Je suis Mephisto...
Je suis Mephisto...
Carlos no entanto, fumando preguiçosamente, continuava
a fallar na Gouvarinho e n'essa brusca saciedade
que o invadira, mal trocara com ella tres palavras
n'uma sala. E não era a primeira vez que
tinha d'estes falsos arranques de desejo, vindo quasi
com as formas do amor, ameaçando absorver, pelo
menos por algum tempo, todo o seu ser, e resolvendo-se
em tedio, em «secca». Eram como os fogachos
de polvora sobre uma pedra; uma fagulha atêa-os,
n'um momento tornam-se chamma vehemente que parece
que vae consumir o Universo, e por fim fazem
apenas um rastro negro que suja a pedra. Seria o
seu um d'esses corações de fraco, molles e
flaccidos,
que não podem conservar um sentimento, o deixam
fugir, escoar-se pelas malhas lassas do tecido relles?
—Sou um ressequido! disse elle sorrindo. Sou um
impotente de sentimento, como Satanaz... Segundo
os padres da Egreja, a grande tortura de Satanaz é
que não póde amar...
—Que phrases essas, menino! murmurou Ega.
Como phrases? Era uma atroz realidade! Passava
a vida a ver as paixões falharem-lhe nas mãos
como
phosphoros. Por exemplo, com a coronela de hussards
em Vienna! Quando ella faltou ao primeiro
rendez-vous,
chorara lagrimas como punhos, com a cabeça
enterrada no travesseiro e aos coices á roupa. E d'ahi
a duas semanas, mandava postar o Baptista á janella
do hotel, para elle se safar, mal a pobre coronela
dobrasse a esquina! E com a hollandeza, com Madame
Rughel, peior ainda. Nos primeiros dias foi uma
insensatez: queria-se estabelecer para sempre na
Hollanda, casar com ella (apenas ella se divorciasse),
outras loucuras; depois os braços que ella lhe deitava
ao pescoço, e que lindos braços, pareciam-lhe
pesados
como chumbo...
—Passa fóra, pedante! E ainda lhe escreves! gritou
Ega.
—Isso é outra cousa. Ficamos amigos, puras
relações
de intelligencia. Madame Rughel é uma mulher
de muito espirito. Escreveu um romance, um d'esses
estudos intimos e delicados, como os de Miss Brougthon:
chama-se as
Rosas Murchas. Eu nunca
li, é
em hollandez...
—As
Rosas Murchas! em
hollandez! exclamou
Ega apertando as mãos na cabeça.
Depois vindo plantar-se diante de Carlos, de monocolo
no olho:
—Tu és extraordinario, menino!... Mas o teu
caso é simples, é o caso de D. Juan. D. Juan
tambem
tinha essas alternações de chamma e cinza. Andava
á busca do seu ideal, da
sua
mulher, procurando-a
principalmente, como de justiça, entre as mulheres
dos outros. E
après avoir
couché, declarava que se
tinha enganado, que não era aquella. Pedia desculpa
e retirava-se. Em Hespanha experimentou assim mil
e tres. Tu és simplesmente, como elle, um devasso;
e has de vir a acabar desgraçadamente como elle,
n'uma tragedia infernal!
Esvasiou outro copo de
Champagne, e
a grandes
passadas pela sala:
—Carlinhos da minha alma, é inutil que ninguem
ande á busca da
sua
mulher. Ella virá. Cada um tem
a
sua mulher, e necessariamente tem
de a encontrar.
Tu estás aqui, na Cruz dos Quatro Caminhos, ella
está talvez em Pekin: mas tu, ahi a raspar o meu
reps com o verniz dos sapatos, e ella a orar no templo
de Confucio, estaes ambos insensivelmente, irresistivelmente,
fatalmente, marchando um para o
outro!... Estou eloquentissimo hoje, e temos dito
cousas idiotas. Toca a vestir. E, em quanto eu adorno
a carcassa, prepara mais phrases sobre Satanaz!
Carlos ficou na sala verde, acabando o charuto—em
quanto dentro o Ega batia com as gavetas, lançando,
a todo o desafinado da sua voz roufenha, a
Barcarolla de Gounod. Quando
appareceu, vinha de
casaca, gravata branca, enfiando o paletot—com o
olho brilhante do
Champagne.
Desceram. O pagem lá estava á porta perfilado,
ao pé do coupé de Carlos, que esperara. E a sua
fardeta
azul de botões amarellos, a magnifica parelha
baia reluzindo como um setim vivo, as pratas dos arreios,
a magestade do cocheiro louro com o seu ramo
na libré, tudo alli fazia, junto da «Villa
Balzac», um
quadro rico que deleitou o Ega.
—A vida é agradavel, disse elle.
O coupé partiu, ia entrar no largo da Graça,
quando uma caleche de praça, aberta, o cruzou a
largo trote. Dentro um sujeito de chapéo baixo ía
lendo um grande jornal.
—É o Craft! gritou Ega, debruçando-se pela
portinhola.
O coupé parou. Ega de um pulo estava na calçada,
correndo, bradando:
—Oh Craft! oh Craft!
Quando, d'ahi a um momento, sentiu duas vozes
approximarem-se, Carlos desceu tambem do coupé,
achou-se em face d'um homem baixo, louro, de pelle
rosada e fresca, e apparencia fria. Sob o fraque correcto
percebia-se-lhe uma musculatura de athleta.
—O Carlos, o Craft, gritou o Ega, lançando esta
apresentação com uma simplicidade classica.
Os dois homens, sorrindo, tinham-se apertado a
mão. E Ega insistia para que voltassem todos á
Villa
Balzac, fossem beber a outra garrafa de
Champagne,
a celebrar o
advento do Justo! Craft
recusou, com o
seu modo calmo e placido; chegara na vespera do
Porto, abraçara já o nobre Ega, e aproveitava
agora
a viagem áquelle bairro longinquo para ir vêr o
velho
Shlegen, um allemão que vivia á Penha de
França.
—Então outra cousa! exclamou Ega. Para conversarmos,
para que vocês se conheçam mais, venham
vocês jantar comigo amanhã ao Hotel Central. Dito,
hein? Perfeitamente. Ás seis.
Apenas o coupé partiu de novo, Ega rompeu nas
costumadas admirações pelo Craft, encantado com
aquelle
encontro que dava mais um retoque luminoso
á sua alegria. O que o enthusiasmava no Craft
era aquelle ar imperturbavel de gentleman correcto,
com que elle egualmente jogaria uma partida de bilhar,
entraria n'uma batalha, arremetteria com uma
mulher, ou partiria para a Patagonia...
—É das melhores cousas que tem Lisboa. Vaes-te
morrer por elle... E que casa que elle tem nos Olivaes,
que sublime bric-a-brac!
Subitamente estacou, e com um olhar inquieto, uma
ruga na testa:
—Como diabo soube elle da
Villa
Balzac?
—Tu não fazes segredo d'ella, hein?
—Não... Mas tambem não a puz nos annuncios! E
o Craft chegou hontem, ainda não esteve com ninguem
que eu conheça... É curioso!
—Em Lisboa sabe-se tudo...
—Canalha de terra! murmurou Ega.
O jantar no Central foi addiado, porque o Ega, alargando
pouco a pouco a idéa, convertera-o agora n'uma
festa de ceremonia em honra do Cohen.
—Janto lá muitas vezes, disse elle a Carlos, estou
lá todas as noites... É necessario repagar a
hospitalidade...
Um jantar no Central é o que basta. E
para o effeito moral, pespego-lhe á meza o marquez
e a besta do Steinbroken. O Cohen gosta de gente
assim...
Mas o plano teve ainda de ser alterado: o marquez
partira para a Gollegã, e o pobre Steinbroken estava
soffrendo d'um incommodo de entranhas. Ega pensou
no Cruges e no Taveira—mas receiou a cabelleira
desleixada do Cruges, e alguns dos seus ataques de
amargo
spleen que estragaria o
jantar. Terminou por
convidar dois intimos do Cohen; mas teve então de
supprimir o Taveira, que estava de mal com um d'esses
cavalheiros por palavras que tinham trocado em casa
da «Lola gorda».
Decididos os convidados, fixado o jantar para uma
segunda feira, Ega teve uma conferencia com o
maitre de hotel do Central, em que
lhe recommendou
muita flôr, dois ananazes para enfeitar a meza, e exigiu
que um dos pratos do
menu, qualquer
d'elles,
fosse
à la Cohen; e elle
mesmo suggeriu uma idéa:
tomates farcies à la
Cohen...
N'essa tarde, ás seis horas, Carlos, ao descer a
rua do Alecrim para o Hotel Central, avistou Craft
dentro da loja de bric-a-brac do tio Abrahão.
Entrou. O velho judeo, que estava mostrando a
Craft uma falsa faiença do Rato, arrancou logo da
cabeça o sujo barrete de borla, e ficou curvado em
dois, diante de Carlos, com as duas mãos sobre o
coração.
Depois, n'uma linguagem exotica, misturada d'inglez,
pediu ao seu bom senhor D. Carlos da Maia,
ao seu digno senhor, ao seu
beautiful
gentleman, que
se dignasse examinar uma maravilhasinha que lhe
tinha reservada; e o seu muito
generous
gentleman
tinha só a voltar os olhos, a maravilhasinha estava
alli ao lado, n'uma cadeira. Era um retrato d'hespanhola,
apanhado a fortes brochadellas de primeira
impressão, e pondo, sobre um fundo audaz de côr de
rosa murcha, uma face gasta de velha garça, picada
das bexigas, caiáda, ressudando vicio, com um sorriso
bestial que promettia tudo.
Carlos, tranquillamente, offereceu dez tostões. Craft
pasmou d'uma tal prodigalidade; e o bom Abrahão,
n'um riso mudo que lhe abria entre a barba grisalha
uma grande boca d'um só dente, saboreou muito a
«chalaça dos seus ricos senhores.» Dez
tostõesinhos!
Se o quadrinho tivesse por baixo o nomesinho de
Fortuny, valia dez continhos de réis. Mas não
tinha
esse nomesinho bemdito... Ainda assim valia dez
notasinhas de vinte mil réis...
—Dez cordas para te enforcar, hebreu sem alma!
exclamou Carlos.
E sahiram, deixando o velho intrujão á porta,
curvado em dois, com as mãos sobre o
coração, desejando
mil felicidades aos seus generosos fidalgos...
—Não tem uma unica cousa boa, este velho
Abrahão,
disse Carlos.
—Tem a filha, disse o Craft.
Carlos achava-a bonita, mas horrivelmente suja.
Então, a proposito do Abrahão, fallou a Craft
d'essas
bellas collecções dos Olivaes, que o Ega, apesar
do
desdem que affectava pelo
bibelot e
pelo movel d'arte,
lhe descrevera como sublimes.
Craft encolheu os hombros.
—O Ega não entende nada. Mesmo em Lisboa,
não se póde chamar ao que eu tenho uma
collecção.
É um bric-a-brac d'acaso... De que, de resto, me
vou desfazer!
Isto surprehendeu Carlos. Comprehendera das palavras
do Ega ser essa uma collecção formada com
amor, no laborioso decurso de annos, orgulho e cuidado
d'uma existencia de homem...
