XVI
Decimo serão do casal

Abolição do Exercito

SUMMARIO

Outros procuram a felicidade, onde a não ha; nós pedimol-a á Agricultura.—O que um Ministerio da Agricultura fará para beneficiar os lavradores.—O Exercito é mal para os individuos, para as familias, para a Patria, para a Humanidade.—O Exercito ou é para conquista, ou para defensa, ou para tranquilidade.—Portugal não pode conquistar; não tem de quem se defenda; tendo, haveria outros recursos; e a paz interior mais se lhe tem com as tropas perturbado, que mantido.—Uma sentença de Felice contra havermos Exercito.—Quanto o Exercito nos custa, no orçamento, e fora d’elle.—Lucros cessantes que motiva.—Retrato do camponez antes de soldado.—O mesmo em soldado.—O mesmo depois da baixa.—Celibato militar.—Pede-se a suppressão do Exercito.—Poucas palavras sobre o como se pode a milicia extinguir sem inconveniencia nem perigo algum.—Nova organisação da força publica.—Guarda nacional.—Lei agraria, com vantagem para o publico e para muitos particulares, e sem lesão para nenhum d’elles.—Acenam-se alguns pontos para uma Lei de organisação de propriedade territorial.—Adoptando-se estes conselhos, as instituições liberaes e o Throno se firmariam.

Continuamos na nossa teima de procurar felicidade.

Se é loucura, é loucura nobre, e todos os espiritos mais bem nascidos de cada seculo a teem padecido. Uns a fizeram consistir na renunciação de todos os bens terrestres pelo amor do Ceo. Outros, na impassibilidade estoica. Outros, no elixir de longa vida. Outros, no Quietismo. Outros, na maxima diffusão das luzes. Os economistas, na maxima producção material, com absoluta abstracção de moralidade. Os politicos, na composição de formas governativas. Nós, em relação ao nosso Portugal, fazemos consistir a felicidade na Agricultura, pois debaixo d’esta palavra comprehendemos, como effeitos na causa, a abundancia, os bons costumes, a paz, a satisfação, e a estabilidade.

Dos economistas não esperamos nada; o materialismo foi sempre estéril. Dos financeiros ainda menos; todos os algarismos do mundo não são capazes de crear um átomo; por elles ainda não vieram senão tributos ao Povo, e meia duzia de alampadas maravilhosas para os Aladinos do calculo. E, finalmente, dos politicos tambem não, porque, trabalhando ha tantos annos na procura da promettida pedra philosophal, tendo mettido para os seus cadínhos tantas preciosidades, e accendido tanto fogo e tantos fogos, queimado tanto (até do futuro), ainda não fizeram sahir do seu estrondoso laboratorio senão fumo.

¡Se elles, ao menos, tivessem conseguido imitar o alchimista, que deixou na galeria do Gran-Duque da Toscana o prego meio ferro e meio oiro, para admiração de crédulos, e desappareceu!... Mas pelo contrario: a sua sciencia occulta, se alguma coisa tem logrado é transformar o oiro em ferro; o que não impede que, semelhantes aos Albertos Magnos e Cagliostros, appellidem tambem a sua obra «A grande obra».

Não, meus lavradores; os unicos alchimistas sociaes, em quem se ha-de pôr a verdadeira esperança de pedra philosophal, que faça ao menos prata, e de elixir, que, se não prolongar a vida, pelo menos nol-a torne supportavel, sois vós, com o vosso natural bom-senso; sois vós, creando-nos um Parlamento da terra; é esse Parlamento, creando-nos Leis de verdadeira economia, e um Governo agricola; é esse Governo, vosso neto, e para logo vosso protector, illustrando-vos, moralisando-vos, incitando-vos ao trabalho, nobilitando-vos na vossa mesma estimação, facilitando-vos transito por todo o vosso territorio, promovendo companhias a quem vendais os generos com segurança, e de quem recebais adiantado para os amanhos, descobrindo e ensinando-vos, por uma continua investigação dos portos e mercados de todo o mundo, quaes as culturas velhas que deveis largar, quaes diminuir, quaes acrescentar, quaes aperfeiçoar, quaes experimentar, quaes introduzir com affoiteza; que para isso traga embaixadores muito escolhidos, mui zelosos, mui portuguezes, e mui vossos, por todas as partes do mundo; que em summa comprehenda e creia firmemente, que tudo aquillo que a terra nos não der, a poder de sciencia, de arte, e de trabalho, nada seria já capaz de nol-o dar.

Para esse Governo, para esse Parlamento, e para vós, continuemos pois a discursar sobre o que está para fazer.


Falemos hoje do Exercito, com licença dos vossos lares e das vossas arvores, que sempre em ouvindo tal palavra se estremecem e horrorisam.

Um serão para tal assumpto carecia de ser mui largo; noite de S. João levada de vela lhe não bastára. Emfim: apontemos; o vosso recto juizo desenvolverá depois.

Cerrae a porta, que ha ahi alguns visinhos de andares altos, que já murmuram sermos nós ruins gastadores de tempo. Assentae-vos com animo despreoccupado; e, se vos parecer, ide apontando ahi com carvão, por essa parede da vossa conversavel cosinha, as principaes rasões da pratica, a fim de se vos não desluzirem da memoria, para quando fôr tempo.


¿Que é um Exercito?

É um mal, complexo de males sem numero, e que só por uma necessidade absoluta se póde tolerar.

O soldado é ora um escravo, ora uma victima; a familia do soldado uma orphan, esbulhada de parte do seu haver mais sagrado. A Patria não tem carga mais onerosa, nem a Humanidade coisa que tanto a vexe e lhe repugne. Todas as considerações sociaes, economicas, moraes, religiosas, scientificas, litterarias, e artisticas, todas sem excepção veem jurar contestes no processo contra o Exercito.

¿Para que tem logo havido em todos os tempos exercitos? ¿e para que os ha ainda hoje em tantas partes?

Umas vezes, para a conquista; outras, para defensa contra invasores; outras, para tranquilidade interna.

No primeiro caso, é o Exercito uma arma em mão de salteador. A Historia chama-lhe um brasão. Portugal, como todas as nações heroicas, o teve, e com elle se engrandeceu.

No segundo caso, é um escudo, que está afrontando e esmagando ao proprio corpo que defende. Do mal, o mal: das armadas invasoras procederam fatalmente as armadas defensivas.

No terceiro caso, é um remedio violento e dispendiosissimo, para doença que em parte se devia prevenir pela hygiene, ou, chegando-se a declarar, acudir-se com menos ruido e mais efficacia.

¿Podemos nós ser conquistadores?

Não. Logo, se temos Exercito, não é para conquista.

¿Temos que nos defender de extranhos?

Não. Rasões de mais alta e geral politica são as que per si nos defendem, e hão-de defender; e, quando ellas cessassem, ou fossem vencidas, não haviam de ser estas nossas fileiras que nos salvassem, mas sim o Povo todo: os fortes, e os fracos, os decrépitos, as creanças, as mulheres. As nossas armas seriam o ferro, os troncos, o fogo, as pedras; o nosso soldo, a vista das casas que defendemos; as nossas bandeiras, os campanarios das nossas freguesias; os Evangelhos do nosso assentar praça, as lembranças das nossas victorias sobre Romanos, sobre Arabes, sobre Castelhanos, sobre Francezes. Povo que se defende na terra em que nasceu, é leão e leôa no seu bosque diante do covil dos filhos. O Ceo, com a santidade da nossa causa nos protegeria; e, se nos fosse indispensavel auxilio humano, elle no-lo depararia no braço de alguma Nação, que defendesse nos nossos os seus interesses. Logo, não é tambem como escudo, que mantemos um Exercito.

¿Será portanto para obviar a tumultos? para cohibir sedições? ¿para conservar boa ordem e regimento no Estado?

A esta pergunta não precisamos de responder; bem respondida que ella está n’uma pagina de cincoenta leguas de largo e cem de alto, que ha cincoenta annos temos cem vezes escripto, respançado, e tornado a escrever com sangue de irmãos. Logo, se com um Exercito nos consumimos, não é para bem da paz domestica.


«Os pequenos Principes—diz Felice—querendo arremedar os grandes potentados, teem exercitos, que para brinquedo são de mais, e para deveras de pouco servem.»

A segunda parte d’esta sentença bem provada e contraprovada nos está por factos; e a primeira é verdade não menos manifesta.

Perguntae aos orçamentos (e ainda esses não sabem, ou não dizem tudo): ¿emquanto nos importa o Exercito? ¿os soldos e comedorias da soldadesca e dos estados maiores? ¿os uniformes, os armamentos, o calçado, a remonta e sustento da cavallaria, as fabricas de polvora e balas, os arsenaes, os quarteis, as obras de fortificação, as marchas e conducções de bagagens, os transportes por mar, os roubos e extravios do material, as secretarias, os commissariados, as inspecções, os tribunaes militares, as boticas, os medicos, os cirurgiões, os enfermeiros, os moços, os invalidos, as musicas, etc.?

Os orçamentos do Ministerio da Guerra d’estes ultimos nove annos dão, termo medio, uma despeza annual de 2:758:580$410 reis.

Se porém considerarmos que a Marinha é, por sua natureza, parte e complemento da Guerra, e nos tem custado, tambem termo medio no mesmo periodo 944:475$851 reis, teremos annualmente uma despeza de reis 3:703:056$261.

Pelo exame dos respectivos orçamentos, todas as restantes despezas do Estado, termo medio, não teem subido no mesmo periodo de reis 6:560:419$590.

Coisa espantosa! Mais de um terço dos haveres publicos devorado pela Guerra, que ou é um nome vão, ou, quando tem a sua funesta realidade, é por esse mesmo desperdicio que nasce e se alimenta!

Despeza ainda mais desgraçada, quando se olha para o desamparo da Instrucção Primaria, para a falta de estimulos e premios á Agricultura, á Industria, ás Artes, ás Sciencias.

Despeza inqualificavel, quando se repara em que, á proporção que nós minguamos, que nos afogamos na divida, vai ella a crescer de mais em mais.

¡E, como se este infinito fôra ainda pouco, lá baixam de vez em quando das Secretarias novos padrões de uniformes, como de París veem figurinos para os toucadores das casquilhas! no que, ao desperdicio accresce ainda o indecóro, ao indecóro a dureza, pois que essas vaidosas despezas, dos proprios militares vão sahir; classe que, empobrecendo-nos a nós, está bem longe da opulencia.


Além d’estas despezas carregadas na massa commum, perguntae ás terras, por onde, ha meio seculo, nos andam, quasi de continuo, transitando corpos, ¡quanto lhes não tem custado a ellas o Exercito em aboletamentos, em hospedagens, em dilapidações, descaminhos, e estragos, em seáras taladas e comidas pelos cavallos, em oliveiras, séves e alfaias campestres queimadas, gados comidos, bestas e carros apenados, trabalhos ruraes retardados ou supprimidos, etc., não falando já em damnos de outra natureza, muito maiores e mais irreparaveis!

Esmae tudo isto a monte. ¡Arripiam-se as carnes!...

E todavia, ainda ha mais: a todos estes damnos immergentes, ¡que de lucros cessantes não accrescem, com a existencia de um Exercito, aos particulares e ao Publico! ¡quantos braços arrancados á lavoira, aos mistéres, e ás artes! ¡que desfalque no total da producção! ¡que augmento no salario dos jornaleiros! ¡em milhares de casaes que mingua de pão, por ausencia de quem o ganhe!


Viremos agora a questão por outro lado.

Chega o recrutamento.

¡Lá vai o coração de uma pobre familia arrancado! Lá entra pela primeira vez, e prezo como um criminoso, na cidade, a quem elle queria servir de longe com a enxada na mão, um mocinho, innocente, cheirando á terra, ao feno, e á flor do matto; simples e viçoso como ella, temente a Deus, amante de seus paes, de suas irmans, de seus irmãos, bemquisto dos visinhos, laborioso como abelha, sentindo e expirando de si a poesia da Natureza, como o passarito do silvado em flor por uma antemanhan de Maio.

Approvado pelos medicos n’um exame, onde o fizeram corar pela primeira vez, passa de repente da liberdade para a escravidão; da luz e fragrancias do seu campo, para a escuridade fétida de um quartel; d’entre rostos benévolos, para entre semblantes carrancudos; do rebanho que pastorava, para a escola e chibata do instructor, para as conversações grosseiras, mortiças e fumosas da tarimba. Com violenta mão lhe limam á pressa todo o cunho da sua individualidade: rentearam-lhe o cabello, como a todos os seus camaradas; vestiram-n-o e calçaram-n-o como todos elles; constrangeram-n-o a tomar a mesma figura e movimentos, a dar os mesmos passos contados, a comer á mesma hora, e do mesmo pão, a dormir e a acordar á voz metallica da mesma trombeta. ¡Individualidade!? ¿elle? até o nome lhe tiraram; é um numero; e esse numero nem mesmo designa um ente sobre si. As suas armas, o seu fardamento, e elle, são tres elementos inseparaveis, cuja somma é o soldado. Se a bayoneta soubesse ouvir e obedecer, e a espingarda atirar, não as teriam complicado com aquelle appenso vivo, que é para ellas o que é a carreta para o canhão, ou os cavallos para a carreta.[6]

[6] N’um volume de romances moraes, que o meu amigo o snr. Luiz Filippe Leite está para dar á estampa, com o titulo de Supposições que podem ser realidades, ha uma pintura das miserias da vida militar. O autor copiou o seu soldado do natural, o seu desenho é bello, as suas côres verdadeiras. É um soldado esse, que serve de efficaz auxiliar á nossa doutrina.

Castilho.


O mais rigoroso de todos os codigos das Nações, e o mais altamente offensivo da dignidade humana, é aquelle que o soldado, com a mão sobre os Evangelhos, jura cumprir. E o peor é que essa antinomia a todas as ideias de Liberdade, é uma fatal condição, e inseparavel, da existencia de exercitos.

—«¡Ao menos, é uma vida gloriosa a das armas!»—dizem.

¿Mas não será esse dizer uma arteira seducção armada ao espirito, assim como a purpura das bandas, o accezo dos pennachos, as côres vivas das golas e canhões, o oiro das dragonas e das chapas, o lustroso das correias e dos ferros, são outra calculada seducção para os olhos, e outra as estrondosas musicas para os ouvidos?

Nos sacrificios dos pagãos enfloravam-se as victimas. ¿Por que razão Marte não enfeitaria tambem as suas?

«¿Gloriosa vida a do soldado?!...» A consciencia d’elle que o diga.

O seu entendimento entorpeceu-se no meio da monotonia da sua agitada ociosidade. Tudo n’elle é vulgar. Os seus actos, até quando arrosta com as balas ou vôa á brécha, são sem merito, porque não são livres. A reflexão lhe é defeza. O sopro de um clarim o despára para a morte, ou para a victoria, como a descarga do obuz arremeça a bomba, que vai despedaçar, despedaçando-se. Mandado, combate hoje pelo vermelho contra o azul; amanhan, mandado, combaterá pelo azul contra o vermelho. Mandado, expõe-se n’uma sentinella perdida, pela segurança dos seus camaradas. Mandado, irá, em se recolhendo d’ali, espingardear o seu camarada predilecto, sem uma pergunta, sem uma lagrima. Mandado, poria fogo, sem hesitar, á egreja onde o baptisaram, á aldeia em que nasceu, á choupana d’onde sua mãe entrevada não pode fugir.

Tudo isto lhe murmurará tristemente a consciencia, quando á sua profissão ouvir chamar gloriosa. ¡Que fiel, que horrorosamente fiel, não é o retrato, que do soldado, olhado a esta luz, pintou a negro Alfredo de Vigny!


Ao viver monastico teem reprehendido philosophos os seus tres votos, como anti-naturaes.

¡¿E o soldado?! ¿O soldado é livre para casamento? ¿O soldado não geme em forçada pobreza? ¿O soldado, sobretudo, não é o prototypo da obediencia servilissima?

No monge, ao menos, a pobreza descalça, a continencia sobrecarregada de cilicios, a abnegação do querer, tinham por compensação a esperança de thesoiros, de delicias, e de um throno para a eternidade.

¿E o soldado? ¿Que lhe promettem, ou que espera, por tantas renunciações?

¡Oh! a sua humildade, se fosse livre, seria inquestionavelmente de todas as heroicidades humanas a mais estupenda. Mas não é livre. Mais, do que no Religioso opera a esperança do premio, opéra n’elle o seu unico movel: o medo do castigo. O cenobita padece e canta; o soldado padece, e nem ousa suspirar. Aquelle canta porque na phantasia lhe riem Céos; a este negrejam-lhe na ideia o calaboiço, as varas, a grilheta, a farda rasgada, o fusilamento.


Depois de annos de uma tal vida de gloria, ¿como volverá ao seu torrão o mancebinho innocente, que d’ali arrancaram, por entre tantas lagrimas dadas e recebidas, se por ventura lá volver? Nem a namorada do seu coração, se a teve, o reconhecerá.

O aborrimento da miseria n’uma condição obscura, e na familiaridade com entes sem educação nem principios, lhe fez contrahir muitos vicios ignobeis, que o levaram mais de uma vez, ora ás prisões, ora aos hospitaes[7]. As suas mãos perderam o geito e gosto dos trabalhos naturaes e primitivos. Rescendia ás flores do matto; hoje cheira á polvora, tem o perfume das batalhas, como as aves carniceiras o fortum cadaveroso. Tinha Fé, desbarataram-lh’a; indole affectuosa, affizeram-n’o, por dever, á theoria e á pratica do homicidio. Nos contos do serão, tudo o fazia estremecer; agora, é elle que infunde espanto aos ouvintes, pelo impassivel com que a sua voz rouca descreve as carniçarias que viu, e que ajudou, o lanço da cidade que voou com a explosão da mina, a população inerme que passaram á espada.

[7] Verdade reconhecida pelo snr. Capitão João Maria Fradesso da Silveira no seu honrado artigo sobre a lei do recrutamento, na Revista Militar de Fevereiro de 1849.

Castilho.

¿Por que assim é desprezador da vida? Porque d’ella só conhece as durezas e amarguras. O seu valor, se o tem, é uma qualidade negativa: despréza a morte, porque não sente a alma.

Breve: o Exercito custa ao Thesoiro, que devora; ás provincias, que fatiga; ás casas, que desfalca de filhos; ás terras, que priva de braços; ás artes, que despója de obreiros; aos individuos, que esbulha do seu quinhão de liberdade, a quem quebranta mil fóros e immunidades essenciaes do homem, a quem, finalmente, de homens converte em machinas de destruição.

E mais, e muito mais, custa ainda o Exercito, se avaliarmos as graves consequencias, positivas e negativas, directas e reflexas, do seu celibato; ponto esse, em que já d’outra vez tocámos, e que por si mesmo se está commentando.


Ora, se tanto custa o Exercito, e se tão inutil é, como já vimos, ¿por que não insistiremos para os Legisladores, e para os que os hão-de eleger, no alvitre (que tambem já outra vez suscitáramos) de se extinguir este grande, este immenso, este inutil, este estéril e esterilisador, convento militar?

¿Não se dá baixa ao soldado quando já não póde com a milicia? ¿Não se lh’a dá? até em tempo de guerra? ¡quanto mais em paz! Pois então, ¿por que se não ha-de a baixa conceder já já a este triste velho de Portugal? As suas armas visivelmente o assoberbam e debilitam de anno para anno. ¿Aguardaremos que o acabem de matar, para então lh’as despirmos? Elle já não tem que ir fóra a conquistar. De fóra não hão-de vir accommettel-o. ¿Logo, de que lhe servem, se não fôr para se ferir? Arrancae-lh’as; ou antes: deixae-lh’as depôr dos braços pizados, sangrentos, e cadavericos, que é tudo quanto elle mesmo vos supplíca. Tem o torrãosinho que mercou, e muito caro; permitti-lhe remoçar-se n’elle, cultivando-o com desafogo.

Quando Herminia, no formoso poema da Jerusalem resgatada envérga armas sem ser guerreira, ¡a que perigos e terrores a não expõe essa loucura! Mas quando emfim, vai armada dar assim áquelle campestre retiro, onde o pastor ancião está rodeado da familia, embebido em seus rusticos exercicios, que os meninos fogem, assustados de a ver, e só voltam quando ella, desquitando-se do elmo, se lhes descobre gentil, pacifica e amorosa, donosissima allegoria! Escutae o que a boa Herminia diz, ou o que diz, por sua bocca, a alma do grande Poeta:

Seguite,—dice—avventurosa gente,
Al Ciel diletta, il bel vostro lavoro,
Che non portano giá guerra quest’armi
All’opre vostre, ai vostri dolci carmi.

Assim deve já dizer aos nossos agricultores a nossa milicia, desfazendo-se de armas excusadas e improprias:

Gente amada do Ceo, ditosa gente,
¡avante em vossos plácidos lavores!
Já dispo as armas; animo recobrem
a lida vossa, os vossos brandos versos.

Até aqui são axiomas. Qualquer entendimento os percebe.

D’aqui para diante pertence aos Estadistas, mas aos Estadistas sinceros, philosophos, e humanos, propôr:

primeiro, o modo de fazer a suppressão, sem expôr a contingencias funestas;

depois, o modo de organisar, mais efficaz e menos dispendiosamente, a necessaria força publica.

Nós, que não somos Estadistas, só poucas palavras nos permittiremos sobre estes dois assumptos.


A abolição do Exercito seria recebida pela grandissima maioria d’elle com alvoroço, ou muito nos enganamos.

A soldadesca, se a consultassem, approvaria talvez unanime. Ao subir d’ella para a officialidade, é que haviam de principiar as repugnancias, crescendo tanto mais, quanto mais se fosse pelos postos a subir. Era logo licenciar a soldadesca toda, e da officialidade quantos o desejassem. Os restantes empregar-se-hiam, ou nos serviços, ainda militares, de que logo falaremos, ou em outros quaesquer, em que, segundo suas habilitações, o Governo entendesse aproveital-os. As vacaturas, por morte ou outras causas, diminuiriam de mez para mez este resto de onus, ainda grande para o Thesoiro; até que em poucos annos haveria cessado totalmente.

Os soldados sôltos das Bandeiras seriam preferidos, em egualdade de circumstancias, para mil pequenos empregos da republica: policia municipal, guardas de barreira e de alfandegas, correios, serviço inferior de tribunaes e estações publicas, trabalho braçal nas officinas nacionaes e nas dos contratos que a Nação arrenda, tráfego nas quintas exemplares e experimentaes, tripulação e mais officios na Marinha, de que alguma parte sempre ficaria provavelmente subsistindo.


Quizera-se tambem que uma Lei nova, regulando mais assizadamente a propriedade do solo, em ordem a fazel-o subdividir, e aproveitar até á ultima polegada, proporcionasse conceder-se aos que houvessem sido bons soldados um pequeno chão, com o adiantamento de instrumentos, sementes, e algum dinheiro para os primeiros annos, sendo casados, ou obrigando-se a casar; e apresentando fiador que respondesse pelo valor que se lhes entregava.

Os terrenos nacionaes poderiam d’este modo ser aproveitados com grande vantagem, e mesmo os baldios dos Municipios, mediante contratos equitativos, e de interesse mutuo.

¿Que lucrou o Estado com tão consideravel quantidade de solo tomado ás Ordens religiosas? Elle nada. Crearam-se ahi meia duzia de principados, contra todos os aphorismos da Economia. Com a divisão em pequenos lotes, ¡que familias indigentes se não houveram aventurado! e o Thesoiro teria recebido já hoje vinte vezes mais do que assim obteve.

Pela mesma Lei, os grandes proprietarios que não cultivam, por não poderem ou não quererem, seriam certamente obrigados a arrendar em lotes, e por preços racionaes.

Os morgados... Mas este objecto é sobejo largo e importante; não cabe aqui.

O que apontámos sobra para mostrar que, reformadas as Leis no que ellas teem de mais flagrantemente anti-social, nenhum receio podia haver de que faltasse trabalho e pão para quem quer que fosse.


Já podemos portanto pressuppôr acceita e agradecida pelo proprio Exercito a sua suppressão, na qual, segundo se acaba de vêr, nada ha de violento nem odioso, se não que é tudo paternal.

A ulterior organisação da força publica figura-se-nos ainda mais facil. Não é invenção nossa; é do seculo; é da philosophia; é da Lei do Estado; é a GUARDA NACIONAL.

Para allivio d’esta nas cidades grandes, podia haver tambem, como em Lisboa e no Porto, uma Guarda estipendiada pelo Municipio; ainda que, ao vermos Londres, a mais populosa cidade do Mundo, manter sem nenhuma tropa, e só com meia dusia de paizanos velhos, a sua admiravel Policia; não podemos dissimular, que muita coisa está ainda por imitar de Estrangeiros, de quem, pelo commum, só o indifferente ou o inapplicavel traduzimos.

«Paiz mais florescente que a Hollanda nunca eu vi em minhas viagens—diz Bernardino de Saint-Pierre.—Na Capital encerra pelo menos cento e oitenta mil almas. Com o immenso tráfego de mercadorias que em tal cidade negoceiam, ¡se faltarão n’ella com que se tentem as cubiças! Pois sem embargo, não se ouve lá falar de um roubo; nem guardas ha de soldados. Em 1762 que eu lá estive, havia já onze annos que se não tinha suppliciado ninguem; e não é dizer que não sejam severas as Leis; mas como o Povo acha facilmente em que ganhar a vida, não tem por que as quebrante; e advirta-se que este Povo tem ganhado milhões a imprimir quantas extravagancias ahi se escrevem em França sobre Moral, Politica, e Religião. Assim mesmo, ainda não desdiz das crenças e costumes que d’antes tinha. A razão é porque vive contente com a sua sorte. Os crimes só nascem da indigencia e opulencia excessiva.[8]»

[8] Da primeira vez que este artigo se imprimiu no Agricultor Michaelense, não levava a presente transcripção dos Estudos da Natureza. Foi depois de dado á estampa, que eu li esta admiravel obra; digo li, por que ao devorar folhas na puericia não se chama ler.

Os meus encontros em affectos, em pensamentos, até em imagens, com Bernardino de Saint-Pierre n’esta e n’outras suas obras, não obstante o que vai de talento a talento, que (ainda mal para mim) é quasi infinito, se por uma parte me podiam lisonjear o amor proprio, por outra me confirmam n’esta, para quem escreve, tristissima verdade de que nada ha de novo debaixo do sol.

Censura de plagiato, que é a mais gabadinha dos ignorantes, difficultosamente a ousára fazer quem tiver composto e estudado.

Veja-se a minha Nota sobre Originalidade no fim do drama Camões.

Castilho.


Uma Guarda Nacional, urbana e rustica, de pé e de cavallo, segundo uma Lei prudente, mas francamente liberal, seria uma força respeitavel pelo seu numero, e mais que sobeja para os tempos ordinarios.

Para a hypothese, mais que inverosimil, de invasão estrangeira, esta mesma Guarda seria Exercito, como se observassem duas precauções; a saber: ter constantemente uma bella Escola militar, viveiro de officiaes para as armas scientificas, e obrigar os batalhões civicos a revistas, exercicios, paradas, e passeios militares, com instructores idoneos.

Soldados taes, ¿em que differiriam dos de linha? Em duas sós coisas: em custarem menos, e em valerem mais.

O que pode o homem defendendo o solo conhecido, e a que chama seu, já o ponderámos; mas se provas quereis, perguntae á Germania, ás Gallias, á Britannia, á Helvecia, á Lusitania, e a todas as Hespanhas velhas, pelas legiões Romanas; á mesma Hespanha, pelos Saguntinos, pelos Asturianos, pelos Gaditanos, por cada uma das suas provincias; á França, pelos Parisienses, pelos Bretões, pelos Vendeanos, por suas comarcas; á Grecia, pelas Thermópylas, por Missolunghi, por toda a sua historia antiga e moderna; á Belgica, por Anvers; á America, pelos Estados-Unidos; ao Norte, pela Polonia, pela Hungria, pelo Caucaso; a Portugal, pela Terceira, pelo Porto, por cada palmo do seu territorio. Emfim: interrogae affoitamente a todos os seculos, sobre todos os povos do Mundo. Sobre o torrão materno, todos são Antheus; podem ser vencidos, mas é por braços de Hercules, e só depois de mil vezes renovada a lucta.

¡Oh! de que loiros se não cingira o Ministro da Corôa que o ousasse propôr! ¿Onde ha ahi Camões, nem Homero, para lhe fundir a estatua com as devidas dimensões?

O Throno e as Instituições deixariam de vacillar. Duas égides celestes os cobririam: a ellas, o sentimento da Liberdade; a elle, o amor, amor centuplicado pela gratidão.

Aos roucos triumphos das eras antigas
succeda o da Arcádia cantar festival!
Da ceifa das palmas, á ceifa de espigas,
volvei, Cincinatos do bom Portugal.
De espigas e palmas coroemos a enxada,
morgado, e não pena, dos filhos de Adão.
Mais velha que os sceptros, mais util que a espada
thesoiro é só ella, só ella brasão.

¡Meu Deus! ¿Será possivel que estejam a paz, a abundancia, e o amor a bater-nos ás portas, e lhes não abrâmos? ¿que a felicidade nos ria dos ares, dos valles, dos montes, dos rios, do Oceano, e lhe fechemos os olhos? ¿que este solo nos grite de todos os pontos «Pedi-me, e recebereis», e lhe arranquemos os filhos? ¿que aos brados da Industria e da Agricultura respondâmos sempre politica? ¿aos gemidos da Moral, que pede para si trabalho, fartura, casamentos, instrucção, e festas, politica, sempre politica, nada senão politica?

Aos jogadores e empalmadores da boa sorte do Povo, a esses, que lhe reprezam em seus cofres o oiro, que tantas coisas podia fecundar, não perguntemos que vale ou significa o oiro; mas aos magnates do Estado, ¿como deixaremos de perguntar que vale ou que pode essa politica, esse demonio incubo, sem olhos, sem ouvidos, sem entranhas? ¿Que tem feito? ¿que faz? ¿que ha-de fazer? ¿que sabe fazer?

Dispam-lhe a purpura, que é sangue. Amarrem-lhe os pulsos, que é harpia. Tapem-lhe a mentirosa bocca de sereia. Desterrem-n’a, ou enterrem-n’a, que os dias da credulidade já passaram.

Para o seu logar subam, ao som de vivas universaes, o amor da verdade, o amor da actividade, o amor da justiça, o amor da fraternidade, o amor das virtudes e dos talentos, o amor dos homens, das mulheres, dos meninos, e dos ainda não nascidos.

Só amores pedimos.

¡O pedil-os é tão justo!... ¡e o concedel-os é tão facil!...

Novembro de 1849.