—Dizem que não, que sou triste, que tenho
spleen...
O olhar de Carlos seguira o d'ella, pousara-se na
botina de verniz que calçava delicadamente um pé
fino e comprido: Charlie, entretido, mexia nas teclas
do piano—e elle baixou a voz para lhe dizer:
—É que a senhora condessa tem um mau regimen.
É necessario tratar-se, voltar aqui, consultar-me...
Tenho talvez muito que lhe dizer!
Ella interrompeu-o vivamente, erguendo para elle
os olhos, d'onde se escapou um clarão de ternura
e de triumpho:
—Venha-m'o antes dizer um d'estes dias, tomar
chá comigo, ás cinco horas... Charlie!
O pequeno veiu logo dependurar-se-lhe do braço.
Carlos, acompanhando-a abaixo á rua, lamentava a
fealdade da sua escada de pedra:
—Mas vou mandar tapetar tudo para quando a senhora
condessa volte a dar-me a honra de me vir
consultar...
Ella gracejou, toda risonha:
—Ah não! O sr. Carlos da Maia prometteu-nos a
todos a saude... E naturalmente não espera que seja
eu que venha cá tomar chá comsigo...
—Oh, minha senhora, eu quando começo a esperar,
não ponho limites nenhuns ás minhas
esperanças...
Ella parou, com o pequeno pela mão, olhou para
elle, como pasmada, encantada com aquella grandiosa
certeza de si mesmo.
—Então vae por ahi além, por ahi
além...?
—Vou por ahi além, por ahi além, minha senhora!
Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e
do rumor da rua.
—Mande-me chegar um coupé.
Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lançou logo a tipoia.
—E agora, disse ella sorrindo, mande-o ir á egreja
da Graça.
—A senhora condessa vai beijar o pé do Senhor
dos Passos?
Ella corou de leve, murmurou:
—Ando fazendo as minhas devoções...
Depois saltou ligeiramente para o coupé—deixando
Charlie, que Carlos ergueu nos braços e lhe collocou
ao lado, paternalmente.
—Que Deus a leve em sua santa guarda, senhora
condessa!
Ella agradeceu com um olhar, um movimento de
cabeça—ambos tão doces como caricias.
Carlos subio: e, sem tirar o chapéo, ficou ainda
enrolando uma cigarrette, passeando n'aquella sala
sempre deserta, sempre fria, onde ella deixara agora
alguma cousa do seu calor e do seu aroma...
Realmente gostava d'aquella audacia d'ella—ter
vindo assim ao consultorio, toda escondida, quasi
mascarada n'uma grande toilette negra, inventando
um caroço no pescocinho são de Charlie, para o
vêr,
para dar um nó brusco e mais apertado n'aquelle
leve fio de relações que elle tão
negligentemente
deixara cahir e quebrar...
O Ega d'esta vez não phantasiara: aquelle bonito
corpo offerecia-se, tão claramente como se se despisse.
Ah! se ella fosse de sentimentos errantes e
faceis—que bella flôr a colher, a respirar, a deitar
fóra depois! Mas não: como dizia o Baptista, a
senhora
condessa nunca se tinha divertido. E o que
elle não queria era achar-se envolvido n'uma
paixão
ciosa, uma d'essas ternuras tumultuosas de mulher de
trinta annos, de que depois se desembaraçaria
difficilmente...
Nos braços d'ella o seu coração
ficaria
mudo: e apenas esgotada a primeira curiosidade,
começaria o tedio dos beijos que se não desejam,
a
horrivel massada do prazer a frio. Depois, teria de
ser intimo da casa, receber pelo hombro as palmadas
do senhor conde, ouvir-lhe a voz morosa distillando
doutrina... Tudo isto o assustava... E, todavia,
gostara d'aquella audacia! Havia ali uma pontinha
de romantismo, muito irregular, e pícante... E
devia ser deliciosamente bem feita... A sua
imaginação
despia-a, enrolava-se-lhe no setim das fórmas
onde sentia ao mesmo tempo alguma cousa de maduro
e de virginal... E outra vez, como nas primeiras noites
que os vira em S. Carlos, aquelles cabellos tentavam-n'o,
assim avermelhados, tão crespos e quentes...
Sahiu. E dera apenas alguns passos na rua Nova
do Almada, quando avistou o Damaso, n'um coupé
lançado
a grande trote, que o chamava, mandava parar,
com a face á portinhola, vermelho e radiante:
—Não tenho podido lá ir, exclamou elle,
apoderando-se-lhe
da mão, apenas Carlos se approximou, e
apertando-lh'a com enthusiasmo. Tenho andado n'um
turbilhão!.. Eu te
contarei! Um romance divino...
Mas eu te contarei!.. Tem cuidado
com a roda! Bate
lá, ó
Calção!
A parelha abalou; elle ainda se debruçou da portinhola,
agitou a mão, gritou no rumor da rua:
—Um romance divino,
chic a valer!
Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de
bilhar, Craft que acabava de «bater» o marquez,
perguntou,
pousando o taco e accendendo o cachimbo:
—E noticias do nosso Damaso? Já se esclareceu
esse lamentavel desapparecimento?...
Carlos então contou como o encontrára, afogueado
e triumphante, atirando-lhe da portinhola do coupé,
em plena rua Nova do Almada, a noticia de um
romance
divino!
—Bem sei, disse o Taveira.
—Como sabes?... exclamou Carlos.
Taveira vira-o na vespera, n'um grande landeau
da Companhia, com uma esplendida mulher, muito
elegante e que parecia estrangeira...
—Ora essa! gritou Carlos. E com uma cadelinha
escoceza?
—Exactamente, uma cadelinha escoceza, um
griffon
côr de prata... Quem são?
—E um rapaz magro, de barba muito preta, com
um ar inglezado?
—Justamente... Muito correcto, um ar
sport...
Que gente
é?
—Uma gente brazileira, penso eu.
Eram os Castros Gomes, de certo! Isto parecia-lhe
espantoso. Havia apenas duas semanas que no
terraço o Damaso, de punhos fechados, bramara contra
os Castro Gomes e as suas
«desconsiderações»!
Ia pedir outros pormenores ao Taveira—mas o marquez
ergueu a voz do fundo da poltrona onde se
estirára, e quiz saber a opinião de Carlos sobre
o
grande acontecimento d'essa manhã na
Gazeta
Illustrada.—Na
Gazeta Illustrada?... Carlos
não sabia,
essa manhã não vira jornal nenhum.
—Então não lhe digam nada, gritou o marquez.
