Sobre esse fundo de singeleza e espontaneidade, que tanto caracterisa a lettra e a musica da maior parte dos nossos Fados, lembraram-se alguns trovistas de bordar complicados floreios de palavras, procuradas com esforço e artificio, laboriosamente.
Assim como o rythmo musical foi asiaticamente ornado com variações pretenciosas, que rendilharam de laçarias difficeis a ingenuidade inicial do Fado, tambem a lettra, a glosa, se enredou em extravagancias e boleios exoticos de linguagem, parallelamente.
O espirito humano parece enfadar-se da simplicidade, que se lhe torna um ramerrão fastidioso, e d’ahi provéem os excessos e requintes com que arrebica as modas e exaggera os figurinos, tanto para vestir o corpo como o pensamento.
Os amphiguris, que ainda estavam em voga quando o Fado, singelo e corrido, os rechaçou como velharias[68], vieram mais tarde a reproduzir-se, em differente métrica, mas com o mesmo intuito de jogos malabares de phrase, nos Fados exdruxulos, nos Fados enygmaticos, nos Fados de trocadilho e nos Fados tautophonicos (repetição).
É claro que toda a naturalidade da poesia popular foi estrangulada n’estas tentativas de habilidosa gymnastica, algumas mais felizes do que outras; mas a alma de um povo não se torce facilmente, como vara tenra, nas manifestações da sua sentimentalidade espontanea e nativa.
Essas tentativas passam, e a indole fundamental do Fado permanece a mesma.
Os Fados exdruxulos, bem como todos os outros em que o artificio predomina, podem ser admirados quando o mereçam, como esforço de paciencia; mas só isso, porque não encontram ecco dentro do nosso coração, nem affectuosa adhesão no nosso espirito e memoria.
Pode achar-se-lhes mais ou menos graça, mas não se lhes encontra sentimento, e a poesia do povo só vive á custa das suas proprias emoções.
Exemplo de Fado exdruxulo:
Exemplo de Fado enygmatico, em que é preciso interpretar o sentido das cacophonias:
Exemplo de Fado em trocadilho de homonymos:
Exemplo de Fado tautophonico sem que a rima seja obrigada a exdruxulos:
Entre os Fados de repetição merece menção especial o seguinte, que é, no genero, dos melhores e por ventura o mais litterario que conhecemos:
Lembrou, naturalmente, aos que procuravam esta estrondosa orchestra de palavras, que os glossarios ou nomenclaturas lhes podiam fornecer uma abundante mina, e trataram de exploral-a com os minguados recursos technologicos de que dispunham.
Exemplo de Fado mythologico:
Exemplo de Fado botanico:
Exemplo de Fado zoologico:
Esta especie de Fados valorisou-se pela intervenção de um estudante bohemio que, dispondo dos conhecimentos scientificos que ia adquirindo nas aulas, de veia poetica e de graça espontanea, lhes deu um caracter de rigorosa technologia ao mesmo tempo que um sainete espirituoso, alteando-se sobre as composições corriqueiras com que o povo pretendia invadir os dominios da sciencia.
Chamava-se Luiz Filippe Ferreira d’Almeida Mello e Castro, e era filho de Bernardino Antonio Ferreira e de D. Maria José d’Almeida Mello e Castro.
Nasceu em Lisboa a 21 de abril de 1844.
Um seu contemporaneo e amigo, Urbano de Castro,[69] traçou-lhe á penna o seguinte retrato, a meu pedido:
«Luiz d’Almeida era de estatura acima do regular; a não ser nos dias de desalento, que não eram muitos para o seu espirito naturalmente despreoccupado e alegre, desempenava a figura, e attraia a attenção das mulheres pelo seu porte garboso.
«Os olhos pardos tinham scintillações tão vivas, que muitos olhos negros os invejariam. Graciosissimo o sorriso, onde brincava a ironia. Raras vezes recorria ao sarcasmo. O seu coração era bom de lei.
«O bigode, castanho, não era propriamente o que se chama uma bigodeira, mas tinha alguma coisa de petulante, com as suas guias retorcidas, agudas, como pontas de lanças.
«A gesticulação era viva como a de um puro meridional.
«A voz agradavel, e punha-lhe um tic especial de graça o carregado do r.
«Quando lhe dava para janota, nenhum official o excedia no brilho do uniforme, na elegancia do porte, etc.»
Luiz d’Almeida matriculou-se na Escola Polytechnica em 15 de outubro de 1859.
Estouvado e folgasão, deu pouca attenção ao estudo das disciplinas que ali ia buscar para seguir o curso militar na Escola do Exercito.
