CAPITULO XVI
Um sermão, um desafio, e uma hora de fé

Os visinhos da casa de Julião estavam alvoroçados. Entre eles tinha-se despertado um movimento religioso como poucas vezes se tem visto.

Merecia a pena ás oito horas da noite o ir ver o interior da casa; pateo, corredor, janelas, tudo estava atulhado de pessoas, que levantavam a cabeça para olhar para um corredor do quarto andar, donde um homem lhes falava.

Tinham decorrido cinco noites desde que Julião pela primeira vez falára no corredor, e coisas maravilhosas tinham acontecido.

Na sexta noite do culto, achava-se Julião prégando, e tinha tomado para texto as palavras de Jesus: «Porque onde estão dois ou tres reunidos em Meu nome, ahi estou Eu no meio deles» (S. Mat. 18: 20).

O nosso amigo estava quasi no fim da sua prégação, depois de ter exposto aos seus ouvintes quão grande era o amor do Salvador, que, depois de ter dado a vida pelos pecadores, estava disposto a recebel-os, pois que, só com invocal-O, Ele Se aproximava dos corações. Depois de tudo isto, disse:

«Temos, pois, que onde se reunem dois ou tres em nome do Senhor, ali está a egreja. Portanto, meus amigos, não é necessario ir a tal ou tal egreja, nem escutar esta ou aquela pratica, não; se dois ou tres cristãos se unem em um caminho ou num deserto, e ali elevam os seus corações para orar, ou antes para falar de Jesus, ali está a Egreja com o seu divino Esposo no meio.

«Mais facil é que o Senhor habite em uma pobre agua-furtada, onde uma familia faz a sua oração matutina, do que num templo onde os sentidos se deleitam e o espirito se distrae com o som do orgão, o espectaculo do luxo e os perfumes do incenso. Sabei que o Senhor «não habita em templos feitos por mãos de homens», como diz o profeta: «O céu é o Meu trono, e a terra o estrado dos Meus pés. Que casa Me edificareis vós, diz o Senhor, ou qual é o logar do Meu repouso? Não fez, porventura, a Minha mão todas estas coisas?» (Atos 7: 49—50). Assim fala o Senhor. Não são, pois, as afilagranadas cupulas duma catedral, ou os sumptuosos tetos dum templo, nem os canticos latinos, nem o incenso, nem as luzes, nem o luxo, os objetos que fazem com que o espirito de Deus desça das mansões celestes onde habita; antes pelo contrario, essas coisas afugentam o Espirito de Deus.

—As suas malditas idéas, sim, que o conduzirão a si e áqueles que o escutam aos infernos—disse uma voz do fim do corredor.

Todos os olhares se dirigiram para o sitio donde havia saido a voz, e deram com o padre Francisco, que, aceso em ira, apostrofava o vidraceiro.

Taes insultos lhe dirigiu que os assistentes começaram a gritar:

—Fóra, corvos! Fóra, corvos! Não queremos latinorios.

—O Evangelho é claro, e os padres não querem que a gente o leia, para que se não venham a descobrir os seus embustes.

—Fóra, fóra o padre!

—Silencio, meus amigos—gritou Julião.

A vozeria cessou, e então o vidraceiro, dirigindo-se ao padre Francisco, disse-lhe:

—Podia não interromper a nossa reunião por um modo tão pouco delicado. Não sei porque seja tratado assim aquele que diz a verdade.

—Você nem diz nem conhece a verdade—exclamou o padre Francisco.

E acrescentou com concentrado odio:

—Você é um miseravel que recebe dinheiro dessas malditas sociedades inglezas para perder a Hespanha, para subjugal-a...

—Sr. padre Francisco—disse Julião num tom veemente—O senhor é um caluniador. Certamente que a si é que eu devo o prégar o Evangelho; pois saibam todos que, por causa desse senhor, perdi a minha loja e a minha posição. Tão caritativo, fez quanto pôde para a minha miseria e para a miseria da minha familia.

—Fóra, fóra o padre!—gritaram de novo as pessoas presentes.

—Silencio!—tornou a exclamar Julião—O sr. padre Francisco é um dos padres de mais talento da freguezia; tem estudos, e diz que estou no erro; eu, pelo contrario, não sou mais do que um pobre artista sem estudos, e, mais ainda, com um futuro bem triste. Pois apezar disso, eu desafio-o a discutir comigo na vossa presença.

—Bem, bem—exclamaram os circunstantes.

—Senhores—disse o padre Francisco, um tanto embaraçado,—eu não posso discutir com este homem sem licença dos meus superiores; portanto não lhe aceito o repto, antes o desprézo.

—Parece-me—disse Julião—que isso é uma evasiva; o senhor, se é, como diz, ministro do Evangelho, não pode deixar de combater o erro onde quer que se encontre; a sentinela que vê como o inimigo se aproxima da brecha que ela guarda não espera que os seus chefes lhe mandem fazer fogo: assim o senhor deve colocar-se em frente do erro sem aguardar licença de ninguem.

—Este—exclamou furioso o padre Francisco—não é logar proprio para discutir. A casa é propriedade do senhorio, e não para que você venha com o seu palavriado escandalizar os visinhos com suas corrompidas doutrinas.

—Fóra! fóra o padre!—disse uma voz.

—Fóra?—repetiu o padre.—Ámanhã vou dar parte ao senhorio de tudo quanto aqui se está passando, e veremos se se lhes prohibe ou não amontoarem-se nas escadas e no corredor, interrompendo a passagem.

—Pois senhores—gritou um dos moradores—em minha casa, de ámanhã em deante, ha logar para nos reunirmos. Se o sr. Julião quizer, podem todos juntarem-se ali sem escrupulo, e assim deixaremos as escadas livres, para que o sr. padre Francisco possa descer e subir, sem que a sua sotaina se amarrote.

Todos os moradores aplaudiram, emquanto que o padre Francisco entrou em sua casa aceso em colera.

Julião concluiu o sermão, e, depois de ficar convencido de que na noite proxima se celebraria culto em casa do visinho, que a tinha oferecido, cada qual foi para sua casa, e meia hora depois o socego e silencio reinavam em todas as habitações.

Julião e sua esposa estavam sentados em casa, conversando.

—E que vaes fazer?—disse-lhe a esposa.

—Não sei—respondeu Julião,—não sei; todas as portas se fecham; hontem esperava trabalho, porém o mestre não ficou com a obra e não me pôde admitir. Bem sabe Deus, querida esposa, que sómente sinto isto por ti e por nosso filho. Os recursos esgotaram-se, e não vejo de pronto como poderemos obter remedio. Eu sei que «Deus providenciará», sim, indubitavelmente tem que o fazer. Fui vender a ferramenta, porém querem valer-se da ocasião, e por aquilo que me custou duas libras sómente me dão uma.

—Julião, já te disse que não vendas a ferramenta; se ámanhã nos estabelecermos de novo, far-te-ha falta.

—Certamente, e não sei que estranho pressentimento me diz que tornaremos para a loja que deixámos.

—Muito me alegraria com isso—disse Dôres,—porque foi naquela casa que morreram os nossos paes. Sabes—acrescentou—que ámanhã tenho de ir ao Monte dos socorros empenhar alguns objetos.

—Ah! Dôres!—exclamou Julião—se tu tivesses fé! Dize: crês com todo o coração o que está escrito na palavra de Deus?

—Sim, Julião.

O vidraceiro pegou na Biblia, que estava em cima da meza, e disse:

—Dôres, não temos dinheiro para comprar pão ámanhã, e, se não vaes empenhar alguns objetos, nem mesmo umas tristes sopas podes dar ao nosso filho, não é verdade?

Estas palavras arrancaram silenciosas lagrimas dos olhos de Dôres, que apertou ao peito o filhinho, que ela beijou sofregamente, entretanto que a creancinha se sorria, indiferente aos pezares daquela que a estreitava em seu seio.

—Não chores—continuou Julião,—o Senhor mesmo nos ensinou a dizer: «Dá-nos o pão nosso de cada dia»; pois bem, vamos orar, pedindo-Lhe esse pão.

Julião abriu a Biblia no Evangelho de S. João, cap. 16, e leu os versiculos 23 e 25, dizendo:

—Escuta esta preciosa promessa feita por Jesus; «Na verdade, na verdade, vos digo: se vós pedirdes a Meu Pae alguma coisa em Meu nome, Ele vol-a ha de dar. Vós até agora nada pedistes em Meu nome; pedi e recebereis, para que o vosso gozo seja completo». «Tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis». Agora, com tão ricas promessas, e tão bom Intercessor, prostremo-nos deante de Deus.


CAPITULO XVII
O dinheiro do diabo e o dinheiro de Deus

Ás onze horas do dia seguinte áquela noite de que acabamos de falar, achavam-se Julião e Dôres em sua casa, dialogando assim:

—Com que, nada encontraste?—dizia Dôres.

—Nada, Dôres, nada absolutamente.

—E vamos ficar assim todo o dia? Não temos dinheiro para comer, e nem ainda acendi lume por não ter que cosinhar. O menino mama muito, e eu sinto-me cair de fraqueza. Que vamos fazer?

Julião permaneceu em silencio por alguns momentos, e em seu rosto via-se retratada a luta que atormentava a sua alma.

Nunca a tentação o havia perseguido com mais força. Via sofrer sua esposa, e tudo o levava a perder a sua confiança em Deus. Por fim, depois dum breve espaço de tempo, abanou a cabeça, como se quizesse afastar dela alguma idéa que mais o atormentava, e disse em resposta a sua esposa:

—O que faremos? Esperar.

«Esperar que Deus responda á nossa oração.

Neste momento o padre e outro sacerdote apareceram á porta.

—Bons dias, senhores—disseram eles ao verem o vidraceiro e sua mulher.

—Bons dias—responderam eles, e Julião acrescentou:—Que pretendem?

—Vimos—respondeu o padre Francisco—falar comsigo.

—Nesse caso entrem.

Ambos entraram, e, emquanto Julião fechava a porta, Dôres ofereceu uma cadeira a cada um deles.

O padre Francisco tomou a palavra, e disse a Julião:

—Julião, certamente estranhará a minha vinda a sua casa, não é verdade?

—E a que devo eu a honra da sua visita?

—Vimos ver se afinal nos harmonizamos.

—Não entendo.

—Pois olhe, a loja que ocupava está ainda por alugar; quer tornar a ocupal-a?

—Não, senhor, porque para isso parece-me que seria preciso fazer alguma coisa que nem sequer desejo que se me proponha.

O amigo do padre Francisco tomou a palavra e disse:

—Apezar de não ter a honra de o conhecer, fui convidado por este amigo para lhe falar.

O padre calou-se, e depois duma breve pausa continuou:

—Eu sou o confessor da sr. condessa de X... e tenho bastante influencia sobre ela. O amigo trabalhava naquela casa, e por suas exquisitas idéas perdeu o trabalho. Porém, é a coisa mais simples eu falar com a condessa e imediatamente poderá de novo ser readmitido ao trabalho no palacio. Já falei com o sr. padre Francisco sobre aquilo que poderemos fazer por si, e se abandona o mau caminho que trilha pode ainda ser feliz.

...uma carta e uma letra de dezoito libras

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—Senhor padre—respondeu Julião,—agradeço o interesse que a minha situação lhe desperta, porém é inutil que fale por mim á condessa. Hoje é um dia em que ainda não almoçámos; porém, antes morrer de fome do que negar o meu Salvador.

—Vamos, está resolvido a continuar a prégar aqui na casa?

—Mais do que nunca, respondeu Julião.

—Bonita prégação ha de fazer, se ainda não comeu.

—O Senhor me alimentará com a Sua palavra, pois que está escrito: «Não sómente o homem viverá do pão, mas de toda a palavra que sae da boca de Deus».

—Muito bem; pois agora mesmo lhe daremos duas libras se não prégar.

—Não prégar? Ora sempre os senhores teem coisas! O seu dinheiro pereça com os senhores, que julgam amordaçar com ele a palavra nos meus labios. O Senhor dá-me alguma coisa que vale mais do que algumas libras. Cristo deu-me uma coisa, a minha salvação, a qual, apezar de os senhores julgarem vendel-a a tanto por missa, não é comprada com todo o dinheiro do mundo. Não prégar!

—Porém—disse o confessor dos condes de X...—se o não faz por si, faça-o ao menos por sua esposa e filho. Vocemecê é senhor da sua vontade para se deixar morrer á fome, porém não deve obrigar os outros a que o façam.

—Julião—disse o padre Francisco—é tão credulo que julga ver entrar por aquela porta o corvo de Elias com um pão no bico.

—Sr. padre Francisco, eu não estranharia ver entrar um corvo com pão; pois Aquele que o mandou a Elias vive ainda e é todo poderoso para mandar-me a mim, não um corvo, mas sim um anjo, que me conforte.

—Vá lá—disse o padre Francisco, levantando-se—apezar de não querer ceder, e para que veja que não somos tão maus como julga, ahi tem essa libra para que se remedeie; entretanto pense bem na sua situação.

O padre Francisco dirigiu-se a Dôres para dar-lhe a libra, mas, antes de lha deixar cair no regaço, Julião suspendeu o braço do padre, dizendo-lhe:

—Agradeço-lhe do coração a esmola, porém guarde o seu dinheiro, pois que nós para nada o queremos.

O padre Francisco, sem poder responder uma palavra, e metendo o dinheiro no bolso, saiu furioso do quarto, seguido do outro sacerdote.

Quando os dois esposos ficaram sós, Julião exclamou:

Até quando, Senhor, Te esquecerás de mim? para sempre? Até quando afastarás de mim a Tua face?

«O nosso Deus é refugio, e esforço, favorecedor nas tribulações» (Sal, 12:1; 45:1).

—Dôres, o Senhor põe á prova a nossa fé; e sabe que o Senhor prova até ao ultimo momento. Tem fé, que «Deus providenciará».

Passados uns momentos, durante os quaes Julião esteve exortando sua esposa, bateram de novo á porta. Julião foi abril-a, e um carteiro apareceu com uma carta para o vidraceiro.

Julião fechou a porta, e, dirigindo-se a sua esposa, disse-lhe:

—Será esta carta a resposta á nossa oração de hontem á noite?

Antes que Dôres respondesse, rasgou o envelope, e tirou de dentro dele uma carta e uma letra de dezoito libras. Julião leu em voz alta:

«Povoação de ***

Querido visinho

«Desejo do coração que ao receber esta passe sem novidade em companhia de sua mulher e seu filhinho. Eu gózo saude e alegria, graças a Deus.

«Porém, como teve coragem para sofrer tanto sem...? Vamos, digo-lhe que eu não tenho paciencia, e que o padre Francisco não faria o que fez se eu ahi estivesse.

«Pensando bem, eu devia zangar-me comsigo, porque estar em necessidade e não me pedir nada é coisa que não compreendo, e que não é de amigo. Porque não me escreveu?

«Emfim, agora nada se remedeia do que deixo dito, visto o mal já estar feito.

«Remeto-lhe essa letra para que torne para a sua loja, e continue no seu negocio.

«Não se aflija com a idéa de que tem de me pagar essa quantia; somos amigos e irmãos em Jesus; assim é que, emquanto não tiver dinheiro de sobra, não mo pagará. Falei com o administrador das obras onde estou trabalhando, e pode vir esta assinar a escritura, cujas condições lhe remeto, para tomar a empreitada da obra de pintura; é um bom negocio...»

Daqui em deante a carta falava de coisas relativas ao negocio de ambos, e por fim dizia:

«Não o incomodo mais, senão para dizer-lhe que aqui não trabalhamos aos domingos, e que o trabalhador que solta más palavras eu o despeço.

«E minha mulher e minha filha continuam de saude?

«Faça-me muito recomendado a Dôres, á minha Brigida e á minha filha; tambem me fará lembrado aos meus oficiaes, muitos beijos no seu filhinho, e o visinho receba o carinho deste que deseja muito vêl-o.

João.»

Quando Julião acabou de ler a carta, olhou durante alguns momentos para sua esposa, que parecia estar imersa num sonho, e por fim exclamou:

—«Quando me via atribulado clamei ao Senhor, e Ele me respondeu» (Sal. 19: 1). Eis aqui, Dôres, a resposta á nossa oração de hontem á noite. Crês que Deus sempre providenceia?

—Sim, Julião, e peço perdão a Deus pela minha falta de fé.

—Este dinheiro é mandado por Deus, e devemos aceital-o; agora demos graças ao Senhor por Sua misericordia.

Ambos os esposos se ajoelharam, e a voz de Julião se fez ouvir, dizendo:

—«Louva, ó alma minha, ao Senhor; eu louvarei ao Senhor durante a minha vida; cantarei salmos ao meu Deus por quanto tempo eu viver. Não queiras confiar nos principes, nem nos filhos dos homens, em quem não ha salvação. Sairá o seu espirito e tornará á sua terra; naquele dia perecerão todos os pensamentos deles. Ditoso aquele de quem é protector o Deus de Jacob e cuja esperança é no Senhor seu Deus, o qual fez o céu e a terra, o mar e todas as coisas que neles ha; o que guarda verdade para sempre, faz justiça aos que sofrem injuria; dá sustento aos famintos. O Senhor desata os que estão em grilhões; o Senhor alumia os cegos; o Senhor levanta os oprimidos; o Senhor ama os justos; o Senhor guarda os peregrinos, ampara o orfão e a viuva, e destruirá os caminhos dos pecadores. O Senhor reinará pelos séculos; o teu Deus, oh Sião, reinará por todas as gerações».

(Sal., 145). Senhor, graças Te damos por tudo o que tens feito para nós, em nome de Jesus. Amen.»

Depois duma curta pausa, Dôres disse:

—Senhor, aumenta a nossa fé e perdôa os nossos momentos de duvida, por amor de Jesus. Amen.»

Quando se levantaram de orar, Julião correu a dar noticias de João a Brigida e a Antonia, e em seguida foi ao banco receber a letra. Uma hora depois Julião e Dôres almoçavam, e duas horas mais tarde já Julião tinha falado com o senhorio, ficando outra vez senhor da loja, pelo que foi tirado o papel que anunciava que a loja se alugava.

O padre Francisco notou aquilo, e disse comsigo, esfregando as mãos de alegria:

—Olá! Então já está alugada a loja! Agora, se o vidraceiro quizer estabelecer-se, terá que ir procurar outra. Sinto com isto um grande prazer. Oh! como estou alegre!...


CAPITULO XVIII
Pobre padre Francisco

Depois dum dia em que a Providencia de Deus havia tão misericordiosamente tirado a Julião dos apuros em que se achava, este, com o coração inundado de gozo, preparou-se para prégar na casa que o visinho, por um impulso espontaneo, lhe havia cedido para lá falar de Deus.

O padre Francisco não podia levar a bem estas coisas. Sagaz e manhoso, media a grandes passos o soalho do seu gabinete, vestido de habitos talares, com um barrete de veludo preto na cabeça, e o cigarro na boca; passeava ali, meditando no modo de exterminar Julião e com ele a má semente, quando umas ligeiras pancadas soaram na porta.

—Entre—disse o padre Francisco.

A creada foi dizer-lhe que a sr.ª Joana desejava vêl-o.

—Que entre—disse o padre.

Momentos depois entrou uma mulher, que saudou o padre, beijando-lhe a mão, e dizendo-lhe:

—Disseram-me que vossa senhoria deseja falar-me, e por isso venho aqui para saber o que deseja.

—Os meus agradecimentos. Diga-me: hontem á noite foi ouvir o vidraceiro?

—Sim, senhor; agora já não fala no corredor, mas sim em casa do sr. Hipolito. Á noite foi lá muita gente; e olhe que disse coisas muito boas; falou de Deus, das tentações de Jesus, quando o diabo Lhe disse que convertesse as pedras em pães, e quando o Senhor lhe disse que a Deus sómente se deve adorar... A este respeito disse que era um grande pecado a gente pôr-se de joelhos deante dos santos... finalmente, falou muito bem...

—Basta, basta—exclamou o padre Francisco.—Senhora Joana, aquilo que Julião disse não foi mais do que uma serie não interrompida de erros, condenados pela egreja, pelo papa, pelos concilios e por todos aqueles que teem sido reconhecidos por santos. Aposto que não falou bem dos padres?

—Nem bem, nem mal.

—Aposto que não falou bem da egreja romana?

—Não disse nem uma palavra.

—Não importa, esse silencio é um pecado. Disse alguma coisa de Maria santissima?

—Não, senhor.

—Já se vê; pois se os protestantes não crêem nela!... Todos esses propagadores de nova especie não são senão pessoas que teem por oficio enganar os outros, a troco duma certa quantia que recebem para isso.

—E com que interesse?...

—Oh!—interrompeu o padre Francisco—Vocemecê não pode compreender o interesse que teem, nem o fim que teem em vista. Se não fossem os sacerdotes, já teria desaparecido a religião dos nossos paes! Para socego da sua alma, eu peço-lhe que não vá ouvir essas más doutrinas.

—Muito bem, senhor padre Francisco—respondeu a mulher, farei tudo o que mande.

—Porém é mister, em troca, ajudar a egreja.

—Sim, senhor, sim, eu a ajudarei.

—Bem; pois pode fazer com que nessa casa não se préguem mais heresias, e eu a recompensarei.

—Como?

—A habitação onde mora fica pelo lado de cima do quarto onde préga esse doido. Agora o que podemos fazer é arranjarmos gente para fazer muito barulho, correr dum lado para o outro, assobiar, arrastar as cadeiras, etc. etc. Deste modo, como o ruido os distrairá, não poderão entender-se, e acabará por não ir ninguem á reunião. Eu darei duas pesetas por cada noite em que haja reunião.

—Será servido, senhor padre Francisco, não pelo interesse do dinheiro, mas sim para agradar a Deus, e esta mesma noite começaremos a tarefa; asseguro-lhe que esta noite não se entenderão. Porém o meu quarto é muito pequeno, e não alcança senão uma parte da sala onde eles se reunem: seria bom dizer áquele que vive no quarto do lado para que faça o mesmo.

—Bem; arranje tudo e faça o que bem lhe pareça, comtanto que consigamos o fim desejado: interromper as reuniões.

—Bem; assim se fará.

O padre Francisco deu tres pesetas á mulher, que hipocritamente não queria recebel-as; porém por fim aceitou-as e saiu.

Poucos momentos depois de ficar só, o padre Francisco tornou a encetar o monologo interrompido pela chegada da sr.ª Joana.

—Deste modo—dizia comsigo—não poderão durar muito as reuniões, porém o caso é que todos falam bem do que dizem essas pessoas. Não, pouco tempo lhes durará o passatempo; agora já é outra coisa: se o meio de fazer barulho não surtir efeito, vou ter com o senhorio, ofereço-lhe cinco pesetas mais do que Julião lhe dá, e com certeza que o despede.

De repente olhou para o relogio de parede e exclamou:

—Com a bréca! Dez horas menos vinte, e ás dez tenho de dizer missa!... Vamos!

Em seguida poz a capa, e, depois de recitar algumas orações em latim deante dum crucifixo de marfim, saiu.

—Terão já aberto a loja que pertenceu a Julião?—pensava ele ao descer a escada;—sendo assim, entro e direi ao novo inquilino que deite bastante agua benta em todos os cantos para afugentar o diabo.

Nisto chegou á rua, e efectivamente a loja do vidraceiro estava aberta, se bem que nas estantes não houvesse nada e os vidros estivessem sujos. Evidentemente o novo inquilino estava-se mudando.

O padre Francisco foi pôr por obra o seu pensamento; chegou á porta da vidraça, levantou o fecho, abriu, e um grito saiu de sua boca. No meio da loja estava um homem dando ordens para a colocação dos objetos, e esse homem era... era... Julião.

A surpreza não permitiu que o padre Francisco dissesse uma palavra. Voltou a fechar a porta, e, palido e convulso, entrou outra vez no portal para perguntar ao porteiro como é que Julião estava na loja, donde dias antes havia sido despedido.

—Porque voltou de novo a alugal-a—respondeu o porteiro.

Tal abalo produziu esta noticia no sacerdote que, cambaleando, como se estivesse ébrio, subiu com custo os degraus da escada, recolheu-se em casa, e naquele dia não disse missa.


CAPITULO XIX
Evangelicos e romanos

Ao aceitar o dinheiro que tão generosamente lhe mandou o seu visinho João, Julião aceitou tambem as condições das obras que ele lhe ofereceu para tomar de empreitada. Por este motivo foi forçado a sair de Madrid, mas, como não queria que se suspendessem as reuniões, encarregou delas um joven evangelista, o qual continuou prégando durante o tempo em que Julião esteve ausente.

O joven a quem Julião deu o encargo de continuar a obra por ele principiada fêl-o apezar de quantos obstaculos lhe pozeram para o dissuadir disso o padre Francisco e os seus.

Entretanto, os costumes duma grande parte dos visinhos iam-se reformando notavelmente, graças á poderosa influencia do Evangelho.

—Bons dias, senhora Dôres—diziam á esposa do nosso amigo.

—Bons dias—respondeu ela—; então como vamos?

—Muito bem. Diga: haverá esta noite culto?

—Sim, senhora; esta noite, como todas as outras.

—Alegro-me muito com isso, porque não quero que meu marido perca um. Não sabe que desde que ouviu o Evangelho está mudado? Não sabe que já no domingo não foi jogar á bola?... Nem se embebedou. Saiu pela manhã, ás dez e meia; e eu desde logo voltei-me para Deus para pedir-Lhe: «Senhor, permiti que o meu José não se embebede hoje». Á meia hora depois do meio-dia disse-me: «Francisca, prepara-te e prepara o pequeno, que vamos dar um passeio». Acredite-me, Dôres, que julguei que estivesse sonhando. Quando fui para a alcova para vestir-me, pulava de alegria.—Imagine, ha doze anos que estamos casados e ha onze que não sahia com ele. Vesti-me, arranjei o pequeno, e quando chegámos á porta da rua, sabendo o seu costume de, logo que sahia, se dirigir para o jogo da bola, encaminhei-me para esse lado, mas ele disse-me: «Vamos por este lado, pois que odeio o sitio onde se joga a bola: quantas bofetadas te dei por ir ali!». Interroguei-o ácerca do caso, e disse-me que desde uma noite em que o seu marido leu e falou sobre um texto que diz, «Não vos enganeis, porque nem os que se dão a bebedices entrarão no reino de Deus», essas palavras gravaram-se-lhe de tal modo no coração, produzindo-lhe tal impressão, que desde então até agora não tornou a embebedar-se.

—Muito me alegro pelo que me diz ácerca da mudança de seu marido—disse Dôres—; pelo que deve dar graças a Deus, não a meu marido; pois só Deus é o que pode mudar os corações, e Ele é quem mudou o coração de seu marido.

—Diga-me, senhora Dôres: sendo tão bom aquilo que o seu marido diz, porque é que os padres lhe fazem tanta guerra?

—Pois a razão é clara: emquanto eles, por exemplo, dizem que ha um purgatorio, meu marido e todos os que crêem na Biblia, que é a Palavra de Deus, negam a existencia de tal logar; porque na Palavra nada se diz a tal respeito. Emquanto os padres, dizendo que são os sucessores dos apostolos, asseguram que praticam o que aqueles praticaram, nós, os cristãos evangelicos, lhes perguntamos com a Biblia na mão em que logar disse missa algum dos apostolos, ou lhes pedimos que nos mostrem as indulgencias concedidas por S. Pedro ou S. Paulo.

—Tem toda a razão. Até depois.

Entretanto, os visinhos partidarios do catolicismo, ou, antes, aqueles que, sendo indiferentes a toda a denominação religiosa, eram cegas maquinas do padre Francisco, faziam os maiores esforços, já que não podiam impedir as reuniões, ao menos para estorvar a tranquilidade que deve reinar nelas.

Para que os nossos leitores possam formar uma idéa do que costumam fazer os inimigos do Evangelho, referiremos o que se passou um domingo á noite em casa do sr. Hipolito, emquanto se celebrava o culto.

Como dissemos, era domingo.

Ás oito horas da noite, a habitação do sr. Hipolito estava cheia de gente. Num dos extremos da sala ha uma mesa, e por detraz dela está um joven de vinte a vinte e cinco anos de edade, vestido modestamente: fala sobre o que está escrito no Evangelho de S. Mateus, cap. 7:16. «Pelos seus frutos os conhecereis».

Emquanto ele se esforçava por demonstrar aos seus ouvintes como cada um mesmo podia conhecer-se e dar a conhecer aos outros se era cristão, o teto da sala parecia vir abaixo.

Pancadas no soalho, gargalhadas, cantigas em altas vozes, ruido de objetos que rodavam em direcções opostas, um barulho similhante ao duma habitação de loucos, e não dum aposento onde vivessem creaturas racionaes.

Além do incomodo que isto causava, distraindo aqueles que escutavam, não pode dizer-se o mal que isto causava ao prégador, distraindo-o tambem e obrigando-o a levantar a voz e a não descançar um momento afim de manter a atenção do auditorio.

—Sim—dizia ele,—pelos frutos bons ou maus de cada um, isto é, por meio das nossas obras na vida diaria, é que conhecemos e damos a conhecer se somos cristãos...

Neste momento uns fragmentos de gesso cairam do teto, emquanto que se sentia um ruido infernal.

Alguns dos que estavam escutando sairam e dirigiram-se á habitação do visinho de cima para pedir-lhes que fizessem menos barulho.

Penetremos nós ali para ver em que se ocupam aqueles servos de Roma.

Em uma pequena habitação acham-se umas vinte pessoas de ambos os sexos, que ao som duma guitarra desafinada saltam, pateiam, correm, vão e veem.

Sobre uma mesa suja e imunda está um grande jarro com vinho.

A desordem que reinava era medonha. Ao principiar a festa, a dona da casa havia-lhes dito que o objeto da reunião era impedir, por meio do barulho, os cultos protestantes que se celebravam no quarto que ficava pelo lado de baixo. Para melhor os animar, disse-lhes um sem numero de desatinos que devemos calar, e por fim declarou-lhes que o padre Francisco lhes pagava aquele jarro de vinho, pão e queijo, para passarem agradavelmente aqueles momentos.

Quando souberam que o fim com que ali se reuniam era para dar escandalo, fizeram-no com a maior alegria.

Cantavam as mais grosseiras canções, misturadas com freneticos morras dados aos protestantes; e não é de estranhar que fizessem tudo aquilo em nome da religião, visto que era um sacerdote quem pagava a despeza, e tudo era feito por inspiração sua.

As pessoas que se dirigiam a este foco de infamia chegaram por fim. Ao aparecerem, cessou o barulho, e um deles, que vivia na casa, disse á senhora Joana:

—Vimos pedir-lhes que façam menos barulho, pois aquilo que estão fazendo é indicio de má creação, que não podemos tolerar.

—Nós—replicou a senhora Joana—estamos em nossa casa, onde ninguem manda, e onde podemos fazer o que muito bem nos der na vontade.

—Sim, menos incomodar os visinhos; é esta uma casa em que vivem muitos moradores, e portanto não ha que atender á comodidade particular, mas sim á geral.

—Sabe o que lhe digo?—respondeu, desagravando-se, a senhora Joana—pois se nós os incomodamos com o barulho do baile, bailem vocês tambem: e incomodar-nos-hemos dessa maneira mutuamente e... Além disso, se vocês não estivessem fazendo bruxarias, não teriam dado logar a isto. Sobretudo, estou em minha casa... e o que disse está dito.

—Olá!—acrescentou, dirigindo-se aos seus amigos,—toca a bailar. Viva a religião! Morram os protestantes!

Era quasi certo que romanos e protestantes viriam ás mãos, se não se apresentasse a autoridade do logar, acompanhado do dono da casa em que se celebrava o culto evangelico.

A dita autoridade foi presenciar a reunião evangelica, e foi testemunha ocular de tudo o que se passou; pelo que, chegando á porta do quarto, no momento mesmo em que Joana pronunciava as palavras que já conhecemos, disse:

—Boas noites, senhores.

Aquelas «boas noites» fizeram com que o socego se restabelecesse.

—Parece-me que é demasiado o barulho que vocês fazem, e venho dizer-lhes que isso incomoda os visinhos.

Um dos homens, que estava tocando a guitarra, levantou-se e, dirigindo-se ao recemchegado, sem saber quem era, disse-lhe:

—Quem é você para falar assim? Creia que já me aborrece tanto palavriado, e, se me chega a mostarda ao nariz, nem você nem nenhum dos protestantes que estão lá em baixo fica com um cabelo na cabeça.

—Parece-me que o vinho faz com que fale desse modo, aliás...

—Se não se cala—interrompeu o homem,—arremesso-lhe daqui mesmo onde estou com... Já lhe disse, quem é você? É porventura algum protestante?

—Sou quem agora mesmo o leva para a casa de detenção; sou o regedor da freguezia.

E ao ouvir isto todos ficaram como estatuas.

—Senhor regedor—disse, passados alguns momentos, a dona da casa, com uma entoação tão servil agora como antes tinha sido insultante—senhor regedor; eu lhe confessarei por que razão estamos fazendo o que vê, se nenhum mal nos fizer.

—O escandalo sempre é escandalo, e o meu dever é castigal-o; porém queira dizer.

—O padre Francisco, que vive no andar superior, dá-nos algumas pesetas para fazermos barulho e interrompermos as reuniões protestantes que se celebram lá em baixo, e nós sem saber... pois... o faziamos.

—Bom; vamos ter com o padre; porém venha a senhora comigo.

Todos desceram, e, ao passarem pela porta, aberta de par em par, da casa do sr. Hipolito, ouviam a voz do prégador, que, terminando o culto, orava, dizendo naquele proprio instante:

—«Senhor, perdôa aos nossos visinhos lá de cima, que em sua cegueira profanam o Teu santo dia, dando escandalo. Senhor, eles crêem que desse modo abafarão a Tua palavra; já vês o seu erro. Entretanto faze que nós demos frutos que manifestem a diferença que ha entre os que Te conhecem e os que Te não conhecem.


CAPITULO XX
O Cristo das Completas e um lignum crucis

Como acabamos de ver, o regedor, acompanhado da senhora Joana, entrou na casa do padre Francisco. Não nos dizem os nossos apontamentos o que se passou entre eles, porém o que sabemos é que as reuniões evangelicas continuaram com toda a regularidade.

O mesmo padre Francisco parecia ter perdido o seu antigo ardor, e agora nada fazia contra aqueles a que ele chamava seus inimigos, se bem que não cessasse de pensar e tornar a pensar comsigo sobre o caso.

Depois de pensamentos desencontrados, acabou por desejar ter uma conferencia com o joven que dirigia os cultos.

Esta solução pareceu-lhe a melhor de todas.

—Sim—disse ele comsigo,—esse joven é muito creança ainda, e com habilidade poderei informar-me por ele do que realmente ha nessas sociedades. Ao mesmo tempo poderei convencel-o dos seus erros, e não me será impossivel conseguir dele que uma noite, em vez de celebrar o culto, como eles dizem, faça uma retractação das suas doutrinas; nesse caso eu triunfava, e acabava com essa maldita obra, e depois...

O padre esfregou as mãos de contente, e depois tratou de indagar onde e como poderia dirigir-se ao joven evangelista.

Cheio de alegria, pegou na pena e escreveu a seguinte carta:

«Madrid... Embaixadores n.º...

Sr. Mateus N.

Se bem que não tenha a honra de o conhecer, senão por tel-o visto algumas vezes, peço-lhe me conceda o especialissimo favor de aceitar um talher á minha meza, ás tres horas da tarde do dia de ámanhã, ou do dia que designe.

Espero que não verá nisto qualquer traição: estou disposto a dar-lhe quantas provas de segurança julgue convenientes, pois tenho sómente por objectivo falar-lhe sobre religião.

Seu afectuosissimo

Francisco Maria dos Anjos

Ao anoitecer daquele mesmo dia, o padre Francisco recebeu uma carta nos seguintes termos:

«Madrid...

Sr. P.ᵉ Francisco Maria dos Anjos

Aceito a honra que me concede, e ámanhã ás tres horas da tarde estou á sua disposição. Nada receio, porque Deus irá na minha companhia; sómente peço a V. que, se vamos tratar de assuntos da religião, seja com a Biblia na mão.

Seu afectuosissimo servo, que deseja ser seu irmão em Jesus,

Mateus N.»

No dia seguinte, poucos minutos antes das tres, o joven evangelista batia á porta do padre Francisco, que veiu logo receber o seu hospede, estendendo-lhe a mão com a expressão mais afectuosa, e dizendo-lhe:

—Seja bemvindo, senhor Mateus; entre, entre na minha habitação, onde descançará e jantará comigo.

Entraram juntos na sala, e, passados alguns momentos de silencio, disse o padre Francisco:

—Queira desculpar que, sem o conhecer, lhe oferecesse um talher á minha meza.

—É para mim subida honra—respondeu o joven—o receber uma tal prova da sua bondade para comigo.

Seguiram-se alguns momentos de silencio, durante os quaes o joven não desviava os olhos dum precioso armario de pau preto, que o padre tinha em frente da meza de jantar.

—Bonito movel!—exclamou Mateus.

—Realmente—exclamou o padre Francisco—é uma bonita peça, porém o que é mais bonito e tem mais valor é o que está dentro.

O padre Francisco levantou-se, dirigindo-se ao armario, e poz o dedo num botão amarelo, o que deu logar a que as portas se abrissem, deixando ver uma especie de capela com o seu altar, imagens e uma lampada de prata, cuja luz ardia continuamente. Ao abrir-se o armario, o padre Francisco tirou o solideo, fez uma reverencia ao altar e, voltando-se para Mateus, disse-lhe:

—Venha ver, que ha aqui coisas esplendidas.

O joven aproximou-se do altar, sem se inclinar nem fazer o menor sinal de reverencia.

—Veja—prosseguiu o padre Francisco—o meu pequeno tesouro. Essa Virgem do Pilar, que é de prata, tem um merito artistico extraordinario. Aquele crucifixo de marfim é tambem muito bom, e custou-me, quando estive em Roma, trinta e cinco libras. Vê aquele S. Pedro? Foi presente da minha madrinha de baptismo, que mo deu quando cantei missa, e então meu padrinho, para que eu tivesse o par completo, mandou-me fazer aquele S. Paulo. São ambos de oiro. Meu tio mandou-me do Brazil, quando era mordomo do arcebispo daquele paiz, esta reliquia: é um pedacinho dum dos degraus da casa de Anás. Porém ainda não lhe mostrei o melhor, que é aquele Cristo.

O padre Francisco apontava para uma téla, onde estava pintado um Nazareno com a cruz ás costas: representava-O de meio corpo e quasi do tamanho natural.

É o Cristo das Completas, imagem muito milagrosa. Saiba que já falou.

—Já falou, esse pedaço de linho!—exclamou Mateus.

—Sim, senhor; queira ouvir a historia. Essa imagem achava-se exposta á veneração dos fieis num convento; nesse convento havia uma freira tão enamorada dela que cada vez que se ajoelhava para adorar passava ali horas esquecidas. Sucedia com isto que, ainda que o sino tocasse para as rezas, aquela esposa do Senhor não o ouvia e faltava sempre a elas.

«Uma tarde achava-se a freira em adoração á imagem e tocou o sino para as Completas, porém ela não ouviu o toque, e então a divina imagem, abrindo os seus divinos labios, avisou a sua amiga, dizendo-lhe: Olha que tocam para Completas.

—Pois sr. padre Francisco, não posso acreditar no que diz. Falar um pedaço de pano pintado!

—Como? Acaso não falou a burra de Balaão?

—Sim, senhor, porém aquele caso foi muito diferente, pois...

—Falaremos nisso depois do jantar. Veja outra preciosidade. Este Lignum crucis trouxeram-mo de Jerusalem. Cresceu tanto emquanto o trouxe ao pescoço que tive que o cortar tres vezes durante um ano.

O joven, sem poder conter-se, soltou uma ruidosa gargalhada, mas, reprimindo-se em seguida, disse ao padre Francisco:

—Espero que me desculpe este imprudente riso, que me veiu sem querer aos labios; e logo que fechar o armario lhe contarei o motivo por que me ri quando me contou a historia do Cristo das Completas.

O padre fechou o armario e sentou-se numa cadeira em frente do joven, que disse:

—Ha pouco tempo achava-me eu numa loja de ourives desta capital; o dono, que é meu amigo, deu a um aprendiz, para que o limpasse, um relicario que ali tinham levado para esse fim. O relicario era nada mais nada menos do que um Lignum crucis, e, ao dal-o o meu amigo ao aprendiz, disse-lhe que tivesse todo o cuidado; porém o rapaz, apenas lhe pegou, deixou-o cair. Oh dôr! pegaram no relicario, olharam para dentro, e a reliquia havia desaparecido. Em vão a procuram, mas como é uma coisa sumamente pequena não pôde ser encontrada. Em tal situação que fazer? Pois, senhor, um oficial da casa cortou um pedacinho da cadeira em que estava sentado e colocou-o no sitio em que devia estar a reliquia. Passado pouco tempo, disse-me o meu amigo que a dona do relicario o procurara para lhe arranjar uns brincos; então perguntaram-lhe pelo seu Lignum crucis, e toda alvoroçada exclamou: «Cresceu extraordinariamente desde que o mandei compôr, pois que já o cortaram duas vezes.»

—Pois bem—continuou Mateus,—o fenomeno compreende-se: a tal senhora levou o relicario ao peito, e, como a caixinha era de papelão forrado de seda, penetraram nela facilmente a humidade e o calor, o que fez com que o pedacinho de madeira aumentasse de volume, obrigando-o assim a sair do pequenissimo orificio destinado para a reliquia, pelo que foi necessario cortar duas vezes o tal fingido Lignum crucis, que já dava de si material para outros novos.

—Porém isso—exclamou o padre Francisco—foi uma acção má, um sacrilegio.

—Eu não quero nem pretendo agora julgar se a acção foi boa ou má; porém quem disse a V. que a sua reliquia não é egual ao pedacinho de madeira de que temos falado?

—Não, senhor; este foi trazido da Terra Santa.

—Bem, nesse caso será um pedacinho de madeira de Jerusalem, da Terra Santa, e sempre é alguma coisa. Note que uma das coisas que deram logar á Reforma foi o abuso das reliquias. Por todas as partes encontramos ossos deste ou daquele santo, e o peor é que não é raro encontrar o mesmo osso dum santo em quatro pontos distintos, e, se não, diga-o a celebre queixada de Santa Apolonia.

—Isso...

—Desengane-se, senhor padre Francisco, Jesus é tudo. O ensino da egreja romana consiste em não prégar. Se em vez de fanatizar com reliquias e outras coisas, se ensinasse ao povo a palavra de Deus, e o que disse Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguem vem ao Pae senão por mim», e estas outras: «Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo», o povo não estaria tão cego e não fiaria a sua salvação de reliquias ridiculas e falsas, e que só servem para nos apartar de Jesus e conduzir-nos ao inferno.

Umas pancadas dadas na porta vieram interromper a conversação.

—Entre—disse o padre Francisco.

A creada entrou na sala, anunciando que a comida estava na meza.

—Vamos, sr. Mateus, vamos para a meza, e emquanto comemos teremos ocasião de conversar.

E o padre Francisco, tomando o joven pelo braço, encaminhou-se para a sala de jantar.