III
Mas esse anno passou, outros annos passaram.
Por uma manhã de abril, nas vesperas de Paschoa,
Villaça chegava de novo a S.
ta
Olavia.
Não o esperavam tão cedo; e como era o primeiro
dia bonito d'essa primavera chuvosa os senhores andavam
para a quinta. O mordomo, o Teixeira, que ia
já embranquecendo, mostrou-se todo satisfeito de ver
o sr. administrador com quem ás vezes se correspondia,
e conduziu-o á sala de jantar onde a velha governante,
a Gertrudes, tomada de surpreza, deixou
cair uma pilha de guardanapos e para lhe saltar ao
pescoço.
As tres portas envidraçadas estavam abertas para
o terraço, que se estendia ao sol, com a sua balustrada
de marmore coberta de trepadeiras: e Villaça, adiantando-se
para os degraus que desciam ao jardim, mal
poude reconhecer Affonso da Maia n'aquelle velho de
barba de neve, mas tão robusto e corado, que vinha
subindo a rua de romanzeiras com o seu neto pela
mão.
Carlos, ao avistar no terraço um desconhecido,
de chapéo alto, abafado n'um cache-nez de pelucia,
correu a miral-o, curioso—e achou-se arrebatado
nos braços do bom Villaça, que largara o guarda
sol,
o beijava pelo cabello, pela face, balbuciando:
—Oh meu menino, meu querido menino! Que lindo
que está! que crescido que está...
—Então, sem avisar, Villaça? exclamava Affonso
da Maia, chegando de braços abertos. Nós
só o esperavamos
para a semana, creatura!
Os dois velhos abraçaram-se; depois um momento
os seus olhos encontraram-se, vivos e humidos, e tornaram
a apertar-se commovidos.
Carlos ao lado, muito serio, todo esbelto, com as
mãos enterradas nos bolsos das suas largas bragas
de flanella branca, o casquete da mesma flanella posta
de lado sobre os bellos anneis do cabello negro—continuava
a mirar o Villaça, que com o beiço tremulo,
tendo tirado a luva, limpava os olhos por baixo
dos oculos.
—E ninguem a esperal-o, nem um criado lá em
baixo no rio! dizia Affonso. Emfim, cá o temos, é
o
essencial... E como você está rijo,
Villaça!
—E v. ex.
a meu senhor! balbuciou o
administrador,
engulindo um soluço. Nem uma ruga! Branco
sim, mas uma cara de moço... Eu nem o conhecia!...
Quando me lembro, a ultima vez que o vi... E cá
isto! cá esta linda flor!...
Ia abraçar Carlos outra vez enthusiasmado, mas
o rapaz fugiu-lhe com uma bella risada, saltou do
terraço, foi pendurar-se d'um trapesio armado entre
as arvores, e ficou lá, balançando-se em
cadencia,
forte e airoso, gritando: «tu és o
Villaça!»
O Villaça, de guarda sol debaixo do braço,
contemplava-o
embevecido.
—Está uma linda creança! Faz gosto! E parece-se
com o pae. Os
mesmos olhos, olhos
dos Maias, o cabello
encaracolado... Mas ha de ser muito mais homem!
—É são, é rijo, dizia o velho
risonho, anediando
as barbas. E como ficou o seu rapaz, o Manuel?
Quando é esse casamento? Venha você cá
para dentro,
Villaça, que ha muito que conversar...
Tinham entrado na sala de jantar, onde um lume
de lenha na chaminé de azulejo esmorecia na fina e
larga luz de abril; porcelanas e pratas resplandeciam
nos aparadores de pau santo; os canarios pareciam
doudos de alegria.
A Gertrudes, que ficára a observar, acercou-se,
com as mãos cruzadas sob o avental branco, familiar,
terna.
—Então, meu senhor, aqui está um regalo,
vêr outra
vez este ingrato em S.
ta Olavia!
E, com um clarão de sympathia na face, alva e redonda
como uma velha lua, ornada já de um buço branco:
—Ah! sr. Villaça, isto agora é outra cousa!
Até
os canarios cantam! E tambem eu cantava, se ainda
podesse...
E foi saindo, subitamente commovida, já com vontade
de chorar.
O Teixeira esperava, com um riso superior e mudo
que lhe ia d'uma á outra ponta dos seus altos collarinhos
de mordomo.
—Eu creio que prepararam o quarto azul ao sr.
Villaça, hein? disse Affonso. No quarto em que
você
costumava ficar dorme agora a viscondessa...
Então o Villaça apressou-se a perguntar pela
sr.
a
viscondessa. Era uma Runa, uma prima da mulher
de Affonso, que, no tempo em que os poetas de Caminha
a cantavam, casára com um fidalgote gallego,
o sr. visconde de Urigo-de-la-Sierra, um borracho,
um brutal que lhe batia: depois, viuva e pobre, Affonso
recolhera-a por dever de parentella, e para haver
uma senhora em S.
ta Olavia.
Ultimamente passara mal... Mas, olhando o relogio,
Affonso interrompeu a relação d'esses achaques.
—Villaça, vá-se arranjar, depressa, que d'aqui a
pouco é o jantar.
O administrador surprehendido olhou tambem o
relogio, depois a mesa já posta, os seis talheres, o
cesto de flores, as garrafas de Porto.
—Então v. ex.
a agora janta de
manhã? Eu pensei
que era o almoço...
—Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regimen.
De madrugada está já na quinta; almoça
ás sete; e
janta á uma hora. E eu, emfim, para vigiar as maneiras
do rapaz...
—E o sr. Affonso da Maia, exclamou Villaça, a
mudar de habitos, n'essa edade! O que é ser avô,
meu senhor!
—Tolice! não é isso... É que me faz
bem. Olhe que
me faz bem!... Mas avie-se Villaça, avie-se que Carlos
não gosta de esperar... Talvez tenhamos o abbade.
—O Custodio? Rica cousa! Então, se v. ex.
a
me
dá licença...