Craft sorrio d'aquella legenda. A verdade era que
só em 1872, elle começara a interessar-se pelo
bric-a-brac;
chegava então da America do Sul; e o que
fora comprando, descobrindo aqui e além, accumulara-o
n'essa casa dos Olivaes, alugada então por
phantasia, uma manhã que aquelle pardieiro, com o
seu bocado de quintal em redor, lhe parecera pittoresco,
sob o sol de abril. Mas agora se podesse desfazer-se
do que tinha, ia dedicar-se então a formar
uma collecção homogenea e compacta d'arte do
seculo
desoito.
—Aqui nos Olivaes?
—Não. N'uma quinta que tenho ao pé do Porto,
junto mesmo ao rio.
Entravam então no peristilo do Hotel Central—e
n'esse momento um coupé da Companhia, chegando
a largo trote do lado da rua do Arsenal, veiu estacar
á porta.
Um esplendido preto, já grisalho, de casaca e
calção,
correu logo á portinhola; de dentro um rapaz
muito magro, de barba muito negra, passou-lhe para
os braços uma deliciosa cadelinha escosseza, de pellos
esguedelhados, finos como seda e côr de prata; depois
apeando-se, indolente e
poseur,
offereceu a mão
a uma senhora alta, loura, com um meio véo muito
apertado e muito escuro que realçava o explendor
da sua carnação eburnea. Craft e Carlos
affastaram-se,
ella passou diante d'elles, com um passo soberano
de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atraz
de si como uma claridade, um reflexo de cabellos
d'ouro, e um aroma no ar. Trazia um casaco collante
de velludo branco de Genova, e um momento sobre
as lages do peristillo brilhou o verniz das suas bottinas.
O rapaz ao lado, esticado n'um fato de xadresinho
inglez, abria negligentemente um telegramma;
o preto seguia com a cadelhinha nos braços. E no silencio
a voz de Craft murmurou:
—
Trés chic.
Em cima, no gabinete que o creado lhes indicou,
Ega esperava, sentado no divan de marroquim, e conversando
com um rapaz baixote, gordo, frisado como
um noivo de provincia, de camelia ao peito e plastron
azul celeste. O Craft conhecia-o; Ega apresentou a
Carlos o sr. Damaso Salcêde, e mandou servir vermouth,
por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse
requinte litterario e satanico do
absintho...
Fôra um dia d'inverno suave e luminoso, as duas
janellas estavam ainda abertas. Sobre o rio, no céu
largo, a tarde morria, sem uma aragem, n'uma paz
elysea, com nuvensinhas muito altas, paradas, tocadas
de côr de rosa; as terras, os longes da outra
banda já se iam affogando n'um vapor avelludado, do
tom de violeta; a agoa jazia liza e luzidia como uma
bella chapa d'aço novo; e aqui e alem, pelo vasto
ancoradouro,
grossos navios de carga, longos paquetes
estrangeiros, dois couraçados inglezes, dormiam, com
as mastreações immoveis, como tomados de
preguiça,
cedendo ao affago do clima doce...
—Vimos agora lá em baixo, disse Craft indo sentar-se
no divan, uma esplendida mulher, com uma
esplendida cadellinha
griffon, e
servida por um esplendido
preto!
O sr. Damaso Salcêde, que não despegava os olhos
de Carlos, acudiu logo:
—Bem sei! Os Castro Gomes... Conheço-os muito...
Vim com elles de Bordeus... Uma gente muito
chic que vive em Paris.
Carlos voltou-se, reparou mais n'elle, perguntou-lhe,
affavel e interessando-se:
—O senhor Salcêde chegou agora de Bordeus?
Estas palavras pareceram deleitar Damaso como
um favor celeste: ergueu-se immediatamente, approximou-se
do Maia, banhado n'um sorriso:
—Vim aqui ha quinze dias, no
Orenoque. Vim de
Paris... Que eu em podendo é lá que me pilham!
Esta gente conheci-a em Bordeus. Isto é, verdadeiramente
conheci-a a bordo. Mas estavamos todos no
Hotel de Nantes... Gente
muito chic: creado de
quarto, governanta ingleza para a filhita, femme de
chambre, mais de vinte malas... Chic a valer! Parece
incrivel, uns brazileiros... Que ella na voz não
tem
sutaque nenhum, falla como
nós. Elle sim, elle
muito
sutaque... Mas elegante
tambem, v. ex.
a não
lhe pareceu?
—Vermouth? perguntou-lhe o creado, offerecendo
a salva.
—Sim, uma gotinha para o appetite. V. ex.
a
não
toma, sr. Maia? Pois eu, assim que posso, é direitinho
para Paris! Aquillo é que é terra! Isto aqui
é
um chiqueiro... Eu, em não indo lá todos os
annos,
acredite v. Ex.
a, até
começo a andar doente.
Aquelle
boulevarsinho, hein!... Ai, eu goso
aquillo!... E
sei gosar, sei gosar, que eu conheço aquillo a palmo...
Tenho até um tio em Paris.
—E que tio! exclamou Ega, approximando-se. Intimo
do Gambetta, governa a França... O tio do Damaso
governa a França, menino!
Damaso, escarlate, estourava de gôso.
—Ah, lá isso influencia tem. Intimo do Gambetta,
tratam-se por tu, até vivem quasi juntos... E não
é
só com o Gambetta; é com o Mac-Mahon, com o
Rochefort,
com o outro de que me esquece agora o
nome, com todos os republicanos, emfim!... É tudo
quanto elle queira. V. ex.
a não o
conhece? É um
homem
de barbas brancas... Era irmão de minha mãe,
chama-se Guimarães. Mas em Paris chamam-lhe Mr.
de Guimaran...
N'esse momento a porta envidraçada abriu-se de
golpe, Ega exclamou: «Saude ao poeta»!
E appareceu um individuo muito alto, todo abotoado
n'uma sobrecasaca preta, com uma face escaveirada,
olhos encovados, e sob o nariz aquilino, longos,
espessos, romanticos bigodes grisalhos: já todo
calvo na frente, os anneis fôfos d'uma grenha muito
secca cahiam-lhe inspiradamente sobre a golla: e em
toda a sua pessoa havia alguma cousa de antiquado,
de artificial e de lugubre.
Estendeu silenciosamente dous dedos ao Damaso,
e abrindo os braços lentos para Craft, disse n'uma
voz arrastada, cavernosa, atheatrada:
—Então és tu, meu Craft! Quando chegaste tu,
rapaz?
Dá-me cá esses ossos honrados, honrado inglez!
Nem um olhar dera a Carlos. Ega adiantou-se,
apresentou-os:
—Não sei se são relações.
Carlos da Maia... Thomaz
d'Alencar, o nosso poeta...
Era elle! o illustre cantor das
Vozes
d'Aurora, o
estylista de
Elvira, o dramaturgo do
Segredo do Commendador.
Deu dois passos graves para Carlos, esteve-lhe
apertando muito tempo a mão em silencio—e
sensibilisado, mais cavernoso:
—V. Ex.
a, já que as etiquetas
sociaes querem que
eu lhe dê excellencia, mal sabe a quem apertou agora
a mão...
Carlos, surprehendido, murmurou:
—Eu conheço muito de nome...
E o outro com o olho cavo, o labio tremulo:
—Ao camarada, ao inseparavel, ao intimo de Pedro
da Maia, do meu pobre, do meu valente Pedro!
—Então, que diabo, abracem-se! gritou Ega.
Abracem-se, com um berro, segundo as regras...
Alencar já tinha Carlos estreitado ao peito, e quando
o soltou, retomando-lhe as mãos, sacudindo-lh'as, com
uma ternura ruidosa:
—E deixemo-nos já de excellencias! que eu vi-te
nascer, meu rapaz! trouxe-te muito ao collo! sujaste-me
muita calça! Co'os diabos, dá cá outro
abraço!
Craft olhava estas cousas vehementes, impassivel;
Damaso parecia impressionado; Ega apresentou um
copo de
vermouth ao poeta:
—Que grande scena, Alencar! Jesus, Senhor!
Bebe, para te recuperares da emoção...
Alencar esgotou-o d'um trago: e declarou aos amigos
que não era a primeira vez que via Carlos. Já
o admirara no seu phaeton, muitas vezes, e aos
seus bellos cavallos inglezes. Mas não se quizera dar
a conhecer. Elle nunca se atirava aos braços de ninguem,
a não ser das mulheres... Foi encher outro
calice de
vermouth, e com elle na
mão, plantado diante
de Carlos, começou, n'um tom pathetico:
—A primeira vez que te vi, filho, foi no Pote das
Almas! Estava eu no Rodrigues, esquadrinhando alguma
d'essa velha litteratura, hoje tão despresada...
Lembro-me até que era um volume das
Eclogas do
nosso delicioso Rodrigues Lobo, esse verdadeiro poeta
da natureza, esse rouxinol tão portuguez, hoje,
está
claro, mettido a um canto, desde que para ahi appareceu
o Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo,
e outros esterquilinios em
ismo...
N'esse momento
passaste, disseram-me quem eras, e cahiu-me o livro
da mão... Fiquei alli uma hora, acredita, a pensar,
a rever o passado...
E atirou o
vermouth ás
goellas. Ega, impaciente,
olhava o relogio. Um creado, entrando, accendeu o
gaz; a mesa surgiu da penumbra, com um brilho de
cristaes e louças, um luxo de camelias em ramos.
No entanto Alencar (que á luz viva parecia mais
gasto e mais velho) começara uma grande historia,
e como fôra elle o primeiro que vira Carlos depois
de nascer, e como fôra elle que lhe dera o nome.
—Teu pae, dizia elle, o meu Pedro, queria-te pôr
o nome d'Affonso, d'esse santo, d'esse varão d'outras
edades, Affonso da Maia! Mas tua mãe que tinha lá
as
suas idéas teimou em que havias de ser Carlos. E
justamente por causa d'um romance que eu lhe emprestára;
n'esses tempos podiam-se emprestar romances
a senhoras, ainda não havia a pustula e o
puz... Era um romance sobre o ultimo Stuart, aquelle
bello typo do principe Carlos Eduardo, que vocês,
filhos, conhecem todos bem, e que na Escossia,
no tempo de Luiz XIV... Emfim, adiante! Tua mãe,
devo dizel-o, tinha litteratura e da melhor. Consultou-me,
consultava-me sempre, n'esse tempo eu era
alguem, e lembro-me de lhe ter
respondido... (Lembro-me
apesar de já lá irem vinte e cinco annos...
Que digo eu? Vinte e sete! Vejam vocês isto, filhos,
vinte e sete annos!) Emfim, voltei-me para tua
mãe, e disse-lhe, palavras textuaes: «Ponha-lhe o
nome de Carlos Eduardo, minha rica senhora, Carlos
Eduardo, que é o verdadeiro nome para o frontespicio
d'um poema, para a fama d'um heroismo ou para
o labio d'uma mulher!»
Damaso, que continuava a admirar Carlos, deu
bravos estrondosos; Craft bateu
ligeiramente os dedos;
e o Ega, que rondava a porta, nervoso, de relogio
na mão, soltou de lá um
muito
bem desenxabido.
Alencar, radiante com o seu effeito, derramava em
roda um sorriso que lhe mostrava os dentes estragados.
Abraçou outra vez Carlos, atirou uma palmada
ao coração, exclamou:
—Caramba, filhos, sinto uma luz cá dentro!