Venha a surpreza! Cá ha a
Gazeta? Manda buscar
a
Gazeta!
Taveira puxou o cordão da campainha;—e quando
o escudeiro trouxe a
Gazeta, elle
apoderou-se d'ella,
quiz fazer uma leitura solemne.
—Deixa-lhe vêr primeiro o retrato, berrou o marquez,
erguendo-se.
—Primeiro o artigo! exclamava o Taveira, defendendo-se,
com o jornal atraz das costas.
Mas cedeu, e poz o papel deante dos olhos de Carlos,
largamente, como um sudario desdobrado. Carlos
reconheceu logo o retrato do Cohen... E a prosa que
se alastrava em redor, encaixilhando a face escura
de suissas retintas, era um trabalho de seis columnas,
em estylo emplumado e cantante, celebrando até aos
céus as virtudes domesticas do Cohen, o genio financeiro
do Cohen, os ditos d'espirito do Cohen, a mobilia
das salas do Cohen; havia ainda um paragrapho
alludindo á festa proxima, ao grande sarau de
mascaras do Cohen. E tudo isto vinha assignado—J.
da E.—as iniciaes de João da Ega!
—Que tolice! exclamou Carlos, com tedio, atirando
o jornal para cima do bilhar.
—É mais que tolice, observou Craft; é uma falta
de senso moral.
O marquez protestou. Gostava do artigo. Achava-o
brilhante, e de velhaco!... E de resto em Lisboa
quem dava por uma falta de senso moral?...
—Você, Craft, não conhece Lisboa! Todo o mundo
acha isto muito natural. É intimo da casa, celebra os
donos. É admirador da mulher, lisongea o marido.
Está na logica cá da terra... Você
verá que successo
isto vae ter... E lá que o artigo está lindo,
isso está!
Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre
o boudoir côr de rosa de madame Cohen: «respira-se
alli (dizia o Ega) alguma cousa de perfumado,
intimo e casto, como se todo aquelle côr de rosa
exhalasse de si o aroma que a rosa tem»!
—Isto, caramba, é lindo em toda a parte! exclamou
o marquez. Tem muito talento, aquelle diabo!
Tomara eu ter o talento que elle tem!...
—Nada d'isso impede, repetiu Craft, cachimbando
tranquillamente, que seja uma extraordinaria falta de
senso moral.
—Pura e simplesmente insensato! disse Cruges,
desenroscando-se do canto d'um sophá, para deixar
cahir ás syilabas esta pesada opinião.
O marquez investiu com elle.
—Que entende você d'isso, seu maestro? O artigo
é sublime! E saiba mais: é de finorio!
O maestro, com preguiça de argumentar, foi-se enroscar
em silencio ao outro canto do sophá.
E então o marquez, de pé e bracejando, appellou
para Carlos, e quiz saber o que é que Craft em principio
entendia por
senso moral.
Carlos, que dava pela sala passos impacientes, não
respondeu, tomou o braço do Taveira, levou-o para
o corredor.
—Dize-me uma cousa: onde viste tu o Damaso,
com essa gente? Para que lado iam?
—Iam pelo Chiado abaixo; ante-hontem, ás duas
horas... Estou convencido que iam para Cintra. Levavam
uma maleta no landau, e atraz ia uma criada n'um
coupé com uma mala maior... Aquillo cheirava a ida
a Cintra. E a mulher é divina! Que toilette, que ar,
que chic!.. É uma Venus, menino!... Como conheceria
elle aquillo?...
—Em Bordeus, n'um paquete, não sei onde!
—Eu do que gostei foi dos ares que elle se ia
dando por aquelle Chiado! Cumprimento para a direita,
cumprimento para a esquerda... A debruçar-se,
a fallar muito baixo para a mulher, com olho terno,
alardeando conquista...
—Que besta! exclamou Carlos, batendo com o pé
no tapete.
—Chama-lhe besta, disse o Taveira. Vem a Lisboa,
por acaso, uma mulher civilisada e decente, e é
elle que a conhece, e é elle que vae com ella para
Cintra! Chama-lhe besta!... Anda d'ahi, vamos á
partidinha de dominó.
Taveira ultimamente introduzira o dominó no Ramalhete—e
havia agora alli, ás vezes, partidas ardentes,
sobretudo quando apparecia o marquez. Porque
a paixão do Taveira era bater o marquez.
Mas foi necessario que o marquez acabasse de bracejar,
de desenrolar o arrazoado com que estava
acabrunhando o Craft—que do fundo da poltrona,
de cachimbo na mão e com um ar de somno, respondia
por monossyllabos. Era ainda a proposito do
artigo do Ega, da definição de
senso moral. Já tinha
fallado de Deus, de Garibaldi, até do seu famoso perdigueiro
Finorio; e agora definia a
Consciencia... Segundo
elle, era o medo da policia. Tinha o amigo
Craft visto já alguem com remorsos? Não, a
não ser no
theatro da Rua dos Condes, em dramalhões...
—Acredite você uma cousa, Craft—terminou elle
por dizer, cedendo ao Taveira que o puchava para a
meza—isto de consciencia é uma questão de
educação.
Adquire-se como as boas maneiras; soffrer em
silencio por ter trahido um amigo, aprende-se exactamente
como se aprende a não metter os dedos no
nariz. Questão d'educação... No resto
da gente é
apenas medo da cadeia, ou da bengala... Ah! vocês
querem levar outra sova ao dominó como a de sabbado
passado? Perfeitamente, sou todo vosso...
Carlos, que estivera passando de novo os olhos
pelo artigo do Ega, approximou-se tambem da meza.
E estavam sentados, remexiam as pedras—quando
á porta da sala appareceu o conde de Steinbroken,
de casaca e crachá, gran-cruz sobre o colete branco,
loiro como uma espiga, esticado e resplandecente. Tinha
jantado no Paço, e vinha acabar no Ramalhete a
sua soirée, em familia...
Então o marquez que o não via desde o famoso
ataque de intestinos, abandonou o dominó, correu
a abraçal-o ruidosamente—e sem o deixar sequer
sentar, nem estender a mão aos outros, implorou-lhe
logo uma das suas bellas canções filandezas, uma
só, d'aquellas que lhe faziam tão bem
á alma!...
—Só a
Ballada,
Steinbroken... Eu tambem não
me posso demorar, que tenho aqui a partida á espera.
Só a
Ballada!...
Vá, salta lá para dentro para o
piano, Cruges...