Assim foi que ficou reprovado na 1.ª cadeira (mathematica) e que não fez exame da 5.ª cadeira (physica) nem do 1.º anno de desenho.
Sem embargo, tanto os seus professores como os seus condiscipulos reconheceram-lhe desde logo uma intelligencia penetrante e, tambem, um fina graça natural, que o tornava querido e procurado dos outros estudantes, os quaes o acclamaram chefe da bohemia academica.
Em 1860 repetiu o anno na Polytechnica, tendo obtido 12 valores em mathematica e 10 em desenho. De physica não fez exame.
Em outubro de 1862 matriculou-se na Escola do Exercito, como ordinario, com destino ao curso de infantaria.
Em 1863 fez exame da 1.ª cadeira a 22 de junho, e foi approvado com a classificação de sufficiente; exame de topographia, em 11 de julho, com igual classificação; e de sabre em 30 de julho, sendo approvado pela maior parte.
Matriculou-se pela segunda vez na Escola do Exercito em 14 de outubro de 1863, na mesma classe de ordinario, e fez exame do 1.º anno de desenho, obtendo a classificação de sufficiente.
Em 1865 voltou á Escola Polytechnica, onde se matriculou nas aulas de calculo, chimica mineral e economia politica.
O gosto pela bohemia havia-o empolgado completamente. Era o mais endiabrado dos estudantes nas folias do carnaval. E como guitarrista, nas serenatas ao luar, não havia quem o excedesse a cantar Fados de sua mesma composição, Fados scientificos, feitos com a nomenclatura das disciplinas em que se tinha matriculado, e de que elle apenas parecia disposto a colhêr a flor da graça.
Perdeu na Polytechnica, successivamente, trez annos lectivos, de 1865 a 1868.
Em 1869 pôde finalmente vêr-se livre do calculo, da chimica mineral e da economia politica, ficando approvado com 10 valores em cada uma d’estas cadeiras.
Mas não conseguira ainda desembaraçar-se do 2.º anno de desenho, em que ficou reprovado.
Relativamente ao anno de 1869, diz a nota que solicitei da Escola Polytechnica:
Matricula em 14 de outubro:
3.ª cadeira (mechanica) exame em 6 de julho de 1870: reprovado.
5.ª cadeira (physica) exame em 26 de julho: approvado com 10 valores.
Geometria descriptiva (1.ª parte) não fez exame.
Analyse e chimica organica, exame em 6 de maio: approvado com 10 valores.
Desenho (2.º anno) exame em 30 de julho: approvado com 10 valores.
Em outubro de 1871 voltou a frequentar a cadeira da mechanica, ficando approvado com 10 valores.
Tambem fez exame da 1.ª parte de geometria descriptiva, sendo classificado com 11 valores.
Intencionalmente publicamos estas indicações escolares, porque ellas mostram eloquentemente a feição bohemia de Luiz de Almeida.
Quando se propunha dar alguma attenção aos compendios, ainda que pouca, logo conseguia aproveitar o anno lectivo, sem cuidar de que outros menos intelligentes lhe passasem adeante com melhores classificações.
Mas, adeus livros, adeus aulas, quando a vida alegre e irrequieta o tentava, e os condiscipulos lhe punham entre as mãos a guitarra para que cantasse os seus Fados, que adquiriram grande voga entre todos os estudantes de Lisboa.
D’esses Fados, que merecem ficar archivados n’este livro, vamos dar trez specimens, em que esfusia a graça brilhante de Luiz de Almeida, e que representam a alliança da poesia popular com o vocabulario da sciencia n’uma expressão rigorosamente technica.
Fado mechanico
Fado chimico
Fado mathematico
Este Fado appareceu no Almanach de Lembranças para 1890, pag. 472, assignado por José Carlos Lagrange (Lisboa).
Mas todos os contemporaneos e amigos de Luiz de Almeida lh’o attribuem.
Um d’elles, Urbano de Castro, veiu á imprensa reivindicar para esse inolvidavel bohemio, que tinha a especialidade dos Fados scientificos, a paternidade d’este Fado.
Essa reivindicação foi feita no Correio da Manhã, a cuja redacção pertencia então Urbano de Castro, que pessoalmente me confirmou este facto.
Luiz de Almeida tambem compoz um Fado dos vinhos, de que apenas conheço uma quadra, o mote:
Sobre a vida airada de Luiz de Almeida são muito interessantes as informações que me forneceu o illustre professor, e meu amigo, Luiz Feliciano Marrecas Ferreira.
Recorto de uma sua carta os seguintes periodos:
«Namorou-se de uma rapariga, que andava n’um baile de mascaras, vestida á Luiz XV—a Peregrina—levou-a para casa, mas, como o dinheiro, mal chegando para o indispensavel, não era elastico, não lhe pôde dar outro fato, resultando d’ahi o ella ter de ir ao talho, ao vinho... ao diabo! invariavelmente vestida á Luiz XV.
