Dites, la jeune belle,
Ou voulez-vous aller?
La voile...
Estou um bocado rouco... Era a nossa canção na
Foz!
Carlos teve outra exclamação, e crusando os
braços
diante d'elle:
—Tu estás extraordinario, Ega! Tu és outro
Ega!...
A proposito da Foz... Quem é essa Madame Cohen,
que estava tambem na Foz, de quem tu, em cartas
successivas, verdadeiros poemas, que recebi em Berlin,
na Haia, em Londres, me fallavas como os arrobos
do
Cantico dos Canticos?
Um leve rubor subiu ás faces do Ega. E limpando
negligentemente o monocolo ao lenço de seda branca:
—Uma judia. Por isso usei o lyrismo biblico. É a
mulher do Cohen, has de conhecer, um que é director
do
Banco Nacional...
Démos-nos bastante. É sympathica...
Mas o marido é uma besta... Foi uma
flitartion de praia.
Voila tout.
Isto era dito aos bocados, passeiando, puchando o
lume ao charuto, e ainda córado.
—Mas conta-me tu, que diabo, que fazem vocês
no Ramalhete? O avô Affonso? Quem vae por lá?...
No Ramalhete, o avô fazia o seu
whist com os velhos
parceiros. Ia o D. Diogo, o decrepito leão, sempre
de rosa ao peito, e frisando ainda os bigodes...
Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoirar
de sangue, á espera da sua apoplexia... Ia o conde
de Steinbroken...
—Não conheço. Refugiado?... Polaco?...
—Não, ministro da Filandia... Queria-nos alugar
umas cocheiras e complicou esta simples
transacção
com tantas finuras diplomaticas, tantos documentos,
tantas cousas com o sello real da Filandia, que
o pobre Villaça aturdido, para se desembaraçar,
remetteu-o
ao avô. O avô, desnorteado tambem, offereceu-lhe
as cocheiras de graça. Steinbroken considera isto
um serviço feito ao rei da Filandia, á Filandia,
vae
visitar o avô, em grande estado, com o secretario da
legação, o consul, o vice-consul...
—Isso é sublime!
—O avô convida-o a jantar... E como o homem é
muito fino, um gentleman, enthusiasta da Inglaterra,
grande entendedor de vinhos, uma auctoridade no
wisth, o avô adopta-o. Não sae do Ramalhete.
—E de rapazes?
De rapazes, apparecia Taveira, sempre muito correcto,
empregado agora no Tribunal de Contas:
um Cruges, que o Ega não conhecia, um diabo adoidado,
maestro, pianista, com uma pontinha de genio;
o marquez de Souzellas...
—Não ha mulheres?
—Não ha quem as receba. É um covil de
solteirões.
A viscondessa, coitada...
—Bem sei. Um apopleté...
—Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos tambem
o Silveirinha, chegou-nos ultimamente o Silveirinha...
—O de Resende, o cretino?
—O cretino. Enviuvou, vem da Madeira, ainda um
bocado thisico, todo carregado de luto... Um funebre.
O Ega, repoltreado, com aquelle ar de tranquilla e
solida felicidade que Carlos já notara, disse puchando
lentamente os punhos:
—É necessario reorganisar essa vida. Precisamos
arranjar um cenaculo, uma bohemiasinha dourada,
umas
soirées de inverno,
com arte, com litteratura...
Tu conheces o Craft?
—Sim, creio que tenho ouvido fallar...
Ega teve um grande gesto. Era indispensavel conhecer
o Craft! O Craft era simplesmente a melhor
cousa que havia em Portugal...
—É um inglez, uma especie de doido?...
Ega encolheu os hombros. Um doido!... Sim, era
essa a opinião da rua dos Fanqueiros; o indigena,
vendo uma originalidade tão forte como a de Craft,
não podia explical-a senão pela doidice. O Craft
era
um rapaz extraordinario!... Agora tinha elle chegado
da Suecia, de passar tres mezes com os estudantes
de Upsala. Estava tambem na Foz... Uma individualidade
de primeira ordem!
—É um negociante do Porto, não é?
—Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se,
franzindo a face, enojado de tanta ignorancia.
O Craft é filho d'um
clergiman da egreja ingleza
do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcutá
ou d'Australia, um Nababo, que lhe deixou a
fortuna. Uma grande fortuna. Mas não negoceia, nem
sabe o que isso é. Dá largas ao seu temperamento
byroneano, é o que faz. Tem viajado por todo o universo,
collecciona obras d'arte, bateu-se como voluntario
na Abyssinia e em Marrocos, emfim vive,
vive na
grande, na forte, na heroica accepção da palavra.
É
necessario conhecer o Craft. Vaes-te babar por elle...
Tens razão, caramba, está calor.
Desembaraçou-se da opulenta pelliça, e appareceu
em peitilho de camisa.
—O que! tu não trazias nada por baixo? exclamou
Carlos. Nem collete?
—Não; então não a podia aguentar...
Isto é para
o effeito moral, para impressionar o indigena... Mas,
não ha negal-o, é pesada!
E immediatamente voltou á sua idéa: apenas
Craft chegasse do Porto relacionavam-se, organisava-se
um Cenaculo, um Decameron d'arte e dilletantismo,
rapazes e mulheres—tres ou quatro mulheres
para cortarem, com a graça dos decotes, a severidade
das philosophias...
Carlos ria-se d'esta idéa do Ega. Tres mulheres
de gosto e de luxo, em Lisboa, para adornar um cenaculo!
Lamentavel illusão de um homem de Celorico!
O marquez de Souzella tinha tentado, e para
uma vez só, uma cousa bem mais simples—um jantar
no campo com actrizes. Pois fôra o escandalo mais
engraçado e mais caracteristico: uma não tinha
creada e queria levar comsigo para a festa uma
tia e cinco filhos; outra temia que, acceitando, o
brazileiro lhe tirasse a mezada; uma consentiu, mas
o amante, quando soube, deu-lhe uma cóça. Esta
não
tinha vestido para ir; aquella pretendia que lhe garantissem
uma libra; houve uma que se escandalisou
com o convite como com um insulto. Depois, os chulos,
os queridos, os pôlhos, complicaram medonhamente
a questão; uns exigiam ser convidados, outros
tentavam desmanchar a festa; houve partidos, fizeram-se
intrigas,—emfim esta cousa banal, um
jantar com actrizes, resultou em o Tarquinio do
Gymnasio levar uma facada...