A porta abriu-se, o Cohen entrou, todo apressado,
desculpando-se logo da sua demora—emquanto Ega,
que se precipitara para elle, lhe ajudava a despir o
palletot. Depois apresentou-o a Carlos—a unica pessoa
alli de quem o Cohen não era intimo. E dizia,
tocando o botão da campainha electrica:
—O marquez não pôde vir, menino, e o pobre
Steinbroken, coitado, está com a sua gôtta, a
gôtta de
diplomata, de lord e de banqueiro... A gôtta que
tu has de ter, velhaco!
Cohen, um homem baixo, apurado, de olhos bonitos,
e suissas tão pretas e luzidias que pareciam
ensopadas em verniz, sorria, descalçando as luvas,
dizendo, que, segundo os inglezes, havia tambem a
gôtta de gente pobre; e era essa naturalmente a que
lhe competia a elle...
Ega, no entanto, travara-lhe do braço, collocara-o
preciosamente á mesa, á sua direita: depois
offereceu-lhe
um botão de camelia d'um ramo: o Alencar
florio-se tambem—e os creados serviram as ostras.
Fallou-se logo do crime da Mouraria, drama fadista
que impressionava Lisboa, uma rapariga com o ventre
rasgado á navalha por uma companheira, vindo
morrer na rua em camisa, dois faias esfaqueando-se,
toda uma viella em sangue—uma
sarrabulhada como
disse o Cohen, sorrindo e provando o Bucellas.
Damaso teve a satisfação de poder dar detalhes;
conhecera a rapariga, a que dera as facadas, quando
ella era amante do visconde da Ermidinha... Se era
bonita? Muito bonita. Umas mãos de duqueza... E
como aquillo cantava o
fado! O peior
era que mesmo
no tempo do visconde, quando ella era chic, já se
empiteirava... E o visconde, honra lhe seja, nunca
lhe perdera a amisade; respeitava-a, mesmo depois
de casado ía vel-a, e tinha-lhe promettido que se ella
quizesse deixar o
fado lhe punha uma
confeitaria
para os lados da Sé. Mas ella não queria. Gostava
d'aquillo, do Bairro Alto, dos cafés de
lepes,
dos chulos...
Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos
merecer um estudo, um romance... Isto levou logo
a fallar-se do
Assommoir, de Zola e
do realismo:—e
o Alencar immediatmente, limpando os bigodes dos
pingos de sôpa, supplicou que se não discutisse,
á
hora aceada do jantar, essa litteratura
latrinaria. Alli
todos eram homens d'aceio, de sala, hein? Então, que
se não mencionasse o
excremento!
Pobre Alencar! O naturalismo; esses livros poderosos
e vivazes, tirados a milhares de edições; essas
rudes analyses, apoderando-se da Egreja, da Realeza,
da Bureocracia, da Finança, de todas as cousas santas,
dissecando-as brutalmente e mostrando-lhes a lesão,
como a cadaveres n'um amphitheatro; esses estylos
novos, tão precisos e tão ducteis, apanhando em
flagrante
a linha, a côr, a palpitação mesma da
vida;
tudo isso (que elle, na sua confusão mental, chamava
a
Idéa nova) caindo assim
de chofre e escangalhando
a cathedral romantica, sob a qual tantos annos elle
tivera altar e celebrara missa, tinha desnorteado
o pobre Alencar e tornara-se o desgosto litterario
da sua velhice. Ao principio reagiu. «Para pôr um
dique definitivo á torpe maré», como
elle disse em
plena Academia, escreveu dois folhetins crueis; ninguem
os leu; a «maré torpe» alastrou-se, mais
profunda,
mais larga. Então Alencar refugiou-se na
moralidade
como n'uma rocha solida. O naturalismo, com
as suas alluviões de obscenidade, ameaçava
corromper
o pudor social? Pois bem. Elle, Alencar, seria o
paladino da Moral, o gendarme dos bons costumes.
Então o poeta das
Vozes
d'Aurora, que durante vinte
annos, em cançoneta e ode, propozera commercios
lubricos a todas as damas da capital; então o romancista
de
Elvira que, em novella e drama,
fizera a propaganda
do amor illegitimo, representando os deveres
conjugaes como montanhas de tedio, dando a todos
os maridos formas gordurosas e bestiaes, e a todos
os amantes a belleza, o esplendor e o genio dos antigos
Apollos; então Thomaz Alencar que (a acreditarem-se
as confissões autobiographicas da
Flôr de
Martyrio) passava elle proprio uma existencia medonha
de adulterios, lubricidades, orgias, entre velludos
e vinhos de Chypre—d'ora em diante austero,
incorruptivel, todo elle uma torre de pudicicia, passou
a vigiar attentamente o jornal, o livro, o theatro. E
mal lobrigava symptomas nascentes de realismo n'um
beijo que estalava mais alto, n'uma brancura de saia
que se arregaçava de mais—eis o nosso Alencar que
soltava por sobre o paiz um grande grito de alarme,
corria á penna, e as suas imprecações
lembravam (a
academicos faceis de contentar) o rugir de Isaias. Um
dia porém, Alencar teve uma d'estas
revelações que
prostram os mais fortes; quanto mais elle denunciava
um livro como immoral, mais o livro se vendia como
agradavel! O Universo pareceu-lhe cousa torpe, e o
auctor de
Elvira encavacou...
Desde então reduziu a expressão do seu rancor ao
minimo, a essa phrase curta, lançada com nojo:
—Rapazes, não se mencione o
excremento!
Mas n'essa noite teve o regosijo de encontrar alliados.
Craft não admittia tambem o naturalismo, a realidade
feia das cousas e da sociedade estatelada
nua n'um livro. A arte era uma idealisação! Bem:
então que mostrasse os typos superiores d'uma humanidade
aperfeiçoada, as fórmas mais bellas do viver
e do sentir... Ega horrorisado apertava as mãos
na cabeça—quando do outro lado Carlos declarou
que o mais intoleravel no realismo eram os seus grandes
ares scientificos, a sua pretenciosa esthetica deduzida
d'uma philosophia alheia, e a invocação de
Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo,
de Stuart Mill e de Darwin, a proposito d'uma lavadeira
que dorme com um carpinteiro!
Assim atacado, entre dois fogos, Ega trovejou: justamente
o fraco do realismo estava em ser ainda
pouco scientifico, inventar enredos, crear dramas,
abandonar-se á phantasia litteraria! a fórma pura
da
arte naturalista devia ser a monographia, o estudo
secco d'um typo, d'um vicio, d'uma paixão, tal qual
como se se tratasse d'um caso pathologico, sem pittoresco
e sem estylo!...
—Isso é absurdo, dizia Carlos, os caracteres só
se podem manifestar pela acção...
—E a obra d'arte, accrescentou Craft, vive apenas
pela fórma...
Alencar interrompeu-os, exclamando que não eram
necessarias tantas philosophias.
—Vocês estão gastando cêra com ruins
defuntos,
filhos. O realismo critica-se d'este modo: mão no
nariz! Eu quando vejo um d'esses livros, enfrasco-me
logo em agua de colonia. Não discutamos o
excremento.
—
Sole normande? perguntou-lhe o
creado, adiantando
a travessa.
Ega ía fulminal-o. Mas, vendo que o Cohen dava um
sorriso enfastiado e superior a estas controversias de
litteraturas, calou-se; occupou-se só d'elle, quiz saber
que tal elle achava aquelle S.
t Emilion; e,
quando
o viu confortavelmente servido de
sole
normande, lançou
com grande alarde de interesse esta pergunta:
—Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos
cá... O
emprestimo faz-se ou não se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que
aquella questão do emprestimo era grave. Uma
operação
tremenda, um verdadeiro episodio historico!...
O Cohen collocou uma pitada de sal á beira do
prato, e respondeu, com auctoridade, que o emprestimo
tinha de se realisar
absolutamente.
Os emprestimos
em Portugal constituiam hoje uma das fontes de
receita, tão regular, tão indispensavel,
tão sabida como
o imposto. A unica occupação mesmo dos
ministerios
era esta—
cobrar o imposto e
fazer o emprestimo. E
assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe
que, d'esse modo, o paiz ia alegremente e lindamente
para a
banca-rota.
—N'um galopesinho muito seguro e muito a direito,
disse o Cohen, sorrindo. Ah, sobre isso,
ninguem
tem illusões, meu caro senhor. Nem os proprios
ministros da fazenda!... A
banca-rota é inevitavel:
é como quem faz uma somma...
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira,
hein! E todos escutavam o Cohen. Ega, depois
de lhe encher o calice de novo, fincara os cotovellos
na meza para lhe beber melhor as palavras.
—A
banca-rota é
tão certa, as cousas estão tão
dispostas para ella—continuava o Cohen—que seria
mesmo facil a qualquer, em dois ou tres annos,
fazer fallir o paiz...
Ega gritou sofregamente pela
receita. Simplesmente
isto: manter uma agitação revolucionaria
constante;
nas vesperas de se lançarem os emprestimos
haver duzentos maganões decididos que cahissem á
pancada na municipal e quebrassem os candieiros
com vivas á Republica; telegraphar isto em letras
bem gordas para os jornaes de Paris, Londres e do
Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brazileiro,
e a
banca-rota estalava.
Sómente, como elle
disse, isto não convinha a ninguem.
Então Ega protestou com vehemencia. Como não
convinha a ninguem? Ora essa! Era justamente o
que convinha a todos! Á
banca-rota seguia-se uma
revolução, evidentemente. Um paiz que vive da
inscripção,
em não lh'a pagando, agarra no cacete; e
procedendo por principio, ou procedendo apenas por
vingança—o primeiro cuidado que tem é varrer a
monarchia que lhe representa o
calote, e com ella o
crasso pessoal do constitucionalismo. E passada a
crise, Portugal livre da velha divida, da velha gente,
d'essa collecção grotesca de bestas...
A voz do Ega sibillava... Mas, vendo assim tratados
de
grotescos, de
bestas, os homens d'ordem que fazem
prosperar os Bancos, Cohen pousou a mão no
braço do seu amigo e chamou-o ao bom-senso. Evidentemente,
elle era o primeiro a dizel-o, em toda
essa gente que figurava desde 46 havia mediocres e
patetas,—mas tambem homens de grande valor!
—Ha talento, ha saber, dizia elle com um tom de
experiencia. Você deve reconhecel-o, Ega... Você
é
muito exagerado! Não senhor, ha talento, ha saber.
E, lembrando-se que algumas d'essas
bestas eram
amigos do Cohen, Ega reconheceu-lhes talento e saber.
O Alencar porém cofiava sombriamente o bigode.
Ultimamente pendia para idéas radicaes, para
a democracia humanitaria de 1848: por instincto,
vendo o romantismo desacreditado nas letras, refugiava-se
no romantismo politico, como n'um asylo
paralello:
queria uma republica governada por genios,
a fraternisação dos povos, os Estados Unidos da
Europa...
Além d'isso, tinha longas queixas d'esses
politiquotes, agora gente de Poder, outr'ora seus camaradas
de redacção, de café e de
batota...
—Isso, disse elle, lá a respeito de talento e de saber,
historias... Eu conheço-os bem, meu Cohen...
O Cohen acudiu:
—Não senhor, Alencar, não senhor! Você
tambem
é dos taes... Até lhe fica mal dizer isso...
É exageração.
Não senhor, ha talento, ha saber.
E o Alencar, peranta esta intimação do Cohen, o
respeitado
director do
Banco Nacional, o marido
da divina
Rachel, o dono d'essa hospitaleira casa da rua do Ferregial
onde se jantava tão bem, recalcou o despeito—admittiu
que não deixava de haver talento e saber.
Então, tendo assim, pela influencia do seu Banco,
dos bellos olhos da sua mulher e da excellencia do
seu cosinheiro, chamado estes espiritos rebeldes ao
respeito dos Parlamentares e á
veneração da Ordem,
Cohen condescendeu em dizer, no tom mais suave
da sua voz, que o paiz necessitava reformas...
Ega porém, incorrigivel n'esse dia, soltou outra
enormidade:
—Portugal não necessita refórmas, Cohen,
Portugal
o que precisa é a invasão hespanhola.
Alencar, patriota à antiga, indignou-se. O Cohen,
com aquelle sorriso indulgente de homem superior
que lhe mostrava os bonitos dentes, vio alli apenas
«um dos paradoxos do nosso Ega.» Mas o Ega fallava
com seriedade, cheio de razões. Evidentemente,
dizia elle, invasão não significa perda absoluta
de independencia.
Um receio tão estupido é digno só de
uma
sociedade tão estupida como a do
Primeiro
de Dezembro.
Não havia exemplo de seis milhões de habitantes
serem engolidos, de um só trago, por um paiz
que tem apenas quinze milhões de homens. Depois
ninguem consentiria em deixar cahir nas mãos de
Hespanha, nação militar e maritima, esta bella
linha
de costa de Portugal. Sem contar as allianças que teriamos,
a troco das colonias—das colonias que só
nos servem, como a prata de familia aos morgados arruinados,
para ir empenhando em casos de crise...
Não havia perigo; o que nos aconteceria, dada uma
invasão, n'um momento de guerra europea, seria levarmos
uma sova tremenda, pagarmos uma grossa
indemnisação, perdermos uma ou duas provincias,
ver talvez a Galliza estendida até ao Douro...
—
Poulet aux champignons, murmurou o
creado,
apresentando-lhe a travessa.
E em quanto elle se servia, perguntavam-lhe dos
lados onde via elle a
salvação
do paiz, n'essa catastrophe
que tornaria povoação hespanhola Celorico
de Basto, a nobre Celorico, berço de heroes,
berço
dos Egas...
—N'isto: no ressuscitar do espirito publico e do
genio portuguez! Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados,
tinhamos de fazer um esforço desesperado
para viver. E em que bella situação nos
achavamos!
Sem monarchia, sem essa caterva de politicos, sem
esse tortulho da
inscripção,
porque tudo desapparecia,
estavamos novos em folha, limpos, escarollados,
como se nunca tivessemos servido. E recomeçava-se
uma historia nova, um outro Portugal, um Portugal
serio e intelligente, forte e decente, estudando, pensando,
fazendo civilisação como outr'ora... Meninos,
nada regenera uma nação como uma medonha
tarêa...
Oh Deus d'Ourique, manda-nos o castelhano! E você,
Cohen, passe-me o S.
t Emilion.
Agora, n'um rumor animado, discutia-se a invasão.
Ah, podia-se fazer uma bella resistencia! Cohen
affiançava o dinheiro. Armas, artilheria, iam comprar-se
á America—e Craft offereceu logo a sua
collecção
de espadas do seculo XVI. Mas generaes? Alugavam-se.
Mac-Mahon, por exemplo, devia estar barato...
—O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou
Ega.
—Ás ordens, meu coronel.
—O Alencar, continuava Ega, é encarregado de
ir despertar pela provincia o patriotismo, com cantos
e com odes!
Então o poeta, pousando o calice, teve um movimento
de leão que sacode a juba:
—Isto é uma velha carcassa, meu rapaz, mas não
está só para odes! Ainda se agarra uma
espingarda,
e como a pontaria é boa, ainda vão a terra um par
de gallegos... Caramba, rapazes, só a idéa
d'essas
cousas me põe o coração negro! E como
vocés podem
fallar n'isso, a rir, quando se trata do paiz, d'esta
terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja má, de
accordo, mas, caramba! é a unica que temos, não
temos
outra! É aqui que vivemos, é aqui que
rebentamos...
Irra, fallemos d'outra cousa, fallemos de
mulheres!
Dera um repellão ao prato, os olhos humedeciam-se-lhe
de paixão patriotica...
E no silencio que se fez Damaso, que desde as
informações
sobre a rapariga do Ermidinha emmudecera,
occupado a observar Carlos com religião, ergueu
a voz pausadamente, disse, com um ar de bom
senso e de finura:
—Se as cousas chegassem a esse ponto, se pozessem
assim feias, eu cá, á cautela, ía-me
raspando
para Paris...
Ega triumphou, pulou de gosto na cadeira. Eis alli,
no labio synthetico de Damaso, o grito espontaneo e
genuino do brio portuguez! Raspar-se, pirar-se!...
Era assim que d'alto a baixo pensava a sociedade
de Lisboa, a malta constitucional, desde El-Rei nosso
Senhor até aos cretinos de secretaria!...
—Meninos, ao primeiro soldado hespanhol que
appareça á fronteira, o paiz em massa foge como
uma lebre! Vae ser uma debandada unica na historia!
Houve uma indignação, Alencar gritou:
—Abaixo o traidor!
Cohen interveiu, declarou que o soldado portuguez
era valente, á maneira dos turcos—sem disciplina,
mas teso. O proprio Carlos disse, muito serio:
—Não senhor... Ninguem ha de fugir, e ha de
se morrer bem.
