Ouvimol-o toda aquella tarde, fômos jantar com elle,—não o podiamos largar.
As ideias estheticas de Eça de Queiroz haviam-se, a esse tempo, profundamente modificado.
Citava especialmente a Salammbó e a Tentação de Santo Antão de Gustavo Flaubert. Preoccupava-se com a perfeição da forma, com a realisação da côr, segundo este litterato. Lia tambem a Vida de Jesus, o São Paulo, de Ernesto Renan, e as Memorias de Judas, de Petrucelli della Gattina.
Foi sob estas influencias que,—com as impressões locaes da sua recente viagem á Palestina,—começou em Lisboa, a escrever a Morte de Jesus, publicada em folhetins, na Revolução de Setembro, de 13 de Abril a 8 de Julho de 1870.
Mas havia escripto, além do que se publicou,—uns capitulos que elle me leu, e depois sem duvida destruiu ou se perderam.
Entre os Folhetins da Gazeta de Portugal e a Morte de Jesus na Revolução de Setembro, medeiam quasi 3 annos.
Passou mais tempo ainda. A evolução critica do espirito d'Eça de Queiroz continuava.
Um dia veio mostrar-nos, ao Anthero de Quental e a mim, o primeiro esboço, muito desenvolvido,—tão extenso que levou varias noutes a ler,—d'um romance intitulado Historia d'um lindo corpo.
Foi a sua primeira tentativa de Litteratura realista. A ideia da obra era, até certo ponto, se bem me recordo, a do Affaire Clémenceau de Alexandre Dumas filho; mas a execução, já, em grande parte, devida á influencia dos processos da Madame Bovary, e da Educação Sentimental de Gustavo Flaubert.
Pouco depois,—em 1871,—Eça de Queiroz descrevia n'uma das Conferencias democraticas do Casino, o Realismo na arte, expondo as ideias em parte praticadas por Flaubert e Courbet, e theoricamente descriptas, por Proudhon, no livro Do principio da arte e do seu destino social.
O fim da Arte é, desde então, para Eça de Queiroz, a reprodução exacta da natureza, da realidade, impessoalmente, impassivelmente. A intervenção da ironia representa a fórma superior, a unica fórma admissivel da opinião se manifestar e a correção para qualquer excesso de sentimento.
Foi por este tempo que eu lhe aconselhei a reunião em volume dos antigos Contos phantasticos da Gazeta de Portugal e lhe reli, se não me engano, As memorias d'uma forca.[40]
Ao ouvir a sua obra primitiva, Eça de Queiroz soltava gargalhadas sarcasticas, gritos de indignação contra as imagens, o assumpto, o estylo: não comprehendia como podesse ter escripto assim, tão pessoalmente, tão apaixonadamente, com tanto desleixo—dizia elle,—na construcção da phrase e no emprego dos vocabulos.
Mas depois d'uma longa discussão concluiu dizendo:
—Tens talvez razão,—está claro, tens razão. Talvez se deva republicar isso em livro;—mas sob o titulo critico e severo de Prosas barbaras.
Não pertence a esta Introducção descrever as subsequentes phases do desenvolvimento esthetico, e da obra litteraria de Eça de Queiroz, e eu devo resistir á tentação de mostrar aqui como elle foi um dos artistas mais eminentes da Litteratura portuguesa de todos os tempos,—e de todas as Litteraturas, nos ultimos annos do seculo XIX.
Juntarei ainda, apenas, uma ultima recordação:
Eu lamentava sempre muito que Eça de Queiroz houvesse abandonado o mundo das creações phantasticas onde a sua imaginação tão maravilhosamente vivêra.
Um dia, no verão de 1891, foi o Eça de Queiroz a minha casa,—por esse tempo, em Vaucresson, n'uma clareira da floresta de Saint Germain, não longe de Paris. Então, passeando sob as arvores do macisso de alto fuste que rodeia os Lagos romanticos de Saint Cucufas, contou-me elle:
—«Saberás, por ventura com satisfação, que estou seguindo o teu antigo conselho: Ennevoei-me, outra vez, totalmente, no phantastico,—n'aquelle velho phantastico da Gazeta de Portugal, feito agora com menos abutres, e em prosa talvez menos barbara que então: Estou escrevendo a vida diabolica e milagrosa de São Frei Gil;—e por signal,—dir-to-hei agora aqui, quando justamente nos achamos sob arvoredos,—que a nossa riquissima lingua portugueza me parece deficiente em côres com que se pintem selvas;—e tambem te confiarei que, tendo mettido, por minhas proprias mãos, o santo bruxo n'uma floresta, não sei como o hei-de tirar de lá».
Cintra, Setembro de 1903.
Jayme Batalha Reis.
[1] Hoje, travessa do Gremio Luzitano.
[2] Veja-se Eça de Queiroz. Um genio que era um Santo. Anthero de Quental. In memoriam—Porto, 1896, pp. 499-502; J. Batalha Reis, Annos de Lisboa, Idem, 442-445.
[3] Hoje, rua do Diario de Noticias.
[4] Pag. 107 do presente livro.
[5] Veja-se p. 133 do presente volume.
[6] 3 de Novembro de 1867, p. 142 do presente volume. Veja-se tambem a Carta a Carlos Mayer, pp. 133-145.
[7] «Na Europa o Sul representa ... a maneira de ser exterior, como o Norte representa o vago sentimento intimo...» Eça de Queiroz, Da Pintura em Portugal, Gazeta de Portugal, 10 de Novembro de 1867.
[8] «... nós ... os que estamos n'este canto da velha terra portugueza, com a alma serena, sob o céo claro...» Eça de Queiroz, Symphonia de Abertura, Gazeta de Portugal, 7 de outubro, 1866.
[9] «du Heine de deuxième qualité». Anthero de Quental, Carta a Wilhelm Storck, 14 maio 1887.
[10] Pp. 27-43 do presente volume.
[11] H. Heine, Reisebilder. Les nuits florentines, II, 316-330, (cito a traducção franceza que Eça de Queiroz conheceu).
[12] Pp. 2-13 do presente volume.
[13] Veja-se pp. 8, XV; 10, XX; e passim, no presente volume.
«Luzia um grande sol, mas negro; o sol da melancolia...» Symphonia de abertura, Gazeta de Portugal, 7, outubro, 1866.
[14] Veja-se pp. 5, VIII; 89, 98 e passim do presente volume.
[15] «...Baudelaire, poeta rethorico,...» A. Z. (Eça de Queiroz) Leituras modernas. Districto d'Evora, 6, janeiro 1876, p. 2.
[16] Vejam-se pp. 112, 120-121, 122, 131.
[17] Vejam-se pp. 93-101 do presente volume.
[18] O Monge, destruida pelo author e nunca publicada.
... aux voûtes gothiques
Des portiques,
Les vieux saints de pierre athlétiques
Priant tout bas pour les vivants!
A. de Musset, Premières Poésies, Stances, 1828.
[19] Não incluido no presente volume.
[20] Com o titulo «A Peninsula» no presente volume.
[21] Não incluido no presente volume.
[22] Tem uma Introducção omittida no presente volume.
[23] Tem uma epigraphe e primeira parte omittidas no presente volume.
[24] Tem uma pequena introducção omittida no presente volume.
[25] Tem uma parte critica relativa ao cantor Julio Petit omittida no presente volume.
[26] Gazeta de Portugal. 7 de outubro 1866.
[27] «Constelações, gotas de sombra», p. 100 do presente livro.
[28] Veja-se Victor Hugo, William Shakespeare; principalmente, Livre II; Les Génies, II. Veja-se tambem p. 22 do presente volume.
[29] Veja-se, p. 20 d'este volume, uma outra definição de Musica.
[30] «Oh, egoismo humano, os que vão morrer saudam-te», Eça de Queiroz, O Milhafre, Introducção, Gazeta de Portugal, 6 de outubro de 1867.
[31] De l'Allemagne. Les Dieux en exil, IX partie, pp. 181-242 (cito a traducção franceza que Eça de Queiroz conheceu).
[32] La Sorcière.
[33] Veja-se p. 6, XIII, do presente livro.
[34] As visões «são as attitudes phantasticas e desmanchadas que a sombra dá ás verdades», p. 91 do presente livro.
«... à ceux qui ont mis leur foi dans les rêves comme dans les seules réalités.» Edgar Allan Poe, Eureka. trad. de Ch. Baudelaire.
[35] Omphalia Benoiton, Gazeta de Portugal, 15 Dezembro, 1867.
[36] Os versos citados na Revista Moderna (20, Novembro 1897, p. 324) não são de Eça de Queiroz. Nunca elle publicou na Revolução de Setembro, em folhetins,—como tambem na Revista Moderna se affirma,—os primeiros cantos d'um poema, A tentação de S. Jeronymo. Existe, com effeito, de Eça de Queiroz, mas inedito, um poemeto sobre este assumpto.
[37] Revolução de Setembro, 29 de Agosto de 1869.
[38] Hoje conde de Rezende.
[39] Official da marinha real portuguesa, e desde 1881, Consul geral de Portugal nas ilhas Sandwich.
[40] Vejam-se pp. 161-172 do presente volume.