Ainda a mayor parte das nossas terras era perseguida, e infestada dos Mouros, sem ter sido bastante o grande poder dos Reys de Leaõ, e Asturias para os lançar fóra de Hespanha, quando apparecendo o Conde D. Henrique no anno de 1080 com o intento de se naturalizar na gloria das conquisquistas delRey D. Affonso, mereceo com as suas grandes proezas o premio de que este lhe désse por esposa huma sua filha, e em dote naõ só o que estava em Portugal conquistado aos Sarracenos, mas tudo inteiramente o que seu valor aspirasse a conquistar. Desse esclarecido tronco se produzio a fecundissima arvore da Casa Real Portugueza com huma uniaõ de florecentes ramos em periodo gloriosamente continuado, como já entramos a ver.
2 Cinco pontos mais difficultosos exporemos primeiramente na vida deste illustrissimo Conde. O primeiro: Qual he a sua origem? Naõ menos que seis opiniões houve acerca deste verdadeiro conhecimento, que se podem ver no destro politico Duarte Ribeiro de Macedo.[559] A mais certa, e verdadeira, com que os Authores deste seculo se conformaõ, he a que faz ser ao Conde D. Henrique descendente por varonia dos Duques de Borgonha, e da Casa Real de França. Funda-se esta opiniaõ no celebre Exemplar Floriacense, que se achou em França na livraria do Convento de Fleury, donde o alcançou Pedro Piteu para o dar à impressaõ no anno de 1596. He huma Historia Genealogica de França, escrita em tempo do proprio Conde por hum Religioso de S. Bento, a qual he tida por texto indubitavel.
3 Depois de toda esta segurança, e certeza taõ recommendada tambem pelo grande Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa,[560] fomos encontrar huma passagem no Capitulo 11. da Historia manuscrita da fundaçaõ de Santa Cruz de Coimbra por Fr. Jeronymo Romano, Religioso douto de Santo Agostinho, e de quem muitas vezes se lembra nosso Chronista Brandaõ com credito. Este pois referindo o epitafio antigo, que estava na cabeceira da sepultura do invicto Rey D. Affonso Henriques, antes que ElRey D. Manoel a mandasse reformar, diz, que se lia alli, entre outras clausulas, a seguinte:
Aqui jaze sepultado el muy poderoso, y muy excelente Principe Don Alonso Henriques, primero Rey de Portugal, el qual de parte de su Padre Don Henrique, Conde de Astorga, deciende por linea derecha de los Reyes de Aragon, y de parte de su madre de los Reyes de Castilla, &c.
4 Alguma violencia nos causa querer dar assenso à verdade deste epitafio; porque primeiramente lembrando-se delle o grande Brandaõ,[561] diz, que estava em versos Latinos, e os transcreve; mas nem em huma só palavra se conforma com o que diz Fr. Jeronymo. Mais: Accrescenta este huma reflexaõ sobre a mesma clausula da inscripçaõ, digna de reparo, dizendo: En lo que toca a ser su padre el Conde D. Henrique de linage de los Reyes de Aragon, y haver-se llamado Conde de Astorga, es muy facil de provar, y por no ser para aqui, lo dexo.
5 Chamamos reflexaõ digna de reparo, porque o mesmo Fr. Jeronymo no Capitulo primeiro da vida do infante D. Fernando deixou dito, que o Conde D. Henrique era Principe da Casa Real de França,[562] em que coincide com o Exemplar Floriacense, e se aparta da sobredita reflexaõ do epitafio. Sirva isto sómente de noticia, a qual quizemos communicar, porque esta obra, como outras tambem de Fr. Jeronymo, naõ anda impressa, supposto correrem alguns transumptos pelas mãos dos curiosos, e delle conservamos alguns Tratados. Veja-se porém Damiaõ de Goes na Chronica delRey D. Manoel part. 4. cap. 72.
6 O segundo ponto difficultoso he: Se a Rainha Dona Teresa, mulher do Conde D. Henrique, foy filha legitima delRey D. Affonso VI. de Leaõ? A razaõ de duvidar vem a ser; porque ElRey D. Affonso sendo casado com Dona Ximena Nunes de Gusmaõ, da qual teve a Senhora Dona Teresa, foy depois separado deste matrimonio pelo Papa Gregorio VII. como consta da sua Carta, ou Breve, que principia: Dici non potest, escrita ao mesmo D. Affonso, por se contrahir sem dispensa do parentesco, que a dita Dona Ximena tinha com outra mulher delRey D. Affonso, o qual foy casado seis vezes.
7 Fundados nesta nullidade, affirmaraõ Authores Castelhanos, e ainda Portuguezes, que a Senhora Dona Teresa era filha bastarda, tendo por sua parte esta opiniaõ o Exemplar Floriacense,[563] objecçaõ forçosa, com que argumenta Manoel de Faria.[564] Porém isto naõ obsta; porque além de constar da contextura da Carta Pontificia, que ElRey D. Affonso tinha a Senhora Dona Ximena por legitima mulher, como tambem o dá a entender Baronio,[565] he certo que os filhos havidos de matrimonios separados por falta de dispensaçaõ de parentesco, saõ reputados filhos legitimos, e successores, como bem diz Brandaõ, e com elle Duarte Ribeiro.[566] Este ponto está taõ admiravelmente discutido pelo erudito, e infatigavel D. Joseph Barbosa, que parece escusado duvidar já na legitimidade da Senhora Infanta D. Teresa.[567]
8 A terceira difficuldade he: Saber o anno, em que entrou o Conde D. Henrique a governar Portugal, e as terras, que lhe deraõ em dote? Quanto à primeira parte, resolve o laborioso D. Joseph Barbosa[568] que entrara o Conde no anno de 1093. O fundamental Genealogico D. Antonio Caetano[569] he de parecer que viera no anno antecedente; e outros ainda anticipaõ mais esta entrada. Quanto à segunda parte, o dote foraõ as Provincias do Minho, Beira, e Tras os Montes, e em Galiza naõ comprehendia terra alguma, como affirma o Chronista Brandaõ,[570] contra o que alguns disseraõ. Este era o estado de Portugal, que o valeroso Conde augmentou depois com as outras terras, que foy ganhando aos Mouros, por onde livremente podia.
9 O quarto ponto difficultoso he: Se o Reino de Portugal foy dado ao Conde D. Henrique com alguma obrigaçaõ de feudo? Os Authores Castelhanos dizem que sim;[571] porém o certo he que foy dado independente, e sem genero algum de subordinaçaõ aos Reys de Castella. Assim o mostra, e prova com evidencia o erudito D. Joseph Barbosa,[572] e o discreto Academico Joseph da Cunha Brochado;[573] porque naõ se descubrindo em algum Archivo ou nosso, ou de Castella, copia deste contrato dotal, devemos recorrer à mais constante tradiçaõ, de que foy hum dote puro, sem imposiçaõ, ou clausula de reserva de alguma direita soberania.
10 A quinta difficuldade he: Saber em que tempo foy o Conde D. Henrique à conquista de Jerusalem, se antes, ou depois de haver entrado em Portugal? Brandaõ diz,[574] que depois, e no anno de 1103. Manoel de Faria affirma, que antes, mas em tempo, que já estava casado,[575] e que fora elle hum dos doze Capitães, que Urbano II. Author daquella expedição, nomeara para a mesma empreza. Temos por segura a sentença de Brandaõ.
11 Suppostas estas mayores duvidas, e com brevidade resolvidas, o que resta saber das acções gloriosas deste valeroso Conde, saõ as muitas vitorias, que alcançou dos Mouros. Dezassete se lhe contaõ das de mayor fama. Deu foraes a Coimbra, Tentugal, Soure, Certã, Zurara, S. Joaõ da Pesqueira, Guimarães, e a outras muitas Villas. Dotou, e enriqueceo muitas Igrejas com rendas, e beneficios, e depois de ampliar com egregios merecimentos seu grande espirito, foy chamado pelo Senhor ao descanço eterno em o primeiro de Novembro de 1112, tendo vivido setenta e sete annos, e governado mais de vinte. Jazem seus ossos, e cinzas na Sé de Braga.
12 Nenhum Principe mereceo mais justamente, o titulo de Heroe famoso, e o nome de primeiro Hercules Lusitano, que o preclaro, e soberano Rey D. Affonso Henriques; porque se meditarmos os preciosos trabalhos, que passou na ampliaçaõ da Fé, e estabelecimento da Monarquia Portugueza, naõ lhe fica o epitheto fabuloso, mas taõ verdadeiro, que o excede.
13 Teve o seu nascimento na Villa de Guimarães, (primeiro Solio, e Corte dos Principes Portuguezes) a 25 de Julho de 1109 conforme o melhor calculo;[576] e sendo seu nascimento festejado, assim como era util, moderou o contentamento de pays, e vassallos hum defeito corporal em sua pessoa. Dos braços de sua ama Dona Ausenda[577] passou logo à cultura, e instrucções de Egas Moniz, varaõ de maduro juizo, e destinado para seu Ayo. Este por continuas deprecações alcançou da purissima Virgem saude, e desembaraço aos pés do Principe, collocando-o por divina revelaçaõ no altar da imagem da Senhora de Carquere junto a Lamego, prodigio, que referem quasi todos os nossos Historiadores, e de que parece duvidar Mons. de la Clede.[578]
14 Corria o anno 1125, e o inclyco Principe contava dezaseis de idade, quando na Igreja Cathedral de Çamora, que por este tempo estaria sujeita à Coroa de Portugal, elle mesmo se armou Cavalleiro, tomando as insignias militares do altar do Salvador.[579] Passados dous annos, considerando-se já em idade competente de poder suster o Cetro, intentou dar principio ao seu governo. Duvidou a Rainha sua mãy, que até alli governava, entregar-lhe o dominio, e foy preciso ao filho excluilla por força de armas, e à custa de huma escandalosa batalha, que lhe ganhou no campo de S. Mamede junto a Guimarães em 24 de Junho de 1128.
15 Deste dia por diante ficou D. Affonso com absoluto senhorio de Portugal; e reclusa a Rainha no Castello de Lanhoso, mandou pedir a ElRey de Leaõ adjutorio, que prompto a veyo soccorrer, mas infelizmente, pois ficou desbaratado na Veiga de Valdevez;[580] porém tornando no anno seguinte com exercito mais poderoso, cercou a Villa de Guimarães, onde se achava o Principe D. Affonso, e a tanto aperto reduzio a Villa, que se naõ fora Egas Moniz ir occultamente ajustar com o Leonez certas condições, e estipular para isso sua palavra, ficaria D. Affonso a arbitrio de seus inimigos; porém naõ querendo o Principe depois convir nos artigos do Tratado, que Moniz havia feito, dizem,[581] que este fora a Toledo com mulher, e filhos presentarse a ElRey de Leaõ, para que tomasse nelle vingança pela falta do promettido; acçaõ, que o mesmo Rey queixoso julgou sufficiente satisfaçaõ da palavra de hum vassallo taõ fiel a seu Soberano.
16 Proseguia D. Affonso a conquista da Estremadura com a fortuna taõ prospera, que parecendo-lhe já pequenos os limites do seu Estado, passou ao Alentejo, Provincia entaõ sujeita a Ismael, Rey Arabe poderoso, e com o projecto de augmentar o seu dominio, e extinguir os Barbaros chegou ao Campo de Ourique. Aqui triunfou de cinco Reys Mouros, e quinze Regulos confederados, e unidos em hum grosso corpo de quatrocentos mil combatentes.[582]
17 Facilitou-o para taõ memoravel batalha o prodigioso apparecimento de Christo crucificado, o qual escolhendo-o para baze da Monarquia Portugueza, lhe declarou como queria nelle, e nella estabelecer para si hum Reino com as regalias de Imperio, e que para final distinctivo da sua promessa lhe dava por estendarte, e escudo as suas cinco Chagas. Animado o venturoso Principe, antes de entrar no conflicto assentio a que o acclamassem Rey em 25 de Julho, dia felicissimo do anno 1139, a cujo titulo se naõ oppoz, tanto que o soube, ElRey D. Affonso de Castella,[583] e confirmou depois o Papa Alexandre III. no anno 1179 pela Bulla, que começa: Manifestis probatum est argumentis.[584]
18 A verdade desta mysteriosa visaõ se confirma do juramento do mesmo Rey D. Affonso, que fez na presença dos Grandes da sua Corte, passados treze annos, no de 1152, e se conserva no Cartorio de Alcobaça, donde se tem extrahido alguns traslados,[585] além de hum grande numero de Authores naõ só nacionaes, mas estranhos, que deste admiravel apparecimento fazem memoria, como se póde ver nos que abaixo allegamos,[586] naõ sendo digno de se ler neste particular o Padre Mariana,[587] que a esta visaõ de Christo, e derivaçaõ das suas sagradas Chagas ao nosso escudo tem por fabulosa, contra hum taõ authentico monumento, sendo nelle taõ claros os erros, quando diz aqui mesmo, que o campo do escudo das armas de Portugal, onde estaõ as cinco Quinas, he azul, constando a todos ser branco, e que a orla dos Castellos de ouro em campo vermelho ajuntara D. Sancho II. constando por escrituras da Torre do Tombo a ajuntara D. Affonso III.
19 Como tudo neste mundo está sujeito ao juizo dos homens, se oppozeraõ os mal affectos, contradizendo esta appariçaõ, a cujos argumentos responderemos com brevidade. Dizem naõ haver noticia em Portugal de hum caso taõ celebre, e maravilhoso, antes de se descobrir a firma do juramento em tempo delRey Filippe II. Responde-se: que na Chronica delRey D. Affonso Henriques, que recopilou de outra antiquissima por mandado delRey D. Manoel o Chronista Duarte Galvaõ se diz assim no cap. 15.: E o Principe sahio fóra da sua tenda; e segundo elle mesmo deu testimunho em sua Historia, vio a Nosso Senhor em a Cruz na mesma, maneira que disse o Ermitaõ. Camões, que morreo muito antes da vinda do Rey Filippe, o cantou tambem no Cant. 3. oitava 45. e 46. O letreiro que mandou pôr ElRey D. Sebastiaõ no arco triunfal do campo de Ourique escrito em Portuguez, e em Latim pelo insigne André de Resende, como elle o confessa no liv. 4. de Antiquit. faz memoria desta appariçaõ. O mesmo affirmaõ outros muitos Escritores antiquissimos.
20 Dizem mais: que para taõ grande favor lhe faltava ao Rey competente santidade. Responde-se que he falso; pois sempre foy tido por Santo; donde Sá de Miranda na Carta 5. est. 9. disse fallando de Coimbra:
Cidade rica do Santo
Corpo do seu Rey primeiro,
Que inda vimos com espanto,
Há taõ pouco tempo inteiro,
Dos annos que podem tanto.
Confirma esta santidade a tradiçaõ constante, com que assim o nomea ainda, e publica o vulgo; fazendo-se em nossos tempos na Igreja de Santa Cruz de Coimbra com grande jubilo nova demonstraçaõ da integridade de seu corpo, para servir de huma authentica prova ao projecto, com que o Papa Benedicto XIV. o pertendia beatificar a instancias dos Reys Fidelissimos D. João V., e D. Joseph I. cujo processo ficou suspenso pelo embaraço de outros negocios politicos mais urgentes.
21 Dizem mais: que se o Rey decretou as Armas do Reino com os cinco escudos em memoria das cinco Chagas de Christo, como houve nellas tanta variedade, segundo consta de moedas antigas? Responde-se: que sem embargo de haver nas Armas Variedade no accidental, sempre conservaõ a substancia dos cinco Escudos, e trinta dinheiros contados de diversos modos, como bem mostra Manoel de Faria nos Commentarios de Camões cant. 3. desde a est. 153.
22 Hum dos fortes argumentos he ter a escritura a data da Era de Christo, que naquelle tempo naõ se usava, mas sim a de Cesar. Responde-se: que naõ só esta escritura, porém outras do mesmo Rey se achaõ com a Era de Christo, como he a em que fez o Reino feudatario a Santa Maria de Claraval, que se conserva em Alcobaça com o sello pendente do Rey, e subscripções dos Grandes daquelle tempo, segundo a transcreve Brito na Chronica de Cister livro 3. cap. 5. e outras muitas que se podem ver na mesma Chronica l. 3. c. 6. e na Monarquia Lusitan. liv. 8 c. 26. e na Historia Ecclesiast. de Lisboa part. 2. cap. 56.
23 Deixando outros argumentos, he infallivel, que reconhecendo-se D. Affonso filho obediente da Igreja, quiz expressar esta devoçaõ à Sé Apostolica, offerecendo aos Summos Pontifices, naõ por modo feudatario, mas liberal tributo, dous marcos de ouro,[588] cujo reconhecimento durou até tempo delRey D. Affonso III. O mesmo acto de vassallagem devota, e pia, fez a Santa Maria de Claraval em cincoenta escudos cada anno: e como a sua religiaõ foy igual à sua fortaleza, tudo, quanto ganhava na guerra, distribuia pelas Igrejas, edificando magestosos Templos, e tantos, que dizem chegaraõ ao numero de cento e cincoenta,[589] dando a todos rendas perpetuas com tanta opulencia, e liberalidade, que alguns delles tem hoje mais, do que entaõ rendia todo Portugal.[590]
24 Instituio as duas Ordens militares; da Aza, que se extinguio; e de Aviz, que permanece: admittindo tambem em seu Reino os Cavalleiros de S. Joaõ de Malta, e Santiago, com quem distribuia donativos cortados com maõ naõ só liberal, mas prodiga. Perseguio fortemente os Mouros, e libertou do seu jugo impio muitas terras da Estremadura, Alentejo, e Algarve em hum progresso continuado de triunfos, que alcançou de vinte Reys, e dous Imperadores.
25 No anno de 1146 casou com a Rainha Dona Mafalda, filha de Amadeo III. Conde de Saboya, e Moriana, cujo Real consorcio Deos fecundou com a producçaõ de tres filhos, e quatro filhas. Contando finalmente setenta e seis annos de idade, quatro mezes, e doze dias, exhalou o espirito aos 6 de Dezembro de 1185, estando em Coimbra, havendo governado cincoenta e sete. Jaz seu corpo inteiro no Convento de Santa Cruz de Coimbra com grande veneraçaõ, obrando Deos por elle alguns prodigios, como se podem ver no argumento 10. do Apparato Historico, que para a Beatificaçaõ deste veneravel Rey imprimio em Roma no anno de 1728 o Doutor Joseph Pinto Pereira, o qual lhe tece vinte e sete elogios fabricados pelos testimunhos das pessoas mais conspicuas em virtude, que bem acreditaõ os indicios de serem os merecimentos deste santo Rey premiados com a eterna felicidade.
26 Nasceo D. Sancho em Coimbra a 11 de Novembro de 1154, e creado com os exemplos, e instrucções de taõ grande pay, logo nos primeiros annos mostrou os affectos de valor na propensaõ, que tinha ao exercicio das armas. Ainda naõ contava quatorze annos de idade, quando se achou na jornada, ou batalha do Arganhal, em que capitaneando o exercito Portuguez contra o delRey de Leaõ, deixou ao menos indecisa a vitoria, e defendido seu pay.[591] De vinte e hum annos casou com Dona Dulce, filha de D. Ramon, Principe de Aragaõ, e logo no anno de 1178, tendo vinte e quatro de idade, atravessou com hum exercito de doze mil homens por Castella dentro, até se pôr à vista de Sevilha, Cidade a mais bem presidiada dos Mouros, e até alli impenetravel às armas christãs.
27 Os Barbaros olhando-nos com desprezo, e como quem se offendia da nossa confiança, sahiraõ raivosos em tom de batalha, mas foraõ taõ fatalmente cortados pelas nossas lanças, que a grande copia do sangue derramado dos corpos fez sensivelmente mudar a cor às aguas do Guadalquivir.[592] Com este glorioso triunfo mais qualificado ainda com a opulencia dos ricos despojos, se recolhia D. Sancho a Portugal, quando noticioso do novo, e apertado cerco, em que os Mouros tinhaõ posto a Elvas, voou a soccorrer a necessidade daquella Praça; e desassombrando-a da oppressaõ, que padecia, continuou a jornada, vindo primeiro satisfazer grato ao Ceo as vitorias recebidas com as liberaes offertas, que tributou ao Mosteiro de S. Joaõ de Tarouca, de quem se prezou ser seu especial bemfeitor.[593]
28 Succedeo a morte delRey seu pay, e passados os tres dias das honras funebres, foy D. Sancho acclamado, e coroado Rey em Coimbra aos 9 de Dezembro de 1185, anno em que contava trinta e hum de idade, como bem diz Brandaõ,[594] e naõ trinta e oito, como dizem outros.[595] Logo solicito em introduzir a paz no seu reinado, cuidou em convertella em utilidade publica: fez guarnecer muralhas, reparar edificios, fundar Villas, reedificar Cidades, e cultivar as terras, acções, que lhe grangearaõ os honrosos cognomes de Povoador,[596] e Pay da Patria,[597] manifestando-se muito mais a sua piedade, e grandeza com os donativos, que offerecia às Ordens Militares com tanta prodigalidade, que naõ contente de dar a Deos o que possuia, fazia offerta até do que ainda esperava ter.[598]
29 Com o soccorro de huma poderosa armada do Norte, que caminhando em direitura das terras da Palestina, mas forçada de hum rijo temporal veyo abrigarse na foz do Tejo à sombra de Lisboa, foy D. Sancho conquistar o Algarve; e fundando na Cidade de Silves Igreja Cathedral com Bispo, continuou a conquista de outras terras daquelle Reino, intitulando-se Rey tambem do Algarve desde o anno 1188 até 1190.[599] Porém no anno seguinte 1191 entrando Miramolim Aben Joseph pelas terras de Portugal com hum poderosissimo exercito, assolou tudo, e recuperou no Algarve o que tinhamos adquirido, sem ser possivel a D. Sancho resistirlhe, por nos ter naquella occasiaõ huma grande peste, e fome attenuado muito as forças.[600]
30 Persuadido em fim que a vista do Principe concilia o amor dos povos, por se fazer amavel, e estimado, visitava as terras mais populosas do Reino, e ainda as que o naõ eraõ, fazendo a todas naõ só a honra da sua presença, mas as mercês da sua generosidade,[601] sendo primeiramente soccorridos os Lugares sagrados com fabricas, e esmolas, experimentando-o especialmente o sumptuoso Convento de Alcobaça, e outros mais da Ordem de S. Bernardo, de quem foy particular bemfeitor,[602] acabando todos de ver o governo, e a piedade deste Rey nas clausulas do seu testamento, pelo qual deixou grandes sommas de ouro, prata, joyas, e tapeçaria repartido por seus filhos, amigos, pobres, Hospitaes, e Igrejas com taõ boa formalidade, que o Papa Innocencio III. lho confirmou por huma Bulla, que se conserva no Mosteiro de Lorvaõ.[603] Depois de reinar vinte e seis annos, deixou em Coimbra no fim de huma grave doença os alentos vitaes para sempre em 27 de Março do anno de 1211, contando cincoenta e sete de idade. Jaz em Santa Cruz de Coimbra.
31 Suspenderaõ-se as mal enxutas lagrimas, que se haviaõ derramado na morte de D. Sancho, com a festiva acclamaçaõ de seu filho D. Affonso no mesmo dia 27 de Março de 1211, contando vinte e seis annos de idade, e havendo já dez que era casado com a Senhora Dona Urraca, por se ter recebido no anno 1201.[604] Havia nascido em Coimbra a 23 de Abril de 1185, e padecendo na infancia a continuada molestia de hum achaque perigoso, foy livre delle milagrosamente pela virtude de Santa Senhorinha, a quem D. Sancho foy em pessoa supplicar à sua Igreja de Basto a melhoria, gratificando-lhe depois aquelle beneficio com o liberal donativo de muitas terras, e privilegios para ellas.[605]
32 Apenas D. Affonso subio ao throno, expressou logo o seu animo generoso, dando a Villa de Aviz aos Cavalleiros da Ordem militar deste nome, que haviaõ residido em Evora; e como pelos annos 1212 se havia alterada a paz estabelecida entre ElRey D. Affonso IX. de Castella, e Mahomet IV. intentando este a conquista de Hespanha, e empenhando todas as forças, foy tambem preciso a ElRey de Castella valerse, além de outros, do adjutorio delRey de Portugal, que lhe mandou grande numero de soldados, os quaes tiveraõ grande parte no triunfo, que dos Arabes alcançou ElRey de Castella na celebre batalha chamada das Navas, por se appellidar assim sitio, onde se deu, junto à serra Morena a 16 de Junho de 1212.[606]
33 Pouco affavel, e conforme se mostrou D. Affonso com seus irmãos, e assim intentou tirar as Villas, e terras a suas Santas Irmãs, que seu pay lhes havia deixado, de que resultaraõ graves litigios, que em parte fez serenar o Pontifice com censuras, e ElRey de Leaõ com as armas; e temendo igual perseguiçaõ seus irmãos, D. Fernando, desamparando a patria, passou-se para Castella, e D. Pedro para Marrocos.[607]
34 No anno de 1217 haviaõ partido de varios portos do Norte differentes náos para a expediçaõ, e conquista da Terra santa, as quaes chegando a incorporarse na altura do Algarve, compunhaõ huma fortissima armada de trezentas vélas. Quizeraõ voltar o Cabo de S. Vicente, e levantando-se furiosa tormenta, vieraõ demandar o abrigo da barra de Lisboa, de cuja vinda aproveitando-se o Bispo della D. Sueiro, (e naõ D. Mattheus, como nossos Historiadores dizem, sem reflectirem no reparo do insigne Chronista Brandaõ),[608] ajudado com outros Commendadores das Ordens Militares, e das reclutas de gente, que ElRey havia mandado conduzir, foraõ todos expugnar a Villa de Alcaçer do Sal, Praça de armas fortissima, presidiada dos Mouros, e huma das mais importantes, que elles conservavaõ na Hespanha. Naõ obstante a grande resistencia, que faziaõ ao nosso sitio com resoluçaõ, e esforço auxiliado dos Reys de Cordova, Sevilha, Jaen, e Badajoz, ficaraõ finalmente rendidos depois de repetidos assaltos, e porfiada peleja.
35 Parece que o aspecto desta vitoria, que alcançámos, taõ formidavel para os Arabes, os devia intimidar; porém elles mais irritados, renovando numerosos esquadrões, entraõ por Portugal com intentos de ganharem Elvas, a quem ElRey com felicidade promptamente soccorreo, e venceo; e penetrando por Andaluzia vitorioso, poz grande terror aos Mouros. Outras muitas batalhas ganhou nosso Monarca sempre em grande credito das armas christãs, até que completando trinta e oito annos de idade, e doze de reinado, concluio seus dias em Coimbra aos 25 de Março de 1223. Jaz no Mosteiro de Alcobaça.
36 Foy Coimbra patria de D. Sancho, onde nasceo a 8 de Setembro de 1202, padecendo logo na sua infancia as disposições de pouca saude. Entrou a governar a 25 de Março de 1223, e mostrou que naõ degenerara do valor de seus predecessores, nem nos desejos de dilatar a Fé, nem de extinguir os Arabes; pois ainda que o mayor numero dos nossos Chronistas o infamaraõ de pouco cuidadoso para o governo, sabemos que no anno de 1225 entrara pelo Alentejo na frente de hum poderoso exercito assolando o poder Ismaelita com tanto valor, que mereceo por esta acçaõ os publicos, e honrosos elogios, que o Papa Honorio III. lhe mandou.[609]
37 Continuou a guerra contra os Mouros sempre vitorioso até o anno de 1242, recobrando delles à força de armas muitas Praças, e Villas do Alentejo, e Algarves, Elvas, Jurumenha, Serpa, Aljesur, Mertola, Cacela, Ayamonte, e Tavira. Fez porém ElRey diminuir estes prosperos successos, consentindo na oppressaõ, que se fazia ao estado Ecclesiastico, de que resultaraõ gravames, queixas, e censuras Pontificias. Outros attribuem estas desordens à demasiada introducçaõ dos validos nas cousas do governo, e nimia frouxidaõ delRey, procedida tambem da sua bondade, como diz o Plataõ Portuguez.[610] Porém vendo o Pontifice que as suas admoestações eraõ inuteis quanto ao vexame do Clero, Innocencio IV. o depoz do throno pelo Decreto, que anda inserto no livro 6. das Decretaes cap. 2. que principia Grandi non immerito,[611] substituindo em seu lugar por Governador a seu irmão D. Affonso, Conde de Bolonha, que entaõ se achava no Reino de França.
38 Chegou o Infante Regente novamente nomeado, e aceito por commum consentimento dos Tres Estados do Reino, e vendo-se D. Sancho infelizmente deposto do governo, se valeo de seu primo ElRey D. Fernando de Castella, o qual formando hum exercito em seu favor, marchou contra Portugal; mas intimando-se aos Generaes Castelhanos as censuras, e Decretos Pontificios contra os que embaraçassem a regencia de D. Affonso,[612] desenganado D. Sancho da sua pertençaõ, se recolheo a Toledo, onde entregue a obras pias, executou acções dignas de eternos elogios; porque naõ satisfeito de ter declarado a sua generosa virtude com a erecçaõ de alguns Templos em Portugal, mandou fazer a Capella dos Reys na Sé de Toledo, onde se mandou enterrar. Acabou finalmente cheyo de desgostos, e merecimentos para alcançar a verdadeira coroa da eternidade feliz em 4 de Janeiro do anno de 1248, tendo quarenta e seis de idade, e vinte e cinco de governo.
39 Era D. Affonso irmaõ segundo delRey D. Sancho, e havia casado no anno de 1235 em França com Matilde, Condesa proprietaria de Bolonha, sendo chamado para governar Portugal pelos defeitos, que inventaraõ, ou criminaraõ a D. Sancho. Jurou primeiramente em França na presença de certos Prelados Portuguezes, que lá se achavaõ a 6 de Setembro de 1245, alguns artigos pertencentes ao bom governo. No anno seguinte entrou no Reino com intento de conquistar o Algarve, empreza, que no anno de 1250 o conseguio quasi plenamente,[613] e em que se distinguio muito o insigne D. Payo Peres Correa, Mestre da Cavallaria de Santiago.
40 Como as conquistas de Portugal, e todas as mais terras de Hespanha occupadas pelos Mouros eraõ sem limite, e ficavaõ no dominio daquelles Principes Christãos, que primeiro as ganhavaõ, intentou D. Affonso depois de sujeitar o Algarve reduzir tambem a seu dominio algumas terras de Andaluzia, como com effeito subordinou as Villas de Aroche, e Arecena, que ao depois passaraõ para o senhorio de Castella.[614]
41 Proseguia D. Affonso com tranquillidade no seu governo, estabelecendo leys muy uteis para o bom regimen;[615] porém no meyo de tanta paz elle mesmo se constituio causa de hum geral escandalo, e perturbaçaõ do Reino com o repudio, que fez de sua legitima esposa a Condessa Matilde, casando segunda vez com Dona Brites, filha bastarda delRey D. Affonso Sabio de Castella no anno de 1253, motivo de haver tanto disturbio com as censuras Ecclesiasticas, que opprimiraõ o povo, e naõ tiveraõ fim, senaõ com a morte da Condessa sua primeira mulher. Entaõ pedindo os Bispos de Portugal ao Pontifice quizesse dispensar com ElRey no segundo matrimonio, tudo concedeo o Papa Urbano IV. e ficou o Reino aliviado dos terriveis effeitos daquella Regia contumacia.[616]
42 Alguns Escritores se enganaraõ[617] em dizer que o Reino do Algarve fora dado em dote a D. Affonso III. e tal naõ foy, como doutissimamente provaõ D. Joseph Barbosa, e outros,[618] porque só consta que os Reys de Castella eraõ usufructuarios do Algarve desde o anno 1253 até o de 1264, em que se commutou em cincoenta lanças, com que Portugal havia de ajudar a Castella em caso de necessidade. Depois no anno de 1267 se tirou esta pensaõ em agradecimento de hum grande soccorro, que o Infante D. Diniz levou a D. Affonso o Sabio contra os Mouros.
43 Vendo-se ElRey desassombrado das guerras, e censuras Pontificias, tornou a meter o Reino em novas oppressões com o máo tratamento, que dava ao Sacerdocio Portuguez. Os Prelados, querendo defender o seu respeito, queixaraõ-se ao Papa, que entaõ era Clemente IV. o qual reprehendendo-o, e continuando as violencias no estado Ecclesiastico, continuaraõ tambem os Pontifices successores Grerio X., e Joaõ XX. ou XXI. com repetidas censuras, a que finalmente ElRey mostrou querer obedecer, e sujeitarse às determinações do Papa.[619]
44 Naõ obstante esta contumacia, pela qual talvez nosso Poeta[620] equivocadamente lhe chamasse Bravo, foy ElRey D. Affonso de notavel governo: adiantou o commercio, reedificou muitos Lugares do Reino, fundou alguns Conventos, como o de S. Domingos de Lisboa, o de Elvas, e Santa Clara de Santarem.[621] Alimpou o Reino de facinorosos, estabeleceo feiras publicas, e morreo em Lisboa a 16 de Fevereiro de 1279 com trinta e dous annos de reinado, e sessenta e nove de vida. Foy depositado seu corpo no Convento de S. Domingos de Lisboa, e daqui se trasladou para o de Alcobaça no anno de 1289, onde agora jaz.
D. Diniz sexto Rey.
45 Nasceo em Lisboa a 9 de Outubro do anno 1261. Conferio-lhe o Sacramento do Bautismo o Bispo do Porto D. Vicente Mendes, e foy seu padrinho D. Egas Lourenço da Cunha, hum dos principaes Cavalheiros desta nobilissima familia, e privado delRey D. Affonso III. Teve por ayos a Lourenço Gonçalves Magro, neto do grande Egas Moniz, e a Nuno Martins de Chacim, que ambos concorreraõ para pulirem o precioso, e Regio animo de D. Diniz, unidos com os desvelos de seu Mestre D. Aymerico, que depois foy Bispo de Coimbra.[622]
46 A primeira acçaõ notavel de D. Diniz, sendo ainda menino de quatro annos e meyo, foy quando seu pay ElRey D. Affonso III. o mandou a Sevilha com hum poderoso exercito soccorrer a ElRey de Castella seu avô[623] contra os Mouros Africanos, que invadiraõ no anno 1266 a Hespanha, e correndo o de 1279 em 16 de Fevereiro, dia, em que morreo D. Affonso III. foy acclamado Rey com todas as ceremonias costumadas em Lisboa, tendo dezoito annos de idade menos oito mezes, e começando a governar em companhia da Rainha sua mãy, naõ consentio muito tempo o novo Rey esta coadjutoria, e assim a excluio com respeito, mas naõ sem mágoa, e sentimento da Rainha.
47 Constituido D. Diniz Senhor do Reino, principiou a visitallo, como era costume, sendo o Alentejo a primeira Provincia, que logrou esta honra da sua presença, da qual tambem participou a Beira, e Estremadura com a confirmaçaõ dos seus foros, e privilegios, fortificaçaõ das fronteiras, e boa administraçaõ da justiça, experimentando tambem as mesmas honras as outras Comarcas do Reino nos annos seguintes.
48 No de 1282, estando ElRey em Trancoso, recebeo por sua mulher a Rainha Santa Isabel em 24 de Junho, dia de S. Joaõ Bautista, e neste mesmo anno compoz as controversias, que havia no estado Ecclesiastico, e estabeleceo leys muy uteis para a Republica, especialmente remediando a dilaçaõ nas demandas, e assinando modo facil para se processarem as causas, e que a justiça nos pobres tivesse mais segurança. Este cuidado experimentaraõ tambem as povoações, as quaes ElRey melhorou, mudando algumas para sitios mais defensaveis, e accommodados, como foy Mirandela, e outros.
49 Huma das acções suas bem considerada, e que os Historiadores louvaõ, foy revogar todas as doações inofficiosas, que tinha feito em dispendio dos bens da Coroa logo no principio do seu reinado, incorporando outra vez com melhor acordo, e conselho de pessoas doutas ao Padroado Real todas as terras, e fazendas, que inconsideradamente doara; e costumava dizer, quando lhe fallavaõ nesta materia: Que justamente se tirava o que injustamente se concedera.[624] Passou esta Ley em Coimbra a 26 de Dezembro de 1283, na qual revogaçaõ exceptuou unicamente o Chanceller Mór D. Domingos Annes Jardo, Bispo de Evora, e Lisboa, pelos grandes serviços, que tinha feito ao Reino.
50 Naõ causou pequenos cuidados a ElRey D. Diniz o orgulho de seu irmão D. Affonso, porque andando com o projecto de lhe usurpar o Reino, pois dizia que a elle lhe pertencia, por nascer depois que o Papa revalidara o matrimonio de seu pay com a Rainha Dona Brites, e D. Diniz ter nascido antes, e por isso illegitimo,[625] com este motivo chegaraõ a pegar em armas, e D. Diniz cercando-o em Arronches apertadamente, o fez convir em composições, intervindo tambem na reconciliaçaõ dos dous irmãos a Rainha Santa Isabel, e a Rainha de Castella Dona Maria, ajustando-se as pazes em Badajoz, onde tambem se acharaõ a nossa Rainha Dona Brites, e sua filha a Infanta Dona Branca aos 13 de Dezembro de 1287.
51 Alcançou D. Diniz do Papa Nicolao IV. no anno 1288 o poder separarse a Ordem Militar de Santiago da sujeiçaõ dos Mestres de Castella; e como era muy amante das letras, e que sabia cultivallas, instituio em Lisboa a primeira Universidade, que houve no Reino, por Bulla do mesmo Nicolao IV. expedida em Roma a 13 de Agosto de 1290,[626] e continuando os estudos publicos em Lisboa com grande fruto, e aceitaçaõ, considerados todavia alguns inconvenientes, ordenou o mesmo Rey que se transferisse para Coimbra no anno 1308.
52 Entre algumas leys notaveis, que fez promulgar, foy huma, em que prohibio as Religiões herdarem bens de raiz, acudindo nisto à eminente ruina do estado dos Nobres, e mais povo, se continuassem as Igrejas nas heranças, como bem adverte o Chronista Brandaõ;[627] e porque esta limitaçaõ nos bens Ecclesiasticos naõ fosse interpretada por acçaõ menos pia, desmentio o minimo conceito contra a sua generosidade, dispendendo na fabrica de Templos, e erecçaõ de Conventos muito cabedal, bastando para prova da sua devota grandeza, e justificarse de naõ desaffecto aos bens da Igreja, a fundaçaõ do Real Mosteiro de S. Diniz de Odivellas no anno de 1295, e o de Santa Clara de Coimbra, e Villa do Conde, dotados tambem em seu tempo, ainda que naõ foraõ estes dous participantes da sua liberalidade.
53 Foy ElRey D. Diniz Principe insigne em muitas virtudes, e em tres excedeo a todos os Monarcas do seu tempo, na Justiça, Verdade, e Liberalidade. Pela primeira foy eleito Juiz arbitro em companhia delRey de Aragaõ para sentenciar a causa delRey D. Fernando de Castella, e D. Affonso de Lacerda sobre a Coroa de Castella, e Leaõ, em cuja causa deu sentença na Cidade de Tarragona de Aragaõ sem queixa de nenhuma das partes, e compoz outras differenças, que havia entre os Reys de Castella, e Aragaõ.
54 A sua liberalidade foy tanta, que a D. Fernando, hum dos mesmos dous Reys, pedindo-lhe grande somma de dinheiro emprestado, D. Diniz lho deu gratuitamente com grande magnificencia, e ainda mais do que pedia, porque lhe deu hum milhaõ de escudos, e huma copa de huma finissima esmeralda, que se avaliou em onze mil e tantos cruzados,[628] e naõ houve Cavalheiro de ambos os Reinos, que delle naõ alcançasse dadivas, e mercês grandiosas; e com tudo deixou, quando morreo, muita riqueza a seu filho sem offensa de seus vassallos.
55 Elle foy o primeiro, que introduzio no Paço rezarem-se as Horas Canonicas, e ter para isso Capella permanente. Instituio a Ordem Militar de Christo dos bens dos Templarios, que se extinguiraõ no seu tempo. Da Agricultura teve hum especial cuidado, donde obteve o cognome de Lavrador, aos quaes chamava nervos da Republica, e por este augmento, e diligencia mereceo chamarem-lhe tambem Pay da Patria. Teve desavenças com ElRey D. Fernando de Castella, e entrou por seu Reino com poderoso exercito, porém com casamentos serenou a guerra.
58 Em seus ultimos annos padeceo alguns desgostos com seu filho o Infante D. Affonso, procedidos da dura condiçaõ do Infante, e inveja, que tinha dos favores, que ElRey fazia a D. Affonso Sanches, seu meyo irmaõ. Houve guerras civis com grande disturbio do Reino, e cessaraõ com as supplicas da Rainha Santa Isabel, e de S. Raimundo. Morreo em fim este glorioso Rey em Santarem a 7 de Janeiro de 1325, tendo vivido sessenta e tres annos, e tres mezes, reinado quarenta e cinco, dez mezes, e vinte dias.[629] Jaz seu corpo no insigne Mosteiro de Odivellas em soberbo mausoleo.
57 Começou a empunhar o Cetro ElRey D. Affonso IV. desde 7 de Janeiro de 1325 em idade de trinta e tres annos, e onze mezes, menos hum dia, contados desde 8 de Fevereiro de 1291 de seu nascimento em Coimbra, conforme a exactissima, e verdadeira Chronologia do Academico Francisco Leitaõ Ferreira.[630] Desde a primeira idade mostrou o aspero natural, de que era dotado. Casou em Mayo de 1309[631] com a Senhora Dona Brites, filha delRey D. Sancho o IV. de Castella, e em Lisboa se celebraraõ os desposorios com grande fausto, e pompa.
58 Com o novo estado, que o fez separar de casa, e governo, foy dando entrada a muitas occasiões de o perverterem homens estragados, fazendo capricho de os amparar; e dando-se todo ao exercicio da caça, tomava por occupaçaõ o que só devia ser divertimento, e este excesso lhe causou alguns desgostos. Como o animo, e condiçaõ delRey era aspero, de fórma que por elle grangeou o epitheto de Bravo, emprendeo acções arduas, e teve grandes discordias com seu pay, e seu sobrinho D. Affonso Rey de Castella, com bastante damno de ambos os Reinos.[632]
59 Todavia estas desavenças naõ foraõ sufficientes para deixar de ajudar com sua pessoa, e vassallos a ElRey seu genro na famosa batalha do Salado contra Ali-Boacem, Rey de Marrocos, e ElRey de Granada, cujos exercitos rompeo, desbaratou, e venceo com grande credito do valor Portuguez em 30 de Outubro de 1340.[633] Fez por duas vezes mudar os Estudos geraes, que seu pay instituio; a primeira de Coimbra para Lisboa no anno de 1338, a segunda de Lisboa para Coimbra no de 1354,[634] concedendo-lhe, e ampliando-lhe varios privilegios.
60 Obrou algumas acções de piedade regia, como foy o edificio da Sé com erecçaõ de Capellas, e renda fixa para os Capellães cantarem; hospitaes, e outras acções pias. O que lhe causou mayor affronta na sua memoria, foy além das discordias, e desobediencia, que temos dito, o consentir que no anno 1355 tirassem a vida com tanta crueldade à formosa D. Ignez de Castro, que clandestinamente estava casada com o Principe D. Pedro seu filho. Falleceo na Cidade de Lisboa em 28 de Mayo de 1357 com sessenta e seis annos de vida, tres mezes, e vinte dias, e de reinado trinta e dous anos, quatro mezes, e vinte e hum dias. Jaz na Basilica de Santa Maria, que foy a antiga Metropole de Lisboa, da parte do Evangelho, e na Capella Mór[635].
61 O dia do nascimento delRey D. Pedro I. he calculado com muita variedade pelos nossos Escritores. O diligentissimo Academico Francisco Leitaõ Ferreira depois de referir todas as opiniões, que ha neste ponto, conclue, e assina por mais certo o dia 18 de Abril na antemanhã de huma Sesta feira em o anno do Senhor 1320.[636] Tanto que este Monarca tomou posse do governo, que foy a 28 de Mayo de 1357, tendo entaõ de idade trinta e sete annos, hum mez, e nove dias, cuidou logo em se vingar dos que foraõ complices na morte de Dona Ignez. Tinhaõ elles fugido para Castella, e como em Portugal andavaõ tambem refugiados tres Hespanhoes facinorosos, contratou ElRey com o de Castella que lhos entregaria, com condiçaõ de lhe dar a Alvaro Gonçalves, Meirinho Mór, Pedro Coelho, e Diogo Lopes Pacheco, que eraõ os aggressores daquella innocente morte.
62 Fez-se o contrato com grande escandalo, porque dizem que elle havia promettido com juramento a ElRey seu pay de perdoar aos executores da morte de Dona Ignez. Na Villa de Santarem se poz por obra a vingança, e D. Pedro mandando justiçar a dous, (porque Diogo Lopes salvou-se a beneficio de hum pobre, que o avisou antes de prenderem os outros,) com fera, e terrivel execuçaõ lhes mandou tirar os corações a hum pelas costas, a outro pelos peitos, e depois queimallos.[637] Parece que este excesso, com que castigava os delictos, lhe adquirio o epitheto de Justiceiro, que o vulgo com menos respeito, e mais ignorancia mudou para o cognome de Cruel, de que os deixou desenganados o Plataõ Portuguez Sá de Miranda, quando disse delle:[638]