Apenas no corredor, o mordomo, ancioso por conversar
com o sr. administrador, perguntou-lhe, desembaraçando-o
do guarda sol e do chale-manta:
—Com franqueza, como nos acha por cá, pela
quinta sr. Villaça?
—Estou contente, Teixeira, estou contente. Pode-se
vir por gosto a S.
ta Olavia.
E, pousando familiarmente a mão no hombro do
escudeiro, piscando o olho ainda humido:
—Tudo isto é o menino. Fez reviver o patrão!
O Teixeira riu respeitosamente. O menino realmente
era a alegria da casa...
—Olá! Quem toca por cá? exclamou
Villaça,
parando nos degraus da escada, ao ouvir em cima
um afinar gemente de rebeca.
—É o sr. Brown, o inglez, o preceptor do menino...
Muito habilidoso, é um regalo ouvil-o; toca
ás vezes á noite na sala, o sr. juiz de direito
acompanha-o
na concertina... Aqui, sr. Villaça, o quarto
de v. s.
a...
—Muito bonito, sim senhor!
O verniz dos moveis novos brilhava na luz das
duas janellas, sobre o tapete alvadio semeado de florsinhas
azues: e as bambinellas, os reposteiros de
cretóne, repetiam as mesmas folhagens azuladas sobre
fundo claro. Este conforto fresco e campestre deleitou
o bom Villaça.
Foi logo apalpar os cretónes, esfregou o marmore
da commoda, provou a solidez das cadeiras. Eram as
mobilias compradas no Porto, hein? Pois, elegantes.
E, realmente, não tinham sido caras. Nem elle fazia
idéa! Ficou ainda em bicos de pés a examinar duas
aguarellas inglezas representando vaccas de luxo,
deitadas na relva, á sombra de ruinas romanticas.
O Teixeira, observou-lhe, com o relogio na mão:
—Olhe que v. s.
a tem só dez
minutos... O menino
não gosta de esperar.
Então o Villaça decidiu-se a desenrolar o
cache-nez;
depois tirou o seu pesado collete de malha de lã;
e pela camisa entreaberta via-se ainda uma flanella
escarlate por causa dos rheumatismos, e os bentinhos
de seda bordada. O Teixeira desapertava as correias
da maleta; ao fundo do corredor, a rebeca atacara
o
Carnaval de Veneza; e atravez das
janellas fechadas
sentia-se o grande ar, a frescura, a paz dos
campos, todo o verde d'abril.
Villaça, sem oculos, um pouco arripiado, passava
a ponta da toalha molhada pelo pescoço, por traz da
orelha, e ia dizendo:
—Então, o nosso Carlinhos não gosta de esperar,
hein? Já se sabe, é elle quem governa... Mimos e
mais mimos, naturalmente...
Mas o Teixeira muito grave, muito serio, desilludiu
o sr. administrador. Mimos e mais mimos, dizia
s. s.
a? Coitadinho d'elle, que tinha sido
educado
com uma vara de ferro! Se elle fosse a contar ao
sr. Villaça! Não tinha a creança cinco
annos já dormia
n'um quarto só, sem lamparina; e todas as manhãs,
zás, para dentro d'uma tina d'agua fria, ás vezes
a gear lá fóra... E outras barbaridades. Se
não
se soubesse a grande paixão do avô pela
creança,
havia de se dizer que a queria morta. Deus lhe perdoe,
elle, Teixeira, chegara a pensal-o... Mas não,
parece que era systema inglez! Deixava-o correr,
cair, trepar ás arvores, molhar-se, apanhar soalheiras,
como um filho de caseiro. E depois o rigor com
as comidas! Só a certas horas e de certas cousas...
E ás vezes a creancinha, com os olhos abertos, a
aguar! Muita, muita dureza.
E o Teixeira accrescentou:
—Emfim era a vontade de Deus, saiu forte. Mas
que nós approvassemos a educação que
tem levado,
isso nunca approvámos, nem eu, nem a Gertrudes.
Olhou outra vez o relogio, preso por uma fita negra
sobre o collete branco, deu alguns passos lentos
pelo quarto: depois, tomando de sobre a cama a sobrecasaca
do procurador, foi-lhe passando a escova
pela gola, de leve e por amabilidade, em quanto dizia,
junto ao toucador onde o Villaça acamava as duas
longas repas sobre a calva:
—Sabe v. s.
a apenas veiu o mestre inglez, o que
lhe ensinou? A remar! A remar, sr. Villaça, como
um barqueiro! Sem contar o trapesio, e as habilidades
de palhaço; eu n'isso nem gosto de fallar...
Que eu sou o primeiro a dizel-o: o Brown é boa
pessoa, calado, asseado, excellente musico. Mas é o
que eu tenho repetido á Gertrudes: póde ser muito
bom para inglez, não é para ensinar um fidalgo
portuguez...
Não é. Vá v. s.
a
fallar a esse
respeito com
a sr.
a D. Anna Silveira...
Bateram de manso á porta, o Teixeira emmudeceu.
Um escudeiro entrou, fez um signal ao mordomo, tirou-lhe
do braço respeitosamente a sobrecasaca, e
ficou com ella junto do toucador, onde o Villaça, vermelho
e apressado, luctava ainda com as repas rebeldes.
O Teixeira, da porta, disse com o relogio na mão:
—É o jantar. Tem v. s.
a dois
minutos, sr.
Villaça.
E o administrador d'ahi a um momento abalava
tambem, abotoando ainda o casaco pelas escadas.
Os senhores já estavam todos na sala. Junto do
fogão, onde as achas consumidas morriam na cinza
branca, o Brown percorria o
Times.
Carlos, a cavallo
nos joelhos do avô, contava-lhe uma grande historia
de rapazes e de bulhas; e ao pé o bom abbade Custodio,
com o lenço de rapé esquecido nas
mãos, escutava,
de bocca aberta, n'um riso paternal e terno.
—Olhe quem alli vem, abbade, disse-lhe Affonso.