O diplomata sorria, dizia-se cançado, tendo já
feito
musica deliciosa no Paço com Sua Magestade. Mas
nunca sabia resistir áquelle modo folgazão do
marquez—e
lá foram para a sala do piano, de braço
dado, seguidos pelo Cruges, que levara uma eternidade
a desenroscar-se do canto do sophá. E d'ahi
a um momento, atravez dos resposteiros meio corridos,
a bella voz de barytono do diplomata espalhava
pelas salas, entre os suspiros do piano, a emballadora
melancolia da
Ballada, com a sua
lettra
traduzida em francez, que o marquez adorava, e em
que se fallava das nevoas tristes do Norte, de lagos
frios e de fadas loiras...
Taveira e Carlos, no entanto, tinham começado
uma grande partida de dominó, a tostão o ponto.
Mas Carlos n'essa noite não se interessava, jogando
distrahido, a cantarolar tambem baixo bocados tristes
da
Ballada: depois, quando
já Taveira tinha só
uma pedra diante de si, e elle estava comprando interminavelmente
as que restavam, voltou-se para o
lado, para o Craft, a perguntar se o hotel da Lawrence,
em Cintra, estava aberto todo o anno...
—A ida do Damaso para Cintra deu-te no goto,
rosnou Taveira impaciente. Anda, joga!
Carlos, sem responder, pousou mollemente uma
pedra.
—Dominó! gritou Taveira.
E em triumpho, aos pulos, contou elle mesmo os
sessenta e oito pontos que Carlos perdia.
Justamente o marquez entrava, e a victoria do Taveira
indignou-o.
—Agora nós, exclamou elle, puxando vivamente
uma cadeira. Oh Carlos, deixe-me você dar aqui
uma sova n'este ladrão. Depois jogamos de tres...
Como queres tu isto, Taveirete? A dous tostões o
ponto? Ah, queres só a tostão... Muito bem, eu te
ensinarei. Anda, desembaraça-te já d'esse
dôble-seis,
miseravel...
Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com
uma cigarette apagada nos dedos, o mesmo ar distrahido:
de repente, pareceu tomar uma decisão, atravessou
o corredor, entrou na sala de musica. Steinbroken
fôra ao escriptorio vêr Affonso da Maia, e a
partida de whist; e Cruges só, entre as duas
vélas
do piano, com os olhos errantes pelo tecto, improvisava
para si, melancolicamente.
—Dize cá, Cruges, perguntou-lhe Carlos, queres
vir ámanhã a Cintra?
O teclado callou-se, o maestro ergueu um olhar
espantado! Carlos nem o deixou fallar.
—Está claro que queres, não te faz
senão bem vir
a Cintra... Ámanhã lá estou
á porta, com o break.
Mette sempre uma camisa n'uma maleta, que talvez
passemos lá a noite... Ás oito em ponto, hein?...
E
não digas nada lá dentro.
Carlos voltou para a sala, ficou a olhar a partida
de dominó. Agora havia um largo silencio. O marquez
e Taveira moviam lentamente as pedras, sem
uma palavra, com um ar de rancor surdo. Em cima
do pano verde do bilhar as bolas brancas dormiam
juntas, sob a luz que cahia dos abat-jours de porcelana.
Um som de piano, dolente e vago, passava por
vezes. E Craft, com o braço descahido ao longo da
poltrona, dormitava, beatificamente.
VIII
Na manhã seguinte, ás oito horas pontualmente,
Carlos parava o break na rua das Flores, diante do
conhecido portão da casa do Cruges. Mas o trintanario,
que elle mandara acima bater á campainha do
terceiro andar, desceu com a estranha nova de que
o sr. Cruges já não morava ali. Onde diabo morava
então o sr. Cruges? A criada dissera que o sr. Cruges
vivia agora na rua de S. Francisco, quatro portas
adiante do Gremio. Durante um momento, Carlos,
desesperado, pensou em partir só para Cintra. Depois
lá largou para a rua de S. Francisco,
amaldiçoando
o maestro, que mudara de casa sem avisar, sempre
vago, sempre tenebroso!... E era em tudo assim. Carlos
nada sabia do seu passado, do seu interior, das suas
affeições, dos seus habitos. O marquez uma noite
levara-o ao Ramalhete, dizendo ao ouvido de Carlos
que estava alli um genio. Elle encantara logo todo
o mundo pela modestia das suas maneiras e a sua
arte maravilhosa ao piano: e todo o mundo no Ramalhete
começou a tratar Cruges por
maestro, a fallar tambem
do Cruges como de um genio, a declarar que
Choppin nunca fizera obra egual á
Meditação de
Outono
do Cruges. E ninguem sabia mais nada. Fôra
pelo Damaso que Carlos conhecera a casa do Cruges
e soubera que elle vivia lá com a mãe, uma
senhora
viuva, ainda fresca, e dona de predios na Baixa.
Ao portão da rua de S. Francisco, Carlos teve de esperar
um quarto de hora. Primeiro appareceu furtivamente
ao fundo da escada uma criada em cabello,
que espreitou o break, os criados de farda, e fugiu
pelos degraus acima. Depois veiu um creado em mangas
de camisa trazer a maleta do senhor e um chaile
manta. Emfim, o maestro desceu, a correr,
quasi
aos trambulhões, com um cache-nez de seda na mão
o guarda-chuva debaixo do braço, abotoando atarantadamente
o paletot.
Quando vinha pulando os ultimos degraus, uma voz
esganiçada de mulher gritou-lhe de cima:
—Olha não te esqueçam as queijadas!
E Cruges subiu precipitadamente para a almofada,
para o lado de Carlos, rosnando que, com a
preoccupação
de se levantar tão cedo, tivera uma insomnia
abominavel...
—Mas que diabo de idéa é essa de mudar de casa,
sem avisar a gente, homem?—exclamou Carlos, atirando-lhe
para cima dos joelhos um bocado do
plaid
que o agasalhava, porque o maestro parecia arrepiado.
—É que esta casa tambem é nossa, disse
simplesmente
Cruges.
—Está claro, ahi está uma razão!
murmurou Carlos
rindo e encolhendo os hombros.
Partiram.
Era uma manhã muito fresca, toda azul e branca,
sem uma nuvem, com um lindo sol que não aquecia,
e punha nas ruas, nas fachadas das casas, barras alegres
de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente:
as saloias ainda andavam pelas portas com
os seus ceirões d'hortaliças: varria-se de vagar
a testada
das lojas: no ar macio morria a distancia um
toque fino de missa.
Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de
abotoar as luvas, estendeu um olhar á esplendida
parelha baia reluzindo como um setim sob o faiscar
de prata dos arreios, aos criados com os seus ramos
nas librés, a todo aquelle luxo correcto e rolando em
cadencia—onde fazia mancha o seu paletot: mas o
que o impressionou foi o aspecto resplandecente de
Carlos, o olhar acceso, as bellas côres, o bello
riso,
o quer que fosse de vibrante e de luminoso, que, sob
o seu simples veston de xadrezinho castanho, n'aquella
almofada burgueza de break, lhe dava um arranque
de heroe jovial, lançando o seu carro de guerra...
Cruges farejou uma aventura, soltou logo a pergunta
que desde a vespera lhe ficara nos labios.
—Com franqueza, aqui para nós, que idéa foi esta
de ir a Cintra?
Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela
alma melodiosa de Mozart, e pelas
fugas de Bach?
Pois bem, a idéa era vir a Cintra, respirar o ar de
Cintra, passar o dia em Cintra... Mas, pelo amor de
Deus, que o não revelasse a ninguem!
E accrescentou, rindo:
—Deixa-te levar, que não te has de arrepender...
Não, Cruges não se arrependia. Até
achava delicioso
o passeio, gostara sempre muito de Cintra...
Todavia não se lembrava bem, tinha apenas uma
vaga idéa de grandes rochas e de nascentes d'aguas
vivas... E terminou por confessar que desde os nove
annos não voltara a Cintra.
O que! o maestro não conhecia Cintra?... Então
era necessario ficarem lá, fazer as
peregrinações
classicas, subir á Pena, ir beber agua á Fonte
dos
Amores, barquejar na varzea...
—A mim o que me está a appetecer muito é
Sitiaes;
e a manteiga fresca.
—Sim, muita manteiga, disse Carlos. E burros,
muitos burros... Emfim, uma ecloga!
O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando
muros enramados de quintas, casarões tristonhos
de vidraças quebradas, vendas com o seu
masso de cigarros á porta dependurado de uma
guita: e a menor arvore, qualquer bocado de relva
com papoulas, um fugitivo longe de collina verde,
encantavam Cruges. Ha que tempos elle não via o
campo!
Pouco a pouco o sol elevara-se. O maestro desembaraçou-se
do seu grande cache-nez. Depois, encalmado,
despiu o paletot—e declarou-se morto de fome.
Felizmente estavam chegando á Porcalhota.
O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho
guisado,—mas, como era cedo para esse acepipe, decidiu-se,
depois de pensar muito, por uma bella pratada
de ovos com chouriço. Era uma cousa que não
provava havia annos, e que lhe daria a sensação
de
estar na aldêa... Quando o patrão, com um ar
importante
e como fazendo um favor, pousou sobre a
meza sem toalha a enorme travessa com o petisco,
Cruges esfregou as mãos, achando aquillo deliciosamente
campestre.
—A gente em Lisboa estraga a saude! disse elle.
puxando para o prato uma montanha de ovo e chouriço.
Tu não tomas nada?...
Carlos, para lhe fazer companhia, acceitou uma chavena
de café.
D'ahi a pouco Cruges, que devorava, exclamou com
a bocca cheia:
—O Rheno tambem deve ser magnifico!
Carlos olhou-o espantado e rindo. A que vinha
agora alli o Rheno?... É que o maestro, desde que
sahira as portas, estava cheio de idéas de viagens e
de paisagens; queria vêr as grandes montanhas onde
ha neve, os rios de que se falla na Historia. O seu
ideal seria ir á Allemanha, percorrer a pé, com
uma
mochilla, aquella patria sagrada dos seus deuses, de
Beethoven, de Mozart, de Wagner...
—Não te appetecia mais ir á Italia? perguntou
Carlos accendendo o charuto.
O maestro esboçou um gesto de desdem, teve uma
das suas phrases sybillinas:
—Tudo contradanças!...
Carlos então fallou de um certo plano de ir á
Italia,
com o Ega, no inverno. Ir á Italia, para o Ega, era
uma hygiene intellectual: precisava calmar aquella
imaginação tumultuosa de nervoso peninsular entre
a placida magestade dos marmores...
—O que elle precisava antes de tudo era chicote,
rosnou o Cruges.
E voltou a fallar do caso da vespera, do famoso artigo
da
Gazeta. Achava aquillo, como elle
dissera, pura
e simplesmente insensato, e de uma sabujice indecorosa.
E o que o affligia é que o Ega, com aquelle talento,
aquella verve fumegante, não fizesse nada...
—Ninguem faz nada, disse Carlos espreguiçando-se.
Tu, por exemplo, que fazes?
Cruges, depois de um silencio, rosnou encolhendo
os hombros:
—Se eu fizesse uma boa opera, quem é que m'a
representava?
—E se o Ega fizesse um bello livro, quem é que
lh'o lia?
O maestro terminou por dizer:
—Isto é um paiz impossivel... Parece-me que tambem
vou tomar café.
Os cavallos tinham descançado, Cruges pagou a
conta, partiram. D'ahi a pouco entravam na charneca
que lhes pareceu infindavel. D'ambos os lados, a perder
de vista, era um chão escuro e triste; e por
cima um azul sem fim, que n'aquella solidão parecia
triste tambem. O trote compassado dos cavallos batia
monotonamente a estrada. Não havia um rumor:
por vezes um passaro cortava o ar, n'um vôo brusco,
fugindo do ermo agreste. Dentro do break um dos criados
dormia; Cruges, pesado dos ovos com chouriço,
olhava, vaga e melancolicamente, as ancas lustrosas
dos cavallos.
Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia
a Cintra. E realmente não sabia bem porque vinha:
mas havia duas semanas que elle não avistava certa
figura que tinha um passo de deusa pisando a terra,
e que não encontrava o negro profundo de dois
olhos que se tinham fixado nos seus: agora suppunha
que ella estava em Cintra, corria a Cintra. Não
esperava nada, não desejava nada. Não sabia se a
veria, talvez ella tivesse já partido. Mas vinha: e era
já delicioso o pensar n'ella assim por aquella estrada
fóra, penetrar, com essa doçura no
coração, sob as
bellas arvores de Cintra... Depois, era possivel
que d'ahi a pouco, na velha Lawrence, elle a cruzasse
de repente no corredor, roçasse talvez o seu
vestido, ouvisse talvez a sua voz. Se ella lá estivesse,
decerto viria jantar á sala, aquella sala que
elle conhecia tão bem, que já lhe estava
appetecendo
tanto, com as suas pobres cortininhas de cassa, os
ramos toscos sobre a meza, e os dois grandes candieiros
de latão antigo... Ella entraria alli, com o
seu bello ar claro de Diana loira; o bom Damaso,
apresentaria o seu amigo Maia; aquelles olhos negros
que elle vira passar de longe como duas estrellas,
pousariam mais de vagar nos seus; e, muito simplesmente,
á ingleza, ella estender-lhe-hia a mão...
—Ora até que finalmente! exclamou Cruges, com
um suspiro de allivio e respirando melhor.
Chegavam ás primeiras casas de Cintra, havia já
verduras na estrada, e batia-lhes no rosto o primeiro
sopro forte e fresco da serra.
E a passo, o break foi penetrando sob as arvores
do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras, envolvia-os
pouco a pouco uma lenta e emballadora sussurração
de ramagens, e como o diffuso e vago murmurio
de agoas correntes. Os muros estavam cobertos
de heras e de musgos: atravez da folhagem, faiscavam
longas flechas de sol. Um ar subtil e avelludado circulava,
rescendendo ás verduras novas; aqui e além,
nos ramos mais sombrios, passaros chilreavam de
leve; e n'aquelle simples bocado de estrada, todo salpicado
de manchas do sol, sentia-se já, sem se vêr,
a religiosa solemnidade dos espessos arvoredos, a
frescura distante das nascentes vivas, a tristeza que
cae das penedias e o repouso fidalgo das quintas de verão...
Cruges respirava largamente, voluptuosamente.
—A Lawrence onde é? Na serra?—perguntou elle
com a idéa repentina de ficar alli um mez n'aquelle
paraiso.
—Nós não vamos para a Lawrence, disse Carlos
sahindo bruscamente do seu silencio, e espertando
os cavallos. Vamos para o Nunes, estamos lá muito
melhor!
Era uma idéa que lhe viera de repente, apenas
passara as primeiras casas de S. Pedro, e o break
começara a rolar n'aquellas estradas onde a cada
momento elle a poderia encontrar. Tomara-o uma
timidez, a que se misturava um laivo de orgulho,
o receio melindrado de ser indiscreto, seguindo-a assim
a Cintra, ainda que ella o não reconhecesse, indo
installar-se sob as mesmas telhas, apoderando-se de
um logar á mesma meza... E ao mesmo tempo repugnou-lhe
a idéa de lhe ser apresentado pelo Damaso:
via-o já, bochechudo e vestido de campo, a
esboçar
um gesto de ceremonia, a mostrar o
seu amigo
Maia,
a tratal-o por tu, affectando intimidades com ella, cocando-a
com um olho terno... Isto seria intoleravel.
—Vamos para o Nunes, que se come melhor!
Cruges não respondeu, mudo, enlevado, recebendo
como uma impressão religiosa de todo aquelle esplendor
sombrio de arvoredo, dos altos fragosos da
serra entrevistos um instante lá em cima nas nuvens,
d'esse aroma que elle sorvia deliciosamente, e do sussurro
doce de aguas descendo para os valles...
Só ao avistar o Paço descerrou os labios:
—Sim senhor, tem
cachet!
E foi o que mais lhe agradou—este macisso e
silencioso palacio, sem florões e sem torres,
patriarchalmente
assentado entre o casario da villa, com as
suas bellas janellas manuelinas que lhe fazem um
nobre semblante real, o valle aos pés, frondoso e
fresco, e no alto as duas chaminés collossaes, disformes,
resumindo tudo, como se essa residencia fosse
toda ella uma cosinha talhada ás
proporções de uma
gula de Rei que cada dia come todo um Reino...
E apenas o break parou á porta do Nunes, foi-lhe
ainda dar um olhar, timido e de longe—receiando
alguma palavra rude da sentinella.
Carlos no entanto, saltando logo da almofada, tomou
á parte o criado do hotel, que descera a recolher
as maletas.
—Vossê conhece o sr. Damaso Salcede? Sabe se
elle está em Cintra?
O creado conhecia muito bem o sr. Damaso Salcede.
Ainda na vespera pela manhã o vira entrar defronte,
no bilhar, com um sujeito de barbas pretas...
Devia estar na Lawrence, porque só com raparigas e
em pandiga é que o sr. Damaso vinha para o Nunes.
—Então, depressa, dous quartos! exclamou Carlos,
com uma alegria de creança, certo agora que
ella estava
em Cintra. E uma sala particular, só para nós,
para almoçarmos!
Cruges, que se approximava, protestou contra esta
sala solitaria. Preferia a meza redonda. Ordinariamente
na meza redonda encontram-se typos...
—Bem, exclamou Carlos, rindo e esfregando as
mãos, põe o almoço na sala de jantar,
põe-n'o até
na Praça... E muita manteiga fresca para o sr. Cruges!
O cocheiro levou o break, o creado sobraçou as
maletas. Cruges, enthusiasmado com Cintra, rompeu
pela escada acima, a assobiar—conservando aos hombros
o chaile-manta, de que se não queria separar,
porque lh'o emprestara a mamã. E apenas chegou
á porta da sala do jantar, estacou, ergueu os
braços,
teve um grito.
—Oh Euzebiosinho!
Carlos correu, olhou... Era elle, o viuvo, acabando
de almoçar, com duas raparigas hespanholas.
Estava no topo da meza, como presidindo, diante
de uns restos de pudim e de pratos de fructa, amarellado,
despenteado, carregado de luto, com a larga
fita das lunetas pretas passada por traz da orelha, e
uma rodela de taffetá negro sobre o pescoço
tapando
alguma espinha rebentada.
Uma das hespanholas era um mulherão trigueiro,
com signaes de bexigas na cara; a outra muito franzina,
de olhos meigos, tinha uma roseta de febre, que
o pó de arroz não desfarçava. Ambas
vestiam de
setim preto, e fumavam cigarro. E na luz e na frescura
que entrava pela janella, pareciam mais gastas,
mais molles, ainda pegajosas da lentura morna dos
colxões, e cheirando a bafio de alcova. Pertencendo
á sucia havia um outro sujeito, gordo, baixo, sem
pescoço, com as costas para a porta e a cabeça
sobre
o prato, babujando uma metade de laranja.
Durante um momento, Euzebiosinho ficou interdito
com o garfo no ar; depois lá se ergueu, de guardanapo
na mão, veiu apertar os dedos aos amigos, balbuciando
logo uma justificação embrulhada, a ordem
do medico para mudar de ares, aquelle rapaz que o
acompanhara, e que quizera trazer raparigas... E
nunca parecera tão funebre, tão relles, como
resmungando
estas cousas hypocritas, encolhido á sombra
de Carlos.
—Fizeste muito bem, Eusebiosinho, disse Carlos
por fim, batendo-lhe no hombro. Lisboa está um horror,
e o amor é cousa doce.
O outro continuava a justificar-se. Então a hespanhola
magrita, que fumava, afastada da meza e com
a perna traçada, elevou a voz, perguntou ao Cruges
se elle não lhe fallava. O maestro affirmou-se um momento,
e partiu de braços abertos para a sua amiga
Lolla. E foi, n'esse canto da meza, uma grulhada
em hespanhol, grandes apertos de mão, e
hombre, que
no se le ha visto! e mira, que me he accordado de ti!
e
caramba, que reguapa estas...
Depois a Lolla, tomando
um arsinho espremido, apresentou o outro
mulherão, la señorita Concha...
Vendo isto, impressionado com tanta familiaridade—o
sujeito obeso, que apenas levantara um instante
a cabeça do prato, decidiu-se a examinar mais attentamente
os amigos do Euzebio: crusou o talher, limpou
com o guardanapo a bocca, a testa e o pescoço,
encavallou laboriosamente no nariz uma grande luneta
de vidros grossos, e erguendo a face larga, balofa e
côr de cidra, examinou detidamente Cruges, e depois
Carlos, com uma impudencia tranquilla.
Eusebiosinho apresentou o seu amigo Palma: e o
seu amigo Palma, ouvindo o nome conhecido de Carlos
da Maia, quiz logo mostrar diante de um gentleman,
que era um gentleman tambem. Arrojou para
longe o guardanapo, arredou para fóra a cadeira; e
de pé, estendendo a Carlos os dedos molles e de
unhas roidas, exclamou, com um gesto para os restos
da sobremeza:
—Se. v. ex.
a é servido, é
sem ceremonia... Que
isto quando a gente vem a Cintra, é para abrir o
appetite e fazer bem á barriga...
Carlos agradeceu, e ia retirar-se. Mas Cruges, que
se animava e gracejava com a Lolla, fez tambem do
outro lado da meza a sua apresentação:
—Carlos, quero que conheças aqui a lindissima
Lolla, relações antigas, e a señorita
Concha, que eu
tive agora o prazer...
Carlos saudou respeitosamente as damas.
O mulherão da Concha rosnou seccamente os
buenos
dias: parecia de mau humor, pesada do
almoço,
amodorrada para alli, sem dizer uma palavra, com os
cotovellos fincados na meza, os olhos pestanudos meio
cerrados, ora fumando, ora palitando os dentes. Mas
a Lolla foi amavel, fez de senhora, ergueu-se, offereceu
a Carlos a mãosita suada. Depois retomando o
cigarro, dando um geito ás pulseiras de ouro, declarou
com um requebro d'olhos, que conhecia de ha
muito Carlos...
—No ha estado ustêd con Encarnacion?
Sim, Carlos tivera essa honra... E que era feito
d'ella, d'essa bella Encarnacion?
A Lolla sorriu com finura, tocou no cotovello do
maestro. Não acreditava que Carlos ignorasse o que
era feito da Encarnacion... Emfim, terminou por dizer
que a Encarnacion estava agora com o Saldanha.
—Mas olhe que não é com o duque de Saldanha!
exclamou Palma, que se conservara de pé, com a
bolsa do tabaco aberta sobre a meza, fazendo um
grande cigarro.
A Lolita, com um modo secco, replicou que o Saldanha
não seria duque, mas era um
chico muy
decente...
—Olha, disse o Palma lentamente, de cigarro na
bocca e tirando a isca da algibeira, duas boas bofetadas
na cara lhe dei eu ainda não ha tres semanas...
Pergunta ao Gaspar, o Gaspar assistiu...
Foi até no Montanha... Duas bofetadas que lhe foi
logo o chapéo parar ao meio da rua... O sr. Maia
ha de conhecer o Saldanha... Ha de conhecer, que
elle tambem tem um carrito e um cavallo.
Carlos fez um gesto indicando que não; e despedia-se
de novo, saudando as damas, quando Cruges o
chamou ainda, retendo-o mais um instante, em quanto
satisfazia uma curiosidade: queria saber qual d'aquellas
meninas era a
esposa do amigo
Eusebio.
Assim interpellado, o viuvo encordoou, rosnou com
uma voz morosa, sem erguer as lunetas da laranja que
descascava, que estava alli de passeio, não tinha
esposa, e ambas aquellas meninas pertenciam ao amigo
Palma...
E ainda elle mascava as ultimas palavras, quando
Concha, que digeria de perna estendida, se endireitou
bruscamente como se fosse saltar, atirou um murro
á borda da meza, e com os olhos chammejantes, desafiou
o Eusebio a que repetisse aquillo! Queria que
elle repetisse! Queria que dissesse se tinha vergonha
d'ella, e de dizer que a tinha trazido a Cintra!... E
como o Eusebio, já enfiado, tentava gracejar, fazer-lhe
uma festa—ella despropositou, atirou-lhe os peiores
nomes, dando sempre punhadas na meza, com
uma furia que lhe torcia a bocca, lhe punha duas
manchas de sangue no carão trigueiro. A Lolita, vexada,
puchava-lhe pelo braço: a outra deu-lhe um
repellão;
e, mais excitada com a estridencia da propria
voz, esvasiou-se de toda a bilis, chamou-lhe porco,
accusou-o de forreta, usou-o como um trapo vil.
Palma afflicto, debruçado sobre a meza, exclamava
n'um tom ancioso:
—Ó Concha, escuta lá!... Ouve lá!...
Concha, eu
te explico...
De repente, ella ergueu-se, a cadeira tombou para
o lado: e o mulherão abalou pela sala fóra, a
grande
cauda de setim varreu desabridamente o soalho, ouviu-se
dentro estalar uma porta. No chão ficara caindo
um pedaço da mantilha de renda.
O creado que entrava do outro lado com a cafeteira
estacou, afiando o olho curioso, farejando o escandalo;
depois, calado e seccamente, foi servindo em
roda o café.
Durante um momento houve um silencio. Apenas
porém o criado sahiu—a Lolita e o Palma, agitados
mas abafando a voz, atacaram o Eusebiosinho. Elle
portara-se muito mal! Aquillo não fôra de
cavalheiro!
Tinha trazido a rapariga a Cintra, devia-a respeitar,
não a ter renegado assim, á bruta, diante de
todos...
—
Esto no se hace, dizia a Lolita,
de pé, gesticulando,
com os olhos brilhantes, voltada para Carlos,
ha sido una cosa muy
fêa!..
E como o Cruges lamentava, sorrindo, ter sido a
causa involuntaria da catastrophe—ella baixou a voz,
contou que a Concha era uma furia, viera a Cintra
com pouca vontade, e desde manhã estava de
muy
malo humor... Pero lo de Silbeira habia sido una
gran pulhice...
Elle, coitado, com a cabeça cahida e as orelhas em
braza, remexia desoladamente o seu café; não se
lhe
viam os olhos escondidos pelas lunetas pretas, mas
percebia-se-lhe o grosso soluço que lhe affogava a garganta.
Então Palma pouzou a chavena, lambeu os beiços,
e de pé no meio da sala, com a face luzidia, o
collete desabotoado, fez n'um tom entendido o resumo
d'aquelle desgosto.
—Tudo provém d'isto, e desculpe-me você dizel-o,
Silveira: é que você não sabe tratar
com hespanholas!
A esta cruel palavra o viuvo succumbiu. A colher
cahiu-lhe dos dedos. Ergueu-se, acercou-se de Carlos
e de Cruges, como refugiando-se n'elles, vindo reconfortar-se
ao calor da sua amizade,—e desabafou,
estas palavras angustiosas escaparam-se-lhe dos labios:
—Vejam vocês! vem a gente a um sitio d'estes
para gosar um bocado de poesia, e no fim é uma
d'estas!...
Carlos bateu-lhe melancolicamente no hombro:
—A vida é assim, Eusebiosinho.
Cruges fez-lhe uma festa nas costas:
—Não se póde contar com prazeres, Silveirinha.
Mas Palma, mais pratico, declarou que era forçoso
arranjarem-se as cousas. Virem a Cintra, para questões
e amuos, isso não! N'aquellas pandegas queria-se
harmonia, chalaça, e gosar. Couces, não.
Então
ficava-se em Lisboa, que era mais barato.
Chegou-se a Lolla, passou-lhe os dedos pela face,
com amor:
—Anda Lolita, vae tu lá dentro á Concha,
dize-lhe
que se não faça tola, que venha tomar
café... Anda,
que tu sabe-l'a levar... Dize-lhe que peço eu!
Lolita esteve um momento escolhendo duas boas
laranjas, foi dar um geito ao cabello diante do espelho,
apanhou a cauda—e sahiu, atirando a Carlos, ao
passar, um olhar e um sorrisinho.
Apenas ficaram sós, Palma voltou-se para o Eusebio,
e deu-lhe conselhos muito serios sobre o systema
de tratar hespanholas. Era necessario leval-as
por bons modos; por isso é que ellas se pellavam por
portuguezes, porque lá em Hespanha era á
bordoada...
Emfim, elle não dizia que em certos casos,
duas boas bolachas, mesmo um bom par de bengaladas,
não fossem uteis... Sabiam, por exemplo, os
amigos, quando se devia bater? Quando ellas não gostavam
da gente, e se faziam ariscas. Então, sim. Então
zás, tapona, que ellas ficavam logo pelo beiço...
Mas depois bons modos, delicadeza, tal qual como
com francezas...
—Acredite você isto, Silveira. Olhe que eu tenho
experiencia. E o sr. Maia que lhe diga se isto não
é
verdade, elle que tem tambem experiencia e sabe viver
com hespanholas!
E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito—que
Cruges desatou a rir, fez rir Carlos tambem.
O sr. Palma, um pouco chocado, compoz mais as
lunetas, e olhou para elles:
—Os senhores riem-se? Imaginam que eu que estou
a mangar? Olhem que eu comecei a lidar com
hespanholas aos quinze annos! Não, escusam de rir,
que n'isso ninguem me ganha! Lá o que se chama ter
geito para hespanholas, cá o meco! E, vamos lá,
que
não é facil! É necessario ter um certo
talento!...
Olhem, o Herculano é capaz de fazer bellos artigos e
estylo catita... Agora tragam-n'o cá para lidar com
hespanholas e veremos! Não dá meia...
Eusebiosinho no entanto fôra duas vezes escutar
á porta. Todo o hotel cahira n'um grande silencio,
a Lolita não voltava. Então Palma aconselhou um
grande passo:
—Vá você lá dentro, Silveira, entre
pelo quarto,
e assim sem mais nem menos, chegue-se ao pé
d'ella...
—E tapona? perguntou Cruges, muito seriamente,
gosando o Palma.
—Qual tapona! Ajoelhe e peça perdão... N'este
caso é pedir perdão... E como pretexto, Silveira,
leve-lhe você mesmo o café.
Eusebiosinho, com um olhar ancioso e mudo, consultou
os seus amigos. Mas o seu coração já
decidira:
e d'ahi a um momento, com o pedaço de mantilha
n'uma das mãos, a chavena de café na outra,
enfiado
e commovido, lá partia a passos lentos pelo corredor
a pedir perdão á Concha.
E, logo atraz d'elle, Carlos e Cruges deixaram a
sala, sem se despedirem do sr. Palma—que de resto,
indifferente tambem, já se accommodara à meza a
preparar regaladamente o seu grog.
Eram duas horas quando os dous amigos sahiram
emfim do hotel, a fazer esse passeio a Sitiaes—que
desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na praça, por
defronte das lojas vasias e silenciosas, cães vadios
dormiam ao sol: atravez das grades da cadêa os presos
pediam esmola. Creanças, enxovalhadas e em farrapos,
garotavam pelos cantos; e as melhores casas
tinham ainda as janellas fechadas, continuando o seu
somno de inverno, entre as arvores já verdes. De vez
em quando apparecia um bocado da serra, com a sua
muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou
via-se o castello da Pena, solitario, lá no alto. E por
toda a parte o luminoso ar de abril punha a doçura
do seu velludo.
Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o
passo, mostrou-o ao Cruges.
—Tem o ar mais sympathico, disse o maestro.
Mas valeu muito a pena ir para o Nunes, só para
vêr aquella scena... E então com quê o
sr. Carlos
da Maia tem experiencia de hespanholas?
Carlos não respondeu, os seus olhos não se
despegavam
d'aquella fachada banal, onde só uma janella
estava aberta com um par de botinas de duraque
seccando ao ar. Á porta, dous rapazes inglezes, ambos
de knicker-bokers, cachimbavam em silencio; e
defronte, sentados sobre um banco de pedra, dous
burriqueiros ao lado dos burros, não lhes tiravam o
olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma
presa.
Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante
e melancolico, sahindo do silencio do hotel, um vago
som de flauta; e parou ainda, remexendo as suas
recordações, quasi certo de Damaso lhe ter dito
que
a bordo Castro Gomes tocava flauta...
—Isto é sublime! exclamou do lado o Cruges, commovido.
Parara diante da grade d'onde se domina o valle.
E d'ali olhava, enlevadamente, a rica vastidão de
arvoredo cerrado, a que só se veem os cimos redondos,
vestindo um declive da serra como o musgo
veste um muro, e tendo aquella distancia, no brilho
da luz, a suavidade macia de um grande musgo escuro.
E n'esta espessura verde-negra havia uma frontaria
de casa que o interessava, branquejando, affogada
entre a folhagem, com um ar de nobre repouso,
debaixo de sombras seculares... Um momento teve
uma idéa de artista: desejou habital-a com uma mulher,
um piano e um cão da Terra-nova.
Mas o que o encantava era o ar. Abria os braços,
respirava a tragos deliciosos:
—Que ar! Isto dá saude, menino! Isto faz reviver!...
Para o gosar mais docemente, sentou-se adiante,
n'um bocado de muro baixo, defronte de um alto terraço
gradeado, onde velhas arvores assombreiam
bancos de jardim, e estendem sobre a estrada a frescura
das suas ramagens, cheias do piar das aves. E
como Carlos lhe mostrava o relogio, as horas que
fugiam para ir vêr o palacio, a Pena, as outras bellezas
de Cintra—o maestro declarou que preferia estar
ali, ouvindo correr a agua, a vêr monumentos caturras...
—Cintra não são pedras velhas, nem cousas
gothicas...
Cintra é isto, uma pouca de agua, um bocado
de musgo... Isto é um paraiso!...
E, n'aquella satisfação que o tornava loquaz,
acrescentou,
repetindo a sua chalaça:
—E v. ex.
a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem
experiencia de hespanholas!...
—Poupa-me, respeita a natureza, murmurou Carlos,
que riscava pensativamente o chão com a bengala.
Ficaram callados. Cruges agora admirava o jardim,
por baixo do muro em que estavam sentados. Era
um espesso ninho de verdura, arbustos, flores e arvores,
suffocando-se n'uma prodigalidade de bosque silvestre,
deixando apenas espaço para um tanquesinho
redondo, onde uma pouca de agua, immovel e gelada,
com dous ou tres nenufares, se esverdinhava
sob a sombra d'aquella ramaria profusa. Aqui e alem,
entre a bella desordem da folhagem, distinguiam-se
arranjos de gosto burguez, uma volta de ruasita estreita
como uma fita, faiscando ao sol, ou a banal palidez
de um gesso. N'outros recantos, aquelle jardim
de gente rica, exposto ás vistas, tinha retoques
pretenciosos de estufa rara, aloes e cactos, braços
aguardasolados de auraucarias erguendo-se d'entre
as agulhas negras dos pinheiros bravos, laminas de
palmeira, com o seu ar triste de planta exilada, roçando
a rama leve e perfumada das olaias floridas
de côr de rosa. A espaços, com uma
graça discreta,
branquejava um grande pé de margaridas; ou em
torno de uma rosa, solitaria na sua haste, palpitavam
borboletas aos pares.
—Que pena que isto não pertença a um artista!
murmurou o maestro. Só um artista saberia amar
estas flores, estas arvores, estes rumores...
Carlos sorriu. Os artistas, dizia elle, só amam na
natureza os effeitos de linha e côr; para se interessar
pelo bem-estar de uma tulipa, para cuidar de que
um craveiro não soffra sede, para sentir magoa de
que a geada tenha queimado os primeiros rebentões
das acacias—para isso só o burguez, o burguez que
todas as manhãs desce ao seu quintal com um
chapéo
velho e um regador, e vê nas arvores e nas plantas
uma outra familia muda, por que elle é tambem responsavel...
Cruges, que escutara distrahidamente, exclamou:
—Diabo! É necessario que não me
esqueçam as
queijadas!
Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche
descoberta desembocou a trote do lado de Sitiaes.
Carlos ergueu-se logo, certo de que era
ella, e que
elle ia vêr os seus bellos olhos brilhar e fugir como
duas estrellas. A caleche passou, levando um ancião
de barbas de patriarcha, e uma velha ingleza com
o regaço cheio de flores, e o
véo azul fluctuando ao
ar. E logo atraz, quasi no pó que as rodas tinham erguido,
appareceu, caminhando pensativamente, de
mãos atraz das costas, um homem alto, todo de preto,
com um grande chapéo Panamá sobre os olhos. Foi
Cruges que reconheceu os longos bigodes romanticos,
que gritou:
—Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!...
Durante um momento, o poeta ficou assombrado,
com os braços abertos, no meio da estrada. Depois,
com a mesma effusão ruidosa, apertou Carlos contra
o coração, beijou o Cruges na face—porque
conhecia
Cruges desde pequeno, Cruges era para elle como
um filho. Caramba! Eis ahi uma surpreza que elle
não trocava pelo titulo de duque! Ora o alegrão
de os
vêr ali! Como diabo tinham elles vindo ali parar?
E não esperou a resposta, contou elle logo a sua
historia. Tivera um dos seus ataques de garganta,
com uma ponta de febre, e o Mello, o bom Mello,
recommendara-lhe mudança d'ares. Ora elle, bons
ares, só comprehendia os de Cintra: porque alli
não
eram só os pulmões que lhe respiravam bem, era
tambem o coração, rapazes!... De sorte que viera
na vespera, no omnibus.
—E onde estás tu, Alencar? perguntou logo Carlos.
—Pois onde queres tu que eu esteja, filho? Lá estou
com a minha velha Lawrence. Coitada! está bem
velha! mas para mim é sempre uma amiga, é quasi
uma irmã!... E vocês, que
diabo? Para onde vão
vocês, com essas flores nas lapellas?
—A Sitiaes. Vou mostrar Sitiaes ao
maestro.
Então tambem elle voltava a
Sitiaes! Não tinha
nada que fazer senão sorver bom ar, e scismar... Toda
a manhã andara alli, vagamente, pendurando sonhos
dos ramos das arvores. Mas agora já os não
largava;
era mesmo um dever ir elle proprio fazer ao maestro
as honras de Sitiaes...
—Que aquillo é sitio muito meu, filhos! Não ha
alli arvore que me não conheça... Eu
não vos quero
começar já a impingir versos; mas emfim,
vocês lembram-se
de uma cousa que eu fiz a Sitiaes, e de que
por ahi se gostou...