—Vejam vocês, filhos, se se encontra ainda uma gente como
estes Maias, almas de leões, generosos, valentes!... Tudo
parece ir morrendo n'este desgraçado paiz!... Foi-se a
faisca, foi-se a
paixão... Affonso da Maia! Parece que o estou a
vêr, á janella do palacio em Bemfica, com a sua
grande gravata de setim, aquella cara nobre de portuguez d'outr'ora...
E lá vai! E o meu pobre Pedro tambem... Caramba,
até se me faz a alma negra!
Os olhos ennevoavam-se-lhe, deu um immenso sorvo ao cognac.
Ega, depois de beber um gole de café, voltára ao
escriptorio, onde o cheiro d'incenso espalhava uma melancolia de
capella. D. Diogo, estirado no sofá, resonava; Sequeira
defronte dormitava tambem, descahido sobre os braços
cruzados, com todo o sangue na face. Ega despertou-os de leve. Os dois
velhos amigos, depois d'um abraço a Carlos, partiram na
mesma carruagem, com os charutos accêsos. Os outros, pouco a
pouco, iam tambem abraçar Carlos, enfiavam os paletots. O
ultimo a sahir foi Alencar, que, no pateo, beijou o Ega, n'um impulso
d'emoção, lamentando ainda o passado, os
companheiros desapparecidos:
—O que me vale agora são vocês, rapazes, a gente
nova. Não me deitem á margem!
Senão, caramba, quando quizer fazer uma visita tenho d'ir ao
cemiterio. Adeus, não apanhes frio!
O enterro foi ao outro dia, á uma hora. O Ega, o marquez, o
Craft, o Sequeira levaram o caixão
até á porta, seguidos pelo grupo d'amigos, onde
destacava o conde de Gouvarinho, solemnissimo, de gran-cruz. O conde de
Steinbroken, com o seu secretario, trazia na mão uma
corôa de violetas. Na calçada estreita os trens
apertavam-se,
n'uma longa fila
que subia, se perdia pelas outras ruas, pelas
travessas: em todas as janellas do bairro se apinhava gente: os
policias berravam com os cocheiros. Por fim o carro, muito simples,
rodou, seguido por
duas
carruagens da casa, vazias, com as lanternas recobertas de longos
véos de crepe que pendiam. Atraz, um a um, desfilaram os
trens da Companhia com os convidados, que abotoavam os casacos, corriam
os vidros contra a friagem do dia ennevoado. O Darque e o Vargas iam no
mesmo coupé. O correio do Gouvarinho passou choutando na sua
pileca branca. E, sobre a rua deserta, cerrou-se finalmente para um
grande luto o portão do Ramalhete.
Quando Ega voltou do cemiterio encontrou Carlos no quarto, rasgando
papeis, emquanto o Baptista, atarefado, de joelhos no tapete, fechava
uma mala de couro. E como Ega, pallido e arrepiado de frio, esfregava
as mãos, Carlos fechou a gaveta cheia de cartas, lembrou que
fossem para o
fumoir onde havia lume.
Apenas lá entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o
Ega:
—Tens duvida em lhe ir fallar, a ella?
—Não. Para que?... Para lhe dizer o que?
—Tudo.
Ega rolou uma poltrona para junto da chaminé, despertou as
brazas. E Carlos, ao lado, proseguiu devagar, olhando o lume:
—Além d'isso, desejo que ella parta, que parta
já para Paris... Seria absurdo ficar em Lisboa... Emquanto
se não liquidar o que lhe pertence, ha-de-se-lhe estabelecer
uma mezada, uma larga mezada... Villaça vem d'aqui a bocado
para fallar d'esses
detalhes... Em todo o caso, ámanhã, para
ella partir, levas-lhe quinhentas libras.
Ega murmurou:
—Talvez para essas questões de dinheiro fosse melhor ir
lá o Villaça...
—Não, pelo amor de Deus! Para que se ha de fazer
córar a pobre creatura diante do
Villaça?...
Houve um silencio. Ambos olhavam a chamma clara que bailava.
—Custa-te muito, não é verdade, meu pobre
Ega?...
—Não... Começo a estar embotado. É
fechar os olhos, tragar mais essa má hora, e depois
descansar. Quando voltas tu de Santa Olavia?
Carlos não sabia. Contava que Ega, terminada essa
missão á rua de S. Francisco, fosse
aborrecer-se uns dias com elle a Santa Olavia. Mais tarde era
necessario trasladar para lá o corpo do avô...
—E passado isso, vou viajar... Vou á America, vou ao
Japão, vou fazer esta coisa estupida e sempre efficaz que se
chama
distrahir...
Encolheu os hombros, foi devagar até á janella,
onde morria pallidamente um raio de sol na tarde que
clareára. Depois voltando para o Ega, que de novo remexia os
carvões:
—Eu, está claro, não me atrevo a dizer-te que
venhas, Ega... Desejava bem, mas não me atrevo!
Ega pousou devagar as tenazes, ergueu-se, abriu os braços
para Carlos, commovido:
—Atreve, que diabo... Porque não?
—Então vem!
Carlos puzera n'isto toda a sua alma. E ao abraçar o Ega
corriam-lhe na face duas grandes lagrimas.
Então Ega reflectiu. Antes de ir a Santa Olavia precisava
fazer uma romagem á quinta de Celorico. O Oriente era caro.
Urgia pois arrancar á mãi algumas letras de
credito... E como Carlos pretendia ter «bastante para o luxo
d'ambos», Ega atalhou muito sério:
—Não, não! Minha mãi tambem
é rica. Uma viagem á America e ao
Japão são
fórmas de educação. E a
mamã tem o dever de completar a minha
educação. O que acceito, sim, é uma
das tuas malas de couro...
Quando n'essa noite, acompanhados pelo Villaça, Carlos e Ega
chegaram á estação de
Santa Apolonia, o comboio ia partir. Carlos mal teve tempo de saltar
para o seu compartimento reservado—emquanto o Baptista,
abraçado ás mantas de viagem, empurrado pelo
guarda, se içava desesperadamente para outra carruagem,
entre os protestos dos sujeitos que a atulhavam. O trem immediatamente
rolou. Carlos debruçou-se á portinhola, gritando
ao Ega:—«Manda um telegramma ámanhã a
dizer o que houve!»
Recolhendo ao Ramalhete com o Villaça, que ia n'essa noite
colligir e sellar os papeis de Affonso da Maia, Ega fallou logo nas
quinhentas libras
que
elle devia entregar na manhã seguinte a Maria Eduarda.
Villaça recebera com effeito essa ordem de Carlos. Mas
francamente, entre amigos, não lhe parecia excessiva a
somma, para uma jornada? Além d'isso Carlos
fallára em estabelecer a essa senhora uma mezada de quatro
mil francos, cento e sessenta libras! Não achava tambem
exagerado? Para uma mulher, uma simples mulher...
Ega lembrou que essa simples mulher tinha direito legal a muito mais...
—Sim, sim, resmungou o procurador. Mas tudo isso de legalidade tem
ainda de ser muito estudado. Não fallemos n'isso. Eu nem
gósto de fallar d'isso!...
Depois como Ega alludia á fortuna que deixava Affonso da
Maia—Villaça deu detalhes. Era decerto uma das boas casas
de Portugal. Só o que viera da herança de
Sebastião da Maia,
representava bem quinze contos de renda. As propriedades do Alemtejo,
com os trabalhos que lá fizera o pai d'elle
Villaça, tinham triplicado de valor. Santa Olavia era uma
despeza. Mas as quintas ao pé de Lamego, um condado.
—Ha muito dinheiro! exclamou elle com
satisfação, batendo no joelho do Ega. E isto,
amigo, digam lá o que disserem, sempre consola de tudo.
—Consola de muito, com effeito.
Ao entrar no Ramalhete, Ega sentia uma longa saudade pensando no lar
feliz e amavel que alli houvera e que para sempre se
apagára. Na ante-camara,
os seus passos
já lhe pareceram soar tristemente como os que se
dão n'uma casa abandonada. Ainda errava um vago cheiro de
incenso e de phenol. No lustre do corredor havia uma luz só
e dormente.
—Já anda aqui um ar de ruina, Villaça.
—Ruinasinha bem confortavel, todavia! murmurou o procurador dando um
olhar ás tapeçarias e aos divans, e esfregando as
mãos, arrepiado da friagem da noite.
Entraram no escriptorio de Affonso, onde durante um momento se ficaram
aquecendo ao lume. O relogio Luiz XV bateu finalmente as nove
horas—depois a toada argentina do seu minuete vibrou um instante e
morreu. Villaça preparou-se para
começar a sua tarefa. Ega declarou que ia para o quarto
arranjar tambem a sua papelada, fazer a limpeza final de dois annos de
mocidade...
Subiu. E pousára apenas a luz sobre a commoda, quando sentiu
ao fundo, no silencio do corredor, um gemido longo, desolado, d'uma
tristeza infinita. Um terror arrepiou-lhe os cabellos. Aquillo
arrastava-se, gemia no escuro, para o lado dos aposentos d'Affonso da
Maia. Por fim, reflectindo que toda a casa estava acordada, cheia de
criados e de luzes, Ega ousou dar alguns passos no corredor, com o
castiçal na mão tremula.
Era o gato! Era o reverendo Bonifacio, que, diante do quarto d'Affonso,
arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega
escorraçou-o, furioso.
O pobre Bonifacio fugiu,
obeso e lento, com a cauda fôfa a roçar o
chão: mas voltou
logo, e esgatanhando a porta, roçando-se pelas pernas do
Ega, recomeçou a miar, n'um lamento agudo, saudoso como o
d'uma dôr humana, chorando o dono perdido que o acariciava no
collo e que não
tornára a apparecer.
Ega correu ao escriptorio a pedir ao Villaça que dormisse
essa noite no Ramalhete. O procurador accedeu, impressionado com
aquelle horror do gato a chorar. Deixára o montão
de papeis sobre a mesa, voltára a aquecer os pés
ao lume dormente. E voltando-se para o Ega, que se sentára,
ainda todo pallido, no sofá bordado a matiz, antigo logar de
D. Diogo, murmurou devagar, gravemente:
—Ha tres annos, quando o snr. Affonso me encommendou aqui as primeiras
obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma antiga lenda, eram sempre fataes
aos Maias as paredes do Ramalhete. O snr. Affonso da Maia riu d'agouros
e lendas... Pois fataes foram!
No dia seguinte, levando os papeis da Monforte e o dinheiro em letras e
libras que Villaça lhe entregára á
porta do Banco de Portugal, Ega, com o coração
aos pulos, mas decidido a ser forte, a affrontar a crise serenamente,
subia ao primeiro andar da rua de S. Francisco. O Domingos, de
gravata preta, movendo-se em
pontas de pés, abriu o reposteiro da sala. E Ega
pousára apenas sobre o sofá a velha caixa de
charutos da Monforte—quando Maria Eduarda entrou, pallida, toda
coberta de negro, estendendo-lhe as mãos ambas.
—Então Carlos?
Ega balbuciou:
—Como v. exc.
a póde imaginar, n'um
momento d'estes... Foi
horrivel, assim de surpreza...
Uma lagrima tremeu nos olhos pisados de Maria. Ella não
conhecia o snr. Affonso da Maia, nem sequer o vira nunca. Mas soffria
realmente por sentir bem o soffrimento de Carlos... O que aquelle rapaz
estremecia o avô!
—Foi de repente, não?
Ega retardou-se em longos detalhes. Agradeceu a corôa que
ella mandára. Contou os gemidos, a
afflicção do pobre Bonifacio...
—E Carlos? repetiu ella.
—Carlos foi para Santa Olavia, minha senhora.
Ella apertou as mãos, n'uma surpreza que a acabrunhava. Para
Santa Olavia! E sem um bilhete, sem uma palavra?... Um terror
empallidecia-a mais, diante d'aquella partida tão
arrebatada, quasi parecida com um abandono. Terminou por murmurar, com
um ar de resignação e de confiança
que não sentia:
—Sim, com effeito, n'este momento não se pensa nos
outros...
Duas lagrimas corriam-lhe devagar pela face.
E diante d'esta dôr, tão humilde e tão
muda, Ega ficou desconcertado. Durante um instante, com os dedos
tremulos no bigode, viu Maria chorar em silencio. Por fim ergueu-se,
foi á janella, voltou, abriu os braços diante
d'ella n'uma
afflicção:
—Não, não é isso, minha querida
senhora! Ha outra coisa, ha ainda outra coisa! Tem sido para
nós dias terriveis! Tem sido dias d'angustia...
Outra coisa!?... Ella esperava, com os olhos largos sobre o Ega, a alma
toda suspensa.
Ega respirou fortemente:
—V. exc.
a lembra-se d'um Guimarães,
que vive em Paris, um
tio do Damaso?
Maria, espantada, moveu lentamente a cabeça.
—Esse Guimarães era muito conhecido da mãi de v.
exc.
a, não é verdade?
Ella teve o mesmo movimento breve e mudo. Mas o pobre Ega hesitava
ainda, com a face arrepanhada e branca, n'um embaraço que o
dilacerava:
—Eu fallo em tudo isto, minha senhora, porque Carlos assim me pediu...
Deus sabe o que me custa!... E é horrivel, nem sei por onde
hei de
começar...
Ella juntou as mãos, n'uma supplica, n'uma angustia:
—Pelo amor de Deus!
E n'esse instante, muito socegadamente, Rosa erguia uma ponta do
reposteiro, com
Niniche ao lado e a sua boneca nos
braços. A mãi teve um grito impaciente:
—Vai lá p'ra dentro! deixa-me!
Assustada, a pequena não se moveu mais, com os lindos olhos
de repente cheios de agua. O reposteiro cahiu, do fundo do corredor
veio um grande chôro magoado.
Então Ega teve só um desejo, o desesperado desejo
de findar.