O abbade voltou-se, e deu uma grande palmada
na côxa:
—Esta é nova! Então é o nosso
Villaça? E não
me tinham dito nada! Venham de lá esses ossos,
homem!...
Carlos pulava nos joelhos do avô, muito divertido
com aquelles longos abraços que juntavam as duas
cabeças dos velhos—uma com as repas achatadas
sobre a calva, outra com uma grande corôa aberta
n'uma matta de cabello branco. E como elles, de
mãos dadas, continuavam a admirar-se, a estudarem
um no outro as rugas dos annos, Affonso disse:
—Villaça! a sr.
a viscondessa...
O administrador porém procurou-a debalde, com
os olhos abertos pela sala. Carlos ria, batendo as mãos:—e
Villaça descobriu-a emfim a um canto,
entre o aparador e a janella, sentada n'uma cadeirinha
baixa, vestida de preto, timida e queda, com os
braços rechonchudos pousados sobre a obesidade da
cinta. O rosto anafado e molle, branco como papel,
as roscas do pescoço, cobriram-se-lhe subitamente
de rubor; não achou uma palavra para dizer ao
Villaça,
e estendeu-lhe a mão papuda e pallida, com
um dedo embrulhado n'um pedaço de seda negra.
Depois ficou a abanar-se com um grande leque de
lentejoulas, o seio a arfar, os olhos no regaço, como
exhausta d'aquelle esforço.
Dois escudeiros tinham começado a servir a sopa,
o Teixeira esperava, perfilado por traz do alto espaldar
da cadeira de Affonso.
Mas Carlos cavalgava ainda o avô, querendo acabar
outra historia. Era o Manuel, trazia uma pedra
na mão... Elle primeiro pensára ir ás
boas; mas
os dois rapazes começaram a rir... De maneira que
os correu a todos...
—E maiores que tu?
—Tres rapagões, vôvô, póde
perguntar á tia Pedra...
Ella viu, que estava na eira. Um d'elles trazia
uma foice...
—Está bom, senhor, está bom, ficamos
inteirados...
Vá, desmonte, que está a sopa a esfriar. Upa!
upa!
E o velho, com o seu aspecto resplandecente
de patriarcha feliz, veiu sentar-se ao alto da meza, sorrindo
e dizendo:
—Já se vae fazendo pesado, já não
está para
collo...
Mas reparou então no Brown, e tornando a erguer-se
fez a apresentação do procurador.
—O sr. Brown, o amigo Villaça... Peço
perdão,
descuidei-me, foi culpa d'aquelle cavalheiro lá ao fundo
da meza, o sr. D. Carlos de mata-sete!
O perceptor, solidamente abotoado na sua longa
sobrecasaca militar, deu toda a volta á meza, rigido
e teso, para vir sacudir o Villaça n'um tremendo
shake-hands; depois, sem uma
palavra, reoccupou o
seu logar, desdobrou o guardanapo, cofiou os formidaveis
bigodes, e foi então que disse ao Villaça,
com o seu forte accento inglez:
—
Muito bello dia... glorioso!
—Tempo de rosas, respondeu o Villaça, comprimentando,
intimidado diante d'aquelle athleta.
Naturalmente, n'esse dia, fallou-se da jornada de
Lisboa, do bom serviço da malla-posta, do caminho
de ferro que se ia abrir... O Villaça já viera
no comboyo até ao Carregado.
—De causar horror, hein? perguntou o abbade,
suspendendo a colher que ia levar á bocca.
O excellente homem nunca saira de Resende; e
todo o largo mundo, que ficava para além da penumbra
da sua sachristia e das arvores do seu passal,
lhe dava o terror d'uma Babel. Sobre tudo essa estrada
de ferro, de que tanto se fallava...
—Faz arripiar um bocado, affirmou com experiencia
Villaça. Digam o que disserem, faz arripiar!
Mas o abbade assustava-se sobre tudo com as inevitaveis
desgraças d'essas machinas!
O Villaça então lembrou os desastres da
mala-posta.
No de Alcobaça, quando tudo se virou, ficaram
esmagadas duas irmãs de caridade! Emfim de
todos os modos havia perigos. Podia-se quebrar uma
perna a passear no quarto...
O abbade gostava do progresso... Achava até necessario
o progresso. Mas parecia-lhe que se queria
fazer tudo á lufa-lufa... O paiz não estava para
essas
invenções; o que precisava eram boas
estradinhas...
—E economia! disse o Villaça, puxando para si os
pimentões.
—Bucellas? murmurou-lhe sobre o hombro o escudeiro.
O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe
á luz a côr rica, provou-o com a ponta
do
labio, e piscando o olho para Affonso:
—É do nosso!
—Do velho, disse Affonso. Pergunte ao Brown...
Hein, Brown, um bom nectar?
—
Magnificente! exclamou o perceptor
com uma
energia fogosa.
Então Carlos, estendendo o braço por cima da
meza, reclamou tambem Bucellas. E a sua razão era
haver festa por ter chegado o Villaça. O avô
não
consentiu; o menino teria o seu calice de Collares,
como de costume, e um só. Carlos crusou os
braços
sobre o guardanapo que lhe pendia do pescoço, espantado
de tanta injustiça! Então nem para festejar
o Villaça poderia apanhar uma gotinha de Bucellas?
Ahi estava uma linda maneira de receber os hospedes
na quinta... A Gertrudes dissera-lhe que como
viera o sr. administrador, havia de pôr á noite
para
o chá o fato novo de velludo. Agora observavam-lhe
que não era festa, nem caso para Bucellas...
Então
não entendia.
O avô, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente
um carão severo.
—Parece-me que o senhor está palrando de mais.
As pessoas grandes é que palram à meza.
Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando
muito mansamente:
—Está bom, vovô, não te zangues.
Esperarei para
quando for grande...
Houve um sorriso em volta da meza. A propria
viscondessa, deleitada, agitou preguiçosamente o leque:
o abbade, com a sua boa face banhada em extasi
para o menino, apertava as mãos cabelludas contra
o peito, tanto aquillo lhe parecia engraçado: e Affonso
tossia por traz do guardanapo, como limpando
as barbas—a esconder o riso, a admiração que lhe
brilhava nos olhos.
Tanta vivacidade surprehendeu tambem Villaça.
Quiz ouvir mais o menino, e pousando o seu talher:
—E diga-me, Carlinhos, já vae adiantado nos seus
estudos?
O rapaz, sem o olhar, repoltreou-se, mergulhou
as mãos pelo cós das flanellas, e respondeu com
um
tom superior:
—Já faço ladear a
Brigida.
Então o avô, sem se conter, largou a rir, cahido
para o espaldar da cadeira:
—Essa é boa! Eh! Eh! Já faz ladear a
Brigida!
E é verdade, Villaça, já a faz
ladear... Pergunte ao
Brown; não é verdade, Brown? E a eguasita
é uma
piorrita, mas fina...
—Oh vovô, gritou Carlos já excitado, dize ao
Villaça,
anda. Não é verdade que eu era capaz de governar
o
dog-cart?
Affonso reassumio um ar severo.
—Não o nego... Talvez o governasse, se lh'o
consentissem. Mas faça-me favor de se não gabar
das
suas façanhas, porque um bom cavalleiro deve ser
modesto... E sobre tudo não enterrar assim as
mãos
pela barriga abaixo...
O bom Villaça, no entanto, dando estalinhos aos
dedos, preparava uma observação. Não
se podia de
certo ter melhor prenda que montar a cavallo com
as regras... Mas elle queria dizer se o Carlinhos
já entrava com o seu Phedro, o seu Tito Liviosinho...
—Villaça, Villaça, advertiu o abbade, de garfo
no
ar e um sorriso de santa malicia, não se deve fallar
em latim aqui ao nosso nobre amigo... Não admitte,
acha que é antigo... Elle, antigo é...
—Ora sirva-se d'esse fricassé, ande abbade, disse
Affonso, que eu sei que é o seu fraco, e deixe lá
o
latim...
O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no
molho rico os bons pedaços de ave, ia murmurando:
—Deve-se começar pelo latimsinho, deve-se
começar
por lá... É a base; é a basesinha!
—Não! latim mais tarde! exclamou o Brown,
com um gesto possante. Prrimeiro forrça! Forrça!
Musculo...
E repetio, duas vezes, agitando os formidaveis punhos:
—Prrimeiro musculo, musculo!...
Affonso appoiava-o, gravemente. O Brown estava
na verdade. O latim era um luxo d'erudito... Nada
mais absurdo que começar a ensinar a uma creança
n'uma lingua morta quem foi Fabio, rei dos Sabinos,
o caso dos Grachos, e outros negocios d'uma nação
extincta, deixando-o ao mesmo tempo sem saber
o
que é a chuva que o molha, como se faz o
pão que
come, e todas as outras cousas do Universo em que
vive...
—Mas emfim os classicos, arriscou timidamente
o abbade.
—Qual classicos! O primeiro dever do homem é
viver. E para isso é necessario ser são, e ser
forte.
Toda a educação sensata consiste n'isto: crear a
saude, a força e os seus habitos, desenvolver exclusivamente
o animal, armal-o d'uma grande superioridade
physica. Tal qual como se não tivesse alma.
A alma vem depois... A alma é outro luxo. É um
luxo de gente grande...
O abbade coçava a cabeça, com o ar arripiado.
—A instrucçãosinha é necessaria,
disse elle. Você
não acha, Villaça? Que v. ex
a,
sr. Affonso da
Maia,
tem visto mais mundo do que eu... Mas emfim a
instrucçãosinha...
—A instrucção para uma creança
não é recitar
Tityre, tu patulae recubans...
É saber factos, noções,
cousas uteis, cousas praticas...
Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, n'um
signal ao Villaça, mostrou-lhe o neto que palrava
inglez com o Brown. Eram de certo feitos de força,
uma historia de briga com rapazes que elle lhe estava
a contar, animado e jogando com os punhos. O perceptor
approvava, retorcendo os bigodes. E á mesa
os senhores com os garfos suspensos, por traz os
escudeiros de pé e guardanapo no braço, todos,
n'um
silencio reverente, admiravam o menino a fallar inglez.
—Grande prenda, grande prenda, murmurou Villaça,
inclinando-se para a Viscondessa.
A excellente senhora córou, atravez d'um sorriso.
Parecia assim mais gorda, toda acaçapada na cadeira,
silenciosa, comendo sempre; e, a cada gole de Bucellas,
refrescava-se languidamente com o seu grande
leque negro e lentejoulado.
Quando o Teixeira serviu o vinho do Porto, Affonso
fez uma
saude ao Villaça.
Todos os copos se ergueram
n'um rumor de amizade. Carlos quiz gritar
Hurrah! O avô, com um
gesto reprehensivo, immobilisou-o;
e na pausa satisfeita que se fez, o pequeno
disse com uma grande convicção:
—Oh avô, eu gosto do Villaça. O
Villaça é nosso
amigo.
—Muito, e ha muitos annos, meu senhor! exclamou
o velho procurador, tão commovido que mal podia
erguer o calice na mão.
O jantar findava. Fóra, o sol deixára o terrasso
e
a quinta verdejava na grande doçura do ar tranquillo,
sob o azul ferrete. Na chaminé só restava uma
cinza branca: os lilazes das jarras exhalavam um
aroma vivo, a que se misturava o do creme queimado,
tocado de um fio de limão: os creados, de colletes
brancos, moviam o serviço d'onde se escapava
algum som argentino: e toda a alva toalha adamascada
desapparecia sob a confusão da sobremesa onde
os tons dourados do vinho do Porto brilhavam entre
as compoteiras de crystal. A Viscondessa affogueada
abanava-se. Padre Custodio enrolava devagar
o guardanapo, a sua batina coçada luzia nas pregas
das mangas.
Então Affonso, sorrindo ternamente, fez a ultima
saude.
—Viva v. s.
a snr. Carlos de Matta-sete!
—Sr. Vôvô! dizia o pequeno escorropichando o copo.
A cabeçinha de cabellos negros,
a velha face de
barbas de neve, saudavam-se das extremidades da
mesa—em quanto todos sorriam, no enternecimento
d'aquella cerimonia. Depois o abbade, de palito na
bocca, murmurou as
graças. A Viscondessa,
cerrando
os olhos, juntou tambem as mãos. E Villaça que
tinha
crenças religiosas não gostou de vêr
Carlos, sem se
importar com as graças, saltar da cadeira, vir atirar-se
ao pescoço do avô, fallar-lhe ao ouvido.
—Não senhor! não senhor! dizia o velho.
Mas o rapaz, abraçando-o mais forte, dava-lhe grandes
razões, n'um murmurio de mimo dôce como um
beijo, que ia pondo na face do velho uma fraqueza
indulgente.
—É por ser festa, disse elle emfim vencido. Mas
veja lá, veja lá...
O rapaz pulou, bateu as palmas, agarrou Villaça
pelos braços, fêl-o redemoinhar, e foi cantando
n'um
rythmo seu:
—Fizeste bem em vir, bem, bem, bem!... Vou
buscar a Therezinha, inha, inha, inha!
—É a noiva, disse o avô, erguendo-se da mesa.
Já
tem amores, é a pequena das Silveiras... O café
para o terraço, Teixeira.
O dia fóra convidava, adoravel, d'um azul suave,
muito puro e muito alto, sem uma nuvem. Defronte do
terraço os geranios vermelhos estavam já abertos;
as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, d'uma
delicadeza de renda, pareciam tremer ao menor sopro;
vinha por vezes um vago cheiro de violetas, misturado
ao perfume adocicado das flôres do campo; o
alto repuxo cantava; e nas ruas do jardim, bordadas
de buxos baixos, a areia fina faiscava de leve áquelle
sol timido de primavera tardia, que ao longe envolvia
os verdes da quinta, adormecida a essa hora de sesta
n'uma luz fresca e loura.
Os tres homens sentaram-se á mesa do café.
Defronte
do terraço, o Brown, de bonet escossez posto
ao lado e grande cachimbo na bocca, puchava ao alto
a barra do trapezio para Carlos se balouçar.
Então
o bom Villaça pedio para voltar as costas. Não
gostava
de vêr gymnasticas; bem sabia que não havia
perigo;
mas mesmo nos cavallinhos, as cabriolas, os arcos,
atordoavam-n'o; sahia sempre com o estomago embrulhado...
—E parece-me imprudente, sobre o jantar...
—Qual! é só balouçar-se... Olhe para
aquillo!
Mas Villaça não se moveu, com a face sobre a
chavena.
O abbade, esse, admirava, de labios entreabertos,
e o pires cheio de café esquecido na mão.
—Olhe para aquillo Villaça, repetio Affonso. Não
lhe faz mal, homem!
O bom Villaça voltou-se, com esforço. O pequeno
muito alto no ar, com as pernas retesadas contra a
barra do trapezio, as mãos ás cordas, descia
sobre
o terraço, cavando o espaço largamente, com os
cabellos
ao vento; depois elevava-se, serenamente, crescendo
em pleno sol; todo elle sorria; a sua blusa, os
calções enfunavam-se á aragem; e
via-se passar,
fugir, o brilho dos seus olhos muito negros e muito
abertos.
—Não está mais na minha mão,
não gosto, disse
o Villaça. Acho imprudente!
Então Affonso bateu as palmas, o abbade gritou
bravo, bravo. Villaça
voltou-se para applaudir, mas
Carlos tinha já desapparecido; o trapezio parava, em
oscillações lentas; e o Brown, retomando o
Times que
pozera ao lado sobre o pedestal d'um busto, foi descendo
para a quinta envolvido n'uma nuvem de fumo
do cachimbo.
—Bella cousa, a gymnastica! exclamou Affonso da
Maia, accendendo com satisfação outro charuto.
Villaça já ouvira que enfraquecia muito o peito.
E o abbade, depois de dar um sorvo ao café, de lamber
os beiços, soltou a sua bella phrase, arranjada
em maxima:
—Esta educação faz athletas mas não
faz christãos.
Já o tenho dito...
—Já o tem dito abbade, já! exclamou Affonso
alegremente.
Diz-m'o todas as semanas... Quer você
saber, Villaça? O nosso Custodio matta-me o bicho
do ouvido para que eu ensine a cartilha ao rapaz. A
cartilha!...
Custodio ficou um momento a olhar Affonso, com
uma face desconsolada e a caixa de rapé aberta na
mão; a irreligião d'aquelle velho fidalgo, senhor
de
quasi toda a freguezia, era uma das suas dôres:
—A cartilha, sim meu senhor, ainda que v. ex.
a
o diga assim com esse modo escarnica... A cartilha.
Mas já não quero fallar na cartilha... Ha outras
cousas. E se o digo tantas vezes, sr. Affonso da Maia,
é pelo amor que tenho ao menino.
E recomeçou a discussão, que voltava sempre ao
café, quando Custodio jantava na quinta.
O bom homem achava horroroso que n'aquella
edade um tão lindo moço, herdeiro d'uma casa
tão
grande, com futuras responsabilidades na sociedade,
não soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao
Villaça
a historia da D. Cecilia Macedo: esta virtuosa
senhora, mulher do escrivão, tendo passado deante
do portão da quinta, avistara o Carlinhos, chamara-o,
carinhosa e amiga de creanças como era, e
pedira-lhe que lhe dissesse o
acto de
contricção. E
que respondeu o menino?
Que nunca em tal ouvira
fallar! Estas cousas entristeciam. E o sr. Affonso
da Maia achava-lhe graça, ria-se! Ora alli estava o
amigo Villaça que podia dizer se era caso para jubilar.
Não, o sr. Affonso da Maia tinha muito saber,
e correra muito mundo; mas d'uma cousa não o podia
convencer, a elle pobre padre que nem mesmo o
Porto vira ainda, é que houvesse felicidade e bom
comportamento na vida sem a moral do cathecismo.
E Affonso da Maia respondia com bom humor:
—Então que lhe ensinava você, abbade, se eu lhe
entregasse o rapaz? Que se não deve roubar o dinheiro
das algibeiras, nem mentir, nem maltratar
os inferiores, por que isso é contra os mandamentos
da lei de Deus, e leva ao inferno, hein? É isso?...
—Ha mais alguma cousa...
—Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria
que se não deve fazer, por ser um peccado que
offende a Deus, já elle sabe que se não deve
praticar,
por que é indigno d'um cavalheiro e d'um homem
de bem...
—Mas, meu senhor...
—Ouça abbade. Toda a differença é
essa. Eu
quero que o rapaz seja virtuoso por amor da virtude
e honrado por amor da honra; mas não por medo ás
caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de
ir para o reino do céu...
E accrescentou, erguendo-se e sorrindo:
—Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abbade,
é quando vem, depois de semanas de chuva, um
dia d'estes, ir respirar pelos campos e não estar aqui
a discutir moral. Portanto arriba! e se o Villaça
não
está muito cançado, vamos dar ahi um giro pelas
fazendas...
O abbade suspirou como um santo que vê a negra
impiedade dos tempos e Belzebut arrebatando as
melhores rezes do rebanho; depois olhou a chavena
e sorveu com delicias o resto do seu café.
Quando Affonso da Maia, Villaça e o abbade recolheram
do seu passeio pela freguezia, escurecera, havia
luzes pelas salas, e tinham chegado já as Silveiras,
senhoras ricas da quinta da
Lagoaça.
D. Anna Silveira, a solteira e mais velha, passava
pela talentosa da familia, e era em pontos de doutrina
e de etiqueta uma grande auctoridade em Resende.
A viuva, D. Eugenia, limitava-se a ser uma
excellente e pachorrenta senhora, de agradavel
nutrição,
trigueirota e pestanuda; tinha dois filhos, a Theresinha,
a
noiva de Carlos, uma rapariguinha
magra
e viva com cabellos negros como tinta, e o morgadinho,
o Eusebiosinho, uma maravilha muito fallada
n'aquelles sitios.
Quasi desde o berço este notavel menino revelara
um edificante amor por alfarrabios e por todas as coisas
do saber. Ainda gatinhava e já a sua alegria era estar
a um canto, sobre uma esteira, embrulhado n'um
cobertor, folheando
in-folios, com o
craneosinho calvo
de sabio curvado sobre as lettras garrafaes de boa
doutrina: depois de crescidinho tinha tal proposito
que permanecia horas immovel n'uma cadeira, de
perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca appetecera
um tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe
cadernos de papel, onde o precoce letrado, entre o
pasmo da mamã e da titi, passava dias a traçar
algarismos,
com a lingoasinha de fora.
Assim na familia tinha a sua carreira destinada:
era rico, havia de ser primeiro bacharel, e depois
desembargador. Quando vinha a Santa Olavia,
a tia Annica installava-o logo á mesa, ao pé do
candieiro,
a admirar as pinturas d'um enorme e rico volume,
os
Costumes de todos os Povos do
Universo. Já
lá estava essa noite, vestido como sempre de escossez,
com o
plaid de flamejante xadrez
vermelho e negro
posto a tiracollo e preso ao hombro por uma dragona;
para que conservasse o ar nobre d'um Stuart, d'um
valoroso cavalleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam
o bonet onde se arqueava com heroismo uma
rutilante penna de gallo; e nada havia mais melancolico
que a sua facesinha trombuda, a que o excesso
de lombrigas dava uma molleza e uma amarellidão
de manteiga, os seus olhinhos vagos e azulados, sem
pestanas como se a sciencia lh'as tivesse já consummido,
pasmando com sisudez para as camponesas da Sicilia,
e para os guerreiros ferozes do Montenegro
appoiados a escupetas, em pincaros de serranias.
Deante do canapé das senhoras lá se achava tambem
o fiel amigo, o dr. delegado, grave e digno homem,
que havia cinco annos andava ponderando e
meditando o casamento com a Silveira viuva, sem
se decidir—contentando-se em comprar todos os
annos mais meia duzia de lençoes, ou uma peça
mais
de bretanha, para arredondar o bragal. Estas compras
eram discutidas em casa das Silveiras, á brazeira:
e as allusões recatadas, mas inevitaveis, ás
duas fronhasinhas, ao tamanho dos lençoes, aos cobertores
de papa para os conchegos de janeiro—em
logar de inflammar o magistrado, inquietavam-n'o.
Nos dias seguintes apparecia preoccupado—como se
a perspectiva da santa consummação do matrimonio
lhe désse o arrepio de uma façanha a emprehender,
o ter de agarrar um toiro, ou nadar nos cachões do
Douro. Então, por qualquer rasão especiosa,
adiava-se
o casamento até ao S. Miguel seguinte. E alliviado,
tranquillo, o respeitavel Dr. continuava a acompanhar
as Silveiras a chás, festas de egreja ou pezames,
vestido de preto, affavel, serviçal, sorrindo a
D. Eugenia, não desejando mais prazeres que os
d'essa convivencia paternal.
Apenas Affonso entrou na sala deram-lhe logo noticia
do contratempo: o dr. juiz de direito e a senhora
não podiam vir, por que o magistrado tivera a dôr;
e as Brancos tinham mandado recado a desculpar-se,
coitadas, que era dia de tristeza em casa, por fazer
desesete annos que morrera o mano Manuel...
—Bem, disse Affonso, bem. A dôr, a tristeza, o mano
Manuel... Fazemos nós um voltaretesinho de quatro.
Que diz o nosso dr. delegado?
O excellente homem dobrou a sua fronte calva,
murmurando que «estava ás ordens.»
