XV
Nono serão do casal

Leituras publicas

SUMMARIO

Porfia-se na summa precisão que temos de Instrucção primaria.—Bom exemplo que S. Miguel está dando com as suas escolas.—Ellas progridem, e hão-de ir a mais.—O que urge agora, é que os ignorantes conheçam o agrado e préstimo do saber.—Recommendam-se para isto as leituras publicas.—O Carlos Magno nas roças do Brazil tem feito que muitos negros aprendam a ler.—O mesmo nas colonias francezas a novella de Paulo e Virginia.—O leitor publico no proprio trabalho tem a recompensa.—Leituras publicas dos Gregos e Romanos, e suas vantagens.—Tem-se grande fé em que não faltará quem se offereça a fazel-as.—Entretanto, o Povo que as sollicite.—Nenhuma estação mais propria para as publicas leituras, que o inverno.—Aponta-se d’onde os livros podem vir, e quaes hão-de ser.—Aconselha-se o traduzirem-se obras estrangeiras e populares.—Robinson Suisso.Colloquios aldeãos, por Timon.—Os Colloquios vão sahir em vulgar.—O Robinson, traduzira-o eu, se podesse.—Digressão sobre o socialismo.—Providencia para haver boas obras populares.

Assumptos ha, que, parecendo mui simplices, nunca de todo se esgotam. Isso teem de seu as coisas intrinzecamente boas: que a tantos respeitos e por tantos modos o são, que mais se amam e desejam quanto mais se investigam, e conhecem.

Tornemo-nos á nossa instrucção primaria, risonha e amorosa alvorada do dia esplendido e magnifico da civilisação. ¡A ella, com toda a fé e caridade! ¡com toda a esperança e devoção! ¡com todo o ardor e fanatismo! ¡A ella desde hoje! ¡e teimar n’ella, em quanto os que mais o devem e podem não vierem, pelo desempenho do seu officio, desobrigar-nos d’este nosso!

E nem ainda então havemos nós de descançar; havemos de nos aggregar a elles como auxiliares livres.

Vasta e difficil é a conquista de que se trata; nem elles sem nós, nem nós sem elles a perfariamos. Venha de cima o favor; venham por baixo as diligencias, que sem suor de trabalhadores, e influxos de sol e ares, não ha colheita que se abençôe.


Por emquanto o que mais urge é, como vos dizia, crear no Povo cubiças, ou mesmo veleidades, de se instruir (quando mais não seja), e deparar-lhe, quando não fontes caudaes para essas sêdes, ao menos alguns caritativos poços, como os dos Arabes nos desertos; quero dizer: á falta de escolas do Estado, com excellentes mestres e grandes meios, ensinosinhos particulares e gratuitos.

Esta ideia, que não é minha, nem de ninguem em particular, sim do seculo, já por ahi vai lavrando; e com tão boas mostras, que, a não vir saraivada que a destrua, ainda esta Ilha tem de ser apontada e seguida como exemplar.

¡Que de escolas gratuitas já nascidas e pegadas no seio da Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes! ¡Que de alumnos já aproveitados e instruidos por cada uma d’ellas! ¡Que de outras já a rebentarem pelas vossas villas, e até em aldeias! Os factos que d’este genero me teem vindo ao conhecimento são para grandissima consolação, e para se registarem com summa ufania. ¡Oh! prometto-vos que ainda o hei-de fazer. Os nomes d’esses mancebos generosos, e os d’esses poucos Parochos, que assim acodem ao pregão do seculo, aos gemidos da necessidade, e aos clamores da sua consciencia, ou eu hei de todo esquecer, ou hão de ficar lembrando.