Ega rugiu. Para quem estavam elles fazendo essa
pose heroica? Então
ignoravam que esta raça, depois
de cincoenta annos de constitucionalismo, creada por
esses saguões da Baixa, educada na piolhice dos lyceus,
roída de syphlis, apodrecida no bolôr das
secretarias,
arejada apenas ao domingo pela poeira do
Passeio, perdera o musculo como perdera o caracter,
e era a mais fraca, a mais covarde raça da Europa?...
—Isso são os lisboetas, disse Craft.
—Lisboa é Portugal, gritou o outro. Fóra de
Lisboa
não ha nada. O paiz está todo entre a Arcada e
S. Bento!...
A mais miseravel raça da Europa! continuava
elle a berrar. E que exercito! Um regimento, depois
de dois dias de marcha, dava entrada em massa no
hospital! Com seus olhos tinha elle visto, no dia da
abertura das Côrtes, um marujo sueco, um rapagão
do Norte, fazer debandar, a soccos, uma companhia
de soldados; as praças tinham litteralmente largado
a fugir, com a patrona a batter-lhe os rins; e o official,
enfiado de terror, metteu-se para uma escada,
a vomitar!...
Todos protestaram. Não, não era possivel... Mas
se elle tinha visto, que diabo!... Pois sim, talvez,
mas com os olhos fallazes da phantasia...
—Juro pela saude da mamã! gritou Ega furioso.
Mas emmudeceu. O Cohen tocara-lhe no braço. O
Cohen ía fallar.
O Cohen queria dizer que o futuro pertence a
Deus. Que os hespanhoes porém pensassem na
invasão
isso parecia-lhe certo—sobretudo se viessem,
como era natural, a perder Cuba. Em Madrid todo o
mundo lh'o dissera. Já havia mesmo negocios de fornecimentos
entabolados...
—Hespanholadas, gallegadas! rosnou Alencar, por
entre dentes, sombrio e torcendo os bigodes.
—No
Hotel de Paris, continuou Cohen, em
Madrid,
conheci eu um magistrado, que me disse com
um certo ar que não perdia a esperança de se vir
estabelecer de todo em Lisboa; tinha-lhe agradado
muito Lisboa, quando cá estivera a banhos. E em
quanto a mim, estou que ha muitos hespanhoes que
estão á espera d'este augmento de territorio para
se empregarem!
Então Ega cahiu em extasi, apertou as mãos contra
o peito. Oh que delicioso traço! Oh que admiravelmente
observado!
—Este Cohen! exclamava elle para os lados. Que
finamente observado! Que traço adoravel! Hein, Craft?
Hein, Carlos? Delicioso!
Todos cortezmente admiraram a finura do Cohen.
Elle agradecia, com o olho enternecido, passando pelas
suissas a mão onde reluzia um diamante. E n'esse
momento os creados serviam um prato de ervilhas
n'um molho branco, murmurando:
—
Petits pois a la Cohen.
A la Cohen? Cada um verificou o seu
menu mais
attentamente. E lá estava, era o legume:
petits pois
a la Cohen! Damaso, enthusiasmado, declarou isto
«chic a valer!» E fez-se, com o Champagne que se
abria, a primeira saude ao Cohen!
Esquecera-se a banca rota, a invasão, a patria—o
jantar terminava alegremente. Outras
saudes crusaram-se,
ardentes e loquazes: o proprio Cohen, com
o sorriso de quem cede a um capricho de creança,
bebeu á Revolução e á
Anarchia, brinde complicado,
que o Ega erguera, já com o olho muito brilhante.
Sobre a toalha, a sobremeza alastrava-se, destroçada;
no prato do Alencar as pontas de cigarros misturavam-se
a bocados de ananaz mastigado. Damaso,
todo debruçado sobre Carlos, fazia-lhe o elogio da parelha
ingleza, e d'aquelle
phaeton que era
a cousa
mais linda que passeiava Lisboa. E logo depois do
seu brinde de demagogo, sem razão, Ega arremettera
contra Craft, injuriando a Inglaterra, querendo excluil-a
d'entre as nações pensantes,
ameaçando-a de
uma revolução social que a ensoparia em sangue: o
outro respondia com acenos de cabeça, imperturbavel,
partindo nozes.
Os creados serviram o café. E como havia já tres
longas horas que estavam á meza, todos se ergueram,
acabando os charutos, conversando, na animação
viva que dera o
Champagne. A sala,
de tecto
baixo, com os cinco bicos de gaz ardendo largamente,
enchera-se de um calor pesado, onde se ia espalhando
agora o aroma forte das chartreuses e dos licores
por entre a nevoa alvadia do fumo.
Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para
a varanda; e ahi recomeçou logo, n'aquella communidade
de gostos que os começava a ligar, a conversa
da rua do Alecrim sobre a bella collecção dos
Olivaes.
Craft dava detalhes; a cousa rica e rara que
tinha era um armario hollandez do seculo XVI; de
resto, alguns bronzes, faianças e boas armas...
Mas ambos se voltaram ouvindo, no grupo dos outros,
junto á meza, estridencias de voz, e como um
conflicto que rompia: Alencar, sacudindo a grenha,
gritava contra a
palhada
philosophica; e do outro
lado, com o calice de cognac na mão, Ega, pallido e
affectando uma tranquillidade superior, declarava toda
essa babuge lyrica que por ahi se publica digna da
policia correccional...
—Pegaram-se outra vez, veiu dizer Damaso a Carlos,
approximando-se da varanda. É por causa do
Craveiro. Estão ambos divinos!
Era com effeito a proposito de poesia moderna, de
Simão Craveiro, do seu poema a
Morte de
Satanaz.
Ega estivera citando, com enthusiasmo, estrophes do
episodio da
Morte, quando o grande
esqueleto symbolico
passa em pleno sol no Boulevard, vestido como
uma cocotte, arrastando sedas rumorosas