—Então ao dever, ao dever! exclamou logo o abbade,
esfregando as mãos, no ardor já da partida.
Os parceiros dirigiram-se á saleta do jogo—que
um reposteiro de damasco separava da sala, franzido
agora, deixando ver a mesa verde, e nos circulos de
luz que cahiam dos
abat-jour os
baralhos abertos
em leque. D'ahi a um momento o dr. delegado voltou,
risonho, dizendo que «os deixara para um roquesinho
de tres»; e retomou o seu logar ao lado
de D. Eugenia, cruzando os pés debaixo da cadeira
e as mãos em cima do ventre. As senhoras estavam
fallando da dôr do dr. juiz de direito. Costumava
dar-lhe todos os tres mezes: e era condemnavel a sua
teima em não querer consultar medicos. Quanto mais
que elle andava acabado, ressequindo, amarellando—e
a D. Augusta, a mulher, a nutrir á larga, a ganhar
côres!... A Viscondessa, enterrada em toda a sua
gordura ao canto do canapé, com o leque aberto sobre
o peito, contou que em Hespanha vira um caso
egual: o homem chegara a parecer um esqueleto, e
a mulher uma pipa; e ao principio fôra o contrario;
até sobre isso se tinham feito uns versos...
—Humores, disse com melancolia o dr. delegado.
Depois fallou-se nas Brancos; recordou-se a morte
de Manuel Branco, coitadinho, na flor de idade! E
que perfeição de rapaz! E que rapaz de juizo! D.
Anna
Silveira não se esquecera, como todos os annos, de
lhe accender uma lamparina por alma, e de lhe resar
tres padre-nossos. A viscondessa pareceu toda
afflicta por se não ter lembrado... E ella que tinha
o proposito feito!
—Pois estive para t'o mandar dizer! exclamou
D. Anna. E as Brancos que tanto o agradecem, filha!
—Ainda está a tempo, observou o magistrado.
D. Eugenia deu uma malha indolente no
crochet de
que nunca se separava, e murmurou com um suspiro:
—Cada um tem os seus mortos.
E no silencio que se fez, saiu do canto do canapé
outro suspiro, o da viscondessa, que de certo se recordára
do fidalgo d'Urigo de la Sierra, e murmurava:
—Cada um tem os seus mortos...
E o digno dr. delegado terminou por dizer egualmente,
depois de passar reflectidamente a mão pela
calva:
—Cada um tem os seus mortos!
Uma somnolencia ia pesando. Nas serpentinas douradas,
sobre as consoles, as chammas das velas erguiam-se
altas e tristes. Eusebiosinho voltava com
cautella e arte as estampas dos
Costumes de todos os
Povos. E na saleta de jogo, atravez do reposteiro
aberto, sentia-se a voz já arrenegada do abbade, rosnando
com um rancor tranquillo, «passo, que é o que
tenho feito toda a santa noite!»
N'esse momento Carlos arremettia pela sala dentro
arrastando a sua noiva, a Theresinha, toda no ar
e vermelha de brincar; e logo a grulhada das suas
vozes reanimou o canapé dormente.
Os noivos tinham chegado d'uma pittoresca e perigosa
viagem, e Carlos parecia descontente de sua
mulher; comportara-se d'uma maneira atroz; quando
elle ia governando a mala-posta, ella quizera empoleirar-se
ao pé d'elle na almofada... Ora senhoras
não viajam na almofada.
—E elle atirou-me ao chão, titi!
—Não é verdade! De mais a mais é
mentirosa!
Foi como quando chegámos á estalagem... Ella
quiz-se deitar, e eu não quiz... A gente, quando se
apeia de viagem, a primeira cousa que faz é tratar
do gado... E os cavallos vinham a escorrer...
A voz de D. Anna interrompeu, muito severa:
—Está bom, está bom, basta de tolices!
Já cavallaram
bastante. Senta-te ahi ao pé da sr.
a
Viscondessa,
Thereza... Olhe essa travessa do cabello...
Que desproposito!
Sempre detestára ver a sobrinha, uma menina delicada de
dez annos, brincar assim com o Carlinhos.
Aquelle bello e impetuoso rapaz, sem doutrina e sem
proposito, aterrava-a; e pela sua imaginação de
solteirona
passavam sem cessar idéas, suspeitas de ultrages
que elle poderia fazer á menina. Em casa, ao
agasalhal-a antes de vir para S.
ta Olavia,
recommendava-lhe
com força que não fosse com o Carlos para
os recantos escuros! que o não deixasse mecher-lhe
nos vestidos!... A menina, que tinha os olhos muito
langorosos, dizia: «Sim, titi.» Mas, apenas na
quinta,
gostava de abraçar o seu maridinho. Se eram casados,
por que não haviam de fazer néné, ou
ter
uma loja e ganharem a sua vida aos beijinhos? Mas
o violento rapaz só queria guerras, quatro cadeiras
lançadas a galope, viagens a terras de nomes barbaros
que o Brown lhe ensinava. Ella, despeitada,
vendo o seu coração mal comprehendido,
chamava-lhe
arrieiro; elle ameaçava
boxal-a, á ingleza;—e separavam-se
sempre arrenegados.
Mas quando ella se accomodou ao lado da Viscondessa,
gravesinha e com as mãos no regaço—Carlos
veiu logo estirar-se ao pé d'ella, meio deitado para
as costas do canapé, bamboleando as pernas.
—Vamos, filho, tem maneiras, rosnou-lhe muito
secca D. Anna.
—Estou cançado, governei quatro cavallos, replicou
elle, insolente e sem a olhar.
De repente porém, d'um salto, precipitou-se sobre
o Eusebiosinho. Queria-o levar á Africa, a combatter
os selvagens: e puchava-o já pelo seu bello
plaid de
cavalleiro d'Escossia, quando a mamã accudiu atterrada.
—Não, com o Eusebiosinho não, filho!
Não tem
saude para essas cavalladas... Carlinhos, olhe que
eu chamo o avô!
