Da morte ás trévas,
Immortal, te diriges!
Merobaude:
Poema de Christo.
A ventura das armas mosselemanas tinha
chegado ao apogeu, e a sua declinação começava,
finalmente. E na verdade, a ira celeste
contra os godos parecia dever estar satisfeita.
O solo da Hespanha era como uma
ara immensa, onde as chammas das cidades
incendiadas serviam de fogo sagrado para
consummir aos milhares as victimas humanas.
O silencio do desalento reinava por toda
a parte, e os christãos viam com apparente
indifferença os seus vencedores polluirem as
ultimas cousas que, até sem esperança, ainda
defende uma nação conquistada—as mulheres
e os templos. Theodemiro pagava bem
caro o procedimento que o desejo de salvar
os seus subditos o movera a seguir. O pacto
feito por elle com os arabes não tardou a ser
por mil modos violado, e o illustre guerreiro
teve de se arrepender, mas já debalde, por
haver deposto a espada aos pés dos infiéis,
em vez de pelejar até a morte pela liberdade.
Fora isto o que Pelagio preferira, e a victoria
coroou o seu confiar no esforço dos verdadeiros
godos e na piedade de Deus.
Os que tem lido a historia daquella epocha
sabem que a batalha de Cangas de Onis
foi o primeiro élo dessa cadeia de combates
que, prolongando-se através de quasi oito
seculos, fez recuar o koran para as praias
d'Africa e restituiu ao evangelho esta boa
terra d'Hespanha, terra, mais que nenhuma,
de martyres. Na batalha de juncto do Auseba
foram vingados os valentes que pereceram
nas margens do Chryssus; porque mais
de vinte mil sarracenos viram pela ultima vez
a luz do sol naquellas tristes solidões. Mas,
nesse dia da punição, esta devia abranger
assim os infiéis, como os que lhes haviam
vendido a patria e que ainda vinham disputar
a seus irmãos a dura liberdade de que gosavam
nas brenhas intractaveis das Asturias.
O ardil de Pelagio para resistir com vantagem
aos mosselemanos, cem vezes mais numerosos
que os christãos, surtira o desejado
effeito. Ainda que muito a custo, os cavalleiros
enviados em cilada para a floresta á
esquerda das gargantas de Covadonga poderam
chegar ahi sem serem sentidos dos arabes,
que se haviam approximado mais cedo
do que o fizera crer a narração do velho
Vellido. Os infiéis pararam nas bordas do
Deva, no sitio em que rompia do valle, e
os seus almogaures tinham ousado penetrar
ávante. Os cavalleiros da cilada, que a pouca
distancia passavam manso e manso, ouviram
distinctamente o tropeiar dos ginetes inimigos.
Mas, quando, ao primeiro alvor da manhan,
Pelagio se encaminhava com o seu pequeno
esquadrão para a garganta das serras,
já os arabes rompiam por ella e começavam
a espraiar-se, como ribeira que, saindo de
leito apertado, se dilata pela campina. Os
christãos recuaram, e os infiéis, attribuindo
ao temor esta fuga simulada, precipitaram-se
após elles. Pouco a pouco, o duque de Cantabria
attrahiu-os para a entrada da gruta
de Covadonga. Chegado alli, pondo á boca
a sua buzina, tirou um som prolongado. Immediatamente
os cimos dos rochedos, que
pareciam inaccessiveis, cubriram-se de fundibularios
e frecheiros, e uma nuvem de tiros
choveu de toda a parte sobre os africanos
e sobre os renegados godos. Vacillaram;
mas o desejo da vingança levou-os a apinharem-se,
esquadrões após esquadrões, á entrada
da caverna, onde, finalmente, encontravam
desesperada resistencia. Então, como se
despegassem do céu, grandes rochedos começaram
a rolar sobre elles dos cimos do
precipicio que lhes ficava sobranceiro. Mãos
invisiveis os impelliam. Cada rocha traçava
no meio daquelle vulto informe que oscillava,
naquella vasta planicie de alvos turbantes
e de capacetes reluzentes, uma escura mancha,
semelhante a chaga horrivel. Eram dez
ou vinte guerreiros, cujos membros esmagados,
cujos ossos triturados, cujo sangue confundido
espirravam por cima das frontes dos
seus companheiros. Era medonho!—porque
a esse espectaculo se ajunctava o grito de
raiva e desesperação dos pelejadores, grito
feroz e agudo, só comparavel ao bramido de
cem leoas a quem os caçadores do Atlas houvessem,
na ausencia dellas, roubado os seus
cachorrinhos.
Pela volta da tarde, apenas do numeroso
e brilhante exercito dos arabes alguns milhares
de cavalleiros fugiam desalentados diante
dos foragidos das Asturias, que os perseguiam
incansaveis além de Cangas de Onis.
Fora no momento em que Pelagio penetrava,
na sua fingida fuga, sob o vasto portal
da gruta que o cavalleiro negro saía. O
joven guerreiro viu-o e estremeceu. Eurico
tinha as faces encovadas, o rosto pallido e
transtornado, e havia em todo o seu gesto
uma tão singular expressão de tranquillidade
que fazia terror. Emquanto os christãos defendiam
a entrada elle esteve quedo, como
indifferente ao combate; mas, logo que os
arabes, acommettidos já pelas costas, principiaram
a recuar, e que Pelagio pôde combater
na planicie, o cavalleiro, abrindo caminho
com o frankisk, desappareceu no meio
dos inimigos. Desde esse momento, debalde
o duque de Cantabria o buscou: nem elle,
nem ninguem mais o viu.
Era quasi ao pôr do sol. Seguindo a corrente
do Deva, a pouco mais de duas milhas
das encostas do Auseba, dilatava-se nessa
epocha denso bosque de carvalhos, no meio
do qual se abria vasta clareira, onde sobre
dous rochedos aprumados assentava um terceiro.
Era, provavelmente, uma ara celtica.
Em frente de tosca ponte de pedras brutas
lançada sobre o rio, uma senda estreita e
tortuosa atravessava a selva e, passando pela
clareira, continuava por meio dos outeiros
vizinhos, dirigindo-se, nas suas mil voltas,
para as bandas da Gallecia. Quatro cavalleiros,
a pé e em fio, caminhavam por aquelle
apertado carreiro. Pelos trajos e armas, conhecia-se
que eram tres christãos e um sarraceno.
Chegados á clareira, este parou de
repente e, voltando-se com aspecto carregado
para um dos tres, disse-lhe:
«Nazareno, offereceste-nos a salvação, se
te seguissemos: fiámo-nos em ti, porque não
precisavas de trahir-nos. Estavamos nas mãos
dos soldados de Pelagio, e foi a um aceno
teu que elles cessaram de perseguir-nos. Porém
o silencio tenaz que tens guardado gera
em mim graves suspeitas. Quem és tu? Cumpre
que sejas sincero, como nós. Sabe que
tens diante de ti Mugueiz, o amir da cavallaria
arabe, Juliano, o conde de Septum e
Oppas, o bispo d'Hispalis.»
«Sabía-o:—respondeu o cavalleiro—por
isso vos trouxe aqui. Queres saber quem sou?
Um soldado e um sacerdote do Christo!»
«Aqui!?... atalhou o amir, levando a mão
ao punho da espada e lançando os olhos em
roda. Para que fim?»
«A ti, que não eras nosso irmão pelo berço;
que tens combatido lealmente comnosco,
inimigos da tua fé; a ti que nos opprimes,
porque nos venceste com esforço e á luz do
dia, foi para te ensinar um caminho que te
conduza em salvo ás tendas dos teus soldados.
É por alli!... A estes, que venderam
a terra da patria, que cuspiram no altar
do seu Deus, sem ousarem francamente renegá-lo,
que ganharam nas trevas a victoria
maldicta da sua perfidia, é para lhes ensinar
o caminho do inferno... Ide, miseraveis,
segui-o!»
E quasi a um tempo dous pesados golpes
de frankisk assignalaram profundamente os
elmos de Oppas e Juliano. No mesmo momento
mais tres ferros reluziram.
Um contra tres!—Era um combate calado
e temeroso. O cavalleiro da cruz parecia
desprezar Mugueiz: os seus golpes retiniam
só nas armaduras dos dous godos.
Primeiro
o velho Oppas, depois Juliano cahiram.
Então, recuando, o guerreiro christão exclamou:
«Meu Deus! Meu Deus!—Possa o sangue
do martyr remir o crime do Presbytero!»
E, largando o frankisk, levou as mãos ao
capacete de bronze e arrojou-o para longe
de si.
Mugueiz, cego de colera, vibrara a espada:
o craneo do seu adversario rangeu, e
um jorro de sangue salpicou as faces do sarraceno.
Como tomba o abeto solitario da encosta
ao passar do furacão, assim o guerreiro mysterioso
do Chryssus cahia para não mais se
erguer!...
Nessa noite, quando Pelagio voltou á caverna,
Hermengarda, deitada sobre o seu
leito, parecia dormir. Cansado do combate
e vendo-a tranquilla, o mancebo adormeceu,
tambem, perto della, sobre o duro pavimento
da gruta. Ao romper da manhan, acordou
ao som de cantico suavissimo. Era sua irman
que cantava um dos hymnos sagrados que
muitas vezes elle ouvira entoar na cathedral
de Tárraco. Dizia-se que seu auctor fora um
Presbytero da diocese de Hispalis, chamado
Eurico.
Quando Hermengarda acabou de cantar
ficou um momento pensando. Depois, repentinamente,
soltou uma destas risadas que fazem
erriçar os cabellos, tão tristes, soturnas
e dolorosas são ellas: tão completamente exprimem
irremediavel alienação d'espirito.
A desgraçada tinha, de feito, enlouquecido.
NOTAS
Sou eu o primeiro que não sei classificar este livro;
nem isso me afflige demasiado. Sem ambicionar
para elle a qualificação de poema em prosa—que
não o é por certo—tambem vejo, como todos
hão-de ver, que não é um romance historico, ao
menos conforme o creou o modelo e a desesperação
de todos os romancistas, o immortal Scott. Pretendendo
fixar a acção que imaginei n'uma epocha de
transição—a da morte do imperio gothico, e do
nascimento das sociedades modernas da Peninsula,
tive de luctar com a difficuldade de descrever successos
e de retratar homens que, se, por um lado,
pertenciam a eras que nas recordações da Hespanha
tenho por analogas aos tempos heroicos da Grecia,
precediam immediatamente, por outro, a epocha
a que, em rigor, podemos chamar historica,
ao menos em relação ao romance. Desde a primeira
até a ultima pagina do meu pobre livro caminhei
sempre por estrada duvidosa traçada em terreno
movediço; se o fiz com passos firmes ou vacillantes,
outros, que não eu, o dirão.
Conhecemos, talvez, a sociedade wisigothica
melhor que a d'Oviedo e Leão, que a do nosso
Portugal no primeiro periodo da sua existencia
como individuo politico. Sabemos melhor quaes
foram as instituições dos godos, as suas leis, os
seus usos, a sua civilisação intellectual e material,
do que sabemos o que era isso tudo em seculos
mais proximos de nós. O esplendor dos paços, as
formulas dos tribunaes, os ritos dos templos, a
administração, a milicia, a propriedade, as relações
civís são menos nebulosas e incertas para nós nas
eras gothicas que durante o longo periodo da restauração
christan. E, comtudo, o reproduzir a vida
dessa sociedade, que nos legou tantos monumentos,
com as fórmas do verdadeiro romance historico
temo-lo por impossivel, ao passo que o representar
a existencia dos homens do undecimo ou
dos seguintes seculos será para o que os tiver estudado,
não digo facil, mas, sem duvida, possivel.
Qual é a causa d'isto?
É que nós conhecemos a vida publica dos wisigodos
e não a sua vida íntima, emquanto os seculos
da Hespanha restaurada revelam-nos a segunda
com mais individuação e verdade que a primeira.
Dos godos restam-nos codigos, historia, litteratura,
monumentos escriptos de todo o genero,
mas os codigos e a litteratura são reflexos, mais ou
menos pallidos, das leis e erudição do imperio romano,
e a historia desconhece o povo. O gothicismo
hespanhol, ao primeiro aspecto, parece mover-se.
Palpamo-lo: é uma estatua de marmore, fria,
immovel, hirta. As portas das habitações dos cidadãos
cerram-nas os sete sellos do Apocalypse: são
a campa da familia. A familia goda é para nós como
se nunca existira.
Não cabe n'uma nota o fazer sentir esse não sei
quê de magestade
esculptural que conserva sempre
a raça wisigothica, por mais que tentemos galvanisá-la,
nem o contrapor-lhe as gerações nascidas
durante a reacção contra o islamismo, que surgem
e agitam-se e vivem quando lhes applicamos
a corrente electrica e mysteriosa que, partindo da
imaginação, vai despertar os tempos que foram do
seu calado sepulchro.
Desta differença, que é mais facil sentir que definir,
nasce a necessidade de estabelecer uma distincção
nas fórmas litterarias applicadas ás diversas
epochas da antiga Hespanha, a romano-germanica,
e a moderna.
O periodo wisigothico deve ser para nós como
os tempos homericos da Peninsula. Nos cantos do
Presbytero tentei achar o pensamento e a cor que
convem a semelhante assumpto, e em que cumpre
predominem o estylo e fórmas da Biblia e do Edda—as
tradições christans, e as tradições gothicas,
que, partindo do oriente e do norte, vieram encontrar-se
e completar-se, em relação á poesia da vída
humana, no extremo occidente da Europa.
O romance historico, como o concebeu Walter
Scott, só é possivel áquem do oitavo—talvez só
áquem do decimo seculo; porque só áquem dessa
data a vida da familia, o homem sinceramente homem,
e não ensaiado e trajado para apparecer na
praça publica, se nos vai pouco a pouco revelando.
As fórmas e o estylo que convem aos tempos wisigothicos
seriam, desde então, absurdos e, parece-me,
até, que ridiculos.
A Hespanha romano-germanica transformou-se
na Hespanha rigorosamente moderna no terrivel
cadinho da conquista arabe. A obra litteraria (novella
ou poema—verso ou prosa—que importa?)
relativa a essa transição deve combinar as duas
fórmulas—indicar as duas extremidades a que se
prende; fazer sentir que o descendente de Theoderik
ou de Leuwighild será o ascendente do Cid
ou do lidador; que o heroe se vai transformar em
cavalleiro; que o servo, entidade duvidosa entre
homem e cousa, começa a converter-se em altivo
e irrequieto burguez.
E a fórma e o estylo devem approximar-se mais
ou menos d'um ou d'outro extremo, conforme a
epocha em que lançamos a nossa concepção está
mais vizinha ou mais remota da que vai deixando
d'existir ou da que vem surgindo. A difficultosa
mistura dessas cores na palheta do artista nenhuma
doutrina, nenhum preceito lh'a diz: ensinar-lh'a-ha
o instincto.
Tive eu esse instincto?—É mais provavel o não
que o sim.—Se a arte fora facil para todos os que
tentam possuí-la, não nos faltariam artistas!
Hesitei muito tempo sobre se conviria usar dos
nomes proprios, quer de pessoas quer de logares,
como as successivas alterações da linguagem na
Hespanha os foram transformando, a ponto de muitos
delles se acharem hoje totalmente diversos do
que eram na sua origem. Destas mudanças, aquellas
que apenas consistiam no augmento ou diminuição
de uma letra, ou na diversidade das desinencias,
podiam, talvez, ser admittidas sem darem
um aspecto anachronico ao livro. Outros nomes,
porém, havia, sobretudo nas designações corographicas,
tão completamente alterados, que me repugnava
o substituir o moderno ao antigo. Assim
Toletum, Emérita seriam sem difficuldade representados
por Toledo e Mérida; mas, como substituir,
sem anachronismo na expressão, Sevilha a
Hispalis, Leão a Legio, Guadalete a Chryssus e,
finalmente, Burgos a Augustobriga, quando, como
neste caso, até a situação da moderna cidade não
é exactamente a da antiga povoação? Preferi, portanto,
conservar os nomes primitivos, os quaes,
não influindo de modo algum na ordem e clareza
da narrativa, podem facilmente encontrar-se em
qualquer diccionario ou tractado de geographia
antiga.
Aos nomes individuaes dos primeiros wisigodos
procurei conservar, quando alludi a elles, os vestigios
da origem gothica: aos dos personagens do
meu livro conservei as fórmas alatinadas que se
encontram nos monumentos contemporaneos, porque,
segundo todas as probabilidades, já nesta epocha
o elemento romano de todo havia triumphado
na lingua.
Uma das cousas mais disputadas na historia das
instituições gothicas é a natureza dessa classe de
individuos, que tantas vezes figuram nos monumentos
daquellas epochas, chamados gardingos
(
gardigg em lingua gothica). Masdeu e com elle
Romey, que o traduz quasi sempre ácerca da historia
dos wisigodos, postoque não o cite senão neste
logar, são de parecer que o gardingato não era um
titulo de nobreza, mas do cargo de substituto do
duque (governador de provincia) como o
vicarius
o era do conde (governador de cidade). Aschbach
deriva a palavra de
Gards, que significa
solar com
terras adjacentes, e parece querer confirmar assim
a opinião de Vossio, que pretendia fossem os administradores
ou almoxarifes dos palacios reaes, opinião
que sería mui difficil de sustentar á vista de
varios monumentos hispano-gothicos. Segui o parecer
de Grimm e Lembke, que suppõem formarem
os
gardiggos uma classe de
curiales (cortesãos)
ou nobres. Neste caso não serviria a etymologia
gards para indicar no gardingato uma nobreza
estribada
sobre certa extensão e importancia de propriedade
territorial, formando a terceira classe de
nobreza depois dos
duces e
comites? Rosseeuw-Saint-Hilaire
pensa-o assim e faz o gardingo synonimo
de
Procer. Procer, todavia, não indicava
em especial o gardingo, mas era denominação generica
da nobreza.
Quanto ao cargo de tiuphado ou tiufado, deve
saber-se que o exercito godo se dividia em corpos
de mil homens, e estes em companhias e esquadras
de cem e de dez. Abaixo do tiuphado (
thiud ou
theod povo e
fath conduzir, ou,
segundo outra
derivação,
taihunda mil e
fath)
que, tambem, se
chamava millenario (da etymologia latina
mille)
estava o quingentario, segundo uns, capitão de
quinhentos homens, especie de major dos regimentos
modernos, e, segundo outros, substituto
do tiuphado ou semelhante aos nossos tenentes-coroneis.
A companhia de cem homens (
centuria)
era regida por um
centenario, e a de dez
(
decania)
por um
decano.
O vestido civil dos wisigodos era uma especie
de tunica chamada
Stringe ou
Strigio, já d'antes
conhecida pelos romanos. O clero usava deste trajo
como os seculares, com a differença de ser branco
ou d'outra cor modesta, porque o havia, até, cor
de purpura, o uso da qual era severamente prohibido
aos sacerdotes. Veja-se Masdeu, Hist. Crit.
d'Esp. T. 11, p. 63 e 197, e Ducange e Carpentier
ás palavras
Stringes,
Strigio.
A igreja goda empregava oito ministros na celebração
do culto: 1.º o Ostiario, que abria e fechava
o templo, cuidava da conservação dos objetos
do culto e vigiava que não assistissem ao sacrificio
herejes ou excommungados: 2.º o Acolito,
que illuminava os altares e tinha na mão um candelabro
emquanto se lia o evangelho: 3.º o Exorcista,
a quem incumbia o expulsar o demonio dos
possessos: 4.º o Psalmista, que levantava no coro
as antiphonas, psalmos e hymnos: 5.º o Leitor, que
lia em alta voz as prophecias do Antigo Testamento
e as Epistolas e as explicava ao povo: 6.º o Subdiacono,
que recebia as oblações dos fiéis e dispunha
as vestiduras e vasos sagrados para a missa:
7.º o Diacono, que ajudava a esta e dava a
communhão:
8.º o Presbytero, que sacrificava, prégava
e dava a benção ao povo.
Poetas celebres hispano-godos do seculo V.—De
Draconcio resta-nos o
Carmen de Deo e uma
epistola dirigida a Gunth-rik rei dos vandalos. De
Merobaude subsiste um fragmento do
Poema de
Christo. D'Orencio, tão elogiado pelo poeta Fortunato
e por Sidonio Apollinario, apenas resta uma
pequena poesia na
Bibliotheca Veterum Patrum.
A raça dos godos, asiatica na origem e germanica
na lingua, que, antes de occupar uma
parte do territorio romano, habitava ao norte do
Ponto Euxino (Mar Negro), dividia-se em duas
grandes familias, cujas denominações provieram
da sua situação relativa. Os que estanceiavam ao
oriente chamavam-se
ost-goths (godos de leste) e
depois,
corruptamente, ostrogodos; os que demoravam
ao occidente eram os
west-goths (godos de
oeste) ou wisigodos, que, depois de ora servirem o
imperio como alliados, ora assolarem-no como inimigos,
vieram fazer assento no sul das Gallias e na
Peninsula, estabelecendo, a final, em Toledo o centro
do seu imperio.
A celebre batalha dada por Theoderik, rei dos
wisigodos, e pelo general romano Aecio, seu alliado,
ao feroz Attila nos
campi catalaunici (planicies
de Chalons-sur-Marne) é o mais celebre entre
os terriveis combates que custou á Europa no
V seculo a dissolução do grande cadaver romano.
Podem-se ver em Jornandes e no Panegyrico de
Avito por Sidonio Apollinario as particularidades
deste successo.
Algeziras. Este nome foi posto pelos arabes ao
logar onde Tarik veio aportar, saindo de Ceuta
para a conquista d'Hespanha. O ilheu, hoje chamado
das Pombas, fica a um tiro d'espingarda daquella
povoação, á qual passou o nome que os arabes
tinham dado á ilhota, vendo-a verdejar ao
longe:—
Djezirat-al-Hadra
(ilha-verde). Ignorando-lhe
o nome antigo, suppuz que essa denominação de
origem arabica era anterior e que já os godos lh'a
attribuiam. O anachronismo é, a meu ver, assás
desculpavel.
O
amiculo, que entre os romanos era proprio
das mulheres de baixa esphera, tornou-se em Hespanha
trajo commum das mais honestas e nobres:
era uma especie de manto, com que cubriam as
vestiduras inferiores: Os cabellos encerravam-nos
n'uma como coifa, denominada
retíolo. Veja-se
Masdeu, Hist. Crit. T. 11, p. 6.
Os wisigodos tinham dado em especial o nome
de
Campi gothici ás planicies de Leão e da
Extremadura
Hespanhola. D'ahi, contrahida a menor
territorio, veio a denominação da terra de
Campos.
«
Wali: Prefeito, caudilho principal, governador
de provincia, general d'exercito:»
Conde,
Declar.
de alg. nom. arabes. Juliano era, segundo
parece, o governador da provincia gothica d'além
do Estreito, chamada
Transfretana; cabia-lhe por
isso entre os arabes o titulo de Wali. Sebta é a
corrupção arabica do nome de Septum, corrupção
d'onde os nossos antigos formaram
Cepta e, depois,
Ceuta.
O
frankisk ou
frankiska era uma
especie de
machadinha de dous gumes, usada pelos frankos,
de quem os godos a tomaram. Consulte-se Masdeu,
Hist. Crit. T. 11, p. 52—e Ducange, verb.
Francisca.
A
Cateia, de que adiante se ha-de falar,
era uma lança curta ou dardo, a origem, talvez,
da
azcuma dos tempos posteriores.
Sevilha no tempo dos romanos tinha dous nomes—
Romula
e
Hispalis. Este
ultimo veio a prevalecer,
emfim. Veja-se
Flores, Esp. Sagr. T.
9,
p. 87.
Mohammed era natural de Medina. Esta cidade
chamava-se Yatrib. Foi elle quem lhe poz o nome
de Medina-al-Nabi—
Cidade do Propheta.
Os arabes, tendo desembarcado nas costas d'Hespanha
e vendo que a montanha do Calpe era um
logar grandemente defensavel, fortificaram-se ahi,
porventura emquanto esperavam o resto do exercito
que passava d'Africa. A montanha recebeu então
o nome de
Geb-al-Tarik (monte de Tarik) e,
tambem, o de
Gel-al-Fetah (monte da Entrada).
Da palavra Geb-al-Tarik se formou depois a de
Gibraltar.
Islam em arabe, o islamismo ou religião do koran.
Significa, propriamente, esta palavra
resignação;
resignação em Deus.
Esculcas eram, nos tempos barbaros, chamadas as
rondas ou sentinellas nocturnas dos arraiaes. Esta
palavra encontra-se nos escriptores do VI seculo e
dos seguintes, como em S. Gregorio Magno;
sculcas
quos mittitis sollicitè requirant: Epist. 12—23.—A
fórma pura do vocabulo,
Exculcatores,
apparece já em Vegecio: depois, por abbreviatura,
Exculcae e
Sculcae.
Sculcas são contrapostos aos
atalaias nas leis das Partidas. P. 2. tit 26, onde
estes significam
guardas de dia.
Os arabes designavam os christãos ou, antes,
em geral, qualquer europeu pelo nome de
al-rumi,
o romano, quer fosse grego, franko ou hespanhol.
Aquelles mesmos que abraçavam o islamismo conservavam
este appellido. Tal era o amir ou general
da cavallaria, Mugueiz, um dos mais famosos
companheiros de Tarik. Quando, em especial, os
pretendiam designar, não pela differença de raça,
mas pela de crença, denominavam-nos
Nassrani
(nazarenos).
Deus só é grande! era para os arabes a voz de
accommetter, como, depois, foi para os christãos o
grito de
Sanctiago!
A ephippia era uma especie de sella de lan que
os godos haviam imitado da cavallaria romana.
«As armas delles (dos berebéres e arabes africanos)
quasi se limitam a páus compridos a que se
prendem pequenos tóros atados pelo meio, que no
combate descarregam sobre os inimigos com ambas
as mãos:» Alkhathib,
Pleni-Lunii Splendor, em
Casiri, T. 2, p. 258.
Como a palavra latina
senior (o mais velho) veio
a significar no latim barbaro e no romance ou linguas
vulgares das nações modernas, o
principal, o
senhor, assim a palavra arabe
Cheik, Chek,
Xeque,
isto é, o
ancião, tomou entre os sarracenos a
significação
de senhor ou chefe de uma tribu.
No imperio godo os buccellarios vinham a ser o
mesmo que os clientes dos romanos, homens livres
addictos ás familias poderosas, por quem eram patrocinados
e, talvez, sustentados, se, como pretende
Masdeu e o seu, nesta parte, quasi traductor Romey,
o nome
buccellarius lhes provinha de
buccella
(migalha de pão). O Codigo Wisigothico (Liv.
5. tit. 3.º) estabelece os deveres e relações destes
homens com seus amos e patronos. A obrigação
mais importante do buccellario parece ter consistido
no serviço militar:
Si ei... arma dederit. É
por isso que se me affigura mais provavel a etymologia
que a semelhante denominação attribue
com preferencia o erudito Canciani (Barbar. Leg.
Ant. Vol. 4, p. 117) derivando-a da palavra scandinava
buklar (o escudo), transformada no idioma
germanico em
buckel e nas linguas modernas em
buckler, bouclier, broquel. Neste caso o buccellario
corresponderia ao
armigero ou
escudeiro do seculo
12 e 13, que, significando na sua origem o que
trazia as armas ou o escudo do seu senhor ou amo,
veio a tomar-se por um homem d'armas de certa
distincção, a quem, todavia, faltava o grau de cavalleiro.
O facto narrado neste capitulo é historico. O
logar da scena e a epocha é que são inventados.
Foram as monjas de Nossa Senhora do Valle, juncto
d'Écija, que, em tempos posteriores, practicaram
este feito heroico, para se esquivarem á sensualidade
brutal dos arabes. Parece que o procedimento
das freiras d'Écija foi imitado em muitas
outras partes. Consulte-se
Berganza,
Antiguedades
de España, T. 1, pag. 139; e
Morales, Cron.
Gener. T. 3, pag. 105.
Segundo Lembke, cuja opinião assenta no testemunho
de Ibn-Said e de Ahmed-Al-makkari, os
arabes conheciam a Hespanha, antes da conquista,
pelo nome de
Andalós ou
Andalús,
nome que, depois,
applicaram em especial ao territorio entre o
Wadi-Al-Kebir e o Wadi-Ana (Guadalquivir e
Guadiana), isto é, á moderna Andalusia. O nome
de Al-Gharb (o occidente) que, igualmente, deram
á Peninsula para a distinguir da Mauritania (Al-Moghreb)
veio, tambem, a contrahir-se á nossa
provincia do Algarve.