...........quem governasse,
Quem augmentasse a terra mais que d’antes,
Inclyta geração, altos Infantes.
(Lusiadas—canto IV, est. 50.)

D. Izabel de Lencastre
(Duqueza de Borgonha)

Não ha ninguem por menos lido na historia, que desconheça as virtudes e o valor dos filhos de D. João I. Cada um de per si constitue uma epopeia de honra e de dignidade, desde D. Duarte, o primogenito, até D. Fernando, o martyr benjamim da familia.

Foram oito os legitimos: D. Branca e D. Affonso, fallecidos na meninice; D. Duarte, successor; D. Pedro, duque de Coimbra, regente do reino, homem de sciencia, e homem politico; D. Henrique, duque de Vizeu, iniciador das descobertas, perante o que tudo sacrificou; D. Izabel, duqueza de Borgonha; D. João, o condestavel, modelo de impoluta dignidade; e D. Fernando, que morreu sacrificado pela Patria e pela sorte da guerra nas masmorras de Fez.

Havia mais um bastardo, filho não do rei circumspecto, mas do rapaz folgazão, que cevava a mocidade nas camponezas dos seus feudos. Foi o producto da perfeita carnalidade animal, livre de todo o sentimento generoso que Jesus Christo abençoou nas bodas de Canaan. Filho de coito damnado, sempre se lhe resentiu os effeitos da baixa origem; por isso se refugiou nas suas terras, lá no norte, que obtivera por consorcio com a filha unigenita do Santo Condestavel. Evitava assim a presença da madrasta, cujos olhares, d’um sereno azul celeste, parecia que chicoteavam o crime da sua existencia. Mais tarde, em varios de seus successores, brotou a semente generosa do Mestre d’Aviz e de Nun’alvares: em D. Jayme e nos dois Theodozios, mui accentuadamente.

Os outros filhos d’el-rei, altos infantes que Camões cantou, foram modelo de principes e modelo d’irmãos.[17]

Nunca a fraternidade foi seguida com mais fervor, nunca os laços familiares predominaram mais, dentro do lar, do que n’esta geração abençoada, dignissimo producto de dois esposos redemptores, abençoados tambem pelas jaculatorias d’um povo.

Devia ser commovente o passamento de D. Filippa, rodeada do marido, dos filhos, da filha, do enteado e da criadagem que fraternisava com a familia as lagrimas e os soluços.

Tendo armado cavalleiros D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique; pedindo ao primogenito que a sua espada fosse a espada da justiça, a D. Pedro a defeza das donas e donzellas, e a D. Henrique o zelo por todos os escudeiros, cavalleiros e fidalgos do reino; feitas outras recommendações, dados conselhos tendentes á união e á obediencia dos mais novos aos mais velhos, se chegou Brites Gonçalves de Moura a lembrar á rainha a infanta sua filha.

D. Izabel chorava a um canto o desenlace proximo; a mãe olhou-a com meiguice, e, voltando-se para a dama, mostrou-lhe que se tinha recommendado ao herdeiro a felicidade de seus vassallos, escusava de fallar n’ella, a quem a tinha em tanta estimação.

N’este momento, no peito de D. Pedro pulsou mais uma vez a generosidade que sempre foi seu apanagio; e dirigindo-se para D. Filippa, disse-lhe que seria bom chamarem el-rei para a esposa lhe pedir que as terras de que era possuidora se dessem á filha, emquanto não tomasse estado.

Approvada a proposta, sahiu D. Henrique a procurar o pae.

Não tardou D. João I, e ali, perante o leito de dôr da virtuosa companheira, confirmou a sympathica doação, que mesmo sem essa formalidade seria sagrada por todos os titulos.

Foi assim que a Princeza possuiu Alemquer.

No emtanto, cumpria cazal-a como D. Filippa deixava recommendado; e apezar do atrazo material da epocha, a fama dos infantes portuguezes soou por toda a terra. D. Pedro, de todos os filhos de D. João I com certeza um dos mais preclaros, deixava espalhado pelas Sete Partidas quão fructifera tinha sido a influencia de D. Filippa na côrte de Lisboa. O brutalismo da Edade-Media desapparecera em Aljubarrota e o espirito claro da Renascença, (que teve a sua aurora na esposa do rei de boa memoria, e em Nun’alvares, o candido guerreiro; e o seu occaso na infanta D. Maria, a sympathica filha do rei venturoso, e em Camões, a expressão mais pura da nossa nacionalidade) expandia-se illuminado pela figura angelica da rainha que soubera calcar, sepultando-o de vez, o impudor de Leonor Telles. Entreabria-se uma nova era, tendo por promotores a gente mais valorosa que nasceu n’esta terra. Ceuta, a Madeira e os Açores foram os alicerces das emprezas de além-mar; Ceuta, o ultimo golpe do vencedor de Castella, e o baptismo dos seus tres primogenitos; Açores e Madeira, os primeiros padrões da vassallagem do oceano á gente ousada que lhe rasgava o corpo virginal.

Com todo este conjuncto de sublimes predicados, não escasseavam os pretendentes; assim D. Izabel desposou em Bruges (10 de janeiro de 1430) o duque de Borgonha, Filippe, o bom, conde de Flandres.[18]

Digna herdeira das virtudes da mãe, enalteceu o lar domestico com aquella dignidade perante a qual o decorrer dos seculos se curva respeitoso; e mais tarde soube desempenhar com abnegação sublime os deveres do amor fraternal, requerendo a seu sobrinho D. Affonso V o corpo e os filhos do desventurado infante D. Pedro, morto em Alfarrobeira.

Bella aureola a da honra e a da gratidão!

D. Izabel de Lencastre nasceu a 21 de fevereiro de 1397 e falleceu em 17 de dezembro, de 1471.

Sepultaram-n’a na Cartuja de Dijon.


D. Leonor d’Aragão

Cinco annos antes da morte de seu pae (14 d’agosto de 1433—22 de septembro de 1428), desposou el-rei D. Duarte a D. Leonor, filha de Fernando I d’Aragão. Esta princeza succedeu á rainha sua sogra na posse d’Alemquer e d’outras terras que formavam a chamada casa das rainhas, verdadeiramente constituida no tempo da sympathica Leonor de Lencastre, mulher de D. João II.

Começavam a desapparecer os soldados da independencia. A morte ceifava uns e outros; a acção do tempo curvava-lhes a fronte varonil, como presagio do descanço eterno.

O rei já não era o mesmo homem d’antes: o mocetão galhardo e forte, mas o velho experimentado e prudente, o companheiro de vinte e oito annos da virtuosa D. Filippa, que lhe reformára o espirito e o paiz.

As illusões e o amor fugiam-lhe impellidos pelo vento rijo dos annos; esse campo deixava-o elle aos rapazes, aos filhos, sabios como elle, vivos reflexos do espirito purissimo da mãe.

Em D. Duarte talvez esse sentimento influisse com primazia. Almas ternas como a d’elle, exigem uma outra que lhes sirva de alento. Sem a candura da mulher a alma do poeta é um jardim sem flores, um sol radiante toldado por uma nuvem negra.

Tinha trinta e sete annos quando o casaram; estava na força da virilidade, retida pelo celibato. O espirito queria expandir-se, e quando os olhos viram pela primeira vez a gentil aragoneza, formosa e meiga, o amor, satisfeito no seu ideal, algemou-lhe o coração.

Leonor desde o dia das nupcias dominou de facto o marido. Bastava uma caricia para lhe subjugar a vontade.

Desgraçado do homem que encontra uma mulher d’estas, se em vez de ser o anjo que faça da familia a ante camara celestial, se converte em demonio que lhe transforme o lar em inferno intoleravel.

Era ella a segunda Leonor que se sentava no throno, notando-se que embora fosse o symbolo vivo da honra e do pudor, tem um ponto de contacto com a sua pouco illustre predecessora. Ambas escravisaram os maridos, e escravos os arrastaram ao tumulo; ambas, devido á loucura inteiramente opposta uma á outra, vieram depois de desagradaveis peripecias a fallecer no exilio!

Senhora do animo do esposo, tomou sobre si as redeas do governo. Não se limitou a ser terna e fiel como D. Filippa. Foi mais além; affastou-se do trilho que a natureza impoz á mulher, trazendo com o seu procedimento desastrosas desgraças que offuscam um tanto os brilhantes feitos da dynastia d’Aviz.

A Renascença abrira novos horisontes, e os filhos de D. João I apoiaram com todas as suas forças o objectivo da nova edade.

Ceuta fôra o alicerce que D. Henrique lançára para o imperio ultramarino. Desejava proseguir na sua ideia, continuar a ultima façanha emprehendida pelo pae; vendo ao seu lado o irmão, D. Fernando, cioso dos primogenitos amestrados já no valor da arte da guerra.

Queriam a conquista de Tanger. Houve debates n’este ponto. O rei e D. Pedro oppozeram-se, em vista do pessimo estado economico do paiz. Demais, não havia gente com que guarnecer as praças tomadas. D. Henrique, vendo a clara luz da razão, voltou-se para D. Leonor, certo da influencia d’esta perante o marido, que, movido pelas ternuras da formosa companheira, teve a fraqueza de ceder.

Partiram, levando seis mil homens, lançando-se mão, para guarnecer a armada, dos mais pesados tributos. Dada a batalha, a sorte voltou-se para o musulmano. O Alcorão sobrepujava o Evangelho, devido á imprudencia de dois principes que talvez mais attendessem á dilatação da fé do que ao accrescimo do imperio.

D. Fernando ficou captivo (1437) e captivo morreu em Fez aos cinco de junho de 1443.

Descorçoado, D. Henrique regressou a Portugal; mas não foi á côrte fallar ao rei. Temia vel-o. O espectro do prisioneiro parece que o segurava no seu ninho de Sagres. Por seu lado, D. Duarte sentia o remorso a pungir-lhe a existencia. A esposa consolava-o, mas o pobre homem, em cada caricia d’ella via a causa da sua ruina e da ruina do paiz. Tinha um só refugio: era D. Pedro. Esse sim; esse fôra o leal conselheiro, o homem de senso, justo e prudente, que previra a derrota e condemnára a expedição. Era o que lhe valia.

Tal preferencia azedou ainda mais o animo de D. Leonor para com o cunhado, esposo de uma princeza da casa d’Urgel, rival da de Aragão.[19] Mais tarde esse antagonismo teve os seus effeitos quando aos 9 de septembro de 1438 falleceu el-rei em Thomar, tendo declarado em testamento que, na menoridade do filho (Affonso V) entregava a regencia do reino a sua mulher.

A nova sublevou Lisboa como outrora acontecêra com Leonor Telles. Todos indicavam D. Pedro como regente. Principiava a desharmonia, quasi a guerra civil.

Alemquer desempenhou um papel importante n’esta questão, como na da esposa de D. Fernando. A rainha fôra para Sacavem, onde o duque de Coimbra a procurou para se entender com ella. D. Leonor veiu para Alemquer, onde já na vida do marido residira algumas vezes. A resolução das côrtes de Lisboa (1439) obrigára D. Pedro a tomar parte no leme do estado; mas este voto do paiz não foi acceite pela viuva de D. Duarte, que preferiu abandonar a familia a humilhar-se ao cunhado. A soberba, alimentada pela fraqueza do defuncto rei, possuia de todo aquella alma aliás casta e boa. Se ella não fosse formosa, se o marido tivesse o pratico conhecimento do mundo como D. João I, D. Leonor seria em tudo um fiel setellite da veneravel D. Filippa, sabio modelo de rainha, de mãe e de esposa.

Mas dos encantos de que a natureza a dotou tinha ella todo o conhecimento, e a influencia da vaidade de si mesma, juncta á desastrada submissão do rei, converteram-n’a em promotora de lamentaveis desgraças, em logar de anjo de paz.

A historia, julgando-a, tem tambem de julgar D. Duarte, que sem ella seria um grande rei. Estas duas almas perverteram-se uma á outra, para fatalidade da Patria.

De Alemquer, D. Leonor foi para o exilio onde falleceu a 18 de fevereiro de 1445. O seu corpo não ficou em terra estranha, como o da adultera Leonor Telles; actualmente jaz no mosteiro da Batalha, ao pé do de seu apaixonado esposo.

Que a critica lhe seja leve.


D. Isabel de Lencastre
(MULHER DE D. AFFONSO V)

A intriga campeava outra vez na côrte portugueza; tinha-se volvido aos tempos passados, á epocha fatal, marcada na Historia com a nodoa negra do desbragamento de Leonor Telles.

D. João I fôra então o eleito do povo para a defeza dos legitimos interesses do paiz; agora n’esta scena, pallida sombra dos acontecimentos posteriores, a vontade popular elegeu tambem um dos seus mais illustres filhos, o qual, estadista como era, conhecedor do mundo pelas suas grandes viagens e pela sua vasta erudição, soube guiar proveitosamente o leme do Estado, não obstante os obstaculos suggeridos pelos contrarios.

Sabio como D. Duarte, apesar de lhe não carecer o animo, tambem teve um defeito que lhe foi fatal: o desprezo do mundo.

Chegado á maioridade de Affonso V, D. Pedro entregou-lhe o reino; o monarcha não o acceitou; pois, apesar de moço, teve em conta os serviços prestados por seu tio, que lhe serviu de pae e que o era verdadeiramente da terna companheira que as côrtes de Torres Vedras (1440) lhe tinham destinado.

Este procedimento generoso, que bem agourava a prosperidade do novo reinado, accendeu a labareda amortecida na alma damnada dos parciaes do infante. Perdel-o, acabar-lhe com a raça generosa,[20] era o fito do movimento, que teve por chefes o duque de Bragança, D. Affonso; seu filho o conde d’Ourem; o devasso arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha; e o protonotario apostolico Vasco Pereira de Berredo.

Combinado o trama, trataram de conquistar o fraco espirito do rei, então de dezeseis annos. Baldados foram os esforços de D. Pedro para desfazer a calumnia; retirou-se da côrte a ver se o fogo se extinguia, mas com a sua ausencia as chammas fortaleceram-se.

De Ceuta viera o conde d’Avranches D. Alvaro Vaz de Almada, no proposito de á ponta da lança tomar a sua defeza. O infante e o conde, confrades da santa ordem da Garrotêa,[21] tinham a Cavallaria como uma religião, santificada por D. Filippa, no leito da morte, quando recommendava ao filho a honra das donas e donzellas.

Era a Cavallaria o unico tribunal admittido por Alvaro Vaz, para julgar os actos da regencia. Viessem a campo os detractores, montados em seus corceis e batessem-se com elle...

Os outros preferiam as devassas tiradas por ordem régia; tinham a mentira na mão, achavam quem jurasse ter o regente envenenado seu irmão D. Duarte e sua cunhada D. Leonor, mas não encontravam quem se medisse com o Avranches...

Como homem prudente, D. Pedro quiz valer-se da filha que soluçava aos pés do esposo, supplicando-lhe clemencia. D. Affonso redarguia-lhe que seu tio lhe pedisse perdão. Perdão de quê? Isso seria humilhar-se não ao soberano, mas aos inimigos; seria declarar-se reu de crimes que não commettêra.

A Cavallaria aconselhava-lhe a morte honrada e não a vida humilhante; a sciencia ensinava-lhe o desprezo do mundo; e o espirito purissimo da mãe, nos conselhos finaes, apontava ao cavalleiro e ao philosopho a honra de tres damas que a elle deviam o sêr.[22]

Desgraçado do homem que vem ao mundo como pensador; para esse a scentelha divina do talento é chamma que illumina sim, mas como o tocheiro que allumia um cadaver.

Alvaro Vaz, durante estas hesitações, fôra para Coimbra acompanhar o amigo. Decidiram partir e, á força d’armas, pedir aos detractores o rol das culpas. D. Pedro esse o que queria era desabafar com o sobrinho, com a meiga creança que outrora lhe sorria nos joelhos, como se fosse um filho. Tinha a consciencia tranquilla, porque não defender sua justiça?

Foram em bellico apparato. Logo na côrte roncaram os primeiros rumores da expedição. O rei partiu tambem ao som de guerra e junto ao ribeiro de Alfarrobeira acharam-se frente a frente.

Muitos—os leaes—desejavam uma entrevista diplomatica; mas aos parciaes do Infante o que convinha era um combate; cousa mais simples e talvez mais segura.

Começaram varias refregas, méras expansões da soldadesca; uma setta arremessada ao acaso foi bater na tenda real. Já não havia duvidas sobre as tenções do Infante... Podia, sem escrupulos, dar-se a carnificina.

Os pelouros das bombardas cruzavam-se nos ares com as flechas e com os golpes de montante; craneos esmigalhados pelos projectis juncavam o chão, havia heroes que abriam caminho com a espada ensanguentada, e entre esses D. Pedro.

Que queria elle? A Historia não o diz. Talvez fallar ao rei.

De repente um pelouro prostra-o por terra; Alvaro Vaz avisado d’isto redobrou de energia. Ao chegar junto do corpo do infante ajoelhou, e quando depunha o osculo na fronte do amigo, conheceram-n’o os contrarios.

D. Alvaro olhou-os de frente; de braço estendido para a morte, disse estas palavras: Fartar rapazes! vingar agora villanagem.

Uma turba de settas choveu sobre elle; a alma sentiu o corpo fraco e despediu-se do mundo. Era o ultimo cavalleiro.

Destruidos os dois baluartes da honra, findou a batalha, começando logo depois o saque, não dos despojos dos vencidos, mas dos bens do Grande Morto, que esteve tres dias insepulto.

Principia aqui a agonia da existencia de D. Izabel, joven de dezesete annos, com um coração bondoso, mas dilacerado de desgostos.

Seu pae, julgando amparal-a dignamente, casou-a com o sobrinho; enlace que as côrtes de Torres Vedras approvaram com enthusiasmo.

O consorcio realisou-se em 1447, ou em 6 de maio de 1448,[23] tendo a rainha sido dotada com todas as villas que pertenceram a sua sogra D. Leonor e a sua avó D. Filippa.

Entre as nossas soberanas, D. Izabel de Lencastre é uma das mais sympathicas; basta para lhe dar jus a este titulo a sua qualidade de fiel esposa do homem que assassinára seu pae e que era o pae de seus filhos.

N’estes, porém, a excelsa princeza depôz todas as suas esperanças que não foram infundadas.

Tendo tido um filho varão (3 de maio de 1455), a rainha conseguiu que se rehabilitasse a memoria de D. Pedro e que o seu corpo, então depositado na egreja de Santo Eloy, em Lisboa, fosse recolhido no Mosteiro da Batalha, junto dos de D. João I e de D. Filippa.[24]

Essa creancinha que ella, mãe extremosa, acalentava, era D. João II, o futuro Grande Rei que, com barbara, mas bem merecida justiça, vingaria a morte de seu avô.

No emtanto, os odios ainda não estavam extinctos e os promotores da catastrophe da Alfarrobeira estimulados pela rehabilitação do antigo regente, decidiram pôr termo á vida da filha, causadora de tal desgosto.

Apezar de não ser ponto averiguado, é tradição seguida, que a causa da morte d’esta rainha (2 de dezembro de 1455) foi a peçonha ministrada pelos inimigos de seu pae, terriveis feras que depararam mais tarde com um terrivel vingador.

Hoje D. Izabel jaz na Batalha, a grande epopeia de pedra da nossa nacionalidade. A Historia presta-lhe o culto da santificação pelo martyrio que enaltece as almas na perpetuidade dos seculos.


D. Leonor de Lencastre

A Historia retrata-nos Affonso V como um dos soberanos mais voluveis e ambiciosos que se tem sentado no throno portuguez. Filho de D. Duarte o fraco mas sabio rei, e de D. Leonor, casta mas censuravel rainha, Affonso V mostrou que não degenerára dos seus progenitores.

Amou as lettras e protegeu-as, proseguiu no augmento da bibliotheca de seu pae, e continuou as emprezas africanas conforme os desejos de D. Henrique.

Alcacer Ceguer (1458) Tanger e Arzilla (1463) são monumentos que attestam o patriotismo que lhe adornava a alma, áparte a volubilidade e a ambição.

Talvez fosse esta que o levasse a consentir na morte do regente D. Pedro; póde ser que mesmo afastado da côrte, o rei visse em seu tio um estorvo para dar largas á sua absoluta vontade. De facto, aquelle homem fleugmatico, methodico, grande em tudo, que o tinha creado como um pae, impunha-se-lhe involuntariamente. Não obstante a sua pouca edade, a Historia não o póde absolver da sanguinolenta tragedia d’Alfarrobeira e do condemnavel procedimento de ter durante tres dias insepulto o cadaver do mallogrado infante e de o privar, por espaço de annos, da sepultura que D. João I lhe destinára no Mosteiro da Batalha.

Uma guerra injusta alvoreceu com o seu reinado; outra lhe terminou a existencia, crivando de desgostos o desgraçado monarcha, cheio de desenganos e de crueis penas do triste passado.

Velho aos quarenta e nove annos, desanimado de todo pela sorte das armas, que lhe refreavam os vôos, abatido no Toro (1476), Affonso V falleceu em Cintra aos 28 de agosto de 1481.

Logo depois subiu ao throno seu filho D. João II, que já nos ultimos tempos da vida do pae governava de facto o reino.

N’este principe depozera as suas esperanças, nas horas amargosas do infortunio, a pobre e desgraçada mãe; a elle, por consequencia cabia vingar a memoria do avô, memoria de todo rehabilitada quando o neto lavasse as mãos no sangue dos assassinos.

A morte do duque de Bragança (21 de junho de 1483) e a do duque de Vizeu (23 d’agosto de 1484) foram golpes crueis vibrados por braço herculeo contra o poder descommunal que assassinára D. Pedro.

Consummada a vingança e consolidado o cesarismo, o rei converteu-se em senhor, apoiado no poder absoluto, uma das más feições da Renascença.

N’este empenho, D. João II sacrificou os proprios membros da familia, alanceando o coração da esposa que vira aos pés do marido morto ás punhaladas, o cadaver do louco e desgraçado irmão.

Tendo apenas dezeseis annos (22 de janeiro de 1471), o pae casára-o com D. Leonor de Lencastre, filha do infante D. Fernando e D. Izabel de Bragança.[25]

Toda a generosidade da raça d’Aviz actuou n’esta princeza, digna successora de D. Filippa; todas as virtudes domesticas, todo o zelo pelo bem da patria e pelos progressos das sciencias tiveram o seu culto no animo generoso de D. Leonor, que, para não desmentir o destino fatal das suas predecessoras, tambem teve o martyrio a crucificar-lhe a existencia.

No cerebro do marido desenrolava-se o imperio do mundo; as descobertas continuavam-se e o nome portuguez dilatava-se triumphante por toda a terra; Diogo Cão descobrira o Zaire (1484-1485), João Affonso d’Aveiro chegára á Guiné (1486) e Bartholomeu Dias dobrou o Tormentoso cabo, primeiro indicio da derrota da India.

O commercio desenvolvia-se activamente, tornando Lisboa quasi rival de Veneza. Um futuro brilhante como o fulgor de uma joia naturalmente parecia sorrir ao principe D. Affonso, esposo da herdeira de Castella e filho de D. João II e de D. Leonor; n’elle se haviam de reunir todos os potentados da peninsula e dos Dois Mundos, todas as riquezas do Oriente e do Occidente!

Havia de ser o primeiro monarcha do universo! na sua fronte repousaria a corôa que mais tarde foi cingida pela casa d’Austria. O sonho d’esta felicidade plausivel florescia perante os espinhos que o espirito vingador do rei semeára no lar domestico.

Apezar de mortificada, D. Leonor via no marido o soberano illustrado e audaz, que preparava para o filho um futuro inegualavel.

Essa creança era o espirito de conciliação que existia entre os dois; era o élo que os ligava ao commum interesse do povo. Mas como a nuvem altaneira trepa a grimpa dos montes e esconde o sol radioso, a morte surgiu a derribar o arbusto que alargava as suas raizes por todo o sólo conhecido.

Morto D. Affonso (13 de julho de 1491), o sonho idealista desappareceu e com elle a existencia do rei (25 de outubro de 1495).

Depois de viuva, D. Leonor dedicou-se á caridade e ao desenvolvimento das lettras e artes; introduziu a imprensa em Portugal;[26] fundou a Egreja da Merceana, no termo de Alemquer, o hospital das Caldas da Rainha, as Misericordias, e deu principio á construcção das capellas imperfeitas da Batalha, mais tarde mandada suspender por seu irmão el-rei D. Manuel.

No reinado d’este soberano, a rainha recebeu o lenitivo de todos os seus passados desgostos; viu o auge da prosperidade da patria, deixando-a grande e feliz quando falleceu em Lisboa aos 17 de novembro de 1525.

Jaz no convento da Madre Deus.

Quem fôr ao mais eloquente monumento da nossa nacionalidade, quem visitar os athaudes de D. João I, de D. Filippa e de seus illustres filhos, sentirá que na crypta murtuaria da Batalha estão vagos dois logares.

Nuno Alvares e Leonor de Lencastre ausentaram-se d’aquelle épico conjuncto de tumulos, onde dormem o somno eterno os mais brilhantes vultos da unica épocha de verdadeiro progresso que existiu n’esta terra.


D. Leonor d’Austria

D. João II, apezar do grande amor que consagrava a seu filho D. Jorge, mais tarde duque de Coimbra, cedeu á luz da razão, indicando como herdeiro da corôa o duque de Beja D. Manuel, irmão do desgraçado duque de Vizeu e da rainha D. Leonor, de quem já nos occupámos.

Como grande rei, o neto do infante D. Pedro continuou as descobertas maritimas; no entanto é licito ao historiador notar a hesitação d’este monarcha em acolher os serviços de Christovão Colombo, serviços que foram acceites por Fernando e Izabel de Castella, graças ao lucido espirito da rainha, predisposto pelo immortal Pedro Gonzalez de Mendóça, arcebispo de Toledo.

É esta a unica mancha do reinado de D. João II.

Nem a morte do duque de Bragança nem o assassinato do duque de Vizeu maculam a memoria do rei, que se viu obrigado a recorrer ao cutello e ao punhal para extinguir as desintelligencias do feudalismo perturbador constante da paz interna dos povos. Seu primo, el-rei D. Manuel, continuou-lhe a obra grandiosa, porém com politica e astucia e não com sangue e cadaveres, attitude esta que os golpes fundos e radicaes do seu illustre predecessôr lhe permettiam tomar.

Um tanto injusta a Historia, designa D. Manuel simplesmente como soberano venturoso. D. Manuel foi feliz pelo acaso de successão, pelos homens que encontrou e por essa serie d’epopeias grandiosas, obliteradas depois pela voracidade do ganho; mas foi grande pela sua politica de ferro, pelo seu espirito conciliador e pela attenção que, não obstante a influencia das preciosidades da India, sempre dispensou ao bem estar do continente: bastando para lhe dar jus á gloria de estadista a diplomacia com que soube tratar a visinha Hespanha.

Perdidas as esperanças de cingir a corôa de toda a peninsula, em vista do fallecimento da rainha D. Izabel, viuva do principe D. Affonso e herdeiro dos reis catholicos (24 d’agosto de 1498),[27] com quem se havia desposado, e do unico fructo do seu matrimonio, o principe D. Miguel da Paz (20 de junho de 1500),[28] o rei portuguez entendeu que a continuação de allianças com a nossa rival no poderio ultramarino era materia do mais alto alcance para a estabilidade das pacificas relações entre os dois paizes.

Tratára elle o casamento do sobrinho predilecto, o duque de Bragança D. Jayme com Leonor de Mendóça, filha do duque de Medina Sidonia no intuito de procrear amizade com o poderoso hespanhol, senhor de quasi toda a Andaluzia, de que era Fronteiro Mór.

Não pensava o rei, nos seus planos de diplomata, que o coração não se molda ao capricho dos politicos e que a desgraçada creança, inteiramente extranha aos tramas das conveniencias sociaes, seria, volvidos poucos annos, victima da justa vingança do marido, offendido na sua honra e no pundonor.

A deploravel catastrophe de 2 de novembro de 1512, em que o treçado do primeiro senhor do reino assassinava a esposa adultera, e as mallogradas pretenções á successão do throno de Castella, pretenções que já tinham sido alimentadas por seu tio D. Affonso V e por seu primo D. João II, foram os unicos desgostos que D. Manuel experimentou nos vinte e seis annos do seu reinado.

De resto a fortuna bafejava o pavilhão das Quinas; Vasco da Gama saiu do Tejo (sabbado 8 de julho de 1497)[29] no intuito de achar o caminho das Indias, dobrando o cabo da Boa Esperança. Na sua viagem descobriu a Terra do Natal, Moçambique, Mombaça e Melinde, cujo rei foi um fiel alliado dos portuguezes. Surgiu finalmente defronte do Calecut, onde a principio o receberam com enthusiasmo, que mais tarde esfriou em vista das intrigas dos mercadores musulmanos, os quaes adivinhavam no altivo estrangeiro a quéda da sua influencia commercial. Abriam-se de par em par as portas da riqueza; D. Manuel podia julgar-se o monarcha mais poderoso e mais rico d’então. Não tardariam as perolas, os rubis, as esmeraldas, a canella, o gengibre e a pimenta, monopolio da corôa.

Não tardariam as victorias de D. Francisco d’Almeida e de Affonso d’Albuquerque. E coberto de louros, incensado em fumo, precedido da força brutal das armas e do genio épico dos grandes capitães, o nome do rei subjugou o oceano e avassallou o Oriente.

Malaca, Ormuz e Gôa, renderam-se ao pulso rijo de Albuquerque. Gôa foi convertida em capital do projectado imperio que o grande capitão, nos seus planos de estadista, pretendeu fundar. Era necessario um cruzamento de raças: casassem os portuguezes com as mulheres da India; alijassem essas ideias puritanas, lembrando-se que toda a humanidade vinha de Adão...

João das Regras, Nun’Alvares e Albuquerque são as figuras mais valiosas do reinado d’Aviz. Um pela sua eloquencia que produziu uma autonomia; outro pela sua candura; e o ultimo pela rijeza do seu pulso de guerreiro e pela fortaleza do seu cerebro de politico.

Os dois primeiros morreram honrados no seu catre de louros. Nun’Alvares, mystico asceta, na solidão de um mosteiro. João das Regras, pae extremoso, no seio da familia. Albuquerque esse viu ao desprender-se do mundo a ingratidão real, remedeada já tarde,[30] e o seu corpo affeito ás luctas em prol da patria, levado aos hombros dos companheiros das suas glorias, com a barba branca, comprida e magestosa como a do Condestavel, é o retrato prophetico do futuro do emporio portuguez, cujas raizes tentára consolidar e que a desenfreada ambição do lucro, a sensualidade do Oriente, em que os soldados eram sultões e as casernas harens, deitaram por terra, como o vento do deserto abate a palmeira verdejante.

Albuquerque foi a personificação da lealdade, e a India nas nossas mãos foi um campo d’aleivosias.[31]

Mancha negra que ennodôa a Historia, o dominio portuguez no Oriente assemelha-se á impudica figura de Leonor Telles. Corrompeu côrte, costumes, homens e crenças. Com o pensamento na riqueza, o sentimento cavalheiresco afastava-se do soldado convertido em mercador. Já não havia essa simplicidade de outras eras. Sedas, joias e alfaias jorravam a olhos vistos, sem que ninguem sentisse que entre a descommunal riqueza se ia lavrando a sentença de morte de uma nação. O sensualismo entorpecia os espiritos, aconselhando os estofos perfumados dos salões com portas de ebano, paredes de damasco e pregaria de ouro á rudeza do marinheiro ou á espada do militar. Riqueza e gozo era o ideal de todos, n’aquelles tempos, cuja apparencia é tão risonha e cujo fundo é tão funebre.

Na metropole, D. Manuel, como feitor n’esta immensa fazenda, via-se assaltado pela multidão de operarios que não pediam trabalho, mas solicitavam mercês. A inveja mordia os feitos dos benemeritos e o rei deixava-se vencer por falsos conselheiros que vindos da India pintavam-lhe com negras côres as obras dos grandes homens. Feliz no poderio e na familia, casado em segundas nupcias com D. Maria de Castella,[32] irmã de sua primeira esposa, pae de numerosa descendencia, um tanto illustre, é certo, mas bem longe de ser um arremedo da de D. João I, o poderoso rajah da Europa, cego por tanto brilho, deu ouvido aos embustes aventureiros, maculando o seu nome na ingratidão para com os servidores leaes.

De novo casára em Alcacer do Sal (30 d’outubro de 1500) e passados dois annos a successão do throno estava assegurada pelo nascimento do principe D. João. Além d’este, oito filhos lhe garantiam a independencia da corôa: D. Izabel, esposa do imperador Carlos V; D. Brites, duqueza de Saboya; D. Luiz, duque de Beja, poeta distincto e discipulo do grande mathematico Pedro Nunes; D. Fernando, duque da Guarda, que casou com D. Guiomar Coutinho, herdeira do conde de Marialva; D. Affonso, que foi cardeal, bispo de varias dioceses e arcebispo de Lisboa; D. Henrique, cardeal, arcebispo e mais tarde rei; D. Duarte, duque de Guimarães, casado com D. Izabel de Bragança, filha do duque D. Jayme e pae de D. Catharina, esposa de seu primo o duque D. João I, d’onde proveio á casa de Bragança o direito de successão por morte do cardeal rei.

Extremoso chefe de familia, sem ter amante nem bastardo, doido pela mulher que foi um anjo do lar, a morte arrebatou-lh’a (7 de março de 1517), volvidos dezesete annos de íntima convivencia.

Estava vago o logar que assegurava a Portugal a amizade de Castella. Cumpria prehenchel-o novamente, e D. Manuel, como homem pratico e politico habilissimo, incumbiu-se d’esta missão. Viuvo e saudoso da esposa que perdêra, o filho do infante D. Fernando, o obscuro duque de Beja, chamado á corôa por um acaso feliz, raro na Historia, o monarcha senhor de meio mundo, o rei de vassallos tão illustres quão sabios e leaes, determina um bello dia abdicar no primogenito e ir-se ao Algarve, como Fronteiro Mór, guerrear os sectarios de Islam.

Porém, o piedoso intento só se realisaria consummado o matrimonio do principe com D. Leonor d’Austria, filha de Joanna a louca e de Filippe I de Castella.

Recusada a proposta de D. João, que se achava embeiçado em amores desiguaes,[33] D. Manuel cumpriu a palavra dada desposando a princeza que destinára ao filho. O consorcio realisou-se no Crato (24 de novembro de 1518).

No contracto lavrado a 16 de julho do mesmo anno ficou tratada a dotação da nova soberana, que entraria na posse da Caza das Rainhas logo que fallecesse D. Leonor de Lencastre, viuva de D. João II e irmã d’el-rei D. Manuel.

Leonor d’Austria tambem tem a fronte aureolada pelos louros do martyrio.

Foi um joguete nas mãos do irmão. Casaram-n’a com um homem edoso, pae de numerosa descendencia; e mais tarde, depois da morte d’esse rei (13 de dezembro de 1521) que a não amava, nem por ella era amado, obrigam-n’a a abandonar a filha idolatrada, a gloriosa infanta D. Maria, a futura protectora das lettras, o penultimo lampejo da Renascença.

A politica endurece o coração dos soberanos. Carlos V queria fisgar Francisco I, mas precisava d’um laço que o prendesse á sua obediencia. Esse laço foi a viuva do rei de Portugal.

Casada com o soberano francez, D. Leonor teve de abandonar a filha, que só viu trinta e quatro annos depois! Se foi cruel o seu martyrio, em compensação, o ente que de longe abençoava, soube exaltar a sua memoria e honrar o nome de quem lhe dera o ser, concorrendo para o engrandecimento do seu paiz. A sciencia d’estes factos seria um lenitivo para a pobre mãe, que, não obstante a distancia, lhe dirigia os passos. No entanto a Providencia destinou-lhe n’este mundo um premio digno dos seus soffrimentos. Aos cincoenta e nove annos de edade (1498-1558)[34] teve a ventura de abraçar, em Badajoz, o enlevo da sua vida, a qual terminou em breve.

Conforme o juramento que os habitantes de Lisboa lhe exigiram á partida,[35] a infanta D. Maria deixou sua mãe nos territorios de Hespanha e regressou á sua patria; porém, Leonor d’Austria tinha os seus dias contados, e falleceu pouco depois, em Talaveruela, aos 25 de fevereiro de 1558.[36]

Os dois thronos em que se assentou foram para esta princeza dois tumulos precoces: um matou-lhe a mocidade algemada á velhice; outro amordaçou-lhe o mais bello predicado do coração da mulher—o amor de mãe.


D. Catharina d’Austria

Fallecido D. Manoel em 1521, tomou as redeas do governo o principe D. João.

Quatro annos depois de subir ao throno, o monarcha portuguez contrahiu nupcias com a princeza Catharina, irmã de sua madrasta e do imperador Carlos V.

Continuava assim a politica do pae, assegurando o poderoso visinho, casado tambem em 1526 com a nossa princeza D. Izabel.

D. João III lidou sinceramente pelo progresso das lettras. É esta uma feição caracteristica da dynastia de Aviz. O seu fundador escreveu o Livro das Horas do Espirito Santo, os Psalmos certos para os finados, o Livro da Montaria e attribue-se-lhe tambem a Côrte Imperial; seus filhos, el-rei D. Duarte o auctor do Leal Conselheiro e da Arte de bem cavalgar em toda a sella; D. Pedro, traductor de Cicero e escriptor das Horas de Confissão e do Livro da virtuosa Bemfeitoria, seguiram-lhe as honradas tradições.

N’este reinado, porém, a litteratura portugueza attingiu o maior brilho; n’elle floresceram João de Barros, Fernão Lopes de Cantanhede, Damião de Goes, o doutor Antonio Ferreira, Diogo Bernardes e André de Rezende; n’elle se levaram a effeito importantes reformas nos estudos, importando-se mestres do estrangeiro para ensinarem na nossa Universidade, transferida de vez para Coimbra.

As descobertas e as conquistas progrediam tambem; chegou-se ao Japão (1542) e entabolaram-se relações com os chinezes, obtendo-se a faculdade de podermos estabelecer uma colonia em Macau.

Na India, D. João de Castro, outra figura respeitavel, tomou a hombros o continuar a obra grandiosa d’Albuquerque. Interrompia o manancial d’iniquidades parecendo animado pelo espirito do grande capitão. Elle e D. Luiz d’Athayde fecham o cyclo dos nossos feitos brilhantes no paiz das especiarias.

A arte tambem teve o seu culto n’esta nova phase da vida nacional. Belem é o monumento que a piedade de D. Manoel levantou em memoria do grande feito de Vasco da Gama. Não obstante ser magestosa, a egreja dos Jeronymos não possue a solemnidade da Batalha; no entanto falla ao coração do patriota como symbolo d’um passado glorioso, que, embora maculado mais tarde, tem uns traços semelhantes á autonomia de 1385.

Aberto o novo periodo das conquistas, Belem converteu-se em pantheon da Casa d’Aviz; ficava mesmo junto da porta do Mar Tenebroso, cujos segredos a audacia do infante D. Henrique, a astucia de D. João II e a actividade de D. Manoel desvendaram para sempre. Os marmores dos seus tumulos são bafejados pela maresia do Tejo, que lhes prende a existencia eterna á vida terrestre. Ali, guardados em sarcophagos cinzelados pela Arte da Renascença, n’uma crypta impregnada de ares salinos, descançam D. Manoel, D. João III, D. Sebastião (?), D. Henrique e todos os principes da familia real.

Hoje Belem parece destinado a mausoléu das grandes glorias do paiz.

Bom é que debaixo do mesmo tecto, n’uma fraternidade que a morte estreita, durmam o somno eterno, reis e vassallos que nas differentes epochas da historia lidaram pelo engrandecimento do torrão que os viu nascer.

Bom é que junto dos ultimos descendentes d’Aviz, raça illustre, filha da vontade popular, levantada pela eloquencia de João das Regras, poetas, cuja musa é o breviario do sacerdocio da Patria; navegadores cuja afoiteza é o testemunho da virilidade d’um povo; historiadores cuja penna justiceira serve de modelo á critica dos vindoiros, se confundam todos em amplo abraço, coroados pelas bençãos do suffragio, iguaes pela realeza do talento que levanta os humildes á altura de semi-deuses. E hoje, que o pensamento estende as suas raizes pelas regiões do Infinito; que a justiça depõe as palmas do martyrio sobre a memoria das victimas do genio, bom é que o patriota ajoelhe em Belem sobre as louzas dos heroes do throno, do talento e da aventura, e, recolhido em si n’uma meditação profunda, contemplando aquella téla sublime, invoque os manes dos que ahi descançam, como os fieis do Christianismo levantam as suas preces aos que adquiriram a Bemaventurança eterna.

Junto de seus maiores, tambem ahi está o principe D. João, filho de D. João III, um desvelado cultor das lettras, vulto illustre em que Camões depoz todas as suas esperanças. Começava a faltar a seiva á grande arvore plantada em 1385; estava fraca e abatida pela ausencia do calor vital, quando os vermes da corrupção lhe tragavam as ultimas raizes. O mallogrado infante casára em Elvas (fins de novembro de 1552)[37] com sua prima D. Joanna, filha do imperador Carlos V; d’este matrimonio nasceu um filho posthumo, D. Sebastião (20 de janeiro de 1554), que subiu ao throno logo depois do fallecimento do avô (Lisboa, 11 de julho de 1577). A regencia do reino ficou entregue a D. Catharina, avó do joven monarcha, que tomou a serio os encargos da realeza. Presidindo ao Conselho d’Estado, a rainha não só recommendava a boa venda da pimenta, mas tambem o augmento do territorio colonial. Angola mereceu-lhe as maiores attenções e as conquistas da India desenvolveram-se com as tomadas de Damão e de Jafanapatão.

Não obstante estes progressos, D. Catharina vivia desgostosa, suspirando o descanço da vida particular. Reuniu côrtes em Lisboa (23 de dezembro de 1562) e ahi entregou o poder a seu cunhado o cardeal D. Henrique. Alcançada a almejada tranquillidade, residiu em varias terras de que era senhora, e entre ellas em Alemquer, cujos habitantes menciona no seu testamento.

Tendo setenta e um annos, terminou a existencia d’esta princeza, que falleceu em Lisboa, aos 12 de fevereiro de 1578. Sepultaram-n’a em Belem. Mezes depois (22 de agosto), Lisboa soluçava a perda do unico penhor da sua independencia. Catharina de Austria succumbiu antes do tragico fim de Alcacerquibir; talvez uma duvida da aventura, uma verde esperança de poetica illusão lhe recolhesse o ultimo suspiro; talvez que moribunda, no seu delirio abençoasse o neto, vendo-o triumphante, implantando a Cruz nas mesquitas de Mahomet, realisando o sonho da Edade Média, desviado da rotina da Renascença. Catholica extreme, a fé, que fortalece os fracos, alental-a-hia na sua duvida sorridente. Deus havia de ajudar o cruzado, cujo escudo era o baluarte do Evangelho! havia de erguer o braço do heroe que fincava as Quinas no territorio do Islam...

Este sonho mystico de Catharina agonisante é o ultimo traço da nossa grandeza épica. Camões tambem o alimentou com a mesma fé e com a mesma pureza de uma alma gigantesca illudida na sua candura, que recebeu a mais cruel das decepções: o desfolhar das suas esperanças e a perda do seu paterno ninho.


(O Interregno dos Filippes)

Com a dynastia d’Aviz, filha do sentimento da independencia que animava um povo já consciente do seu existir, já apegado ao seu lar, unido desde o Minho ao Guadiana por uma palavra divina—PATRIA—o paiz succumbiu em Alcacerquibir. Houveram ensaios para um arremedo d’Aljubarrota, mas já não circulava aquelle sangue generoso e bom, tão forte na Edade Media, como valente e fidalgo no alvorecer da Renascença.

A India inundára-nos de ouro e sugava-nos as forças vitaes. Extenuado por essa amante que nos seduzira, procuravamos revestir-nos com a virilidade de outras eras.

Tudo estava podre. Até os proprios que tinham exaltado a bandeira das Quinas se deixaram arrastar pela corrente da corrupção. Reunidas as côrtes em Lisboa (de junho de 1579), ahi se elegeram quinze cidadãos para que o cardeal-rei escolhesse d’entre elles cinco governadores que indicassem a quem de direito, no futuro, pertencia o throno e que administrassem o reino dada a sua morte.

Realisado o funebre acontecimento (Almeirim, 31 de janeiro de 1580), o Prior do Crato, D. Antonio, bastardo do infante D. Luiz, pretendeu cingir a corôa, allegando um supposto casamento de seu pae com a famosa Violante Gomes; Rainuncio, principe de Parma, filho de D. Maria e neto do infante D. Duarte; Manuel Felisberto, duque de Saboya, filho da infanta D. Brites; Filippe II, filho de D. Isabel; e D. Catharina, duqueza de Bragança, filha do infante D. Duarte, concorreram tambem a disputar o throno.

Até Catharina de Médicis se lembrou de ser rainha de Portugal, dando como rasão uma ideada descendencia d’Affonso III e da condessa Mathilde! No meio dos successivos desastres, por entre tantas vilanias tecidas pelo ouro de Castella, espalhado largamente por D. Christovam de Moura, não faltou esta nota comica. Faltava, porém, o veridictum dos governadores, depositarios da realeza, juizes irrevogaveis que haviam de sentencear a quem pertencia a corôa.

No desempenho d’esta missão partiram para Badajoz, onde a 7 d’agosto de 1580 assignaram um alvará, conferindo a dignidade real a Filippe II.

Note-se, no entanto, que a entrega da Patria ao hespanhol foi recusada pelo Arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Almeida, e por D. João Tello de Menezes. Os outros (D. Francisco de Sá e Menezes, D. João de Mascarenhas—o defensor de Diu!—e Diogo Lopes de Sousa) acolheram-se debaixo do manto castelhano, cuja sombra fortalecia, sem embargo da tranquillidade das delapidadas consciencias.

N’este desabar do edificio, desmantelou-se tambem a Casa das Rainhas; Alemquer serviu de titulo aos Silvas, alcaides-móres de Portalegre.

Achava-se, pois, desfeita a grande obra de Affonso Henriques, consolidada em 1385; e Portugal era uma nacionalidade morta, abatida pela extincção da grande dynastia que levou a sua fama aos confins do mundo. Era uma nau grandiosa, equipada brilhantemente, veloz como o vento e segura como a rocha, que atravessava o oceano em toda a sua vastidão, que sulcava os mares, rasgando-lhe altiva o verde anil.

Uma vez descobriu no horisonte um forte almejado, um cachopo traiçoeiro que lhe parecia abrigo fiel, e, com a audacia que a fortalecia, com a confiança na sua força, com a lembrança do seu valor, inclina o rumo para o precipicio, que julga o digno remate da sua proficua derrota. Acompanham-n’a as alegrias, desfraldam-se alegres em seus mastros os vistosos pavilhões; sonhos dourados adormecem a tripulação, e, ao cabo de longa viagem pela campina maritima, o fado que outrora lhe proporcionou os louros, a arrasta agora para o iman da perdição, para a