Assim, que por esta parte não ha senão que dar muitas graças, e confiar no contagio santo. As escolas espontaneas brotam, e estão crescendo; logo, hão-de continuar a crescer e multiplicar; e não só para leitura, escrita, e contas, mas para outros generos e graus mais subidos de instrucção. Se o duvidasseis, apontar-vos-hia mesmo para fóra da Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes: para a dos vossos amigos especiaes; para a Promotora da Agricultura Michaelense, com os seus cursos de Historia natural, de Botanica, de Physica, e de Chymica. Ha tráfego intellectual, ha; e já superior ao que poderia presumir-se; mas, para que elle dure e se augmente, é que é preciso que os necessitados de aprender conheçam a miseria e vergonha da sua mingua, desejem, queiram, e procurem remedial-a.


Hoje em dia, a nossa maior carencia não é já tanto de quem tenha vontade de ensinar, como de quem se afervore por aprender. Ha proporcionalmente mais quem dê, ou quem offereça, do que quem peça, ou quem acceite.

¿E como se hão-de ir abrindo as tantas escolas de que ainda havemos mistér, se do nada se não forem evocando os rogos e votos dos que as devem frequentar?

O mestre é um medico; o discipulo, um doente. Em quanto o doente se não conhece como tal, em quanto não deseja saude, em quanto não implora soccorro, o medico, ainda que perto more, não apparece para o salvar. Seja o nosso ponto, primeiro que outro nenhum, accender em vós mesmos e em vossos filhos o gosto da leitura; d’elle, como o effeito da causa, virá tudo mais.

As ponderações, que já vos fiz, e vos tenho repetido, sobre as conveniencias do ler para o aperfeiçoamento moral, industrial, e agricola, para augmento dos haveres, da saude, dos deleites, e da convivencia, são muito certas, muito claras, e muito irrefragaveis; mas receio que não tenham, só per si, efficacia bastante para vos vencer a natural inercia. Quer-se uma persuasão mais immediata, um argumento, embora menos forte, porém mais presente, e, como tal, menos resistivel. N’uma palavra: quer-se que o ler, já pela sua propria formosura, vos namore, independentemente do que promette e pode dar.


¿Sabeis vós que aquelle popularissimo livro de Carlos Magno, apesar das suas rematadas loucuras, e nenhuma substancia, tem sido o mais poderoso incentivo de Instrucção Primaria? Pois é assim. Até nos serões das roças e engenhos de assucar, pelos sertões mais sáfaros do Brazil, o Almirante Balão, os Doze Pares, e a Princeza Floripes, dando horas de encantamento a corações simplices e espiritos boçaes, crearam n’elles a inveja, a sêde, o estudo, e logo a sciencia, o gosto, e o costume do ler.

O negro que sabe solletrar por aquellas paginas de maravilhas, é respeitado e festejado por todo o auditorio; centenares de negros e negras, de todas as edades, lhe pendem dos labios sem respirar, horas inteiras; se elle cahir doente, cegar, morrer, ou fôr vendido, ¿quem lhes fará esquecer as penas e trabalhos do dia com taes relações estendidas pela noite até deshoras?

É por isso, e para que tamanha calamidade se não possa nunca realisar, que todos ambicionam, e muitos logram, aprender, á custa do repoiso e do somno, a maravilhosa Arte, por quem as memorias do Arcebispo de Turpim ainda estão vivas.

O que nas roças do Brazil tem operado o Carlos Magno, tem-n-o egualmente feito, entre os negros das colonias francezas, aquella prosa-poema, aquelle poema-flor, aquella flor sempre orvalhada de lagrimas, Paulo e Virginia.


Á vista d’estes dois factos, ¿por que não aconselhariamos, se procurasse introduzir o costume das leituras em commum, semi-publicas, ou publicas, nas aldeias e villas, e até nas cidades?

¡Que agradavel, que util, que nobre exercicio para o leitor! ¡Que magisterio tão facil de exercer! ¡Que derramar de beneficios tão sem custo! ¡Que victorias sem combate! ¡e que triumphos sem odios!

Com esta bella usança, se formaria entre nós essa arte preciosa de ler, recitar, e declamar; mais conhecida, praticada, e presada pelos antigos, do que em nossos tempos. Os melhores livros dos Romanos, ¿não sabemos nós que eram lidos por seus autores, ora em suas salas perante convidados, ora perante o povo nos theatros? ¿De poetas e oradores Gregos não alcançamos outro tanto? ¿e não é verosimil que por ahi se ajudariam as Lettras dobradamente a subirem a tamanha perfeição? á uma, porque o escriptor, para entrar em duello com o juizo publico, se armava de ponto em branco, e em cada um d’esses combates aprendia e se amestrava; e á outra porque das suas coroas de loiro forçosamente haviam de cahir bagas, que produzissem novos loiros para futuros émulos.

Ainda que outro bem se não seguira de taes leituras, já grandemente valêra a pena de as crear e as generalisar, se o nome de pena podera caber ao que é só goso.

Mas o principalissimo proveito de tal praxe é o dos ouvintes. Pessoas que nunca leram, nem sabem; outras que não teem livros; outras para quem o mais pequeno volume é um labirynto inextricavel e sem sahida; outras que na solidão de um aposento silencioso nem com Virgilio caberiam, e para quem a sociedade é condição impreterivel do agrado; todos acudiriam á leitura em commum.

Todos lhe applicariam mais attenção, porque a attenção é tambem contagiosa. Todos comprehenderiam melhor, e gostariam mais a fundo, porque entendimento e coração, tudo em nós, não sei como, cresce e se melhora na proporção do numero de cabeças que em derredor trabalham no mesmo objecto, dos rostos, ouvidos, e olhos, que escutam as mesmas palavras, dos peitos que identicas paixões comprimem ou dilatam.

D’este modo tudo concorrêra para que o succo, expresso do livro por um leitor habil, fosse para cada um dos circumstantes o mais agradavel, o mais copioso, e o mais nutritivo, assim como para que a cubiça da leitura se pegasse aos que nunca a aprenderam; os que a aprenderam mal, se industriassem; e os que por perguiça lhe fugiam, chegando a reconhecer-lhe os feitiços, se lhe entregassem de corpo e alma.


Meus amigos, se no outro serão nós confiavamos em que não faltaria quem se offerecesse a vos reger escolas, ou pelo menos o acceitasse quando rogado, ¿como não teremos grande fé em que haverá de sobra quem para estas leituras se vos offereça? Um pequeno rol dos que poderiam ser, já vol-o eu apresentei; se vos não acudirem logo, ide-os vós desafiar, e ide affeitos, que vos não hão-de resistir. Não percais tempo; temos á porta as descompassadas noites do inverno.

O inverno é, sobre todas, a estação do espirito, do recolhimento, da casa, da sociabilidade.

No inverno o Sol, esse grande poeta de Deus, interrompe, para descançar, o seu poema de seis mil annos. A Natureza adormece. Tudo deserta dos campos: as aves, á busca de primavera; os gados, para a quentura do aprisco; os bois, para recobrarem força para a lavoira; os filhos das cidades, para os theatros e assemblêas; vós, para a abhorrida monotonia da lareira.

¡Um leitor! ¡um leitor! ¡o vosso Cura! ¡o vosso Escrivão! ¡o vosso Facultativo! ¡um de vós! ¡seja quem for: um amigo, que vos ajunte com um bom livro n’uma cosinha, n’uma sala, n’uma adega, n’um celleiro (¿que importa onde?)! ¡que vos leia, vos explique, vos oiça as duvidas, vol-as desate, ou vos ajude a desatal-as, vos ensine o que elle mesmo não sabia, vos descubra o mundo que nunca vistes, vos engolfe, pelas catacumbas encantadas dos seculos preteritos, vos leve a peregrinar pelo Universo fora, vos descortine cardumes de maravilhas em que nunca attentastes por terra e ceos, vos revele que tendes lá dentro um coração, vos infunda mais alto respeito de vós mesmos, mais sublime ideia de vossa alma e de vossos destinos, noções mais distinctas de vossos direitos e de vossos deveres, mais ternura para com a familia, mais aferro á Patria, e fraternidade para com o genero humano!

¡Um leitor! ¡um leitor¡ e o vosso inverno vai ser mais florido e harmonioso que a primavera; mais verde, luminoso e accezo que o estio; mais frutifero e scismador que o proprio outono.

¡Um leitor! ¡um leitor! e a quadra que chamavam morta, será para os vossos interesses de todo o genero a mais activa; e, no meio dos folguedos e abastanças das outras tres, a mais recordada com saudade, a mais esperada com alvoroço.

¡Oh! ¡não poder ser eu, eu mesmo, o vosso leitor!....


—«Mas os livros—perguntareis vós—¿d’onde hão de vir? ¿e quaes hão-de ser?»

Hão-de vir, com summo gosto emprestados por quem quer que os tenha, em quanto de outro modo se não possa. E depois.... ¡tão poucos bastam! ¡A leitura, saboreada como deve ser, funde tanto!

Agora, quanto á escolha (porque emfim, grão para semente ha-de ser escolhido), quando por si só o vosso leitor a não soubesse ou ousasse fazer, nada mais facil que tomar conselho com algum erudito sizudo, o qual provavelmente faria mais que indicar-lhe e recommendar-lhe a obra: facultar-lh’a-hia, tendo a; não a tendo, lá lh’a iria desencantar.

O catalogo dos livros portuguezes mais proprios para estas leituras é por ora (¡ainda mal!) muitissimo curto. ¡Ah, boa França! ¡ah, boa Inglaterra! ¡ah, boa Allemanha! ¡ah, boa Italia, que os teem em cardumes, e curam da instrucção de meninos e plebeus, como de coisa séria, e de vez.

Todavia, ainda aqui mesmo, e de repente, alguns titulos poderiamos citar ao vosso ledor, segundo os diversos interesses que elle tem de servir e prégar: verbi gratia:

D’estas obras, algumas são inteiramente traducções; outras, traducções em parte; mas essa consideração só por si pouco faz para o nosso caso. ¡Oxalá que muitos outros originaes estrangeiros, dos que merecem ser vulgarisados, se fossem para cá trasladando! Eis aqui dois, bem credores de preferencias, dois, cada um dos quaes pela utilidade vale uma bibliotheca: o Robinson Suisso, e os Colloquios aldeãos, de Timon.[4]

[4] Entretiens de villagepar Timon. (Vicomte de Cormenin). A leitura d’esta obra, de que eu não conhecia mais que o titulo, sobre modo me lisonjeou o amor proprio. Muitos dos meus pensamentos e desejos n’esta serie de artigos, haviam coincidido, e concordam, com os d’aquelle excellente philosopho. Não falando no talento, em que elle me leva notoriamente a palma, no seu livro me vejo como em um espelho. Elle obteve a amisade dos homens de bem, e alguma gratidão dos infelizes; por que não hei-de eu esperar tambem uma e outra coisa?

Castilho

O primeiro é um formoso estudo da Natureza, entresachado com um mellifluo curso de Moral; paginas, que todas resplandecem e palpitam, que todas nos amam, e que todas amamos.

O segundo é a alma de um homem humano, que, apoz muito ver, muito meditar, muito enganar-se, e muito desenganar-se sobre a politica e os estadistas, vai procurar a felicidade do Povo onde só a pode haver: no querer e bom juizo do mesmo Povo, na morigeração, na diligencia, na economia, na fraternidade, na religiosidade.

Os Colloquios aldeãos (dae-me as alviçaras da nova), brevemente os havereis em linguagem chan, sincera, e vernácula, como convem, e é essencial condição em todo o escrito que aspira á honra de ser ouvido, lido, manuseado, aprendido, assimilado, e a final vivído, pela Plebe, pelo Povo, pela Classe média, pela superior, pela Nação, pela Posteridade, pelo Mundo.

O Robinson Suisso, já d’aqui me obrigára eu a que tambem o houvesseis, e tambem em linguagem vernácula e muito vossa, se a fortuna de quem escreve com a alma deitasse a tanto como lhe chegam os bons desejos. Porque olhae vós: amigos do bem publico não faltam entre os homens que se consagram ao estudo; mas são aguias, a quem a fortuna, parece que por escárneo, se diverte a depennar as azas, ao mesmo passo que, por escárneo tambem, as vai atar, mui brilhantes e espaçosas, em quem não sabe, nem quer, senão dormir.

¡Grande desconcerto! ¡misero e miserrimo desconcerto, o que tão boas e optimas coisas dessemeia, ou calca no embrião, ou afoga á nascença, ou ao desabrochar ou ao florir as torce, as quebra, as arrebata, as confunde, as perde, as aniquila!


Oh! Quando um pouco n’este desconcerto do nosso estado presente se repara; quando tão claramente se reconhece a perda que ahi vai para o genero humano na anti-providencial discordia dos diversos meios de acção, isto é das riquezas da alma, das riquezas da diligencia, e das riquezas da bolsa, ¡que tentações não veem a um coração generoso de venerar e abraçar (a despeito de todas suas difficuldades) a sublime theoria da numerosa e crescente escola de Fourier!

Calumniado nas intenções pelos que nunca o estudaram, o systema da universal harmonia, o systema mais profundamente respeitador das propriedades, a ser exequivel (segredo, que por ora só pertence ao Altissimo), é o mais prenhe de immensos e prosperrimos destinos; o unico, efficaz para regenerar a terra, precavendo e impossibilitando revoluções; o unico, poderoso para realisar superabundante e illimitadamente as promessas charlatans e sempre fallidas dos politicos; o unico, por onde a ideia da Providencia se ha-de tornar comprehensivel a todos os entendimentos; o unico, emfim, digno do Homem, digno da Natureza, e digno de Deus, que a elle o fez para ella, como Elle é para ambos e para tudo...


...¡Oh! ¡por onde me ia eu agora! ¡quão longe do casal e do serão! ¡por esse Universo e seculos fóra!

¿E a proposito de quê?

De bem pouco: de mim, que tenho alma e vontade energica, e alguns meios internos para ser util; que forcejo pelo ser, e, por falta de concurso de meios externos, me gasto, abrazo, e consumo, como moinho sem grão a trabalhar sobre si mesmo.

¿Hei-de acabar, hei-de morrer, como outros muitos, sem haver podido deixar rasto de bem para os meus semelhantes?! eu com faculdades, eu com vocação, eu com valor, eu com empenho, eu com diligencias, eu com a minha missão bem sentida, bem acceita, e bem jurada, e, até onde pude, bem cumprida, de amar aos homens, de collaborar com os obreiros desinteressados, de pospôr mais que o meu individuo, os individuos do meu sangue, ao proveito abstracto e hypothetico, mas fascinador e grandioso, do maior numero, e do porvir?!....

O que havia aqui dentro, e se mallogrou, só Deus o sabe; eu mesmo não o alcanço. O meu destino, como o destino de muitos de vós, como o da maior parte dos homens no actual cahos (alcunhado por antiphrase estado social), brevemente será reduzido a cinzas, sem ninguem o ter lido. A Providencia m’o escrevêra do seu punho; a fortuna terrestre com a sua mão sacrilega m’o fechou com sete sellos. Todo o meu trabalhar apenas dos sete rompeu um; espreitei para dentro; deletreei algumas palavras soltas; eram nobres.

Amanhan será tudo pó. Depois de amanhan... nem o pó já lembrará.

¡Ó meus irmãos da Utopia harmonica, almas generosas e consoladoras, derramae-me, vós ao menos, sobre as chagas do coração o suave balsamo da esperança! Feneça eu embora mallogrado e perdido; mas fazei-me crer, na minha ultima hora, que para os meus descendentes ha-de já ter nascido redempção; que o labyrinto, onde os mais nobres Athenienses eram devorados, vai desabar; que eu, e vós, e os contemporaneos, somos as derradeiras victimas do Minotauro.

¡Outra vez fóra do serão! ¡outra vez fóra do casal! Desculpae-me; agora volto; e ainda que a rasão me chame lá fora, não torno a sahir, que tambem cá dentro a temos, e muito forte, e muito formosa, no grandioso assumptosinho que vinhamos tratando.


Queriam-se pois para as nossas leituras ou lições populares, além das obras já indicadas outras, e muitas, de Religião, de Moral, de Hygiene, de Medicina caseira, de Agricultura, de Veterinaria, de Physica, de Chymica, de Zoologia, de Botanica, de Mineralogia, de Economia, de Direito publico, de Direito civil, de Direito criminal, de Historia, etc.; opusculos curtos, em linguagem pura (estragal-a, como por ahi a estragam, para populares e meninos é um crime), e finalmente baratos e quasi dados.

¿Parece-vos isto difficultosissimo? pois não é.

Homens de saber e engenho para escreverem taes opusculos, não faltam; o que só falta, é a Lei nova, e novos costumes, que lhes afiancem o não perderem, nem o tempo que houverem gasto no estudar e escrever, nem as despezas que houverem feito no imprimir. O costume virá do tempo, da rasão, e da mesma Lei; a Lei muito facilmente poderá vir do vosso e nosso Parlamento. Adopte e sanccione elle o alvitre que ha seis annos publicavamos[5]: ponha tributo de sello ao papel em que se imprimem deploraveis e estragadoras traducções de excusadas e abominaveis novellas francezas, e com o tributo d’esse imposto, mais racional que o do sello nos papeis forenses, faça premios aos escritos illustradores e sociaes. Será queimar ou enterrar as hervas más para adubio de plantas uteis, que é fazer n’um só lanço dois beneficios.

[5] Revista Universal Lisbonense—Tomo II, n.º 37—1.º de Junho de 1843—artigo 1741.

D’esta sorte os autores, seguros da perda, perfarão o que hoje nem ousariam commetter. Pagas de antemão as suas despezas, poderão dar os seus livrinhos por vil preço. A barateza, junta á utilidade, os fará copiosamente vender e reimprimir, com proveito sempre crescente d’elles, com proveito sempre crescente de todo o Publico.

Em quanto, porém, essa edade aurea das Lettras, Artes, e Sciencias, nos não chega, os nossos bons leitores publicos que se remedeiem, com o que acharem de melhor para o intento; e mesmo, se a experiencia lhes mostrar ser conveniente, que misturem com aquellas obras de que fizemos rol, e semelhantes, outras de menos substancia e maior agrado, como os dramas e os romances moraes. Este arbitrio para os primeiros tempos, e para fazer pegar o costume, seria por ventura o mais plausivel.


¡Que serões! ¡que serões vos não esperam já este inverno! ¡Que deliciosas tardes de domingos e dias santos! ¡quantas coisas prestadias, e para vós novissimas, não tereis já na memoria, no espirito, e no coração, em volvendo a primavera! ¡quantos gastos de dinheiro, de saude, e de paz interior, não haverão forrado muitos d’entre vós, que, a não ser o chamariz da leitura, teriam ido da venda para o arruido, ou para o roubo, de lá para o hospital, para a cadeia, ou para o cemiterio!

Pedi, supplicae ao vosso Parocho, ao vosso Administrador do Concelho, a quem mais vosso amigo, e a quem mais homem vos parecer, que ajudem e promovam taes institutos em favor da Religião e da Caridade, em favor da Policia e da Ordem publica, em favor das Familias, e da Patria.

¡Um leitor em cada aldeia, se é possivel! ¡Um leitor, e mais de um em cada villa! ¡Muitos leitores, muitissimos, innumeraveis, em cada cidade!


¿Será ainda este mais um grito em deserto sem eccos?

Outubro de 1849.