Então os godos cahirão na guerra;
Então fero inimigo ha-de opprimi-los
Com ruinas sem conto, e o susto e a fome.
Hymno de S. Isidoro
em Lucas de Tui.
Chronicon liv. 3.º
No templo—Ao romper d'alva—Dia
de Natal da era de 748.
1
Mais de sete seculos são passados depois
que tu, oh Christo, vieste visitar a terra.
E as tuas palavras foram escutadas pelos
indomaveis filhos da Gothia, e elles ajoelharam
aos pés da cruz.
Era que nessas palavras divinas havia uma
poesia celeste, a qual as almas rudes mas
virgens do septemtrião sentiam casar-se com
as suas primitivas virtudes.
Tu evangelisavas a liberdade e condemnavas
todo o genero de tyrannia: tu restituias
ao valor a sua generosidade, á generosidade
a sua modestia; tu revelavas inauditos mysterios
no esforço do morrer: a constancia
dos teus martyres escurecia a dos nossos
guerreiros quando, debaixo do punhal de inimigo
victorioso, recusavam confessar-se vencidos.
Tu convertias o amor, esse sentimento delicioso,
até então limitado ao goso material
da mulher, em um grande e sublime affecto:
alargavas o ambito do coração por toda a
terra, por tudo quanto nella vive e respira,
e davas-lhe para conquistar todas as existencias
dos céus.
A generosidade, o esforço e o amor, ensinaste-os
tu em toda a sua sublimidade: só
nas almas dos barbaros estavam elles em germen.
Não para os romanos corrompidos, mas
para nós, os selvagens septemtrionaes, era o
christianismo. Para estes o evangelho assemelhava-se
ao sol que rompe d'além das serras
e que illumina, aquece e alegra; para
os escravos abjectos dos cesares assemelhava-se
ao sol mergulhando-se no mar, que só
deixa nos campos escuridão, frialdade e tristeza.
Por isso, emquanto elles voltavam as costas
á tua cruz ou a lançavam d'envolta com
os idolos nos seus mesquinhos lararios, nós
quebravamos no fundo das selvas ou no topo
das montanhas as imagens d'Odin, de Thor
e de Freda e corriamos a abraçarmo-nos
com ella.
Tem compaixão de nós, oh Christo: lembra-te
de que os ossos dos que assim o fizeram
ainda não são inteiramente cinzas debaixo
das lousas; porque só quatro seculos
tem passado por cima delles.
2
Quem é hoje christão e godo nesta nossa
terra d'Hespanha?
Uma geração degenerada pisa os restos
d'heroes: homens sem crença, blasphemos
ou hypocritas, succederam aos que criam
na grandeza moral do genero-humano e na
providencia de Deus.
D'antes, os principes do povo eram os capitães
das hostes: a espada dos reis a primeira
que se tingia no sangue dos inimigos
da patria.
D'antes, o sacerdote era o anjo da terra:
os que passavam curvavam-se para beijar a
fimbria da sua stringe; porque a paz e a
esperança entravam em todas as moradas
sobre que desciam as bençams delle.
D'antes, o juiz era o pae do opprimido, o
tribunal o abrigo do innocente, a justiça o
nervo do imperio gothico.
D'antes, nos concelhos dos prelados, dos
nobres, dos homens livres as leis íam buscar
a sancção da sabedoria e afferir-se pela
utilidade commum. Lá, o rei sabía que o
poder lhe vinha de Deus e da vontade dos
godos, que o sceptro era cajado de pastor,
não cutello d'algoz, e a coroa uma carga
pesada, não uma aureola de vangloria.
Hoje, nos paços de Toletum só retumba
o ruido das festas, os frankos e os vasconios
talam as provincias do norte, e a espada dos
guerreiros só reluz nas luctas civís.
Hoje, os principes na embriaguez dos banquetes
esqueceram-se das tradições d'avós;
esqueceram-se de que era aos capitães das
hostes da Germania que os romanos imbelles
davam o nome de reis.
Hoje, a prostituição entrou no templo do
Crucificado: os claustros das cathedraes velam
com o seu manto de pedra as abominações
da torpeza, e as mãos do sacerdote
deixam muitas vezes humedecida a tela que
veste os altares com vestigios do sangue derramado
covarde e vilmente.
Hoje, a cubiça assentou-se no logar da
equidade: o juiz vende a consciencia no mercado
dos poderosos, como as mulheres de
Babylonia vendiam a pudicicia nas praças
publicas aos que passavam, diante da luz
do dia.
Hoje, a espada substituiu o conselho dos
prelados, dos nobres e dos homens livres: a
coroa é uma conquista, a lei uma vontade do
deshonrado vencedor de pelejas domesticas,
a liberdade uma palavra mentida.
Imperio d'Hespanha, imperio d'Hespanha!
porque foram os teus dias contados?
3
O sol oriental que ora bate ridente no pavimento
da igreja afflige a minha alma, porque
me parece que, alumiando esta terra
condemnada, se assemelha a homem cruel
que viesse dar uma risada juncto ao leito do
moribundo.
Porque te havia eu de amar, oh sol, se
tu és o inimigo dos sonhos do imaginar; se
tu nos chamas á realidade, e a realidade é
tão triste?
Pela escuridão da noite, nos logares ermos
e ás horas mortas do alto silencio a
phantasia do homem é mais ardente e robusta.
É então que elle dá movimento e vida
aos penhascos, voz e entendimento ás selvas
que se meneiam e gemem á mercê da brisa
nocturna.
É então que elle collige as suas recordações;
une, parte, transmuda as imagens
das existencias que viu passar ante si e estampa
nas sombras que o rodeiam um universo
transitorio, mas para elle real.
E é bello esse mundo de phantasmas aereos,
por entre cujos labios descorados não transpiram
nem perjurio nem dobrez e a cujos
olhos sem brilho não assoma o reflexo de
animos pervertidos.
Ahi ha o repouso, a paz e a esperança
que desappareceram da terra; porque o mundo
das visões cria-o a mente pura do poeta:
ella dá corpo e vulto ao que já só é ideal,
e o passado, deixando cahir o seu immenso
sudario, ergue-se em pé e, pondo-se diante
do que medita, diz-lhe:—aqui estou eu!
E este o compara com o presente e recúa
d'involuntario terror:
Porque o cadaver que se alevanta do pó
é formoso e sancto, e o presente que vive e
passa e sorri é horrendo e maldicto.
E o poeta atira-se chorando ao seio do
cadaver e responde-lhe:—esconde-me tu!
É lá que esta alma, arida como a urze,
sente, quando ahi se abriga, refrescá-la um
como orvalho do céu.
VI
SAUDADE
Christo!—dá-me o perdão; dá-me remedio;
Que entre tão vario mal fraqueia a mente!
Eugenio Toledano:
Opusculos—XI.
Na Ilha-verde. Ao pôr do sol das
kalendas de abril da era de 749.
1
O mar estava tranquillo, e o ar puro e
diaphano. As costas d'Africa fronteiras, lá
na extremidade do horisonte, pareciam uma
orla escura bordada no manto azul do firmamento.
A aragem do norte encrespava suavemente
a superficie das aguas: as ondas vinham
espraiar-se preguiçosas no areial da bahia.
O barqueiro Ranimiro dormia na sua barca
amarrada na foz do Palmonio. Uma saudade
indizivel attrahia-me para o mar.
Saltei na barca; o ruido que fiz despertou
Ranimiro.—«Ao largo»—disse-lhe eu.
Empunhou os remos, e partimos.
«Para onde, Presbytero?»—perguntou o
barqueiro, depois de vogar alguns momentos
em silencio.
«Quero respirar o ar puro e fresco da tarde;
mais nada:—repliquei.—Leva-me para
onde te approuver.»
—Se vos parece—tornou Ranimiro—
rodeiaremos
a Ilha Verde, entraremos no
canal, e saltareis na margem. Pelo tempo
que vai, ella estará agora esmaltada de verdura
e boninas.»
Calei-me: o barqueiro tomou por approvação
o meu silencio. Voltando a proa para
poente, corremos ao largo da ilha e, rodeiando
a sua margem occidental, abicámos em
terra pelo lado da enseada que a separa do
continente.
Ranimiro não se enganara: como uma tapeçaria
riquissima lançada ao som das aguas,
a superficie da ilha agitava-se trémula com
a aragem da terra, que curvava brandamente
as flores e as folhinhas lanceoladas da relva.
Assentado á sombra de uma rocha que formava
um promontoriosinho do lado do sul,
lancei os olhos em volta até onde se descubria
o horisonte. Lá, no extremo do Estreito
para a banda do mar interior, viam-se na
ponta da Africa os cimos das torres de Septum
fronteiras aos cerros escalvados do Calpe.
De Septum para o occidente as costas africanas
contrastavam nas suas ondulações suaves
com a penedia aspera das ribas hispanicas,
e, confrangido entre os dous continentes,
o mar balouçava-se resplandecente com os
raios já inclinados do sol.
De roda de mim a atmosphera estava impregnada
de um halito perfumado: era a natureza
que sorria affagada pela primavera.
As aves aquaticas redemoinhavam nos ares
ou pousavam sobre as aguas e pareciam, nos
seus vôos incertos, ora vagarosos, ora rapidos,
folgarem com os primeiros dias da estação
dos amores.
Uma melancholia suave se me erguia lentamente
no coração, debaixo daquelle céu
puro, n'aquella atmosphera balsamica, ante
aquelles horisontes saudosos. As lagrymas rebentaram-me
involuntariamente dos olhos.
Era feliz neste momento, porque repousava
d'amarguras. Olhei para a barca: Ranimiro
adormecera de novo á proa. Repousavam
bem perto um do outro a materia e
o espirito.
Bemaventurado, pensei eu comigo, aquelle
em quem os affagos de uma tarde serena de
primavera no silencio da solidão produzem
o torpor dos membros; porque nessa alma
dormem profundamente as dores no meio
do ruido da vida!
E este pensamento trouxe-me pouco e
pouco á memoria as tempestades do passado.
Ai de mim! Logo se me enchugaram
as lagrymas, porque eram de consolação, e
essa lembrança as estancou!
2
Porque não adormeço eu, como o rude
barqueiro, ao murmurio das vagas somnolentas,
ao sussurro da brisa do norte?
Porque mulher barbara não entendeu o
que valia o amor d'Eurico; porque velho
orgulhoso e avaro sabía mais um nome de
avós do que eu, e porque nos seus cofres
havia mais alguns punhados d'ouro do que
nos meus.
As mãos imbelles de uma donzella e de
um velho esmagaram e despedaçaram o coração
de um homem, como os caçadores
covardes assassinam no fojo o leão indomavel
e generoso.
E, todavia, este coração sentia a voz da
consciencia pregoar-lhe largos destinos! Porque
não emmudeceu essa voz quando do portico
do templo lancei ao mundo a maldicção
da despedida?
Porque me lembra com saudade, aqui, a
estas horas, o tempo das minhas esperanças?
É porque o viver é o éculeo do espirito:
a alma estorce-se como agonisante no meio
dos mais incomportaveis tormentos, sem nunca
poder expirar, e os seus affectos profundos
são com ella; não lhes é dado o morrer.
Paz e esquecimento, oh meu Deus!
3
Os raios derradeiros do sol desappareceram:
o clarão avermelhado da tarde vai quasi
vencido pelo grande vulto da noite, que se
alevanta do lado de Septum. Nesse chão tenebroso
do oriente a tua imagem serena e
luminosa surge a meus olhos, oh Hermengarda,
semelhante á apparição do anjo da
esperança nas trevas do condemnado.
E essa imagem é pura e sorri; orna-lhe
a frente a coroa das virgens; sobe-lhe ao
rosto a vermelhidão do pudor;
o amiculo
alvissimo da innocencia, fluctuando-lhe em
volta dos membros, esconde-lhes as fórmas
divinas, fazendo-as, porventura, suspeitar menos
bellas que a realidade.
É assim que eu te vejo em meus sonhos
de noites de atroz saudade: mas, em sonhos
ou desenhada no vapor do crepusculo, tu não
és para mim mais do que uma imagem celestial;
uma recordação indecifravel; um consolo
e ao mesmo tempo um martyrio.
Não eras tu emanação e reflexo do céu?
Porque não ousaste, pois, volver os olhos
para o fundo abysmo do meu amor? Verias
que esse amor do poeta é maior que o de nenhum
homem; porque é immenso, como o
ideal, que elle comprehende; eterno, como o
seu nome, que nunca perece.
Hermengarda, Hermengarda, eu amava-te
muito! adorava-te só no sanctuario do meu
coração, emquanto precisava de ajoelhar ante
os altares para orar ao Senhor. Qual era o
melhor dos dous templos?
Foi depois que o teu desabou, que eu me
acolhi ao outro para sempre.
Porque vens, pois, pedir-me adorações
quando entre mim e ti está a cruz ensanguentada
do Calvario; quando a mão inexoravel
do sacerdocio soldou a cadeia da minha
vida ás lageas frias da igreja; quando o
primeiro passo alèm do limiar desta será a
perdição eterna?
Mas, ai de mim! essa imagem que parece
sorrir-me nas solidões do espaço está estampada
unicamente em minha alma e reflecte-se
no céu do oriente através destes olhos
perturbados pela febre da loucura, que lhes
queimou as lagrymas.
Tu, Hermengarda, recordares-te?! Mentira!...
Crês que morri, ou, porventura, nem
isso crês; porque para creres era preciso
lembrares-te, e nem uma só vez te lembrarás
de mim!
Lá, no tumulto dos cortezãos, onde o
amor é calculo ou sentimento grosseiro, terás
achado quem te chame sua, quem te
aperte entre os braços, quem tivesse para
dar a teu pae o preço do teu corpo e te
comprasse como alfaia preciosa para serviço
domestico. O velho estará contente, porque
trocou sua filha por ouro.
A isto chama prudencia o mundo estupido
e ambicioso; a isto, que não é mais do
que uma prostituição abençoada sacrilegamente
perante as aras sacrosanctas.
Oh, quantas vezes esse pensamento repugnante
me tem feito vagueiar louco pelas
montanhas, uivando como o lobo esfaimado
e tentando despedaçar os rochedos com
as mãos, d'onde me goteja o sangue!
E tu folgas e ris! Oxalá nunca saibas quão
intenso e atroz é o meu tormento, que devo
velar diante dos homens debaixo de aspecto
tranquillo, como se, em vez de martyrio, elle
fosse um abominavel crime.
4
E quem te disse, Presbytero, que o teu
amor não era um crime?
Tens razão, consciencia! Quando aos pés
do veneravel Siseberto o gardingo Eurico jurou
que abandonava o mundo devia despir
as paixões que do mundo trouxera.
A luz brilhante d'affeições e esperanças a
que vivia e que me povoava o coração de
felicidade devia apagar-se então, como a lampada
do templo ao amanhecer; porque eu
voltava-me para o céu, buscando a luz do
Senhor.
Mas o sol, apenas nasceu para mim, logo
desappareceu no occaso, e os que me creem
alumiado mal pensam que vivo em trevas!
As minhas paixões não podiam morrer,
porque eram immensas, e o que é immenso
é eterno.
E assim, nem ouso pedir a paz do sepulchro;
porque para mim não haveria paz,
senão no anniquilamento!
O anniquilamento! Que mal te fiz eu, oh
meu Deus, para me não deixares cá dentro
mais que uma idéa risonha, mais que um
desejo capaz de encher o abysmo da minha
desventura? Que mal te fiz eu para que esse
desejo, essa idéa seja a que unicamente resta
ao precíto que se revolve em perpetuas
angustias?
Mas para mim, como para elle, tal pensamento
é vão e mentido! Eternidade, eternidade,
a alma do homem está encerrada e
captiva no illimitado do teu imperio!
VII
A Visão
No espelho da visão está a segurança
da verdade.
Codigo wisigothico—I-1-2.
Presbyterio. Antemanhan. Oito dos
idos d'abril da era de 749.
1
O somno ou a vigilia, que me importa esta
ou aquelle? As horas da minha vida são
quasi todas dolorosas; porque a imaginação
do homem não póde dormir.
Para o povo, ignorante e impiamente credulo,
a noite é cheia de terrores; em cada
folha que range na selva elle ouve um gemido
de alma que vagueia na terra; em
cada sombra de arvore solitaria que se balouça
com a aragem sente o mover de um
phantasma; as exhalações dos bréjos são para
elle luz de demonios, alumiando folgares de
feiticeiras.
Mas, quando jaz no leito do repouso, o
seu dormir é tranquillo. Ao cruzar os umbraes
domesticos esses terrores sumiram-se
com os objectos que os geraram. A sua alma
parece despir-se da phantasia grosseira,
como o corpo se despe da stringe aspera que
lhe resguarda os membros.
Não assim eu. Quando as palpebras, cerrando-se,
m'escondem o mundo das realidades,
os olhos do espirito volvem-se para o
mundo das existencias ideaes. Ás vezes, a felicidade
e a esperança vem consolar-me então;
muitas mais, porém, os sonhos maus me
perseguem; e por bem alto preço me saem
os instantes de ventura transitoria trazidos
por visões consoladoras.
Esta foi para mim uma noite cruel. Ainda
o suor frio que me corria da fronte se não
seccou; ainda o coração parece mal caber no
peito, e o pulso bate desordenado e violento.
Terribilissimos foram os sonhos que Deus
mandou ao Presbytero; mas, porventura, mais
terrivel é a sua significação.
Diz-me voz intima que esse doloroso espectaculo
a que assistiu a minha alma é, oh
Hespanha, o mysterio dos teus destinos.
E esta foi a visão:
2
Eram as horas das trevas profundas. Sem
saber como, achava-me no viso mais alto do
Calpe: traspassava-me a medúla dos ossos
o vento frio da noite, e parecia-me que os
membros hirtos se me haviam pregado no
topo da penedia.
Olhava fito ante mim, e os meus olhos
rompiam a escuridão do horisonte, como se
a luz do sol o illuminasse.
O espectaculo maravilhoso que se passava
nesse espaço insondavel fazia-me erriçar os
cabellos, que o norte me açoutava com o
sopro gelado.
Eis o que eu vi nessa hora de agonia, depois
de estar alli alguns não sei se instantes
ou seculos.
O mar cessou de agitar-se e rugir, semelhante
ao metal fervente destinado para
a feitura d'estatua colossal que resfriasse de
subito em vasta caldeira.
E era horribilissimo ver convertido em
cadaver, de todo immovel e mudo, o oceano;
aquelle oceano que ha mais de quarenta
seculos nem um só dia deixou de revolver-se
e bramir em torno dos continentes,
como o tigre ao redor da rez que jaz
morta.
O sibillar das rajadas tambem cessou completamente.
Parado sobre a face da terra, o
ar era semelhante ao lençol do finado a
quem recalcaram a gleba que o cobre, frio,
humido, pesado, sem ranger, sem movimento,
cosido sobre o peito, onde acabou o
bater do coração e o arfar compassado dos
pulmões.
Então, muito ao longe, uma vermelhidão
tenuissima foi avultando pouco a pouco, derramando-se
pelo horisonte e repintando a
abobada immensa dos céus.
Depois, esse clarão sinistro reverberou na
terra: as cimas agudas, dentadas, tortuosas,
alvacentas das fragas marinhas tinham-se
abatido e livelado, como os cerros informes
de neve amontoada, que, derretidos nos primeiros
dias do estio, vão, despenhando-se,
formar um lago chão e morto na caldeira
mais funda do valle fechado.
Tudo a meus pés era um plano uniforme,
ermo, affogueiado, como a atmosphera
que pesava em cima delle: e, além, jazia o
cadaver do mar.
Eu, o Silencio e a Solidão eramos quem
estava ahi.
3
Subitamente, naquelle vasto horisonte, até
então puro na sua luz horrenda, dous castellos
de nuvens cerradas e negras começaram
a alevantar-se, um da banda da Europa,
outro do lado d'Africa.
Os bulcões conglobados corriam um para
o outro e multiplicavam-se, vomitando novos
castellos de nuvens, que se diffundiam, fluctuando
ennoveladas com fórmas incertas.
E aquellas montanhas vaporosas e negras
rasgaram-se d'alto a baixo em fendas semelhantes
a algares profundos, e os seus fragmentos
informes e cambiantes vacillavam
tremulos em ascensão diagonal para as alturas
do céu.
Ao approximarem-se, os dous exercitos
de nuvens prolongaram-se em frente um do
outro e toparam em cheio. Era uma verdadeira
batalha.
Como duas vagas encontradas, no meio
de grande procella, que, tombando uma sobre
a outra, se quebram em cachões que espadanam
lençoes de escuma para ambos os
lados, antes que a menos violenta se incorpore
na mais possante, assim aquellas nuvens
tenebrosas se despedaçavam, derramando-se
pela immensidão da abobada affogueiada.
Então, pareceu-me ouvir muito ao longe
um choro sentido misturado com gritos agudos,
como os do que morre violentamente,
e um tinir de ferro, como o de milhares de
espadas, batendo nas cimeiras de milhares de
elmos.
Mas este ruido foi-se alongando e cessou:
os bulcões alevantados da banda d'Africa tinham
embebido em si os que subiam da Europa,
e desciam rapidamente
para o lado
dos campos gothicos.
Depois, sentí lá embaixo, na raiz da montanha,
um rir diabolico. Olhei: o Calpe esboroava-se
ao redor de mim, e os rochedos
sobre que eu estava assentado vacillavam nos
seus fundamentos.
Despertei. Tinha os cabellos hirtos, e o
suor frio manava-me da fronte aquecida por
febre ardente.
Senhor, Senhor! foste tu que déste a ler
á minha alma a ultima pagina do livro eterno
em que a providencia escreveu a historia
do imperio godo?
Contam-se cousas incriveis desses povos
que assolam a Africa, chamados os arabes, e
que, em nome de uma crença nova, pretendem
apagar na terra os vestigios da cruz.
Quem sabe se aos arabes foi confiado o castigo
desta nação corrupta?
Já as nossas praias foram visitadas por
elles, e para os repellir cumpriu que desembainhasse
a espada o illustre Theodemiro, o
ultimo guerreiro, talvez, que mereça o nome
de neto dos godos.
Terra em que nasci, se o teu dia de morrer
é chegado, eu morrerei comtigo. Na procella
que se alevanta d'Africa deixarei submergir
o meu debil esquife, sem que a esses
gemidos que ouvi se vão ajunctar os meus.
Que m'importa a vida ou a morte, se o padecer
é eterno?
VIII
O DESEMBARQUE
E eu estava em um angulo, observando
com temor.
Paulo Diacono: Vidas dos PP.
Emeritenses.
DO PRESBYTERO DE CARTEIA AO DUQUE DE CORDUBA
Ao Duque Theodemiro, saude!
Quando Witiza reinava, na corte esplendida
de Toletum, havia dois tiuphados que
a todos serviam d'exemplo d'intima e sincera
amizade. Opiniões e intentos, alegrias e
tristezas eram communs para ambos. Chamava-se
Theodemiro o mais velho, Eurico o
mais moço. Nas suas esperanças de mancebos,
as Hespanhas foram-lhes, muitas vezes,
limitado theatro para illusões de ambição. A
gloria era o seu perpetuo sonho, e as recordações
das façanhas dos antigos godos embriagavam-lhes
os animos ao lembrarem-se
de que as armas dos seus avós da Germania
tinham brilhado victoriosas sempre sobre os
membros despedaçados do imperio romano.
Quando o grito da revolta soou na Cantabria
as tiuphadias dos dous mais irmãos que
amigos acompanhavam Witiza na expedição
contra os montanhezes rebeldes e contra os
frankos seus alliados. Então, n'essa guerra
d'exterminio, os dous mancebos viram saciada
sua sede de renome. Como os macissos
de neve que se despenham das montanhas
escarpadas da Vasconia, as duas tiuphadias
de Theodemiro e de Eurico appareciam,
ás vezes, subitamente, nos visos das serras e,
apenas os primeiros raios do sol faziam reluzir
as armas, semelhantes no brilho tremulo
ao alvejar da geada, ei-las que pareciam
rolar-se pela encosta, e, dentro de pouco,
os acampamentos dos frankos e cantabros
ficavam esmagados debaixo do impeto irresistivel
dessas pinhas de soldados que eram
arremessados sobre os inimigos por duas vontades
emulas de gloria. Expulsos os estrangeiros
e submettidos os rebellados, a hoste
real entrou victoriosa em Tárraco. O duque
Favilla recebeu em triumpho os pacificadores
de Cantabria, e Theodemiro e Eurico
obtiveram a recompensa do que combateu
pela patria, a gratidão dos seus naturaes.
Foi ahi que o destino preparou a separação
dos dous guerreiros que parecia só a morte
poder dividir. Favilla tinha dous filhos,
Hermengarda e Pelagio. Pelagio saía apenas
da infancia, mas para Hermengarda despontavam
já então os risonhos dias da juventude.
A sua formosura era celestial: Eurico
viu-a e amou-a. Quando as tiuphadias
foram chamadas a Toletum, Eurico voltou
triste á terra da sua infancia. Dir-se-hia que
eram os contentamentos da patria que elle
trocava pelas tristezas do desterro. Debalde
buscou Theodemiro apagar aquella paixão
violenta no coração do seu amigo, lançando-se
com elle nas festas ruidosas de uma corte
dissoluta. A embriaguez dos banquetes era
para Eurico tristonha; as caricias feminís,
facilmente compradas e profundamente mentidas,
atrás das quaes correra loucamente outr'ora,
tinham-se-lhe tornado odiosas; porque
o amor, com toda a sua virgindade sublime,
lhe convertera em podridão asquerosa
os deleites grosseiros que o mundo offerece
á sensualidade do homem. Theodemiro acreditara
na efficacia da bruteza para matar o
mais formoso dos affectos humanos; mas o
amor devorou na mente de Eurico todos os
outros sentimentos, como a lava candente devora
tudo o que encontra, quando o vulcão
a vomita, alagando a superficie da terra.
Favila veio á corte: Hermengarda acompanhava-o.
Theodemiro recordar-se-ha ainda
de qual foi o desfecho do amor de Eurico,
que ousou dizer ao velho procer: «Dá-me
por mulher tua filha.» A amizade de Theodemiro
salvou então o desprezado gardingo
da morte do corpo, mas não pôde salva-lo
da morte da alma. Razões, rogos, lagrymas;
quanto a eloquencia de affeição mais que fraterna
tem de vehemencia; quantas cordas do
coração sabe fazer vibrar a mão de um amigo,
tudo elle tentou debalde! Não ha palavras
que possam erguer um espirito que deu
em terra; mão nenhuma tira sons de cordas
que estalaram. Eurico ou, antes, a sua sombra,
fugiu do lado de Theodemiro, e da porta
do sanctuario disse-lhe um adeus eterno,
como ao resto do mundo.
Mal sabía o desgraçado que n'esse adeus
a sua consciencia mentia a si propria! Theodemiro,
tu hoje és duque de Corduba: entre
os povos sujeitos ao teu imperio; entre
os que abençoam a tua justiça e bondade,
n'um angulo da vasta provincia da Betica,
em Carteia, vive um pobre presbytero que
para ti pede ao Senhor tanto o renome e o
poderio quanto para si deseja a obscuridade
e o esquecimento. Este presbytero é quem
te escreve; quem limitou a bem poucos annos
a eternidade do adeus que te dissera;
é aquelle que se chamava no mundo o gardingo
Eurico, aquelle de quem foste amigo,
e que foi teu rival de gloria.
Duque de Corduba, não creias que o meu
espirito se volte hoje para as miserias da
terra, impellido por uma tardia saudade.
Não! De que me serviriam o ouro, o poder
e a grandeza? Para tomar um punhado desse
lodo não se curvaria o Presbytero. O unico
affecto eterno que, talvez, resta a este coração
depurado pelo fogo ardente da desdita,
o amor da patria, sentimento confuso e
indefinido, mas indelevel, é quem obriga Eurico
a dizer-te o logar em que veio coar gota
a gota as horas aborridas da sua tormentosa
existencia.
Theodemiro! Theodemiro! Um dia tremendo
se approxima em que a Hespanha
deve ser o tumulo da raça goda. Em sonhos
antevi esse dia, e, após dos sonhos, a medonha
realidade ahi se me alevanta diante
dos olhos. Carteia está deserta, como as demais
povoações vizinhas. Apenas eu ouso demorar-me
nas immediações do Calpe; porque
sei, passo a passo, todas as veredas que
guiam ao topo dos desfiladeiros, tendo-as
regado muitas vezes com lagrymas, tendo-lhes
muitas mais confiado a historia das minhas
agonias. As cidades despovoam-se, e,
como ellas, os campos convertem-se em ermos.
Embora ainda sorriam no vecejar das
searas, no florescer dos pomares, no murmurar
das fontes: semelhante sorrir consterna;
porque o homem desappareceu do
meio desta scena formosa, e o ruido da vida
converteu-se em silencio de morte.—Os
arabes!—eis o unico grito que o interrompe;
e esta palavra maldicta é como a peste
quando passa: seguem-na o susto e o desacordo.
A vileza do coração humano surge após
ella em toda a hediondez do seu aspecto. O
terror acabou com os mais sanctos affectos
e, até, com o amor filial e paterno. Cada qual
busca salvar-se a si proprio. Os netos dos
nobres godos converteram-se n'um bando
desprezivel de covardes egoistas.
Ha tres dias, ao romper da manhan, um
grande numero de velas branquejava sobre
as aguas do Estreito; vinham do lado de
Septum. Corremos á praia. Dentro de poucas
horas entraram na bahia de Carteia, e
algumas entestaram com a Ilha-Verde. Via-se
distinctamente o reluzir das armas, e varios
soldados que tinham ajudado a repellir
os primeiros saltos dos africanos nas costas
d'Hespanha reconheceram logo os trajos e
as armas dos arabes. Entre estes, porém,
divisavam-se muitos godos, pelas armaduras
pesadas, pelos largos ferros dos frankisks e
pelas stringes mais curtas que as amplas vestiduras
dos filhos do Oriente. D'ahi a pouco
toda a frota velejou para o lado do Calpe,
e, quando anoiteceu, as faldas da montanha
appareceram alumiadas por muitos fachos.
Os arabes tinham desembarcado.
A anciedade era indizivel. Demudadas as
faces, olhavamos uns para os outros. Elles
tremiam por si: eu pela sorte da Hespanha.
Mas porque entre esses que pareciam inimigos
se achava tão avultado numero de godos?
Esta pergunta significava a nossa derradeira
esperança.
Ao entenebrecer, alguns barqueiros saíram
ao largo e, vogando surdamente, foram espiar
a frota. Tomando os atalhos mais curtos,
eu encaminhei-me sósinho para o Calpe,
cujo vulto gigante, rodeiado de fachos ao
sopé, negrejava no topo sobre o fundo alvacento
do céu limpo de nuvens, onde a lua
passava tranquilla, embargando com o seu
clarão pallido o scintillar das estrellas.
Era alta noite quando cheguei á montanha.
Subindo pelas quebradas, salvando precipicios,
cozendo-me com as fragas tortuosas,
descendo pelos leitos das torrentes, cheguei
a um rochedo contiguo á planicie que das
raizes da serrania vai morrer no rolo do mar,
na costa oriental da bahia. Era ahi que os
arabes, desamparando a frota, se haviam
acampado. Comprimindo o alento, approximei-me
insensivelmente de uma tenda mais
vasta, alevantada juncto do penhasco a que
eu chegara sem ser percebido. Por uma fenda
que deixavam as telas mal unidas do pavilhão
descortinei o que se passava no interior
á luz das tochas que tinham nas mãos
dous ethiopes, cujos rostos negros contrastavam
com a brancura das suas roupas. Assentado
no chão, com os braços cruzados,
um arabe mancebo parecia escutar attentamente
um guerreiro godo que, em pé no meio
de outros dous, tinha as costas voltadas para
mim. Com espanto e ao mesmo tempo com
alegria, percebi que se exprimia em romano
rustico, o qual, d'ahi a pouco, vi que o moço
arabe falava como se fosse a propria linguagem.
Comecei então a escutar attentamente.
«Tarik—dizia o godo—ámanhan ao romper
d'alva é necessario que todos estes penhascos
empinados sobre nossas cabeças se
coroem de teus soldados e que não tardes
em fortificar essa estreita passagem que une
o promontorio do Calpe com o resto do continente.
É aqui, nestas serras inaccessiveis,
que deves esperar o resto dos libertadores
da Hespanha: é d'aqui que deves saír com
os teus irmãos do deserto para quebrar o
sceptro do tyranno Ruderico. Se a sorte das
armas nos for contraria, esperaremos neste
logar novos soccorros d'Africa. Septum nos
fica fronteiro, e Septum entreguei-t'o eu...»
Tarik não o deixou continuar. Como o leão,
pulando subitamente dos juncaes da Mauritania,
o moço arabe pôs-se em pé, com o
gesto colerico, e exclamou:
«Wali dos christãos! quem te fez crer que
Tarik podia ser vencido? Vi em sonhos o propheta
de Deus que me disse:—a Hespanha
curvar-se-ha ao koran:—e Mohammed não
mente! Ainda sem ti, eu me teria arrojado
sobre o imperio godo, e a minha lança o faria
cahir a meus pés moribundo, quando Sebta
me tivesse fechado as portas; quando todos
vós os godos estivesseis unidos contra mim.
Deus é grande, e Mohammed o seu propheta!»
As palavras violentas do arabe revelaram-me
quem era o guerreiro godo. Juliano capitaneiou,
como nós, uma tiuphadia na guerra
cantabrica e foi valente soldado. Sabía que
elle fora elevado á dignidade de conde de Septum
e que ahi se cubrira de gloria, repellindo
os inimigos do imperio, que já tinham
tentado conquistar aquella provincia. Como
e porque atraiçoou a terra natal? Odios civís
o levaram a tanta infamia, segundo entendi
das suas palavras. Parricida e fratricida
a um tempo, busca vingar-se, talvez de bem
poucos de seus irmãos, esmagando-os debaixo
das ruinas da patria. A memoria deste
malaventurado será reproba e maldicta das
gerações remotas!
Juliano parecia querer responder ao mancebo,
quando um soldado entrou com um
rolo de pergaminho na mão e, entregando-o
a Tarik, proferiu algumas palavras em arabe.
Tarik olhou então para Juliano com um
sorriso e, estendendo-lhe a dextra, disse-lhe
em voz baixa:
«
Wali de Sebta! perdoa-me este impeto,
como me tens perdoado tantos outros. Bem
sei que não podes comprehender o que é a
fé viva de um mosselemano na protecção de
Deus: mas eu sería réu do inferno, se duvidasse
um instante das promessas do Propheta.
O judeu Zabulon acaba de chegar com
essa carta do que vós chamaes bispo de Hispalis.
Lê-a e dize-me que novas ha de Ruderico.»
Juliano desdeu o nó da carta e leu. Batia-me
o coração de furor; mas procurei tranquillisar-me.
Importava-me assás conhecer o
que ella continha para dever prestar toda a
attenção possivel ás palavras do conde Juliano.
«Ruderico—disse este, acabando de correr
com os olhos o rolo de pergaminho—entregue
aos banquetes e festas, não acredita
que o dia da vingança amanhecesse para
a Hespanha: todavia, logo que a noticia indubitavel
da nossa vinda retumbar sob os
tectos dourados dos paços de Toletum, elle
convocará os seus numerosos soldados, as
suas tiuphadias veteranas, e arremessar-se-ha
contra nós; porque Ruderico é dissoluto
e perverso, mas nunca foi covarde. O prudente
Oppas pensa, como eu, que importa fortificar-nos
no Calpe. Aconselha-o a sciencia
da guerra, e, se, como crente, confias no teu
propheta para contar com a victoria, como
capitão deves seguir os conselhos da prudencia
humana. Tambem eu espero no Deus das
batalhas—proseguiu o conde em tom de
mofa, batendo no punho da espada;—tambem
eu tenho a minha providencia; mas a
aguia, quando se arroja sobre a prêa, tem
já construido o seu ninho no penhasco da
montanha, e as penedias do Calpe devem ser
o ninho das aguias que pairam sobre o throno
de Ruderico.»
Tarik ficou por alguns momentos calado
e pensativo:
«Seja como te aprouver:—disse por fim.—Busca
no exercito os melhores artifices
arabes e com elles e com os teus godos alevanta
esses vallos em que põe sua confiança
o teu coração descrido.»
«Houve um tempo em que não o foi:—replicou
Juliano com o accento da colera misturada
de indignação e tristeza:—mas Witiza
dorme debaixo d'uma lousa o somno da
eternidade, e o seu assassino chama-se o rei
dos godos. Elle folga e ri assentado no throno
que lhe deu a traição e o perjurio. Tarik,
o teu propheta inspira-te em sonhos; mas a
vingança é mais segura inspiração, porque
é o sonho perenne do homem desperto, quando
vê, assim, falhar a justiça do céu, se é que
nelle ha justiça.»
Proferindo estas palavras blasphemas, Juliano
saíu da tenda. Tarik bateu as palmas,
e um guerreiro ethiope, cujos olhos lhe reluziam
sanguineos na pretidão do rosto, entrou
com os braços cruzados e ficou immovel
e curvado diante de Tarik. Pareceu-me
que este lhe ordenava o que quer que fosse;
mas falava na sua linguagem barbara, e
não o pude entender.
Sabía assás qual era a situação e quaes
os accidentes do solo de todos os desvios do
Calpe para perceber que a minha demora
naquelles sitios podia tornar-me impossivel a
saída. A defensa do promontorio consistia
unicamente em cortar com vallos e cavas o
isthmo que o liga ao continente. Juliano começaria,
talvez, a alevantar as tranqueiras nessa
mesma noite; era, portanto, necessario partir.
Quando atravessei a serra pelos trilhos
mais curtos e escusos, conheci que o meu
receio fora bem fundado. Parando no topo
de uma penedia, donde se divisava ao redor
quasi toda a montanha, vi centenares de fachos
que vacillavam, correndo tortuosamente
pelas ladeiras, sumindo-se, tornando a apparecer,
retrocedendo. O todo daquella illuminação
terrivel estendia-se em volta da montanha,
formando uma extensa meia lua, cujas
pontas cresciam para o isthmo, ao passo
que se approximavam uma da outra, estreitando
o cume da serrania. Era visivel que
alguem practico nas apertadas gargantas, nas
sendas intrincadas do promontorio, guiava os
barbaros. Convinha fugir, não porque m'importasse
o morrer, mas porque, talvez, a Providencia
me guiara á tenda de Tarik para
que as Hespanhas fossem salvas, se é que
ella não escreveu irrevogavelmente a sua condemnação
no livro dos eternos designios.
Theodemiro, vê que a traição, semelhante
ao veneno recentemente bebido, que gyra nas
veias e ainda não apparece no aspecto, está
por toda a parte e, até, penetra no sanctuario.
É necessario esforço e vigilancia, já que as
dissenções civís quizeram que
os golpes do
frankisk godo hajam de se vibrar sobre a
fronte de godos que combatem ao lado do estrangeiro
infiel; já que a perfidia póde abrir
as portas das nossas cidades aos africanos,
sem que estes tenham de passar por cima
dos cadaveres de seus irmãos, para se assenhoreiarem
dellas. Cumpre que avises Ruderico.
Em Hispalis está Oppas, e Oppas tem
comsigo numerosos clientes, que, porventura,
entregarão aos invasores a mais formosa
e opulenta entre as povoações da Betica. Não
tardará que os arabes desçam do Calpe e
se derramem pelas provincias da Hespanha.
Ha dous dias, em que vagueio, quasi só, nas
immediações de Carteia, não se passa uma
hora, sem que os navios d'Africa venham vomitar
na bahia novos esquadrões de soldados.
Semelhante aos éstos do mar, é rapido
o seu ir e voltar. Dentro d'oito dias, bem
custoso sería resistir a Tarik com todo o poder
do imperio, quanto mais divididos os godos
em dous bandos, um dos quaes pelejará
ao lado dos inimigos.
Dir-to-hei, Duque de Corduba: tambem
eu não amo Ruderico; porque a memoria
de Witiza nunca morrerá no coração do seu
antigo gardingo. Sei por quaes meios Ruderico
subiu ao throno, que não obteria pela
eleição dos godos. Mas não é a sua coroa que
os filhos das Hespanhas tem hoje que defender;
é a liberdade da patria; é a nossa crença;
é o cemiterio em que jazem os ossos dos
nossos paes; é o templo e a cruz, o lar domestico,
os filhos e as mulheres, os campos
que nos sustentam e as arvores que nós plantámos.
Para mim, de todos estes incentivos,
apenas restam dous; o amor da terra natal
e a crença do evangelho. No dia do combate,
Eurico despirá a stringe innocente do sacerdocio
e vestirá as armas para defender estes
objectos queridos dos seus derradeiros
affectos. Que, tambem, esses que ainda se enlaçam
ás illusões e esperanças, como a hera
ás ruinas, se ergam para pelejarem batalhas
tremendas, porque o serão, por certo, as que
nos aguardam; e oxalá que os meus tristes
sonhos sejam desmentidos pelo esforço dos
guerreiros godos; oxalá que não esteja para
bater a derradeira hora do dominio da cruz
nesta terra do occidente, regada pelo sangue
de tantos martyres!
De Mellaria, aonde me acolhi com grande
numero dos moradores de Carteia e dos
seus arredores, continuarei as minhas correrias
nocturnas para as bandas do Calpe, com
os homens mais ousados que quizerem acompanhar-me,
até que os arabes desçam da sua
guarida, e seja inutil o vigiá-los; até que chegue
o dia em que os desgraçados, como eu,
achem na morte honrada das pelejas o repouso
das amarguras da vida, se é que além
do morrer ha o repouso do espirito.
DO DUQUE DE CORDUBA AO PRESBYTERO.