XI
Artigo extrahido do numero 10 do «Pharol» periodico de Lisboa

O Senhor Antonio Feliciano de Castilho e os Michaelenses

«Todos sabem que o sr. Castilho tem titulos valiosos á admiração e ao respeito da Patria, que elle tem sempre honrado e servido com a sua dedicação e com o seu genio. Vivos andam na memoria de todos, os nobres exforços que elle tentou, para rehabilitar as Lettras portuguezas, e trazer a formosa lingua nacional á competencia com os mais ricos, flexiveis, elegantes, e expressivos idiomas do mundo. Sabidos e decorados, se multiplicam, mais pela voz que pela imprensa os harmoniosos trechos do poeta mais sonoro, mais sabedor, mais correcto, se não o mais inspirado dos poetas nacionaes contemporaneos.

«Como os grandes genios, o sr. Castilho tem purificado a sua alma pelas amargas provações da adversidade. Como todos os grandes talentos, tem visto os invejosos e mesquinhos urdirem-lhe no silencio as insidias, com que a mediocridade se desforça do talento.

«A sua corôa de poeta não se tem afeminado com as complacencias de uma vida descuidosa e opulenta. Não é o poeta funccionario, com avultadas pensões para entoar cantos cortesãos e mentidos. Não é o poeta-agitador, fazendo servir as inspirações do estro á apotheóse dos corrilhos de facção. Não é o poeta-aristocrata, dedilhando a lyra por elegancia, e entoando os dithyrambos da indifferença e da sociedade. É o poeta-poeta; é o homem que canta, porque nasceu para cantar; que ama o Povo, porque o Povo é grande; que o não adula porque não espera d’elle recompensas faustosas. É o homem que respondeu ao ostracismo, com que lhe celebraram a reputação, indo contar aos Michaelenses, que o acolheram, não os queixumes amargos do ressentimento, mas as maravilhas da nova civilisação; que levantou ali um brado generoso de melhoramento physico e moral; que falou áquelle Povo dócil e industrioso a linguagem florida e eloquente da Poesia, para lhe apontar as novas sendas do Progresso; e que teve a gloria de crear mais prosélytos com os seus hymnos de paz, com as suas homilias ferventes, do que muitos estadistas com as suas portarias severamente formuladas, com os seus orçamentos capciosos e inextricaveis.

«Póde-se dizer que o snr. Castilho realisa em S. Miguel o mytho de Amphion, alevantando os muros de Tebas ao som mavioso e brando da sua lyra melodiosa.

«O sr. Castilho é o novo thaumaturgo do Progresso. Á sua voz a civilisação marcha impetuosa, e inaugura-se na humilde possessão de Portugal. A Industria exalta se, a Agricultura acorda. As Artes, em convivencia fraternal, auxiliam-se mutuamente. A Instrucção derrama-se gratuitamente pelas classes menos favorecidas da população. Os costumes como que se humanisam, deixadas as tristes controversias da lucta politica; e os habitantes da Ilha afortunada celebram com ineffavel júbilo e extremada sinceridade o poeta, que foge da metrópole para viver com elles, trabalhar pela commum prosperidade, illustral-os pela sua doutrina, e animal-os com o seu infatigavel exemplo.

«É para satisfazer á divida de reconhecimento que o snr. Castilho contrahiu para com os bondosos michaelenses, que, ao pisar de novo aquellas praias abençoadas, elle publicou a carta que abaixo transcrevemos, modelo de devoção civica, de affectuosa eloquencia, e de simpleza de coração.

¡«Quantos tribunos ephémeros, quantos dictadores ciosos, que se dizem alevantados pelo suffragio do Povo, folgariam de poder escrever estas linhas de congratulação, com a mão na consciencia, com o assentimento voluntario de uma população inteira, que repete n’um côro numeroso o refrão do bello Hymno da Industria michaelense:

Trabalhar, meus irmãos, que o trabalho,
é riqueza, é virtude, é vigor.
D’entre a orchestra da serra e do malho,
brotam vida, cidades, amor.

NOTAS DE RODAPÉ:

[14] Na Secretaria do Reino deve existir a magnifica relação, que d’isso dirigiu ao Governo o sr. D. Pedro da Costa de Sousa de Macedo, então Governador Civil do Districto. N’esse papel pedia o mesmo snr. que o autorisasse o Throno a deduzir do cofre central uma pequena quantia para premios industriaes, além dos que elle do seu bolsinho particular tencionava offerecer para a seguinte Exposição.

Castilho.

FIM DO PRIMEIRO VOLUME