«Teve amores com uma outra, que era hespanhola, e, como não soubesse a significação de varias palavras do idioma d’ella, resolveu-se a comprar um diccionario. N’um bello dia a mulher foge, elle quer-lhe ir no encalço, junta o pouco dinheiro que tinha e o que pôde realizar. Lá foi o diccionario para o prégo!
«Mostrando aptidão devéras para o estudo das cadeiras, que devia frequentar, pouco estudou durante largos periodos. Chegando a certa altura do anno, abandonava qualquer d’ellas e fazia um fado, onde revelava sempre com bastante espirito algum conhecimento do assumpto, não se lhe tendo nunca apontado um erro.
«Inventou a seguinte reacção chimica: «o alcool em presença do ether vinico perde uma molecula de agua e toma uma de vinho.» Se o alcool realmente toma, ou não, os sabios que digam, elle é que nunca deixava de tomar varias vezes por semana com uma frequencia bem assignalada pela policia e pelos numerosos amigos e companheiros.
«Depois de lauta ceia em casa de um titular, bastante conhecido (visconde de Trancoso?) foi passear com um amigo e já de madrugada recolheu a penates. Deu-lhe para molhar toda a gente, que passava pela rua, e da saccada do segundo andar, defronte da Polytechnica, foi deitando agua até que se lhe acabou—n’esse tempo não havia canalisação, vivia-se em pleno regimen de barril e aguadeiro—e elle foi-se resignando a assistir a sêco ao transito da rua. N’isto passa o antigo bando dos toiros: campinos a cavallo, uma charanga de barulho ensurdecedor, arruaça, garotos e não garotos a apanhar cartazes.
«Luiz de Almeida lembra-se de que ainda poderia haver alguma agua no fundo do pote, foi n’um pulo á cosinha, tira-o do poial e tral-o para a janella, onde o sacudiu a vêr se deitava alguma coisa, até que se lhe escapa das mãos indo cahir com grande estardalhaço n’um intervallo dos cavallos, partida esta que o levou á Boa Hora.
«Felizmente ninguem ficou ferido, e o pote, tambem como a taça do celebre rei de Thule, mereceu as honras de uns versos.
«No primeiro andar d’essa casa moravam as Manas Perliquetetes, n’essa época gente séria e recatada e só deixaram de o ser quando ao L. de Almeida passou pela cabeça—o que realizou—tornar-se seu perceptor.
«Quando não vivia em faux ménage, arranjava uma républica de rapazes, sendo então um verdadeiro inferno para os senhorios.
«No pequeno largo, entre a R. do Telhal e a de Santo Antonio dos Capuchos, morava n’um primeiro andar com o Alves (que morreu capitão de artilheria); o Anthero, do Porto; e o Thomaz Malheiro (engenheiro civil já fallecido). N’uma manhã põe escriptos nas janellas, apesar de nenhum d’elles ter feito tenção de se mudar; batem á porta, vae abrir a uns sujeitos que não conhecia, mostra-lhes a casa e leva-os para a cosinha depois de longo discurso sobre as vantagens e inconvenientes do que iam vendo, até que pôde fechal-os á chave. Os homens berraram, era uma bulha dos demonios na cosinha, os companheiros d’elle riam a bandeiras despregadas e o Luiz de Almeida vae pôr-se á janella a assoprar n’um apito até que veiu a policia libertar os presos, pregando com estes e com aquelle no Carmo.
«Já official de artilheria e no polygono de Vendas Novas deu largas á veia poetica e folgazã fazendo versos a tudo e a todos.
«Alli havia por esse tempo um tal Rodarte, com mania de caçador, mas sem a destresa necessaria para esse sport, o qual á volta do campo trazia sempre, ou quasi sempre, alguma caça comprada a um ferrador, que existia no caminho. Fez-lhe um dia varias quadras, sendo a primeira:
Como todos os bohemios, Luiz d’Almeida morreu em plena mocidade, crêmos que pouco depois do verão de 1872, sem que possamos designar com segurança a data do seu fallecimento.
Na academia de Lisboa, elle foi o mais completo exemplar do estudante-menestrel, errante de bairro em bairro, de rua em rua, a cantar o Fado ao som da guitarra dolente, por noites de luar, n’umas férias sem fim.
Sempre os moços souberam canções, porque amam as mulheres, a liberdade e a alegria, e porque, n’uma palavra, são moços. Os estudantes teem por si a tradição de poetas e namorados, que tambem é uma recommendação suggestiva. Lá diz a trova: