Continuação do antecedente
SUMMARIO
Repiza-se a ideia fixa de um Parlamento de Lavradores, como panacêa.—Explicação do entibiamento das vontades quanto á Politica.—Perfectibilidade.—Convencidos d’ella, obedecemos aos nossos instinctos bons.—Lembrête a malignos.—Entra-se em materia.—Apontam-se muitas pessoas, que podem ser mestres por curiosidade: primeiro para escolas masculinas; depois, para escolas femininas.—Suasoria d’alma a todos esses homens, e a todas essas senhoras.—Tambem se deve recorrer aos ricos para pagarem escolas.—Cita-se o honrado exemplo de Plinio, o moço.—O Methodo de leitura introduzido pelo autor facilitou extraordinariamente a execução de taes projectos.—O autor se offerece a explical-o a quem quer que o deseje professar.
Bons e bonissimos eram elles, os alvitres do nosso precedente serão. ¿Mas quando virá cá a sua realidade?
Depende ella e carece de um concurso e concerto de tantas coisas, e tão raras, que, sem offensa nem de pessoas nem mesmo dos tempos, bem podemos presumir que essa ante-manhan da civilisação ainda está longe.
Receio que muitas gerações tenham de morrer pagans, antes que nasçam Messias e Apostolado, que não só facultem ao Povo o baptismo das Lettras, mas que para lh’o darem o procurem, lhe préguem, lhe instem, o reduzam, e o convertam.
Por ora tratam-se outras coisas, que (segundo parece) estão primeiro que a alma, primeiro que o coração, primeiro que as primeiras.
Vós mesmos, meus amigos, ou me engano muito, ou ainda não bem cahistes na maxima, na summa, na urgentissima importancia de olhardes pelos fundamentos de toda a possivel regeneração: a eleição de verdadeiros representantes vossos para Legisladores.
¿E quereis que vol-o diga? Comquanto vol-o deplore, e muito, não vol-o extranho. De puro cançados com este continuo tecer e destecer da Penélope politica, perdestes a fé na Politica.
O almanack dos benemeritos e patriotas, nunca de anno para anno o vistes regular, nem de semestre para semestre. Perdestes a fé em patriotismos e virtudes. Com tantos programmas flammantes, como de continuo brotam, chovem, e ventam de todas as partes, ainda não vistes fim nem diminuição á vossa miseria, e perdestes a fé em promettedores. Em summa: em vós mesmos perdestes a fé; e receio... que na Providencia tambem; pois noto que as eleições dos que vos hão-de representar, isto é, dos que vos hão-de salvar ou perder, a vós e a vossos filhos, á vossa freguezia e á vossa Patria, já á revelia as deixais correr. Desprezais votar, ou votais em quem vos dizem, e até em quem vos não dizem. Lançais na urna dos destinos publicos uns papeis dobrados, que nem lestes nem ouvistes ler. Lançail-os pensando n’outra coisa, lançail-os com a indifferença, com que um ocioso distrahido vaí desfolhando ao longo de um regato um ramo inutil, seguindo com os olhos cada folha em quanto cai, e, logo que na corrente desappareceu, esquecendo-a para sempre; ¡como se cada um d’aquelles papeis não fosse um germen de fortuna ou infortunio para nós todos!
Hombridade civica, ou virtude social (perdoae-me que vol-o diga) não a tendes já, ou ainda a não tendes.
Sois n’isto como quasi todos somos.
¿E quem é que assim nos fez, ou nos atenuou, ou aniquilou? ¿A quem havemos de amaldiçoar?
A ninguem.
Foi a fatalidade das coisas. Os primeiros como os ultimos, os Reis como os bagageiros, os estadistas como os idiotas, todos são por ella arrastados.
Bons e ruins, sabios e nescios, poderosos e fracos, agitadores, agitados, e inertes, todos n’esta apparente confusão somos empregados, por um Obreiro invisivel, para um edificio em que desde o principio do Mundo se trabalha, e por esses seculos fora se ha-de ir sempre trabalhando. É uma vasta e immensa Pyramide, cujo vértice ha-de ser no Ceo, e na qual todo o genero humano anda como operario, suando e gemendo porque só vê a pedra bruta em que se cança; mas a traça total da architectura, com que se podera consolar, é o Divino Architecto que a tem escondida em sua mente.
D’aqui, porém, não concluais que se haja de admittir o dogma mahometano, o tenebroso e quebrantador dogma do fatalismo, essa anti-philosophica e insustentavel parodia do dogma augustissimo, fecundo, e creador, da Providencia.
Vâmos, sim, todos e tudo, n’uma torrente infinita, e que sobe sempre; mas todos com entendimento e liberdade; entendimento, para perceber e julgar; liberdade, para optar e fazer, cada um dentro em seus limites circumscriptos.
Logo, assim como na ordem physica o saudavel e o venenoso, o suave e o terrivel, a luz e as trevas, o gelo e o fogo, a atividade e a inercia, a leveza e o peso, o solido e o fluido, o concorde e o discorde, contribuem, por um jogo milagroso de harmonias, para haver dias, noites, estações, plantas, animaes, homens, mundo, e tantos mundos; assim, na ordem moral, esta incalculavel variedade de ideias, de opiniões, de systemas, de affectos, de egoismos e generosidade em todos os graus, de exforços para o bem, de exforços para o mal, de aspirações para a claridade, de aspirações para a escuridão, de instinctos de sociabilidade, de instinctos dissolventes, de pusillanimidade, de virtude, de rudeza, de engenho, de sciencia, de illusões, de sophismas, de absurdos, de verdades, de probabilidades, de prophecias, de experiencias, conspira para que a natureza moral, obedecendo, sem o saber, á Providencia, lá se vá, como cometa enigmatico, composto de luz e envolto de nevoas, progredindo pela sua orbita incommensuravel.
Deixemo-nos de queixumes excusados. Tudo obra e ha-de obrar segundo sua natureza.
A rosa embalsama; a mancinella envenena; o rouxinol canta e poetisa; o tufão brama e devasta; a montanha medita; o valle ri; a praia entristece-se; o Oceano ruge e devora; a rôla ama e dil-o; o reptil desembosca-se, punge, e foge deixando morte; o raio fracassa e pulverisa; a alvorada retinge e floreja; o sol nos diz «Vida»; a lua, «Ternura»; as estrellas, «Immortalidade»; o menino, «Innocencia»; a mulher, «Doçura e heroicidade para sacrificios»; as cans, «Repoiso e reflexão»; a virilidade, «Energia e emprezas»; em suma: o ambicioso, o vil, o avaro, o pródigo, o caritativo, o perseguidor, o tecelão de enredos, o mineiro de verdades, o que se cança a accender luzes, o que se não cança de apagal-as, os que vozeiam: «Para a frente!», os que gritam: «Alto!», os que murmuram: «Para traz», os que vêem por cima da terra uma abóbada de Ceos, os que para alem da terra nada vêem, os que acreditam nos destinos da humanidade, os que não acreditam senão nos seus proprios, os que usam e os que abusam da sua alma e da alheia, os que usurpam, os que assumem, os que acceitam, os que desdenham, os que menoscabam, os que insultam, os que sullapam, os que perseguem o poder, todos concorrem, ou todos concorremos, com penedos, silharia, areia, cal, barro, cascalho, pórphiro, suor, lagrimas, e sangue, para o edificio providencial, para o futuro palacio no segundo paraizo do genero humano.
Com muita ou pouca esperança, obedeçâmos á nossa natureza, e cumprâmos o nosso fadario, nós outros, os que (mercê de Deus) anhelamos pela dita da Patria, que ninguem dirá que não esteja muito enferma, e muito triste.
Eu já agora, meus amigos, n’isto hei-de perseverar, requerendo para Ella luz e mais luz, campo e mais campo, trabalho e mais trabalho, até que os obscurantes, obedecendo tambem á sua natureza, e cumprido tambem o seu fadario, me hajam acabado, não com o bom proposito, que o não podem, mas com a vida.
¡Se vós bem soubesseis, meus irmãos do casal, o que elles teem urdido, e urdem, e tramam contra o pobre de mim, que nunca lhes fiz mal, nem a ninguem, só por terem visto que, em vez de acudir ao chamamento dos seus muezzins, e ir ás suas mesquitas psalmear o seu alcorão, só curo da instrucção elementar do Povo!...
¡Se bem soubesseis a feridade e impudor com que me atassalham o nome, e me cospem na sombra, só porque me desarrisquei de bandos politicos! ¡a risivel ociosidade, com que discutem e decretam em seus conventiculos, ora que me envenenem, ora que me prendam e multem, ora que me deshonrem, ora que me dessoceguem e me defraudem do tempo, só porque esse tempo eu o consumo, com parte do meu escaço haver, em fazer que se ensinem as primeiras lettras aos vossos filhos, e aos dos artifices desvalidos!
¡Se adivinhasseis os embustes indignos, as suggestões aleivosas, as ameaças e espancamentos brutaes, com que d’estas fontes de doutrina teem procurado arredal-os!
Não sei qual admirarieis mais: se a sua maldade e demencia, se o meu soffrimento e perseverança.
Mas, por descargo de consciencia, sempre vos digo, que os admireis antes a elles do que a mim, que já acabei de ser para elles tão generoso como pareço. Não lhes digo o que a lima do ferreiro disse á vibora que a esmordaçava... mas condemno-os a viver.
D’aqui avante, zunam e piquem quanto quizerem; de tudo faço registo para um archivo, que a elles lhes está defezo pela Natureza: para a Posteridade.
Fundo em bronze todos estes seus feitos magnanimos. Esculpo em ferro os seus retratos, semelhantissimos de asquerosidade, sublimes de hediondez. Por baixo gravo-lhes os nomes; gravo-os fundo e com todas as lettras; e todos estes aleijões de museu, não tanto por vingança, como para escarmento a outros temerarios, hão-de ser em um livro carreados para o porvir. ¿E que duvida? ¿Não é assim que o mundo conhece, ainda hoje, dementes e facinorosos de dois mil annos?
Já os tinha avisado. Quizeram-n-o, tel-o-hão. O ferro e o bronze da minha fundição não se acabaram, nem se acabam tão depressa.
Perdoae-me, boa gente. Descabidas coisas são estas para a amorosissima serenidade do vosso casal; e bem alheias são ellas tambem da minha indole, só propendente para bem querer e muita paz.
Venhâmos pois ao que mais nos importa: ao nosso grande ponto das escolas, que são as eiras em que primeiro se prepara o pão da alma.
A alma tambem, como o corpo, morre á mingua de alimento. Se aquella ruim gente, que detesta e persegue as nossas humanas diligencias, tivesse aprendido, e soubesse, já pode ser que não empregasse tão desalmada e torpemente a sua actividade.
Para que os filhos e netos não venham a ter ás Lettras egual odio, antes por ellas cada vez se pulam e amaciem mais, e se façam mais poderosos, mais ricos, e melhores, é que devemos forcejar para que se multipliquem, por campos e cidades, estes sacerdotes e curas de almas infantis, a que dão o humilde mas bello nome de Mestres de primeiras lettras.
Das Côrtes e do Governo, tarde nos virá o remedio, que dizem e repetem não lhes sobrar dinheiro para escolas; e é verdade; só o Exercito devora quasi metade do Erario. Vejamos logo, se, em tamanha mingua e desamparo, nos não podemos ir, como quer que seja, remindo por nós mesmos; bem, completa, e devidamente, não o cuido; mas até certo ponto, emquanto a Providencia não acode, parece-me que sim. Ora vêde:
Em toda a parte ha sempre, por entre o cardume dos rusticos e ignorantes, alguns individuos mais mimosos da fortuna, que aprenderam alguma coisa, que vivem com certa abastança, e a quem sobram horas para aborrimento ou desmanchos, se as não poserem a juro para a consciencia e para o Ceo. Ha o Parocho; ha o Cura; ha o Doutor, ou Licenciado; ha o proprietario, que traz arrendados os bens; ha o negociante, que chegou á sua conta, e para descançar fechou as portas á fortuna; ha o laborioso, que andou moirejando barras de oiro por terras extranhas, e quiz vir morrer descançado no quarto em que nasceu, e comer as couves creadas deante da sua porta, como em menino; ha o militar aposentado, que não sabe o que faça do anno; ha o professor emérito, a quem ainda ás vezes o ensino lembra com saudade; ha o estudante que veio a ferias, e que está n’aquella edade feliz, em que a alma gravíta com tanta força para a publica estima, como o coração para o amor; ha o velho, que não pode sahir, mas conserva os olhos e ouvidos, a memoria e a voz, e folgaria de ter com que encurtar os dias, tão solitarios e tão longos; ha o Magistrado homem de bem, e o Escrivão honesto, a quem seus officios deixam remanescentes de muito boas e aproveitaveis tardes; ha o Ecclesiastico sem beneficio mas não sem entranhas; ha o ancião Egresso, que perdoou tudo, e, se o não esqueceu é porque deseja bemfazer ao mundo, que o desterrou do ermo para o povoado, continuando e augmentando no mesmo povoado as obras de sua caridade.
¿Ora, por que não haveis vós, os mais velhos e respeitaveis de cada aldeia ou logar em que não ha escola, por que não haveis de ir ter com algum d’estes homens, acompanhados de vossas mulheres e de vossos filhinhos, e supplicar-lhe, pelo amor do Pae Commum, e da sua alma, e de vós, e da Patria, e da Humanidade, abra um ensino de ler, escrever, e contar, nos dias de semana para os pequeninos que ainda não trabalham na terra, aos domingos e aos serões para os grandes já callejados, e para vós mesmos?
Se o primeiro se vos excusasse, o segundo vos deferiria. Se o segundo vos repellisse, o terceiro, com mais lagrimas nos olhos do que vós mesmos, vos despacharia e agradeceria a supplica.
Depois, era ir de porta em porta, pedindo ás senhoras habilitadas para tão nobre encargo, egual mercê para vossas filhas e esposas, porque (segundo já ponderámos) na instrucção das mulheres se contém a dos homens para o futuro; e logo que as mães souberem ler, não haja medo de que os filhos o ignorem. Para uma Religiosa no seu convento, ¡que gentil e religiosissima occupação, obtida do Prelado a licença para ali se abrirem as portas a uma escola feminil!
¡Oh! ¡quem me dera poder estar meia hora, ou um quarto de hora (bastava), ao pé de cada uma d’aquellas senhoras, e de cada um d’aquelles homens, antes que vós entrasseis com o vosso requerimento!
Não lhes diria o que a Religião lhes insinuára; não lhes invocaria o patriotismo; não lhes encarecêra mesmo a grandeza de tão facil beneficio, nem a vossa gratidão, nem os respeitos que semeavam na geração nova, nem o thesoiro de consolações que atulhavam para o ultimo praso da vida, em que tudo que se ajuntou se deixa, e só o que se deu se leva para a grande viagem.
Pedir-lhes-hia só, que experimentassem a delicia do ensinar, sobre tudo de um ensinar desinteressado, como de pae e mãe a filhos e filhas; ¡o como, n’aquelle trato intimo com a puericia, permitte Deus ás nossas almas rejuvenescer e florir!
Na innocencia, na alegria, na lealdade, no affecto perenne, que está ressumbrando em todos aquelles rostinhos, sempre ávidos de saber, sempre distrahidos, sempre buliçosos, veem-nos umas virações de passada bemaventurança, que já foi nossa, e parece prophetisar ainda o que quer que seja. Deliciâmo-nos, como o viandante cuidoso e cabisbaixo, com o cheiro longinquo de rosas vindo de um jardim que se não vê. ¡Horas, horas de éxtase, que por todos os bailes, honras, e thesoiros, seriam bem mercadas!
Oh! cultivae, cultivae esses espiritos e corações tão esperançosos. Toda a cultura é saudavel e rescendente; mas nenhuma como essa.
Todos os entes alados, em quanto estão, com amorosa febre, aquecendo sob o peito e entre as asas os pequeninos da sua especie, mantendo-os a grãosinho e grãosinho, a verme e verme, e ensinando-lhes a adejar, são, de quantos grupos de felicidade a Natureza encerra, os mais formosos. ¡Oh! o nosso espirito é tambem uma coisa alada como os Anjos.
Uma escola, em que os profanos não vêem senão tédio, não ouvem senão sussurro, é aos olhos de todo o bom entendimento um ninho, cem vezes mais carinhoso e interessante que o dos passaros entre as sombras verdejantes da primavera.
Ha ainda, meus bons amigos, outras pessoas, a quem podeis recorrer (¿Vêdes vós? a Providencia é liberalissima): são os ricos.
¿Que muito é para esses, com um átomo supérfluo do seu oiro pagarem um mestre para os desvalidos?
—«¡Mas podiam-n-o ter feito, e nunca o fizeram»—direis vós.
É verdade; porém todas as coisas principiam uma vez. Não reflectiram ainda na facilidade e excellencias de tal obra. Não teria ainda chegado a sua hora de acordar; porque lá dizer que o oiro mirra o coração, que não ha poderosos bemfazejos, é calumniar ao mesmo tempo ao homem, e ao seu Autor.[3]
¡Que relvado florído, entre sombras inspirativas, não é este assumpto de conversação, para n’elle a vontade se espairecer! É forçado deixarmol-o por agora.
Voltae vós a elle com os vossos sonhos d’esta noite, com os vossos pensamentos de amanhan todo o dia. Cuidae-me e pesae-me bem isto toda a semana; e domingo, depois da Missa, na sacristia mesmo, quando o vosso Parocho se houver acabado de desvestir, puchae com elle a pratica a este proposito; consultae-o, ouvi-o, e fazei-o no negocio procurador vosso, que não o podeis ser mais proprio e natural.
[3] ¡Que bom exemplo não é para citar aos ricos o de Plinio o moço, pagão, romano, e dezoito seculos mais antigo que nós! Pedir-lhes-hia que lessem a XIII do Livro IV das suas Cartas, escrita a Cornelio Tacito; talvez se tentasse algum d’elles.
Se vos parecer, apontae-lhe, mas que seja por longe, aquelles dois apostólicos varões, Prior e Cura da villa do Nordeste, aqui, na vossa mesma Ilha, que, sobre olharem por todas as necessidades moraes e corporaes do seu rebanho, até a estas do ensino acodem com escolas, diurnas e nocturnas, em que são professores elles mesmos.
A unica difficuldade, em que tudo isto de escolas podia encalhar, logrei eu, eu obscuro homemzinho, mas muito vosso amigo, a ventura de a aplanar completamente.
A difficuldade, que até agora se tem opposto a haver muitas escolas, e em cada uma d’ellas a safra do fruto desejavel, era o ronceiro, o moroso, o semsabor, o imperfeito, do ensino. Com o Methodo de ensino que eu introduzi, em poucos mezes de recreativo exercicio se chega muito adiante do que até aqui em annos largos se conseguia; com o que, já vêdes se desvaneceram as maiores e peores objecções, que ao nosso empenho se podiam pôr.
¡Animo pois, e avante! Teimemos, como vos dizia, nós outros, os amigos dos homens, no nosso bom fadario; e deixar os outros obstinar-se lá no seu.
¿Sabeis uma coisa? Parece-me que esses homens, com o seu odio ás luzes, concorrem a final, tanto como nós com o nosso amor, para se ellas diffundirem. ¿Porquê? porque as suas perseguições nos servem de estimulo; as suas picadas nos amadurecem, como as de certos insectos, que a Providencia fez, muito de industria, para o sazoamento de certos frutos.
Tomae sentido n’isto:
Se achardes, que espero em Deus haveis de achar, quem se promptifique a vos crear uma escola, seja quem fôr, dizei-lhe que eu, o vosso amigo, me dou por obrigado a industrial-o em só uma ou duas lições, para ensinar a ler como por encanto.
Se duvidar, pedi-lhe que venha. Verá provas, e ficará sendo prova elle mesmo.
Setembro de 1849.