Mas o Eusebiosinho, a um repellão mais forte, rolara
no chão, soltando gritos medonhos. Foi um
alvoroço,
um levantamento. A mãe, tremula, agachada
junto d'elle, punha-o de pé sobre as perninhas molles,
limpando-lhe as grossas lagrimas, já com o lenço,
já com beijos, quasi a chorar tambem. O delegado,
consternado, apanhara o bonet escossez, e cofiava
melancolicamente a bella pena de gallo. E a
Viscondessa apertava ás mãos ambas o enorme seio,
como se as palpitações a suffocassem.
O Eusebiosinho foi então preciosamente collocado
ao lado da titi; e a severa senhora, com um fulgôr
de colera na face magra, apertando o leque fechado
como uma arma, preparava-se a repellir o Carlinhos
que, de mãos atraz das costas e aos pulos em roda
do canapé, ria, arreganhando para o Eusebiosinho um
labio feroz. Mas n'esse momento davam nove horas,
e a desempenada figura do Brown appareceu á porta.
Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por
detraz da Viscondessa, gritando:
—Ainda é muito cedo, Brown, hoje é festa,
não
me vou deitar!
Então Affonso da Maia, que se não movera aos
uivos lacinantes do Silveirinha, disse de dentro, da
mesa do voltarete, com severidade:
—Carlos, tenha a bondade de marchar já para a
cama.
—Oh vôvô, é festa, que está
cá o Villaça!
Affonso da Maia pousou as cartas, atravessou a
sala sem uma palavra, agarrou o rapaz pelo braço,
e arrastou-o pelo corredor—em quanto elle, de calcanhares
fincados no soalho, resistia, protestando com
desespero:
—É festa, vôvô... É uma
maldade!... O Villaça
póde-se escandalisar... Oh vôvô, eu
não tenho somno!
Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As
senhoras censuraram logo aquella rigidez: ahi estava
uma cousa incomprehensivel; o avô deixava-lhe
fazer todos os horrores, e recusava-lhe então o bocadinho
da soirée...
—Oh sr. Affonso da Maia, por que não deixou estar
a creança?
—É necessario methodo, é necessario methodo,
balbuciou elle, entrando, todo pallido do seu rigor.
E á mesa do voltarete, apanhando as cartas com
as mãos tremulas, repetia ainda:
—É necessario methodo. Creanças á
noite dormem.
D. Anna Silveira voltando-se para o Villaça—que
cedera o seu lugar ao dr. delegado e vinha palestrar
com as senhoras—teve aquelle sorriso mudo
que lhe franzia os labios, sempre que Affonso da Maia
fallava em «methodos.»
Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e
abrindo o leque, declarou, a transbordar d'ironia,
que, talvez por ter a intelligencia curta, nunca
comprehendera a vantagem dos «methodos»... Era
á ingleza, segundo diziam: talvez provassem bem em
Inglaterra; mas ou ella estava enganada, ou S.
ta
Olavia era no reino de Portugal...
E como Villaça inclinava timidamente a cabeça,
com a sua pitada nos dedos, a esperta senhora, baixo
para que Affonso dentro não ouvisse, desabafou. O sr.
Villaça naturalmente não sabia, mas aquella
educação
do Carlinhos nunca fôra approvada pelos amigos da
casa. Já a presença do Brown, um heretico, um
protestante,
como perceptor na familia dos Maias, causara
desgosto em Resende. Sobretudo quando o sr. Affonso
tinha aquelle santo do abbade Custodio, tão
estimado, homem de tanto saber... Não ensinaria
á creança habilidades de acrobata; mas havia de
lhe
dar uma educação de fidalgo, preparal-o para
fazer
boa figura em Coimbra.
N'esse momento, o abbade, suspeitando uma corrente
d'ar, erguera-se da mesa de jogo a fechar o
reposteiro: então, como Affonso já não
podia ouvir,
D. Anna ergueu a voz:
—E olhe que o Custodio teve desgosto, sr. Villaça.
Que o Carlinhos, coitadinho, nem uma palavra sabe de
doutrina... Sempre lhe quero contar o que succedeu
com a Macedo.
Villaça já sabia.
—Ah já sabe? Lembras-te viscondessa? Com a
Macedo, do acto de contricção...
A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo
ao ceu atravez do tecto.
—Horroroso! continuou D. Anna. A pobre mulher
chegou lá a nossa casa embuchada... E eu fez-me
impressão. Até sonhei com aquillo tres noites a
fio...
Calou-se um momento. Villaça, embaraçado,
acanhado,
fazia girar a caixa de rapé nos dedos, com
os olhos postos no tapete. Outro langor de somnolencia
passou na sala; D. Eugenia, com as palpebras pesadas,
fazia de vez em quando uma malha molle no
crochet;
e a noiva de Carlos, estirada para o canto do
sophá, já dormia, com a boquinha aberta, os seus
lindos
cabellos negros caindo-lhe pelo pescoço.
D. Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua
idéa:
—Sem contar que o pequeno está muito atrazado.
A não ser um bocado de inglez, não sabe nada...
Nem tem prenda nenhuma!
—Mas é muito esperto, minha rica senhora! accudiu
Villaça.
—É possivel, respondeu seccamente a intelligente
Silveira.
E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava
ao lado d'ella, quieto como se fosse de gesso:
—Oh filho, dize tu aqui ao sr. Villaça aquelles lindos
versos que sabes... Não sejas atado, anda!... Vá,
Euzebio, filho, sê bonito...
Mas o menino, mollengão e tristonho, não se
descollava
das saias da titi: teve ella de o pôr de pé,
amparal-o, para que o tenro prodigio não alluisse
sobre as perninhas flacidas; e a mamã prometteu-lhe
que, se dissesse os versinhos, dormia essa noite
com ella...
Isto decidio-o: abrio a bocca, e como d'uma torneira
lassa veio de lá escorrendo, n'um fio de voz, um recitativo
lento e babujado: