Uma reputação genuína pode às vezes ser feita em uma hora. Buck, nos próximos sessenta ou oitenta minutos, mostrou-se realmente um grande homem de ação. Seu táxi levou-o como um raio do Rei para Wilson, de Wilson para Swindon, de Swindon para Barker novamente. Se seu curso foi irregular, teve a irregularidade de um relâmpago. Apenas duas coisas carregava, seu inevitável charuto e o mapa de North Kensington e Notting Hill. Havia, como repetidamente apontou, com toda a variedade de persuasão e violência, apenas nove formas possíveis de chegar a Pump Street dentro de um quarto de milha; três de Westbourne Grove, duas de Ladbroke Grove, e quatro de Notting Hill High Street. E tinha destacamentos de duzentos pessoas, estacionados em cada uma das entradas antes da última luz verde do estranho pôr do sol que afundava no negro céu.
O céu estava particularmente negro e sozinho foi um falso protesto contra o otimismo triunfante do superintendente de North Kensington. Mas isto foi posto de lado pelo infeccioso senso comum do superintendente:
— Não há tal coisa, como noite em Londres. Só tem que seguir a linha de postes de luz. Olhe, aqui está o mapa. Duzentos soldados púrpuras de North Kensington sob meu comando marcham até Ossington Street, duzentos mais sob o capitão Bruce, da guarda de North Kensington, até Clanricarde Gardens1. Duzentos soldados amarelos de West Kensingtons sob o superintendente Swindon atacam a partir de Pembridge Road. Mais duzentos de meus homens a partir das ruas do leste, afastando-se de Queen’s Road. Dois destacamentos amarelos entram por duas estradas de Westbourne Grove. Por fim, duzentos verdes de Bayswaters descem do norte através de Chepstow Place, e mais duzentos do superintendente Wilson, através da parte superior de Pembridge Road. Senhores, é mate em dois lances. O inimigo deve amontoar-se em Pump Street e ser cortado em pedaços, ou deve recuar atrás da Gaslight & Coke Co., e enfrentar meus quatrocentos, ou deve recuar até a Igreja de São Lucas, e enfrentar seiscentos do oeste. A menos que sejamos todos loucos, é claro. Vamos. Para seus aposentos e aguardem o sinal do Capitão Brace para avançar. Então só temos que caminhar por uma linha de postes de luz e esmagar esse absurdo por pura matemática. E amanhã seremos todos civis novamente.
Seu otimismo brilhava como um grande fogo na noite, e corria em volta do anel terrível onde agora Wayne estava mantido indefeso. A luta já havia terminado. A energia de um homem por uma hora salvou a cidade da guerra.
Nos dez minutos seguintes Buck caminhou para cima e para baixo em silêncio ao lado do aglomerado imóvel dos seus duzentos. Não tinha mudado sua aparência de qualquer forma, exceto uma eslinga sobre seu casaco amarelo para um estojo com um revólver. Assim, sua figura de moderna veste leve mostrou-se estranhamente ao lado dos uniformes pomposos púrpuras de seus alabardeiros, que obscuramente, mas ricamente coloriam a noite negra.
Finalmente o som de uma trombeta estridente alcançou a rua, era o sinal de avanço. Buck brevemente deu a ordem, e toda a linha púrpura, com seu aço pouco brilhante, moveu-se para o beco lateral. Diante deles estava uma inclinação de rua, longa, lisa, e brilhando no escuro. Era uma espada apontada para Pump Street, o coração em que nove outras espadas estavam apontados naquela noite.
Um quarto de hora marchando silenciosamente os trouxe quase ao alcance de ouvir qualquer tumulto na cidadela condenada. Mas ainda não havia nenhum som e não havia sinal do inimigo. Desta vez, pelo menos, eles sabiam que estavam fechando mecanicamente, e marcharam sob a luz da lamparina e do escuro sem nenhuma estranha sensação de ignorância que Barker tinha sentido ao entrar em país hostil por apenas uma avenida.
— Parem, apontar armas! — gritou Buck, de repente, e enquanto falava veio um barulho de pés andando ao longo das pedras. Mas as alabardas foram niveladas em vão. A figura que corria era um mensageiro do contingente do Norte.
— Vitória, Sr. Buck! — ele gritou, ofegante. — Eles foram derrubados. O superintendente Wilson de Bayswater tomou Pump Street.
Buck ficou excitado:
— Então, por qual caminho estão recuando? Deve ser por St. Luke para encontrar Swindon, ou pela companhia de gás para nos encontrar. Corra como louco para Swindon, e veja se os amarelos estão mantendo a estrada de St. Luke. Vamos manter esta, não tema. Nós os temos em uma armadilha de ferro. Corra!
Conforme o mensageiro correu para dentro da escuridão, a grande guarda de North Kensington continuou com a certeza de uma máquina. No entanto, pouco mais de cem metros depois apontaram novamente suas alabardas brilhando nas luzes dos postes em linha, pois novamente um barulho de pés foi ouvido sobre as pedras, e mais uma vez provou-se ser apenas o mensageiro.
— Lorde Superintendente, os amarelos de West Kensingtons mantêm a estrada por St. Luke por vinte minutos desde a captura de Pump Street. Não está a mais de duzentos metros de distância; eles não podem ter se retirado por esse caminho.
— Então, eles estão recuando por aqui — disse o superintendente Buck, com uma alegria final — e por sorte por uma estrada bem iluminada, embora bem torcida. Para frente!
Conforme se moviam ao longo dos últimos trezentos metros de sua jornada, Buck caiu, talvez pela primeira vez em sua vida, em uma espécie de devaneio filosófico, pois homens da sua especie sempre se tornam gentis, e melancólicos, pelo sucesso.
— Sinto muito pelo pobre velho Wayne, realmente sinto — ele pensou. — Falou esplendidamente por mim naquele Conselho. Ele golpeou o velho olho de Barker com espírito considerável. Mas não vejo o que um homem pode esperar quando ele luta contra a aritmética, para não dizer nada da civilização. E que farsa maravilhosa é todo este gênio militar! Suspeito que só descobri o que Cromwell tinha descoberto, que um comerciante sensato é o melhor general, e que um homem que pode comprar e vender homens pode liderar e matá-los. A coisa é simples como a adição de uma coluna numa caderneta. Se Wayne tem duzentos homens, ele não pode colocar duzentos homens em nove lugares ao mesmo tempo. Se foram expulsos de Pump Street, estão indo para algum lugar. Se não estão na igreja, estão nas obras. E assim temos eles. Nós, os homens de negócios, não devíamos ter nenhuma chance, mas as pessoas mais inteligentes do que nós têm abelhas em seus chapéus que os impedem de raciocinar corretamente, de modo que somente nós temos a razão. E assim eu, que sou comparativamente estúpido, vejo as coisas como Deus as vê, como uma vasta máquina. Meu Deus, o que é isso? — E colocou as palmas nos olhos e voltou-se para trás.
Então, pela escuridão, gritou numa terrível voz:
— Eu blasfemei contra Deus? Estou cego.
— O que? — gemia outra voz atrás dele, a voz de um certo Wilfred Jarvis de North Kensington.
— Cego! — gritou Buck. — Cego!"
— Estou cego também! — gritou Jarvis, em agonia.
— Tolos, todos vocês — disse uma voz grave atrás deles —, estamos todos cegos. As lâmpadas apagaram.
— As lâmpadas! Mas por quê? Onde? — gritou Buck, virando furiosamente na escuridão. — Como é que vamos chegar? Como vamos perseguir o inimigo? Onde eles foram?
— O inimigo foi... — disse a voz áspera por trás, e então parou em dúvida.
— Onde? — gritou Buck, como um louco.
— Eles passaram — disse a voz rouca — para as fábricas de gás, e usaram a sua chance.
— Grande Deus! — trovejou Buck, e pegou no revólver. — Quer dizer que eles acabaram...
Mas quase antes de ter falado as palavras, foi arremessado como uma pedra de catapulta para o meio dos seus próprios homens.
— Notting Hill! Notting Hill! — gritavam vozes assustadoras na escuridão, e pareciam vir de todos os lados, pois os homens da North Kensington, não familiarizados com a estrada, haviam perdido toda sua orientação no mundo negro da cegueira.
— Notting Hill! Notting Hill! — gritavam as pessoas invisíveis, e os invasores foram cortados horrivelmente com aço preto, com aço que não reluzia contra qualquer luz.
Buck, embora mutilado com o golpe de uma alabarda, manteve uma raivosa mas esplêndida sanidade. Ele tateou loucamente pelo muro e encontrou. Lutando com dedos rastejando ao longo do muro, encontrou uma abertura lateral e recuou com os restos de seus homens. Suas aventuras durante essa noite prodigiosa não podem ser descritas. Eles não sabiam se estavam indo em direção ou para longe do inimigo. Não sabendo onde eles mesmos estavam, ou onde os seus oponentes estavam, era mera ironia perguntar onde estava o resto de seu exército. Pois uma coisa tinha descido sobre eles que Londres não conhecia – escuridão, anterior a existência das estrelas, e eles estavam perdidos nela como se tivessem sido feitos antes das estrelas. Ocasionalmente, enquanto aquelas horas terríveis passavam, eles fustigavam na escuridão contra homens vivos, que os atingiram e a quem eles atingiam, com uma fúria idiota. Quando finalmente o amanhecer cinzento chegou, descobriram que tinham andado de volta para a beira da Uxbridge Road. Descobriram que nesses encontros horríveis sem visão, os soldados de North Kensington, Bayswater e West Kensington tinham se encontrado repetidamente e massacraram uns aos outros, e ouviram que Adam Wayne estava barricado em Pump Street.
O jornalismo tornou-se, como a maioria de tais coisas na Inglaterra sob o governo cauteloso e filosofia representada por James Barker, um pouco sonolento e muito diminuído em importância. Isto foi, em parte, devido ao desaparecimento de partidos políticos e das discussões públicas, em parte pelo compromisso ou impasse que havia feito guerras estrangeiras impossíveis, mas, principalmente, é claro, pelo temperamento de toda a nação, que era a de um povo em uma espécie de remanso. Talvez o mais conhecido dos jornais restantes fosse o Jornal da Corte, que era publicado em um escritório empoeirado, mas de aparência gentil em Kensington High Street. Pois quando todos os jornais de um povo passam anos cada vez mais fracos, decorosos e otimistas, o mais fraco, mais decoroso e mais otimista é o provável ganhador. Na competição jornalística que ainda estava em curso no início do século XX, o vencedor final foi o Jornal da Corte.
Por alguma razão misteriosa, o rei teve um carinho muito grande em ficar no escritório do Jornal da Corte, fumando um cigarro de manhã e olhando os arquivos. Como todos os homens basicamente ociosos, gostava muito de relaxar e conversar em lugares onde outras pessoas estavam trabalhando. Mas qualquer um teria pensado que, mesmo na Inglaterra prosaica de seus dias, poderia ter encontrado um centro mais movimentado.
Nesta manhã em particular, no entanto, saiu do Palácio de Kensington com um passo mais alerta e um ar mais agitado do que o habitual. Usava um extravagantemente fraque longo, um colete verde-claro, gravata preta bem completa, e curiosas luvas amarelas. Este era o seu uniforme como coronel de um regimento de sua própria criação, 1a dos Decadentes Verdes. Era uma bela visão. Caminhou rapidamente em frente ao Parque e da High Street, acendendo o cigarro enquanto andava, e abriu a porta do escritório do Jornal da Corte.
— Já ouviu a notícia, Pally? Já ouviu a notícia?
O nome do editor era Hoskins, mas o rei o chamava Pally, que era uma abreviação de Paladino das nossas liberdades.
— Bem, vossa Majestade — disse Hoskins, lentamente (era preocupado, cavalheiresco, com uma barba falha marrom) —, ouvi coisas curiosas, mas eu...
— Ouvirá mais delas — disse o Rei, dando alguns passos de uma espécie de dança africana. — Ouvirá mais delas, meu tribuno de sangue-e-trovão. Sabe o que vou fazer por você?
— Não, Majestade — respondeu o Paladino, vagamente.
— Vou colocar o artigo em fortes, arrojadas e empreendedoras linhas — disse o rei. — Agora, onde estão os seus cartazes sobre a derrota de ontem à noite?
— Não propus, vossa Majestade — disse o editor —, ter quaisquer cartazes exatamente...
— Papel, papel! — gritou o rei, descontroladamente. — Traga-me um papel tão grande como uma casa. Farei cartazes para você. Pare, tenho que tirar o meu casaco… — começou a tirar aquela roupa com um ar de definitiva intensidade, atirou-a alegremente na cabeça do Sr. Hoskins, envolvendo-o inteiramente, e olhou-se no espelho. — Sem casaco e com chapéu. Isso parece um subeditor. Na verdade, é a própria essência do subeditor. Bem — continuou ele, voltando-se abruptamente —, vêm junto com o papel.
O Paladino tinha acabado de livrar-se reverentemente das dobras da casaca do Rei, e disse perplexo:
— Lamento, vossa majestade...
— Oh, você não tem nenhuma iniciativa — disse Auberon. — O que é o rolo no canto? Papel de parede? Decorações para a sua residência privada? Arte para casa, Pally? Jogue-o aqui, e vou pintar os cartazes na parte de trás para que quando colocá-lo em sua sala vai colar o padrão original contra a parede — e o Rei desenrolou o papel de parede, espalhando-o pelo chão todo. — Agora dá-me a tesoura — gritou, e a pegou antes do outro poder se mexer.
Ele cortou o papel em cerca de cinco pedaços, cada um quase tão grande como uma porta. Então, pegou um lápis azul, e ficou de joelhos sobre o empoeirado papel de parede e começou a escrever em enormes letras:
Ele contemplou por algum tempo, com a cabeça de um lado, e levantou-se, com um suspiro.
— Não é intenso o suficiente. Não alarmista. Quero o Jornal da Corte ser temido, assim como amado. Vamos tentar algo mais contundente — e voltou a ficar de joelhos novamente. Depois de chupar o lápis azul por algum tempo, começou a escrever novamente. — Como fazer? – Escreveu:
— Acho — disse ele, olhando apelativamente, e chupando o lápis – que não poderia dizer ‘witoria’. Maravilhosa ‘witoria’ de Wayne ’? Não, não. Requinte, Pally, requinte. Já sei.
— (Nada como a nossa boa e velha tradução inglesa.) O que mais podemos dizer? Bem, algo para irritar o velho Buck? — E acrescentou, pensativo, em letras menores:
— Serão suficientes por enquanto — disse ele, e os dobrou ambos para baixo. — Cola, por favor.
O paladino, com um ar de grande terror, trouxe a cola de uma sala interna.
O Rei apertou a com o prazer de uma criança brincando com melaço. Em seguida, com suas composições enormes tremulando em cada mão, correu para o lado de fora, e começou colá-las em posições de destaque ao longo da frente do escritório.
— E agora — disse Auberon, entrando novamente com não diminuída vivacidade —, para o artigo principal.
Pegou outra das grandes faixas de papel de parede, e colocando-a em uma mesa, puxou uma caneta e começou a escrever com intensidade febril, lendo em voz alta cláusulas e fragmentos para si mesmo, e rolando-as em sua língua como se fosse vinho, para ver se tinham o puro sabor jornalístico:
— A notícia do desastre para nossas forças em Notting Hill, terrível como é (terrível como é? não, angustiante como é), pode fazer algo de bom se chama a atenção para a não-sei-qual-o-nome ineficiência (escandalosa ineficiência, é claro) dos preparativos do Governo. Em nosso atual estado de informações, seria prematuro (que palavra alegre!) lançar qualquer reflexão sobre a conduta do general Buck, cujos serviços sobre tantos campos atacados (ha, ha!), e cujas honrosas cicatrizes e louros, dão-lhe o direito de pelo menos ter o julgamento suspenso. Mas há um assunto sobre o qual devemos falar claramente. Temos estado em silêncio sobre isso por muito tempo, por sentimentos, talvez de cautela ou de lealdade enganados. Esta situação nunca teria surgido, se não fosse o que só se pode chamar de indefensável conduta do rei. É doloroso ter que dizer essas coisas, mas, falando no interesse público (plagiei o famoso epigrama de Barker), não devemos parar por causa da aflição que pode causar a qualquer indivíduo, mesmo o mais exaltado. Neste momento crucial de nosso país, a voz do povo exige como uma só língua, "Onde está o Rei?" O que ele está fazendo, enquanto seus súditos rasgam-se em pedaços nas ruas de uma grande cidade? São os seus divertimentos e suas dissipações (de que não podemos fingir ser ignorantes) tão cativantes que não pode dispensar algum pensamento para uma nação perecendo? É com profundo sentimento de responsabilidade, que avisamos aquela exaltada pessoa que nem sua grande posição, nem seus incomparáveis talentos irão salvá-lo na hora de delírio do destino de todos aqueles que, na loucura de luxo ou tirania, se encontrarem com os ingleses no raro dia de sua ira.
— Agora — disse o Rei —, vou escrever um relato da batalha por uma testemunha ocular. — E pegou uma quarta folha de papel de parede. Quase no mesmo momento Buck entrou rapidamente no escritório. Ele tinha uma bandagem em volta de sua cabeça.
— Disseram-me — disse com a sua habitual civilidade áspera —- que sua Majestade estava aqui.
— E de todas as coisas na terra — exclamou o Rei, com prazer —, aqui está uma testemunha ocular! Uma testemunha ocular que, lamento observar, tem atualmente apenas um olho para testemunhar. Pode escrever-nos um artigo especial, Buck? Tem um rico estilo?
Buck, com um autocontrole que quase se aproximou de polidez, ignorou qualquer genialidade enlouquecedora do rei.
— Tomei a liberdade, vossa Majestade — disse rapidamente —, de pedir ao sr. Barker para vir aqui também.
Enquanto falava, de fato, Barker veio para dentro do escritório, com sua habitual pressa.
— O que está acontecendo agora? — perguntou Buck, virando-se para ele com uma espécie de alívio.
— A luta ainda está em curso — disse Barker. — Os quatrocentos de West Kensington mal foram tocados na noite passada. Eles mal chegaram perto do lugar. Os homens do pobre Wilson de Bayswater chegaram, no entanto. Lutaram bem. Tomaram Pump Street. Que coisas loucas acontecem no mundo. E pensar que de todos nós foi o pequeno Wilson com os bigodes vermelhos que se saiu melhor.
O Rei fez uma nota em seu papel:
“A conduta romântica do Sr. Wilson.”
— Sim — disse Buck —, isto faz um ficar um pouco menos orgulhoso de si próprio.
O Rei repente dobrou ou amassou o papel e o colocou no bolso:
— Tenho uma ideia. Serei uma testemunha ocular. Vou escrever cartas da frente que serão mais lindas do que o real. Dê-me o meu casaco, Paladino. Entrei nesta sala um mero Rei de Inglaterra. Deixo como Correspondente Especial de Guerra do Jornal da Corte. É inútil me parar, Pally; é inútil agarrar meus joelhos, Buck; é inútil, Barker, chorar sobre o meu pescoço. "Quando o dever chama...”, o restante do sentimento me escapa. Receberá meu primeiro artigo esta noite em torno das oito horas.
E, correndo para fora do escritório, pegou um ônibus azul para Bayswater que estava passando.
— Bem — disse Barker, melancolicamente —, bem.
— Barker — disse Buck —, negócios podem ser menores do que a política, mas a guerra é, como descobri ontem à noite, bem mais como negócios. Políticos são demagogos arraigados que, mesmo quando têm um despotismo, não pensam em nada, senão a opinião pública. Então aprendem a atacar e correr, e estão com medo da primeira brisa. Agora, nós nos atemos a algo até conseguir. E nossos erros nos ajudam. Olhe aqui! Neste momento vencemos Wayne.
— Vencemos Wayne — repetiu Barker.
— Por que diabos não? — exclamou o outro, abanando as mãos. — Olhe aqui. Eu disse ontem à noite que os pegamos assegurando as nove entradas. Pois bem, eu estava errado. Deveríamos tê-los pego, mas por um evento singular, as lâmpadas se apagaram. Mas isso era certo. Já ocorreu a você, meu brilhante Barker, que um outro evento singular aconteceu desde o evento singular das lâmpadas apagarem?
— Que evento? — perguntou Barker.
— Por uma incrível coincidência, o sol nasceu — gritou Buck, com um ar de paciência selvagem. — Por que diabos não estamos assegurando todas esses caminhos agora, e passando sobre eles novamente? Isso deveria ter sido feito ao nascer do sol. O confuso médico não me deixou sair. Você estava no comando.
Barker sorriu tristemente:
— É gratificante para mim, meu querido Buck, ser capaz de dizer que antecipamos as suas sugestões com precisão. Fomos o mais cedo possível fazer um reconhecimento das nove entradas. Infelizmente, enquanto estávamos lutando entre nós no escuro, como um monte de trabalhadores braçais bêbados, os amigos do Sr. Wayne estavam trabalhando muito duro. A três centenas de metros de Pump Street, em cada uma dessas entradas, há uma barricada quase tão alta quanto as casas. Eles estavam terminando a última, em Pembridge Road, quando chegamos. Nossos erros... — gritou amargamente, e jogou o cigarro no chão. — Não fomos nós que aprendemos com eles.
Houve um silêncio por alguns momentos, e Barker recostou-se cansado em uma cadeira. O relógio do escritório fazendo tique-taque no silêncio.
Finalmente Barker disse de repente:
— Buck, já passou pela sua mente para que tudo isto? Um caminho de Hammersmith para Maida Vale era uma especulação extraordinariamente boa. Você e eu esperávamos muito dela. Mas vale a pena? Vai custar-nos milhares para esmagar este motim ridículo. Suponha que o deixemos em paz?
— E ser humilhado publicamente por um louco de cabelos vermelhos que seria internado por qualquer médico? — gritou Buck, levantando-se. — O que propõe fazer, Sr. Barker? Pedir desculpas ao admirável Sr. Wayne? Ajoelhar-se à Carta das Cidades? Apertar no seu peito a bandeira do leão vermelho? Beijar em sucessão cada sagrada lâmpada pública que salvou Notting Hill? Não, por Deus! Meus homens lutaram bem; eles foram vencidos por um truque. E vão lutar novamente.
— Buck, sempre admirei você. E estava muito certo no que disse outro dia.
— Em que?
— Ao dizer — disse Barker, levantando calmamente — que nós todos entramos na atmosfera de Adam Wayne e fora da nossa. Meu amigo, todo o reino territorial de Adam Wayne se estende a cerca de nove ruas, com barricadas no fim delas. Mas o reino espiritual de Adam Wayne estende-se... Deus sabe até aonde! Estende-se a este escritório, de qualquer maneira. O louco de cabelo vermelho que qualquer médico internava está preenchendo o quarto com sua alma que ruge de forma não-razoável. E foi o louco de cabelo vermelho que disse que a última palavra.
Buck foi até a janela, sem responder.
— Entende, claro — disse finalmente —, que nem sonho em desistir.
O rei, por sua vez, foi sacudindo ao longo do percurso no topo de seu ônibus azul. O tráfego de Londres como um todo não tinha, é claro, sido muito perturbado por estes eventos, pois o caso foi tratado como um motim de Notting Hill, e a área foi demarcada como se tivesse estado nas mãos de uma quadrilha de reconhecidos desordeiros. Os ônibus azuis simplesmente rodaram como teriam feito se uma estrada estivesse sendo consertada, e o ônibus onde o correspondente do Jornal da Corte estava sentado foi em volta de Queen’s Road em Bayswater.
O Rei estava sozinho no topo do veículo, e estava gostando da velocidade em que estava indo.
— Avante, minha beleza, meu árabe — disse ele, batendo no ônibus encorajador —, o mais rápido de toda sua limitada tribo. São as tuas relações com o teu motorista, me pergunto, as mesmas do beduíno e sua montaria? Será que ele dorme lado a lado contigo...
Suas meditações foram quebradas por uma parada repentina e chocante. Olhando por cima da borda, viu que os veículos foram parados por homens em uniforme do exército de Wayne, e ouviu a voz de um policial gritando ordens.
O rei Auberon desce do ônibus com dignidade.
O rei Auberon desce do ônibus com dignidade
O rei Auberon desceu do ônibus com dignidade. A guarda ou piquete de alabardeiros vermelhos que pararam o veículo não eram mais do que vinte, e estavam sob o comando de um pequeno, escuro, e aparentemente inteligente jovem, bem visível entre os outros, vestido com um simples fraque, mas com uma faixa vermelha na cintura e uma espada longa do século XVII. Um chapéu de seda brilhante e óculos concluíam a roupa de uma maneira agradável.
— Com quem tenho a honra de falar? — disse o Rei, se esforçando para parecer Charles I, apesar das dificuldades pessoais.
O homem moreno de óculos levantou seu chapéu com igual gravidade:
— Meu nome é Bowles. Sou um químico. Também sou capitão da companhia O do exército de Notting Hill. Estou aflito de ter de perturbá-lo parando o ônibus, mas esta área é coberta por nossa proclamação, e interceptamos todo o tráfego. Peço a quem tenho a honra… Boas graças, peço o perdão de Vossa Majestade. Estou muito desconcertado em encontrar-me com o Rei.
Auberon levantou a mão com grandeza indescritível:
— Não com o Rei, com o correspondente de guerra especial do Jornal da Corte.
— Peço o perdão de Vossa Majestade — começou o Sr. Bowles, em dúvida.
— Chama-me de Majestade? Repito — disse Auberon, com firmeza —, sou um representante da imprensa. Escolhi, com um profundo senso de responsabilidade, o nome de Pinígero. Desejo um véu sobre o passado.
— Muito bem, senhor — disse Bowles, com um ar de submissão —, aos nossos olhos a santidade de imprensa é pelo menos tão grande como a do trono. Não desejamos nada mais que nossos erros e as nossas glórias sejam amplamente conhecidas. Posso perguntar, Pinker, se tem alguma objeção a ser apresentado ao superintendente e ao General Turnbull?
— O superintendente já tive a honra de conhecer — disse Auberon, simplesmente. —Nós velhos jornalistas, sabe, encontramos todo mundo. Estaria encantado em ter a mesma honra novamente. Também seria uma satisfação conhecer o General Turnbull. Os homens mais jovens são tão interessantes. Nós, da velha gangue de Fleet Street perdemos o contato com eles.
— Se importa de me acompanhar? — disse o líder da companhia O.
— De maneira alguma — disse Pinker. — Pode prosseguir.
O artigo do correspondente especial do Jornal da Corte chegou no devido tempo, escrito num papel muito grosseiro na arabesca caligrafia do rei, em que três palavras enchiam uma página, e ainda eram ilegíveis. Além disso, a contribuição era mais desconcertante no início, que era aberto com uma sucessão de parágrafos apagados. O escritor parecia ter tentado o artigo, uma vez ou duas vezes, em diversos estilos jornalísticos. Ao lado de um experimento estava escrito “Tentar o estilo americano", e começou o fragmento:
“O rei deve ir. Queremos homens corajosos. Tudo é um disparate muito…”. E depois parou, seguido pela nota “O bom e correto jornalismo é mais seguro. Experimentar”
A experiência em bom e correto jornalismo pareceu começar:
“O maior dos poetas ingleses disse que uma rosa por qualquer...”
Também parou abruptamente. A anotação seguinte, no lado era quase indecifrável, mas parecia ser algo como:
“Que tal o velho Steevens e a mot juste? Por exemplo:”
“A manhã cintilou um pouco cansada para mim sobre a borda cortante de Campden Hill e suas casas com nítidas sombras. Sob o contorno preto de papelão, levou algum tempo para distinguir cores; mas finalmente vi um amarelo acastanhado deslocando-se na obscuridade, e sabia que era a guarda de Swindon do exército de West Kensington. Estão sendo mantidos como reserva, e revestiram todo o cume acima de Bayswater Road. Seu acampamento e sua principal força está sob a Torre de Waterworks em Campden Hill. Esqueci de dizer que a Torre de Waterworks parecia escura.
Enquanto passava por eles e me aproximava da curva de Silver Street, vi as massas nubladas azuis de homens de Barker bloqueando a entrada da estrada alta como uma fumaça safira (bom). A disposição das tropas aliadas, sob a gerência geral do Sr. Wilson, parece ser a seguinte: O Exército Amarelo (se assim posso descrever os homens de West Kensington) está, como já disse, em uma faixa ao longo do cume, o seu ponto mais a oeste sendo o lado oeste de Campden Hill Road, cujo ponto mais distante ao leste está no início de Kensington Gardens. O exército Verde de Wilson alinha-se na Notting Hill High Road de Queen’s Road até o canto de Pembridge Road, curvando-se em torno da segunda, e estendendo-se trezentos metros em direção a Westbourne Grove. Westbourne Grove em si é ocupada por Barker de South Kensington. O quarto lado deste quadrado grosseiro, o lado de Queen’s Road, é mantido por alguns dos guerreiros púrpuras de Buck.
O conjunto assemelha-se a alguns antigos e delicados canteiros holandeses. Ao longo do cume de Campden Hill encontram-se açafrões dourados de West Kensington. Eles são, por assim dizer, a primeira franja inflamada do todo. Em Northward está o nosso jacinto Barker, com todos os seus jacintos azuis. Em volta para o sul-oeste correm os juncos verdes de Wilson de Bayswater, e uma linha de lírios violetas (adequadamente simbolizada pelo Sr. Buck) completa o conjunto. O exterior argento... (Estou perdendo o estilo. Deveria ter dito ‘Curvar como um batedor’ em vez de apenas ‘curvar’. Também deveria ter chamado os jacintos ‘repentinos’. Não posso continuar com isso. A guerra é demasiado rápida para este estilo de escrita. Peça ao office-boy para inserir mots justes.)
A verdade é que não há nada a relatar. Esse elemento comum que está sempre pronto para devorar todas as coisas belas (como o porco preto na mitologia irlandesa finalmente devora as estrelas e deuses); este elemento comum, como digo, tem a seu modo finalmente devorado as chances de qualquer romance, neste caso, o que uma vez consistia de combates absurdos, mas emocionantes nas ruas, degenerou-se em algo que é a prosa da guerra — degenerou-se em um cerco. Um cerco pode ser definida como uma paz mais o inconveniente de guerra. Naturalmente Wayne não pode aguentar. Não há mais possibilidade de ajuda de qualquer outro lugar do que de navios da lua. E mesmo se o velho Wayne tivesse abastecido sua rua com carne em lata até que toda a guarnição tivesse que se sentar sobre elas, não poderia resistir por mais de um mês ou dois. Na melancólica realidade, fez algo como isso. Abasteceu sua rua com comida de forma que não deve haver espaço extraordinariamente para se virar. Mas para que isso? Para aguentar um longo tempo e, em seguida, desistir em caso de necessidade, o que significa isso? Isto significa esperar até que suas vitórias sejam esquecidas, e em seguida, ser derrotado. Não consigo entender como Wayne pode ser tão inartístico.
E como é estranho que se vê uma coisa bem diferente quando se sabe que está derrotado! Sempre pensei que Wayne foi bastante bem. Mas agora, quando sei do que ele é feito, não parece haver nada mais do que Wayne. Todos as ruas parecem apontar para ele, todas as chaminés parecem inclinar-se para ele, acho que é um sentimento mórbido; mas Pump Street parece ser a única parte de Londres que sinto fisicamente. Acho, digo, que isto é mórbido. Acho que é exatamente como um homem se sente sobre o seu coração quando seu coração é fraco. ’Pump Street’ — o coração é uma bomba. E estou bem sentimental.
Nosso melhor líder na linha de frente é, sem sombra de dúvida, o general Wilson. Ele adotou sozinho entre os superintendentes o uniforme de seus próprios alabardeiros, apesar de que os trajes do século XVI não foram originalmente planejados para acompanhar suíças vermelhas. Foi ele que, contra uma defesa mais admirável e desesperada, partiu ontem à noite para Pump Street e a manteve pelo menos meia hora. Ele foi posteriormente expulso pelo general Turnbull, de Notting Hill, mas só depois de uma luta desesperada e a descida repentina da escuridão terrível que se mostrou ainda mais fatal para as forças dos generais Buck e Swindon.
O superintendente Wayne mesmo, com quem tive, com muita sorte, uma entrevista bem interessante, deu o testemunho mais eloquente da conduta do general Wilson e os seus homens. Suas precisas palavras foram as seguintes: ‘Tenho comprado doces em sua lojinha engraçada desde quando tinha quatro anos de idade. Nunca notei nada, tenho vergonha de dizer, exceto que ele falava pelo nariz, e não costumava lavar-se muito. Ele veio a nossa barricada como um demônio do inferno.’ Repeti esse discurso ao próprio General Wilson, com algumas melhorias delicadas, e ele parecia satisfeito com isto. Ele não parece, no entanto, satisfeito com nada tanto agora quanto com o uso de uma espada. Tenho direto da melhor autoridade que o general Wilson não raspou a face completamente ontem. Acredita-se nos círculos militares de que ele está cultivando um bigode...
Como disse, não há nada a relatar. Ando cansado para a caixa de correio no canto de Pembridge Road para postar meu artigo. Nada aconteceu, a não ser os preparativos para um particularmente longo e frágil cerco, durante o qual não pretendo estar na linha de frente. Enquanto olho acima de Pembridge Road para o crepúsculo, o aspecto da estrada me lembra que há uma nota a acrescentar. O general Buck sugeriu, com a perspicácia característica, ao general Wilson que, a fim de afastar a possibilidade de uma catástrofe como a que dominou as forças aliadas no último avanço em Notting Hill (a catástrofe, quer dizer, das lâmpadas apagadas), cada soldado deve ter uma levar uma lanterna acesa no pescoço. Esta é uma das coisas que realmente admiro no general Buck. Ele possui o que as pessoas costumavam chamar de ’humildade do homem de ciência’, isto é, ele aprende constantemente com seus erros. Wayne pode pegá-lo de alguma outra forma, mas não da mesma forma. As lanternas parecem luzes de fadas ao se curvarem em volta do final de Pembridge Road.”
"Depois: Escrevo com alguma dificuldade, porque o sangue escorre pelo meu rosto e faz padrões no papel. O sangue é algo muito bonito; e é por isso que está escondido. Se perguntar por que o sangue escorre pelo meu rosto, só posso responder que fui chutado por um cavalo. Se me perguntar sobre o cavalo, posso responder com algum orgulho que era um cavalo de guerra. Se me perguntar como um cavalo de guerra apareceu em nossa simples guerra pedestre, estou reduzido pela necessidade, tão dolorosa para um correspondente especial, de contar as minhas experiências.
Estava, como já disse, a postar meu artigo na caixa do correio, e de relance fui atraído pela curva brilhante de Pembridge Road, cravejado com as luzes dos homens de Wilson. Não sei o que me fez parar para examinar o assunto, mas tinha uma fantasia de que a linha de luzes, onde se misturara ao indistinto crepúsculo marrom, era mais indistinta do que o habitual. Tinha quase certeza de que, em um certo trecho da estrada onde havia cinco luzes agora havia apenas quatro. Estiquei meus olhos, as contei novamente, e havia apenas três. Um momento depois, havia apenas dois; um instante depois, apenas um; e um instante depois as lanternas perto de mim balançaram como sinos chocalhados, como se tivesse sido atingidas de repente. Queimaram e caíram, e o momento da queda deles foi como a queda do sol e das estrelas do céu. Deixou tudo em uma cegueira primal. Na verdade, a estrada ainda não estava legitimamente escura. Havia ainda os raios vermelhos de um por do sol no céu, e o crepúsculo marrom ainda aquecia, por assim dizer, com um sentimento de luz de fogo. Mas pelos três segundos após as lanternas virarem e caírem, vi na minha frente uma escuridão bloqueando o céu. E no quarto segundo sabia que essa escuridão que bloqueou o céu era um homem num grande cavalo, e fui pisoteado e jogado de lado, por um redemoinho de cavaleiros que varreu a esquina. Enquanto voltaram vi que eles não eram negros, mas escarlates; eram uma sortida dos sitiados, com Wayne cavalgando à frente.
Levantei-me da sarjeta, cego com o sangue de um ferimento superficial de pele, e, estranhamente, não me importando tanto com cegueira ou com a ferida. Por um minuto mortal depois que a incrível cavalgada tinha passado, houve um silêncio morto na estrada vazia. E então veio Barker e todos os seus alabardeiros correndo como demônios na pista deles. Era a sua obrigação guardar o portal que a surtida tinha quebrado, mas eles não contavam, e pequena culpa a deles, com a cavalaria. Como foi, Barker e seus homens fizeram uma perfeita esplêndida corrida atrás deles, quase pegando os cavalos de Wayne pelas caudas.
Ninguém pode compreender a surtida. Ela consiste apenas de um pequeno número da guarnição de Wayne. Turnbull mesmo, com a vasta massa dela, está, sem dúvida, ainda barricada em Pump Street. Missões deste tipo são bastante naturais na maioria dos cercos históricos, como o cerco de Paris em 1870, porque nestes casos, o assediado tem certeza de algum apoio externo. Mas o que pode ser o objetivo neste caso? Wayne sabe (ou se é muito louco para saber, pelo menos Turnbull sabe) que não há, e nunca houve, a menor chance de apoio do lado de fora, pois a massa dos modernos e sãos habitantes de Londres considera seu patriotismo farsesco com desprezo, tanto quanto desprezam a idiotia original que lhe deu origem, a loucura do nosso miserável Rei. O que Wayne e seus cavaleiros estão fazendo ninguém pode mesmo conjecturar. A teoria geral da rodada é que ele é simplesmente um traidor, e abandonou os sitiados. Mas os enigmas maiores, mas ainda solúveis não são nada em comparação com o pequeno enigma, mas sem resposta: de onde tiraram os cavalos?”
“Depois: Ouvi um conto extraordinário da origem do aparecimento dos cavalos. Parece que essa pessoa incrível, o General Turnbull, que está agora governando Pump Street, na ausência de Wayne, enviou na manhã da declaração de guerra um grande número de meninos (ou querubins da calha, como nós homens da impressa dizemos), com meias-coroas em seus bolsos, tomar táxis em todo Londres. Nada menos do que cento e sessenta táxis se reuniram na Pump Street; foram requisitados pela guarnição. Os homens foram libertados, os táxis usados para fazer barricadas, e os cavalos mantidos em Pump Street, onde foram alimentados e exercitados por vários dias, até que eles estivessem suficientemente rápidos e eficientes para ser usado neste passeio selvagem para fora da cidade. Se isto é assim, e ouvi da melhor autoridade possível, o método da surtida é explicado. Mas não temos nenhuma explicação de seu objetivo. Quando os azuis de Barker atravessavam a esquina atrás deles, foram parados, não por um inimigo, mas pela voz de um homem, e era um amigo. Red Wilson de Bayswater correu sozinho ao longo da estrada principal como um louco, acenando com uma alabarda arrancada de uma sentinela. Ele estava no comando supremo, e Barker parou no canto, olhando e desorientado. Podíamos ouvir a voz de Wilson alta e distinta no anoitecer, de modo que parecia estranho que a grande voz saísse do pequeno corpo. ‘Pare, South Kensington! Guarde esta entrada, e impeça-os de retornar. Vou persegui-los. Para a frente, Guarda Verde!’
Uma parede de uniformes escuros azuis e uma floresta de poleaxes estava entre mim e Wilson, pois os homens de Barker bloquearam a boca da estrada em duas linhas rígidas. Mas através deles e através do crepúsculo podia ouvir claramente as ordens e o clangor de armas, e ver o exército verde de Wilson marchar para o oeste. Eles eram os nossos grandes lutadores. Wilson os tinha preenchido com seu próprio fogo, em poucos dias eles haviam se tornado veteranos. Cada um deles usava uma medalha de prata de uma bomba, para vangloriar-se de que só eles de todos os exércitos aliados ficara vitorioso em Pump Street.
Consegui driblar o destacamento azul de Barker, que guardava o final de Pembridge Road, e, apertando o passo, alcancei a cauda do exército verde de Wilson enquanto descia a estrada em busca do rápido Wayne. O crepúsculo tinha-se aprofundado numa escuridão quase total, e por algum tempo, só ouvi o batimento do ritmo da marcha. Então, de repente houve um grito, e os grandes lutadores foram arremessados para trás, quase me esmagando, e as lanternas novamente balançaram e tilintaram, e narizes frios de grandes cavalos nos pressionaram. Eles haviam se virado e dado carga.
‘Seus tolos!’, veio a voz de Wilson, cortando nosso pânico com uma esplêndida raiva fria. ‘Não veem? Os cavalos não têm cavaleiros!’
Era verdade. Estávamos no meio de uma debandada de cavalos com selas vazias. O que poderia significar? Será que Wayne encontrou alguns dos nossos homens e foi derrotado? Ou jogou os cavalos em nós como uma espécie de ardil ou um novo modo louco de guerra, tal como ele parecia decidido a inventar? Ou será que ele e os seus homens querem fugir disfarçados? Ou será que querem se esconder nas casas?
Nunca admirei tanto o intelecto de qualquer homem (nem mesmo o meu próprio) tanto quanto o de Wilson naquele momento. Sem dizer uma palavra, simplesmente apontou a alabarda (que ainda segurava) para o lado sul da estrada. Como se sabe, as ruas até o cume de Campden Hill a partir da estrada principal são peculiarmente íngremes, elas são mais como caminhos bruscos de escadas. Estávamos em frente de Aubrey Road, a mais íngreme de todas; teria sido muito mais difícil subir com cavalos semi-treinados do que subir a pé.
‘Gire à esquerda!’ gritou Wilson. ‘Eles passaram por aqui’, acrescentou para mim, que estava ao lado do seu cotovelo.
’Por quê?’, atrevi a perguntar.
‘Não é possível dizer com certeza’, respondeu o general de Bayswater. ‘Vieram até aqui com muita pressa, de qualquer maneira. Eles simplesmente soltaram seus cavalos, porque não podiam levá-los para cima. imagino que estão tentando subir o cume de Kensingston ou Hammersmith, ou em algum lugar, e estão atacando aqui pois é um pouco além do fim da nossa linha. Malditos tolos, por não ter ido mais adiante na estrada, no entanto. Apenas escaparam do nosso último posto. Lambert está a pouco mais de 400 metros daqui. E eu o avisei.’
‘Lambert!’ , eu disse. ‘Não o jovem Wilfrid Lambert - meu velho amigo.’
‘Wilfrid Lamber é o nome dele’, disse o general, ‘costumava ser um citadino; um companheiro parvo com um nariz grande. Esse tipo de homem sempre é voluntário para alguma guerra ou de outra, e o que é mais engraçado, geralmente não é ruim nisso. Lambert é distintamente bom. Sempre considerei os amarelos de West Kensingtons como a parte mais fraca do exército, mas ele os conduziu juntos extraordinariamente bem, apesar de ser subordinado ao Swindon, que é um burro. No ataque de Pembridge Road na outra noite, ele mostrou grande coragem.’
‘Demonstrou maior coragem do que isso’, eu disse. ‘Ele criticou o meu senso de humor. Esse foi seu primeiro combate.’
Esta observação foi, lamento dizer, perdida no admirável comando das forças aliadas. Estávamos subindo a última metade de Aubrey Road, que é tão abrupta que se parece com um mapa antigo inclinando-se contra a parede. Existem linhas de árvores pequenas, uma por cima da outra, como em um mapa antigo.
Chegamos ao topo, arfando um pouco, e estávamos prestes a virar a esquina num lugar chamado (em antecipação cavalheiresca a nossas guerras de espada e machado) Tower Crecy, quando fomos subitamente abatidos no estômago (não posso usar nenhum outro termo) por uma horda de homens que se atirou sobre nós. Usavam o uniforme vermelho de Wayne; suas alabardas estavam quebradas; testas sangrando, mas o mero ímpeto de sua retirada nos atordoou enquanto estávamos no último cume da encosta .
‘O bom e velho Lambert!’, gritou de repente o impassível Sr. Wilson de Bayswater, com uma emoção incontrolável. ‘Maldito velho alegre Lambert! Ele já conseguiu! Ele está dirigindo-os de volta para nós! Hurra! Hurra! Avante, Guarda Verde!’
Viramos para o canto leste, Wilson correndo primeiro, brandindo a alabarda..
Pode perdoar um pouco de egoísmo? Todos gostam um pouco de egoísmo, quando toma a forma, como neste caso, de uma confissão vergonhosa. A coisa é realmente um pouco interessante, porque mostra como o hábito meramente artístico contamina homens como eu. Foi a ocorrência mais intensamente emocionante que já aconteceu em minha vida; e estava realmente animado sobre isso. E ainda, quando viramos a esquina, minha primeira impressão foi de algo que não tinha nada a ver com a luta. Fui aturdido pelos céus como por um raio, pela altura da torre de água de Campden Hill. Não sei se os londrinos geralmente percebem o quão alta se parece quando se está quase que imediatamente sob ela. Por um segundo, pareceu-me que mesmo a guerra humana era uma trivialidade aos pés dela. Por um segundo, senti-me como se antes estivesse ébrio de alguma orgia trivial, e agora estivesse sóbrio pelo choque desta sombra. Um momento depois, percebi que sob ela havia algo mais duradouro do que a pedra, e algo mais selvagem que a atordoante altura — a agonia do homem. E sabia que, em comparação a isso, esta torre esmagadora era uma trivialidade, era uma haste simples de pedra que a humanidade poderia quebrar como um palito.
Não sei por que falei tanto sobre esta velha torre de água boba, que na melhor das hipóteses era apenas um enorme fundo de tela. Era, certamente, uma paisagem sombria e terrível, contra a qual os nossas figuras eram aliviados. Mas acho que a verdadeira razão foi que, havia em minha própria mente uma transição tão cortante da torre de pedra ao homem de carne e osso. Pois o que primeiro vi quando me recuperei, foi a sombra da torre, como se fosse um homem, e um homem que eu conhecia.
Lambert estava no canto mais distante da rua que curva ao redor da torre, sua figura delineada pelo nascer da lua. Estava magnífico, um herói; mas parecia algo muito mais interessante do que isso. Estava, como aconteceu, quase exatamente na mesma atitude arrogante em que estava há quase 15 anos atrás, quando balançou sua bengala e atingiu-a no chão, e me disse que toda a minha sutileza era bobagem. E, na minha alma, acho que isso exigiu mais coragem dele do que a luta agora. Pois então estava lutando contra algo que estava em ascensão, elegante, e vitorioso. E agora está lutando (com o risco de sua vida, sem dúvida) simplesmente contra algo que já está morto, que é impossível, fútil; do qual nada foi mais impossível e inútil do que esta surtida. As pessoas hoje em dia menosprezam o sentido psicológico da vitória como um fator nos confrontos. Então, ele estava atacando um degradado, mas, sem dúvida, vitorioso Quin, e agora ele está atacando um interessante, mas totalmente acabado Wayne.
Seu nome me faz lembrar dos detalhes da cena. Os fatos foram os seguintes. Uma linha de alabardeiros vermelhos, dirigida por Wayne, estava marchando pela rua, perto da parede norte, que é, de fato, a parte inferior de um tipo de dique ou fortificação da torre de água. Naquele instante, Lambert e seus amarelos de West Kensingtons varreram a esquina abalando os homens de Wayne pesadamente, e empurram de volta alguns dos mais tímidos, como acabei de descrever, para os nossos braços. Quando nossa força atingiu a retaguarda de Wayne, todos sabiam que estava terminado. Seu barbeiro militar favorito foi atingido. Sua mercearia estava atordoada. Ele próprio foi ferido na coxa, e cambaleou para trás contra a parede. Nós o tínhamos em uma armadilha com duas garras. ‘É você?’ gritou jovialmente Lambert a Wilson para além das cercas de Notting Hill. ‘Este é segredo’, respondeu o General Wilson, ‘mantê-los sob a parede.’
Os homens de Notting Hill foram caindo rapidamente. Adam Wayne ergueu os longos braços na parede acima dele, e com um salto a escalou; era uma figura gigantesca contra a lua. Arrancou a bandeira das mãos do porta-estandarte abaixo dele, e sacudiu-a de repente acima de nossas cabeças, de modo que era como um trovão no céu.
‘Em volta do Leão Vermelho!’, gritou. ‘Espadas em torno do Leão Vermelho! Alabardas em torno do Leão Vermelho! Eles são espinhos ao redor da rosa.’
Sua voz e o estalido da bandeira causaram uma corrida momentânea, mas Lambert, cujo rosto idiota estava quase bonito com a batalha, sentiu por instinto, e gritou:
‘Largue a bandeira da sua casa, seu tolo! Largue isso!’
‘A bandeira do Leão Vermelho raramente se inclina’, disse Wayne, orgulhosamente, exibindo-a exuberantemente no vento da noite.
No momento seguinte sabia que a pobre teatralidade sentimental de Adam lhe custou muito. Lambert estava a um salto da parede, a sua espada em seus dentes, e atacou a cabeça de Wayne antes que ele tivesse tempo de sacar sua espada, suas mãos ocupadas com a enorme bandeira. Deu um passo para trás apenas a tempo de evitar o primeiro corte, e deixou cair o mastro de bandeira, de modo que a lâmina de lança no final dela apontou para Lambert.
‘A bandeira se inclina’, bradou Wayne, numa voz que deve ter assustado as ruas. ‘A bandeira de Notting Hill inclina-se para um herói.’ E com estas palavras, dirigiu a ponta de lança e metade do mastro de bandeira através do corpo de Lambert que caiu morto na estrada abaixo, uma pedra sobre as pedras da rua.
‘Notting Hill! Notting Hill!’, gritou Wayne, numa espécie de raiva divina. ‘Sua bandeira é ainda mais santa para o sangue de um inimigo valente! Para cima do muro, patriotas! Para cima do muro! Notting Hill!’
Com seu longo braço forte ele realmente arrastou um homem acima do muro como uma silhueta contra a lua, e mais e mais homens subiram lá em cima, puxando a si mesmos e sendo puxados, até que os grupos e multidões dos homens meio massacrados de Pump Street estavam no muro acima de nós.
‘Notting Hill! Notting Hill!’, gritou Wayne, incessantemente.
‘Bem, o que dizer de Bayswater?’, disse um homem trabalhador digno do exército de Wilson, irritado. ‘Bayswater para sempre!’
‘Nós ganhamos!’, Wayne gritou, batendo mastro de bandeira no chão. ’Bayswater para sempre! Ensinamos nosso patriotismo aos inimigos!’
‘Oh, vamos cortá-los e acabar com isto!’, gritou um dos tenentes de Lambert, que estava reduzido a algo que beirava a loucura com a responsabilidade de suceder ao comando.
‘Vamos tentar por todos os meios’, disse Wilson, sóbrio; e os dois exércitos se fecharam ao redor do terceiro.”