Por quantas desventuras a patria dos
Godos tem sido abalada: quão repetidos
a pungem os golpes dos fugitivos e a nefanda
suberba dos transfugas, quasi ninguem
ignora.
Codigo wisigothico II-1-7.
A passagem de tão avultado numero de
godos para os inimigos e o crepusculo que
descia obrigaram Ruderico a fazer cessar o
combate, emquanto a noite pousava tranquilla
sobre aquella campina povoada de afflicções
e dores. A aurora rompeu meiga e serena,
como nos dias em que vinha trazer as
alvoradas alegres ás malhadas dos pastores
que, colmadas, amarelejavam outr'ora pelas
margens relvosas do Chryssus, em vez das
tendas de guerra que alli alvejavam agora
com os primeiros resplendores da madrugada.
O homem debatia-se ahi nas vascas da
morte, e o sol passava envolto na sua gloria,
indifferente ás angustias d'aquelles que, em
seu ridiculo orgulho, se chamavam monarchas
e conquistadores do mundo; passava,
sem lh'importar se os vermes vestidos de
ferro chamados guerreiros se despedaçavam
uns aos outros, com o delirio insensato das
viboras no momento dos seus amorosos ardores.
Pelas trevas, um ruído sumido, mas incessante,
de passadas d'homens e de tropeiar de
cavallos soara horas inteiras em um e em outro
campo. Era que em ambos elles surgira
uma idéa unica. O rei godo havia resolvido
formar um corpo só das reliquias da sua hoste
e com elle acommetter a principal batalha
dos inimigos, para a destruir rapidamente
antes que as alas podessem soccorrê-la. O
mesmo pensamento tivera Tarik. Semelhante
á trovoada do estio, que se amontoa durante
a noite em dous polos encontrados e ao alvorecer
semeia de coriscos as solidões do céu
e povoa d'estampidos discordes os echos da
terra, assim cada um dos campos se agglomerava
em uma pinha gigante; convertia-se
n'um homem só, para em duello de morte
resolver com o seu contendor se os filhos
das Hespanhas deviam acceitar a lei do koran
ou continuar a abrigar-se á sombra da
divina cruz.
Tarik lançara na frente da hoste mosselemana
os transfugas do inimigo. Sisebuto,
Ebbas, o bispo d'Hispalis e o conde de Septum
com os seus numerosos guerreiros constituiam
a vanguarda. Seguia-se a cavallaria arabe: os
bereberes cingiam este massiço de homens e
ginetes, em parte cubertos de ferro, e os indisciplinados
cavalleiros da Mauritania, dispersos
como almogaures, deviam vagar soltos
para fazer entradas nas alas inimigas e
impedir assim que ellas podessem a tempo soccorrer
o centro do exercito, que o general arabe
esperava desbaratar no primeiro impeto.
Ruderico, pela sua parte, tinha posto na
vanguarda as tiuphadias victoriosas de Theodemiro,
os cavalleiros da Cantabria guiados
pelo moço Pelagio, filho de Favilla, que succedera
a seu pae no governo daquella provincia,
e, finalmente, os guerreiros escolhidos
da Lusitania e da Gallecia, que elle proprio
capitaneiava. Como Tarik, o rei godo collocara
de um e de outro lado da hoste apinhada
os frecheiros e fundibularios selvagens
do Herminio e os montanhezes vasconios,
antiga raça de celtas, irmãos em linhagem,
em valor, em crueza, em armas e em costumes.
Na retaguarda estavam os soldados da
provincia Carthaginense que não tinham seguido
o exemplo dos transfugas por andarem
derramados em outros logares ou, talvez, porque,
não corrompidos, guardavam ainda no
coração vestigios d'amor da patria.
Ao amanhecer, cada um dos capitães inimigos
viu com assombro que a mesma traça
de guerra de que pretendera valer-se para
obter a victoria occorrera á mente do seu
adversario. Era, porém, tarde para alterar a
ordem da batalha. Ao mesmo tempo as trombetas
godas e os anafis arabes deram o signal
do combate, e o grito de—Christo e ávante!—confundiu-se
em estampido medonho
com o brado de—
Allah-hu-Acbar—o brado
de guerra dos pelejadores sarracenos.
O chão pareceu affundir-se com o encontro
daquellas duas mós enormes de homens
armados, e o echo dos botes das lanças nos
escudos convexos e nas armas sonoras dos
cavalleiros repercutiu nas encostas fronteiras
e desvaneceu-se ao longe, murmurando entre
as quebradas. Desde o primeiro embate, não
mais fora possivel distinguir os exercitos, travados
como dous luctadores furiosos. Eram
um vulto só, indelineavel, monstruoso, immenso,
cujo topo ondeiava, semelhante ao de
cannaveal movido pelo vento, cujos contornos
indecisos se agitavam, torciam, alargavam,
diminuiam, oscillavam, como tapete de
nenuphars sobre marnel revolto pelo despenhar
das torrentes. Nuvens de settas sibillavam
nos ares: as espadas sarracenas cruzavam-se
com as espadas godas: a cateia teutonica
ía, zumbindo, abrir fundos regos nas
fileiras arabes, e os membros ossudos dos
peões lusitanos e cantabros estouravam
debaixo
das pancadas violentas dos mangoaes
da peonagem mourisca. Muitos ginetes vagueiavam
sem donos; muitos cavalleiros combatiam
a pé. Desgraçado do que, ferido, cahia
em terra; porque para elle não havia misericordia:
o punhal acabava o que o frankisk
ou a cimitarra começara. Dir-se-hia que
os regatos de sangue, serpeiando por entre
as duas hostes enredadas e salpicando as frontes
e corpos, eram as veias descarnadas e
rotas daquelle grande vulto, coleiando na derradeira
agonia.
O cavalleiro negro, ao cessar a batalha do
dia antecedente, desapparecera do campo,
sem que ninguem soubesse dizer como ou
onde se escondera. Só Theodemiro parecia
não o ignorar; porque, ao falarem do desconhecido
e das suas quasi incriveis façanhas,
os tiuphados e quingentarios que em volta
delle esperavam o romper da manhan e o
recomeçar da peleja, o duque de Corduba
buscara sempre mudar de conversação ou
respondera, carregando-se-lhe o semblante
de tristeza:—«É, porventura, algum desgraçado
que procura o repouso da morte,
e para o homem que resolveu morrer, que
feito de valor será impossivel? Se elle não
quer deixar na terra nem o echo vão de um
nome glorioso, respeitae-lhe os desejos, porque
profundo deve ser o abysmo da sua desventura!»
Ao som, porém, das trombetas que annunciavam
o renovar do combate, o cavalleiro
negro não tardara a apparecer onde
mais accesa andava a briga. Via-se, comtudo,
que era principalmente nas fileiras dos
arabes, onde as púas agudas e cortadoras da
sua temerosa borda ou maça d'armas faziam
maiores estragos. Mas, quando algum dos
godos transfugas ousava esperar-lhe os golpes
ou tentava ferí-lo, ouvia-se-lhe um rugido
como o de maldicção preso na garganta
por colera immensa, e o seu miseravel contrario
não tardava a golfar o sangue na terra
da patria que trahira e a entregar aos demonios
a alma tisnada pela infamia da perfidia.
Os arabes supersticiosos quasi criam ver nelle
Iblis, o rei infernal do Gehenna, armado da
espada percuciente, solto por Deus para os
punir das offensas commettidas contra o divino
koran. Diante delle recuavam os mais
esforçados mosselemanos, e só de longe os
frecheiros lhe disparavam alguns tiros, que
se lhe empennavam no escudo ou, roçando
por este, vinham bater-lhe na armadura, debaixo
da qual manava já o sangue de algumas
feridas, e os membros lassos começavam
a desmentir a impetuosidade do espirito.
Como na vespera, o sol inclinava-se das
alturas do céu para o occaso, e ainda a batalha
estava indecisa, se é que o terror que
incutia o cavalleiro negro no logar onde pelejava
não fazia pender um pouco a balança
do lado dos godos. De repente, um grito
agudo partiu do mais espesso revolver do
combate; este grito gigante, indizivel, d'intima
agonia, era o brado unisono de muitos
homens; era o annuncio doloroso de um successo
tremendo. O cavalleiro negro, que, impellido
pela ebriedade do sangue, e semelhante
a rochedo que se despenha pelo pendor
da montanha, ia derramando a morte
através dos esquadrões do Islam, volveu os
olhos para o logar onde soara o bramido retumbante
da multidão. Era no centro do
exercito godo. As tiuphadias vergavam em
semicirculos para a banda do Chryssus, como
o açude minado pela torrente, a ponto de
desprender-se das margens, oscilla e se curva,
bojando sobre a veia inferior das aguas.
A muralha de ferro que, posta entre o Islamismo
e a Europa, dizia á religião do propheta
d'Yatrib—não passarás d'aqui—vacilla,
como a quadrella da cidade fortificada
batida muitos dias por vaivem d'inimigos.
Por fim, aquelles vastos massiços d'homens
ligados pela cadeia fortissima da disciplina,
do pudor militar e do esforço, derivam rotos
ante os turbilhões dos arabes, ondeiam e derramam-se
na campina. Pelo boqueirão enorme
aberto no centro da hoste goda precipitam-se
as ondas dos cavalleiros mohametanos,
e, após elles, a turba dos bereberes, com
um bramido barbaro. Debalde as alas tentam
ajunctar-se, travar-se uma com outra, soldar
os membros despedaçados do leão iberico.
Passa por lá a impetuosa corrente dos netos
d'Agar, que envolve e arrasta os que pretendem
vadeia-la. Deus contara os dias do
imperio de Lewighild, e o sol do ultimo delles
era o que descia já para o occidente!
O cavalleiro negro vira a fuga das batalhas
godas, advertido pelo clamor que a precedera.
Voltando as rédeas do seu murzello,
esporeiou-o para aquella parte. Levava
lançado ás costas o escudo, onde os tiros
dos archeiros africanos ciciavam, como a saraiva
no inverno batendo nos troncos despidos
do roble. Pendia-lhe da esquerda do
arção a borda ensanguentada, da direita o
frankisk. O ginete tresfolegava na furia da
carreira, açoutando os ares com as crinas
ondeiantes e atirando-se ao meio da especie
de voragem aberta nas fileiras christans, a
qual como que tragava uns após outros os
esquadrões mosselemanos. Ao chegar á confluencia
daquellas encontradas torrentes de
homens armados, o guerreiro parou e, olhando
em roda por um momento, ouviu-se-lhe
um grande brado. Era a primeira vez que
a sua voz soava no meio da batalha, e a
unica palavra que lhe saíu da boca foi o
nome de Theodemiro. Esse brado devia chegar
longe, reboando como o trovão. Dir-se-hia
que o cavalleiro estava habituado á conversação
do bramido dos mares revoltos e do
rugir das ventanias pelas fragas das serras;
porque naquelle grito, conjuncto inexplicavel
de colera e de dor, havia uma semelhança,
uma harmonia com o gemido immenso
da natureza quando lucta comsigo mesma no
passar da tempestade.
Mas aos ouvidos de Theodemiro não podia
chegar a voz do desconhecido. Arrastado
pelos turbilhões de fugitivos, forcejando
por obrigá-los a voltar o rosto contra os arabes,
ora com palavras de amarga reprehensão,
ora com o exemplo, o duque de Corduba
combatia mui longe delle. Em vão o
cavalleiro negro lhe repetia o nome: era
inutil este chamar e, apenas, servia para
attrahir os golpes dos agarenos victoriosos.
As achas d'armas, as cimitarras, os dardos
faziam centelhar a armadura e o escudo do
desconhecido, que, tomado, ao que parecia,
d'um pensamento doloroso, alongava os olhos
por toda a parte em busca de Theodemiro.
Com um gemido de desalento, o cavalleiro
saíu, emfim, da especie de torpor que o tornava
immovel ante o espectaculo de tanta
desventura, e o seu despertar foi tremendo.
Erguendo em alto a maça d'armas e vibrando-a
furiosamente em volta de si, começou
a partir espadas e a abolar armaduras. Em
breve, ao redor delle, no meio dos mosselemanos
vencedores, o terror invadia os animos,
como na vespera, como nesse mesmo
dia, se espalhara por toda a parte onde haviam
reluzido as púas da sua ensanguentada
borda ou o ferro do seu cortador frankisk.
Apenas, á força de golpes, o cavalleiro negro
abriu no meio dos mosselemanos vencedores
uma larga clareira, esporeiando o ginete,
lançou-se para o lado em que os godos
desordenados se retrahiam ante as espadas
do Islam. No espaço intermedio entre
os fugitivos e os arabes fluctuava sem recuar
o pendão do duque de Corduba. Em volta
desse pendão tremolavam as signas das tiuphadias
da Betica, que, cercadas por todos
os lados, resistiam ainda ao embate dos sarracenos.
No meio, porém, dos que abandonavam
vilmente o campo de batalha nem
uma unica bandeira se hasteiava; mas, pelo
esplendido das armas, o guerreiro conheceu
aquelles que não ousavam resgatar com a vida
a deshonra da Hespanha. Eram os soldados
escolhidos de Ruderico; era a brilhante
cavallaria que elle proprio capitaneiava! A
indignação trasbordou da alma do guerreiro:
«Rei dos godos, rei dos godos!—exclamou
elle—és covarde! Embora vás esconder
a tua ignominia nos muros de Toletum. Ainda
neste campo de batalha restam homens
valentes: ainda Theodemiro combate, não por
teu throno deshonrado, mas pela terra de
nossos paes. Foge tu com os que não sabem
morrer pela patria; que nas margens do
Chryssus ficam os que hão-de perecer com
ella! Maldicto o godo e christão que foge para
ser servo!»
E o cavalleiro apertou de novo as esporas
ao possante murzello.
Não tardou, porém, que o furor se lhe
convertesse em tristeza, e que as lagrymas,
rebentando-lhe dos olhos, lhe apagassem a
maldicção que haviam murmurado os labios.
O seu valente cavallo galgava na carreira por
cima de cadaveres e de moribundos, de christãos
e de infiéis, e a terra, convertida em
bréjo de sangue, apenas soava debaixo dos
pés do ligeiro animal. Passando por meio dos
esquadrões sarracenos, podia-se dizer que o
desconhecido se assemelhava ao anjo do Senhor,
quando desce por entre os mundos onde
habitam os demonios, solitario e temido no
imperio dos filhos das trevas que o odeiam.
A fama das suas façanhas tinha-o cercado
d'uma auréola de terror supersticioso, e,
quando passava, os guerreiros do deserto
apontavam para elle e em voz sumida diziam
uns aos outros—«Ei-lo que vem! ei-lo, o
cavalleiro negro!»
Mas, porque parou elle, soffreiando subitamente
o ginete? Que ha ahi, nessa extensa
seara ceifada de homens de guerra, que possa
attrahir os olhos do mais incansavel dos segadores?
No sitio em que parou estava, poucas
horas antes, hasteiada a signa real: era
o centro da hoste goda; mas dos que ahi pelejavam,
uns lá vão ao longe precipitar-se no
abysmo da ignominia; outros, os mais felizes,
adormeceram do seu ultimo somno no regaço
da patria. O guerreiro fitou os olhos no chão:
a fouce da morte, passando por alli, cerceiara
a derradeira esperança do imperio de Theoderik.
O espectaculo que se lhe antolhava
era a explicação do terror que se apossara
de tantos homens valentes. Fugiam:
Ruderico,
porém, estava ahi! mas retalhado de
golpes; mas sem vida! Já não sería debaixo
de seus pés que o throno da Hespanha se
desfaria aos golpes do machado dos arabes.
Um sceptro sem dono em Toletum e
mais um cadaver juncto ás margens do Chryssus,
eis o que restava do ultimo rei dos godos!
Com a sua morte fenecera ao redor delle
a esperança, e com a esperança dera em terra
o esforço dos animos mais robustos. As
alas ignoravam este triste acontecimento e
por isso pelejavam ainda.
Mas pouco tardou a ser geral a róta; porque
pouco tardou a espalhar-se aquella nova
fatal. Um dia bastara para anniquilar o imperio
que durante quatro seculos fora o mais
poderoso e civilisado entre as nações germanicas
estabelecidas nas diversas provincias romanas.
A corrupção dos ultimos tempos concluira
a sua obra, e o edificio da monarchia
gothica, ainda rico de magestade exterior,
mostrara, emfim, desconjunctando-se e desabando,
o ferver dos vermes que interiormente
o roíam. A cruz, derribada com elle,
só devia tornar a hasteiar-se triumphante em
todos os angulos da Hespanha depois do combater
de oito seculos.
Uma parte do exercito godo ainda podera
salvar-se atravessando o rio; mas as pontes
lançadas na vespera tinham por fim estalado,
derivando pela corrente, debaixo do peso dos
fugitivos, e as aguas devoravam muitos que
o ferro havia poupado. Theodemiro, que não
perdera o animo no meio daquella desventura,
alcançara fazer passar á margem opposta as
reliquias dos soldados da Betica e os restos
de muitas tiuphadias de outras provincias.
Nos arraiaes, os arabes, senhores do campo,
saudavam a victoria com o som dos instrumentos
barbaros e com clamores de alegria
que íam sussurrar ao longe pelos valles e campos,
desertos dos seus moradores. Um homem
só combatia ainda daquelle lado á beira do
rio. Era o cavalleiro negro. Cercavam-no muitos
sarracenos, mas de longe, porque os que
ousavam approximar-se delle cahiam a seus
pés moribundos. Ás vezes, como que tentava
romper por entre os inimigos, mas era
tentar o impossivel. No volver dos olhos inquietos
para um e para outro lado, parecia
buscar descubrir alguma cousa naquelle vasto
campo, onde só descortinava os cadaveres
dos vencidos e os vultos ferozes dos vencedores.
Por fim, voltando o rosto para a margem
opposta, viu fluctuar sobre uma eminencia
o pendão de Theodemiro. Uma expressão
fugitiva de contentamento lhe assomou
então ao gesto. Despedindo das mãos
a borda ensanguentada, que sibilou por meio
dos arabes apinhados em volta, o guerreiro
arrojou-se á torrente. Á luz do sol que se
punha, viu-se-lhe umas poucas de vezes reluzir
o elmo, alongando-se pela superficie das
aguas e desapparecendo por largos espaços.
As trevas, que já desciam densas, e a impetuosidade
da corrente que o arrastava não
permittiram prever-se qual sería a sua sorte.
Eurico era a ultima e tenuissima esperança
que bruxuleiava nos horisontes do imperio
godo: como uma estrella cadente que se immerge
nos mares, aquelle esforço brilhante
se desvanecera na escuridão que tingia as
aguas do Chryssus!
XII
O MOSTEIRO
Se a todos se convertessem todos
os membros em linguas, ainda assim
não caberia nas forças humanas o
narrar as ruinas d'Hespanha e os seus
tão diversos e multiplicados males.
Isidoro de Béja: Chronicon.
O mosteiro da Virgem Dolorosa estava situado
n'uma encosta, no topo da extrema
ramificação oriental das que a dilatada cordilheira
dos Nervasios estende para o lado
dos Campos-gothicos. A pouca distancia do
valle onde se viam as ruinas de Augustobriga,
caminho de Legio, no meio de uma solidão
profunda aquella silenciosa morada de
virgens innocentes achava-se convertida em
praça de guerra. Edificio sumptuoso, construido
no tempo de Rekkáred, as suas grossas
muralhas de marmore pareciam, na verdade,
quadrellas de castello roqueiro; porque
na architectura dos godos a elegancia romana
era modificada pela solidez excessiva do
edificar germanico ou saxonio, que os rudes
wisigodos do tempo de Theoderik e de
Ataulph haviam introduzido no meio-dia da
Europa. Os restos dispersos das tiuphadias
da Gallecia tinham-se encerrado em todas
as povoações e logares fortificados ou por
qualquer modo defensaveis, e os habitantes
dos povoados, acolhendo-se ahi com elles,
deixavam desertas as suas moradas, incertos
do dia em que veriam reluzir ao longe as
lanças dos agarenos, que já devastavam o
norte da Lusitania e parecia encaminharem-se
para o lado de Tude. Os muros fortissimos
daquelle vasto edificio, as suas portas
tecidas de ferro e carvalho, as estreitas frestas,
que apenas lhe deixavam penetrar no
interior uma luz duvidosa, os tectos ameiados
e, finalmente, os fossos profundos que o circumdavam,
tudo o tornava acommodado para
larga defensão. Com algumas decanias de veteranos
que no meio do terror podera ajunctar,
o quingentario Atanagildo se havia acolhido
ahi, e com elle um grande numero dos
mais abastados habitantes d'aquelles contornos.
Protegido pela vizinhança das serras das
Asturias, ainda livres, Atanagildo cria que o
mosteiro fortificado sería sempre inexpugnavel
barreira contra a violencia e cubiça dos
arabes. Entretidos em submetter e pôr a sacco
as opulentas cidades do meio-dia, contentes
com as veigas feracissimas da Betica, da Lusitania
e da Carthaginense e com o sol quasi
africano que as aquecia, que viriam elles buscar
nas brenhas intractaveis e frias da Gallecia
e da Cantabria? Sería, apenas, algum
troço dos inquietos e selvagens bereberes, os
que se derramavam por estas partes; mas,
contra esses, eram de sobra os tiros de catapulta
arrojados das torres do mosteiro e as
cateias e frechas despedidas d'entre as ameias
que lhe cingiam a fronte, como a coroa de
um rei gigante, e que não podiam ser derribadas
pelos mangoaes brutescos, unicas armas
dos broncos e seminús montanheses do
Atlas.
No centro do immenso edificio erguia-se
o templo monastico; peça quadrangular, construida
de grossos cantos de marmore, arrancado
das pedreiras inexgotaveis que se estendem
desde os Nervasios até as cercanias
de Legio. No exterior do templo, do meio
d'um vasto pateo que o rodeiava, viam-se
negrejar na sua cincta de estreitas cellas as
vestiduras severas das monjas, cuja oração
contínua, quer em commum no sanctuario,
quer na solidão das suas breves moradas, só
era interrompida por somno curto, dormido
sobre a dura enxerga da penitencia. Esta
parte do mosteiro era a que ellas unicamente
occupavam havia alguns dias. Os seus claustros
pacificos e saudosos, onde nunca soara o
ruido tormentoso da vida, onde nunca as dolorosas
realidades do mundo haviam penetrado,
salvo nos sonhos passageiros e dourados
de algum coração mais ardente, restrugiam
com o bater das armas, com o amontoar
das provisões, com o carpir dos que
abandonavam seus lares, com a violenta e
brutal linguagem da soldadesca. No meio daquella
vasta mole de marmore, em que os
sons discordes reboavam, ecchoando soturnos
nas arcadas e corredores profundos, o templo,
aonde se acolhera a quietação monastica,
era como um oasis frondoso e abrigado
por seus palmares no meio do deserto que
o sopro infernal do simûm revolve, fazendo
redemoinhar nos ares aquelle oceano de areia
fervente.
Era ao anoitecer de um dia de novembro.
Por entre o nevoeiro cerrado que, alevantando-se
do valle vizinho, trepava pela encosta,
deixando apenas livres as negras agulhas dos
cerros, lá no viso da montanha, divisavam-se
a custo as ameias e muralhas á luz baça do
crepusculo, refrangido em céu pardo e humido.
A brisa morna de oeste gemia nos
troncos dos castanheiros nús, nas ramas esguias
dos pinheiros bravos, e as passadas monotonas
dos vigias ao longo dos adarves formavam
um concerto accorde com o aspecto
melancholico do céu e da terra.
A esta hora duvidosa entre a claridade e
as trevas, uma numerosa cavalgada atravessava
o ribeiro no fundo do valle e encaminhava-se
para o mosteiro da Virgem Dolorosa.
Dez cavalleiros, cujas barbas alvas lhes
cahiam sobre o peito, saíndo por baixo das
redes de ferro que lhes serviam de gorjal,
rodeiavam uma dama, cujo rosto occultava o
comprido véu que, pendente do retíolo, lhe
descia sobre o alvo amiculo, mas cujos meneios
airosos e talhe esbelto revelavam nella
o viço e as graças da idade juvenil. Seguiam-na
alguns pagens desarmados, cujos rostos
imberbes já o temor e o desalento que se
pintavam em todos os semblantes nesta epocha
desastrada haviam sulcado de rugas.
Vadiado o rio, a cavalgada encaminhou-se
por uma senda tortuosa que ía dar á entrada
do mosteiro, aonde, ao que parecia, desejavam
chegar antes que de todo se fechasse
a noite. Ao approximar-se aquella comitiva,
os vigias conheceram que eram godos—provavelmente
alguns desgraçados que vinham
buscar o abrigo dos seus muros fortificados—,
e as grossas portas não tardaram a abrir-se
para recolherem mais esses pobres fugitivos.
Apenas os recem-chegados, atravessando
o atrio do fundo portal, saíram á cerca interior,
o que parecia mais auctorisado entre
os velhos cavalleiros pediu para falar a sós
com Atanagildo. Levado o ancião á torre
onde o quingentario habitava, não tardou este
em descer á cerca, no meio da qual, ainda
a cavallo e sem erguer o véu, a dama desconhecida
esperava rodeiada dos seus. Com
todos os signaes de respeito, Atanagildo dirigiu-lhe
algumas palavras em voz submissa
e, tomando a redea do palafrem, guiou-o para
uma porta contígua ao frontispicio da igreja.
A um signal seu a porta abriu-se, e um vulto
negro de monja appareceu no limiar della.
O quingentario, tomando pela mão a desconhecida
e apresentando-a á monja, disse-lhe:
«Veneravel Chrimhilde, acolhei entre as
puras virgens que vos obedecem uma das
mais nobres donzellas d'Hespanha: é por uma
noite, apenas, que ella vos pede abrigo: ámanhan
ao romper d'alva partirá para Legio.»
«Ámanhan ou depois, que importa?—replicou
a monja, cujo semblante austero descubria
não tanto a decadencia dos annos,
como os vestigios da penitencia:—emquanto
Chrimhilde reger o mosteiro da Virgem Dolorosa,
nunca a hospitalidade será refusada
nelle ao que a implorar. E quando a virtude
de nobre donzella tiver um fiador tal como
vós, esta achará sempre em mim o carinho
de mãe e nas escolhidas do Senhor, que
me alevantaram do meu nada ao tremendo
ministerio de sua abbadessa, encontrará o
amor e o gasalhado d'irmans para com irman
querida.»
Dizendo isto, a boa abbadessa tomou pela
mão a desconhecida e, internando-se com
ella pelas arcadas que diziam para o interior
do edificio, allumiadas escaçamente pelas lampadas
turvas que d'espaço a espaço pendiam
das abobadas achatadas, desappareceu aos
olhos de Atanagildo.
A noite vai no seu fim: a campa do mosteiro
dá o signal do terceiro nocturno. Subitamente,
o sanctuario illumina-se, e os vidros
multicores jorram nas trevas externas a claridade
dos candelabros e tochas, como, de
dia, deixam transudar a luz do sol no ambito
interior da igreja; ésto perpetuo de resplendores,
que ora descem do céu para a terra,
ora tentam, subindo da terra para as alturas,
desfazer o manto das trevas. N'uma
extensa fileira, a cuja frente vem a veneravel
Chrimhilde, as monjas entram no coro
e, tomando para um e outro lado, param
voltadas para o altar. Juncto da abbadessa
uma donzella de trajos brancos sobresái entre
as monjas vestidas de negro, não tanto
pela alvura das roupas, como pela formosura:
e todavia, são formosas muitas das virgens
que a rodeiam, pela maior parte ainda
no viço da vida. É a nobre dama recem-chegada,
á qual nem o cansaço de trabalhosa
jornada, nem o habito dos commodos
do mundo poderam impedir acompanhasse
na oração aquellas que o tracto de poucas
horas já lhe fazia amar como irmans. Chrimhilde
prostra-se com a face no chão: as monjas
e a dama vestida de branco seguem o
seu exemplo. Através desses labios innocentes
que beijam o pavimento do templo murmuram
durante alguns instantes as orações
submissas. Depois, a abbadessa ergue-se, e
pouco a pouco aquelles semblantes, que cobre
uma pallidez d'ineffavel repouso e brandura,
vão-se alevantando da terra, com os
olhos voltados para o céu, semelhantes aos
de anjos de marmore ajoelhados em roda de
um tumulo, que surgissem pouco a pouco
animados por vida repentina e, cheios de
saudade da morada celeste, enviassem aos
pés do Senhor o seu primeiro suspiro. Então
a psalmista começa a entoar um dos hymnos
sacros do Presbytero de Carteia que havia
pouco se tinham introduzido no ritual gothico,
e as demais monjas respondem em córos
alternos. O hymno dizia assim:
«As azas da tua providencia, oh Senhor,
despregam-se por cima da terra, e o justo
desgraçado acolhe-se debaixo dellas:»
«Porque ahi moram os sanctos contentamentos;
esquecem as dores da vida; vive-se
á luz da esperança.»
«Confiado em ti, o fraco affronta as tyrannias
do forte; o humilde ri das suberbas
do poderoso.»
«Quem revelou aos pequeninos e oppressos
esta divina guarida? Quem nos ensinou
a esperar? Quem a ser felizes pela fé no meio
das agonias?»
«Foi Christo, o teu filho querido. A tua
justiça condemnava á dor o genero-humano,
ainda no berço: elle nos conquistou para a
felicidade no meio dos tormentos da cruz.»
«Nós tomaremos, tambem, esta em nossos
hombros: ella é a guia da bemaventurança.»
«O seu peso é suave; porque sob ella os
espinhos da existencia que ensanguentam os
membros do peregrino sem repouso, chamado
o homem, convertem-se em prado macio de
relva e boninas.»
«Que reine para sempre a cruz!»
«Erguei-a sobre todos os pincaros das serranias,
gravae-a em todas as arvores dos bosques,
hasteae-a sobre as rochas maritimas,
estampae-a nas muralhas das cidades, na
fronte dos edificios, apertae-a ao
coração.»
«E depois, que o genero-humano se prostre
e adore nella a redempção que nos trouxe
o Ungido de Deus.»
«A cruz triumphará eterna!»
Neste momento aquellas vozes harmoniosas
cessaram, como se de subito nos labios
de todas as monjas se houvesse posto o sello
da morte. A porta do templo, aberta com
violento impulso, rangera nos gonzos, e um
velho ostiario viera cahir de bruços sobre as
lageas do pavimento, soltando o grito doloroso
que por tantos milhares de bocas diariamente
se repetia na Hespanha:—Os arabes!
As vozes confusas dos vigias, misturadas
com o tinir do ferro, responderam, como um
uivar de feras, ás palavras do ostiario: as faces
pallidas das virgens empallideceram ainda
mais.
A alvorada começava a repintar na terra
a claridade do sol, escondido ainda no oriente.
Os godos com as armas nas mãos coroavam
as ameias. Do alto de uma das torres
Atanagildo observava a campanha, e a fronte
entenebrecia-se-lhe com um véu de tristeza.
Naquella noite muitos nobres senhores de
terras tinham chegado ao mosteiro, vindos
da banda de Legio. Um numeroso exercito
d'arabes apparecera subitamente na vespera
juncto aos muros da cidade, que logo fora
acommettida pelos pagãos. Era o que sabiam.
Fugitivos desde o apparecimento dos inimigos,
ao anoitecer haviam enxergado para
aquella parte um clarão grande e duradouro.
Se eram as fogueiras dos arraiaes arabes,
se o incendio de Legio, não o podiam resolver;
só, sim, que sería impossivel resistir
por largo tempo cidade tão mal defendida a
tamanha copia d'infiéis, que não tardariam
a derramar-se para o lado do mosteiro, proseguindo
nas suas devastadoras conquistas
pela Gallecia e pela Tarraconense.
Era esta negra prophecia dos fugitivos que
se tinha verificado ao romper da manhan.
Atanagildo, do alto da torre principal, vira
ao longe um vulto negro que descia dos outeiros,
onde já allumiava tudo a luz matutina.
Esse vulto assemelhava-se a serpe monstruosa
que, rolando-se do monte para a planicie
em collos tortuosos, se lhe reflectissem
nas duras conchas os raios solares; porque
naquelle corpo gigante havia um contínuo e
rapido scintillar. Atanagildo percebera o que
era, e por isso a tristeza lhe obscurecia a
fronte.
Como a faisca electrica, o terror se espalhara
no mosteiro apenas se dissera que os
arabes se approximavam. Mais de um coração
de guerreiro batia apressado, como o do
pobre ostiario que buscara na piedade de
Deus o amparo que mal podia esperar das
muralhas do forte edificio; do pobre ostiario,
que, sem o saber, fora desmentir o hymno
triumphal da cruz, diariamente derribada dos
altares nos templos profanados da Hespanha.
Dentro em breve, o exercito do Islam se
approximara a tão curta distancia que facilmente
se distinguiam os esquadrões dos filhos
do deserto e as turmas dos berebéres.
Tambem os arabes tinham observado o reluzir
das armas através das ameias do mosteiro.
A hoste inteira parou no valle, e alguns
cavalleiros encaminharam-se pela senda
tortuosa que findava na ponte levadiça contigua
ao grande portal, erguida desde que
pelos fugitivos constara que os mosselemanos
se avizinhavam.
Quando o quingentario conheceu que os
arabes paravam no fundo do valle, o seu
coração generoso verteu sangue com a lembrança
de que todo o esforço dos soldados
que coroavam os adarves do mosteiro, por
muito que houvera sido, não fora bastante
para salvar os desgraçados que tinham buscado
abrigo á sombra daquellas muralhas.
Viu o desalento pintado nos semblantes dos
mais valorosos, e a ultima esperança varreu-se-lhe
da alma. Todavia, esperou com rosto
seguro a chegada dos cavalleiros que subiam
a encosta.
Estes approximaram-se, emfim. Pelo seu
aspecto e trajo via-se que na maior parte
eram godos. Com as espadas nas bainhas,
pareciam vir em som de paz: tambem, por
isso, nem uma frecha só se disparou contra
elles dos muros.
Pouco antes de chegarem ao fosso profundo
que circumdava o edificio, um cavalleiro
que parecia o principal daquelle pequeno
esquadrão, adiantando-se aos demais,
veio topar com a entrada da ponte e, olhando
para as muralhas, onde reluziam immoveis
as lanças dos christãos, chamou:—«Atanagildo!»
Ao ouvir aquella voz, o quingentario empallideceu:
com visivel anciedade, voltou-se
para um centenario que estava juncto delle
e disse-lhe:
«Mandae descer a ponte e dae passagem
franca a esse cavalleiro que proferiu o meu
nome: mas a elle, unicamente a elle!»
O centenario obedeceu. D'ahi a pouco as
armas do guerreiro tiniam pelas escadas da
torre. Apenas subiu ao terrado, encaminhou-se
para Atanagildo e, estendendo-lhe a dextra,
exclamou:—«Meu irmão!»
O quingentario, em cujas faces pallidas
passara um relampago de vermelhidão, recuou
e, com voz affogada, respondeu:
«Atanagildo teve um irmão; mas esse morreu
para elle: porque entre elle e Suintila
está a cruz quebrada aos pés dos pagãos;
está o céu e o inferno. A minha herança é
a ignominia do vencimento, os ferros d'escravo
e as promessas do Christo: a tua as
riquezas, a victoria e a maldicção de Deus.
Não tróco os nossos destinos, nem quero a
amizade do precíto. Arrepende-te, abandona
os infiéis, e então Atanagildo te apertará ao
peito e te dará aquelle nome tão suave da
nossa infancia, o sancto nome de irmão.»
«Estás louco!—replicou Suintila—...Porém,
não foi para disputar comtigo que vim
aqui: vim para te salvar. Olha para o valle:
áquella hoste numerosa que lá vês poucas horas
poderão resistir estes muros mal guarnecidos,
Abdulaziz, o invencivel filho do amir
d'Africa, é quem a capitaneia: Legio cahiu
hontem em nosso poder, e de parte nenhuma
podes ser soccorrido. O bispo d'Hispalis e o
conde de Septum, que vem comnosco, offerecem-te
o mando de um dos seus esquadrões.
Os arabes pedem aos godos que os seguem
fidelidade ao estandarte do kalifa, não á crença
do Islam: pódes guardar tua fé. Eis o que
Suintila alcançou a teu favor. Estas velhas
muralhas e as donzellas encerradas nestes
claustros, que Abdulaziz soube serem pela
maior parte formosas e que elle destina para
enviar a Kairwan, são o vil preço da tua salvação.
Suintila aconselha-te que o entregues;
porque, apesar das injurias, ainda se não esqueceu
de que é irmão de Atanagildo. Resolve
e responde: que devo dizer a Juliano e a Oppas,
a quem suppliquei para ser mandado aqui?»
«Dize-lhes—atalhou o quingentario, cujos
olhos faiscavam d'indignação—que eu
respeito a vida de um aráuto, ainda quando
este é um miseravel renegado, como tu ou
como elles, aliás não fora Suintila quem lhe
levaria minha resposta. Dize-lhes que as suas
infames offertas são para mim tão abominaveis
como elles. Dize-lhes que, antes de um
sacerdote sacrilego e de um conde traidor
poderem estampar o ferrête da prostituição
na fronte das innocentes virgens do Senhor,
terão de passar por cima das ruinas destes
muros e dos cadaveres dos seus e dos meus
soldados. E tu, renegado, sae d'aqui! Possa
eu nunca mais vêr-te o rosto e esquecer-me
na hora de morrer de que nessas veias gyra
o sangue de nossos nobres e generosos avós.»
«Como te aprouver, meu irmão!»—replicou
Suintila, e um sorriso lhe deslisou nos
labios, descorados por mal disfarçada colera.
Proferidas estas palavras, desceu as escadas
da torre.
A cavalgada, que lenta subira a encosta,
descia-a rapidamente emquanto Atanagildo,
visitando os muros, exhortava os guerreiros
da cruz a pelejarem esforçadamente. Quando
estes souberam quaes eram as intenções dos
arabes ácerca das virgens do mosteiro, a atrocidade
do sacrilegio affugentou-lhes dos corações
a menor sombra d'hesitação. Sobre
as espadas juraram todos combater e morrer
como godos. Então o quingentario, a
quem parecia animar sobrenatural ousadia,
correu ao templo. Era necessario que as monjas
soubessem qual futuro as aguardava. Resignado
a acabar defendendo-as, Atanagildo
nem por isso esperava salvá-las das mãos dos
agarenos. Dolorosa era a nova; mas cumpria
não lhes esconder o seu horrivel destino.
As mulheres e os velhos que tinham vindo
buscar asylo no mosteiro enchiam já o
templo, em cujas abobadas murmuravam e
repercutiam os gemidos e as preces. Rompendo
pela multidão, o quingentario encaminhou-se
para o coro e chamou por Chrimhilde,
que com as monjas acompanhava o
povo nas suas orações fervorosas. A abbadessa
aproximou-se das reixas douradas que
a separavam do guerreiro.
«Chrimhilde,—disse Atanagildo em voz
baixa—é necessario valor! Dentro de poucas
horas sobre os muros do mosteiro da
Virgem Dolorosa estará hasteiado o pendão
dos infiéis, e eu terei deixado d'existir, porque
jurei sobre a cruz desta espada ficar sepultado
debaixo das ruinas delle. O exercito
dos arabes é irresistivel, e a unica esperança
que me resta é que o Senhor acceitará
o meu sangue, derramado em seu nome, como
um testemunho da minha fé.»
«Os infiéis—acudiu a abbadessa, procurando
dar ás palavras que proferia um tom
de firmeza que o tremulo da voz lhe desmentia—contentar-se-hão,
talvez, com as riquezas
aqui amontoadas imprudentemente e
com a posse destes logares. Se é isto o que
pretendem, saiamos e cedamos ao culto impio
de Mohammed o templo do Deus vivo,
já que para o salvar sería inutil todo o sangue
que se vertesse. Com as virgens esposas
do Senhor buscarei os ermos das serras do
norte, e, como as monjas primitivas, ahi acharemos
a paz e o repouso, emquanto o pae
celestial nos não chama á nossa verdadeira
patria.»
«Prouvera a Deus, veneravel Chrimhilde—tornou
o quingentario—que nos fosse licito
desamparar estes muros: deixar só entregues
ás profanações dos infiéis a pedra e
o cimento! Mas uma atroz mensagem acaba
de me ser mandada por quem, como eu, devia
horrorisar-se della. Repelli-a, porque se
me offereciam vida e honras a troco de perpetua
infamia. Agora resta-me unicamente
o morrer como godo e como soldado da cruz.»
«E qual era essa mensagem?—perguntou
a abbadessa anciosamente.—Em nome de
quem vinha ella?»
«Do bispo d'Hispalis e do conde de Septum;
de um sacerdote e de um nobre. O
preço da nossa liberdade era a prostituição
das vossas filhas queridas, das monjas consagradas
á Virgem Dolorosa, que esses malaventurados
destinam para saciar as paixões
brutas daquelles a quem venderam a terra
d'Hespanha. Para o obter cumpre-lhes, porém,
passar por cima dos membros despedaçados
dos guerreiros que povoam estas muralhas.
Pela cruz assim o jurámos todos. Havemos
de cumpri-lo.»
As palavras de Atanagildo vibraram no coração
de Chrimhilde, como vibra o primeiro
dobre pelo finado que ainda jaz em seu leito
da derradeira agonia na alma do bom filho,
que resa, chorando, ajoelhado ao pé delle. Recuou
atterrada e, volvendo para o céu os
olhos enxutos, porque a afflicção nelles estancara
as lagrymas que despontavam, ficou
por alguns momentos com as mãos erguidas,
como implorando uma inspiração de cima.
Pouco a pouco, porém, as suas faces tingiram-se
da cor da vida, o sorriso da esperança
rodeiou-lhe os labios, e as lagrymas,
consolo supremo das maiores magoas e, tambem,
expressão eloquente dos contentamentos
mais intimos, lhe rebentaram com força e
lhe orvalharam a negra estamenha do habito.
«O martyrio! o martyrio!—murmurou a
abbadessa.—Oh Christo! bemdicto seja o
teu nome.»
«O martyrio, sim:—interrompeu o quingentario—mas
depois do sacrilegio; mas depois
que as victimas da corrupção dos traidores
tiverem sido arrastadas para longe da
Hespanha e depois que nos harems do oriente
houverem sido polluidas pela sensualidade
brutal dos conquistadores. Eu, ao menos, não
verei esta ultima offensa á crença sacrosancta
de nossos paes...»
«Ide:—proseguiu a abbadessa, que parecia
não o haver escutado, embebida em meditação
profunda:—Quando os infiéis se approximarem,
enviae-lhes mensageiros de paz.
Que vos deixem acolher ás montanhas com
essa multidão d'infelizes que vieram buscar
o abrigo destes muros. Não cureis das monjas
da Virgem Dolorosa, nem receieis por
ellas. Achei um meio para as salvar da sorte
medonha que as ameaça. Desamparae-nos;
porque o archanjo do esforço é o nosso defensor.
O meu arbitrio será acceito pelas escolhidas
do Christo; sê-lo-ha, porque o Senhor
m'o inspirou. Nada mais é preciso dizer-vos.»
E, de feito, o seu olhar e gesto eram de
uma inspirada: mas nesse olhar e gesto havia
o que quer que era de severa aspereza
misturado com alegria suave, como em céu
que varre o noroeste as nuvens tenebrosas
remendam o azul purissimo do firmamento,
d'onde, através dellas, jorram torrentes de luz.
«Mas o juramento?—tornou tristemente
o quingentario.—Devo respeitar o vosso segredo;
todavia parece-me licito duvidar da
efficacia dos meios que imaginaes para vos
salvardes das mãos dos mosselemanos.»
«O vosso juramento é inutil—acudiu
Chrimhilde—e eu vos escuso delle. A resistencia
só servirá para arrastardes comvosco
á morte os velhos inermes e as criancinhas
innocentes. Ide e abri pacificamente
as portas aos pagãos. Se tanto é preciso, eu
vo-lo ordeno. Atanagildo, um dia nos veremos
no céu.»
Dictas estas palavras com toda a firmeza
de uma resolução inabalavel, a abbadessa
affastou-se da reixa e encaminhou-se para o
meio das freiras, que, entretanto, haviam estado
immoveis com os olhos cravados no pavimento.
O quingentario ficou por alguns momentos
pensativo: depois, agitado pela lucta
cruel dos affectos e pensamentos oppostos que
tumultuavam no seu coração, atravessou vagarosamente
o templo e desappareceu.
A um signal de Chrimhilde as monjas saíram
do coro; a donzella vestida de branco,
ao lado da veneravel abbadessa, apertava-lhe
a mão entre as suas; mas os seus meneios
eram firmes como os della e mais do que os
della altivos. Desde que a ultima freira passou,
as préces misturadas de soluços que
sussurravam na egreja converteram-se n'um
som unico de chôro perdido, como se a ultima
esperança houvera desapparecido com
ellas.
A campa do mosteiro bateu tres pancadas
com largos intervallos: é o signal que convoca
as monjas a capitulo. Para lá se encaminham.
A donzella que nessa noite chegara
acompanha-as, tambem, ahi. Entraram. As
pesadas portas da casa capitular rangem nos
gonzos cerrando-se, e o correr dos ferrolhos
interiores reboa ao longe pelos corredores
monasticos. Ao mesmo tempo a ponte levadiça
cai sobre o fosso que rodeia as muralhas
do vasto edificio; um cavalleiro se arroja
sózinho ao meio dos esquadrões do Islam,
que já subiram a encosta, e pede para
falar com o conde de Septum em nome de
Atanagildo. Dentro de poucos instantes ei-lo
que volta, e os mosselemanos param a curta
distancia. Então um grande numero de crianças,
de velhos e de mulheres, saíndo, como
torrente comprimida, do portal profundo do
mosteiro, atravessam por meio de duas fileiras
de soldados de Juliano e de guerreiros arabes
que vieram collocar-se aos lados da ponte.
Esta multidão desordenada ondeia, separa-se,
apinha-se de novo, para tornar a espalhar-se,
até que desapparece ao longe, caminho
das montanhas. Após ella, cubertos dos
seus saios de malha, mas sem armas, os soldados
de Atanagildo seguem com rosto melancholico
as mesmas trilhas por onde se vai
escoando a turba, até que, tambem como
esta, se derramam pelas selvas densas dos
montes e pelos barrancos escarpados que, retalhando
os Nervasios, dão passagem através
delles para as regiões septemtrionaes da Hespanha.
Apenas o quingentario, que fora o derradeiro
a atravessar a ponte levadiça, volvendo
ainda os olhos arrasados de lagrymas para
aquella sancta morada, desceu a encosta, as
duas fileiras de soldados arremessaram-se ao
fundo portal, cujas abobadas pela primeira
vez reboaram com os gritos discordes de homens
desenfreiados, e o edificio solitario respondeu-lhes
com um silencio lugubre. Diante
delles estavam patentes as vastas arcarias e
escadas, os longos corredores, os pateos espaçosos.
Lá, no centro, o templo solitario,
com as portas abertas de par em par, amostra-lhes
aos olhos ávidos as suas riquezas, ao
passo que parece querer vedar ao sol, com
as cores sombrias das vidraças das janellas,
o espectaculo das profanações de que na sua
existencia secular vai ser theatro e testemunha
pela primeira vez.
Como o tufão, rugindo, se abysma nas galerias
tortuosas de mina extensa, assim os
godos renegados e os mosselemanos, que os
seguem de perto, se precipitam dentro do
mosteiro. Pelas arcadas e corredores, pelas
salas e aposentos ouve-se o rir e falar desentoado,
o ruído de passadas rapidas, o tinir
das armas, o estourar das portas. Arabes,
mouros, soldados godos da Tingitania misturam-se,
disputam, ameaçam-se, dividindo
o sacco.
Os cheiks e os capitães do conde
de Septum vedam-lhes unicamente a entrada
das habitações interiores, onde a riqueza
do templo lhes promette á cobiça mais avultada
presa. Elles sós se encaminham para
essa parte e desapparecem nos claustros monasticos,
onde não se ouve outro signal de
vivos, senão o som de seus pés e, a espaços,
o tinir das proprias armaduras, que roçam
pelos pilares de marmore.
Suintila, o deshonrado irmão do virtuoso
Atanagildo, era do numero dos capitães que
haviam primeiramente penetrado no claustro
solitario. Tinha-se adiantado mais e descia
por uma escadaria lobrega que terminava,
segundo parecia, n'uma quadra allumiada
por muitas tochas. Esta circumstancia, que
lhe excitava viva curiosidade, o obrigou a
apertar o passo. A meia descida parou. Crera
ouvir um cantico entoado por muitas vozes
accordes, que a espaços era interrompido por
gemidos dolorosos. Escutou: não se enganava!
Então o terror começou a apossar-se
delle, e, porventura, teria retrocedido, se não
sentira que alguem mais o seguia. Eram dous
cheiks arabes e um centenario do conde de
Septum que o acaso guiara para aquella parte.
Interposto entre o clarão avermelhado que
saía do subterraneo e os tres que se approximavam,
Suintila fez-lhes signal de silencio
e continuou a descer mansamente, até chegar
á porta que dava da escadaria para o
aposento illuminado. Então conheceu onde
estava. Era um desses logares mysteriosos e
sanctos que a primitiva architectura religiosa
construía debaixo dos templos—templos tambem,
mas da morte; porque ahi, sobre os altares,
repousavam as cinzas dos martyres, e aos
pés delles os fiéis que obtinham para ultima
jazida uma pouca de terra onde ainda fossem
affagar-lhes as cinzas o sussurro longinquo
das préces e o perfume dos sacrificios.—Suintila
achava-se na crypta do mosteiro da
Virgem Dolorosa. O clarão que vira era o
de muitos lumes, accesos em lampadarios gigantes,
e reverberando nas stalactites penduradas
das juncturas do marmore: era o reflexo
das tochas que ardiam diante dos crucifixos,
unicas imagens que se viam sobre as
aras núas. Em cada um dos tumulos das
monjas antigas, enfileirados ao comprido dos
muros, negrejavam apenas uma data e um
nome. Era o que restava para memoria de
muitas virtudes naquelles annaes do mosteiro,
naquella chronologia de pedra. O sepulchro
da viuva d'Hermeneghild, o desgraçado
irmão de Rekkáred, elevado mais que os outros
á entrada do templo subterraneo, semelhava
um throno de rainha em palacio de
sombras, porque o ambiente grosso e frio e
o halito das sepulturas revelavam que ahi era
o imperio da morte.
As torrentes de luz que inundavam esta
morada de terror não permittiram a Suintila
enxergar no primeiro volver de olhos
os objectos que estavam ante elle. Espantado,
tentava descobrir no meio daquella resplandecente
solidão algum vulto humano,
quando os cantos e gemidos, suspensos momentaneamente,
romperam de novo: primeiro
as vozes harmoniosas; depois o gemido íntimo,
doloroso, affogado; logo outra vez o
silencio.
Os dous cheiks e o centenario tinham chegado
ao pé de Suintila. Animados uns pela
presença dos outros, encaminham-se para o
grande tumulo e d'alli olham para o logar
d'onde haviam soado os canticos. Eis o temeroso
espectaculo que têem diante de si:
Grossos e altos cancellos de roble separam
do resto do templo um extenso recincto sem
sepulchros, immediato ao altar principal: uma
cruz agigantada se ergue no topo: por um
e outro lado daquelle espaço além das grades
negrejam duas fileiras de monjas: muitas
estão de joelhos e debruçadas sobre o primeiro
degrau do altar: em pé, entre as duas
fileiras, uma dellas, cujos olhos desvairados
reluzem á claridade das tochas e cujo aspecto
severo infunde uma especie de terror,
tem na mão um punhal, cujo ferro sem brilho
parece tincto em sangue. Juncto da monja
um vulto de mulher vestida de branco sobresáe
no meio das virgens cubertas de lucto:
unido ás grades que defendem a entrada daquelle
recincto, um velho, cujas melenas e longa
barba lhe alvejam sobre os hombros e peito,
está de joelhos com os braços estendidos
através da balaustrada: agita-o uma convulsão
horrivel de pavor, que lh'embarga na
garganta os sons articulados e só lhe consente
murmurar um ruído confuso, semelhante
ao respiro ancioso de agonisante. Um
dos dous córos de freiras começa a entoar
de novo os psalmos: a monja do punhal estende
a mão, ordenando silencio. Vai falar.
Suintila, a ponto de arremessar-se para aquelle
lado, pára e escuta as suas palavras. São
lentas e lugubres, como as de um espectro,
que se alevantasse d'alguma das campas derramadas
ao longo da crypta. Dirige-as ao
vulto branco que está a seu lado:
«Ainda uma vez, nobre dama, attendei
ás
supplicas do velho buccellario que tenta salvar-vos.
Para vós ha esperança na terra: a
nossa mora no céu. Quando os infiéis souberem
que ainda existe na Hespanha quem
possa quebrar com ouro o vosso captiveiro
ou vingar com ferro a vossa affronta, respeitarão
a pureza de nobre virgem. A nós, que
não temos ninguem no mundo, restava-nos
unicamente o tremendo arbitrio que o Senhor
nos inspirou. O martyrio não tardará a cingir-nos
a fronte d'uma aureola de gloria: os
anjos de Deus nos esperam.»
«A minha ultima resolução, veneravel
Chrimhilde, é acabar juncto de vós e de nossas
irmans. O meu animo saírá, como o dellas,
illeso da ultima prova que o Christo nos pede
na vida. Como ellas, darei sem hesitar testemunho
da cruz. O velho buccellario de meu
pae mente á propria consciencia quando affirma
que os infiéis respeitarão a pureza de
uma donzella goda: a infamia tem sido escripta
por elles na fronte das familias mais
illustres da Hespanha: o cutello ou a prostituição
é o que os arabes offerecem á innocencia.
Eu escolho o cutello: a morte val
mais que a deshonra. Porventura, para a evitar
me guiou o Senhor ao mosteiro da Virgem
Dolorosa.»
Seja feita a vontade do Altissimo:—respondeu
a abbadessa alevantando ao céu as
mãos, entre as quaes apertava o punhal.
Depois de um momento de silencio, Chrimhilde
disse, voltando-se para o lado esquerdo:
«Hermentruda, approximae-vos!»
Uma das monjas saiu d'entre as outras e
veio ajoelhar aos pés da abbadessa; as suas
companheiras ajoelharam tambem voltadas
para o altar; e o hymno que Suintila ouvira
ao descer para a crypta murmurou de novo
naquellas curvas abobadas.
Como lá no horisonte o sol tremulo e sereno
se reclina ao fim da tarde no seio tenebroso
dos mares, assim o canto melancholico
e melodioso das virgens foi pouco a pouco
enfraquecendo até expirar no cicío de orações
submissas. Apenas cessou de todo, um
gemido de agonia agudo e rapido soou juncto
da abbadessa. Aos olhos de Suintila figurou-se
que o punhal de Chrimhilde descera
duas vezes sobre a monja que estava a seus
pés. Um brado de colera e horror, saíndo
involuntariamente da bocca do godo, restrugiu
pelo templo. Crera o renegado que Hermentruda
havia sido assassinada. Pareceu-lhe
então claro o sentido das palavras mysteriosas
que ouvira. As monjas fugiam ao captiveiro
do harem pelo ádito do sepulchro.
Elle assistia a uma scena horrenda de suicidio,
e o braço mais robusto de Chrimhilde
apenas era o instrumento cego movido por
todas essas vontades, conformes para morrer.
«Mulher ou demonio, detem-te!—bradou
Suintila, correndo com os cheiks e o centenario
para o recincto fechado e procurando
abrir os fortes cancellos que lh'embargavam
os passos.
Embebidas no seu drama cruel, nem as
monjas, nem Chrimhilde volvem sequer os
olhos para os quatro guerreiros, cujas armas
reluzem ao fulgor das tochas. Hermentruda
não está morta. Ergueu-se. Tem a cabeça
descuberta, os louros cabellos esparzidos,
o collo nú. Bem como o aspecto do formoso
archanjo de luz no dia em que, rebelde,
a espada de fogo lhe estampou na fronte
a condemnação eterna, o seio e o rosto da
monja, suavemente pallidos, estão sulcados
por betas escuras, que serpeiam por aquelle
gesto, como as viboras estiradas ao sol sobre
um busto grego tombado entre as ruinas
de antigo templo pagão. É que, semelhantes
ao nordeste frio e agudo, que, passando pela
bonina viçosa, lhe desbarata os encantos, os
fios do punhal de Chrimhilde correram por
lá violentos e rapidos, e n'um momento anniquilaram
a formosura da virgem.
As grades, fechadas interiormente, balouçam
aos empuxões de Suintila; mas não cedem.
«Okba, diz o godo a um dos cheiks,
correi! Chamae os mais robustos zenetas e
os negros de Takrur armados dessas achas
a cujo primeiro golpe nunca resistiu elmo
de bronze. Prestes! chamae-os aqui. Abdulaziz
deve ter chegado. Que venha! Mulher
infernal lhe vai destruindo peça a peça os
despojos mais ricos, os que elle destinava
para si e para o khalifa. Que venha salvá-los!
Que venha! Prestes, cheik de Hoara!»
E, emquanto o cheik galga a extensa escadaria
os tres tentam muitas vezes fazer estourar
os grossos ferrolhos, que resistem ás
suas diligencias. Arquejando, Suintila abandona
a tentativa inutil. Ameaça Chrimhilde:
as injurias acompanham as ameaças: seguem-nas
as supplicas, as promessas e logo, de novo,
as pragas e as affrontas. Baldado é tudo.
Chrimhilde lançou ao renegado um olhar de
compaixão e conservou-se em silencio.
Mas os canticos cessaram de todo: as monjas
saem successivamente de ambos os lados
e vem ajoelhar aos pés da abbadessa: vem
despir as galas da formosura e comprar á
custa dellas a pureza da virgindade e a palma
do martyrio. Cada vez mais rapido range
o punhal nos collos purissimos das virgens
do mosteiro. O gemido que expira, comprimido
pela constancia, já se prende com o
que a dor e a fraqueza mulheril arrancam do
seio das victimas ao descer do primeiro golpe,
e a fileira das que se vão debruçar sobre
os degráus do altar cresce d'instante a
instante, ao passo que rareiam as outras duas.
A terrivel sacerdotisa parou. Está o seu
braço cansado de tão largo sacrificio? Não!
Braço e animo são robustos, porque os fortalece
o espirito do Senhor. É que o momento
supremo da morte se approxima. A mourisma
jorra subitamente pelo portal estreito,
como o rio caudal na caverna que se lhe estendia
debaixo do leito e cuja abobada fendeu
tremor de terra. Os guerreiros negros
das tribus de Takrur, á voz de Abdulaziz que
os precede, precipitam-se contra os solidos
cancellos do logar vedado: vinte machados
ferem a um tempo nas grades, que gemem
sob a furia dos golpes e mal resistem ás
pancadas violentas dos negros possantes, aos
quaes redobra os brios a presença do amir,
cuja colera resfólega em maldicções e blasphemias.
Entre as monjas e os arabes bem curta
distancia medeia: e todavia, lá no mais pequeno
recincto, onde soam os gemidos de
dores atrozes, onde só ri uma esperança, a
da morte, ha paz íntima, ha o céu: aqui, na
vasta crypta, onde a ebriedade de facil triumpho,
a riqueza dos despojos, o futuro de uma
larga existencia de gloria e deleites sorriem
na mente dos infiéis, está o furor insensato,
está o inferno. O evangelho e o koran estão
frente a frente no resultado das suas doutrinas.
É sublime a victoria do livro do Nazareno!
Os golpes de machado redobram: os troncos
affeiçoados do roble começam a estourar
nas suas juncturas. A ultima freira fora já
curvar-se juncto aos degráus do altar: a donzella
vestida de branco vai ajoelhar aos pés
de Chrimhilde, exclamando:
«Para mim tambem o martyrio! Salvae-me
do opprobrio!»
«A tua constancia, filha, na dura prova
de agonia por que tens passado te purificou.
Sê uma das monjas da Virgem Dolorosa e
vai com tuas irmans receber a coroa de martyr.»
O ferro, porém, que descia sobre o collo
da donzella foi cair com a mão de Chrimhilde
aos pés da cruz gigante do altar. Um
revés do alfange de Abdulaziz lh'a cerceiara:
as solidas grades estavam despedaçadas.
A abbadessa vacillou e, ao cair, só pôde
murmurar:—Jesus, recebe a minha alma!
Foram as suas palavras extremas: um segundo
golpe lhe atalhou na garganta o derradeiro
suspiro.
As freiras ergueram-se e encaminharam-se
para o logar em que jazia o cadaver destroncado
da abbadessa. Ajoelharam juncto
della, com a face voltada para a turba dos
infiéis. Os seus rostos, inchados e manando
sangue, eram disformes e horriveis.
«Ao menos, tu serás minha!—exclamou
o amir, lançando a mão ao braço da donzella
vestida de branco, a quem o terror desta
scena rapidissima tornara immovel, como
uma dessas estatuas que parecem orar sobre
os sepulchros nas cathedraes da idade-média.—Filhos
valentes do Sudan, conduzí-a
á minha tenda. As outras, que as azas
do anjo Azrael se estendam sobre os seus
cadaveres.»
D'ahi a poucas horas a crypta estava em
silencio. As monjas da Virgem Dolorosa jaziam
degoladas em volta da veneravel Chrimhilde,
e as suas almas puras abrigavam-se
no seio immenso de Deus.
XIII
COVADONGA