—E aqui tens tu Lisboa.
—Emfim, exclamou o Ega, se não apparecerem
mulheres, importam-se, que é em Portugal para tudo
o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, idéas,
philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias,
estylo, industrias, modas, maneiras, pilherias,
tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A
civilisação
custa-nos carissima com os direitos da alfandega: e
é em segunda mão, não foi feita para
nós, fica-nos
curta nas mangas... Nós julgamo-nos civilisados
como os negros de S. Thomé se suppõem
cavalheiros,
se suppõem mesmo
brancos,
por usarem com a
tanga uma casaca velha do patrão... Isto é uma
choldra torpe. Onde puz eu a charuteira?
Desembaraçado da magestade que lhe dava a pelissa
o antigo Ega reapparecia, perorando com os
seus gestos aduncos de Mephistopheles em verve,
lançando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar
as suas grandes phrases, n'uma lucta constante
com o monocolo, que lhe caía do olho, que elle procurava
pelo peito, pelos hombros, pelos rins, retorcendo-se,
deslocando-se, como mordido por bichos.
Carlos animava-se tambem, a fria sala aquecia; discutiam
o Naturalismo, Gambetta, o Nihilismo; depois,
com ferocidade e á uma, malharam sobre o paiz...
Mas o relogio ao lado bateu quatro horas; immediatamente
Ega saltou sobre a pelissa, sepultou-se
n'ella, aguçou o bigode ao espelho, verificou a
pose,
e, encouraçado nos seus alamares, sahio com um arsinho
de luxo e d'aventura.
—John, disse Carlos que o achava esplendido e
o ia seguindo ao patamar, onde estás tu?
—No
Universal, esse sanctuario!
Carlos abominava o
Universal,
queria que elle
viesse para o Ramalhete.
—Não me convém...
—Em todo o caso vaes hoje lá jantar, vêr o
avô.
—Não posso. Estou compromettido com a besta do
Cohen... Mas vou lá ámanhã
almoçar.
Já nos degraus da escada, voltou-se, entalou o monocolo,
gritou para cima:
—Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o
meu livro!
—O quê! está prompto? exclamou Carlos, espantado.
—Está esboçado, á brocha larga...
O
Livro do Ega! Fôra em
Coimbra, nos dois ultimos
annos, que elle começára a fallar do seu livro,
contando o plano, soltando titulos de capitulos,
citando pelos cafés phrases de grande sonoridade. E
entre os amigos do Ega discutia-se já o livro do Ega
como devendo iniciar, pela fórma e pela idéa, uma
evolução litteraria. Em Lisboa (onde elle vinha
passar
as ferias e dava ceias no Silva) o livro fôra annunciado
como um acontecimento. Bachareis, contemporaneos
ou seus condiscipulos, tinham levado de
Coimbra, espalhado pelas provincias e pelas ilhas
a fama do livro do Ega. Já de qualquer modo essa
noticia chegára ao Brazil... E sentindo esta anciosa
espectativa em torno do seu livro—o Ega decidira-se
emfim a escrevel-o.
Devia ser uma epopêa em prosa, como elle dizia,
dando, sob episodios symbolicos, a historia das grandes
phases do Universo e da Humanidade. Intitulava-se
Memorias d'um Atomo, e tinha a
fórma d'uma
autobiographia. Este atomo (o atomo do Ega, como
se lhe chamava a serio em Coimbra) apparecia no
primeiro capitulo, rolando ainda no vago das Nebuloses
primitivas: depois vinha embrulhado, faisca candente,
na massa de fogo que devia ser mais tarde
a Terra: emfim, fazia parte da primeira folha de
planta que surgiu da crosta ainda molle do globo.
Desde então, viajando nas incessantes
transformações
da substancia, o atomo do Ega entrava na rude
structura do Orango, pae da humanidade—e mais
tarde vivia nos labios de Platão. Negrejava no burel
dos santos, refulgia na espada dos heroes, palpitava
no coração dos poetas. Gota de agua nos lagos
de Galiléa, ouvira o fallar de Jesus, aos fins da
tarde, quando os apostolos recolhiam as redes; nó
de madeira na tribuna da Convenção, sentira o
frio
da mão de Robespierre. Errara nos vastos anneis de
Saturno; e as madrugadas da terra tinham-n'o orvalhado,
petala resplandecente de um dormente e
languido lyrio. Fôra omnipresente, era omnisciente.
Achando-se finalmente no bico da penna do Ega, e
cançado d'esta jornada atravez do Ser, repousava—escrevendo
as suas
Memorias... Tal era este
formidavel
trabalho—de que os admiradores do Ega, em
Coimbra, diziam, pensativos e como esmagados de
respeito:
—É uma Biblia!
V
No escriptorio de Affonso da Maia ainda durava,
apesar de ser tarde, a partida de whist. A mesa estava
ao lado da chaminé, onde a chamma morria nos
carvões escarlates, no seu recanto costumado, abrigada
pelo biombo japonez, por causa da bronchite de
D. Diogo e do seu horror ao ar.
Esse velho dandy,—a quem as damas de outras
eras chamavam o «Lindo Diogo», gentil toureiro que
dormira n'um leito real—acabava justamente de
ter um dos seus accessos de tosse, cavernosa, aspera,
dolorosa, que o sacudiam como uma ruina, que
elle abafava no lenço, com as veias inchadas, rôxo
até
á raiz dos cabellos.
Mas passára. Com a mão ainda tremula, o decrepito
leão limpou as lagrimas que lhe embaciavam os
olhos avermelhados, compoz a rosa de musgo na botoeira
da sobrecasaca, tomou um golo da sua agua
chasada, e perguntou a Affonso, seu parceiro, n'uma
voz rouca e surda:
—Paus, hein?
E de novo, sobre o panno verde, as cartas foram
cahindo n'um d'aquelles silencios que se seguiam ás
tosses de D. Diogo. Sentia-se só a
respiração assobiada,
quasi silvante, do general Sequeira, muito infeliz
essa noite, desesperado com o Villaça seu parceiro,
resingão, e com todo o sangue na face.