—V. exc.
a conhece a letra de sua
mãi, não
é verdade?... Pois bem! Eu trago aqui uma
declaração d'ella a seu respeito... Esse
Guimarães é que tinha este documento, com outros
papeis que ella lhe entregou em 71, nas vesperas da guerra... Elle
conservou-os até agora, e queria restituir-lh'os, mas
não sabia onde v. exc.
a vivia. Viu-a
ha dias n'uma
carruagem, commigo, e com o Carlos... Foi ao pé do Aterro,
v. exc.
a deve lembrar-se, defronte do alfaiate,
quando vinhamos da
Toca... Pois bem! o
Guimarães veio immediatamente ao procurador dos Maias,
deu-lhe esses papeis, para que os entregasse a v. exc.
a...
E nas
primeiras palavras que disse, imagine o assombro de todos, quando se
entreviu que v. exc.
a era parenta de Carlos, e
parenta muito
chegada...
Atabalhoára esta historia de pé, quasi d'um
fôlego, com bruscos gestos de nervoso. Ella mal comprehendia,
livida, n'um indefinido terror. Só pôde murmurar
muito debilmente: «Mas...»
E de novo emmudeceu, assombrada, devorando os movimentos do Ega que,
debruçado sobre o sofá, desembrulhava
a tremer a caixa de charutos da Monforte.
Por fim voltou para ella com um
papel na mão, atropellando as palavras n'uma debandada:
—A mãi de v. exc.
a nunca lh'o
disse... Havia um motivo
muito grave... Ella tinha fugido de Lisboa, fugido ao marido... Digo
isto assim brutalmente, perdôe-me v. exc.
a,
mas
não é o
momento de attenuar as coisas... Aqui está! V. exc.^a
conhece a letra de sua mãi. É d'ella esta letra,
não é verdade?
—É! exclamou Maria, indo arrebatar o papel.
—Perdão! gritou Ega, retirando-lh'o violentamente. Eu sou
um estranho! E v. exc.
a não se
póde inteirar de
tudo isto emquanto eu não sahir d'aqui.
Fôra uma inspiração providencial, que o
salvava de testemunhar o choque terrivel, o horror das coisas que ella
ia saber. E insistiu. Deixava-lhe alli todos os papeis que eram de sua
mãi. Ella lería, quando elle sahisse, comprehenderia a realidade
atroz... Depois, tirando do bolso os dois pesados rôlos de
libras, o sobrescripto que continha a letra sobre Paris, pôz
tudo em cima da mesa, com a declaração da
Monforte.
—Agora só mais duas palavras. Carlos pensa que o que v.
exc.
a deve fazer já é
partir para
Paris. V. exc.
a tem direito, como sua filha ha
de ter, a uma parte da
fortuna d'esta familia dos Maias, que agora é a sua...
N'este masso que lhe deixo está uma letra sobre Paris para
as despezas immediatas... O procurador de Carlos tomou já um
wagon-salão.
Quando v. exc.
a decidir partir,
peço-lhe que mande um recado ao Ramalhete para eu estar na
gare... Creio que
é tudo. E agora devo deixal-a...
Agarrára rapidamente o chapéo, veio tomar-lhe a
mão inerte e fria:
—Tudo é uma fatalidade! V. exc.
a
é nova, ainda
lhe resta muita coisa na vida, tem a sua filha a consolal-a de tudo...
Nem lhe sei dizer mais nada!
Suffocado, beijou-lhe a mão que ella lhe abandonou, sem
consciencia e sem voz, de pé, direita no seu negro luto, com
a lividez parada d'um marmore. E fugiu.
—Ao telegrapho! gritou em baixo ao cocheiro.
Foi só na rua do Ouro que começou a serenar,
tirando o chapéo, respirando largamente. E ia
então repetindo a si mesmo todas as
consolações que se poderiam dar a Maria Eduarda:
era nova e formosa; o seu peccado fôra inconsciente; o tempo
acalma toda a dôr; e em breve, já resignada,
encontrar-se-hia com uma familia séria, uma larga
fortuna, n'esse amavel Paris, onde uns lindos olhos, com algumas notas
de mil francos, têm sempre um reinado seguro...
—É uma situação de viuva bonita e
rica, terminou elle por dizer alto no coupé. Ha peor na
vida.
Ao sahir do telegrapho despediu a tipoia. Por aquella luz consoladora
do dia de inverno, recolheu a pé para o Ramalhete, a
escrever a longa
carta que promettera a Carlos. Villaça já
lá estava installado, com um boné de velludilho
na cabeça, emmassando ainda os papeis de Affonso, liquidando
as contas dos criados. Jantaram tarde. E fumavam junto do lume, na sala
Luiz XV, quando o escudeiro veio dizer que uma senhora, em baixo, n'uma
carruagem, procurava o snr. Ega. Foi um terror. Imaginaram logo Maria,
alguma resolução
desesperada. Villaça ainda teve a esperança
d'ella trazer alguma nova revelação, que tudo
mudasse, salvasse
da «bolada»... Ega desceu a tremer. Era Melanie
n'uma tipoia de praça, abafada n'uma grande
ulster, com uma carta de Madame.
Á luz da lanterna Ega abriu o enveloppe, que trazia apenas
um cartão branco, com estas palavras a lapis:
«Decidi partir ámanhã para
Paris.»
Ega recalcou a curiosidade de saber como estava a senhora. Galgou logo
as escadas: e seguido de Villaça, que ficára na
ante-camara
á espreita, correu ao escriptorio d'Affonso, a escrever a
Maria. N'um papel tarjado de luto dizia-lhe (além de
detalhes sobre bagagens)—que o wagon-salão estava tomado
até Paris, e que elle teria a honra de a vêr em
Santa Apolonia. Depois, ao fazer o sobrescripto, ficou com a penna no
ar, n'um embaraço. Devia pôr «Madame
Mac-Gren» ou
«D. Maria Eduarda da Maia?» Villaça
achava preferivel o antigo nome, porque ella legalmente ainda
não era Maia. Mas, dizia o Ega atrapalhado, tambem
já não era Mac-Gren...
—Acabou-se! Vae sem nome. Imagina-se que foi esquecimento...
Levou assim a carta, dentro do sobrescripto em branco. Melanie
guardou-a no regalo. E, debruçada á portinhola,
entristecendo a voz, desejou saber, da parte de Madame, onde estava
enterrado o avô do senhor...
Ega ficou com o monoculo sobre ella, sem sentir bem se aquella
curiosidade de Maria era indiscreta ou tocante. Por fim deu uma
indicação. Era nos Prazeres, á
direita, ao fundo, onde havia um anjo com uma tocha. O melhor seria
perguntar ao guarda pelo jazigo dos snrs. Villaças.
—Merci, monsieur, bien le bonsoir.
—Bonsoir, Melanie!
No dia seguinte, na estação de Santa Apolonia,
Ega, que viera cedo com o Villaça, acabava de despachar a
sua bagagem para o Douro, quando avistou Maria que entrava trazendo
Rosa pela mão. Vinha toda envolta n'uma grande
pelliça escura, com um véo dobrado, espesso como
uma mascara: e a mesma gaze de luto escondia o rostosinho da pequena,
fazendo-lhe um laço sobre a touca. Miss Sarah, n'uma
ulster clara de
quadrados, sobraçava um masso de livros. Atraz o Domingos,
com os olhos muito vermelhos, segurava um rôlo de mantas, ao
lado de Melanie carregada de preto que levava
Niniche ao collo. Ega correu
para Maria Eduarda, conduziu-a pelo braço, em silencio, ao
wagon-salão que tinha todas as cortinas cerradas.
Junto do estribo ella tirou devagar a
luva. E muda, estendeu-lhe a mão.
—Ainda nos vemos no Entroncamento, murmurou Ega. Eu sigo tambem para o
Norte.
Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao vêr sumir-se
n'aquella carruagem de luxo, fechada, mysteriosa, uma senhora que
parecia tão bella, d'ar tão triste, coberta de
negro. E apenas Ega fechou a portinhola, o Neves, o da
Tarde e do Tribunal de Contas,
rompeu d'entre um rancho, arrebatou-lhe o braço com
sofreguidão:
—Quem é?
Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cahir no ouvido,
já muito adiante, tragicamente:
—Cleopatra!
O politico, furioso, ficou rosnando: «Que asno!...»
Ega abalára. Junto do seu compartimento Villaça
esperava, ainda deslumbrado com aquella figura de Maria Eduarda,
tão melancolica e nobre. Nunca a vira antes. E parecia-lhe
uma rainha de romance.
—Acredite o amigo, fez-me impressão! Caramba, bella mulher!
Dá-nos uma bolada, mas é uma soberba
praça!
O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um
lenço de côres sobre a face. E o Neves, o
conselheiro do Tribunal de Contas, ainda furioso, vendo o Ega
á portinhola, atirou-lhe de lado,
disfarçadamente, um gesto obsceno.
No Entroncamento Ega veio bater nos vidros
do salão que se
conservava fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sarah
lia a um canto, com a cabeça n'uma almofada. E
Niniche assustada ladrou.
—Quer tomar alguma coisa, minha senhora?
—Não, obrigada...
Ficaram calados, emquanto Ega com o pé no estribo tirava
lentamente a charuteira. Na
estação mal alumiada passavam saloios, devagar,
abafados em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a
machina resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do
salão, com olhares curiosos e já languidos para
aquella magnifica mulher, tão grave e sombria, envolta na
sua pelliça negra.
—Vai para o Porto? murmurou ella.
—Para Santa Olavia...
—Ah!
Então Ega balbuciou com os beiços a tremer:
—Adeus!
Ella apertou-lhe a mão com muita força, em
silencio, suffocada.
Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a
tiracollo que corriam a beber á cantina. Á porta
do buffete voltou-se ainda, ergueu o chapéo. Ella, de
pé, moveu de leve o
braço n'um lento adeus. E foi assim que elle pela derradeira
vez na vida viu Maria Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade,
á portinhola d'aquelle wagon que para sempre a levava.
VIII
Semanas depois, nos primeiros dias d'anno novo, a
Gazeta Illustrada trazia na
sua columna do
High-life esta
noticia:
« O distincto e brilhante
sportman, o snr. Carlos da Maia, e o
nosso amigo e collaborador João da Ega, partiram hontem para
Londres, d'onde seguirão em breve para a America do Norte,
devendo d'ahi prolongar a sua interessante viagem até ao
Japão.
Numerosos amigos foram a bordo do
Tamar despedir-se dos sympathicos
touristes. Vimos entre outros os
snrs, ministro da Filandia e seu secretario, o marquez de Souzella,
conde de Gouvarinho, visconde de Darque, Guilherme Craft, Telles da
Gama, Cruges, Taveira, Villaça, general Sequeira, o glorioso
poeta Thomaz d'Alencar,
etc. etc. O nosso amigo e collaborador João da Ega fez-nos,
no ultimo
shake-hands, a promessa de nos
mandar algumas cartas com as suas impressões do
Japão, esse delicioso paiz d'onde nos vem o sol e a moda!
É uma boa nova para todos os que prezam a
observação e o espirito.
Au
revoir!»
Depois d'estas linhas affectuosas (em que o Alencar
collaborára) as primeiras noticias dos
«viajantes» vieram, n'uma carta do Ega para o
Villaça, de New-York. Era curta, toda de negocios. Mas elle
ajuntava um
post-scriptum
com o titulo de
Informações
geraes para os
amigos. Contava ahi a medonha travessia desde
Liverpool, a persistente tristeza de Carlos, e New-York coberta de neve
sob um sol rutilante. E acrescentava ainda:
«Está-se apossando de nós a embriaguez
das viagens, decididos a trilhar este estreito Universo até
que
cancem as nossas
tristezas. Planeamos ir a Pekin, passar a Grande
Muralha, atravessar a Asia Central, o oasis de Merv, Khiva, e penetrar
na Russia; d'ahi, pela Armenia e pela Syria, descer ao Egypto a
retemperar-nos no sagrado Nilo; subir depois a Athenas,
lançar sobre a Acropole uma saudação a
Minerva; passar a Napoles; dar um olhar a Argelia e a Marrocos; e cahir
emfim ao comprido em Santa Olavia lá para os meados de 79 a
descançar os membros fatigados. Não escrevinho
mais porque é tarde, e vamos á Opera
vêr a Patti no
Barbeiro. Larga
distribuição
d'abraços a todos os
amigos queridos»
Villaça copiou este paragrapho, e trazia-o na carteira para
mostrar aos fieis amigos do Ramalhete. Todos approvaram, com
admiração, tão
bellas, aventurosas jornadas. Só Cruges, aterrado com
aquella vastidão do Universo, murmurou tristemente:
«Não voltam cá!»
Mas, passado anno e meio, n'um lindo dia de março, Ega
reappareceu no Chiado. E foi uma
sensação! Vinha esplendido, mais forte, mais
trigueiro, soberbo de
verve, n'um
alto apuro de
toilette, cheio de historias e de aventuras do Oriente, não
tolerando nada em arte ou poesia que não fosse do
Japão ou da China, e annunciando um grande livro, o
«seu livro», sob este titulo grave de chronica
heroica—
Jornadas da Asia.
—E Carlos?...
—Magnifico! Installado em Paris, n'um delicioso appartamento dos
Campos-Elyseos, fazendo a vida larga d'um principe artista da
Renascença...
Ao Villaça porém, que sabia os segredos, Ega
confessou que Carlos ficára ainda
abalado. Vivia, ria, governava o seu
phaeton no Bois—mas lá no fundo do seu
coração permanecia, pesada e negra, a memoria da
«semana terrivel».
—Todavia os annos vão passando,
Villaça, acrescentou elle. E com os annos, a não
ser a China, tudo na terra passa...
E esse anno passou. Gente nasceu, gente morreu.
Searas amadureceram, arvoredos
murcharam. Outros annos passaram.
Nos fins de 1886, Carlos veio fazer o Natal perto de Sevilha, a casa
d'um amigo seu de Paris, o marquez de Villa-Medina. E d'essa
propriedade dos Villa-Medina, chamada
La
Soledad, escreveu para Lisboa ao Ega annunciando
que—depois d'um exilio de quasi dez annos, resolvera vir ao velho
Portugal vêr as arvores de Santa Olavia e as maravilhas da
Avenida. De resto tinha uma formidavel nova, que assombraria o bom Ega:
e se elle já ardia em curiosidade, que viesse ao seu
encontro com o Villaça, comer o porco a Santa Olavia.
—Vae casar! pensou Ega.
Havia tres annos (desde a sua ultima estada em Paris) que elle
não via Carlos. Infelizmente não pôde
correr a Santa Olavia, retido n'um quarto
do
Braganza com uma angina, desde
uma ceia prodigiosamente divertida com que celebrára no
Silva a noite de Reis. Villaça, porém, levou a
Carlos para Santa Olavia uma carta em que o Ega, contando a sua angina,
lhe supplicava que se não retardasse com o porco n'esses
penhascos do Douro, e que voasse á grande Capital a trazer a
grande nova.
Com effeito, Carlos pouco se demorou em Rezende.
E n'uma luminosa e macia
manhã de janeiro de 1887, os dois amigos emfim juntos
almoçavam n'um salão do
Hotel
Braganza, com as duas janellas abertas para o rio.
Ega, já curado, radiante, n'uma
excitação que não se calmava,
alagando-se de café, entalava a cada instante o monoculo
para admirar Carlos e a sua «immutabilidade».
—Nem uma branca, nem uma ruga, nem uma sombra de fadiga!... Tudo isso
é Paris, menino!... Lisboa arraza. Olha para mim, olha para
isto!
Com o dedo magro apontava os dois vincos fundos ao lado do
nariz, na face chupada. E o que o aterrava sobretudo era a calva, uma
calva que começára havia dois annos,
alastrára,
já reluzia no alto.
—Olha este horror! A sciencia para tudo acha um remedio, menos para a
calva! Transformam-se as civilisações, a calva
fica!... Já
tem tons de bola de bilhar, não é verdade?... De
que
será?
—É a ociosidade, lembrou Carlos rindo.
—A ociosidade!... E tu, então?
De resto, que podia elle fazer n'este paiz?... Quando
voltára de França, ultimamente,
pensára em entrar na diplomacia. Para isso sempre tivera a
blague: e agora que a
mamã, coitada, lá estava no seu grande jazigo em Celorico,
tinha a
massa. Mas depois
reflectira. Por fim, em que consistia a diplomacia portugueza? N'uma
outra fórma da ociosidade, passada no estrangeiro, com o
sentimento
constante da
propria insignificancia. Antes o Chiado!
E como Carlos lembrava a Politica, occupação dos
inuteis, Ega trovejou. A politica! Isso tornára-se
moralmente e physicamente nojento, desde que o negocio
atacára o constitucionalismo como uma phylloxera! Os
politicos hoje eram bonecos de engonços, que faziam gestos e
tomavam attitudes porque dois ou tres financeiros por traz lhes puxavam
pelos cordeis... Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem
envernizados. Mas qual! Ahi é que estava o horror.
Não tinham
feitio, não tinham maneiras, não se lavavam,
não limpavam as unhas... Coisa extraordinaria, que em paiz
algum succedia, nem na Romelia, nem na Bulgaria! Os tres ou quatro
salões que em Lisboa recebem todo o mundo, seja quem
fôr, largamente, excluem a maioria dos politicos. E porque?
Porque as
senhoras têm
nôjo!
—Olha o Gouvarinho! Vê lá se elle recebe
ás terças-feiras os seus correligionarios...
Carlos que sorria, encantado com aquella veia acerba do Ega, saltou na
cadeira:
—É verdade, e a Gouvarinho, a nossa boa Gouvarinho?
Ega, passeando pela sala, deu as novas dos Gouvarinhos. A condessa
herdára uns sessenta contos de uma tia excentrica que vivia
a Santa Isabel, tinha agora melhores carruagens, recebia sempre
ás terças-feiras. Mas soffria uma
doença
qualquer,
grave, no figado ou no pulmão. Ainda elegante todavia, muito
séria, uma terrivel flôr
de
pruderie... Elle, o Gouvarinho,
ahi
continuava, palrador, escrevinhador, politicote, impertigadote,
já grisalho, duas vezes ministro, e coberto de
gran-cruzes...
—Tu não os viste em Paris, ultimamente?
—Não. Quando soube fui-lhes deixar bilhetes, mas tinham
partido na vespera para Vichy...
A porta abriu-se, um brado cavo resoou:
—Até que emfim, meu rapaz!
—Oh Alencar! gritou Carlos, atirando o charuto.
E foi um infinito abraço, com palmadas arrebatadas pelos
hombros, e um beijo ruidoso—o beijo paternal do Alencar, que tremia,
commovido. Ega arrastára uma cadeira, berrava pelo
escudeiro:
—Que tomas tu, Thomaz? Cognac? Curaçáo? Em todo
o caso café! Mais café! Muito forte, para
o snr. Alencar!
O poeta, no emtanto, abysmado na contemplação de
Carlos, agarrára-o pelas mãos, com um sorriso
largo, que lhe descobria os dentes mais estragados. Achava-o magnifico,
varão soberbo, honra da raça... Ah! Paris, com o
seu espirito, a sua vida ardente, conserva...
—E Lisboa arraza! acudiu Ega. Já cá tive essa
phrase. Vá, abanca, ahi tens o cafésinho e a
bebida!
Mas Carlos agora tambem contemplava o Alencar.
E parecia-lhe mais bonito, mais
poetico, com a sua grenha inspirada e toda branca, e aquellas rugas
fundas na face morena, cavadas como sulcos de carros pela tumultuosa
passagem das emoções...
—Estás typico, Alencar! Estás a preceito para a
gravura e para a estatua!...
O poeta sorria, passando os dedos com complacencia pelos longos bigodes
romanticos, que a idade embranquecera e o cigarro
amarellára. Que diabo, algumas
compensações havia de ter a
velhice!... Em todo o caso o estomago não era mau, e
conservava-se, caramba, filhos, um bocado de
coração.
—O que não impede, meu Carlos, que isto por
cá esteja cada vez peor! Mas acabou-se... A gente
queixa-se sempre do seu paiz, é habito humano. Já
Horacio se queixava. E vocês, intelligencias superiores,
sabeis bem, filhos, que no tempo de Augusto... Sem fallar, é
claro, na quéda da republica, n'aquelle desabamento das
velhas
instituições... Emfim deixemos lá os
Romanos! Que está alli n'aquella garrafa? Chablis...
Não
desgosto, no outono, com as ostras. Pois vá lá o
Chablis. E á tua chegada, meu Carlos! e á tua,
meu
João, e que Deus vos dê as glorias que mereceis,
meus rapazes!...
Bebeu. Rosnou: «bom Chablis,
bouquet fino». E acabou
por abancar, ruidosamente, sacudindo para traz a juba branca.
—Este Thomaz! exclamava Ega, pousando-lhe a mão no hombro
com carinho. Não ha outro,
é unico! O bom Deus fel-o n'um dia de grande
verve, e depois quebrou a
fôrma.
Ora, historias! murmurava o poeta radiante. Havia-os tão
bons como elle. A humanidade viera toda do mesmo barro como pretendia a
Biblia—ou do mesmo macaco como affirmava o Darwin...
—Que, lá essas coisas d'evolução,
origem das especies, desenvolvimento da cellula, cá para
mim... Está claro, o Darwin, o Lamarck, o Spencer, o Claudio
Bernard, o Littré, tudo isso, é gente de primeira
ordem. Mas acabou-se, irra! Ha uns poucos de mil annos que o homem
prova sublimemente que tem alma!
—Toma o cafésinho, Thomaz! aconselhou o Ega, empurrando-lhe
a chavena. Toma o cafésinho!
—Obrigado!... E é verdade, João, lá
dei a tua boneca á pequena. Começou logo a
beijal-a, a
embalal-a, com aquelle profundo instincto de mãi, aquelle
quid divino... É
uma sobrinhita minha, meu Carlos. Ficou sem mãi, coitadinha,
lá a
tenho, lá vou tratando de fazer d'ella uma mulher... Has de
vêl-a. Quero que vocês lá
vão jantar um dia, para vos dar umas perdizes
á hespanhola... Tu demoras-te, Carlos?
—Sim, uma ou duas semanas, para tomar um bom sorvo de ar da patria.
—Tens razão, meu rapaz! exclamou o poeta,
puxando a garrafa do cognac. Isto ainda
não é
tão mau como se diz... Olha tu para isso, para esse
céo, para esse rio, homem!
—Com effeito é encantador!
Todos tres, durante um momento, pasmaram para a incomparavel belleza do
rio, vasto, lustroso, sereno, tão azul como o
céo, esplendidamente coberto de sol.
—E versos? exclamou de repente Carlos, voltando-se para o poeta.
Abandonaste a lingua divina?
Alencar fez um gesto de desalento. Quem entendia já a lingua
divina? O novo Portugal só comprehendia a lingua da libra,
da «massa». Agora, filho, tudo eram syndicatos!
—Mas ainda ás vezes me passa uma coisa cá por
dentro, o velho homem estremece... Tu não viste nos
jornaes?... Está claro, não
lês cá esses trapos que por ahi chamam gazetas...
Pois veio ahi uma coisita, dedicada aqui ao João. Ora eu t'a
digo se me lembrar...
Correu a mão aberta pela face escaveirada, lançou
a estrophe n'um tom de lamento: