Frei Domingos do Amor-Divino anciosamente esperava os óbolos da caridade para repartil-os pelos pobres, no numero dos quaes devia incluir-se a cega designada por D. Maria d’Assumpção.
Chegou o Natal, e o virtuoso carmelita recebeu, de procedencia anonyma, duas cartas contendo dinheiro destinado a enxugar por alguns dias as lagrimas de dois indigentes. Frei Domingos rasgou o primeiro involucro com intima satisfação, que no doce fulgor dos olhos se estava manifestando. O papel que continha a moeda consagrada á beneficencia, trazia esta restricção:—Para uma viuva. Aberto o segundo involtorio, que encerrava um soberano inglez, leu Frei Domingos o seguinte:—Um cego, que deve á Providencia o não ser tambem necessitado, pede que seja entregue a outro cego, mais infeliz do que elle.
Estas palavras commoveram a lagrimas o carmelita, que relanceou ao seu Christo de marfim um olhar afogado em pranto, murmurando ao mesmo tempo:
—Abençoado seja o nome do Senhor, que por tal modo e com tamanhos dons abastece a colheita dos pobres! É ao Céo que eu peço me ensine o trilho por onde possa ir direito á mais necessitada cegueira, e á mais desamparada viuvez.
Ajoelhou, com as mãos postas, e por largo tempo ficou a orar.
Depois sahiu, indagou, examinou e, ao cabo de dois dias de trabalhosas investigações, depositou nas mãos d’um cego e d’uma viuva, que mais carecidos lhe pareceram, o dinheiro da caridade.
Quando recolheu ao cubiculo da rua do Carvalhal, era noite cerrada. Acudiu a recebel-o, com a sua habitual expressão de estima e reconhecimento, uma velhinha que lhe cosinhava a frugal collação e que, se não fôra o amparo de Frei Domingos, teria morrido de fome pouco depois de cahir varado por um pelouro nas linhas do Porto o filho que lhe era esteio.
O carmelita encarou n’ella, viu-a radiosa como sempre, e apostrophou com semblante prazenteiro:
—Alegre a vejo sr.ᵃ Gertrudes, e a Deus agradeço o encontral-a em disposição d’ánimo que favorece o meu designio.
A velhinha quedou se a olhal-o com surpreza; Frei Domingos continuou:
—Que me responderia a boa Gertrudes, se eu houvesse de dizer-lhe: «Precisamos de dar metade do nosso pão, durante alguns dias, a quem mais carece d’elle do que nós?»
Gertrudes achegou-se do carmelita e disse com tanta alegria quanta commoção:
—Olhe que não sabia o que o snr. Frei Domingos queria dizer! Eu feliz vivo, e a minha felicidade chamou-a do Céo para a menos merecedora das creaturas o sr. Frei Domingos. Do pão que recebo e que me aproveita mais do que a riqueza aos ricos, sempre cresce e, se não crescesse, todo o daria para alliviar miserias que, Deus louvado! não conheço.
—Nós somos ricos, sr.ᵃ Gertrudes, nós somos ricos, porque desconhecemos a pobresa. «Mais vale um pequeno boccado de pão sêcco com alegria que uma casa cheia de victimas com pelejas»[12] são palavras santas, que não falham. Esta é a verdadeira riqueza. Tudo o mais é cuidado e inquietação. Façamos pois economia durante alguns dias e, passados elles, verá como havemos de sentir-nos mais contentes. É que realmente estamos esperdiçando, e não é assim que se agrada a Deus. Repartamos, pois, com os pobres, e aproveitemos em vez de esperdiçar.
No dia seguinte, foi Frei Domingos abrir a gaveta depositaria das mealhas que lhe pareciam sobejas ás suas necessidades. Montava o peculio a novecentos e sessenta réis, um thesouro de dois cruzados novos embrulhados em papel branco. Tirou-os da gaveta para o bolso, pôz o chapéo, desceu as escadas e entrou no portal de João Nicolau.
O sogro do bacharel Valladares e D. Maria d’Assumpção receberam Frei Domingos com sincero contentamento, lamentando apenas que tivessem decorrido alguns dias sem que lhe aprouvesse visital-os.
—É que eu queria dar boa conta de mim e dos meus negocios, respondeu o carmelita. Depois receava que a presença d’um intruso fosse de mais n’estas festas que commemoram os grandes acontecimentos do christianismo e servem ainda, e sempre servirão, para estreitar os laços de cada familia reunida no seu lar. N’este quadro de intimas alegrias era de certo importuno um frade velho como a Sé da nossa Braga, perorou, sorrindo Frei Domingos.
—Estou capaz de dizer... pronunciou a medo D. Maria d’Assumpção.
—Pois dize, dize, e com isso responderás aos infundados receios do nosso vizinho, atalhou do lado João Nicolau.
—Visto que me auctorisas, sempre ousarei fazer uma confissão. Pode acreditar o sr. Frei Domingos que tivemos ambos a lembrança de lhe pedir que viesse honrar a nossa modesta consoada. Receamos incommodal-o, e não nos atrevemos...
—Beijo lhes as mãos pela immerecida attenção; confesso-me penhorado como se tivera recebido e acceitado o convite.
Mas por que não ha de vir mais a miude, replicou João Nicolau, por que não ha de, visto que estamos tão perto, vir tomar o chá comnosco? Nem o nosso Eduardo viu ainda o sr. Frei Domingos!
—Infiro d’ahi que tem sido feliz o neto de v. s.ᵃ. Olhe que realmente parlandas de frade não são para se ouvir a pé quedo, e muito menos por gente nova.
E, galhofando sempre, entregou a D. Maria d’Assumpção os novecentos e sessenta réis, que para elle e para a velha Gertrudes eram pecunia sufficiente para o passadio de alguns dias.
João Nicolau não o deixou sahir sem que primeiro aprazasse nova visita. Frei Domingos prometteu voltar em dia determinado, e desempenhou a sua palavra. Á terceira visita encontrou se com Eduardo e lera-lhe nos olhos, sempre banhados em melancholia, as muitas amarguras que faziam noite escura n’aquelle coração de dezesete annos.
O filho do bacharel, por sua parte, esqueceu-se de si mesmo enlevado na suavidade que recendiam as palavras de Frei Domingos. O desaffrontar-se por um momento da cerração que lhe opprimia o peito, foi para Eduardo Valladares consolo que deixou após si gratissimas impressões. Livrára-o a Providencia de lembrar se de que aquelle homem, cuja serenidade d’alma se reflectia no olhar, tinha vestido o habito de frade e poderia ter amortalhado n’elle um coração ferido pelas desgraças da terra. Não lhe lembrou isto, e por tanto não rompeu clamoroso contra a voz da oppressão que diz «Morre, despedaçando-te» ao coração opulento de seiva e esperança. No que pensou foi na serena alegria d’aquella alma, que em vez de se sentir retransida pela nortada do tumulo, já proximo, refloria em amenidades bafejando lenitivos ás pallidas flores d’uma primavera desconfortada. Aquelle homem entremostrou-lhe Deus—o Deus a quem invocavam as doces orações da sua infancia, o Deus que adorava no templo e em toda a parte onde podia vêr o Céo, o Deus que elle chamava quando mais se condensavam as trevas no horizonte da sua mocidade.
Viu-o, examinou-o com olhar perscrutador e disse de si para si:
—Se eu fôsse assim, não era decerto tão desgraçado.
Amiudáram-se as visitas de Frei Domingos. Rodrigues d’Abreu perguntou-lhe d’uma vez se tinha esperança de restituir a um coração de dezesete annos as alegrias proprias da sua edade.
Frei Domingos sorriu placidamente e disse:
—Tenho. A si devo e a Deus o sentir ainda no coração o influxo benefico d’uma esperança: a de procurar a felicidade para quem a não tem.
Eduardo Valladares tinha em 1852 dezesete annos.
Estou a lembrar-me d’isto, e a perceber que uns sujeitos maiores de trinta annos, e umas senhoras que devem á acção do fluido transmutativo o envelhecer com os cabellos pretos, lançam um olhar de desdem para a futil historia do filho do bacharel Valladares.
Para estes corações apodrentados, se é que para taes creaturas o coração é mais alguma cousa do que o centro das funcções sanguineas, o amor dos dezesete annos deve ser uma creancice piegas apenas admissivel na conversação de meninas da mesma edade, que andam delineando os poemas do coração suspensas entre as saudades das bonecas e os receios de não serem convidadas para a valsa que redemoinha na sala.
Não sei agora ao certo que idade tinha Romeu quando levantou olhos para Julieta; do Paulo, de Saint-Pierre, lembro-me que tinha a mesma altura de Virginia; o Simão Botelho, do Amor de perdição, do nosso Alexandre Dumas, vamos encontral-o aos dezeseis annos; o Pedrinho, dos Contos ao luar, de Cesar Machado, é uma creança.
Achei que estes modelos eram bons. Procurei no coração humano, para estudal-a, a fibra menos corroida, e deparou-se-me uma unica—a que resumava a seiva dos dezeseis annos.
Um sujeito de vinte, que andava suspirando no violão serenatas á mulher adorada, e se dizia capaz de comprehender o que no amor póde haver d’ethereo, dias depois de resvalar ao tumulo o anjo querido que elle desposara, garbosamente refreava os galões d’um cavallo comprado com as economias provaveis do primeiro anno de viuvez. O coração dos vinte annos fazia isto, dispendia na farta ração d’um cavallo de raça o que faltara talvez á gentil esposa tão longo tempo requestada.
A viscera amorosa dos cincoenta annos affigurou-se-me gangrenada ao estremo de inspirar terror. A historia do cynismo, que arremessa á face da innocencia a moeda doirada da corrupção, é revoltante para se offerecer a todos os paladares.
Determinei os extremos—os vinte e os cincoenta annos. A estrada interposta a estes dois marcos, recortada de charcos immundos, deve deixar enlodados os pés do que a percorrer com o vagar indispensavel a quem tiver de fazer relatorio da trabalhosa peregrinação.
Não invejo a gloria de certos romancistas victoriados pelas multidões. Só elles sabem o que ha de doloroso em vencer a repugnancia natural que leva o espirito, iriado da luz das suas auroras, a fugir do esterquilinio que vapora exhalações mephiticas. E que improficuo trabalho! A humanidade vê no espelho do romance o que ella mesma tem de hedionda, e não cora nem se rehabilita; passa adeante, deixando ao desfortunoso trabalhador a consolação de labutar noite e dia para não morrer de fome.
Não serei eu que vá mergulhar nas trevas que ennoitecem os hypogeus sociaes para dizer á humanidade: «Aqui estão as tuas nodoas, lodo; aqui está a tua negrura, sombra!»
No mais profundo antro sempre entra um raio de sol a cujo esplendor scintillam as concreções vitreas da abobada. Em vez de medir a extensão do antro, quero sentar-me á entrada, onde chegue a luz, e onde possa vêr o cristal das stalactites rutilar em formosas cambiantes.
Poderão dizer: A humanidade não é só isso, a humanidade não é apenas o cristal que se doira. Certo é. Mas a humanidade tambem não é só o que vós pintaes, ó pintores de quadros negros; a humanidade não é só o cynismo, a dobrez, e o lodo.
E eu entrei no antro escuro da humanidade, e tive medo das sombras que se condensavam ao fundo. Parei. O sol que tremeluzia nos cristaes da rocha, era limpido e formoso. Deslumbrou-me. Não arrisquei mais um passo; quedei-me a contemplal-o.
Coração dos dezeseis annos, não és tu puro como os relevos crystallinos que resaltam do tecto anfractuoso d’uma gruta?
Os que já se internaram na escuridade, os que perderam a memoria com o coração e com a consciencia, esses, cadaveres condemnados ao supplicio da vida, já não comprehendem o que seja o estremecer das rosas no roseiral ao bafejo da viração matutina.
Uma coisa que sobremodo me admira é que os rapazes de hoje suffoquem a voz do coração, que está modulando o poema dos vinte annos, para raciocinarem friamente, sentados em ruinas como Volney, até chegarem ao scepticismo, á duvida, ao nada; até murmurarem com Voltaire na satira a Luiz XIV:
Quem é que aos vinte annos não vae depôr a sua mocidade, como novello de espuma, na mão rosada d’uma mulher, que a pode desfazer, comprimindo os dedos, ou que tem o capricho de a fazer brilhar com as esplendidas fulgurações de um cristal, se lhe deu um raio d’amor?
Creio que todos. Os que não fizerem isto são anomalias. Deus me livre de homens que não teem de homens nem o coração.
O amor é o sol e eu sou como todos os fructos verdes: preciso de sol para amadurecer.
É por isso que leio e releio, sem me cansar, o Raphael e a Graziella, de Lamartine; a Chave do enygma, de Castilho; o Livro d’Elisa, de João de Lemos; o Paulo e Virginia, de Saint-Pierre; os Idyllios da rua Plumet, dos Miseraveis; a Menina dos rouxinoes, das Viagens, de Garrett; o Thomas dos passarinhos, de Rodrigo Paganino, e muitos outros poemas de amor que consolam a alma, e que se nos dão o seu tanto de tristeza, é uma tristeza tão suave, que chega a ser deliciosa. Estes livros, que são balsamo e crença, quero lel-os e compraria a trôco da vida a gloria de os escrever.
Namora-me esta litteratura que delicía a alma. Ha livros que deixam remorsos de se haverem lido. Esses não os quero eu. Para que hei de sentir ferida a consciencia nos poucos momentos que destinava para descanço do espirito? Livros dos que retalham o coração lê-os a gente por ahi nos passeios e nas praças publicas a toda a hora do dia; são uns certos homens que encadernaram a negrura da alma em pergaminhos de illicita riqueza, e certas mulheres que escondem a deshonra em brochuras de velludo.
Sabe-lhes a gente da vida e anda cheia d’aquellas historias vivas, que se abrem á luz do sol, para que elle bata em cheio no escandalo, e o mostre á claridade do dia. Quando o espirito precisa de um momento de tranquillidade para se desanojar d’estas e quejandas leituras sociaes, devem pôr se de parte os livros igualmente desagradaveis.
Os contos, ainda que se perfumem na doce poesia da infancia, contes de fées ou contes bleus, como dizem os francezes, embriagam-me o espirito como o suspirar longinquo de um piano n’uma noite de luar. A historia licenciosa, conte gras, repugna-me, aborrece-me. A litteratura deve ter um não sei que de ethereo irmão da inspiração. Tudo o que não fôr assim, é verdadeiramente terreno e vulgar.
O homem que entra em casa com um livro de pessima doutrina, tem o cuidado de escondel-o como a um frasco de acido prussico, se occultasse o proposito de se suicidar. Esconde o livro como esconderia o veneno: para dissimular a sua vergonha e o segredo humilhante da propria fraqueza.
A sua mãe, alma toda amor e toda luz, que lhe ensinara a deletrear nos livros santos, a ella, coração de ouro, haveria de dizer, se uma imprevista circumstancia descobrisse a licenciosa brochura: «Perdôa-me; bem sei que não foi para isto que me ensinaste a ler.»
Vae longa a dissertação. Cumpre pôr ponto final. Dissertation, ennui; sirva para alguma coisa o dito de Bastiat.
Retrogrademos.
Maria Luiza desceu a montanha do Bom Jesus do Monte apoiada no braço da outra menina sua irmã.
Quando vinham encosta abaixo havia na floresta, através da qual se viam scintillar as chammas do occidente, a doçura inexplicavel com que o dia desliza ao abysmo da eternidade...
A viuva Machado revelava certa inquietação—talvez prophecia de coração materno—pelos symptomas de repentino soffrimento claramente desenhados na face pallida da filha.
João Nicolau animava-a com palavras banaes, attribuindo a excitação nervosa um incommodo que, a seu vêr, não podia ter outras consequencias além d’um ligeiro abatimento.
Maria Luiza procurava sorrir para dar alento aos dois mais desconfortados corações—o de sua mãe e o de Eduardo—mas o sorriso desabrochava triste e de pressa morria á flôr dos labios.
D. Maria d’Assumpção vinha suspeitosa e concentrada. Adivinhava-lhe o coração tudo quanto se passara na alameda da Mãe d’Agua. Estava-lhe dizendo uma voz interior por que abysmos tinham resvalado, n’um momento de commum desespêro, aquellas duas amorosissimas almas.
Eduardo Valladares vinha ao lado das duas irmãs Machados. Que dolorosa ancia lhe comprimia o peito adivinha-a o leitor, se é que alguma vez se sentiu avergado ao peso da sua cruz.
No sopé da montanha, antes de transporem o portico de cantaria, curvou-se Maria Luiza para colhêr uma flôr silvestre, que se debruçava sobre ervagens verdes. A alguns passos de distancia ficava a capella do Horto, que representa Jesus em Gethsemani, quando desce o anjo a offerecer o calix da amargura. Maria Luiza relanceou os olhos á inscripção latina e murmurou:
—Deve ser triste a legenda d’esta capella...
—«Agonisante, orava profundamente,» traduziu Eduardo Valladares, deixando ver lagrimas que de subito lhe embaciaram o olhar.
—Decora-a, peço-t’o eu, e guarda esta flôr com a perpetua recordação do meu pedido.
—Que dizes?...
—Que não esqueças aquella legenda, Eduardo.
Aproximavam-se João Nicolau, D. Maria d’Assumpção e a viuva Machado.
Ficou interrompido o dialogo apenas escutado pela melancolica Rosinha, que sentiu o perpassar d’uma nuvem que a cegara. Eram lagrimas... Maria Luiza empallideceu até á lividez do cadaver e, quando lhe perguntaram se se sentia recobrada de forças, respondeu affirmativamente, e deixou esvoaçar nos labios o mesmo sorriso breve e melancholico.
Pelo caminho, veio João Nicolau galhofando a proposito de quanto lhe lembrava com o piedoso intuito de serenar a inquietação da viuva Machado e de distrahir Maria Luiza. Não ousamos asseverar se era escutado; o certo é que vinha fallando.
—Dia de Reis! disse elle depois d’um momento de silencio. Este dia é d’alegres recordações para mim. Era eu solteiro. Vai isto ha um bom par d’annos, e estou agora a vêr tudo como se se passasse hoje! Tinhamos sido convidados, alguns rapazes de Braga, para jantar em Guimarães n’este dia. Alegremente cavalgamos e seguimos jornada com o enthusiasmo expansivo dos vinte annos. Foi opiparo o banquete e divertidissima a odysséa. Ao fim da tarde, batemos os cavallos para Braga. Era já noite quando chegamos aos Quatro irmãos, um logar historico que fica ao sopé da Falpêrra. É verdade! Nunca ouviram falar da lenda dos Quatro irmãos?
—Sabes lá se a gente está de paciencia para te ouvir? respondeu D. Maria d’Assumpção, que de sobra conhecia quanto o marido vinha sendo incómmodo n’aquelle momento.
—Estejam que não estejam. Eu é que sempre a vou contar, replicou João Nicolau insistindo no proposito de distrahir os companheiros. Diz-se que um parocho da freguezia proxima ao logar dos Quatro irmãos vivia em companhia d’uma sobrinha, rapariga de formosura capaz de trazer alvoroçados todos os pintalegretes montezinhos d’esse tempo. O caso é que o abbade precisou de sair da residencia por alguns dias, e levou uma noite inteira a fazer eleição de casa onde, com mais socego do seu espirito, poderia deixar em deposito a donairosa sobrinha. Lembrou se d’uma viuva do logar, mulher idosa e d’exemplares costumes. Se esta lembrança foi tentação do demonio ou não, dir-m’o-hão depois que souberem que a pobre mulher tinha quatro filhos, quatro rapagões da boa raça minhota. Não sem difficuldade acceitou a viuva o encargo, depois de muito instada. Entrou a rapariga na casa da mulher escolhida para depositaria do thesouro querido do abbade e logo os mocetões começaram a requestal-a porfiadamente. Sempre ouvi dizer que «amigos, amigos, negocios á parte». Cahiu de chofre o pomo da discordia entre os quatro filhos da viuva. Desvairou-os o ciume. Reptaram-se. Como valentões que eram, não se recusaram o cartel. Pouco depois, zuniam os varapaus fratricidas a certa distancia do tecto commum. Trez dos contendores cahiram exanimes; e o outro ficou gravemente ferido. O abbade regressava n’aquelle dia e passara ali. Estava moribundo, no logar da lucta, o que sobrevivera, mas teve ainda voz para contar ao velho sacerdote a lamentosa façanha. Depois debateu-se nas vascas d’afflictiva morte, e expirou. O povo, quando o successo se espalhou, negou aos quatro irmãos sepultura em sagrado. Enterrou-os ao sopé da Falpêrra, no mesmo logar, e levantou sobre as vallas quatro pedras ainda hoje pregoeiras da tradição. Ora aqui teem a historia. Não acha bonita? perorou João Nicolau voltado á viuva Machado.
—É interessante... Não sabia a lenda...
—Mas eu trazia isto a proposito do jantar de Guimarães... O Falcão Osorio, que deve estar velho como eu, cavalgava na vanguarda. Ao chegar aos Quatro irmãos susteve o cavallo e veio, sobresaltado, segredar-nos que tinha visto umas sombras, as quaes sombras lhe pareceram bandidos. Não pensamos se a apprehensão era sensata. Acautelamo-nos subitamente para a defensiva e mettemos a passo dando-nos ares de valorosos cavalleiros. A Falpêrra d’aquelles tempos era covil de salteadores; o coração, a julgar por mim, batia-nos desordenadamente. Ainda a julgar por mim, posso dizer que era... de medo. Mas ó soprema irrisão que o destino nos preparára, nivelando-nos com o cavalleiro de Mancha ao esgrimir contra os moinhos! Os bandidos... eram arvores!
D. Maria d’Assumpção, ouvindo agora a centessima edição d’este conto, sorriu ainda pela centessima vez. A viuva Machado simulou ter achado graça; Eduardo e as duas meninas, se é que tinham ouvido, não sorriram.
João Nicolau fez reparo n’isto e apostrophou, dirigindo-se aos tres:
—Olhem que parecem uns velhos carrancudos! A menina Maria Luiza, porque os nervos se lhe desafinaram, imagina-se em artigos de morte. A menina Rosa vai silenciosa por não ver alegre a irmã, e o meu Eduardo, ao lembrar-se de que terminam hoje as férias, perdeu a voz!...
—Como são muitos os divertimentos que elle tem em tempo de férias!... objectou D. Maria d’Assumpção.
João Nicolau não esperava o remoque e replicou meio irritado:
—Tem os que quer ter.
—Não vale a pena agastares-te. O defeito, já t’o tenho dito, é de todos os velhos, e por isso é de crer que tambem seja meu. A gente, quando é velha, desassisadamente teima em moldar a vontade das pessoas novas, que nos cercam, pela nossa, e não nos lembramos de que já não ha para nós novidade nem surpresa. Lembro-me agora só d’uma excepção: a da mãe d’estas meninas, que apesar de estar hontem indisposta, não se recusou a dar-nos hoje o prazer de nos acompanhar. Isto é que é ser condescendente.
—É verdade, acrescentou por delicadesa João Nicolau.
—Que será da velhice dos rapazes de hoje, tornou D. Maria d’Assumpção relanceando um olhar de benevolencia a Eduardo e a Maria Luiza, se se não divertirem? Nem sequer terão para contar aos contemporaneos o caso... de haverem tomado arvores por bandidos.
João Nicolau sorriu, porque D. Maria d’Assumpção lhe bateu amigavelmente no hombro.
Ao despedirem-se as duas familias, Maria Luiza segredou a Eduardo, estendendo-lhe a mão convulsa e ardente:
—Eu sinto-me tão triste, que só o teu amor me póde dar coragem. Lembra-te de mim, e sê forte.
Foi profunda a prostração que sopitou Maria Luiza durante a noite. Ao entreluzir da manhã, sobreveio certa agitação febril.
Chamado o facultativo, absteve-se de diagnosticar. Escrupulosamente inquiriu porém se a doente tinha revelado soffrimento anterior ou se havia experimentado uma sensação violenta que provocasse excitação do systema nervoso.
A viuva Machado respondeu negativamente e pediu ao facultativo, com os olhos banhados em lagrimas, que lhe não occultasse a verdade. Serenou-a o medico dizendo que os temperamentos excessivamente nervosos tinham caprichos especiaes que muitas vezes ludibriavam a medicina e que podia bem ser que a febre desapparecesse depois d’um breve periodo de intensidade.
A outra hypothese occultou-a elle para não ferir o coração materno todo receios e afflicção: vinha a ser que podia a febre prolongar-se, e tomar o caracter typhoide.
Trez dias depois, realisava-se a fatal hypothese. Sobreveiu o delirio e Maria Luiza balbuciava palavras sem nexo:
—Impossivel... Disseste que chorava... Na capella do Horto... Não sentia as lagrimas...
Outras vezes curvava-se a melancholica Rosinha sobre o leito e recolhia este murmurio:
—O sol por entre as arvores... Sempre impossivel... Uma tristeza immensa. Emilia... Deus...
A doze de janeiro escrevia Rosinha a Eduardo Valladares estas palavras:
«Hontem á noite delirou e tornou a fallar da capella do Horto e do sol que scintillava através das arvores. Felizmente ainda não pronunciou o seu nome. Não desespere, que eu ainda não desesperei tambem, e peça a Deus por ella e por nós.»
Foram decorrendo os dias e nos ultimos do mez raiou um vislumbre d’esperança.
Tendo passado a noite tranquilla, perguntou Maria Luiza, de madrugada, á irmã, a que horas tinham vindo na vespera do Bom Jesus.
Rosinha respondeu, reprimindo impetos d’alegria:
—Viemos á noitinha, não te lembras?
—Não me lembrava, disse a doente. O que sei é que foi hontem. Foi tão comprida esta noite!
Quando veiu o medico, jubilou com a boa nova da doente ter dado accordo de si e perguntado a que horas vieram do Bom Jesus, suppondo que tinham lá estado no dia antecedente.
—Ella tem razão, disse o doutor. Desde que veio de lá não tem vivido... Todavia é uma grande esperança.
No dia seguinte, a viuva Machado e Rosinha choraram d’alegria ao ouvir este prognostico do facultativo:
—Creio que posso dizer que está salva, apesar de ter ainda doença para longo tempo. Cumpre haver o maximo cuidado no tratamento. Não lhe dissipem sobretudo o engano a respeito do dia em que esteve no Bom Jesus.
Momentos depois recebia Eduardo Valladares as seguintes linhas:
«Diz o medico que está salva. Agradeçamos a Deus, meu amigo».
Estendeu-se pelo mez de fevereiro a longa convalescença de Maria Luiza. Eduardo Valladares recebia todos os dias palavras da mão de Rosinha convidando-o a confiar da misericordia de Deus a solução d’uma crise que Elle visivelmente favorecia com as melhoras de sua irmã.
O filho do bacharel Valladares lia as cartas e redigia sobre as paginas d’um livro intimo as longas meditações das noites de insomnia:
«Vão engrinaldar-se de flôres as arvores do valle e tapetar-se de verduras os declives dos outeiros. Só a minha primavera não chega, Senhor. Só não voltam com as andorinhas as minhas esperanças de um dia. Embora. Deixaste que o anjo ficasse ainda na terra, e deixa tambem que se abrandem as angustias que não merece. Eu creio em ti, Senhor, mas choro nas trevas da minha noite, como tu choraste na cruz. Eras Deus e foste homem. Bem sabes o que é soffrer e chorar. Não me exaspero nem te maldigo. Tu eras filho do Eterno e soffreste; tu eras Deus e choraste lagrimas de sangue. Como ha de o homem, cuja vida custa dores, eximir-se ao pêso da sua cruz, se tu vergaste sob o madeiro? como não ha de chorar, se os tens olhos orvalharam o sudario da piedosa mulher?
«Perdoa-me, se choro, Senhor Deus de misericordia.
«Agonisante, orava profundamente», Factus in agonia prolixius orabat, dizia a inscripção da capella do Horto. E pediste-me tu, anjo e martyr, que entregasse á memoria o verbo das Escripturas!
«Querias dizer-me que me abraçasse á cruz nas horas de tribulação da minha alma, ou significavas que o teu espirito olhava para Deus na lenta agonia do teu supplicio?
«Era um incentivo ou um exemplo o que me apontavas?
«Se era incentivo, sabe que a minha alma só adormece quando sobe ás alturas, embalada na religião de meus pais. Se era exemplo, repetir-te-hei que comprehendo a extensão do teu soffrimento, que te vejo sempre ajoelhada deante do teu crucifixo e que abraçaria a tua fé, balsamo para todas as chagas, se desde o berço não houvesse apprendido a balbuciar o nome de Deus.
«Choro, e por me vêres lacrimoso não acredites na minha descrença.
«Devo dizer-te que me não abandona a fé.
«Só a Deus peço que enxugue as lagrimas dos teus olhos, que restitua ao teu coração as alegrias que eram d’elle. Este é o fito da minha esperança, o alvo da minha fé immensa.
«Entrou commigo o remorso de te haver amado. Fui injusto quando fiz estalar sobre a tua cabeça a tempestade das minhas desventuras. Choro a minha culpa, a minha injustiça, e peço a Deus que não complete a obra da tua abnegação.
«Levantas-te do leito quando as flores se levantam no pendor da serra. Põe os olhos no Céo, que ainda lá encontrarás a estrella confidente das serenas alegrias da tua infancia. Desvia-os da terra para me não vêres chorar. Não choro de desespero; choro porque tu choraste. As orações d’alguem, de minha mãe talvez, trouxeram do Céo balsamo para a minha alma. Se Frei Domingos soubesse das minhas amarguras, acreditaria que tinha orado por mim.
«E amo-te muito, mas porque te amo, Maria, não quero que os teus olhos chorem as minhas lagrimas. Que te esqueças de mim ou que succumbas, este é o meu pedir. E não ha impiedade na minha súpplica. Morrer não é soffrer, é renascer. Eu é que preciso de viver para chorar. Renasce tu para as auroras da tua patria ou foge dos espinhaes do meu caminho que rasgariam de certo as tuas azas. Como havias de restituil-as depois ao Senhor que t’as deu?»
Uma noite, estava Eduardo Valladares escrevendo no seu livro intimo, quando sentiu alvoroço na sala proxima. Acudiu a saber o que era.
Frei Domingos, que se não tinha ainda retirado, approximou-se e disse-lhe:
—Animo, filho. Espero que pedirá ao Céo a coragem que precisa para lêr...
E apresentou-lhe um telegramma, que João Nicolau recebera do Porto. O telegramma dizia:
«Morreu repentinamente Sebastião Valladares. A viuva pede providencias com a menor demora possivel».
Eduardo rompeu em afflictivo chôro. Frei Domingos encostou ao seu peito a cabeça do orphão e afastou-o da sala onde D. Maria d’Assumpção e João Nicolau choravam.
Ao romper da manhã vinham em caminho do Porto avô e neto, em caleça alugada expressamente.
É breve a historia do passamento do bacharel. Sahiu do escriptorio, onde estava trabalhando, estremamente anciado. D. Adozinda acudiu sobresaltada ao chamamento de um escrevente. Sebastião Valladares inclinou a cabeça sobre o hombro da esposa, e morreu. Disseram os medicos que tinha succumbido a uma lesão do coração. O que os medicos disseram pouco faz ao nosso proposito.
Dias depois do funeral, annunciou-se leilão da modesta mobilia e, concluido isto, voltou João Nicolau a Braga, levando em sua companhia o neto e a filha, cobertos do mesmo luto.
O bacharel Valladares, momentos antes de morrer, estava escrevendo ao filho um carta que deixou incompleta.
Os mais significativos periodos d’essa carta diziam assim:
«Faze por ser humilde, e sujeita-te respeitoso aos conselhos das pessoas que t’os podem dar, nomeadamente á vontade de teu avô, em quem eu vejo, além d’um dedicado amigo, o pae de tua mãe. Não ponhas os olhos n’umas alturas em que o commum da humanidade fita a vista, se queres ser feliz. Se eu te posso servir d’espelho em alguma coisa, é no que toca a desambição e a serenidade d’espirito e de consciencia. Vivo tranquillo para os affectos da minha casa; se tu estivesses n’esta hora ao pé de mim e de tua mãe, julgar-me-hia em plena posse da verdadeira felicidade.
«Quando saio a nossa porta, sinto-me triste. É que entro no mundo, não no mundo em que vivo, mas no mundo em que vivem todos. Os olhares dos que vão passando, não me offendem por desdenhosos, mas incommodam-me porque não são doces e sinceros como os de tua mãe. Realmente não me sinto bem no meio da turbamulta.»
«A idéa da morte, se me entristece, é porque me faz lembrar que tenho de separar-me de tua mãe para sempre...»
N’este relanço levantara se anciado o bacharel para não mais se sentar á sua banca. Morreu como viveu: serenamente. Um momento d’agonia não se lhe afigurou decerto o resvalar para o tumulo, e não teve por isso tempo de sentir estalar os élos que o prendiam á felicidade. Encostou ao seio amigo a cabeça para descansar. Queria talvez adormecer... Cerrou os olhos e não accordou.
Rezaram-se os responsos de sepultura na egreja dos extinctos carmelitas do Porto. Antes de chegar o feretro, appareceu na sacristia um sacerdote que entrou, curvado de velhice, relanceando um olhar saudoso para um e outro lado.
Era Frei Domingos do Amor-Divino.
Durante os officios, foi notorio que o mais edoso dos padres não podia reprimir as lagrimas. Os raros amigos de Sebastião Valladares affirmavam não o ter visto uma unica vez em casa do bacharel. Correu porém voz de ser carmelita, e logo se explicou a razão de suas copiosas lagrimas, lançando-as á conta de saudades do hábito, evocadas pela entrada n’um templo da sua ordem.
Frei Domingos, depois de terminados os responsos, solicitou licença do sacristão para vêr o cadaver. Largo tempo o esteve contemplando com os olhos afogados, em lagrimas.
—Dizem que era um homem honrado, apostrophou o sacristão.
—Oiço dizer que sim, respondeu Frei Domingos. E, vendo-o, acredito que o foi.
—Pois... não eram amigos?
—Nunca lhe falei, nem sequer o vi.
—Deixou-lhe talvez alguma coisa? replicou o sacristão affeito a vêr copiosamente chorar nos enterros as pessoas contempladas com verbas testamentárias.
—Deixou-me... sincera pena de o não haver conhecido, respondeu Frei Domingos agradecendo e retirando-se.
Ás seis horas da manhã, entrava Frei Domingos na diligencia de Braga. Ninguem no Porto soube como se chamava e d’onde era. Os amigos do bacharel noticiaram a João Nicolau e a Eduardo Valladares que, na egreja, um dos sacerdotes, frade carmelita segundo se disse, estivera chorando a ponto da commoção lhe embargar a voz. Outrosim perguntaram se este frade era relação da casa, parente ou amigo. Eduardo Valladares deteve-se um momento a consultar a memoria e respondeu negativamente. João Nicolau, como porém tivesse ouvido falar em frade carmelita, sentiu se impressionado, e sem pensar que fosse elle, lembrou-se n’aquelle momento de Frei Domingos do Amor-Divino.
Quando o velho egresso voltou ao seu cubiculo da rua do Carvalhal, a trémula Gertrudes sahiu a recebel-o mais jubilosa que nunca.
—Ó sr. Frei Domingos, exclamou ella, como me disse que tinha de fazer jornada, sempre estava inquieta. V. s.ᵃ já não está muito para andar pelos caminhos!
—Ó boa mulher! com o auxilio de Deus vae-se bem para toda a parte. Mal sabe a sr.ᵃ Gertrudes d’onde eu venho. Pois oiça lá: fui ao Porto.
—Ao Porto! acudiu admirada a velhinha.
—Ao Porto, sim. E olhe que me não succedeu mal nenhum. Jornadeei em diligencia pela primeira vez na minha vida. E sempre lhe direi que isto de diligencias não foi a peor cousa que o progresso nos trouxe.
—Oura-se muito, pois não oura?
—Não se oura nada, mulher. A gente acostuma-se aos solavancos, e depois vae menos mal. Comparado isto com as jornadas a cavallo, d’outros tempos!
—Acho que ha lá por fora muitas coisas novas. Eu é que não tenho visto nada, nem quero vêr. «Boa romaria faz quem em sua casa vive em paz.»
—Assim é, mulher, mas ha casos que podem mais do que as leis. Tambem me chegou a minha vez d’andar em diligencia.
O medico assistente de Maria Luiza dera-lhe licença de sahir pela primeira vez, justamente no dia em que se enterrava no Porto o bacharel Valladares.
Era um formoso dia dos ultimos de fevereiro.
—Ora vá, disse-lhe o facultativo. Não tardam a desabrochar as flores; v. ex.ᵃ deve apparecer tambem. Tome porém cuidado com o passeio. Não vá longe.
—É que realmente não sei para que lado hei de ir.
—Convem que se não exponha. Vá para o lado de Infias, mas não se demore muito.
Quando o facultativo sahiu, Maria Luiza sentou-se a escrever a Eduardo Valladares as seguintes linhas:
«Tenho licença para sahir hoje pela primeira vez. Emfim! Vou com minha mãe e com Rosinha. Ao meio dia apparece, como quem anda passeando, perto da quinta de Infias. Não faltes.»
Maria Luiza chamou a irmã para fazer chegar o bilhete ao seu destino. Rosinha ficou inquieta. Tinha occultado a morte do bacharel e a sahida de Eduardo para o Porto. Revelar a verdade era alancear o coração de Maria Luiza; continuar a occultal-a seria o mesmo que não explicar a falta de Eduardo no passeio a Infias.
—Está decerto agora nas aulas e talvez o não possa receber...
—Não me disseste outro dia que elle tinha recebido bilhetes teus no Seminario?
—Sim... disse. Mas se estiver nas aulas... Eu vou mandal-o... oxalá que ainda vá a tempo.
Quando sahiram, Rosinha levava o coração opprimido.
—Vaes triste? notou Maria Luiza.
—Não vou; ir calada não é ir triste.
—Tens razão.
Chegaram a Infias.
O coração de Maria Luiza pulsava vertiginosamente—d’esperança; o de Rosinha batia tambem agitado—d’afflicção.
A estrada estava deserta. Decorreram minutos. Ninguem. Maria Luiza relanceou á irmã um olhar de eloquente interrogação. Rosinha simulou não dar tento, e fitou os olhos n’um ponto que ella nem sequer via...
Decorreram mais alguns minutos de completo silencio.
—Não vaes boa? perguntou a viuva Machado a Maria Luiza, inquieta pela vêr extremamente pallida.
—Vou boa, minha mãe. Não é nada...
—Talvez seja longo o passeio. Voltemos, se querem.
—Não, vamos até alli mais adeante, e voltemos depois, respondeu Maria Luiza.
Era a ultima esperança.
Fôram um pouco mais adeante. Não appareceu ninguem. Maria Luiza voltou-se e disse abruptamente:
—Vamos embora; agora é que me não sinto boa.
E depois, segredando á irmã:
—Não veiu!
Então Rosinha achou que devia dizer meia verdade. Contou que Eduardo Valladares tinha ido ao Porto por motivo imprevisto.
Maria Luiza sorriu doloridamente e disse:
—É possivel que fosse ao Porto, mas é impossivel que não estivesse hoje aqui se já me não tivesse esquecido.
E, tão agitada como incredula, repelliu todos os protestos que lhe fazia a irmã de haver dito a verdade quanto á ida ao Porto.
—Fez-te mal sahir! disse a viuva Machado com o coração opprimido por um torturante presentimento.
—Não é nada, minha mãe; socegue. Vêl-a inquieta, é que me incommoda.
Maria Luiza, a mariposa alegre d’outros tempos, alma creada para as flores e para o sol, era, bem o sabeis, uma d’essas creaturas que se deixam ir embaladas no ambiente da felicidade e que um dia, ao encontrarem a chamma que as namora, ou a atravessam impunemente ou crestam n’ella as azas iriadas. São estas frageis creaturas as que mais podem luctar com as tempestades da vida, mas se uma vez succumbem, deixam-se morrer lentamente, abraçadas, permittam-me que diga assim, ao pensamento que lhes envenena o coração.
Maria Luiza julgou-se esquecida pelo homem a quem amava. Esta ingratidão suffocava-a. «Por que não iria elle, perguntava a si mesma na sua afflicção, porque não iria vêr-me, depois de me não ter visto ha tanto tempo? E os meus pensamentos todos eram seus! Se sonhava... via-o no meu sonho. Dizia-me o coração que não morria, porque o amava... E elle não foi!»...
Á noite, queixou-se de extrema inquietação. Chamou-se á pressa o facultativo.
Antes d’elle chegar, Maria Luiza levantou-se de golpe, disse que uma nuvem vermelha lhe tirava a vista, e bolçou sangue.
Moralmente, Rosinha soffrera tanto ou mais que Maria Luiza.
O seu amor, a sua dedicação pela irmã estremecida levou-a a occultar a morte do bacharel Valladares.
—Sabendo-o, soffrerá metade das dores que dilaceram o coração luctuoso de Eduardo. Peorará decerto, pensara Rosinha nos extremos do seu carinho.
Depois, acercou-se de sua mãe e disse:
—Não lhe parece que será melhor não dizermos que morreu o genro do João Nicolau?
—Sim... talvez.
—É sempre desagradavel a noticia d’um fallecimento. Agora, porém, tão impressionavel a tornou a doença, que parece-me que seria melhor occultarmos...
—Pois sim, não digamos nada.
Quando Maria Luiza lhe entregou o bilhete, Rosinha ficou sobresaltada. Exprimiu o receio de Eduardo Valladares o não receber a tempo, para ir dispondo o ánimo da irmã. Não previu as tristes consequencias que vieram surprehendel-a. Suppoz que o adeantado da hora seria razão sufficiente para explicar a ausencia de Eduardo, e que Maria Luiza diria de si para comsigo «não pôde vir» em vez de «não quiz vir.»
Para acalmar a irmã, resolveu-se, como vimos, a dizer ao menos meia verdade.
Não foi acreditada.
É inexplicavel o que em algumas horas soffreu a boa alma, toda dúvida e receio, toda amor e afflicção...
Em casa, no regresso d’aquelle triste passeio, Rosinha, muito atribulada, disse á irmã:
—Socega, por Deus. Amanhã te explicarei toda a verdade.
Maria Luiza olhou-a com fixidez, e sorriu um breve sorriso que tinha tanto de tristeza como de incredulidade. E continuou a luctar com a mesma ancia, cada vez maior.
O facultativo ficou surprehendido do estado em que veiu encontrar Maria Luiza e não pôde deixar de o attribuir a hemorrhagia da membrana mucosa pulmonar. A hemoptyse estava manifesta. O sangue era acompanhado de tosse violenta e no meio da ancia, que a suffocava, queixava-se Maria Luiza de intenso calor sobre o peito.
Quando a doente socegou algum tanto, o facultativo disse em particular á viuva Machado:
—Sua filha, comquanto fôsse clara certa predisposição que infundia receio, enganou-me, e eu vou dizer em que. Fiei muito d’uma convalescença remançosa, que ella devia ter e que, rigorosamente observada, seria barreira á obra da destruição. N’isto foi que me enganei. Sei que estou dilacerando o coração da mãe, mas devo usar d’esta franqueza para com a enfermeira. Tiremol-a d’aqui, quanto antes, o mais breve possivel. Para que não vae v. ex.ᵃ para a quinta do Prado? Está á porta a primavera; appellemos para ella.
—Para a quinta do Prado... Mas para lá...
—Diz v. ex.ᵃ?...
—Ha o inconveniente de a approximarmos do tumulo da irmã, por quem morria d’amores...
—Ah! Fez v. ex.ᵃ bem em me informar d’essa circumstancia, que eu desconhecia. Não sabia onde repousava a filha de v. ex.ᵃ; sabia apenas que tinha succumbido a uma tisica pulmonar. É pois conveniente escolhermos outro local.
—Lembro-me do Bom Jesus, que é o seu passeio favorito. Podiamos requerer aposento na Casa da mesa. Que lhe parece, sr. doutor?
—Sabe v. ex.ᵃ que de todos os sitios affluem numerosos doentes ao Bom Jesus. É difficil encontrar mais salutar atmosphera. Mas ainda assim, pelo que toca a condições hygienicas, não pode comparar-se com a quinta do Prado. Torna-se, porém, indispensavel atalhar o mal obstinadamente, e haver rigorosa observancia de prescripções. Convem livral-a sobretudo do nevoeiro da serra, de certa viração perfida que sopra de manhã e de tarde no Bom Jesus.
—Oh! mas diga-me se tem esperanças de a salvar, sr. doutor, lembre-se n’este momento de que sou mãe.
—Socegue, minha senhora. Empenharemos todos os esforços e restituil-a-hemos á vida.
Sahiu o medico, dissipando com as exhalações d’um charuto as esperanças de salvar Maria Luiza.
Ha só uma coisa comparavel á consciencia dos medicos: é a consciencia dos ministros. Esta relação de semelhança deve lisonjear os homens da sciencia...
Na manhã do dia seguinte, Rosinha curvou-se sobre o travesseiro de Maria Luiza e murmurou:
—Se me podes ouvir, ou se estás para isso, queria dizer-te uma coisa...
—Dize.
—Perdôa-me, por Deus, perdôa-me. Hontem não te disse toda a verdade. Pobre de mim, que não previ o mal que ia fazer!
—Eu sabia que me enganavas. Comprehendi, porque sei quanto és minha amiga, Rosinha...
—Tu sabias?
—Sabia. Sabia que querias justificar a ingratidão, o esquecimento d’elle, só para não me magoares.
—Enganas-te. O amor desvaira-te. Elle não pôde ir, porque...
—Por que?...
—Socega. Vejo-me, porém, obrigada a fazer-te esta revelação. Pesa-me de não a ter feito hontem. Quando a mamã estiver presente, mostra que não sabes...
—Dize, dize.
—O Eduardo está realmente no Porto.
—Quiz fugir-me?
—Não. Foi chamado á pressa. Sebastião Valladares... morreu.
—Morreu! E por que m’o não disseste? Receavas que me fizesse mal, bem sei, minha boa irmã. Morreu! Como elle terá soffrido! E eu accusava-o, Rosinha, accusava-o porque me dilacerava o coração a lembrança de me não ter ido vêr, a mim, que me levantava do leito depois de tantos dias de soffrimento... Como eu fui injusta...
—Socega. Que não te vá fazer mal...
—Não faz, não. Pobresinho d’elle, que parece ter nascido sob o influxo d’uma estrella funesta. Não lhe bastava o que soffria por minha causa! Ainda mais isto! Soffre-se tanto quando se fica sem pae! Lembras-te do que nós sentimos e chorámos, quando nos faltou o nosso, Rosinha?
—Cala-te, minha amiguinha, cala-te. Pode ouvir a mamã. Não fales mais. Hontem de tarde, se t’o dissesse para remediar o mal que involuntariamente fiz, talvez não acreditasses.
—Talvez não.
—Hoje, porém, tenho provas.
—Tens provas?
—Promette que te não alvoroças, se não...
—Ah! escreveu-te! Deixa-me ver, deixa-me ver.
—Eu leio...
—Não sejas cruel, Rosinha. Deixa-me ler, que já tenho saudades de ver a sua lettra...
Rosinha entregou a carta que tinha recebido, do Porto momentos antes. Maria Luiza leu:
«Minha boa amiga:
Escrevo-lhe do Porto. Sabe já decerto que meu pae morreu. Occulte-o a ella, por quem é, occulte-lh’o. Como sentiria as dores que eu só devo sentir, se ella o soubesse! Podia talvez peorar.
«Quando olho em mim, e conheço que levei a minha desgraça áquella alma, que não a merecia, sinto remorsos de a ter amado. Que Deus me perdôe, e a salve a ella. Não posso ser mais extenso. Basta dizer-lhe que meu pae baixa hoje á sepultura. Voltarei dentro de pouco dias.»
—Rosinha, minha irmã, reza commigo a Nossa Senhora. Rezemos por elle, que é muito infeliz; por mim, não, que eu sinto-me boa.
E brilharam-lhe lagrimas nos olhos. Sobreveiu um frouxo de tosse, e após a tosse uma lufada de sangue...
Passadas horas, respondia Rosinha a occultas da irmã:
«Occultamos-lhe a morte de seu pae. Procuramos, porém, afastar um mal, e approximamos outro. Mando-lhe o bilhete que ella me dava hontem para eu lh’o fazer entregar, na supposição de estar, em Braga. Continuei ainda a occultar a cruel verdade sem pensar nas consequencias funestas da minha dedicação. Á conta de esquecimento tomou ella a sua ausencia. Era manifesto que soffria muito quando recolhemos, mas foi-me então impossivel remediar o mal, revelando toda a verdade. Ás nove horas da noite, sentia-se muito incommodada e momentos depois abafava-lhe a voz uma onda de sangue. Pobre irmã! Venha depressa, que eu sinto que me falta o ánimo. Hoje confessei-lhe tudo. Quiz lêr a sua carta, e lamentou-o muito com os olhos cheios de lagrimas. Vamos amanhã para o Bom Jesus. O facultativo aconselhou ares mais puros sem perda de tempo. Venha depressa, sim? A precipitação com que lhe estou escrevendo explicará o laconismo destas linhas.»
Quando Rosinha voltou ao quarto, disse-lhe Maria Luiza:
—Tu respondes hoje?
—Eu! Não tenciono.
—Quero então pedir-te um favor.
—Dize o que é.
—Se me deixavas escrever...
—Escrever! Mas se te vae fazer mal...
—Não faz, eu sei que não faz.
—Com uma condição: quatro palavras, apenas.
—Pois bem. Quatro palavras apenas, respondeu Maria Luiza.
E escreveu com bastante difficuldade para sustentar a penna na mão convulsa:
«Sei o que terás soffrido, meu pobre Eduardo!... Que o meu amor te dê coragem. Não receies por mim, não? Eu estou boa. Queria que viesses, porque vamos ámanhã para o Bom Jesus, e não sei como hei de estar lá sem ti. Já não te vi ha tanto tempo...»
Rosinha interrompeu-a para dizer-lhe:
—Já escreveste muito. Se te faz mal... Se vem a mamã.
E ouviram-se passos no corredor.
—Ella ahi vem, não ouves?
João Nicolau e Frei Domingos estavam conversando um dia e naturalmente veiu a declinar o dialogo sobre o futuro de Eduardo, que parecia mais triste do que nunca.
—É pois resolução assente o sacerdocio? perguntou o carmelita.
—Assente, respondeu João Nicolau. Foi sempre desejo meu encarreiral-o por este caminho. Ao principio receei que o meu proposito o contrariasse. Ha tempos a esta parte, cuido perceber que lhe não desagrada o futuro que lhe dou gostosamente.
—Hade o sr. João Nicolau lançar á conta da amizade com que me trata as impertinencias d’um velho. Deixe-me todavia ser franco—disse Frei Domingos do Amor Divino com os olhos marejados de lagrimas. Entrei n’esta casa supplicando a Deus que me preparasse um dia este momento, em que eu pudesse dizer ao homem honrado: «Aqui estão os meus cabellos brancos; ouve-me, se elles te inspiram compaixão.»
João Nicolau sentia-se perplexo e commovido.
Frei Domingos continuou:
—Um dia, um homem velho como eu, coração sem mancha, como prouvera ao Senhor que fôra o meu, bateu á minha porta e disse: «Desgraças communs prenderam o meu coração ao coração d’outro homem, cujo filho se abeira hoje de mim, a instancias do pae, para pedir conselho á minha velhice, não á minha discreção. Descobri sombras na fronte que se devia illuminar com o clarão da mocidade. Vi curvada com melancholico pendor a roseira que se devia erguer attrahida pelas flechas do sol. Sondei. Desci cautelosamente ao coração de dezeseis annos e encontrei-o traspassado por um espinho. A pobre alma confrangia-se deante d’um futuro que se approximava dia a dia, e que ella queria remover, ou porque estivesse embalada nas castas doçuras da sua edade, ou porque a apavorasse a austeridade do sacerdocio.» Disse-me isto o ancião com voz trémula de commoção e velhice. Depois, voltando-se de novo para mim, accrescentou: «A missão do levita é supplicar e esclarecer. Vá: supplique e esclareça. Fale ao coração piedoso do homem que chamou a si o neto desprotegido da fortuna para lhe aplanar o caminho da vida. Vá e diga-lhe curvado de respeito: «Venho desafogar comtigo, porque sei que o teu coração é brando; ouve-me e Deus te agradecerá». Era eloquente e justa esta voz. Obedeci e vim. Aqui estou, sr. João Nicolau, para lhe pedir que me oiça. Direi o que a razão me fôr suggerindo; depois terminarei com o dito da Escriptura: «Se eu errei, corrige-me tu; se eu falei com iniquidade, não accrescentarei mais.[13]»
—Oh! sr. Frei Domingos... exclamou João Nicolau sem poder concluir a phrase.
—O melhor futuro não é o que nos parece melhor; é o que Deus nos prepara. O coração affectuoso pode enganar-se ao talhar felicidades que nunca cheguem. Não digo que venha a ser assim; quero dizer que o coração do sr. João Nicolau, estremoso e bom, pode enganar-se em sua mesma bondade. Um dia as lagrimas de seu neto podiam amargurar-lhe os remanços da velhice. O sr. João Nicolau choraria a sua e a alheia desgraça ao ver despida de flores a arvore do seu amor. Não me pesa a mim a batina, porque a procurei e a vesti eu mesmo. Prouvera ao Senhor, porém, que conhecesse menos hombros avergados sob ella, que era então certo conhecer menos infelizes. O sacerdote que não tem o ánimo despreoccupado, serve mal a Deus e á sua alma. Não me quero engrandecer, nem aos que voluntariamente abraçam o sacerdocio. Quero dizer que não poderia curar promptamente as dores alheias, se todos os dias tivesse de pensar a chaga incuravel do meu desespêro. Toda a vida tem espinhos; o sacerdocio tambem. O marinheiro que voluntariamente embarca, corajoso lucta com as tempestades do mar e todo se delicia na contemplação do azul purissimo das aguas, quando céo e mar estão serenos. O que navega coagido nem desteme a tormenta nem se consola com a suavidade da paizagem. Para tal marinheiro, o mar é sempre um abysmo, ou durma ou se encapelle. Que cada um procure o rumo da sua derrota. Depois, quando já tiver embarcado, digamos assim ao nauta querido do nosso coração: «Filho, deixa-me guiar o teu batel, em quanto o teu braço fraqueja».
Frei Domingos parou um momento, fatigado pela commoção. João Nicolau approximou-se e disse com olhos humidos de pranto:
—Sr. Frei Domingos, as suas palavras convencem me. Pensei que meu neto não ia sacrificado ao destino que lhe eu dava. Suppuz a principio que a idéa da solidão do presbytero lhe pusera medo. Chegada, porém, a hora de lhe indicar um caminho, vi-o calar se sereno e...
—Agradeçamos a Deus que lhe não endureceu o coração; é humilde. O filho d’aquelle homem, cuja face gelada era serena como a superficie d’um lago, devia compartilhar das virtudes enthesouradas no coração do pae. Eu vi o cadaver de seu genro...
—O sr. Frei Domingos! Ah! pois era o carmelita?...
—Fui ao Porto, que me dizia a consciencia que devia ir. Entrei aqui, e fui recebido, sob este tecto, como não merecia. D’esta grande divida que tenho em aberto, e que decerto não posso saldar, procurei pagar a centesima parte dos juros, amontoados. Á volta do feretro d’um parente intimo d’esta casa, reuniam-se sacerdotes; era lá o meu logar; fui tomal-o. Não faltavam á viuva e ao orphão consolações d’amigos; as minhas seriam menos prestantes. Foi por isso que não appareci á familia annojada. Na egreja senti uma extranha commoção: chorei. Talvez fôsse fraqueza o chorar; talvez. São percalços da velhice. Estava-me lembrando das desgraças que poderiam fulminar o orphão, se a minha voz fôsse impotente para convencer o sr. João Nicolau. E olhe que não vae n’isto offensa ao seu coração. Não receava por elle; receava por mim. Da palavra do conselheiro depende a efficacia do conselho. O bom terreno, por mal semeado, pode deixar de fructificar. Enganei-me, sr. João Nicolau, enganei-me. Não é verdade? Não é verdade que veiu Deus em nosso auxilio, porque o seu entendimento adivinhou o que eu deixei de dizer? Diga-me que sim, que é esta a maior alegria de ha trinta annos. O sr. João Nicolau é bom... Bem vejo que está chorando. «Fazei justiça ao necessitado e ao orphão»[14] diz o Psalterio. O sr. João Nicolau é religioso, e ha de fazel-a. Dê-me um abraço, meu amigo, que eu leio nas suas lagrimas a resposta que a commoção lhe não permitte dar-me...»
Foi edificante aquelle lance em que dos olhos dos dois velhos brotaram copiosas lagrimas. Por longo tempo nem um nem outro pôde falar. O silencio dava certa grandeza ao quadro.
Decorreram minutos, após os quaes Frei Domingos conseguiu dizer:
—Bemdito seja o nome do Senhor! Vou d’aqui rejuvenescido. Vou dizer a Rodrigues d’Abreu...
—Tinha adivinhado logo que era elle. Em Braga, não podia ser outro. Bom coração aquelle!
—Bom coração é, realmente. A elle devemos esta alegria, que veiu illuminar a nossa velhice. Vou dizer-lhe: Permittiu Deus que eu visse a realisação de tamanha esperança. Receei uma vez, e chorei. O Senhor das alturas perdoou-me, cobriu-me com a Sua grandeza, depois de ter inspirado o coração a que me dirigi.
Passados dias, João Nicolau chamou o neto á sua presença e disse-lhe:
—Estamos sós, e espero que me falarás com a lizura com que falarias a teu pae.
—Responderei com a voz do coração.
—Cabe-me o dever de dirigir a tua educação, e não quero violentar-te a acceitares um futuro que te repugne. Se até hoje fiz mal, determinando-te uma carreira, dir-m’o-has agora. Responde-me com franqueza. Da resolução que tomares depende tudo e, depois de consummada a obra, é impossivel a emenda. A tua recusa não me desgosta, nem me contraria. Se assim fôsse, não te chamaria para me expores a tua vontade.
Eduardo Valladares levantou para o avô os olhos tristes, e respondeu com firmeza:
—Agradeço do fundo do coração, meu avô, o sentimento que o levou a querer ouvir-me sobre este ponto. Respondo, abrindo-lhe a minha alma. O sacerdocio, a que me destinava, apavorava-me quando eu sentia enflorar-se o peito com as primaveras que são apanagio dos primeiros annos da vida. Entre mim e a minha esperança, via levantar se a barreira do sacerdocio. Chorei, exasperei-me, e levei o écho das minhas amarguras aos ouvidos de quem entrava no mundo com direito a sahir d’elle sem rasgar o coração na minha corôa d’espinhos. Quiz rebellar-me, no meu desespêro, contra a vontade de meu avô. Suspendeu-me sempre á beira do precipicio um braço amigo, apontando-me para o Céo. Esperei do Céo o balsamo, o confôrto. Sem deixar de crer em Deus, via porém crescer hora a hora o meu desespêro. Era horrivel viver assim, meu avô! Fui vivendo uma vida d’esperanças e de lagrimas, de fé e de descrença... Só sabe comprehender isto, quem viveu assim. Era delicado de mais para tamanhas procellas o coração que eu amei. Despedaçou-o aquella agonia lenta. Despedacei-o eu, meu avô. A martyr succumbiu ás minhas dores. Amava-me de mais para me esquecer. Chorei de desespêro; choro agora de remorso. Encherei com as minhas lagrimas o calix do sacrificio. Na expiação de todos os dias supplicarei o perdão de Deus. Quero e devo expiar assim, meu avô, se a pessoa a quem me refiro adormecer no tumulo para accordar no Céo.