Um tom fino retiniu, o relogio Luiz XV foi ferindo.
alegremente, vivamente, a meia noite;—depois a
toada argentina do seu minuete vibrou um momento
e morreu. Houve de novo um silencio. Uma renda
vermelha recobria os globos de dois grandes candieiros
Carcel; e a luz assim coada, cahindo sobre
os damascos vermelhos das paredes, dos assentos,
fazia como uma doce refracção côr de
rosa, um vaporoso
de nuvem em que a sala se banhava e dormia:
só, aqui e além, sobre os carvalhos sombrios das
estantes, rebrilhava em silencio o ouro d'um Sèvres,
uma pallidez de marfim, ou algum tom esmaltado de
velha majolica.
—O que! ainda encarniçados! exclamou Carlos que
abrira o reposteiro, entrava, e com elle o rumor
distante de bolas de bilhar.
Affonso, que recolhia a sua vasa, voltou logo a cabeça,
a perguntar com interesse:
—Como vae ella? Está socegada?
—Está muito melhor!
Era a primeira doente grave de Carlos, uma rapariga
de origem alsacianna, casada com o Marcellino
padeiro, muito conhecida no bairro pelos seus bellos
cabellos, loiros, e penteados sempre em tranças soltas.
Tinha estado á morte com uma pneumonia; e
apesar de melhor, como a padaria ficava defronte,
Carlos ainda ás vezes á noite atravessava a rua
para
a ir vêr, tranquillisar o Marcellino, que, defronte do
leito e de gabão pelos hombros, suffocava soluços
d'amante, escrevinhando no livro de contas.
Affonso interessara-se anciosamente por aquella
pneumonia; e agora estava realmente agradecido á
Marcellina por ter sido salva por Carlos. Fallava
d'ella commovido; gabava-lhe a linda figura, o aceio
alsacianno, a prosperidade que trouxera á padaria...
Para a convalescença, que se
approximava,
já lhe
mandára até seis garrafas de Chateau-Margaux.
—Então fóra de perigo, inteiramente
fóra de perigo?—perguntou
Villaça, com os dedos na caixa do
rapé, sublinhando muito a sua sollicitude.
—Sim, quasi rija—disse Carlos, que se approximara
da chaminé, esfregando as mãos, arrepiado.
É que a noite, fóra, estava regelada! Desde o
anoitecer
geava, d'um céu fino e duro, transbordando de
estrellas que rebrilhavam como pontas afiadas d'aço;
e nenhum d'aquelles cavalheiros, desde que se entendia,
conhecera jámais o thermometro tão baixo. Sim,
Villaça lembrava-se d'um janeiro peor no inverno
de 64...
—É necessario carregar no
punch,
hein, general!—exclamou
Carlos, batendo galhofeiramente nos hombros
macissos do Sequeira.
—Não me opponho, rosnou o outro, que fixava
com concentração e rancor um valete de copas
sobre
a meza.
Carlos, ainda com frio, remexeu, esfuracou os carvões:
uma chuva d'oiro cahiu por baixo, uma chamma
mais forte ressaltou, rugiu, alegrando tudo, avermelhando
em redor as pelles de urso onde o Reverendo
Bonifacio, espapado, torrava ao calor, ronronava de
gôso.
—O Ega deve estar radiante, dizia Carlos com os
pés á chamma. Tem, emfim, justificada a pellissa.
A
proposito, algum dos senhores tem visto o Ega estes
ultimos dias?
Ninguem respondeu, no interesse subito que causava
a cartada. A longa mão de D. Diogo recolhia de
vagar a vasa—e languidamente, no mesmo silencio,
soltou uma carta de paus.
—Ó Diogo! ó Diogo! gritou Affonso,
estorcendo-se,
como se o trespassasse um ferro.
Mas conteve-se. O general, cujos olhos despediam
faiscas, collocou o seu valete; Affonso, profundamente
infeliz, separou-se do rei de paus; Villaça bateu de
estalo com o az. E immediatamente foi em redor uma
discussão tremenda sobre a puchada de D. Diogo—em
quanto Carlos, a quem as cartas sempre enfastiavam,
se debruçava a coçar o ventre fofo do veneravel
Reverendo.
—Que perguntavas tu, filho? disse emfim Affonso
erguendo-se, ainda irritado, a buscar tabaco para o
cachimbo, sua consolação nas derrotas. O Ega?
Não,
ninguem o viu, não tornou a apparecer! Está
tambem
um bom ingrato, esse John...
Ao nome do Ega, Villaça, parando de baralhar as
cartas, erguera a face curiosa:
—Então sempre é certo que elle vae montar casa?
Foi Affonso que respondeu, sorrindo e accendendo
o cachimbo:
—Montar casa, comprar
coupé, deitar
libré, dar
soirées litterarias,
publicar um poema, o diabo!
—Elle esteve lá no escriptorio, dizia Villaça
recomeçando
a baralhar. Esteve lá a indagar o que tinha
custado o consultorio, a mobilia de velludo, etc.
O velludo verde deu-lhe no gôto... Eu, como é um
amigo da casa, lá lhe prestei
informações, até lhe
mostrei as contas.—E respondendo a uma pergunta
do Sequeira:—Sim, a mãe tem dinheiro, e creio
que lhe dá o bastante. Que em quanto a mim, elle
vem-se metter na politica. Tem talento, falla bem, o
pae já era muito regenerador... Alli ha
ambição.
—Alli ha mulher, disse D. Diogo, collocando com
peso esta decisão e accentuando-a com uma caricia
languida á ponta frisada dos bigodes brancos.
Lê-se-lhe
na cara, basta vêr-lhe a cara... Alli ha mulher.
Carlos sorria, gabando a penetração de D. Diogo,
o seu fino olho á Balzac; e Sequeira, logo, franco
como velho soldado, quiz saber quem era a Dulcinea.
Mas o velho dandy declarou, da profundidade da sua
experiencia, que essas cousas nunca se sabiam, e era
preferivel não se saberem. Depois passando os dedos
magros e lentos pela face, deixou cahir d'alto e com
condescendencia este juizo:
—Eu gosto do Ega, tem apresentação; sobretudo
tem
degagè...
Tinham recebido as cartas, fez-se um silencio na
meza. O general, vendo o seu jogo, soltou um grunhido
surdo, arrebatou o cigarro do cinzeiro, e puxou-lhe
uma fumaça furiosa.
—Os senhores são muito viciosos, vou vêr a gente
do bilhar, disse Carlos. Deixei o Steinbroken engalfinhado
com o marquez, a perder já quatro mil réis.
Querem o
punch aqui?
Nenhum dos parceiros respondeu.
E em torno do bilhar Carlos encontrou o mesmo
silencio de solemnidade. O marquez, estirado sobre
a tabella, com a perna meia no ar, o começo de
calva alvejando á luz crua que cahia dos
abat-jours,
de porcelana, preparava a carambola decisiva. Cruges,
que apostára por elle, deixára o divan, o
cachimbo
turco, e, coçando com um gesto nervoso a
grenha crespa que lhe ondeava até á gola do
jaquetão,
vigiava a bola inquieto, com os olhinhos piscos,
o nariz espetado. Do fundo da sala, destacando em
preto, o Silveirinha, o Eusebiosinho de S.
ta
Olavia,
estendia tambem o pescoço, affogado n'uma gravata
de viuvo de merino negro e sem collarinho, sempre
macambuzio, mais mollengo que outr'ora, com as mãos
enterradas nos bolsos—tão funebre que tudo n'elle
parecia complemento do luto pesado, até o preto do cabello
chato, até o preto das lunetas de fumo. Junto ao
bilhar, o parceiro do marquez, o conde Steinbroken,
esperava: e apesar do susto, da emoção d'homem
do norte aferrado ao dinheiro, conservava-se correcto,
encostado ao taco, sorrindo, sem desmanchar a
sua linha britanica,—vestido como um inglez, inglez
tradicional d'estampa, com uma sobrecasaca justa
de manga um pouco curta, e largas calças de xadrez
sobre sapatões de tacão raso.
—Hurrah! gritou de repente Cruges. Os dez tostõesinhos
para cá, Silveirinha!
O marquez carambolára, ganhando a partida, e
triumphava tambem:
—Você trouxe-me a sorte, Carlos!
Steinbroken depozera logo o taco, e alinhava já sobre
a tabella, lentamente, uma a uma, as quatro
placas perdidas.
Mas o marquez, de giz na mão, reclamava-o para
outras refregas, esfaimado d'ouro filandez.
—Nada mach!... Vôcê hoje 'stá
têrivêl! dizia o
diplomata, no seu portuguez fluente, mas de accento
barbaro.
O marquez insistia, plantado diante d'elle, de taco
ao hombro como uma vara de campino, dominando-o
com a sua macissa, desempenada estatura. E ameaçava-o
de destinos medonhos n'uma voz possante
habituada a ressoar nas lezirias; queria-o arruinar
ao bilhar, forçal-o a empenhar aquelles bellos anneis,
leval-o elle, ministro da Filandia e representante
d'uma raça de reis fortes, a vender senhas á
porta
da Rua dos Condes!
Todos riam; e Steinbroken tambem, mas com um
riso franzido e difficil, fixando no marquez o olhar
azul-claro, claro e frio, que tinha no fundo da sua
myopia a dureza d'um metal. Apesar da sua sympathia
pela illustre casa de Souzella, achava estas familiaridades,
estas tremendas chalaças, incompativeis
com a sua dignidade e com a dignidade da Filandia.
O marquez, porém, coração d'ouro,
abraçava-o já pela
cinta, com expansão:
—Então se não quereis mais bilhar, um bocadinho
de canto, Steinbroken amigo!
A isto o ministro accedeu, affavel, preparando-se
logo, dando caricias ligeiras ás suissas, e aos anneis
do cabello d'um loiro de espiga desbotada.
Todos os Steinbrokens, de paes a filhos (como
elle dissera a Affonso) eram bons barytonos: e isso
trouxera á familia não poucos proventos sociaes.
Pela
voz captivara seu pae o velho rei Rudolpho III, que o
fizera chefe das caudelarias, e o tinha noites inteiras
nos seus quartos, ao piano, cantando psalmos lutheranos,
coraes escolares, sagas da Dallecarlia—em
quanto o taciturno monarcha cachimbava e bebia,
até que saturado de emoção religiosa,
saturado de
cerveja preta, tombava do sophá, soluçando e
babando-se.
Elle mesmo, Steinbroken, levara parte da
sua carreira ao piano, já como addido, já como
segundo
secretario. Feito chefe de missão, absteve-se:
foi só quando vio o
Figaro celebrar repetidamente as
walsas do principe Artoff, embaixador da Russia em
Paris, e a voz de
basso do conde de
Baspt, embaixador
d'Austria em Londres, que elle, seguindo tão
altos exemplos, arriscou, aqui e alem, em
soirées mais
intimas, algumas melodias filandezas. Emfim cantou
no Paço. E desde então exerceu com zelo, com
formalidades,
com praxes, o seu cargo de «barytono
plenipotenciario,» como dizia o Ega. Entre homens,
e com os reposteiros corridos, Steinbroken não duvidava
todavia cantarolar o que elle chamava «cançonetas
brejêras»—o
Amant
d'Amanda, ou uma certa
ballada ingleza:
On the Serpentine,
Oh my Caroline...
Oh!
Este
oh! como elle o expellia,
gemido, bem puxado,
n'um movimento de batuque, expressivo e todavia
digno... Isto entre rapazes e com os reposteiros
fechados.
N'essa noite, porém, o marquez, que o conduzia
pelo braço á sala do piano, exigia uma d'aquellas
canções da Filandia, de tanto sentimento e que
lhe
faziam tão bem á alma...
—Uma que tem umas palavrinhas de que eu gosto,
frisk,
gluzk... La ra lá,
lá, lá!
—A Primavera, disse o diplomata sorrindo.
Mas antes de entrar na sala, o marquez soltou o
braço de Steinbroken, fez um signal ao Silveirinha
para o fundo do corredor—e ahi, sob um sombrio
painel de
Santa Magdalena no deserto
penitenciando-se
e mostrando nudezas ricas de nympha lubrica,
interpellou-o quasi com aspereza:
—Vamos nós a saber. Então, decide-se ou
não?
Era uma negociação que havia semanas se arrastava
entre elles, a respeito d'uma parelha d'egoas.
Silveirinha nutria o desejo de montar carruagem;
e o marquez procurava vender-lhe umas egoas brancas,
a que elle dizia «ter tomado enguiço, apesar de
serem dois nobres animaes». Pedia por ellas um conto
e quinhentos mil réis. Silveirinha fôra avisado
pelo
Sequeira, por Travassos, por outros entendedores,
que era
uma espiga: o marquez tinha
a sua moral
propria para negocios de gado, e exultaria em
intrujar
um pichote. Apesar de advertido, Eusebio cedendo
á influencia da grossa voz do marquez, da
robustez do seu phisico, da antiguidade do seu titulo,
não ousava recusar. Mas hesitava; e n'essa
noite deu a resposta usual de forreta, coçando o
queixo, cosido ao muro:
—Eu verei, marquez... Um conto e quinhentos
é dinheiro...
O marquez ergueu dois braços ameaçadores como
duas trancas:
—Homem, sim ou não! Que diabo... Dois animaes
que são duas estampas... Irra! Sim ou não!
Eusebio ageitou as lunetas, rosnou:
—Eu verei... Elle é dinheiro. Sempre
é dinheiro...
—Queria você, talvez, pagal-as com feijões?
Você
leva-me a commetter um excesso!
O piano resoou, em dois accordes cheios, sob os
dedos do Cruges; e o marquez, baboso por musica,
immediatamente largou a questão das egoas, recolheu
em pontas de pés. Eusebiosinho ainda ficou a
remoer, a coçar o queixo; emfim, ás primeiras
notas
de Steinbroken, veiu pousar como uma sombra
silenciosa entre a hombreira e o reposteiro.
Afastado do piano segundo o seu costume, curvado,
com a cabelleira como pousada ás costas, Cruges
feria o acompanhamento, d'olhos cravados no livro
de
Melodias Filandezas. Ao lado,
empertigado,
quasi official, com o lenço de seda na mão, a
mão
fincada contra o peito, Steinbroken soltava um canto
festivo, n'um movimento de tarantella triumphante,
em que passavam, como um entrechocar de seixos,
esses bocados de palavras de que o marquez gostava,
frisk,
slécht,
clikst,
glukst. Era a
Primavera—fresca
e silvestre, primavera do norte em paiz de
montanhas, quando toda uma aldêa dança em
córos
sob os fuscos abetos, a neve se derrete em cascatas,
um sol pallido avelluda os musgos, e a brisa traz o
aroma das resinas... Nos graves e cheios, as cantoneiras
de Steinbroken ruborisavam-se, inchavam.
Nos tons agudos todo elle se ía alçando sobre a
ponta dos pés, como levado no compasso vivo; despegava
então a mão do peito, alargava um gesto, as
bellas joias dos seus anneis faiscavam.
O marquez, com as mãos esquecidas nos joelhos,
parecia beber o canto. Na face de Carlos passava um
sorriso enternecido pensando em Madame Rughel,
que viajara na Filandia, e cantava ás vezes aquella
Primavera nas suas horas de
sentimentalismo flamengo...
Steinbroken soltou um
stacato agudo,
isolado
como uma voz n'um alto,—e immediatamente, afastando-se
do piano, passou o lenço sobre as fontes,
sobre o pescoço, rectificou com um puchão a linha
da sobrecasaca, e agradeceu o acompanhamento ao
Cruges n'um silencioso
shake-hands.
—Bravo! bravo! berrava o marquez, batendo as
mãos como malhos.
E outros applausos resoaram á porta, dos parceiros
do whist, que tinham findado a partida. Quasi
immediatamente os escudeiros entravam com um
serviço frio de croquettes e sandwiches, offerecendo
St. Emilion ou Porto; e sobre uma meza, entre os
renques de calices, a puncheira fumegou n'um aroma
doce e quente de cognac e limão.
—Então, meu pobre Steinbroken, exclamou Affonso,
vindo-lhe bater amavelmente no hombro, ainda
dá d'esses bellos cantos a estes bandidos, que o maltratam
assim ao bilhar?
—Fui essfôladito, si, essfôladito. Agradecido,
nô,
prefiro um copita Porto...
—Hoje fomos nós as victimas, disse-lhe o general
respirando com delicia o seu punch.
—Você tãbem, meu genêral?
—Sim, senhor, tambem me cascaram...
E que dizia o amigo Steinbroken ás noticias da
manhã? perguntava Affonso. A queda de Mac-Mahon,
a eleição de Grevy... O que o alegrava n'isto,
era o
desapparecimento definitivo do antipathico senhor de
Broglie e da sua
clique. A
impertinencia d'aquelle
academico estreito, querendo impôr a opinião de
dois
ou tres salões doutrinarios á França
inteira, a toda
uma Democracia! Ah, o
Times
cantava-lh'as!
—E o
Punch? Não viu o
Punch? Oh, delicioso!...
O ministro pousara o calice, e esfregando cautelosamente
as mãos disse n'uma meia voz grave a sua
phrase, a phrase definitiva com que julgava todos
os acontecimentos que apparecem em telegrammas:
—É gràve... É eqsessivemente
gràve...
Depois fallou-se de Gambetta; e como Affonso lhe
attribuia uma dictadura proxima, o diplomata tomou
mysteriosamente o braço de Sequeira, murmurou
a palavra suprema com que definia todas as personalidades
superiores, homens d'estado, poetas, viajantes
ou tenores.
—É um homẽ mûto forte. É um homẽ
eqsessivemente
forte!
—O que elle é, é um ronha! exclamou o general,
escorropichando o seu calice.
E todos tres deixaram a sala, discutindo ainda a
republica—em quanto Cruges continuava ao piano,
vagueando por Mendelsshon e por Choppin, depois
de ter devorado um prato de croquettes.
O marquez e D. Diogo, sentados no mesmo sophà,
um com a sua chasada d'invalido, outro com um copo
de S.
t Emilion, a que aspirava o
bouquet, fallavam
tambem de Gambetta. O marquez gostava de Gambetta:
fôra o unico que durante a guerra mostrara ventas
de homem; lá que tivesse «comido» ou que
«quizesse
comer» como diziam,—não sabia nem lhe importava.
Mas era teso! E o sr. Grevy tambem lhe parecia
um cidadão serio, optimo para chefe do Estado...
—Homem de sala? perguntou languidamente o velho
leão.
O marquez só o vira na Assembléa, presidindo e
muito digno...
D. Diogo murmurou, com um melancolico desdem
na voz, no gesto, no olhar:
—O que eu queria a toda essa canalha era a
saude, marquez!
O marquez consolou-o, galhofeiro e amavel. Toda
essa gente, parecendo forte por se occupar de cousas
fortes, no fundo tinha asthma, tinha pedra, tinha
gota... E o Dioguinho era um Hercules...
—Um Hercules! O que é, é que você
apaparica-se
muito... A doença é um mau habito em que a gente
se põe. É necessario reagir... Você
devia fazer gymnastica,
e muita agua fria por essa espinha. Você,
na realidade, é de ferro!
—Enferrujadote, enferrujadote...—replicou o
outro, sorrindo e desvanecido.
—Qual enferrujadote! Se eu fosse cavallo ou mulher,
antes o queria a você que a esses badamecos
que por ahi andam meio podres... Já não ha homens
da sua tempera, Dioguinho!
—Já não ha nada, disse o outro grave e
convencido,
e como o derradeiro homem nas ruinas d'um
mundo.
Mas era tarde, ía-se agasalhar, recolher, depois
de acabar a sua chasada. O marquez ainda se demorou,
preguiçando no sophá, enchendo lentamente o
cachimbo, dando um olhar áquella sala que o encantava
com o seu luxo Luiz XV, os seus florídos e os
seus dourados, as cerimoniosas poltronas de Beauvais
feitas para a amplidão das anquinhas, as
tapeçarias
de Gobelins de tons desmaiados, cheias de galantes
pastoras, longes de parques, laços e lãs de
cordeiros,
sombras d'idyllios mortos, transparecendo n'uma
trama de seda... Áquella hora, no adormecimento
que ía pesando, sob a luz suave e quente das velas
que findavam, havia ali a harmonia e o ar de
um outro seculo: e o marquez reclamou do Cruges
um minuete, uma gavotta, alguma cousa que evocasse
Versalhes, Maria Antonietta, o rythmo das bellas maneiras
e o aroma dos empoados. Cruges deixou morrer
sob os dedos a melodia vaga que estava diluindo
em suspiros, preparou-se, alargou os braços—e
atacou, com um pedal solemne, o
Hymno da
Carta. O marquez fugiu.
Villaça e Euzebiozinho conversavam no corredor,
sentados n'uma das arcas baixas de carvalho lavrado.
—A fazer politica? perguntou-lhes o marquez ao
passar.
Ambos sorriram; Villaça respondeu jocosamente:
—É necessario salvar a patria!
Eusebio pertencia tambem ao centro progressista,
aspirava a influencia eleitoral no circulo de Resende,
e alli ás noites no Ramalhete faziam conciliabulos.
N'esse momento porém fallavam dos Maias: Villaça
não duvidava confiar ao Silveirinha, homem de propriedade,
visinho de S.
ta Olavia, quasi creado com
Carlos, certas cousas que lhe desagradavam na casa,
onde a auctoridade da sua palavra parecia diminuir;
assim, por exemplo, não podia approvar o ter Carlos
tomado uma frisa de assignatura.
—Para que, exclamava o digno procurador, para
que, meu caro senhor? Para lá não pôr
os pés, para
passar aqui as noites... Hoje diz que ha enthusiasmo,
e elle ahi esteve. Tem ido lá, eu sei? duas ou
três
vezes... E para isto dá cá uns poucos de centos
de
mil réis. Podia fazer o mesmo com meia duzia de libras!
Não, não é governo. No fim a frisa
é para o
Ega, para o Taveira, para o Cruges... Olhe, eu não
me utiliso d'ella; nem o amigo. É verdade, que o
amigo está de luto.
Eusebio pensou, com despeito, que se podia metter
para o fundo da frisa—se tivesse sido convidado.
E murmurou, sem conter um sorriso molle:
—Indo assim, até se podem encalacrar...
Uma tal palavra, tão humilhante, applicada aos
Maias, á casa que elle administrava, escandalisou
Villaça. Encalacrar! Ora essa!
—O amigo não me comprehendeu... Ha despezas
inuteis, sim, mas, louvado Deus, a casa póde bem
com ellas! É verdade que o rendimento gasta-se todo,
até o ultimo ceitil; os cheques voam, voam, como folhas
seccas; e até aqui o costume da casa foi pôr de
lado, fazer bolo, fazer reserva. Agora o dinheiro derrete-se...
Eusebio rosnou algumas palavras sobre os trens
de Carlos, os nove cavallos, o cocheiro inglez, os
grooms... O procurador acudiu:
—Isso, amigo, é de razão. Uma gente d'estas deve
ter a sua representação, as suas cousas bem
montadas.
Ha deveres na sociedade... É como o sr. Affonso...
Gasta muito, sim, come dinheiro. Não é com
elle, que lhe conheço aquelle casaco ha vinte annos...
Mas são esmolas, são pensões,
são emprestimos
que nunca mais vê...
—Desperdicios...
—Não lh'o censuro... É o costume da casa; nunca
da porta dos Maias, já meu pae dizia, sahiu ninguem
descontente... Mas uma frisa, de que ninguem usa!
só para o Cruges, só para o Taveira!...
Teve de se callar. Justamente ao fundo do corredor
assomava o Taveira, abafado até aos olhos na
gola d'uma ulster, d'onde sahiam as pontas d'um
cachenez de seda clara. O escudeiro
desembaraçou-o
dos agasalhos; e elle, de casaca e collete branco,
limpando o bonito bigode humido da geada, veiu
apertar a mão ao caro Villaça, ao amigo Eusebio,
arrepiado,
mas achando o frio elegante, desejando a
neve e o seu
chic...
—Nada, nada, dizia Villaça todo amavel, cá o
nosso solzinho portuguez sempre é melhor...
E foram entrando no
fumoir, onde se
ouviam as
vozes do marquez, de Carlos, n'uma das suas sabias
e prolixas cavaqueiras sobre cavallos e sport.
—Então? que tal? A mulher? foi a
interrogação
que acolheu o Taveira.
Mas antes de dar noticia da estreia da Morelli, a
dama nova, Taveira reclamou alguma cousa quente.
E enterrado n'uma poltrona junto do fogão, com os
sapatos de verniz estendidos para as brazas, respirando
o aroma do punch, saboreando uma cigarette,
declarou emfim que não tinha sido um
fiasco.
—Que ella, a meu vêr, é uma insignificancia,
não
tem nada, nem voz, nem escola. Mas, coitada, estava
tão atrapalhada, que nos fez pena. Houve indulgencia,
deram-se-lhe umas palmas... Quando fui ao
palco, ella estava contente...
—Vamos a saber, Taveira, que tal é ella? inquiria
o marquez.
—Cheia, dizia o Taveira collocando as palavras
como pinceladas; alta; muito branca; bons olhos;
bons dentes...
—E o pésinho?—E o marquez, já com os olhos
accesos, passava de vagar a mão pela calva.
Taveira não reparara no pé. Não era
amador de
pés...
—Quem estava? perguntou Carlos, indolente e
bocejando.
—A gente do costume... É verdade, sabes quem
tomou a frisa ao lado da tua? Os Gouvarinhos. Lá
appareceram hoje...
Carlos não conhecia os Gouvarinhos. Em redor explicaram-lhe:
o conde de Gouvarinho, o par do reino,
um homem alto, de lunetas,
poseur...
E a condessa,
uma senhora inglesada, de cabello côr de cenoura,
muito bem feita... Emfim, Carlos não conhecia.
Villaça encontrava o conde no centro progressista,
onde elle era uma columna do partido. Rapaz
de talento, segundo o Villaça. O que o espantava
é
que elle podesse ter assim frisa de assignatura,
atrapalhado como estava: ainda não havia tres mezes
lhe tinham protestado uma letra de oitocentos
mil réis, no tribunal do commercio...
—Um asno, um caloteiro! disse o marquez com nojo.
—Passa-se lá bem, ás terças
feiras...—disse
Taveira, mirando a sua meia de seda.
Depois fallou-se do duello do Azevedo da
Opinião
com o Sá Nunes, auctor d'
El-Rei
Bolacha, a grande
magica da Rua dos Condes, e ultimamente ministro
da marinha: tinham-se tratado furiosamente nos jornaes
de
pulhas e de
ladrões: e havia dez
interminaveis
dias que estavam desafiados e que Lisboa, em
pasmaceira, esperava o sangue. Cruges ouvira que
Sá Nunes não se queria bater, por estar de luto
por
uma tia; dizia-se tambem que o Azevedo partira
precipitadamente para o Algarve. Mas a verdade, segundo
Villaça, era que o ministro do reino, primo do
Azevedo, para evitar o recontro, conservava a casa
dos dois cavalheiros bloqueada pela policia...
—Uma canalha! exclamou o marquez com um dos
seus resumos brutaes que varriam tudo.
—O ministro não deixa de ter razão, observou
Villaça.
Isto ás vezes, em duellos, póde bem succeder
uma desgraça...
Houve um curto silencio. Carlos, que caía de somno,
perguntou ao Taveira, atravez d'outro bocejo, se vira
o Ega no theatro.
—Podera! La estava de serviço, no seu posto, na
frisa dos Cohens, todo puxado...
—Então essa cousa do Ega com a mulher do
Cohen, disse o marquez, parece clara...
—Transparente, diaphana! um crystal!...
Carlos, que se erguera a accender uma cigarette
para despertar, lembrou logo a grande maxima de
D. Diogo: essas cousas nunca se sabiam, e era preferivel
não se saberem! Mas o marquez, a isto, lançou-se
em considerações pesadas. Estimava que o
Ega
se atirasse; e via ahi um facto
de represalia social,
por o Cohen ser judeu e banqueiro. Em geral
não gostava de judeus; mas nada lhe offendia tanto
o gosto e a razão como a especie
banqueiro. Comprehendia
o salteador de clavina, n'um pinheiral;
admittia o communista, arriscando a pelle sobre uma
barricada. Mas os argentarios, os
Fulanos e
C.as faziam-n'o
encavacar... E achava que destruir-lhes a
paz domestica era acto meritorio!
—Duas horas e um quarto! exclamou Taveira, que
olhara o relogio. E eu aqui, empregado publico, tendo
deveres para com o Estado, logo ás dez horas da
manhã.
—Que diabo, se faz no tribunal de contas? perguntou
Carlos. Joga-se? Cavaquea-se?
—Faz-se um bocado de tudo, para matar tempo...
Até contas!
Affonso da Maia já estava recolhido. Sequeira e
Steinbroken tinham partido; e D. Diogo, no fundo
da sua velha traquitana, lá fôra tambem a tomar
ainda gemada, a pôr ainda o emplastro, sob o olho
solicito da Margarida, sua cozinheira e seu derradeiro
amor. E os outros não tardaram a deixar o Ramalhete.
Taveira, de novo sepultado na
ulster, trotou até
casa, uma vivendasinha perto com um bonito jardim.
O marquez conseguiu levar Cruges no
coupé, para lhe
ir fazer musica a casa, no orgão, até
ás tres ou quatro
horas, musica religiosa e triste, que o fazia chorar,
pensando nos seus amores e comendo frango
frio com fatias de salame. E o viuvo, o Eusebiosinho,
esse, batendo o queixo, tão morosa e soturnamente
como se caminhasse para a sua propria sepultura, lá
se dirigiu ao lupanar onde tinha uma
paixão.
O laboratorio de Carlos estava prompto—e muito
convidativo, com o seu soalho novo, fornos de tijolo
fresco, uma vasta meza de marmore, um amplo
divan de clina para o repouso depois das grandes
descobertas, e em redor, por sobre peanhas e prateleiras,
um rico brilho de metaes e crystaes; mas as
semanas passavam, e todo esse bello material de
experimentação,
sob a luz branca da claraboia, jazia
virgem e ocioso. Só pela manhã um servente
ía ganhar
o seu tostão diario, dando lá uma volta
preguiçosa
com um espanador na mão.
