Despedida
SUMMARIO
Adeus para sempre a S. Miguel.—Saudades.—Como é o coração de um poeta.—Continua a ambicionar a vida rustica.—Panegyrico d’ella, extrato de um livro inédito.—Memora os bons desejos que teve a bem da Ilha.—Excusado sermão a estadistas.—O que o autor tentou, além de alvitramentos.—Sociedade dos Amigos das Lettras.—Escolas.—Novo systema de leitura.—Tratado de versificação.—Mnemonica.—Curso de poesia; outro para damas.—Curso de Latim.—A Sereia, jornal projectado.—Gravura em madeira.—Lithographia.—Typographia.—Excitação na mocidade.—Applicação da poesia a assumptos serios.—Hymnos da Industria, das Escolas, dos Lavradores.—Curso de Hygiene.—Conselho industrial.—Caixa economica, Banco industrial e Montepio.—Commissariado dos estudos.—Solar de Artes e Lettras, e dotação.—Insiste-se fortemente n’esta ideia civilisadora.
Hora solemne e triste é esta para mim; e ¡oxalá que para vós tambem o seja um poucochinho! Após tão amigavel convivencia de dois annos, trago-vos despedidas, e para sempre.
Sequer, estamos nas espaçosas noites de Dezembro; e como já me vêem com a cinta prestes, o escaço fardel ás costas, e o bordão de peregrino outra vez em punho, não me hão-de levar a mal se n’esta derradeira pratica por ventura me dilatar.
¡Custa tanto a arrancar os pés d’onde os tivemos por decurso de oito estações! ¡mais de cem semanas! ¡mais de setecentos dias e outras tantas noites!... Quando um coração chega a fazer cama (mas que fosse entre espinhos) já não sabe como se erga. Qualquer lado do horizonte, por mais risonha luz que de lá o chame, lhe faz medo.
¡E então o coração de um poeta, que é a mais amoravel coisa de quantas Deus cria!... O coitado lançaria radiculas para se apegar, até a um rochedo! Em não achando a quem ame, logo muito de pressa o inventa. Faz lembrar esse animalzinho bemdito, que do seu interior fia a seda em que se envolve; esconde-se na sua doirada ou prateada esphera, tão macia e mimosa, livre das distracções da luz, dos sons, dos cheiros, dos calores, dos frios, e dos toques lá de fóra; rico de sua pobreza, vive vida encantada de mysterio, de que só ha-de sahir morto, ou com as azas esplendidas para voar aos céos, depois de ter aboiado em fragrancias e raios de sol, por cima de labyrintos de flores...
Boa sina parecerá aquella, mas ninguem a inveja. Só pelos espaços da phantasia é que o enjeitado da fortuna, chamado poeta, pode encontrar alguma vez com que assim se console. A vida real por todas as juntas lhe doe; todo o movimento o afflige e dilacera; quantas vezes se aparta e muda, tantas se fina.
Quando a Sociedade promotora da vossa Agricultura me commetteu escrever para vós o seu Jornal, que eu me estreei conversando logo comvosco largamente como amigo com amigos, foram estas (ainda me lembra) as minhas ultimas palavras n’essa introducção:
«Se aqui, para onde a fortuna me arrojou, tão longe do meu ninho, está escrito que haja de acabar a cançada vida, quero que em minha pedra raza, se a tiver, se possa escrever: Amou a terra onde jaz, como se d’ella fôra. Quanto poude e soube, tudo lhe deu de boa-mente.»
Era em Janeiro de 1848. Em todo esse anno, que andei comvosco, e em todo este, que só vos visitei, dizei se desmenti, com as obras a promessa. Não desmenti, não. Quanto soube e pude tudo de muitissimo boa-mente dei á vossa terra, e amei-a como oxalá os seus filhos a amem sempre.
Entretanto, a sepultura, que eu principiava a entrever aqui, era mais uma illusão, se a morte em poucos dias me não tomar. Vou procural-a mais longe, muito longe, pois só a desejo ter onde os meus trabalhos me houverem grangeado um prediosinho, em que me enterre eu mesmo antes que me enterrem, e, morto para o mundo, viva ainda alguns dias para os meus, para mim, e um pouco para a posteridade, se podér ser. Res non relicta sed parta. Quero teimar até ao cabo n’esta minha humilde ambição já de muitos annos.
Se vos não enfada ouvir louvores do vosso viver, do unico viver a que tenho inveja, vou dizer-vos o que eu na minha terra, que bem grande é, bem formosa, e bem cheia de delicias, escrevia ha tres annos, com toda a sinceridade do meu coração, como agora e como sempre. Escutae, escutae:[9]
[9] O seguinte é excerpto do Preambulo do Presbyterio da Montanha a pag. 80 e seg. Por ainda se não achar publicado, nem de todo impresso tal livro, e por fazer muito ao meu proposito, me permitti a transcripção.
Castilho.
«¡Se jamais virá tempo de eu poisar em torrão meu, debaixo de sombras minhas, a cabeça encanecida e regalada! ¡Uma barraca de poucas braças, mas revestida de rosas e limas, como o presbyterio! á roda, tanto de fazenda... quanto o filhinho mais pequeno atravessasse correndo de um só fôlego; mas isto em solidão bem solidão, onde só os astros me enxergassem, só as estações me visitassem, e da banda do mundo nada me chegasse, senão o vento, já expurgado, e esquecido de humanas vozes.
«Tal casa e tal quinta, ser-me-hiam mais que morgado, mais que palacio e reino: paraizo terreal, e digno vestibulo de outro melhor.
«Ahi me reverdecêram o coração e mais o espirito, que me elles por cá trazem tão lastimosamente desfloridos e murchos. Por si se retingiriam os cabellos com o franco sol, remoçador de quanto existe. A lyra interior volveria a cantar espontaneamente, como harpa eólia entre jasmineiros, pendente em hombral de gruta ás virações da primavera.
«Ainda á farta me vingára dos tantos annos, que em tarefas ephemeras e sem gloria, posto que não sem consciencia e diligencia, se me desbarataram na galé da Imprensa periodica; ou (com mais propriedade) nas palhas d’essa doidinha, que a si mesma se venéra por soberana do Universo, soberana com diadema de papel, e sceptro de lapis. Só não rira d’ella, quando me lembrasse que me engoliu, com os annos que me tomou, outros tantos da minha existencia para o diante, pois em cada tomo de periodico, sincera e honradamente redigido, se podia escrever este epitaphio:—Aqui jazem um anno de fadiga e dois de vida de... Orae por elle.
«Vendem-se ainda primogenituras por menos que prato de lentilhas.
«Vingára-me (¡oh se me vingára!) de tão bons dias mallogrados; e ainda por ventura alguns livrinhos, menos maus que todos os meus precedentes, appareceriam de novo (mas sem mim) no povoado. Como Ovidio aviava os seus do desterro, aviaria eu os meus do meu eden:
—«¿A que vem tomar-nos tempo com a fabula pueril dos teus gostos e desejos?—dirá, e ha-de dizer, algum d’estes que sabemos, e que nunca faltam, escoimadores ex officio do alheio.
«Senhor meu—lhe respondo eu já—pois é por isso mesmo de não passarem de fabulas os meus gostos e desejos, que se me ha-de relevar o dar-lhes eu largas no papel. Se eu vira agora cahir-me do ceo o meu tugurio e o meu quintal coroados de ermo, como o Evangelista, nas praias nevoentas de Pathmos, viu baixar do Empyrio a sua Jerusalem abraçada de muros de oiro, o tempo, que n’estas palavras gasto, aproveitára-o melhor em correr para o meu refugio, beijal-o, replantal-o, aformosental-o; e em lá vindo o florido Maio, ride-vos de pagão que brindasse os seus Lares com mais fé ou egual amor.
«¡A Liberdade!... ¿Onde ha hi liberdade que nem por longe se pareça com a de um viver remançado, em casa sem numero nem espias, ao som da Natureza, á lei da propria inclinação, sem ouvir horas, que nos chamem, sem encontrar conglosadores, que nos aboquem no ar acções e palavras, para nol-as tingirem de branco em preto, nem cahir nas garras de ociosos, que vos emprasarão para toda uma tarde de Junho, ou toda uma noite de Dezembro; isento da praga de reformadores velhacos, que são a peor salada que o diabo temperou e mecheu em horas de aborrimento; seguro, emfim, de ser pizado nas ruas por soberbias de quem vos não vale, tremolando-lhe na botoeira do vestido refulgente epigramma de esmalte contra meritos e virtudes, e de noite interrompido na meditação, ou cortado no melhor do somno, pelo retroar de carroagens, que em fluxo e refluxo continuo levam e trazem, sempre a correr para nada, pygmeus histriões da farça séria d’este mundo.
«Se algures ficou sobre a terra a Liberdade, que irmana, segura, ennobrece, e concilía os hómens, na montanha encontrareis mais depressa coisa a ella parecida, do que não por estas almotaçadas metrópoles, onde se blasona que ella tem o seu templo, e n’elle as suas festas. Sempre são festas acompanhadas de vinte orgãos, a entoarem solfas diversas ao mesmo tempo: este o Te Deum, aquelle o De profundis, um o Quômodo cécidit cívitas plena populo, outro o Cantemus Domino, qual o Miseremini mei, qual o Ecce sacerdos magnus.
«Se alguma vez se incensou presente n’este orbe a Liberdade, derrubaram-n-a do seu pedestal as aguas do diluvio de Noé, quando rojavam cada coisa para seu cabo. Ao que havia de ser cidades, ficou o pedestal razo com o formoso nome d’ella em lettras de oiro. Ao que tinha de ser ermo, pertenceu, mas sem nome nem titulo, a figura quasi inteira. Aqui pregôam-n-a; lá disfrutam-n-a:, assim vai tudo.
«E quando não, mettei bem por dentro a mão na consciencia, e, deixado o palavrorio, que não sôa muito senão por ser vazio, como tambor de foliões, dizei me, ou dizei-o a vós mesmos: ¿Quem mais livre, que homem que desperta recobrado ao romper d’alva, por se lhe ter o somno acabado, e não porque ruins pezares lhe repiquem, ou o estremunhem alvoroto de praças, e reboliço de visinhos, pois diante de suas janellas o que só se meneia e conversa são arvores, e por cima do seu tecto não moram senão hervas, que mal ciciam, e só recebem de visitas passarinhos ou borboletas? ¿Quem mais livre?
«Acordado, encommenda a Deus o dia novo, veste o que na vespera despiu, sem ter de consultar a ventoinha do figurino, o camareiro, o cabelleireiro, o espelho, o gosto da namorada, o rol das visitas, e dos convites. ¿Quem mais livre?
«Talha para si, para sua mulher, para cada um de seus filhos, as occupações de todo o dia. ¿Quem mais livre?
«Entre o trabalhar, que lhe grangeia forças, saude, bons somnos, pão, e para conduto um apetite desenganado, entre o trabalhar, repito, canta, ou traz o espirito a monte, a sabor de suas chyméras (que tambem as tem como qualquer outro); e é este o mais invejavel privilegio do trabalho corporal, sobre tudo do que tem por materia prima a terra: não captivar senão os braços; cavando, podando, ceifando, se podem, sem prejuiso da obra, estar armando doiradas torres no ar, ou conversar rasgado e rir com os companheiros, ou cevar em silencio a tristeza que se ama, ou a alegria que se esconde.
«Este deus in nobis, divindade campestre, em que se pode crer, perguntae, se não será para muitas invejas aos taciturnos enxames que pejam escriptorios e secretarias; perguntae-o a quasi todos os que remam á consciencia o seu remo na galé baloiçosa do Estado. ¿Quem mais livre?
«Posto o sol, pregoadas as tréguas das lidas pelo sino das Aves-Marias, o meu rustico se recolhe, sem golilhas de seda ao pescoço, para folgar entre eguaes, em quanto a ceia, bem mercada se lhe acaba de coser ao lume que o aquece. Não tem de ir fazer sala a ninguem; respira a peito cheio; não ha ciar-se de mulher e filhas, que não dá a terra óperas nem bailes; filhas e mulher á roda lhe serôam, tão satisfeitas como elle. Não se levanta ali jogo, que, por tentação ou falso pondonor, o obrigue a pôr n’uma carta o casal, a vergonha, e mais a vida. Não o compellem a ajudar com desatinos seus os alvitristas regedores do mundo em sêcco; nem menos a ouvir ler, n’uma coisa malcheirosa chamada periodico (especie de cogumellos da Imprensa, em que entre os não maleficos tantos ha de sapo), o artigo famoso, no qual, sem quê nem para quê, lhe levantam falsos testemunhos para entretenimento de vadios na hora do chylo. Quem não tem com que incite invejas, seguro está de vis praguentos. ¿Quem, finalmente, mais livre?
«Deita-se em cama barata, mas de bons sonhos, com as janellas e portas destrancadas, sem medo a malfeitores, que, sobre não creal-os o sitio, nada reluz na poisada que os attráia.
«Entretanto lhe vão caladamente amadurecendo os pães para a tulha, o vinho para a adega, o azeite e os frutos para a dispensa, a hortaliça para a panellinha de barro, as filhas para o casamento, os rapazes para lhe pagarem na velhice a divida da infancia, e elle e sua mulher para o Ceo, onde crêem de fé que os estão seus parentes esperando.
«¿Então, será, ou não será, este um viver dez vezes mais livre e afortunado que o nosso? Pois não disse eu d’elle tudo que poderia, nem o direi, ainda que já talvez me hajam de arguir de prolixo, que não deixei na materia udo nem miudo; ¡como se miudos houvera no que são condições de boa ventura!
«Se n’isto me dilatei (e confesso que sim) um tanto fóra do meu proposito, foi por ver se dava uma aldrabada de mansinho ao coração de alguns d’estes, que vivem na Côrte por fadario, por vezo, ou por inercia, sempre mal-contentes, pesarosos, abetumados; possuindo, ou podendo, se uma hora olhassem para si, adquirir, sem nenhuma difficuldade, o que eu, e outros taes, tão baldadamente supplicamos á fortuna: uma vivenda campestre, uma existencia natural, serena, commoda, florescente, risonha para a pessoa, dadivosa e exemplar para os visinhos, manancial de riqueza privada e publica, abonadora de bons costumes e de afortunada descendencia; uma existencia, em summa, que a de mais de retemperar corpo, animo e coração, para se n’ella saborearem, até aos renunciados praseres da Cidade refina o gosto, quando por acaso, de longe a longe, e de passagem, se volve a elles.»
Aqui estão, ó meus morgados do trabalho, ó meus fidalgos da gleba, aqui tendes as minhas ambições, que, de esperança em esperança, e de poiso em poiso, depois de me haverem trazido até aqui, me levarão até aos fins do mundo.
Onde quer porém que me ellas conduzam, ou a Providencia m’as realise, ou o meu lidar continue a ser vazio de futuro, sempre entre as minhas saudades vicejará a vossa Ilha; aqui, onde eu, pensando em vós, devaneei os meus mais entranhados devaneios de humanidade, e com tanta fé, que ousei declaral-os, sustental-os, defendel-os; a vossa Ilha, a nossa lustrosa esmeralda engastada na saphira immensa dos mares, e em que o ceo e as terras de longe se estão revendo; a vossa Ilha, este açafate de frutos, onde, se não encontrei o sepulcro ao pé da choupaninha (como desejava), sei que deixo bons amigos, que me defenderão o nome, quando alguem, por não ter acabado de me conhecer, m’o atassalhar.
¡Não depender de mim, como de outros depende, o bemaventural-a! ¡O bemaventural-a era tão facil! a ella, e a todos os dominios d’esta nobre, d’esta memoranda, d’esta desbaratada (mas ainda não perdida) Monarchia; tão facil, tão suave, tão seguro, tão glorioso, tão divino!
¡Dizer que ha pessoas, que teem nos destinos do mundo uma especie de omnipotencia, e que esta lhes não influe nem um vislumbre do amor infinito! Vê-se, e não se acaba de entender.
Quando um potentado desce os degraus do seu jazigo, ¿que que é o que leva?
¿Os palacios, de que já outros estão tomando posse?
¿Os canticos dos lisonjeiros, que lhe deram costas logo que cessou de assignar graças?
¿Os saccos de oiro, que não cabem por aquella portinha?
¿Os cordões e gran-cruzes, que a mortalha repulsa, porque é séria?
¿Os loiros das victorias, que n’essa hora aterram, porque se vêem claramente suar sangue?
Não. Para dentro d’aquelle carcere pomposo, por entre aquelles hombraes estreitos, por onde se entra e se não sai, nada passaria com elle, para derradeiro consolo, senão a claridade das luzes que lá por fóra deixasse accezas, senão os eccos das benções, que para si andasse semeando no semear para os outros felicidade.
¡Oh! ¡quão poucos, quão poucos pezam isto em quanto podem! ¡e quão menos, quão menos ainda, deixarão de o pezar, e ha de pezar-lhes quando já não fôr tempo!
¿Quereis vós saber como todo o mundo se faria de repente bemaventurança? Era se Deus ordenasse antecipada, e já agora, a ressurreição dos mais ruins Principes, Ministros, legisladores, chefes de provincias, Prelados, em summa, de todos os perversos ou negligentes maioraes de nações, de povos, de tribus, de hordas, de familias; e, ressuscitados com a experiencia da agonia e sciencias de além-mundo, lhes ordenasse recomeçarem seus governos.
Os unicos rostos tristes e pallidos sobre toda a superficie da terra, seriam os d’estes penitentes do poder. Quanto mais Neros, mais Titos; quanto mais Caligulas, mais Trajanos; quanto mais Claudios, mais Aurelios; quanto mais demonios na primeira vida, tanto mais Anjos e Semideuses sahiriam na vida nova.
Ó gente esquecida dos outros, e de vós, e de vossos filhos, ó somnambulos que não acordais aos clamores dos povos, e ao estrépito das aldeias que se arruinam, nem ao ranger ameaçador das cidades que apoz ellas se virão a baixo sobre vós, ¿não ha já em vosso coração fibra que não esteja dormente?! ¿nem a do egoismo? ¿Não haverá, com valentia para vós despertar, senão a trombeta do dia ultimo? Lazarones da pseudo-politica, vós sonhais estirados ao sol sobre a terra inculta; e essa terra inculta já foi lava; e por baixo d’essa lava ainda rugem vulcões.
¡Que dó, não poderem estas vozes de tanta verdade, de tanta lealdade, de tanto e tão entranhado amor, não poderem sahir do colmo rôto do casal!
Agora, que tudo é sizudo e meditativo, agora que estas arvores despojadas pregam desenganos, agora que o rugir das folhas sêccas sob os pés agoira vaidades, agora que o anno expirando induz a deitar contas, agora que o seculo termina a sua primeira metade, estes cincoenta annos tão de sangue e de cinzas, para poderem fecundar os cincoenta que ainda lhe restam, ¡não poderem agora estas vozes tão benévolas, ser tomadas por algum dos Seraphins, que de noite espalham em segredo os bons conselhos, para irem ser depostas de mansinho onde ha forças de sobejo para milagres!...
¿Essa gente não verá estrellas lá por cima? ¿Voarão tanto as suas carroagens, que lhes não deixem perceber a fome que gira pelas ruas? O vinho, que lhes jorra de crystaes doirados em seus festins, os frutos que lhes rescendem em prataria lavrada, ¿nunca lhes trariam á lembrança o pobresinho do rustico, de quem tudo isso, e tudo, lhes veio, e que Deus sabe se tem pão para o filhito que desmama?
Deixal-os lá... A Providencia os fará seus quando fôr tempo. ¿Quem sabe se elevados a poderosos vós e eu valeriamos mais do que elles?
Parece-me que as almas são n’isto como as arvores: as mais agigantadas estão nos valles infimos; quanto mais costa acima pelas serranias, tanto mais se apoucam. Segredos do Altissimo, não os havemos nós de julgar. Dêmos-lhe graças de termos nascido na planicie.
De mim sei eu que, se não tenho feito nenhum bem aos meus semelhantes, não é á mingua de muito bons desejos; d’estes, quando são verdadeiros, e se provam, pode um homem, sem pejo, gloriar-se.
Mas hoje comvosco só quero falar do que hei desejado em vossa mesma terra; e não é tanto por vangloria (ainda que talvez poderá esta andar tambem ahi sem o eu cuidar), como que para estes pontos aqui recordados á pressa, em forma de testamento nuncupativo, se reconsiderem, e os que parecerem de préstimo se levem por diante. ¡Como eu não applaudirei lá ao longe cada nova de progresso da vossa Ilha!
No Prologo do vosso Agricultor escrevia eu, se vos recordais, estas palavras:
«Sizudamente discutimos comnosco, se os intereses moraes haviam de ser tambem aqui representados, como em a nossa Revista Universal; e entendemos como a Sociedade, que sim, mas que só fosse de longe a longe. Dentro na fazenda está a casa; dentro na casa o colono, e dentro no colono espirito e coração.
«A Natureza, com a necessidade do trabalho, para que se vivesse, creou a necessidade de repoiso, para que se meditasse. A Religião, sobre cada seis dias de servir, impôz, como corôa, um de cantos, de preces, e de amor. O exercicio do animo e do corpo mutuamente se aliviam.
«A virtude e o prazer, a moral e a litteratura, poderão vir nas boas horas, alguma vez, semear de boninas suas estas paginas tambem suas. ¿E por que não? Deus, que fez as arvores, madeiras, cortiça, frutos, resinas, oleos, gommas, cera, farinhas, pão vestidos, medicamentos, ¿não lhes disse tambem—Verdejae, flori, espalhae sombras como tendas, murmurios como harpas, fragrancias e delicias como noivas? ¿E não lhes disse sobre tudo—Apontae sempre com os vossos braços dadivosos para o meu Ceo?»
¿Ora não procurei eu preencher tal promettido durante os dois annos que então começaram e findam hoje?
A par com as propostas de culturas e creações uteis, de introducção ou aperfeiçoamento de industrias faceis, da inauguração d’um Conselho agronómico, etc. ¿não pugnei com ardor pela Instrucção primaria, pela Educação moral, pelas festas civilisadoras, pelos premios e animações aos meritos, pela rehabilitação do Clero e das mulheres, pela abolição do tributo de sangue, pelo aperto dos laços das familias e dos cidadãos, pela substituição da verdade franca e honrada ás ficções e cavillações da pseudo-politica, pelo aperfeiçoamento do homem em todos os sentidos?
Com documentos o provo, e ninguem com documentos m’o negaria.
Mas as minhas diligencias não pararam em alvitramentos; até onde se podia, sem os grandes meios externos, fui eu. Confederámo-nos, os sollicitos; fundou-se e prosperou uma Sociedade de Amigos das Lettras e Artes, foco e excitamento de convivencia, de trabalho, de instrucção; d’ella brotaram escolas variadas, festas, exposições; tres fontinhas, todas preciosas, de ulteriores progessos, e que, até como exemplo, teem já sido proveitosas.
A vossa villa da Ribeira-grande lá está com brilhantes serões musicos e escolas primarias. Ha-as na villa de Alagôa; ha-as nascidas n’outras partes, e em quasi todas estão despontando.
Na vossa terra organisei um novo systema de leitura facillimo, já approvado para todo o Reino. N’ella compuz um novo Tratado de versificação e poetica, tambem já approvado para o mesmo fim. N’ella, um de Mnemonica. Tres livros elementares, não sem prestimo.
Da Poesia abri curso, de que sahiram dois poetas lyricos de esperanças; e outro curso do mesmo haveriam as damas tido se o quizessem; offereci-lh’o. Offereci-me tambem ao ensino rapido do Latim e Portuguez ao mesmo tempo; se não acudiram alumnos, não foi minha a culpa.
Como invite ao foragido espirito de sociabilidade espancado pelas ruins politicas, tentei um jornal litterario e poetico para os domingos e para as salas, A Sereia; tambem lhe não deram a mão, e ahi se mallogrou.
Introduzi a Gravura em madeira. Tentei a Lithographia. Fiz dar, talvez, um passo de adiantamento á Typographia.
Expertei em alguns mancebos d’alma o amor do Bello e do Bom; por onde espero que as novas escolas que elles vos regem, com fervor exemplar e fanatismo santo, se hão-de arraigar e permanecer.
Commetti o que em terras portuguezas se não commettêra: applicar a Poesia e a Musica, d’antes só desbaratadas em amores e vaidades, a concitar os espiritos para coisas serias e uteis; d’ahi, o Hymno do trabalho, o da Infancia nos estudos, e o dos Lavradores.
Obtive da amisade de um dos nossos primeiros medicos um curso popular de Hygiene.
Provoquei a creação de um Conselho industrial, que acudisse com o fruto dos seus estudos ás consultas dos mechanicos indoutos.
Sollicitei a formação, ainda pendente, de um estabelecimento mixto de Caixa economica, Banco industrial, e Monte-pio.
Acceitei o Commissariado dos Estudos n’esta Ilha, sem interesse, antes com dispendio de fazenda e tempo, pelo mero empenho de apressar a Instrucção, antepondo aos methodos e praxes tradicionaes, methodos e praxes mais do seculo; agra tarefa, de que eu não houvera aberto mão, se barbara e ingratamente m’a não houvessem pago, logo ao principio, com desgostos.
Finalmente, puz peito a que a verdadeira mola real de todos os desejaveis e possiveis beneficios, a nobre Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes, assegurasse a sua duração.
Requereu-se chão nacional, onde, por generosos donativos da Sociedade e da Ilha, se edificasse e dotasse um magnifico solar de Artes e Lettras; requerimento que eu acompanhei incançavel, e em cujo favor, porque era em favor da civilisação, invoquei, e continuo a invocar, Ceos e Terra. ¡Oxalá o defiram, antes que as vontades aqui se descoroçôem e percam totalmente! Mais tarde... poderão semear n’esse chão aveia ou luzerna, ou deixarem-n’o para escalracho e cardos; dará tudo, menos instrucção. Felizmente, deixei-lhe na Côrte protectores intelligentes, zelosos, e de valimento; ainda restam esperanças.
Com esse palacio, se se chega a levantar, espaçoso, commodo, claro, ridente, pintado, ornado, ajardinado, alegre por todas as janellas, convidativo por todas as portas, bondoso e dadivoso em todos os recantos, com aulas de Religião e moral, de escrita, de leitura, de contas, de geometria, de desenho, de pintura, de linguas, de historia, de geographia, de musica, de dança, de hygiene, de civilidade, com theatro para declamação, baile, e opera, com sala para saraus, com basar para productos artisticos, com vergel e sombras para passeio e exercicios gymnasticos, com museu e bibliotheca para estudiosos, ¿quem não vê que haverá ali uma irresistivel attracção para todos os Socios, a qual, junta á ideia do proveito commum e publico, e á diminuição ou cessação de prestações continuas, pela preexistencia de um capital seguro e sufficiente, os trará perennemente reunidos e gostosos?
É por isso que, se hoje nos chegasse a boa nova de se nos haver outorgado aquelle solo, hoje mesmo começariamos a mendigar como Religiosos, para as obras da nossa Terra-santa. Amanhan lhe estariamos, por nossas proprias mãos, uns cavando os alicerces, outros acarretando as achêgas, outros cortando as madeiras, outros serrando ao som do Hymno do trabalho.
O Prelado, nosso consocio, cedendo ao nosso convite, e ao de sua consciencia, viria ao primeiro alvor da madrugada abençoar o chão; as autoridades, lançar nos fundamentos as primeiras pedras; as damas e os meninos, flores.
Com taes estreias, a edificação pularia por entre cantos, todo o dia á luz do sol, toda a noite á dos archotes. S. Miguel em poucos mezes teria para amostrar a todo o mundo um monumento. Teria; e ha-de ter, ou de todo é morta já a alma nas terras de Portugal.
Orae, meus amigos, orae, para que não caia mais essa vergonha em nossa edade.
E agora, que vos hei deixado tudo quanto me restava, que eram votos e preces pela vossa prosperidade, a que eu já não hei de assistir senão em espirito, agora vos abraço; e com a fronte inclinada sobre as trevas do destino, quando eram bem horas de repousar, recomeço a peregrinação.
Dezembro de 1849