Ao sopé daquelle monte um penhasco
defendido pela natureza e
não por arte, dilatando-se vasto,
resguarda uma caverna inteiramente
inexpugnavel para qualquer ardil
d'inimigos.
Monge de Silos: Chronicon c.
3.º
A victoria do Chryssus assegurara aos arabes
a conquista da Hespanha inteira, porque
o desalento entrara em todos os corações, e
o terror quebrara todos os brios. O duque
de Cantabria, Pelagio, fora o unico em cuja
alma
não morrera inteiramente a esperança.
Errante pelos cerros quasi inaccessiveis que
se elevam no extremo oriental da Gallecia e
que, passando ao norte da Carthaginense, vão
entroncar-se no vulto gigante dos Pyrenéus,
o mancebo não dobrara a cerviz ao fado cruel
que pesava sobre seus irmãos. Poucos o haviam
seguido naquella vida quasi selvagem;
mas esses poucos eram homens a quem a
aura da liberdade parecia a unica atmosphera
em que seus pulmões robustos poderiam
resfolegar; homens a cujos olhos as affrontas
da cruz derribada do cimo das cathedraes sería
espectaculo incrivel e insupportavel. Uma
caverna servia de paço ao joven rei das montanhas
e de templo ao Crucificado. Os dominios
de Pelagio eram as serranias e os valles
profundos onde, porventura, até então
nunca soara a voz humana. O urso ferocissimo,
o javalí indomavel, a leve corça abasteciam
a grosseira mesa desses godos, a quem
a desgraça e a vida dura das solidões fizera
mais féros, mais indomaveis e mais ligeiros
do que elles. Ás vezes, Pelagio e os seus soldados
desciam das montanhas para largas correrias,
semelhantes á tempestade nocturna,
e, como a tempestade, passavam pelas tendas
dos arabes ou pelas aldeias, despovoadas de
christãos, onde os infiéis começavam a fazer
assento. Alta noite ouvia-se ahi um gemer
de moribundos, via-se o brilhar do incendio.
Era o bulcão do deserto que rugia por lá.
Ao amanhecer tudo estava tranquillo; porque,
bem como a procella, Pelagio era repentino
e destruidor e só escrevia na terra com os
caractéres sanguinolentos de ruinas e mortes
a noticia da sua quasi invisivel passagem.
Não assim Theodemiro. Depois da batalha,
os restos das tiuphadias desbaratadas haviam-no
proclamado successor de Ruderico.
Era de ferro e espinhos a coroa que se lhe
offerecia sobre a campa do imperio godo.
Acceitou-a; porque em acceitá-la havia mais
abnegação que orgulho. Emquanto Tarik,
rendida Toletum, subjugava uma parte da
Carthaginense, Musa, o amir d'Africa, desembarcando
nas costas da Hespanha com um
novo exercito, rendia Hispalis e, atravessando
o Ana, submettia ao jugo do khalifa todo
o occidente da peninsula iberica. As reliquias
do exercito godo, que não haviam podido resistir
a Tarik, muito menos poderiam impedir
a passagem do amir. Assim, Theodemiro,
ajunctando esses soldados dispersos, acolhera-se
ás serranias d'Ilipula, na extremidade
oriental da Betica. Musa, porém, enviara contra
elle seu filho Abdulaziz, um dos mais famosos
guerreiros do Islam. Apesar da superioridade
do exercito arabe, a lucta fora longa
e terrivel. Theodemiro succumbira por
fim; mas, posto que vencido, o seu valor obrigara
os mosselemanos a concederem-lhe vantajosas
condições de paz. Os vastos dominios
que ainda possuia foram-lhe conservados, reconhecendo
elle a supremacia do amir, e os
godos poderam, ao menos nesse canto da Betica,
achar uma parte da segurança e repouso
que faltava no resto da Hespanha, onde
o alfange da conquista assignalava todas as
frontes com o ferrete da servidão e reduzia
a montões de ruinas as cidades, nas quaes o
espirito do christianismo e da liberdade ousava
reluctar contra o dominio do khalifa e contra
a religião do koran.
Theodemiro reinou largo tempo nos districtos
orientaes da Betica, mas abandonado
pelos mais nobres guerreiros, para quem a
paz com os infiéis seria incomportavel deshonra.
As montanhas das Asturias eram o
verdadeiro e unico refugio da independencia
goda. Em volta de Pelagio ajunctavam-se todos
os homens esforçados que não tinham
ainda desesperado da providencia e da propria
espada. Muitos delles adormeceram para
sempre nas solidões daquelles agrestes escondrijos,
sem que vissem verificar-se as suas
esperanças; outros, porém, saudaram ainda
a aurora do dia da vingança e poderam dizer,
morrendo:—a Hespanha será salva!
Era passado um anno depois da batalha
do Chryssus. O numero dos companheiros de
Pelagio augmentava diariamente com os homens
generosos que, depois da paz de Theodemiro
com os arabes, o deixavam, para salvarem
a sua independencia nos fraguedos das
Asturias e da Cantabria. Estes soccorros continuos
fortaleciam a constancia do moço guerreiro,
que via crescer e sussurrar a torrente
dos invasores em volta das suas montanhas.
Abdulaziz, o valente filho de Musa, subjugara
a Lusitania e a Carthaginense e, saqueando
as cidades opulentas do norte que lhe abriam
as portas, mettia a ferro e fogo as que tentavam
resistir-lhe. Os rolos de fumo que se
alevantavam das povoações incendiadas mostravam
aos cavalleiros de Pelagio que já pelos
campos gothicos fluctuava triumphante o estandarte
de Mohammed. Rugindo de colera
ao contemplarem este espectaculo, apertavam
contra o peito a cruz das espadas. Então,
sentiam escorregarem-lhes as lagrymas pelas
faces tostadas, e descer-lhes com ellas aos
seios d'alma a resignação e a esperança na
piedade de Deus.
Debaixo d'um semblante severo, mas sereno,
Pelagio sabía esconder a amargura que
lhe trasbordava do coração. No viço da juventude,
o espirito lhe encanecera em meio
dos dolorosos successos da sua ainda tão curta
vida. A todas as maguas communs se lhe
accrescentavam outras particulares, porventura
mais pungentes. A maior parte dos seus
companheiros haviam trazido para as Asturias
os paes decrepitos, os filhos e as esposas,
todos aquelles por quem repartiam os
affectos do seu coração. Elle, porém, não
pudera salvar uma irman que adorava e que
Favila, expirando, entregara em seus braços,
para que fosse o defensor e o abrigo da que
ficava orphan no mundo. Ao sair de Tárraco,
para se ir ajunctar á hoste de Ruderico, o
mancebo deixara Hermengarda nos paços paternos,
encommendada á guarda de alguns
velhos buccellarios de seu pae. Quando, depois
da batalha juncto do Chryssus, se acolhera
ás montanhas, onde só podia conservar
a liberdade, Pelagio avisara sua irman do logar
em que existia e lhe communicara todos
os meios de penetrar n'aquella quasi inaccessivel
guarida. A resposta d'Hermengarda foi
digna de uma neta dos godos: dizia-lhe que
brevemente sería com elle; porque preferia
um covil de feras habitado por Pelagio ás
delicias de Tárraco, sobre a qual não tardaria,
talvez, a pesar o ferreo jugo dos mosselemanos.
Com os buccellarios que lhe deixara,
ella ía atravessar a Hespanha, encaminhando-se
a Legio, onde devia chegar dentro
de poucos dias.
Esta carta d'Hermengarda produzira crueis
receios no animo do mancebo. Sabía que os
arabes, derramados já pela Gallecia, não tardariam
a envolver na torrente das suas assolações
a antiga cidade romana: elle, que experimentara
qual era a furia dos guerreiros
do oriente, compadecia-se das vans esperanças
de resistencia que os habitantes de
Legio alimentavam ainda. De feito, um dia,
em que enviara alguns cavalleiros pelos diversos
caminhos que Hermengarda poderia
seguir na sua arriscada e longa peregrinação,
estes voltaram sobre a tarde com uma
bem triste nova. Os arabes, capitaneiados por
Abdulaziz, haviam chegado juncto aos muros
daquella forte povoação, e poucas horas lhes
tinham bastado para hasteiarem nas suas torres
o estandarte de Mohammed e para passarem
á espada os seus defensores. Deixando
ahi uma das tribus bereberes, o exercito
dos conquistadores guiara rapidamente para
a Tarraconense, e os esculcas godos haviam
escapado a custo aos almogaures arabes, desapparecendo
entre os desvios das serras e espreitando
das apertadas portellas o caminho
que seguia a multidão dos infiéis, os quaes lhes
pareceu dirigirem-se para o lado do celebre
mosteiro da Virgem Dolorosa. Quanto á irman
de Pelagio, nenhuns vestigios haviam
encontrado da sua passagem, nenhuma esperança
traziam.
Taes foram as novas que os cavalleiros enviados
aos valles além de Legio deram ao moço
guerreiro, que já os esperava impaciente
em uma das gargantas do Vinnio. Cheio de
tristeza, Pelagio voltou então para a sua morada
selvatica, para o escondrijo pelo qual
havia tanto tempo trocara os paços paternos
da esplendida Tárraco. Durante muitas horas,
no meio do denso nevoeiro acamado sobre
as encostas, pelas sendas tortuosas das
montanhas, os cavalleiros que seguiam o duque
de Cantabria não ousaram quebrar-lhe
o doloroso silencio. Apenas, pela calada da
noite negra e fria, soava lá ao longe o ruido
do Sallia, de cujas margens por vezes se approximavam.
O sussurrar, porém, da corrente,
amortecido de quando em quando pela
distancia, confundia-se com o ramalhar nas
sarças do lobo que fugia e com o brando rugir
dos pinhaes, balouçados pela bafagem do
vento. Estes sons vagos e confusos respondiam
ao tropeiar dos ginetes, galgando as
serras ou descendo lentamente e enfileirados
á borda dos precipicios. O nevoeiro, mergulhando-se
nestes, branqueiava-lhes os seios
e revelava a sua existencia, deixando entre
uns e outros como uma fita tortuosa e escura,
que ía morrer mui perto no breve horisonte,
encurtado pela cerração e pelas trevas.
Tarde, já bem tarde, uma luz baça e duvidosa
bruxuleiou sem brilho adiante dos cavalleiros,
que haviam rodeiado as montanhas,
fazendo um largo semicirculo. Naquelle momento
elles transpunham uma garganta medonha.
Pelo contrario de outros logares que
tinham atravessado, aqui as serras erguiam-se
quasi a prumo de uma e d'outra parte da estreita
passagem. Por meio della sentia-se o
ruido de torrente caudal, que parecia vir da
banda da luz que se via em distancia, e o nevoeiro,
cada vez mais cerrado, pendurava-se
em orvalho na barba espessa dos guerreiros
e nos cabellos que lhes ondeiavam pelos hombros,
saindo de sob os elmos.
Seguindo o curso do ribeiro, a cavalgada
chegou, por fim, a um valle mais amplo, mas
tambem rodeiado de serras, cuja sombra gigante
sería facil perceber, apesar da cerração,
a quem olhasse attentamente em roda.
A luz que parecia guiar os cavalleiros, a principio
duvidosa, tenue, sumindo-se a espaços,
crescia rapidamente e era já um grande clarão,
que reflectia pelos penhascos, visiveis
para um e outro lado, e scintillava no dorso
da corrente. Um grito de esculca veio quebrar
o silencio dos caminhantes, que durante tantas
horas não tinham proferido uma unica syllaba.
As palavras—Covadonga e Pelagio!—repetidas
pelos cavalleiros da frente responderam
á voz do esculca, que, em pé e quedo
sobre um outeirinho, os deixou passar ávante.
Em breve chegaram ao termo da sua viagem.
O valle findava em extensa penedia cortada
a pique. Á direita uma subida ingreme, talhada
na pedra viva, conduzia a um arco irregular
aberto na penedia. Era a claridade
do fogo acceso debaixo delle a que se derramava
no valle e que ainda ía allumiar frouxamente
o passo estreito que os cavalleiros
haviam atravessado. Encostados aos rochedos,
dispersos juncto á raiz daquella muralha
altissima, estavam derramadas muitas choupanas,
grosseiramente construidas de mal acepilhados
troncos e cubertas de ramos e colmo.
Em frente de varias dellas ainda fumegava
o brazido das fogueiras nocturnas daquella
especie de arraial, onde ciciava o respirar
compassado dos que dormiam. Ao pé
da primeira e mais extensa choupana, Pelagio
descavalgou; os mais seguiram o seu
exemplo.
«Gutislo!—bradou um dos cavalleiros,
cujo elmo se distinguia dos demais, porque
era o unico em cuja superficie negra e baça
se não reverberava o clarão avermelhado dos
carvões accesos que ainda restavam de uma
grande fogueira, juncto da subida ingreme
que guiava á caverna.
Um homem agigantado e de fera catadura
saíu da choupana murmurando sons mal articulados
e que pareciam de agastamento.
Dos recem-vindos os principaes começaram
a subir vagarosamente a senda fragosa que
tinham ante si emquanto Gutislo recolhia os
ginetes, que mal se podiam meneiar de cansados,
e os simples buccellarios se derramavam
pelas tendas erguidas juncto dos penhascos.
Os cavalleiros chegaram ao topo da subida.
A caverna de Covadonga, o palacio do
duque de Cantabria, estava patente. Da esquerda,
em vasta lareira, ardia um grosso
cepo de sobreiro, que conservava tepida e enxuta
a atmosphera, naturalmente fria e humida:
da direita, pelas quebras angulosas das
rochas, viam-se deitados capacetes, saios de
malha e muitas armas offensivas. Escabellos
grosseiros, mesas de carvalho e alguns leitos
de pelles d'animaes silvestres, amontoadas sobre
a cortiça que servia de pavimento, completavam
o adereço daquelle rude aposento.
Todavia, as armas pulidas, ordenadas em feixes,
e as stalactites seculares, penduradas do
tecto, reverberando o clarão da fogueira, davam
ao topo da lapa um aspecto esplendido,
que de algum modo assemelhava esta habitação
de feras a uma sala d'armas de paços
afortalezados.
É alta noite: os cavalleiros que haviam
acompanhado Pelagio dormem profundamente,
estirados nos pobres leitos da gruta. Quem
ouvisse os nomes desses rudes soldados saberia
quaes eram os restos da mais illustre
nobreza goda: eram muitos daquelles que,
havia poucos meses, nos paços magnificos de
Toletum passavam as noites em festas, os dias
em banquetes e que, depois de existencia deleitosa,
esperavam ir dormir, sob as arcarias
das cryptas das cathedraes, nos tumulos soberbos
de seus avós. E todavia, a conquista
reduziu-os á vida de barbaros e fê-los retroceder
aos costumes duros e ferozes dos companheiros
de Theoderik e de Ataulph; aos
habitos de rudeza dos primitivos wisigodos.
O moço duque de Cantabria véla, porém.
Assentado em um escabello juncto do lar
acceso, com a face encostada ao punho, deixa
balouçar a sua alma em tempestade de dolorosos
pensamentos, lembrando-se de Hermengarda.
Por mais de uma hora, Pelagio se
conservara nesta situação, quando, ao voltar
a cabeça, viu que mais alguem velava, como
elle. O cavalleiro que ao chegarem chamara
por Gutislo, em pé por detrás do escabello,
com os braços cruzados e os olhos fitos
na chamma, parecia meditar profundamente.
No seu aspecto havia o que quer que fosse
tenebroso e sinistro.
«Como assim!—exclamou o mancebo—ainda
não buscastes o repouso? Depois de tão
larga correria, não imaginava achar-vos ao
pé de mim, que vélo, porque a amargura não
consente que o somno me cerre as palpebras.
Tendes, acaso, uma irman querida, uma esposa
que muito ameis, por quem devais tremer,
e que, talvez, neste momento seja victima
das paixões desenfreiadas dos infiéis?»
«Não tenho ninguem no mundo:—respondeu
o cavalleiro, cujo aspecto se carregou
ainda mais ao ouvir estas ultimas palavras:—mas
não póde aquelle cujo coração é ermo
desses affectos ser tambem infeliz?»
«Infelizes são todos os moradores de Covadonga—acudiu
Pelagio:—mas o que á
desventura commum ajuncta receios bem fundados
pela honra ou, ao menos, pela vida daquelles
que muito amou é mil vezes mais desventurado.»
«Duque de Cantabria, quando tiverdes medida
por onde afferir ao certo o meu e o vosso
coração podereis falar assim.»
«Te-la-hia, talvez, se conhecesse a historia
da vossa vida: mas vós a cubrís de impenetravel
mysterio.»
«Porque é o segredo mais sancto da minha
alma—interrompeu com vehemencia o
cavalleiro;—segredo que esta boca nunca
revelará na terra.»
«Nem eu o exijo: longe de mim tal intento.
A carta que me trouxestes de Theodemiro
me assegura que sois um nobre gardingo:
tanto bastou para que vos recebesse
entre aquelles com quem reparto a minha caverna
de foragido. Nunca vos perguntei, sequer,
porque abandonastes um homem que
de suas palavras vejo vos amava como irmão.»
«Oh, quanto a isso, dir-vo-lo-hei—atalhou
de novo o guerreiro, pondo a mão sobre
o punho da espada.—Foi porque eu o
cria um anjo de virtude e esforço, e elle era
apenas um homem! Foi porque a paz que
pactuou com os mosselemanos, honrosa aos
olhos do vulgo, era, a meus olhos, infamia.
Paz com o infiel? Ao christão só cabe fazê-la
quando dormir ao lado delle somno perpetuo
no campo de batalha; quando, ao lado um do
outro, esperarem ambos que as aves do céu
venham banqueteiar-se em seus cadaveres.
Antes disso, não a comprehendo. Disse-lh'o,
sem colera, sem injurias, ao abandoná-lo
para sempre. Nesse momento algumas lagrymas
correram destes olhos; porque a alma
de Theodemiro era a ultima em que morava
um affecto que respondesse aos meus;
era o ultimo templo em que me sorria a esperança!»
E as lagrymas que elle dizia haver derramado
nessa triste separação corriam, de
novo, quatro a quatro pelas faces do guerreiro.
Apenas o gardingo proferira estas derradeiras
palavras, o clarão avermelhado da lareira
bateu subitamente no vulto agigantado
de Gutislo, que surgira á boca da gruta e
parecia hesitar se devia ou não interromper
o dialogo dos dous guerreiros.
«Velho lobo do Herminio, approxima-te—disse
Pelagio em tom de gracejo, como
que tentando affastar as tristes idéas que lhe
opprimiam o espirito.—Que buscas a taes
deshoras? Tiveste, acaso, em sonhos saudades
das barrocas das tuas serras nevadas e creste
que Covadonga era o antro de teu irmão, o
javali?»
«O caçador das montanhas—replicou o
lusitano, na sua linguagem pinturesca de barbaro—não
estaria aqui, se a saudade dos logares
em que nasceu lhe morasse no coração.
Os homens d'além do mar lhe mataram
ou captivaram mulher e filhos quando estes,
por seu mal, n'um dia em que elle perseguia
nos cimos da serra os lobos cervaes, ousaram
descer com o rebanho aos valles do Munda.
Por isso te seguí eu, oh godo: tu derramas
o sangue dos homens d'além do mar, e eu
quero derrama-lo tambem.»
«A que vens, pois, aqui?—replicou Pelagio,
a quem as palavras do celta traziam de
novo ao espirito a lembrança de que tambem
elle era, talvez, orpham de irman querida.
«A dizer-te que um desconhecido chegou
ao valle. Fala não sei de que nome godo,
como o teu; d'Hermengarda, me parece. Pede
para te falar.»
«Onde está elle?—exclamou Pelagio, em
cujos olhos brilhara a esperança misturada
de temor.—Que venha! oh que venha
breve!»
E, alevantando-se, encaminhou-se ligeiro
para a entrada da gruta, d'onde Gutislo outra
vez desapparecera. Antes, porém, que ahi
chegasse, um velho, cujos trajos desordenados,
rotos e cubertos de lodo davam indicios
de ter atravessado largo espaço das serranias,
entrou na caverna e, arrojando-se aos
pés do duque de Cantabria, rompeu em soluços,
sem poder proferir palavra.
N'um relance Pelagio o conhecera.
«Aldephonso! onde está Hermengarda?
Buccellario! onde está a filha do teu patrono?»
O velho tentou responder; porém não pôde,
e continuou a soluçar.
«Entendo-te: é morta! Nunca mais te verei,
minha pobre irman!—murmurou o mancebo,
escondendo o rosto entre as mãos.
Ao gardingo, que durante esta scena se
conservara immovel, fugiu um gemido abafado.
Depois, levou o punho cerrado á fronte,
como se quizesse conter ahi uma idéa dolorosa
que tentava resfolegar.
Houve um largo espaço de temeroso silencio.
O velho o quebrou por fim:
«Não; não é morta! Mas, porventura, ainda
o seu fado é mais horrivel. Jaz captiva em
poder dos infiéis. Não me foi dado salvá-la,
e não quiz morrer sem vos dar esta nova
cruel. Agora...»
Um brado de Pelagio atalhou as palavras
do buccellario suffocadas pelo choro.
«As minhas armas e o meu cavallo! Que
me deem o meu frankisk! Velho vilissimo, já
que não soubeste deixar-te despedaçar juncto
della, dize, ao menos, onde poderei encontrar
os pagãos que captivaram Hermengarda.»
Lavado em lagrymas, o ancião narrou-lhe
em breves palavras os successos que se haviam
passado no mosteiro da Virgem Dolorosa.
Elle tinha feito tudo para a resolver a
tentar a fuga. «Ainda na crypta fatal—concluia
Aldephonso—através das grades que
me embargavam os passos, por vós, pelas cinzas
de vosso pae, lhe suppliquei de joelhos
que me acompanhasse. Os velhos buccellarios
de Favila, no meio do tumulto, a teriam,
talvez, posto em salvo! Sorriu, porém,
das minhas esperanças e conservou-se firme
no seu proposito. Mas Deus tinha ordenado
que, em vez de obter o martyrio, cahisse nas
mãos dos agarenos. De todos os que vinhamos
em sua guarda, só eu, acaso, pude escapar,
misturado com os soldados de Transfretana.
Assim, segui por algum tempo os arabes,
que se encaminham para o lado do Segisamon.
Ao anoitecer, embrenhei-me nas
montanhas. Um pastor que encontrei me serviu
de guia, até que cheguei aos pés de meu
senhor para lhe pedir a morte e para lhe jurar
que estou innocente.»
«De pé, cavalleiros! Aos infiéis, em nome
de Christo!—gritou o duque de Cantabria,
com uma voz que retumbou nas profundezas
da caverna.
Habituados ás subitas arrancadas nocturnas
contra os arabes, quando vagueiavam em
correrias longinquas, os companheiros de Pelagio
ergueram-se de salto, ainda mal despertos,
e por uma especie d'instincto lançaram
mão das armas penduradas por cima de suas
cabeças. Era solemne e tremendo o espectaculo
que apresentava a gruta naquelle alçar
repentino de tantos homens, no brilho das
armas que relampagueiavam á luz da fogueira
e tiniam umas nas outras. Entretanto Pelagio
ordenava a Gutislo que despertasse os
homens d'armas espalhados pelas choupanas
do valle e fizesse dar o signal d'encavalgar.
Era necessario partir.
No meio, porém, da revolta, havia alguem
que se conservava quedo e que parecia tranquillo.
Era o gardingo desconhecido. Encostado
á parede anfractuosa da gruta e demudado
o gesto, contemplava aquella scena com
o vago olhar de quem alongara o pensamento
para mui longe d'alli. Emquanto todos
os demais cavalleiros rodeiavam Pelagio,
indagando inquietos a causa daquelle
subito apellidar para uma correria nocturna,
elle só ficara immovel e como indifferente
ao tumulto que as vozes do duque de
Cantabria tinham excitado entre os seus guerreiros.
«Qual de vós outros cavalleiros—dizia Pelagio
aos que o rodeiavam—duvidará um
momento de que, se um mensageiro chegasse
e lhe dissesse: «vossa esposa, vossa filha, vossa
irman cahiu em poder d'infiéis» eu hesitasse
em ir ajudá-lo a arrancar essa victima
querida á bruteza cruel dos pagãos? Nenhum;
porque mais d'uma vez tenho arriscado a vida
para curar saudades e amarguras dos desterrados
como eu. Deu-me o céu uma irman;
deu-me o ultimo suspiro de meu pae uma filha;
deu-me a ternura por essa virgem, cuja
imagem vive eterna neste coração virgem
como ella, uma esposa. Quando a triste innocente
vinha abrigar-se á sombra do escudo
de seu irmão, os infiéis roubaram-ma. Viuvo
e orpham, appello para os ultimos corações
generosos da Hespanha. Por Deus, que me
ajudeis a salvar a minha pobre Hermengarda.
Como tua filha Brunehilde, ella é formosa,
Gudesteu! Como tua esposa Elvira,
ella é boa e carinhosa, Algimiro! Como tua
irman, Munio, ella é innocente e pura. Godos,
por tudo quanto amaes, salvae-a, salvae
a mesquinha!»
O nobre esforço do mancebo desapparecera
ante a idéa dolorosa da sorte que a providencia
reservara á desventurada filha de Favila.
Elle estendia as mãos unidas para os cavalleiros,
como uma creança timida que implora
compaixão.
«Partamos!—exclamaram ao mesmo tempo
os nobres foragidos.—Tua irman será salva
ou nenhum de nós voltará mais á gruta
de Covadonga!»
Uma voz trémula, mas retumbante, trovejou
por detrás delles:
«Não partireis d'aqui!»
Voltaram-se. Era o gardingo.
«Quem o ordena?—bradou Pelagio, com
toda a energia que esta inesperada resistencia
despertara subitamente nelle.
«Um homem—replicou o desconhecido,
atravessando o circulo dos guerreiros que rodeiavam
o duque de Cantabria e lançando em
volta olhos altivos;—um homem cujo coração
é ha longo tempo morto, porque as paixões
o queimaram; mas cuja intelligencia por
isso mesmo é mais fria. Quantos sois vós?
Quantos buccellarios dormem pelas tendas
desse valle? Apenas alguns centenares de lanças
poderiam, ao todo, transpôr comvosco os
passos das serras. Os infiéis e os renegados
que os servem quantos são? Se podeis contar
as estrellas que ora recamam o céu, podereis
dizer-me o numero delles. Tu, Pelagio,
braço de ferro, coração de bronze,
quem és tu? O guardador das ultimas esperanças
da cruz e da patria. Quem te deu,
pois, o direito de correres a morte certa?
Quem te deu o direito de apagar no sangue
dos ultimos godos o unico facho que alumia
as trevas do futuro da escravisada Hespanha?»
«E a ti—interrompeu furioso e arrancando
meia espada o violento Sancion—quem te
incumbiu de nos dizeres: «não saireis d'aqui?
Quem és tu, que, vindo não sei d'onde, pretendes
dominar como senhor aquelles que só
obedecem a Deus?»
O desconhecido olhou para o movimento
ameaçador de Sancion, e pelo rosto passou-lhe
um sorriso desdenhoso. Cruzou os braços
e respondeu com voz lenta e solemne:
«Por minha boca falaram milhares de godos
que gemem no captiveiro e que voltam
de continuo os olhos para os cerros das Asturias,
onde apenas fulgura tenue o sancto
fogo da liberdade: falaram por minha boca
as aras do Senhor calcadas pelos pés dos pagãos,
as imagens do Christo derribadas no
lodo, os muros ennegrecidos das cidades incendiadas.
É isto tudo que vos diz:—não saireis
d'aqui!—Perguntas quem sou? Dir-t'o-hei.
O ultimo homem que, juncto do Chryssus,
viu, combatendo, a face dos arabes vencedores,
emquanto os valentes fugiam; o homem
que tentou morrer com a patria, e que
a mão de Deus salvou para neste momento
vos dizer: «não saireis d'aqui! Queres saber
quem eu sou? Lê, Pelagio, o que escreveu
ahi Theodemiro. Dize-lhe depois qual é o
meu nome!»
E, tirando da escarcella uma tira de pergaminho
dobrada, abriu-a e entregou-a a
Pelagio.
O duque de Cantabria correu-a pelos olhos
e, deixando-a cahir em terra, murmurou:—«Meu
Deus, o cavalleiro negro!»
Os godos apinhados em roda recuaram alguns
passos, e houve um momento de ancioso
silencio.
«Anjo ou demonio, que nos explicas um
mysterio por outro mysterio—exclamou,
emfim, Pelagio visivelmente perturbado:—christãos
e arabes lembram-se ainda das tuas
incriveis façanhas nas margens do Chryssus.
Mil vezes eu proprio tenho dicto: dez como
elle haveriam salvado o imperio de Theoderik!
Devemos obedecer-te, se és um homem,
como dizes, porque vales mais que nós. Se
és o anjo que preside ao fado da Hespanha,
mais submisso ainda será o nosso obedecer.
Mas que mal te fez minha desgraçada
irman?...»
«Que mal me fez tua irman?—atalhou
com vehemencia o gardingo.—Nenhum!...
E quem te disse que não quero, que não posso
salva-la, eu que não sou anjo, que sou,
como tu, um homem? Quaes d'entre vós—proseguiu,
voltando-se para os cavalleiros que
o rodeiavam—sois n'este mundo sós e não
tendes quem na morte regue com lagrymas
a terra que vos cobrir? Quaes de vós sois,
como eu, desterrados no meio do genero-humano?
Que os orphams de coração ergam
a dextra para o céu, onde só ha um seio que
lhes receba os gemidos de amargura, o seio
immenso de Deus!»
Doze guerreiros, e entre elles o fero Sancion,
alevantaram a dextra para o ar á voz
imperiosa do gardingo.
«A cavallo!—gritou este, apertando o
largo cincto da espada e enfiando no braço
a ferrea cadeia do frankisk.—Pelagio! se
dentro de oito dias não houvermos voltado,
ora ao Christo por nós, que teremos dormido
o nosso ultimo somno, e chora por tua
irmã, cujo captiveiro já ninguem, provavelmente,
quebrará, senão o anjo da morte.
Partamos!»
Proferindo estas palavras, o gardingo atravessou
rapidamente a caverna e desappareceu
nas trevas exteriores: os doze guerreiros
escolhidos seguiram-no machinalmente,
porque os seus meneios e gesto os tinham fascinado,
ao lembrarem-se de que este homem
era o cavalleiro negro. O duque de Cantabria,
subjugado tambem pela especie de mysterio
solemne que cercava todas as acções d'este
ente extraordinario, nem ousou perguntar-lhe
por que meio intentava salvar Hermengarda.
Todavia, uma voz intima e irresistivel
lhe dizia: «resigna-te e confia». Confiado
e resignado esperou, portanto, o cumprimento
das promessas do incognito gardingo.
XIV
A NOITE DO AMIR
Arrebatada no pallor das trevas.
Breviario Gothico—Hymno
de S. Geroncio.
Era ao cahir do dia. O nordeste secco e
regelado corria as campinas do espaço, onde,
através da atmosphera purissima, scintillavam
as estrellas. O clarão de Segisamon
incendiada reflectia de longe nas brancas tendas
dos arabes, acampados a bastante distancia
dos muros da povoação destruida. Em
volta do arraial, pelas coroas dos outeiros,
accendiam-se as almenaras, a cuja luz tenue,
comparada com a do incendio de Segisamon,
se viam passar os atalaias nocturnos. Abdulaziz,
semelhante a cometa caudato, seguia
a sua orbita d'exterminio, deixando após si
vestigios de fogo. O exercito devia ao romper
da alva internar-se nos valles da Tarraconense.
Segisamon tinha na vespera offerecido um
espectaculo semelhante ao de muitas outras
cidades da Hespanha levadas á escala pelos
mosselemanos. Não só a cubiça e o desenfreiamento
da soldadesca multiplicavam ahi
as scenas de rapina, de violencia e de sangue,
mas tambem a politica dos capitães arabes
procurava augmentar a terribilidade desses
dramas repetidos para quebrar os animos
dos godos e persuadi-los á submissão. O dia
precedente a esta noite que começava tinha
sido consagrado pelos vencedores ao repouso,
depois de um duro lavor de morte e ruinas.
Os jogos, os banquetes, as dissoluções
de todo o genero haviam recompensado brutalmente
o esforço brutal dos destruidores de
Segisamon.
Ás cohortes do renegado Juliano tocava
nesta noite a vigia do arraial: eram godos
os que guardavam o campo, onde as virgens
da Hespanha tinham sido violadas; onde a
cruz captiva fora mais uma vez ludibriada;
onde os velhos sacerdotes haviam soffrido
contentes o martyrio no meio das affrontas.
Aquelles homens perdidos, rodeiando esse
montão de abominações, ainda não fartos dos
deleites infernaes em que tinham tido parte
com os infiéis, embriagavam-se, bebendo
pelos vasos sagrados, e escarneciam blasphemos
a crença da sua infancia no meio de
hedionda ebriedade.
O murmurio immenso do arraial foi amortecendo
gradualmente com o fechar da noite.
Em breve, não se ouviu nas tendas do
Islam mais que o respirar lento de tantos
milhares d'homens adormecidos nos braços
do goso. Juncto, porém, das almenaras as
risadas dos soldados do conde de Septum,
os cantos obscenos inspirados pela embriaguez,
as disputas ardentes do jogo, em que
o ouro corria de mão em mão, soavam ainda
em volta do silencio do campo. Pouco e pouco,
este mesmo ruído foi affrouxando, ao
passo que os fachos accesos nas chapadas dos
outeiros esmoreciam. A escuridão e o silencio
reinaram, emfim, até nas atalaias. Os
soldados godos, cansados de dissoluções, haviam
tambem repousado. E para que prestaria
velar? O terror que inspiravam os arabes
era o melhor guardador do arraial. Como
ousariam os christãos, medrosos atrás dos
muros dos seus castellos, salteiar o campo de
Abdulaziz? As vigias e almenaras eram apenas
uma velha formula militar, cuja significação
a serie não interrompida dos triumphos até
então alcançados tornara inintelligivel.
Pela calada, porém, da alta noite e no
meio das trevas que cobrem, como amplo
manto, aquelle turbilhão d'homens de guerra,
descansando então para ao romper do
sol rugir de novo impetuoso, vê-se ainda,
através das telas mal unidas de uma tenda
mais vasta, reverberar vivo clarão, e ouve-se
o rir alegre, o altercar, o tinir argentino das
taças; todos os indicios, emfim, de que a
orgia se prolongou ahi até mais tarde. Ao
redor da tenda jazem por terra, com os alfanges
nús junctos a si, alguns soldados da
guarda de Abdulaziz, composta dos guerreiros
mais temidos do exercito, os negros
do remoto paiz de Al-Sudan. Nos ouvidos
delles restruge debalde o alto ruído que soa
do interior do pavilhão. Dormem, tambem,
profundamente, e apenas á porta da tenda
um delles vela immovel encostado á acha
d'armas.
A tenda era, de feito, a do esforçado filho
de Musa. A mesa do banquete ainda vergava
com os restos das iguarias: os brandões
já gastos e os candieiros mortiços derramavam
uma claridade suave pelo aposento. Reclinado
sobre um almatrah cuberto de preciosa
alcatifa do oriente, o amir escutava o
mais moço dos cheiks que estavam juncto
delle, o qual, ora cantava os versos voluptuosos
de Zohèir, que accendiam a imaginação
do joven guerreiro, ora lhe repetia
os antigos poemas licenciosos e satyricos de
Ibn-Hagiar, que elle applaudia com estrondosas
risadas.
O conde de Septum e os mais capitães
godos alliados dos agarenos conservavam-se
ainda nos logares que haviam occupado durante
o banquete. Para aquella extremidade
da vasta mesa viam-se algumas amphoras
tombadas e outras ainda cheias dos vinhos
mais preciosos da Hespanha: as taças que
gyravam ao redor eram as que produziam o
tinir que soava fóra, no meio do ruído das
falas, dos gritos, e dos cantos monotonos do
cheik Abdallah.
Um guerreiro, cuja barba crespa e cerrada
lhe cahia como frócos de neve sobre os
anneis dourados do saio de malha, estava assentado
á direita de Juliano. A brancura dos
seus cabellos era o unico signal que se lhe
enxergava de uma larga peregrinação na terra;
porque o rosado da tez, a viveza dos
olhos azues, o garbo nos meneios e a robustez
dos membros agigantados mostravam
n'elle mais que muito a compleição vigorosa
de homem de boa idade. Era Oppas, o bispo
Oppas, que se esquecera do sacerdocio,
como se havia esquecido da patria, e que,
habituado á vida solta dos arraiaes, excedia
já na violencia de paixões ignobeis os mais
desenfreiados e barbaros chefes das tribus
semi-selvagens da Africa. Muitos outros tiuphados
e quingentarios, assentados ao longo
da mesa, davam mostras de infernal alegria,
despejando as taças de prata, que os libertos
lhes enchiam de novo para de novo rapidamente
se esgotarem.
«Vêde os nazarenos maldictos—dizia
Abdulaziz em voz baixa ao cheik Abdallah,
olhando de través para os godos.—O amor
da embriaguez nunca os deixará ver a luz
que mana das paginas do divino koran. Para
elles o fructo da vide será sempre a ponte
estreita, da qual, ao passarem na morte, se
despenharão no inferno.»
«E que nos importam as suas almas tisnadas—replicou
Abdallah—se elles nos ajudam
a sujeitar á lei do sancto propheta
o imperio
de Andalús? Sem Deus e sem patria,
deixae-lhes ao menos a sua bruteza.»
O bispo d'Hispalis percebeu que falavam
delle e dos outros godos, porque os cheiks
haviam volvido para lá os olhos. Erguendo-se
então com a taça em punho, exclamou em
arabico:
«Ao invencivel Abdulaziz; a um dos mais
nobres vingadores de Witiza!»
«
Alfaqui dos romanos—respondeu o amir—a
lei do propheta não consente que eu acceite
a saudação que atravessou por labios
tinctos no licor amaldicçoado por elle.»
«E que montam as maldicções do teu propheta?—replicou
Oppas em tom de gracejo.—Devemos
nós por isso deixar de saudar
o illustre filho de Musa com o abençoado e
generoso vinho dos ferteis outeiros da Hespanha?...»
«Infiel!...—interrompeu o amir, em cujos
olhos scintillara o despeito. Depois, reportando-se,
proseguiu em tom brando, mas
firme, como quem queria ser promptamente
obedecido:—Nobres cavalleiros do Gharb,
valentes cheiks do Negid, de Berryah, e d'Almoghreb,
a noite vai alta, e ao romper da
manhan é necessario partir. Que o somno
vos desça sobre as palpebras nas vossas tendas
de guerra!»
A estas palavras, godos e arabes, alevantando-se,
foram sahindo da tenda vagarosamente
e em silencio. Só o bispo d'Hispalis,
apertando a mão de Juliano, murmurou:—«Oh,
quanto fel se mistura com o prazer da
vingança! Mas cumpra-se o nosso fado.»
Ao atravessarem o arraial, os dous filhos
renegados da Hespanha notaram que nos cabeços
das almenaras a escuridão era tão profunda
como no resto do campo. Tudo, porém,
estava tranquillo. Apenas a pouca distancia
lhes pareceu verem passar como sombra
um cavalleiro, que se encaminhava para
o lado do pavilhão de Abdulaziz. Era, provavelmente,
algum soldado d'Al-Sudan, que,
transnoitado, se retrahia para o seu alojamento
juncto da tenda do amir.
Entretanto este, apenas só, começou a caminhar
agitado e a passos largos de uma até
outra extremidade do aposento, que ricos
pannos da Syria dividiam dos que occupavam
os servos. No seu gesto, turbado por
affectos encontrados, passavam successivamente
os vestigios destes: ora a indignação
lhe pesava nos sobrolhos confrangidos; ora
lhe sorria nos olhos um pensamento voluptuoso;
ora a compaixão parecia suavisar-lhe
esse feroz sorrir. Por fim, o moço Abdulaziz,
como vencido pela tempestade da sua
alma, assentou-se no almatrah e cobriu o rosto
com ambas as mãos. Conservou-se assim
por largo tempo, em silencio e quedo, até
que, a final, as suas paixões triumpharam
e rebentaram com violencia.
Batendo as palmas, o amir bradou:—«Al-Fehri!»
Um dos pannos que dividiam a tenda em
varias quadras alevantou-se de um lado, e
um vulto negro e disforme, que parecia
arrastar-se com difficuldade, encaminhou-se
para o amir. Era como um tronco de gigante
pelo espadaúdo do corpo, pela amplidão
do ventre e pela desmesurada grossura da
cabeça, onde só lhe alvejavam os olhos embaciados.
O monstro, apenas deu alguns passos,
parou, cruzando sobre o peito os braços
grossos e curtos, semelhantes a dous madeiros
informes.
«Eunucho—disse Abdulaziz com voz agitada—conduze
aqui a ultima das minhas captivas
que especialmente confiei de ti.»
O vulto recuou e, franzindo a especie de
reposteiro que lhe dera passagem, desappareceu.
Passados alguns momentos, tornou.
Uma figura de mulher, cujas fórmas mal se
podiam adivinhar através d'um raro cendal
que a cubria até os pés, acompanhava-o. Com
passo firme, ella se encaminhou para Abdulaziz,
e o eunucho desappareceu de novo.
«Filha dos christãos—disse em lingua romana
o amir—os dous dias que me pediste
para chorares o teu captiveiro passaram. Resolveste,
finalmente, ser a mais amada entre
as mulheres de Abdulaziz; ser a invejada
das donzellas do oriente e quasi a
rainha das provincias de Andalús, porque
acima de Abdulaziz só dous homens existem
na terra, o amir d'Almoghreb, aquelle que
me gerou, e o descendente do propheta, o
que rege todo o imperio dos crentes?»
«A minha resolução é morrer, quando te
approuver:—replicou a captiva com serenidade;—porque
essa resolução ha muito que
eu a tomei. Enganei-te, pagão, quando te
pedi dous dias para chorar! Escarneci de ti,
porque te abomino. Esperava que um braço
de guerreiro que vale mais que o teu viesse
arrancar-me do captiveiro. Ai de ti, se elle
soubesse qual tinha sido o meu fado! Folga,
pagão, de que a sentença fulminada por Deus
contra os filhos da Hespanha me abrangesse
tambem. Nesta hora não fora eu; foras tu
quem deveria perecer. Mas elle não pôde
salvar-me: só me resta dizer-te: infiel, tu
és maldicto de Deus: principe dos arabes,
tu és servo dos demonios: homem que me
pedes amor, sabe que eu te detesto.»
«Dize tudo:—interrompeu o amir, apertando
com força o braço da captiva e fitando
nella os olhos, onde luctavam amor profundo
e colera violenta:—exhala em injurias
a tua dôr orgulhosa: sê, até, blasphema; mas
não digas que detestas Abdulaziz; não digas
que amas um godo e que elle fora capaz de
te vir roubar da minha tenda. Desgraçado
do nazareno que se lembrasse de amar-te depois
que Abdulaziz te chamou sua. Onde se
iria esconder esse malaventurado filho de
uma raça vil e covarde, que podesse escapar
a este braço, o qual ao estender-se arranca
pelos fundamentos os vossos castellos e reduz
a pó os templos do vosso Deus e os muros
das vossas cidades?»
«Aquelle que eu cria viesse em meu soccorro—tornou
com voz firme a captiva—não
se esconderá de ti no dia em que estiverem
em volta delle todos os seus irmãos
em esforço e amor da terra natal; porque
nesse dia das grandes vinganças vê-lo-has
face a face. Muitas vezes os teus guerreiros
têem fugido diante delle; muitas vezes o incendio
dos arraiaes pagãos tem ajudado o
incendio das nossas cidades a alumiar as
trevas da noite, e a sua mão foi a que lançou
o facho sobre a tenda do agareno. Esse, ao
menos, se ainda se esconde, não é por temor
de ti, nem dos teus cavalleiros, que, tantos
por tantos e ainda em dobro, muitas vezes
tem visto fugir.»
«Entendo-te, altiva filha dos godos:—replicou
Abdulaziz.—Falas do que vós outros
chamaes Pelagio, e que só de noite ousa
saír das suas solidões das montanhas para
acommetter as tribus d'Almoghreb que fizeram
assento no conquistado Gharb ou para
assassinar os cavalleiros do deserto transviados.
Apenas Sarkosta e Tarkuna vissem
fluctuar sobre as suas muralhas os estandartes
do Islam, eu iria arrancá-lo dos seus escondrijos
para o punir. Mas tu abbreviaste
os dias do foragido nazareno. Dentro de pouco
o seu cadaver servirá de pasto ás aves do
céu, porque amou aquella que eu escolhi.»
«Deus defenderá meu irmão:—disse titubeiando
a donzella, cuja firmeza começava
a abandona-la, receiando ver cumprida a
ameaça do amir.
«Irman de Pelagio?! Oh, repete-o mil vezes!
São as prisões do sangue que te unem
ao cruel inimigo dos crentes?»
«Porque finges ignora-lo? Os velhos cavalleiros
que me acompanhavam e que comigo
foram captivos no mosteiro que profanaste
já o terão revelado.»
«Nem as promessas, nem os tormentos
poderam tirar de suas bocas o teu nome e a
tua jerarchia. Mas jura-me que és a irman
de Pelagio, e elle poderá esquivar, se quizeres,
o seu tremendo destino.»
«Fora inutil negar o que eu propria confessei.
O meu nome é Hermengarda: o duque
de Cantabria, Favila, foi meu pae, e
Pelagio é o filho e successor de Favila.»
O amir ficou alguns momentos calado com
o braço d'Hermengarda preso na mão robusta,
que ella sentia tremula com o tumultuar
dos affectos que agitavam o coração do arabe.
Este, por fim, exclamou:
«Pelo precursor do sancto propheta; por
Issa
[1], Hermengarda, que, se amas teu irmão,
me digas:—eu serei tua. Estas palavras
o farão senhor da mais rica provincia
do Andalús, daquella que elle escolher para
reinar como amir: os guerreiros que o seguem
serão os walis das suas cidades, os
kaiyds dos seus castellos: dos meus thesouros
metade será delle. As escravas que muito
hei amado não mais verão sorrir-lhes o rosto
de seu senhor. Tu serás rainha do meu
coração; rainha sem rival; senhora de tudo
sobre quanto se estende o poder de Abdulaziz,
do filho querido do invencivel Musa.
Profere só essas palavras, e a sorte de Pelagio
será invejada pelos nossos mais illustres
guerreiros!...»
No gesto do agareno todos os vestigios da
colera tinham desapparecido: só nelle se lia
a anciedade
de um amor immenso, que precisa,
mais que do goso brutal, de um sentimento
accorde com os proprios sentimentos.
Mas Hermengarda só vira affronta e opprobrio
nas palavras do amir, e o odio a este
homem, cuja natural fereza e orgulho o amor
convertera em brandura e, talvez, em submissão,
tornou-se ainda maior ao ouvi-lo. Recobrando
toda a energia da sua alma, que
por um momento vacillara, respondeu, olhando
para Abdulaziz com ar de desprezo:
«Nem sempre os valentes conquistadores
da Hespanha podem achar traidores que vendam
por ouro e honras infames os sepulchros
de seus paes e os altares do Senhor. Não!
Pelagio não acceitará nunca um logar entre
os filhos de Witiza e o conde de Septum;
porque Deus o guarda para vingador de seus
trahidos irmãos. Infiel, grande era o preço
que davas por uma filha da serva raça dos
godos: guarda-o para o empregares melhor;
para comprares as nobres e livres donzellas
do teu paiz. Tudo o que me offereces é vil;
porque vem de ti, maldicto. Só uma offerta
te acceito; ha muito que t'a pedi: a morte...
a morte, e que seja breve. Abomino-te, destruidor
da Hespanha... Não! Enganei-me!
Desprezo-te, salteador do deserto.»
Com os labios brancos e o olhar desorientado,
o amir ouvia as palavras d'Hermengarda,
e a sua fronte enrugava-se como a face
do oceano ao passar do furacão. Tremendo
silencio reinou por alguns momentos na tenda.
Com um rir abafado e diabolico, o amir
o rompeu por fim:
«A morte?—Não terás a morte: juro-t'o
pelo sepulchro do propheta. Porque a abelha
zumbiu aos ouvidos do caçador faminto,
arrojará elle para longe o mel do seu favo e
esmagará o insecto? Tu serás minha, mulher
orgulhosa; porque o meu amor é, como o
meu odio, inexoravel e fatal. Depois, quando
o incendio que me devora estiver extincto;
quando o tedio morar para mim nos teus braços,
irás cevar nas tendas dos bereberes a
sensualidade brutal dessa soldadesca selvagem.
Póde ser que teu nobre irmão venha
entretanto salvar-te!... Guarda para então as
suberbas; que hoje, pobre escrava, só te resta
obedecer á voz do teu senhor.»
Ao dizer isto, Abdulaziz, segurando com
a dextra o braço d'Hermengarda, apertou-o
com tanta violencia que a desgraçada deu
um grito de agonia e cahiu de joelhos aos
pés do arabe. O amir ergueu-a e, impellindo-a
com força, ao mesmo tempo que despedaçava
com a esquerda o raro cendal que
lhe velava o rosto, a fez cahir pallida e trémula
sobre o almatrah. Os labios da donzella
quizeram ainda proferir algumas palavras—porventura
uma supplica; mas apenas murmurou
sons inarticulados, que expiraram em
arquejar doloroso.
No seu furor, o filho de Musa não sentira
um rugido de colera que respondera ao grito
d'Hermengarda, nem um ai passageiro e sumido,
que, segundo era intimo, parecia de
homem a quem a ponta de um punhal rasgara
subitamente o coração. Nas telas, porém,
que dividiam o aposento do logar d'onde
pouco antes saíra o eunucho e que ficavam
fronteiras á entrada principal da tenda uma
figura humana se estampou negra sobre o
chão brilhante da tapeçaria. O amir, volvendo
casualmente os olhos, a viu. Crescia rapida.
Escutou. Passos ligeiros soavam no vasto
aposento. Voltou-se. Mas apenas pôde erguer
o braço: vira reluzir no ar um ferro:
vira um vulto cuberto d'armas semelhantes
ás dos cavalleiros d'Al-Sudan: sentiu um golpe
que lhe partia o braço erguido e, batendo-lhe
ainda no craneo, lhe retumbava no
cerebro. Deu um grito, fechou os olhos e
cahiu aos pés d'Hermengarda, manando-lhe
o sangue da fronte. O monstro humano que
conduzira alli a irman de Pelagio, assomou
então no topo interior da tenda: o brado do
amir o attrahira. Vendo seu senhor derribado
e juncto delle o que o feríra, o eunucho
fez uma horrivel visagem, como pretendendo
falar; mas sómente soltou um rugido acompanhado
de um gesto d'ameaça. Segundo o
atroz costume do oriente, Al-Fehri, destinado
desde a infancia ao serviço mysterioso
do harem, fora condemnado em tenros annos
a nunca imitar a voz humana. Privado da
lingua, as suas expressões eram acenos ou
afflictivos e inarticulados rugidos.
O cavalleiro observava-o. Fê-lo sorrir o
ademan feroz e ameaçador do eunucho. Tinha
previsto todas as difficuldades daquella
arriscada empreza e contava com o seu esforço
e frieza d'animo para as vencer. Ligeiro,
travou de uma das tochas que ardiam
juncto da mesa do banquete e chegou-a ás ricas
tapeçarias que forravam a tenda. A chamma
enredou-se na tela: um rolo de fumo espesso
trepou em espiraes, ennegrecendo-lhe
os recamos e lavores brilhantes. Em breve,
as labaredas abraçadas com os feixes de lanças,
com os pannos custosos, que ondeiavam
torcendo-se, treparam até o cimo e, curvando-se
espalmadas sob o tecto, romperam
em linguas ardentes aprumadas para o céu.
O incendio, espalhando ao longe a sua sinistra
claridade, erguia-se como um tocheiro
disforme acceso no meio do arraial e despertava
assim do somno profundo os soldados
d'Al-Sudan lançados em volta do pavilhão
do amir.
Mas já a este tempo o cavalleiro se affastava
do logar daquella scena medonha. As
palavras—«liberdade e Pelagio!» proferidas
por elle, tinham calado como um balsamo de
vida no coração d'Hermengarda. O desconhecido,
tomando-a nos braços, atravessou
ligeiro para o lado do arraial onde estanceiavam
os godos. Outro cavalleiro lhe tinha
de rédea dous ginetes. Hermengarda, a quem
o perigo e a esperança haviam restituido toda
a natural energia, não hesitou em acompanhar
o seu audaz e mysterioso salvador. Seguindo
os caminhos tortuosos e incertos que
as tendas do immenso arraial formavam e
guiando-se pela lua, que principiava a saír
detrás dos outeiros, os tres fugitivos encaminharam-se
para o lado do campo além do
qual as montanhas, lá ao longe, reflectiam
já o luar das cumiadas cubertas de neve.
Entretanto Al-Fehri correra a despertar
os negros da guarda do amir, e o cavalleiro
ainda ouviu os gritos destes ao contemplarem
o incendio, mais prestes em acorda-los
que o eunucho. Á entrada da tenda, o vigia
que devera despertá-los ao primeiro signal
de Abdulaziz havia adormecido de somno mais
profundo que o delles. Um punhal enterrado
na garganta até o punho lhe sellara para
sempre os labios. Os gestos de desesperação
d'Al-Fehri fizeram conhecer aos soldados o
perigo do amir. Por entre as chammas, ferido
e semi-morto, a custo poderam salvá-lo.
Pouco a pouco, o tumulto se alongou pelo arraial:
os cheiks arabes e os capitães de Juliano
corriam para o logar onde brilhava o
incendio, e, dentro em pouco, as vozes desentoadas,
o tocar das trombetas, o rufar dos
tambores, o tropeiar dos cavallos naquella
vasta planicie fariam crer a quem olhasse
para alli dos montes vizinhos que no arraial
se pelejava uma batalha nocturna.
No meio da confusão que produzíra por
toda a parte este acontecimento inesperado
e cujo motivo e circumstancias inteiramente
se ignoravam, ninguem reparou nos dous cavalleiros
e na donzella que, atravessando rapidamente
por entre as tendas dos arabes e
dos godos, se dirigiam para as atalaias do
norte. Era, porém, aqui onde os maiores perigos
aguardavam os tres fugitivos.
A revolta do campo chegara aos ouvidos
dos vigias. Sobresaltados pelo clarão que refulgia
do logar do incendio e pelo rumor que
soava dessa parte, o grito de alarma correra
de boca em boca, de uns para os outros outeiros,
que successivamente se illuminavam.
No largo gyro que tal bradar fizera, aquella
cadeia de sons uniformes fora subitamente
quebrada. Lá, na almenara do norte, nenhuma
voz respondera ao vozeiar dos esculcas;
nenhuma luz de fogueira brilhara de novo.
De cada um dos postos vizinhos, uma decania
de corredores transfretanos desceu, então,
aos valles e, subindo depois por uma e
outra encosta, vieram todas topar na coroa
do outeiro. Á claridade da lua, cujos raios
inclinados roçavam já pela terra, viram reluzir
no chão troços d'armas, e, estirados ao
pé dellas, estavam os corpos de seus donos
involtos nos saios de malha. Rapido e violento
devia ter sido o commettimento, numerosos
os cavalleiros inimigos; porque nem
um dos atalaias podera escapar. Nem um:
que todos ahi jaziam! Braço robusto tinham
por certo aquelles que assim ousavam penetrar
no campo de Abdulaziz: as feridas profundas
assignadas nos cadaveres davam disso
testemunho. Não havia que duvidar: Pelagio
salteiara o arraial. O incendio que reverberava
ao longe e o arruído como de um grande
combate diziam que o facho da vingança fora
arrojado ao meio das tendas do Islam, e que
o ferro dos defensores da Hespanha viera, nas
trevas da noite, lavar com sangue o logar dos
banquetes, tincto ainda de vinho e immundo
de prostituição.
Este pensamento passou fugitivo e confuso
pelo espirito dos guerreiros, que olhavam
como petrificados para a scena de morte que
tinham ante si a qual, de um lado, era alumiada
pela luz debil da lua nascente, e, do
outro, pelo clarão avermelhado e ainda mais
frouxo do incendio ao longe. Um correr de cavallos
que subiam ligeiro a encosta da banda
do arraial lhes divertiu a attenção. Volveram
para lá os olhos. Tres vultos a cavallo se dirigiam
para alli. Dous, cubertos de armas escuras,
ladeiavam o terceiro, cujas roupas alvejavam
ao luar. Os corredores transfretanos
adiantaram-se para elles. Ao aproximarem-se,
viram que o vulto branco era de
mulher e que os outros trajavam saios e elmos
e traziam achas d'armas. Eram em tudo
semelhantes aos guerreiros d'Al-Sudan que
compunham a guarda do amir.
Um dos dous cavalleiros affastou-se da
donzella e, dirigindo-se aos capitães das decanias,
unidas no topo do outeiro, disse-lhes
em romano, com voz que simulava profunda
colera:
«Os inimigos entraram no campo e accommetteram
a propria tenda de Abdulaziz.
Os soldados do conde de Septum lhes deram
passagem; porque a elles estava confiada a
guarda do campo. Em qual das atalaias estão
os traidores?»
«Os valentes da Transfretana nunca mereceram
esse nome—replicou um dos decanos
ou capitães dos esculcas.—Foi aqui onde
deram o passo aos inimigos; mas o caminho
destes foi por cima dos seus cadaveres. Julgae-os.»
E as duas decanias affastaram-se para os
lados. Vinte cadaveres estavam lançados por
terra.
«Sobre elles não cahiu o opprobrio na sua
ultima hora:—disse o guerreiro depois de
contemplar um momento aquelle espectaculo.—Abdulaziz
ordena que se guardem estreitamente
as saídas do campo. Não tardam
os cavalleiros zenetas que vem ajunctar-se
nas atalaias comvosco, a fim de que nenhum
infiel possa escapar, emquanto nós vamos conduzir
para logar seguro, fóra do arraial revolto,
a escrava querida do amir. Vinde!—proseguiu
elle, voltando-se para o companheiro.
Atravessando por entre os soldados tingitanos,
a donzella e os seus libertadores começaram
a descer apressadamente a encosta.
Já os tres fugitivos íam a alguma distancia,
quando, como tomado de uma idéa subita,
um dos esculcas exclamou:
«Aquelle homem é godo!—Nenhum arabe
fala assim a lingua romana: muito menos
os broncos guerreiros d'Al-Sudan. Por minha
fé, que são inimigos!»
Os acontecimentos inesperados dessa noite,
a incerteza em que se achavam os esculcas
sobre o que succedia no arraial, a rapidez
com que se passara esta scena e, sobretudo,
a audacia e o tom imperativo com que
o desconhecido falara não haviam dado logar
á reflexão e ás suspeitas. Mas as palavras do
soldado foram para todos um raio de luz:
«Tens razão, buccellario:—atalhou o capitão
da decania.—Fazei-os parar.»
Os tres, que já íam a meia encosta, ouviram
muitas vozes clamar:—esperae!
«Somos perseguidos!—disse em voz baixa
aquelle que ficara juncto da donzella emquanto
o outro falava com os vigias.
«Está salva!—respondeu o companheiro,
que parecia ter concentrado todos os seus cuidados
n'um pensamento unico, a fuga d'Hermengarda.
Duas frechas lhes sibillaram então por
cima das cabeças.
«Covadonga e Pelagio!—gritou o que proferira
as ultimas palavras. Eram chegados á
raiz do monte, juncto ao qual uma planicie
inculta e cuberta d'urzes se estendia até ir
topar com os bosques que povoavam os primeiros
cabeços das serranias septemtrionaes.
A esta voz, lá na orla da floresta, ao cabo
do sarçal, surgiram de repente uns reflexos
metalicos, que se agitavam trémulos, semelhantes
á phosphorencia de um marnel por
noite sem lua. Depois, o grito de—Covadonga
e Pelagio—foi repetido daquelle lado da
gandra, como respondendo ao que soltara o
cavalleiro.
«São os nossos valentes irmãos—disse ao
companheiro o que falara com os decanos
das tiuphadias transfretanas.—São nossos irmãos,
que nos esperam. Tu, Sancion, guiarás
ao meio delles a nobre irman do duque de
Cantabria. Entretanto eu reterei aqui os miseraveis
renegados, que já descem do outeiro
a perseguir-nos; retê-los-hei emquanto alcançaes
a entrada do bosque e vos embrenhaes
na serrania, seguindo ao norte. A agrura
das montanhas e a profundeza dos valles
das Asturias demorarão os inimigos, quando
eu haja de perecer e não podér embargar-lhes
os passos. Ide-vos.»
«Não perecerás sem mim, cavalleiro negro:—replicou
o fero Sancion.—Cumprirei
o que ordenas, porque jurei obedecer-te
cegamente emquanto não salvassemos a irman
de Pelagio. Mas, apenas alcançar a orla
da floresta onde mandaste esperar os nossos
dez companheiros, voltarei com todos os que
me quizerem seguir. Para guiar a filha de
Favila bastam dous guerreiros: o resto não
bastará, talvez, a reter durante o tempo necessario
para a fuga a turba dos infiéis que
se approxima.»
E, sem esperar a resposta do cavalleiro
negro, Sancion adiantou-se, dizendo á donzella,
que apenas podera perceber algumas
palavras truncadas da conversação dos dous:
«Partamos!»
E a galope, acompanhado d'Hermengarda,
brevemente se alongou pela vereda torcida,
que se distinguia no meio das moutas,
como beta alvacenta estampada no tapete escuro
das sarças.
A attenção do cavalleiro negro, que os seguira
com os olhos, foi, porém, distrahida
para o outro lado pelo tropeiar, já pouco
distante, dos corredores transfretanos, que a
toda a brida se acercavam delle. Era chegada
a occasião de mostrar o extremo do seu
esforço.
XV
AO LUAR