior da
Revista—Carlos pretendendo que
fosse azul-claro com typo Renascença, Ega exigindo uma
cópia exacta da
Revista dos Dois
Mundos, n'uma nuance mais côr de canario.
E, levados pela sua imaginação de
meridionaes, já não era só para
agradar a Affonso
da Maia que iam levantando e dando fórma áquelle
confuso plano.
Carlos exclamava para o Ega, com os olhos já apaixonados:
—Isto agora é sério. Precisamos arranjar
immediatamente a casa para a redacção!
Ega bracejava:
—Pudera! E moveis! E machinas!
Toda a manhã, no escriptorio d'Affonso, azafamados, com
papel e lapis, se occuparam em fixar uma lista de collaboradores. Mas
já as difficuldades surgiam. Quasi todos os escriptores
suggeridos desagradavam ao Ega, por lhes faltar no estylo aquelle
requinte plastico e parnasiano de que elle desejava que a
Revista fosse o
impeccavel modelo. E a Carlos alguns homens de letras pareciam
impossiveis—sem querer confessar
que n'elles lhe repugnava exclusivamente a falta de linha e o fato mal
feito...
Uma coisa porém ficou decidida: a casa da
redacção. Devia ser mobilada luxuosamente, com
sofás do consultorio de Carlos e algum
bric-à-brac da
Toca: e sobre a porta (ornada
d'um guarda-portão de libré) a taboleta de verniz
preto, com
Revista de Portugal em altas letras
a ouro. Carlos sorria, esfregava as mãos, pensando na
alegria de Maria ao saber esta decisão que o
lançava, como era o desejo d'ella, na actividade, n'uma
lucta interessante d'ideias. Ega, esse, via já a brochura
côr de canario aos montões nas vitrines dos
livreiros, discutida nas
soirées do Gouvarinho,
folheada na camara com espanto pelos politicos...
—Vai-se remexer Lisboa este inverno, snr.
Affonso da Maia! gritou elle
atirando um gesto immenso até ao tecto.
E o mais contente era o velho.
Depois de jantar, Carlos pediu ao Ega para ir com elle á rua
de S. Francisco (onde Maria se
installára n'essa manhã) levarem a nova da grande
obra. Mas encontraram á porta uma carroça
descarregando malas; e a senhora, contou o Domingos que ajudava os
carroceiros, estava ainda jantando a um canto da mesa e sem toalha. Com
tanta confusão na casa, Ega não quiz subir.
—Até logo, disse elle. Vou talvez procurar o
Simão Craveiro e fallar-lhe da
Revista.
Subiu lentamente o Chiado, leu os telegrammas na Casa Havaneza. Depois
á esquina da rua Nova da Trindade, um homem rouco, sumido
n'um paletot, offereceu-lhe uma «senhasinha».
Outros, em volta, gritavam na sombra do
Hotel
Alliança:
—Bilhete para o Gymnasio! Mais barato... Bilhete para o Gymnasio! Quem
vende?...
Havia um cruzar animado de carruagens com librés. Os bicos
de gaz do Gymnasio tinham um fulgor de festa. E Ega deu de rosto com o
Craft que atravessava do lado do Loreto, de gravata branca e
flôr no paletot.
—Que é isto?
—Festa de beneficencia, não sei, disse o Craft. Uma coisa
promovida por senhoras, a baroneza d'Alvim mandou-me um
bilhete... Venha você d'ahi ajudar-me a levar esta caridade
ao Calvario.
E na esperança de flirtar com a Alvim, Ega comprou logo uma
senha. No perystilo do Gymnasio encontraram Taveira passeando e fumando
solitariamente, á espera que findasse a primeira comedia, o
Fructo prohibido. Então
Craft propôz «botequim e genebra».
—E que ha do ministerio? perguntou elle, apenas abancaram a um canto.
O Taveira não sabia. Todos esses dois longos dias se
intrigára desesperadamente. O Gouvarinho queria as Obras
Publicas: o Videira tambem. E fallava-se d'uma scena terrivel por causa
de syndicatos, em casa do presidente do conselho, o Sá
Nunes, que terminára por dar um murro na mesa, gritar:
«Irra! que isto não é o pinhal
d'Azambuja!»
—Canalha! rosnou Ega com odio.
Depois fallaram do Ramalhete, da volta d'Affonso, da
reapparição de Carlos. Craft louvou Deus por
haver outra vez n'esse inverno uma casa com fogões, onde se
passasse uma hora civilisada e intelligente.
Taveira acudiu com o olho brilhante:
—Diz que vamos ter um centrosinho muito mais interessante ainda, na
rua de S. Francisco! Foi o marquez que me disse. Madame Mac-Gren vai
receber.
Craft não sabia mesmo que ella já tivesse
recolhido da
Toca.
—Voltou hoje, disse o Ega. Você ainda não a
conhece?... Encantadora.
—Creio que sim.
O Taveira vira-a de relance no Chiado. Parecera-lhe uma belleza. E um
ar tão sympathico!
—Encantadora! repetiu Ega.
Mas o
Fructo prohibido
findára, os homens enchiam o peristylo, n'um rumor lento,
accendendo os cigarros. E Ega, deixando o Craft e Taveira com a
genebra, correu á plateia para descobrir o camarote da
Alvim.
Mal erguera porém a cortina e assestára o
monoculo—avistou defronte, na primeira ordem, a Cohen, toda de preto,
com um grande leque de rendas brancas; por traz negrejavam as suissas
fortes do marido; e em face d'ella, recostado no velludo da grade, de
casaca, com a bochecha risonha, uma grossa perola no peitilho da
camisa, o Damaso, o bebedo!
Ega cahiu mollemente, ao acaso, na borda d'uma cadeira: e perturbado,
já esquecido da Alvim, alli ficou a olhar o panno coberto
d'annuncios, correndo os dedos tremulos pelo bigode.
No emtanto a campainha retinia, a gente vagarosamente reentrava na
plateia. Um cavalheiro gordo e carrancudo tropeçou no joelho
do Ega: outro, de luvas claras, com uma polidez adocicada, pediu
permissão a s. exc.
a Elle
não escutava,
não percebia: os seus olhos, um momento errantes, tinham-se
emfim cravado no camarote da Cohen e não se desviaram de
lá, n'uma emoção que o
empallidecia.
Não a tornára a encontrar desde Cintra, onde
só a via de longe, com vestidos claros sob o verde das
arvores; e agora alli, toda de preto, em cabello, com um decote curto
onde brilhava a perfeita brancura do seu collo, ella era outra vez a
sua Rachel, dos tempos divinos da
villa
Balzac. Era assim que elle, todas as noites em S. Carlos, a contemplava
do fundo da frisa de Carlos, com a cabeça encostada ao
tabique, saturado de felicidade. Lá tinha a sua luneta
d'ouro, presa por um fio d'ouro. Parecia mais pallida, mais delicada,
com o longo quebranto dos olhos pisados, o seu ar de romance e de lirio
meio murcho: e como então os seus cabellos magnificos e
pesados cahiam habilmente n'uma massa meia solta sobre as costas, n'um
desalinho de nudez. Pouco a pouco, entre o afinar de rebecas e o rumor
das cadeiras Ega revia, n'uma onda de recordações
que o suffocava, o grande leito da
villa Balzac,
certos beijos e certos risos, as perdizes comidas em camisa
á borda do sofá, e a melancolia deliciosa das
tardes, quando ella sahia furtivamente, coberta de véos, e
elle ficava, cansado, no crepusculo poetico do quarto, cantarolando a
Traviata...
—V. exc.
a dá licença,
snr. Ega?
Era um sujeito escaveirado, de barba rala, que reclamava a sua cadeira.
Ega ergueu-se, confusamente, sem reconhecer o snr. Sousa Netto. O panno
subira. Á borda da rampa um lacaio, piscando o olho
á Plateia, fazia confidencias sobre a
patrôa,
de
espanejador debaixo do braço. E Cohen, agora de
pé, enchia o meio do camarote, cofiando
as suissas
com um correr lento da mão bem tratada, onde reluzia um
diamante.
Ega então, n'um soberbo alarde d'indifferença,
cravou o monoculo no palco. O lacaio abalára espavorido, a
um repique furioso de sineta; e uma megera azeda, de roupão
verde e touca á banda, rompera de dentro, meneando
desesperadamente o leque, ralhando com uma mocinha delambida que batia
o tacão, se esganiçava: «Pois hei
de amal-o sempre! hei de amal-o sempre!»
Irresistivelmente Ega revirou o canto do olho para o camarote: Rachel e
o Damaso, com as cabeças chegadas como em Cintra,
cochichavam n'um sorriso. E tudo logo dentro do Ega se resumiu n'um
immenso odio ao Damaso! Collado á umbreira da porta, rilhava
os dentes, n'um desejo de subir, escarrar-lhe na bochecha gorda.
E não desviava d'elle os olhos, que dardejavam. Na scena, um
velho general, gottoso e resmungão, sacudia um jornal,
gritava pela sua tapioca. A Plateia ria, o Cohen ria. E n'esse momento
Damaso, que se debruçára no camarote com as mãos
de fóra, calçadas de
gris-perle, descobriu o Ega, sorriu,
atirou-lhe como em Cintra um acenosinho petulante, muito d'alto, na
ponta dos dedos. Isto feriu o Ega como um insulto. E ainda na vespera
aquelle covarde se lhe agarrára ás
mãos, tremendo todo, a gritar «que o
salvasse!...»
Subitamente, com uma idéa, palpou por sobre o bolso a
carteira onde na vespera guardára a carta do Damaso...
«Eu t'arranjo!» murmurou elle. E abalou, desceu a
rua da Trindade, cortou pelo Loreto como uma pedra que rola, enfiou, ao
fundo da praça de Camões, n'um grande
portão que uma lanterna alumiava. Era a
redacção da
Tarde.
Dentro do pateo d'esse jornal elegante fedia. Na escadaria de pedra,
sem luz, cruzou um sujeito encatarrhoado que lhe disse que o Neves
estava em cima ao cavaco. O Neves, deputado, politico, director da
Tarde, fôra, havia
annos, n'umas ferias, seu companheiro de casa no largo do Carmo; e
desde esse verão alegre em que o Neves lhe ficára
sempre devendo tres moedas, os dois tratavam-se por
tu.
Foi encontral-o n'uma vasta sala alumiada por bicos de gaz sem globo,
sentado na borda d'uma mesa atulhada de jornaes, com o
chapéo para a nuca, discursando a alguns cavalheiros de
provincia que o escutavam de pé, n'um respeito de crentes.
N'um vão de janella, com dois homens d'idade, um rapaz
esgalgado, de jaquetão de cheviote claro e uma cabelleira
crespa que parecia erguida n'uma rajada de vento, bracejava como um
moinho na crista d'um monte. E, abancado, outro sujeito já
calvo rascunhava laboriosamente uma tira de papel.
Ao vêr o Ega (um intimo do Gouvarinho) alli
na redacção,
n'aquella noite de intriga e de
crise, Neves cravou n'elle os olhos tão curiosos,
tão
inquietos, que o Ega apressou-se a dizer:
—Nada de politica, negocio particular... Não te
interrompas. Depois fallaremos.
O outro findou a injuria que estava lançando ao
José Bento, «essa grande besta que fôra
metter tudo no bico da amiga do Sousa e Sá, o par do
reino»—e
na sua impaciencia saltou da mesa, travou do braço do Ega
arrastando-o para um canto:
—Então que é?
—É isto, em quatro palavras. O Carlos da Maia foi offendido
ahi por um sujeito muito conhecido. Nada d'interessante. Um paragrapho
immundo na
Corneta do Diabo, por uma
questão de cavallos... O Maia pediu-lhe
explicações. O outro deu-as, chatas, medonhas,
n'uma carta que quero que vocês publiquem.
A curiosidade do Neves flammejou:
—Quem é?
—O Damaso.
O Neves recuou d'assombro:
—O Damaso!? Ora essa! Isso é extraordinario! Ainda esta
tarde jantei com elle! Que diz a carta?
—Tudo. Pede perdão, declara que estava bebedo, que
é de profissão um bebedo...
O Neves agitou as mãos com indignação:
—E tu querias que eu publicasse isso, homem? O Damaso, nosso amigo
politico!... E que não fosse, não é
questão de partido, é de decencia!
Eu faço lá isso!... Se fosse uma acta de duello, uma coisa honrosa,
explicações dignas... Mas uma carta em que um
homem se declara bebedo! Tu estás a mangar!