IX
Artigo do dia no «Diario do Governo» de 7 de Maio de 1849

«Lisboa, 6 de Maio.

«Um pensamento elevado, patriotico, e civilisador, dotou ha poucos tempos a Ilha de S. Miguel com uma das mais uteis e illustradas instituições, que se podem organisar em honra e beneficio da civilisação de qualquer povo. Essa instituição, intitulada Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes em S. Miguel, deu começo n’esta Ilha a uma era inteiramente nova para a vida moral e physica dos seus habitantes.

«Abrindo as suas portas a todas as classes, admittindo em seu seio todos os que amam e cultivam as Lettras e Artes, todos os que desejam vel-as prosperar, todos os que aspiram a iniciar-se nos seus mysterios, de repente se fez poderosa pela concorrencia de muitas intelligencias, e de muitos exforços encaminhados e excitados por uma alma energica e perseverante, que é toda enthusiasmo e devoção pelas Lettras, e que toda se abraza em verdadeiro e acrisolado amor da Patria.

«Dentro em pouco esta Associação, composta de alguns centenares de pessoas, desde a mais alta nobreza, até á mais humilde profissão, incluindo as principaes Auctoridades da Ilha, e tendo á sua frente o seu instituidor e incançavel procurador, o snr. Antonio Feliciano de Castilho, abriu ao Publico aulas, de leitura, de Doutrina christan, de arithmetica, de geometria applicada ás Artes, de desenho de figura e paizagem, de poetica e declamação, de hygiene, de francez para senhoras, de inglez para homens, de geographia, de encadernação, de agrimensura, de desenho topographico, de dança, de torno, e de pyrotechnia; e projecta abrir aulas de economia politica, de historia, de gymnastica, de natação, de calligraphia, e de musica.

«Algumas d’aquellas aulas, frequentadas por um numero consideravel de individuos, numero que excedeu toda a expectação, vão dando de si os melhores resultados.

«Fazendo nas suas salas uma Exposição da Industria michaelense, reuniu abundantissima copia de productos, tão variados, e muitos tão excellentes, que apresentaram um quadro bem esperançoso dos progressos industriaes d’aquella Ilha[14]; quadro que em breve ali se deverá repetir; accrescentado e melhorado sem duvida pelo poderoso estimulo e nobre emulação, que o primeiro deveria produzir no animo de todos os industriaes.

«D’est’arte, esta sabia Instituição vai fazendo convergir para um centro, para um fim de utilidade geral, as ideias e exforços dos moradores de S. Miguel; e, ao passo que attrai para esta obra de interesse publico, vai fazendo tolerantes os partidos; vai-lhes unindo os homens; vai adoçando os costumes, e moralisando o Povo pelas relações da intima convivencia, pelos apertados laços do interesse commum.

«Mas para que o pensamento d’esta Associação se possa desenvolver como o concebeu seu illustre autor, como o expressam os Estatutos da Sociedade, já approvados pelo Governo, como o desejam todos os Socios, e com elles todos os Michaelenses, é necessario um edificio, com a capacidade e construcção proprias para as diversas escolas, para as sessões, para uma bibliotheca, para um museu, para um theatro de declamação, para uma sala de concertos musicos, para as exposições, e para um basar de productos industriaes.

«Lembrou-se a Sociedade de o construir á sua custa, e para esse fim encarregou o seu Presidente, o snr. Antonio Feliciano de Castilho, de vir pedir ao Governo e ás Côrtes a pequena cerca do extincto convento da Conceição, e a adjacente área e ruinas da egreja de S. José, para ali se fundarem os estabelecimentos da Sociedade.

«O requerimento já foi presente á Camara electiva, e depois remettido á Commissão competente. Uma e outra, dando a este negocio a importancia e consideração que elle merece, esperamol-o com confiança, não só o hão-de resolver favoravelmente, mas com a brevidade que reclama um objecto de tamanho interesse publico.»