Carlos realmente não tinha tempo de se occupar
do laboratorio; e deixaria a Deus mais algumas semanas
o privilegio exclusivo de saber o segredo das
cousas—como elle dizia rindo ao avô. Logo pela
manhã cedo ía fazer as suas duas horas d'armas
com
o velho Randon; depois via alguns doentes no bairro
onde se espalhara, com um brilho de legenda, a cura
da Marcellina—e as garrafas de Bordeus que lhe
mandara Affonso. Começava a ser conhecido como medico.
Tinha visitas no consultorio—ordinariamente
bachareis, seus contemporaneos, que sabendo-o rico
o consideravam gratuito, e lá entravam, murchos e
com má cara, a contar a velha e mal disfarçada
historia
de ternuras funestas. Salvara d'um garrotilho a
filha d'um brazileiro, ao Aterro—e ganhara ahi a
sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho
ganhava um homem da sua familia. O dr. Barbedo
convidara-o a assistir a uma operação
ovariotomica. E
emfim (mas esta consagração não a
esperava realmente
Carlos tão cedo) alguns dos seus bons collegas,
que até ahi, vendo-o só a governar os seus
cavallos
inglezes, fallavam do «talento do Maia»—agora
percebendo-lhe estas migalhas de clientella, começavam
a dizer «que o Maia era um asno.» Carlos
já
fallava a serio da sua carreira. Escrevera, com laboriosos
requintes d'estylista, dois artigos para a
Gazeta
Medica; e pensava em fazer um livro
d'idéas geraes,
que se devia chamar
Medicina Antiga e
Moderna.
De resto occupava-se sempre dos seus cavallos, do
seu luxo, do seu bric-a-brac. E atravez de tudo isto,
em virtude d'essa fatal dispersão de curiosidade que,
no meio do caso mais interessante de pathologia, lhe
fazia voltar a cabeça, se ouvia fallar d'uma estatua ou
d'um poeta, attrahia-o singularmente a antiga idéa
do Ega, a creação d'uma Revista, que
dirigisse o
gosto, pezasse na politica, regulasse a sociedade, fosse
a força pensante de Lisboa...
Era porém inutil lembrar ao Ega este bello plano.
Abria um olho vago, respondia:
—Ah, a Revista... Sim, está claro, pensar n'isso!
Havemos de fallar, eu apparecerei...
Mas não apparecia no Ramalhete, nem no consultorio;
apenas se avistavam, ás vezes, em S. Carlos,
onde o Ega, todo o tempo que não passava no camarote
dos Cohens, vinha invariavelmente refugiar-se
no fundo da frisa de Carlos, por trás de Taveira ou
do Cruges; d'onde podesse olhar de vez em quando
Rachel Cohen—e ali ficava, silencioso, com a cabeça
appoiada ao tabique, repousando e como saturado
de felicidade...
O dia (dizia elle) tinha-o todo tomado: andava procurando
casa, andava estudando mobilias... Mas era
facil encontral-o pelo Chiado e pelo Loreto, a rondar
e a farejar—ou então no fundo de tipoias de
praça,
batendo a meio galope, n'um espalhafato de aventura.
O seu dandysmo requintava; arvorara, com o desplante
soberbo d'um Brummel, casaca de botões amarellos
sobre collete de setim branco; e Carlos entrando
uma manhã cedo no
Universal, deu com elle
pallido de colera, a despropositar com um creado,
por causa d'uns sapatos mal envernisados. Os seus
companheiros constantes, agora, eram um Damaso Salcede,
amigo do Cohen, e um primo da Rachel Cohen,
mocinho imberbe, d'olho esperto e duro, já com ares
de emprestar a trinta por cento.
Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa,
discutia-se ás vezes Rachel, e as opiniões
discordavam.
Taveira achava-a «deliciosa!»—e dizia-o rilhando
o dente: ao marquez não deixava de parecer
appetitosa, para uma vez, aquella carnezinha
faisandée
de mulher de trinta annos: Cruges chamava-lhe
uma «lambisgoia relamboria». Nos jornaes, na
secção
do
High-life, ella era
«uma das nossas primeiras elegantes»:
e toda a Lisboa a conhecia, e a sua luneta
d'ouro presa por um fio d'ouro, e a sua caleche azul
com cavallos pretos. Era alta, muito pallida, sobre
tudo ás luzes, delicada de saude, com um quebranto
nos olhos pisados, uma infinita languidez em toda a
sua pessoa, um ar de romance e de lyrio meio
murcho: a sua maior belleza estava nos cabellos, magnificamente
negros, ondeados, muito pesados, rebeldes
aos ganchos, e que ella deixava habilmente
cahir n'uma massa meia solta sobre as costas, como
n'um desalinho de nudez. Dizia-se que tinha litteratura,
e fazia phrases. O seu sorriso lasso, pallido,
constante, dava-lhe um ar de insignificancia. O pobre
Ega adorava-a.
Conhecera-a na Foz, na Assembléa; n'essa noite,
cervejando com os rapazes, ainda lhe chamou
camelia
melada; dias depois já adulava o marido; e
agora
esse demagogo, que queria o massacre em massa das
classes medias, soluçava muita vez por causa d'ella,
horas inteiras, cahido para cima da cama.
Em Lisboa, entre o Gremio e a Casa Havaneza, já
se começava a fallar «do arranjinho do
Ega». Elle
todavia procurava pôr a sua felicidade ao abrigo de
todas as suspeitas humanas. Havia nas suas complicadas
precauções tanta sinceridade como prazer
romantico
do mysterio: e era nos sitios mais desageitados,
fóra de portas, para os lados do Matadouro,
que ía furtivamente encontrar a creada que lhe
trazia as cartas d'ella... Mas em todos os seus modos
(mesmo no disfarce affectado com que espreitava
as horas) transbordava a immensa vaidade d'aquelle
adulterio elegante. De resto sentia bem que os seus
amigos conheciam a gloriosa aventura, o sabiam em
pleno drama: era mesmo talvez por isso, que, diante
de Carlos e dos outros, nunca até ahi mencionara o
nome d'ella, nem deixara jámais escapar um lampejo
de exaltação.
Uma noite, porém, acompanhando Carlos até ao
Ramalhete, noite de lua calma e branca, em que caminhavam
ambos callados, Ega, invadido decerto por
uma onda interior de paixão, soltou desabafadamente
um suspiro, alargou os braços, declamou com os olhos
no astro, um tremor na voz: