Ega, já furioso, franzia a testa. Mas o Neves, com todo o
sangue na face, teve ainda uma revolta áquella
idéa do Damaso se declarar bebedo!
—Isso não póde ser! É absurdo! Ahi ha
historia... Deixa vêr a carta.
E, mal relanceára os olhos ao papel, á larga
assignatura floreada, rompeu n'um alarido:
—Isto não é o Damaso nem é letra do
Damaso!... «Salcede»! Quem diabo é
«Salcede»? Nunca foi o
meu Damaso!
—É o
meu Damaso, disse o
Ega. O Damaso Salcede, um gordo...
O outro atirou os braços ao ar:
—O meu é o Guedes, homem, o Damaso Guedes! Não
ha outro! Que diabo, quando se diz o Damaso é o Guedes!...
Respirou com grande allivio:
—Irra, que me assustaste! Olha agora n'este momento, com estas coisas
de ministerio, uma carta d'essas escripta pelo Guedes... Se
é o Salcede, bem, acabou-se! Espera lá...
Não é um
gordalhufo, um janota que tem uma propriedade em Cintra? Isso! Um
maganão que nos entalou na eleição
passada, fez gastar ao Silverio mais de trezentos mil reis...
Perfeitamente, ás ordens... Ó Pereirinha, olhe
aqui o snr. Ega. Tem
ahi uma carta para sahir ámanhã, na primeira
pagina, typo largo...
O snr. Pereirinha lembrou o artigo do snr. Vieira da Costa sobre a
«Reforma das Pautas».
—Vai depois! gritou o Neves. As questões de honra antes de
tudo!
E voltou ao seu grupo onde agora se fallava do conde de Gouvarinho,
saltou para a borda da mesa, lançou logo o seu
vozeirão de chefe, affirmando
no Gouvarinho enormes dotes de parlamentar!
Ega accendeu o charuto, ficou um momento considerando aquelles sujeitos
que pasmavam para o verbo do Neves. Eram decerto deputados que a crise
arrastára a Lisboa, arrancára á
quietação das villas e das quintas. O mais novo
parecia um pote, vestido de casimira fina, com uma enorme face a
estourar de sangue, jocundo, crasso, lembrando ares sadios e lombo de
porco. Outro, esguio, com o paletot solto sobre as costas em arco,
tinha um queixo duro e macisso de cavallo: e dois padres muito rapados,
muito morenos, fumavam pontas de cigarro. Em todos havia esse ar,
conjunctamente apagado e desconfiado, que marca os homens de provincia,
perdidos entre as tipoias e as intrigas da Capital. Vinham alli
ás noites,
áquelle jornal do partido, saber as novas,
beber do
fino, uns com esperanças de empregos,
outros por interesses de terriola, alguns por ociosidade. Para todos o
Neves era um «robusto talento»; admiravam-lhe a
verbosidade e a tactica; decerto gostavam
de citar nas lojas das suas
villas o amigo Neves, o jornalista, o da
Tarde...
Mas, através d'essa admiração e do
prazer de roçar por
elle, percebia-se-lhes um vago medo que aquelle «robusto
talento» lhes pedisse, n'um vão de janella, duas
ou tres moedas. O Neves no emtanto celebrava o Gouvarinho como orador.
Não que tivesse os rasgos, a pureza, as bellas syntheses
historicas do José Clemente! Nem a poesia do Rufino! Mas
não havia outro para as piadas que ferem e que ficam
cravadas, alli a arder, na pelle do touro! E era a grande coisa na
Camara—ter a farpa, sabêl-a ferrar!
—Ó Gonçalo, tu lembras-te da piada do
Gouvarinho, a do trapezio? gritou elle virando-se para a janella, para
o rapaz de jaquetão claro.
O Gonçalo, cujos olhos pretos refulgiram de agudeza e
malicia, estendeu o pescoço magro n'um collarinho muito
decotado, lançou de lá:
—A do trapezio? Divina! Conta á rapaziada!
A rapaziada arregalou os olhos para o Neves, á espera da
«do trapezio».
Fôra na Camara dos Pares, na reforma da
instrucção. Estava fallando
o Torres Valente, esse maluco que defendia a gymnastica dos collegios e
queria as meninas a fazerem a prancha. Gouvarinho ergue-se e atira-lhe
esta:
«Snr. presidente, direi uma palavra só. Portugal
sahirá para sempre da senda do progresso, em que tanto se
tem illustrado, no dia em que nós fôrmos
ao ensino, com mão impia, substituir a cruz pelo
trapezio!»
—Muito bem! rosnou um dos padres profundamente satisfeito.
E no murmurio de admiração que se ergueu destacou
um ganido—o do rapaz mais grosso que um pote, que mexia os hombros,
chasqueava com uma risota na bochecha côr de tomate:
—Pois, senhores, o que esse conde de Gouvarinho me sae é um
grandissimo carola!
E em redor correram sorrisos entre os cavalheiros de provincia,
liberaes e finorios, que achavam aquelle fidalgo excessivamente apegado
á cruz. Mas já o Neves, de pé,
bravejava:
—Carola! Vem-nos agora o menino gordo com carola!... O Gouvarinho
carola! Está claro que tem toda a
orientação mental do seculo, é
um racionalista, um positivista... Mas a questão aqui
é a
réplica, a tactica parlamentar! Desde que o typo da maioria
vem de lá com a descoberta do trapezio, Gouvarinho amigo,
ainda que fosse tão atheu como Renan, zás!
atira-lhe logo para cima com a cruz!... Isto é que
é a estrategia parlamentar!
Pois não é assim, Ega?
Ega murmurou, através do fumo do charuto:
—Sim, com effeito a cruz para isso ainda serve...
Mas n'esse momento o sujeito calvo, que repellira a tira de papel e se
espreguiçava, cahido para as costas da cadeira, exhausto,
pediu ao snr.
João da Ega—que fallasse á gente e guardasse o
seu dinheiro...
Ega acercou-se logo d'aquelle sympathico homem, tão
engraçado, tão querido de todos:
—Então, na grande faina, Melchior?
—Estou aqui a vêr se faço uma coisa sobre o livro
do Craveiro, os
Cantos da
Serra, e não me sae nada em termos...
Não sei o que hei de dizer!
Ega gracejou, de mãos nos bolsos, muito risonho, muito
camarada com o Melchior:
—Nada! Vocês aqui são simples localistas,
noticiaristas, annunciadores. D'um livro como o do Craveiro
têm só respeitosamente a dizer onde se vende e
quanto custa.
O outro considerou o Ega ironicamente, com os dedos cruzados por traz
da nuca:
—Então onde queria você que se fallasse dos
livros?... Nos reportorios?
Não, nas Revistas Criticas: ou então nos
jornaes—que fossem jornaes, não papeluchos volantes, tendo
em cima uma cataplasma de politica em estylo mazorro ou em estylo
fadista, um romance mal traduzido do francez por baixo e o resto cheio
com «annos», despachos, parte de policia e loteria
da Misericordia. E como em Portugal não havia nem jornaes
sérios nem Revistas Criticas—que se não fallasse
em parte nenhuma.
—Com effeito, murmurou Melchior, ninguem falla de nada, ninguem parece
pensar em nada...
E com toda a razão, affirmou Ega. Certamente
muito d'esse silencio provinha do
natural desejo que têm os que são mediocres de que
se não
alluda muito aos que são grandes. É a invejasinha
reles e
rastejante! Mas em geral o silencio dos jornaes para com os livros
provém sobretudo d'elles terem abdicado todas as
funcções elevadas d'estudo e de critica,
de se terem tornado folhas rasteiras d'informação
caseira, e de sentirem por isso a sua incompetencia...
—Está claro, não fallo por você,
Melchior, que é dos nossos e de primeira ordem! Mas os seus
collegas, menino, calam-se por se saberem incompetentes...
O Melchior ergueu os hombros com um ar cançado e descrente:
—Calam-se tambem porque o publico não se importa, ninguem
se importa...
Ega protestou, já excitado. O Publico não se
importava!? Essa era curiosa! O Publico então não
se importa que lhe fallem de livros que elle compra aos tres mil, aos
seis mil exemplares? E isto, dada a população de
Portugal, caramba, é
igual aos grandes successos de Paris e de Londres... Não,
Melchiorzinho amigo, não! Esse silencio diz ainda mais
claramente e retumbantemente que as palavras: «Nós
somos incompetentes. Nós estamos
bestialisados pela noticia do snr. conselheiro que chegou ou do snr.
conselheiro que partiu, pelos
High-lifes, pela amabilidade dos
donos da casa, pelo artigo de fundo em descompostura e
calão, por toda
esta prosa chula em que nos
atolamos... Nós não sabemos, não
podemos já fallar d'uma obra d'arte ou d'uma obra de
historia, d'este bello livro de versos ou d'este bello livro de
viagens. Não temos nem phrases nem idéas.
Não somos talvez cretinos—mas
estamos cretinisados. A obra de litteratura passa muito
alto—nós chafurdamos aqui muito em baixo...»
—E aqui tem você, Melchior, o que diz, através do
silencio dos jornaes, o côro dos jornalistas!
Melchior sorria, enlevado, com a cabeça deitada para traz,
como quem goza uma bella ária. Depois com uma palmada na
mesa:
—Caramba, ó Ega, muito bem falla você!...
Você nunca pensou em ser deputado? Eu ainda outro dia dizia
ao Neves: «O Ega! O Ega é que era, para atirar
alli na camara a piadinha á Rochefort. Ardia
Troia!»
E immediatamente, emquanto Ega ria, contente, tornando a accender o
charuto—Melchior arrebatou a penna:
—Você está em veia! Diga lá, dicte
lá... Que hei de eu aqui pôr sobre o livro do
Craveiro?
Ega quiz saber o que escrevera já o amigo Melchior. Apenas
tres linhas: «Recebemos o novo livro do nosso glorioso poeta
Simão Craveiro. O precioso volume, onde scintillam em
caprichosos relevos todas as joias d'este prestigioso escriptor,
é publicado pelos activos editores...» E aqui o
Melchior emperrára. Melchior não gostava
d'aquelle
frouxo termo—
activos. Ega então
suggeriu—
emprehendedores. Melchior
emendou, leu:
—«...publicado pelos emprehendedores editores...»
Ora sêbo, rima!
Arrojou a penna, descorçoado. Acabou-se! Não
estava em
verve. E além
d'isso era tarde, tinha a rapariga á espera...
—Fica para ámanhã... O peor é que
já ando n'isto ha cinco dias! Irra! Você tem
razão, a
gente bestialisa-se. E faz-me raiva! Não é
lá pelo livro, não me importa o livro...
É pelo Craveiro, que é bom rapaz, e demais a mais
pertence cá ao partido!
Abriu um gavetão, sacou uma escova, rompeu a escovar-se com
desespero. E Ega ia ajudal-o, limpar-lhe as costas cheias de
cal—quando entre elles surgiu a face chupada e nervosa do
Gonçalo, com a sua gaforinha perpetuamente erguida como por
uma rajada de vento.
—Que está o Egasinho a fazer n'este covil da noticia?
—Aqui a escovar o Sampaio... Estive tambem a ouvir o Neves, a grande
phrase do Gouvarinho...
O Gonçalo pulou, com uma faisca de malicia nos olhos negros
de algarvio esperto.
—A da cruz? Espantosa! Mas ha melhor, ha melhor!
Travou do braço do Ega, puxou-o para um canto da janella:
—É necessario fallar baixo por causa da rapaziada
de provincia... Ha outra
deliciosa. Eu não me lembro bem, o Neves é que
sabe! É uma coisa da Liberdade conduzindo á
mão o corcel do
Progresso... O quer que seja assim, uma imagem equestre! A Liberdade
com calções de jockey, o Progresso com um grande
freio... Espantoso! Que besta, aquelle Gouvarinho! E os outros, menino,
os outros! Você não foi á camara quando
se discutiu a questão de Tondella? Extraordinario! O que se
disse! Foi de morrer! E eu morro! Esta politica, este S. Bento, esta
eloquencia, estes bachareis matam-me. Querem dizer agora ahi que isto
por fim não é peor que a Bulgaria.
Historias! Nunca houve uma choldra assim no universo!
—Choldra em que você chafurda! observou o Ega rindo.
O outro recuou com um grande gesto:
—Distingamos! Chafurdo por necessidade, como politico: e
tróço por gosto, como artista!
Mas Ega justamente achava uma desgraça incomparavel para o
paiz—esse immoral desaccordo entre a intelligencia e o caracter.
Assim, alli estava o amigo Gonçalo, como homem de
intelligencia, considerando o Gouvarinho um imbecil...
—Uma cavalgadura, corrigiu o outro.
—Perfeitamente! E todavia, como politico, você quer essa
cavalgadura para ministro, e vai apoial-a com votos e com discursos
sempre que ella rinche ou escoucinhe.
Gonçalo correu lentamente a mão pela gaforinha,
com a face franzida:
—É necessario, homem! Razões de disciplina e de
solidariedade partidaria... Ha uns compromissos... O paço
quer, gosta d'elle...
Espreitou em roda, murmurou, collado ao Ega:
—Ha ahi umas questões de syndicatos, de banqueiros, de
concessões em Moçambique... Dinheiro, menino, o
omnipotente dinheiro!
E como Ega se curvava, vencido, cheio só de respeito—o
outro, faiscando todo de finura e cynismo, atirou-lhe uma palmada ao
hombro:
—Meu caro, a politica hoje é uma coisa muito differente!
Nós fizemos como vocês os litteratos. Antigamente
a litteratura era a imaginação, a
phantasia, o ideal... Hoje é a realidade, a experiencia, o
facto positivo, o documento. Pois cá a politica em Portugal
tambem se lançou na corrente realista. No tempo da
Regeneração e dos Historicos a
politica era o progresso, a viação, a liberdade,
o
palavrorio... Nós mudamos tudo isso. Hoje é o
facto positivo,—o dinheiro, o dinheiro! o bago! a
massa! A rica
massinha da nossa alma,
menino! O divino dinheiro!
E de repente emmudeceu, sentindo na sala um silencio—onde o seu grito
de «dinheiro! dinheiro!»
parecera ficar vibrando, no ar quente do gaz, com a
prolongação de um toque de rebate acordando as
cubiças, chamando ao longe e ao largo todos os habeis para o
saque da Patria inerte!...
O Neves desapparecera. Os cavalheiros de provincia dispersavam, uns
enfiando o paletot, outros sem pressa dando um olhar amortecido aos
jornaes sobre a mesa. E o Gonçalo bruscamente disse adeus ao
Ega, rodou nos tacões, desappareceu tambem,
abraçando ao passar um dos padres a quem tratou de
«malandro!»
Era meia noite, Ega sahiu. E na tipoia que o levava ao Ramalhete,
já mais calmo, começou logo a reflectir que o
resultado da publicação da
carta seria despertar em toda Lisboa uma curiosidade voraz. A
«questão de cavallos» com que o
Neves se contentára promptamente, distrahido e absorvido
n'essa noite pela crise,—ninguem mais a acreditaria... O Damaso
decerto, interrogado, para se desculpar, contaria horrores de Maria e
de Carlos: e uma intoleravel luz d'escandalo ia bater coisas que deviam
permanecer na sombra. Eram talvez apoquentações,
desesperos que elle assim estivera
preparando a Carlos—por causa d'um odiosinho ao Damaso. Nada mais
egoista e pequeno!... E subindo para o quarto Ega decidia correr depois
d'almoço á redacção da
Tarde, suster a
publicação da carta.
Mas toda essa noite sonhou com Rachel e com Damaso. Via-os rolando por
uma estrada sem fim, entre pomares e vinhedos, deitados n'uma
carroça de bois, sobre um enxergão onde se
desdobrava, lasciva e rica, a sua colcha de setim preto da
villa Balzac: os dois beijavam-se,
enroscados, sem pudor,
sob a fresca sombra que cahia dos ramos, ao chiar lento das rodas. E
por um requinte do sonho cruel, elle Ega, sem perder a consciencia e o
orgulho d'homem, era um dos bois que puxava ao carro! Os moscardos
picavam-no, a canga pesava-lhe; e, a cada beijo mais cantado que atraz
soava no carro, elle erguia o focinho a escorrer de baba, sacudia os
cornos, mugia lamentavelmente para os céos!
Acordou n'estes urros d'agonia: e a sua cólera contra o
Damaso resurgiu, mais nutrida pelas incoherencias do sonho.
Além d'isso chovia. E decidiu não voltar
á
Tarde, deixar imprimir a carta. Que
importava, de resto, o que dissesse o Damaso? O artigo da
Corneta estava extincto,
o Palma bem pago.—E quem jámais acreditaria n'um homem que
nos jornaes se declara calumniador e bebedo?
E Carlos assim pensou tambem—quando, depois d'almoço, Ega
lhe contou a sua
resolução da vespera ao vêr o Damaso no
camarote, d'olho trocista posto n'elle, a segredar com os Cohens...
—Percebi claramente, sem erro possivel, que estava a fallar de ti, da
snr.
a D. Maria, de nós todos,
contando horrores... E
então acabou-se,
não hesitei mais. Era necessario deixar passar a
justiça de Deus! Não tinhamos paz emquanto o
não aniquilassemos!
Sim, concordou Carlos, talvez. Sómente receava que o
avô, sabendo o escandalo, se desgostasse de
vêr o seu nome misturado
a toda aquella sordidez de
Corneta e
de bebedeira...
—Elle não lê a
Tarde, acudiu Ega. O rumor, se lhe
chegar, é já vago e desfigurado.
Com effeito Affonso soube apenas confusamente que o Damaso
soltára no Gremio algumas palavras desagradaveis para
Carlos, e declarára depois n'um jornal que, n'esse momento,
estava bebedo. E a opinião do velho foi—que se o Damaso
estava embriagado (e d'outro modo como teria injuriado Carlos, seu
antigo amigo?) a sua declaração revelava extrema
lealdade e um amor quasi heroico da verdade!
—Por esta não esperavamos nós! exclamou depois
Ega no quarto de Carlos. O Damaso torna-se um justo!
De resto os amigos da casa, sem conhecer o artigo da
Corneta, approvavam a
aniquilação do Damaso. Só o Craft
sustentou que Carlos lhe devia ter antes dado «bengaladas
secretas»; e o Taveira achou cruel que se dissesse ao
desgraçado, com um florete ao peito—«ou a
dignidade ou a vida!»
Mas dias depois não se fallava mais n'esse escandalo. Outras
coisas interessavam o Chiado e a Casa Havaneza. O ministerio
fôra formado, finalmente! Gouvarinho entrava na
Marinha—Neves no Tribunal de Contas. Já os jornaes do
governo cahido começavam, segundo a pratica constitucional,
a achar o paiz irremediavelmente perdido, e a alludir ao rei com
azedume... E o derradeiro, esvaído
echo da carta do
Damaso foi, na vespera do sarau da Trindade, um paragrapho da propria
Tarde onde ella fôra
publicada, n'estas amaveis palavras:
—«O nosso amigo e distincto
sportman Damaso Salcede parte
brevemente para uma viagem de recreio a Italia. Desejamos ao elegante
touriste todas as prosperidades na
sua bella excursão ao paiz do canto e das artes.»
VI
Ao fim do jantar, na rua de S. Francisco, Ega que se
demorára no corredor a procurar a charuteira pelos bolsos do
paletot, entrou na sala, perguntando a Maria, já sentada ao
piano:
—Então, definitivamente, v. exc.
a
não vem ao
sarau da Trindade?...
Ella voltou-se para dizer, preguiçosamente, por entre a
walsa lenta que lhe cantava entre os dedos:
—Não me interessa, estou muito cançada...
—É uma sécca, murmurou Carlos do lado, da vasta
poltrona onde se estirára consoladamente, fumando, d'olhos
cerrados.
Ega protestou. Tambem era uma massada subir ás Pyramides no
Egypto. E no emtanto soffria-se invariavelmente, porque nem todos os
dias póde
um
christão trepar a um monumento que tem cinco mil annos de
existencia... Ora a snr.
a D. Maria, n'este
sarau, ia vêr por
dez tostões uma coisa
tambem rara,—a alma sentimental d'um povo exhibindo-se n'um palco, ao
mesmo tempo nua e de casaca.
—Vá, coragem! um chapéo, um par de luvas, e a
caminho!
Ella sorria, queixando-se de fadiga e preguiça.
—Bem, exclamou Ega, eu é que não quero perder o
Rufino... Vamos lá, Carlos, mexe-te!
Mas Carlos implorou clemencia:
—Mais um bocadinho, homem! Deixa a Maria tocar umas notas do
Hamlet. Temos
tempo... Esse Rufino, e o Alencar, e os bons, só gorgeiam
mais tarde...
Então Ega, cedendo tambem a todo aquelle conchego tepido e
amavel, enterrou-se no sofá com o charuto, para escutar a
canção
d'
Ophelia, de que Maria
já murmurava baixo as palavras scismadoras e tristes:
Pâle et blonde,
Dort sous l'eau profonde...
Ega adorava esta velha ballada escandinavia. Mais porém o
encantava Maria que nunca lhe parecera tão bella: o vestido
claro que tinha n'essa noite modelava-a com a
perfeição d'um marmore: e entre as velas do
piano, que lhe punham um traço de luz no perfil puro e tons
d'ouro esfiado no cabello—o
incomparavel eburneo da sua pelle ganhava em esplendor e
mimo... Tudo n'ella era harmonioso, são, perfeito... E
quanto aquella serenidade da sua fórma devia tornar
delicioso o ardor da sua paixão! Carlos era positivamente o
homem mais feliz d'estes reinos! Em torno d'elle só havia
facilidades, doçuras. Era rico,
intelligente, d'uma saude de pinheiro novo; passava a vida adorando e
adorado; só tinha o numero d'inimigos que é
necessario para confirmar uma superioridade; nunca soffrera de
dyspepsia; jogava as armas bastante para ser temido; e na sua
complacencia de forte nem a tolice publica o irritava. Sêr
verdadeiramente
ditoso!
—Quem é por fim esse Rufino? perguntou Carlos, alongando
mais os pés pelo tapete, quando Maria findou a
canção
d'
Ophelia.
Ega não sabia. Ouvira que era um deputado, um bacharel, um
inspirado...
Maria, que procurava os nocturnos de Chopin, voltou-se:
—É esse grande orador de que fallavam na
Toca?
Não, não! Esse era outro, a sério, um
amigo de Coimbra, o José Clemente, homem d'eloquencia e de
pensamento... Este Rufino era um ratão de pera grande,
deputado por Monção, e sublime n'essa arte,
antigamente nacional e hoje mais particularmente provinciana, de
arranjar,
n'uma voz de theatro e de papo,
combinações sonoras de palavras...
—Detesto isso! rosnou Carlos.
Maria tambem achava intoleravel um sujeito a chilrear, sem
idéas, como um passaro n'um galho d'arvore...
—É conforme a occasião, observou Ega, olhando o
relogio. Uma walsa de Strauss tambem não tem
idéas, e á noite, com mulheres n'uma sala,
é deliciosa...
Não, não! Maria entendia que essa rhetorica
amesquinhava sempre a palavra humana, que, pela sua natureza mesma,
só póde servir para dar
fórma ás idéas. A musica, essa, falla
aos nervos. Se se cantar uma marcha a uma criança, ella
ri-se e salta no collo...
—E se lhe lêres uma pagina de Michelet, concluiu Carlos, o
anjinho secca-se e berra!
—Sim, talvez, considerou o Ega. Tudo isso depende da latitude e dos
costumes que ella cria. Não ha inglez, por mais culto e
espiritualista, que não tenha um fraco pela
força, pelos athletas,
pelo
sport, pelos musculos de ferro.
E
nós, os meridionaes, por mais criticos, gostamos do
palavriadinho mavioso. Eu cá pelo menos, á noite,
com mulheres, luzes, um piano e gente de casaca, pello-me por um bocado
de rhetorica.
E, com o appetite assim desperto, ergueu-se logo para enfiar o paletot,
voar á
Trindade, n'um receio de perder o
Rufino.
Carlos deteve-o ainda, com uma grande idéa:
—Espera. Descobri melhor, fazemos o sarau
aqui! Maria toca Beethoven;
nós declamamos Mussuet, Hugo, os parnasianos; temos padre
Lacordaire se te appetece a eloquencia; e passa-se a noite n'uma
medonha orgia d'ideal!...
—E ha melhores cadeiras, acudiu Maria.
—Melhores poetas, affirmou Carlos.
—Bons charutos!
—Bom cognac!
Ega alçou os braços ao ar, desolado. Ahi
está como se pervertia um cidadão, impedindo-o de
proteger as letras patrias—com promessas perfidas de tabaco e de
bebidas!... Mas de resto elle não tinha só uma
razão litteraria para
ir ao sarau. O Cruges tocava uma das suas
Meditações
d'Outono, e era necessario dar palmas ao Cruges.
—Não digas mais! gritou Carlos, dando um pulo da poltrona.
Esquecia-me o Cruges!... É um dever d'honra! Abalemos.
E d'ahi a pouco, tendo beijado a mão de Maria que ficava ao
piano, os dois, surprehendidos com a belleza d'essa noite d'inverno,
tão clara e
dôce, seguiam devagar pela rua—onde Carlos ainda duas vezes
se voltou para olhar as janellas alumiadas.
—Estou bem contente, exclamou elle travando do braço do
Ega, em ter deixado os Olivaes!... Aqui ao menos podemos reunir-nos
para um bocado de cavaco e de litteratura...
Tencionava arranjar a sala com mais gosto e conforto, converter o
quarto ao lado n'um
fumoir
forrado com as suas colchas da
India, depois ter um dia certo em que viessem os amigos cear... Assim
se realisava o velho sonho, o cenaculo de dilettantismo e d'arte...
Além d'isso havia a
lançar a
Revista, que era
a suprema pandega
intellectual. Tudo isto annunciava um inverno
chic a
valer, como dizia o defunto Damaso.
—E tudo isto, resumiu o Ega, é dar
civilisação ao paiz. Positivamente, menino,
vamo-nos tornar grandes cidadãos!...
—Se me quizerem erguer uma estatua, disse Carlos alegremente, que seja
aqui na rua de S. Francisco... Que belleza de noite!
Pararam á porta do theatro da Trindade no momento em que,
d'uma tipoia de praça, se apeava um sujeito de barbas de
apostolo, todo de luto, com um chapéo de largas abas
recurvas á moda de 1830. Passou junto dos dois amigos sem os
vêr, recolhendo um troco á bolsa. Mas Ega
reconheceu-o.
—É o tio do Damaso, o demagogo! Bello typo!
—E segundo o Damaso, um dos bebedos da familia, lembrou Carlos rindo.
Por cima, de repente, no salão, estalaram grandes palmas.
Carlos, que dava o paletot ao porteiro, receou que já fosse
o Cruges...
—Qual! disse o Ega. Aquillo é applaudir de rhetorica!
E com effeito, quando pela escada ornada de plantas chegaram ao
ante-salão, onde dois sujeitos de casaca passeavam em bicos
de pés, segredando—sentiram logo um vozeirão
tumido, garganteado, provinciano, de vogaes arrastadas em canto,
invocando lá do fundo, do estrado, «a alma
religiosa de Lamartine!...»
—É o Rufino, tem estado soberbo! murmurou o Telles da Gama
que não passára da porta, com o charuto escondido
atraz das costas.
Carlos, sem curiosidade, ficou junto do Telles. Mas Ega, esguio e
magro, foi rompendo pela coxia tapetada de vermelho. D'ambos os lados
se cerravam filas de cabeças, embebidas, enlevadas,
atulhando os bancos de palhinha até junto ao tablado, onde
dominavam os chapéos de senhoras picados por manchas claras
de plumas ou flôres. Em volta, de pé, encostados
aos pilares ligeiros que sustêm a galeria, reflectidos pelos
espelhos, estavam os homens, a gente do Gremio, da Casa Havaneza, das
Secretarias, uns de gravata branca, outros de jaquetões. Ega
avistou o snr. Sousa Netto, pensativo, sustentando entre dois dedos a
face escaveirada, de barba rala; adiante o Gonçalo, com a
sua gaforinha ao vento; depois o marquez atabafado n'um cache-nez de
sêda branca; e, n'um grupo, mais longe, rapazes do Jockey
Club, os dois Vargas, o Mendonça, o Pinheiro, assistindo
áquelle
sport da
eloquencia com uma mistura d'assombro e tedio. Por cima, no parapeito
de velludo da galeria, corria outra linha de senhoras com vestidos
claros, abanando-se mollemente; por traz alçava-se ainda uma
fila de cavalheiros onde destacava o Neves, o novo Conselheiro, grave,
de braços cruzados, com um botão de camelia na
casaca mal feita.
O gaz suffocava, vibrando cruamente n'aquella sala clara, d'um tom
desmaiado de canario, raiada de reflexos de espelhos. Aqui e
além uma tosse timida de catarrho desmanchava o silencio,
logo abafada no lenço. E na extremidade da galeria, n'um
camarote feito de tabiques, com sanefas de velludo côr de
cereja, duas cadeiras de espaldar dourado permaneciam vazias, na
solemnidade real do seu damasco escarlate.
No emtanto, no estrado, o Rufino, um bacharel transmontano, muito
trigueiro, de pera, alargava os braços, celebrava um anjo,
«o
Anjo da Esmola que elle entrevira,
além no azul, batendo as azas de setim...» Ega
não comprehendia bem—entalado entre um padre muito gordo
que pingava de suor, e um alferes de lunetas escuras. Por fim
não se conteve:—«Sobre que está elle a
fallar?» E foi o padre que o informou, com a face luzidia,
inflammada de enthusiasmo:
—Tudo sobre a caridade, sobre o progresso! Tem estado sublime...
Infelizmente está a acabar!
Parecia ser, com effeito, a peroração. O Rufino
arrebatára o
lenço, limpava a testa lentamente; depois arremetteu para a
borda do tablado, voltando-se para as cadeiras reaes com um
tão ardente gesto d'inspiração—que o
collete repuxado
descobriu o começo da ceroula. Foi então que Ega
comprehendeu. Rufino estava exaltando uma princeza que dera seiscentos
mil reis para os inundados do Ribatejo, e ia a beneficio d'elles
organisar um bazar na Tapada. Mas não era só essa
soberba esmola que deslumbrava o Rufino—porque elle, «como
todos os homens educados pela philosophia e que têm a
verdadeira orientação
mental do seu tempo, via nos grandes factos da historia não
só a sua belleza poetica, mas a
sua influencia social. A multidão, essa, sorria
simplesmente, enlevada, para a incomparavel poesia da mão
calçada de fina luva que se estende para o pobre. Elle
porém, philosopho, antevia já, sahindo d'esses
delicados dedos de princeza, um resultado bem profundo e formoso... O
quê, meus senhores? O renascimento da
Fé!»
De repente, um leque que escorregára da galeria, arrancando
em baixo um berro a uma senhora gorda, creou um susurro, uma curta
emoção. Um commissario do sarau, D.
José Sequeira, ergueu-se logo nos degraus do tablado, com o
seu laçarote de sêda vermelha na casaca,
dardejando severamente os olhos vesgos para o recanto indisciplinado
onde curtos risos esfusiavam. Outros cavalheiros, indignados, gritavam
«
chut, silencio,
fóra!» E das
cadeiras da frente surgiu a face ministerial do Gouvarinho, inquieta
pela Ordem, com as lunetas brilhando duramente... Então Ega
procurou ao lado a condessa: e avistou-a emfim mais longe, com um
chapéo azul, entre a Alvim toda de preto e umas vastas
espádoas cobertas de setim malva que eram as da baroneza de
Craben. Todo o rumor findava—e o Rufino, que
molhára lentamente os labios no copo, avançou um
passo, sorrindo, com o lenço branco na mão:
—Dizia eu, meus senhores, que dada a orientação
mental d'este seculo...
Mas o Ega suffocava, esmagado, farto do Rufino, com a
impressão de que o padre ao lado cheirava mal. E
não aturou mais, furou para traz, para desabafar com Carlos.
—Tu imaginavas uma besta assim?
—Horroroso! murmurou Carlos. Quando tocará o Cruges?
Ega não sabia, todo o programma fôra alterado.
—E tens cá a Gouvarinho! Está lá
adiante, d'azul... Hei de querer vêr logo esse encontro!
Mas ambos se voltaram sentindo por traz alguem ciciar discretamente
«
bonsoir,
messieurs...» Era Steinbroken e o seu
secretario, graves, de casaca, em pontas de pés, com as
claques fechadas. E immediatamente Steinbroken queixou-se da ausencia
da familia real...
—Mr. de Cantanhede, qui est de service, m'avait
cependant assuré
que la reine viendrait... C'est bien sous sa protection, n'est-ce pas,
toute cette musique, ces vers?... Voilà pourquoi je suis
venu. C'est très ennuyeux... Et Alphonse de Maia, toujours
en santé?
—Merci...
Na sala o silencio impressionava. Rufino, com gestos de quem
traça n'uma tela linhas lentas e nobres, descrevia a
doçura d'uma aldeia, a aldeia em que elle nascera, ao
pôr do sol. E o seu
vozeirão velava-se, enternecido, morrendo n'um rumor de
crepusculo. Então Steinbroken, subtilmente, tocou no hombro
do Ega. Queria saber se era esse o grande orador de que lhe tinham
fallado...
Ega affirmou com patriotismo que era um dos maiores oradores da Europa!
—Em qual génerro?...
—Genero sublime, genero de Demosthenes!
Steinbroken alçou as sobrancelhas com
admiração, fallou em filandez ao seu secretario
que entalou languidamente o monoculo: e com as claques debaixo do
braço, cerrados os olhos, recolhidos como n'um templo, os
dois enviados da Filandia ficaram escutando, á espera do
sublime.
Ruffino, no entanto, com as mãos descahidas, confessava uma
fragilidade de sua alma! Apesar da poesia ambiente d'essa sua aldeia
natal, onde a violeta em cada prado, o rouxinol em cada balseira
provavam Deus irrefutavelmente,—elle fôra dilacerado pelo
espinho da descrença! Sim, quantas vezes,
ao cahir da tarde, quando
os sinos da velha torre choravam no ar a Ave-Maria e no valle cantavam
as ceifeiras, elle passára junto da cruz do adro e da cruz
do cemiterio, atirando-lhes de lado, cruelmente, o sorriso frio de
Voltaire!...
Um largo fremito d'emoção passou. Vozes
suffocadas de gozo mal podiam murmurar
«
muito bem, muito
bem...»
Pois fôra n'esse estado, devorado pela duvida, que Rufino
ouvira um grito d'horror resoar por sobre o nosso Portugal... Que
succedera? Era a Natureza que atacava seus filhos!—E
lançando os braços, como quem se debate n'uma
catastrophe, Rufino pintou a inundação... Aqui
aluia um casal,
ninho florido d'amores; além, na quebrada, passava o balar
choroso dos gados; mais longe as negras aguas iam juntamente arrastando
um botão de rosa e um berço!...
Os
bravos partiram profundos e
roucos de peitos que arfavam. E em torno de Carlos e do Ega sujeitos
voltavam-se apaixonadamente uns para os outros, com um brilho na face,
commungando no mesmo enthusiasmo: «Que rajadas!...
Caramba!... Sublime!...»
Rufino sorria, bebendo esta commoção, que era a
obra do seu verbo. Depois, respeitosamente, voltou-se para as cadeiras
reaes, solemnes e vazias...
Vendo que a cólera da Natureza rugia implacavel, elle
erguera os olhos para o natural abrigo, para o exaltado logar d'onde
desce a salvação, para
o Throno de Portugal! E de repente, deslumbrado, vira por sobre elle estenderem-se
as azas brancas d'um anjo! Era o anjo da esmola, meus senhores! E
d'onde vinha? d'onde recebera a inspiração da
caridade? d'onde sahia assim, com os seus cabellos d'ouro? Dos livros
da sciencia? dos laboratorios chimicos? d'esses amphitheatros
d'anatomia onde se nega covardemente a alma? das sêccas
escólas de philosophia que fazem de Jesus um precursor de
Robespierre? Não! Elle ousára interrogar o anjo,
submisso, com o joelho em terra. E o anjo da esmola, apontando o
espaço divino, murmurára: «Venho
d'além!»
Então pelos bancos apinhados correu um susurro d'enlevo. Era
como se os estuques do tecto se abrissem, os anjos cantassem no alto.
Um estremecimento devoto e poetico arrepiava as cuias das senhoras.
E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores!
Desde esse momento, a duvida fôra n'elle como a nevoa que o
sol, este radiante sol portuguez, desfaz nos ares... E agora, apesar de
todas as ironias da sciencia, apesar dos escarneos orgulhosos d'um
Renan, d'um Littré e d'um Spencer, elle, que recebera a
confidencia divina, podia alli, com a mão sobre o
coração,
affirmar a todos bem alto—havia um céo!
—Apoiado! mugiu na coxia o padre sebento.
E por todo o salão, no aperto e no calor do gaz, os
cavalheiros das Secretarias, da Arcada, da
Casa Havaneza, berrando, batendo
as mãos, affirmaram soberbamente o céo!
O Ega que ria, divertido, sentiu ao lado um som rouco de
cólera. Era o Alencar, de paletot, de gravata branca,
cofiando sombriamente os bigodes.
—Que te parece, Thomaz?
—Faz nojo! rugiu surdamente o poeta.
Tremia, revoltado! N'uma noite d'aquellas, toda de poesia, quando os
homens de letras se deviam mostrar como são, filhos da
democracia e da liberdade, vir aquelle pulha pôr-se alli a
lamber os pés á familia real... Era
simplesmente ascoroso!
Lá ao fundo, junto aos degraus do tablado, ia um tumulto
d'abraços, de comprimentos, em torno do Rufino, que reluzia
todo de orgulho e suor. E pela porta os homens escoavam-se, afogueados,
commovidos ainda, puxando das charuteiras. Então o poeta
travou do braço do Ega:
—Ouve lá, eu vinha justamente procurar-te. É o
Guimarães, o tio do Damaso, que me pediu para te ser
apresentado... Diz que é uma coisa
séria, muito séria... Está
lá em baixo no
botequim, com um
grog.
Ega pareceu surprehendido... Coisa séria!?
—Bem, vamos nós lá baixo tomar tambem um
grog! E que recitas tu logo,
Alencar?
—
A Democracia, foi dizendo o poeta
pela escada, com certa reserva. Uma coisita nova, tu
verás... São algumas verdades duras a toda essa
burguezia...
Estavam á porta do botequim—e precisamente o snr.
Guimarães sahia, com o chapéo sobre o olho, de
charuto accêso, abotoando a sobrecasaca. Alencar
lançou a apresentação, com
immensa gravidade:
—O meu amigo João da Ega... O meu velho amigo
Guimarães, um bravo cá dos nossos, um
veterano da Democracia.
Ega acercou-se d'uma mesa, puxou cortezmente um banco para o veterano
da Democracia, quiz saber se elle preferia cognac ou cerveja.
—Tomei agora o meu
grog de guerra,
disse o snr. Guimarães com seccura, tenho para toda a noite.
Um criado dava uma limpadella lenta sobre o marmore da mesa. Ega
ordenou cerveja. E directamente, largando o charuto, passando a
mão pelas barbas a retocar a magestade da face, o snr.
Guimarães começou com lentidão e
solemnidade:
—Eu sou tio do Damaso Salcede, e pedi aqui ao meu velho amigo Alencar
para me apresentar a v. exc.
a, com o fim de o
intimar a que olhe bem
para mim e que diga se me acha cara de bebedo...
Ega comprehendeu, atalhou logo, cheio de franqueza e bonhomia:
—V. exc.
a refere-se a uma carta que seu
sobrinho me escreveu...
—Carta que v. exc.
a dictou! Carta que v. exc.
a
o forçou a
assignar!
—Eu?...
—Affirmou-m'o elle, senhor!
Alencar interveio:
—Fallem vocês baixo, que diabo!... Isto é terra
de curiosos...
O snr. Guimarães tossiu, chegou a cadeira mais para a mesa.
Tinha estado, contou elle, havia semanas fóra de Lisboa por
negocios da herança de seu irmão. Não
vira o sobrinho, porque
só por necessidade se encontrava com esse imbecil. Na
vespera, em casa d'um antigo amigo, o Vaz Forte, deitára por
acaso os olhos ao
Futuro, um
jornal republicano, bem escripto, mas frouxo de idéas. E
avistára logo na primeira pagina, em typo enorme, sob esta
rubrica aliás justa
Coisas do
high-life, a carta do sobrinho... Imagine o snr. Ega
o seu furor! Alli mesmo, em casa do Forte, escrevera ao Damaso pouco
mais ou menos n'estes termos: «Li a tua infame
declaração. Se
ámanhã não fazes outra, em todos os
jornaes, dizendo que não tinhas
intenção de me incluir
entre os bebedos da tua familia, vou ahi e quebro-te os ossos um por
um. Treme!» Assim lhe escrevera. E sabia o snr.
João da Ega qual fôra a resposta do snr. Damaso?
—Tenho-a aqui, é um
documento
humano, como diz o amigo Zola! Aqui
está... Grande papel, monogramma d'ouro, corôa de
conde. Aquelle asno! Quer v. exc.
a que eu leia?
A um gesto risonho do Ega, elle mesmo leu, lentamente, e sublinhando:
—«Meu caro tio! A carta de que falla foi escripta pelo snr.
João da Ega. Eu era incapaz de tal desacato á
nossa querida familia. Foi elle que me agarrou na mão,
á força, para eu
assignar: e eu, n'aquella atrapalhação, sem saber
o que fazia, assignei para evitar fallatorios. Foi um laço
que me armaram os meus inimigos. O meu querido tio, que sabe como eu
gósto de si, que até estava o anno passado com
tenção,
se soubesse a sua morada em Paris, de lhe mandar meia pipa de vinho de
Collares, não fique pois zangado commigo. Bem infeliz
já eu sou! E se quizer procure esse João da Ega
que me perdeu! Mas acredite que hei de tirar uma vingança
que ha de ser fallada! Ainda não decidi qual, n'esta
atarantação; mas em todo o caso a nossa familia
ha de ficar desenxovalhada, porque eu nunca admitti que ninguem
brincasse com a minha dignidade... E se o não fiz
já antes de partir para Italia, se ainda não
pugnei pela minha honra, é porque ha dias, com todos estes
abalos, veio-me uma tremenda dysenteria, que estou que me
não tenho nas pernas. Isto por cima dos meus males
moraes!...» V. exc.
a ri-se, snr. Ega?
—Pois que quer v. exc.
a que eu faça?
balbuciou o Ega por
fim, suffocado, com os olhos em lagrimas. Rio-me eu, ri-se o Alencar,
ri-se v. exc.
a Isso é extraordinario!
Essa dignidade, essa
dysenteria...
O snr. Guimarães, embaçado, olhou o Ega,
olhou o poeta que
fungava sob os longos bigodes, e terminou por dizer:
—Com effeito, a carta é d'uma cavalgadura... Mas o facto
permanece...
Então Ega appellou para o bom senso do snr.
Guimarães, para a sua experiencia das coisas d'honra.
Comprehendia elle que dois cavalheiros, indo desafiar um homem a sua
casa, lhe agarrem no pulso, o forcem violentamente a assignar uma carta
em que elle se declara bebedo?...
O snr. Guimarães, agradado com aquella deferencia pelo seu
tacto e pela sua experiencia, confessou que o caso, pelo menos em
Paris, seria pouco natural.
—E em Lisboa, senhor! Que diabo, isto não é a
Cafraria! E diga-me o snr. Guimarães outra coisa, de
gentleman para gentleman: como considera seu sobrinho? um homem
irreprehensivelmente veridico?
O snr. Guimarães cofiou as barbas, declarou lealmente:
—Um refinado mentiroso.
—Então! gritou Ega em triumpho, atirando os
braços ao ar.
De novo Alencar interveio. A questão parecia-lhe
satisfactoriamente finda. E não restava senão os
dois apertarem-se a mão fraternalmente, como bons
democratas...
Já de pé, atirou a genebra ás guelas.
Ega sorria, estendia a mão ao snr. Guimarães. Mas
o velho
demagogo, ainda com uma sombra na face enrugada, desejou que o snr.
João da Ega (se n'isso não tinha duvida)
declarasse, alli diante do amigo Alencar, que não lhe achava
a elle, Guimarães,
cara de bebedo...
—Oh meu caro senhor! exclamou Ega, batendo com o dinheiro na mesa para
chamar o criado. Pelo contrario! O maior prazer em proclamar diante do
Alencar, e aos quatro ventos, que lhe acho a cara d'um perfeito
cavalheiro e d'um patriota!
Então trocaram um rasgado aperto de
mãos—emquanto o snr. Guimarães affirmava a sua
satisfação por conhecer o snr. João da
Ega, moço de tantos dotes e tão liberal. E quando
s. exc.
a quizesse qualquer coisa, politica ou
litteraria, era escrever
este endereço bem conhecido no
mundo:—
Redaction du
Rappel,
Paris!
Alencar abalára. E os dois deixaram o botequim, trocando
impressões do sarau. O snr. Guimarães estava
enojado com a carolice, a sabujice d'esse Rufino. Quando o ouvira
palrar das azas da princeza e da cruz do adro, quasi lhe
gritára cá
do fundo: «Quanto te pagam para isso, miseravel?»
Mas de repente Ega estacou na escada, tirando o chapéo:
—Oh snr.
a baroneza, então
já nos abandona?
Era a Alvim que descia devagar, com a Joanninha Villar, atando as
largas fitas d'uma capa de pellucia verde. Queixou-se d'uma
dôr de cabeça que a torturava, apesar de ter
gostado loucamente
do Rufino... Mas uma noite toda de litteratura, que estafa! E agora,
para mais, ficára lá um
homemzinho a fazer musica classica...
—É o meu amigo Cruges!
—Ah! é seu amigo? Pois olhe, devia-lhe ter dito que tocasse
antes o
Pirolito.
—V. exc.
a afflige-me com esse desdem pelos
grandes mestres...
Não quer que a vá acompanhar á
carruagem? Paciencia... Muito boa noite, snr.
a
D. Joanna!... Um servo
seu, snr.
a baroneza! E Deus lhe tire a sua
dôr de
cabeça!
Ella voltou-se ainda no degrau, para o ameaçar risonhamente
com o leque:
—Não seja impostor! O snr. Ega não acredita em
Deus.
—Perdão... Que o Diabo lhe tire a sua dôr de
cabeça, snr.
a baroneza!
O velho democrata desapparecera discretamente. E da ante-sala Ega
avistou logo ao fundo, no tablado, sobre um môcho muito baixo
que lhe fazia roçar pelo chão as longas abas da
casaca—o
Cruges, com o nariz bicudo contra o caderno da Sonata, martellando
sabiamente o teclado. Foi então subindo em pontas de
pés pela coxia tapetada de vermelho, agora desafogada, quasi
vazia: um ar mais fresco circulava: as senhoras, cançadas,
bocejavam por traz dos leques.
Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na mesma fila com todo um
rancho intimo, a marqueza de Soutal, as duas Pedrosos, a Thereza
Darque. E a boa D.
Maria tocou-lhe logo no braço para saber quem era aquelle
musico de cabelleira.
—Um amigo meu, murmurou Ega. Um grande maestro, o Cruges.
O Cruges... O nome correu entre as senhoras, que o não
conheciam. E era composição
d'elle, aquella coisa triste?
—É de Beethoven, snr.
a D. Maria da
Cunha, a
Sonata pathetica.
Uma das Pedrosos não percebera bem o nome da Sonata. E a
marqueza de Soutal, muito séria, muito bella, cheirando
devagar um frasquinho de saes, disse que era a
Sonata
pateta.
Por toda a bancada foi um rastilho de risos suffocados. A
Sonata pateta! Aquillo parecia
divino! Da extremidade o Vargas gordo, o das corridas, estendeu a face
enorme, imberbe e côr de papoula:
—Muito bem, snr.
a marqueza, muito catita!
E passou o gracejo a outras senhoras, que se voltavam, sorriam
á marqueza, entre o
frou-frou dos leques. Ella
triumphava, bella e séria, com um velho vestido de velludo
preto, respirando os saes—emquanto adiante um amador de barba grisalha
cravava n'aquelle rancho ruidoso dois grandes oculos d'ouro que
faiscavam de cólera.
No emtanto, por toda a sala, o susurro crescia. Os encatarrhoados
tossiam livremente. Dois cavalheiros tinham aberto a
Tarde. E cahido
sobre o teclado, com a gola da casaca fugida para a nuca, o pobre
Cruges, suando, estonteado por aquella
desattenção rumorosa, atabalhoava as notas, n'uma
debandada.
—Fiasco completo, declarou Carlos que se aproximára do Ega
e do rancho.
Foi para D. Maria da Cunha uma alegria, uma surpreza! Até
que emfim se via o snr. Carlos da Maia, o Principe Tenebroso! Que
fizera elle durante esse verão? Todo o mundo a esperal-o em
Cintra, alguem mesmo com anciedade... Um
chut furioso do amador de barbas
grisalhas emmudeceu-a. E justamente Cruges, depois de bater dois
accordes bruscos, arredára o môcho, esgueirava-se
do estrado, enxugando as mãos ao lenço. Aqui e
além algumas palmas resoaram, molles e de cortezia, entre um
grande murmurio d'allivio. E o Ega e Carlos correram á
porta, onde já esperavam o
marquez, o Craft, o Taveira—para abraçar, consolar o pobre
Cruges que tremia todo, com os olhos esgazeados.
E immediatamente, no silencio attento que redominava,
um sujeito muito magro, muito alto, surgiu no tablado, com um
manuscripto na mão. Alguem ao lado do Ega disse que era o
Prata, que ia fallar sobre o
Estado agricola da
provincia do Minho. Atraz, um criado veio collocar
sobre a mesa um candelabro de duas velas: o Prata, d'ilharga para a
luz, mergulhou no caderno: e d'entre o perfil triste e as folhas largas
um rumor lento foi escorrendo, rumor de reza n'uma somnolencia de
novena, onde por vezes destacavam como gemidos—«riqueza
dos
gados..., esphacelamento da propriedade..., fertil e desprotegida
região...»
Começou então uma debandada sorrateira e
formigueira, que nem os
chuts do
commissario do
sarau, vigilante e de pé sobre um degrau do estrado, podiam
conter. Só as senhoras ficavam; e um ou outro burocrata
idoso, que se inclinava zelosamente para o murmurio de reza, com a
mão em concha sobre a orelha.
Ega, que fugia tambem «ao vecejante paraiso do
Minho», achou-se em frente do snr. Guimarães.
—Que massada, hein?
O democrata concordou que aquelle preopinante não lhe
parecia divertido... Depois, mais sério, com outra
idéa, segurando um botão da casaca do Ega:
—Eu espero que v. exc.
a ha pouco
não ficasse com a
impressão de que eu sou solidario ou me importo com meu
sobrinho...
Oh! decerto que não! Ega vira bem que o snr.
Guimarães não tinha pelo Damaso nenhum
enthusiasmo de familia.
—Asco, senhor, só asco! Quando elle foi a primeira vez a
Paris, e soube que eu morava n'uma trapeira, nunca me procurou! Porque
aquelle imbecil dá-se ares d'aristocrata... E como v. exc.
a
sabe, é filho d'um agiota!
Puxou a charuteira, ajuntou gravemente:
—A mãi, sim! Minha irmã era d'uma boa familia.
Fez aquelle desgraçado casamento, mas era
d'uma boa familia! Que, com os
meus principios, já v. exc.
a
vê que tudo isso de
fidalguia,
pergaminhos, brazões, são para mim
blague e mais
blague! Mas emfim os factos
são os factos, a historia de Portugal ahi está...
Os Guimarães da Bairrada eram de sangue azul.
Ega sorriu, n'um assentimento cortez:
—E v. exc.
a então parte brevemente
para Paris?
—Ámanhã mesmo, por Bordeus... Agora que toda essa cambada
do marechal de Mac-Mahon, e do duque de Broglie, e do Descazes foi
pelos ares, já se póde lá respirar...
N'esse instante Telles e o Taveira, passando de braço dado,
voltaram-se, a observar curiosamente aquelle velho austero, todo de
preto, que fallava alto com o Ega de marechaes e de duques. Ega
reparou: o democrata, de resto, tinha uma sobrecasaca de casimira nova;
o seu altivo chapéo reluzia; e Ega ficou de bom grado a
conversar com aquelle gentleman correcto e venerando que impressionava
os seus amigos.
—A republica com effeito, observou elle, dando alguns passos ao lado
do snr. Guimarães, esteve alli um momento compromettida!
—Perdida! E eu, meu caro senhor, aqui onde me vê, para ser
expulso por causa d'umas verdadesinhas que soltei n'uma
reunião anarchista. Até me affirmaram que n'um
conselho de ministros o marechal de Mac-Mahon, que é um
tarimbeiro,
batera
um murro na mesa e dissera:
Ce sacré
Guimaran, il nous embête, faut lui donner du pied dans le
derrière! Eu não estava
lá, não sei, mas affirmaram-me... Em Paris, como
os francezes não sabem pronunciar Guimarães, e eu
embirro que me estropiem o nome, assigno
Mr.
Guimaran. Ha dois annos, quando fui á
Italia, era
Mr.
Guimarini. E se fôr agora á
Russia, cá por coisas, hei de ser
Mr.
Guimaroff... Embirro
que me estropiem o nome!
Tinham voltado á porta do salão. Longas bancadas
vazias punham dentro, no brilho pesado do gaz, uma tristeza de abandono
e tedio; e no estrado o Prata continuava, de mão no bolso,
com o nariz sobre o manuscripto, sem que se sentisse agora surdir um
som d'aquelle espantalho esguio. Mas o marquez, que descia do fundo,
atabafando-se no seu cache-nez de sêda, disse ao Ega ao
passar que o homemzinho era muito pratico, sabia da póda, e
lá tinha ficado ás voltas
com Proudhon.
Ega e o democrata recomeçaram então os seus
passos lentos na ante-sala onde o susurro de conversas mal abafadas
crescia, como n'um pateo, entre fumaças furtivas de cigarro.
E o snr. Guimarães chasqueava, achando uma boa
bêtise que se citasse
Proudhon, alli n'aquelle theatreco, a proposito d'estrumes do Minho...
—Oh, Proudhon entre nós, acudiu Ega rindo, cita-se muito,
é já um monstro classico.
Até
os
conselheiros d'Estado já sabem que para elle a propriedade
era um roubo, e Deus era o mal...
O democrata encolheu os hombros:
—Grande homem, senhor! Homem immenso! São os tres grandes
pimpões d'este seculo:
Proudhon, Garibaldi, e o compadre!
—O compadre! exclamou Ega, attonito.
Era o nome d'amizade que o snr. Guimarães dava em Paris a
Gambetta. Gambetta nunca o via, que não lhe gritasse de
longe, em hespanhol:
«Hombre,
compadre!» E elle tambem, logo:
«
Compadre,
caramba!» D'ahi ficára a
alcunha, e Gambetta ria. Porque lá isso, bom rapaz, e amigo
d'esta franqueza do sul, e patriota, até alli!
—Immenso, meu caro senhor! O maior de todos!
Pois Ega imaginaria que o snr. Guimarães, com as suas
relações do
Rappel, devia ter sobretudo o culto
de Victor Hugo...
—Esse, meu caro senhor, não é um homem,
é um mundo!
E o snr. Guimarães ergueu mais a face, ajuntou infinitamente
grave:
—É um mundo! .. E aqui onde me vê, ainda
não ha tres mezes que elle me disse uma coisa que me foi
direita ao coração!
Vendo com deleite o interesse e a curiosidade do Ega, o democrata
contou largamente esse glorioso lance que ainda o commovia:
—Foi uma noite no
Rappel. Eu estava
a escrever,
elle
appareceu, já um pouco trôpego, mas com
o olho a luzir, e aquella bondade, aquella magestade!... Eu ergui-me,
como se entrasse um rei... Isto é, não! que se
fosse um rei tinha-lhe dado
com a bota no rabiosque. Levantei-me como se elle fosse um Deus! Qual
Deus! não ha Deus que me fizesse levantar!... Emfim,
acabou-se, levantei-me! Elle olhou para mim, fez assim um gesto com a
mão, e disse, a sorrir, com aquelle ar de genio que tinha
sempre:
Bonsoir, mon ami!
E o snr. Guimarães deu alguns passos dignos, em silencio,
como se aquelle
bonsoir, aquelle
mon ami, assim recordados, lhe
fizessem mais vivamente sentir a sua importancia no mundo.
De repente Alencar, que bracejava n'um grupo, rompeu para elles,
pallido, d'olhos chammejantes:
—Que me dizem vocês a esta pouca vergonha? Aquelle infame
alli ha meia hora, com o in-folio, a rosnar, a rosnar... E toda a
gente a sahir, não fica ninguem! Tenho de recitar aos bancos
de palhinha!...
E abalou, rilhando os dentes, a exhalar mais longe o seu furor.
Mas algumas palmas cançadas, dentro, fizeram voltar o Ega. O
estrado ficára novamente vazio, com as duas velas ardendo no
candelabro. Um cartão em grossas letras, que um criado
collocára no piano, annunciava um «intervallo de
dez minutos» como n'um circo. E n'esse instante a snr.
a
condessa de Gouvarinho sahira pelo braço do marido,
deixando atraz um
sulco largo de comprimentos, d'espinhas que se vergavam, de
chapéos de burocratas rasgadamente erguidos. O commissario
do sarau azafamava-se procurando duas cadeiras para ss. exc.
as
A
condessa porém foi reunir-se a D. Maria da Cunha, que ella
vira, com as Pedrosos e a marqueza de Soutal, refugiada n'um
vão de janella. Ega immediatamente acercou-se do rancho
intimo, esperando que as senhoras se beijocassem.
—Então, snr.
a condessa, ainda muito
commovida com a
eloquencia do Rufino?
—Muito cançada... E que calor, hein?
—Horrivel. A snr.
a baroneza d'Alvim sahiu ha
pouco, com uma dor de
cabeça...
A condessa, que tinha os olhos pisados e uma prega de velhice aos
cantos da boca, murmurou:
—Não admira, isto não é divertido...
Emfim, já agora é necessario levar a cruz ao
Calvario.
—Se fosse uma cruz, minha senhora! exclamou o Ega. Infelizmente
é uma lyra!
Ella riu. E D. Maria da Cunha, n'essa noite mais remoçada e
viva, ficou logo toda banhada n'um sorriso, com aquella carinhosa
admiração
pelo Ega, que era um dos seus sentimentos.
—Este Ega!... Não ha mal que lhe chegue!... E diga-me outra
coisa, que é feito do seu amigo Maia?
Ega vira-a momentos antes, no salão, puxar pela manga de
Carlos, cochichar com Carlos. Mas conservou um ar innocente:
—Está ahi, anda por ahi, assistindo a toda essa
litteratura.
De repente os olhos sempre bonitos e languidos de D. Maria da Cunha
rebrilharam com uma faisca de malicia:
—Fallai no mau... N'este caso seria fallar do bom. Emfim ahi nos vem o
Principe Tenebroso!
E era com effeito Carlos que passava, se encontrára diante
dos braços do conde de Gouvarinho, estendidos para elle com
uma effusão em que parecia renascer o antigo affecto. Pela
primeira vez Carlos via a condessa, desde a noite em que no Aterro,
abandonando-a para sempre, fechára com odio a portinhola da
tipoia onde ella ficava chorando. Ambos baixaram os olhos, ao adiantar
a mão um para o outro, lentamente. E foi ella que findou o
embaraço, abrindo o seu grande leque de pennas de avestruz:
—Que calor, não é verdade?
—Atroz! disse Carlos. Não vá v. exc.
a
apanhar
ar d'essa janella.
Ella forçou os labios brancos a um sorriso:
—É conselho de medico?
—Oh, minha senhora, não são as horas da minha
consulta! É apenas caridade de christão.
Mas de repente a condessa chamou o Taveira, que ria, derretido, com a
marqueza de Soutal, para o reprehender por elle não ter
apparecido
terça-feira na rua de S. Marçal. Surprehendido
com tanto interesse, tanta familiaridade, o Taveira, muito vermelho,
balbuciou que
nem sabia, fôra o seu infortunio, tinham-se mettido umas
coisas...
—Além d'isso não imaginei que v. exc.
a
começasse a receber tão cedo... V. exc.
a
antigamente era só depois da Cerração
da Velha.
Até me lembro que o anno passado...
Mas emmudeceu. O conde de Gouvarinho voltára-se, pousando a
mão carinhosa no hombro de Carlos, desejando a sua
impressão sobre o «nosso Rufino». Elle
conde estava encantado! Encantado sobretudo com a
variedade d'escala,
aquella arte tão difficil de passar do solemne para o ameno,
de descer das grandes rajadas para os brincados de linguagem.
Extraordinario!
—Tenho ouvido grandes parlamentares, o Rouher,
o Gladstone, o Canovas, outros
muitos. Mas não são estes vôos, esta
opulencia...
É tudo muito sêcco, idéas e factos.
Não entra n'alma! Vejam os amigos aquella imagem tão
pujante, tão
respeitosa, do Anjo da Esmola, descendo devagar, com as azas de
setim... É de primeira ordem.
Ega não se conteve:
—Eu acho esse genio um imbecil.
O conde sorriu, como á tonteria d'uma criança:
—São opiniões...
E estendeu em redor as mãos ao Sousa Netto, ao Darque, ao
Telles da Gama, a outros que se juntavam ao rancho intimo—emquanto os
seus correligionarios, os seus collegas do Centro e da Camara, o
Gonçalo, o Neves, o Vieira da Costa rondavam de
longe, sem poder roçar pelo
ministro que tinham creado, agora que elle conversava e ria com rapazes
e senhoras da «sociedade». O Darque, que era
parente do Gouvarinho, quiz saber como o amigo Gastão se ia
dando com os encargos do Poder... O conde declarou para os lados que
não fizera mais por ora do que passar em revista os
elementos com que contava para atacar os problemas... De resto, em
questões de trabalho, o ministerio fôra
infelicissimo! O presidente do conselho de cama com uma catarrheira,
inutil para uma semana. Agora o collega da fazenda com as febres do
Aterro...
—Está melhor? Já sae? foi em torno a pergunta
cheia de cuidado.
—Está na mesma, vai ámanhã para o
Dáfundo. Mas realmente esse não se acha de todo
inutilisado. Ainda hontem eu lhe dizia: «Você parte
para o Dáfundo, leva os seus papeis, os seus documentos...
Pela manhã dá os seus passeios, respira o bom
ar... E á noite, depois de jantar, á luz do
candieiro, entretem-se a resolver a questão de
fazenda!»
Uma campainha retiniu. D. José Sequeira, escarlate
d'azafama, veio, furando, annunciar a s. exc.
a o
fim do
intervallo—offerecer o braço á
snr.
a condessa. Ao passar, ella lembrou a Carlos
as suas
«terças-feiras», com a delicada
simplicidade d'um dever. Elle curvou-se em silencio. Era como se todo o
passado, o sofá que rolava, a casa da titi em Santa
Isabel, as tipoias em que
ella deixava o seu cheiro de verbena—fossem coisas lidas por ambos
n'um livro e por ambos esquecidas. Atraz, o marido seguia, erguendo
alto a cabeça e as lunetas, como representante do Poder
n'aquella festa da Intelligencia.
—Pois senhores, disse o Ega afastando-se com Carlos, a mulherzinha tem
topete!
—Que diabo queres tu? Atravessou a sua hora de tolice e de
paixão, e agora continúa
tranquillamente na rotina da vida.
—E na rotina da vida, concluiu Ega, encontra-se a cada passo comtigo,
que a viste em camisa!... Bonito mundo!
Mas o Alencar appareceu no alto da escada, voltando do botequim e da
genebra, com um brilho maior no olho cavo, de paletot no
braço, já
preparado para gorgear. E o marquez juntou-se a elles, abafado no
cache-nez de sêda branca, mais rouco, queixando-se de que a
cada minuto a garganta se lhe punha peor... Aquella canalha d'aquella
garganta ainda lhe vinha a pregar uma!...
Depois, muito sério, considerando o Alencar:
—Ouve lá, isso que tu vaes recitar, a
Democracia, é politica ou
sentimento? Se é politica, raspo-me. Mas se é
sentimento, e a humanidade, e o santo operario, e a fraternidade,
então fico, que d'isso gósto e até
talvez me faça
bem.
Os outros affirmaram que era sentimento. O poeta tirou o
chapéo, passou os dedos pelos anneis fôfos da
grenha inspirada:
—Eu vos digo, rapazes... Uma coisa não vai sem a outra,
vejam vocês Danton!... Mas já
não fallo emfim d'esses leões da
Revolução. Vejam vocês o Passos Manoel!
Está claro, é necessario
logica... Mas, tambem, caramba, sêbo para uma politica sem
entranhas e sem um bocado de infinito!
Subitamente, por sobre o novo silencio da sala, um vozeirão
mais forte que o do Rufino fez retumbar os grandes nomes de D.
João de Castro e de Affonso d'Albuquerque... Todos se
acercaram da porta, curiosamente. Era um maganão gordo, de
barba em bico e camelia na casaca, que, de mão fechada no ar
como se agitasse o pendão das Quinas, lamentava aos berros
que nós portuguezes, possuindo este nobre estuario do Tejo e
tão formosas tradições de gloria,
deixassemos esbanjar, ao vento do indifferentismo, a sublime
herança dos avós!...
—É patriotismo, disse o Ega. Fujamos!
Mas o marquez reteve-os, gostando tambem de um bocado de Quinas. E foi
o pobre marquez que o patriota pareceu interpellar, alçando
na ponta dos botins o corpanzil rotundo, aos urros. Quem havia agora
ahi, que, agarrando n'uma das mãos a espada e na outra a
cruz, saltasse para o convés d'uma caravella a ir levar o
nome portuguez através dos mares desconhecidos? Quem havia
ahi, heroico bastante, para imitar o grande João de Castro,
que na sua quinta de Cintra arrancára
todas as arvores de fructo, tal a era a isenção
da sua alma de poeta?...
—Aquelle miseravel quer-nos privar da sobremesa! exclamou Ega.
Em torno correram risos alegres. O marquez virou costas, enojado com
aquella patriotice reles. Outros bocejavam por traz da mão,
n'um tedio completo de «todas as nossas glorias». E
Carlos, enervado, preso alli pelo dever de applaudir o Alencar, chamava
o Ega para irem abaixo ao botequim espairecer a impaciencia—quando viu
o Eusebiosinho que descia a escada, enfiando á pressa um
paletot alvadio. Não o encontrára mais desde a
infamia da
Corneta, em que elle
fôra «embaixador». E a cólera
que tivera contra elle n'esse dia reviveu logo n'um desejo irresistivel
de o espancar. Disse ao Ega:
—Vou aproveitar o tempo, emquanto esperamos pelo Alencar, a arrancar
as orelhas áquelle maroto!
—Deixa lá, acudiu Ega, é um irresponsavel!
Mas já Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atraz,
inquieto, temendo uma violencia. Quando chegaram á porta,
Eusebio mettera para os lados do Carmo. E alcançaram-no no
largo da Abegoaria, áquella hora deserto, mudo, com dois
bicos de gaz mortiços. Ao vêr Carlos fender assim
sobre elle, sem paletot, de peitilho claro na noite escura, o Eusebio,
encolhido, balbuciou atarantadamente: «Olá, por
aqui...»
—Ouve cá, estupôr! rugiu Carlos, baixo.
Então tambem andaste mettido n'essa maroteira da
Corneta? Eu devia rachar-te os ossos
um a um!
Agarrára-lhe o braço, ainda sem odio. Mas, apenas
sentiu na sua mão de forte aquella carne mollenga e tremula,
resurgiu n'elle essa aversão nunca apagada—que
já em pequeno o fazia saltar sobre o Eusebiosinho,
esfrangalhal-o, sempre que as Silveiras o traziam á quinta.
E então abanou-o,
como outr'ora, furiosamente, gozando o seu furor. O pobre viuvo, no
meio das lunetas negras que lhe voavam, do chapéo coberto de
luto que lhe rolára nas lages, dançava,
escanifrado e desengonçado. Por fim Carlos atirou-o contra a
porta d'uma cocheira.
—Acudam! Aqui d'el-rei, policia! rouquejou o desgraçado.
Já a mão de Carlos lhe empolgára as
guelas. Mas Ega interveio:
—Alto! Basta! O nosso querido amigo já recebeu a sua
dóse...
Elle mesmo lhe apanhou o chapéo. Tremendo, arquejando, de
bruços, Eusebiosinho procurava ainda o guarda-chuva. E, para
findar, a bota de Carlos, atirada com nojo, estatelou-o nas pedras,
para cima d'uma sargeta onde restavam immundicies e humidade de
cavallo.
O largo permanecia deserto, com o gaz adormecendo nos candieiros
baços. Tranquillamente os dois recolheram ao sarau. No
peristylo, cheio de
luz e
plantas, cruzaram-se com o patriota de barbas em bico, rodeado
d'amigos, em caminho para o botequim, limpando ao lenço o
pescoço e a face, exclamando com o cansaço
radiante d'um triumphador:
—Irra! custou, mas sempre lhes fiz vibrar a corda!
Já o Alencar estaria gorgeando! Os dois amigos galgaram a
escada. E com effeito Alencar apparecera no estrado, onde ardia ainda o
candelabro de duas velas.
Esguio, mais sombrio n'aquelle fundo côr de canario, o poeta
derramou pensativamente pelas cadeiras, pela galeria, um olhar encovado
e lento: e um silencio pesou, mais enlevado, diante de tanta melancolia
e de tanta solemnidade.
—
A Democracia! annunciou o auctor
d'
Elvira, com a pompa d'uma
revelação.
Duas vezes passou pelos bigodes o lenço branco, que depois
atirou para a mesa. E levantando a mão n'um gesto demorado e
largo: