V
Fados de nomenclatura—Fados litterarios

Sobre esse fundo de singeleza e espontaneidade, que tanto caracterisa a lettra e a musica da maior parte dos nossos Fados, lembraram-se alguns trovistas de bordar complicados floreios de palavras, procuradas com esforço e artificio, laboriosamente.

Assim como o rythmo musical foi asiaticamente ornado com variações pretenciosas, que rendilharam de laçarias difficeis a ingenuidade inicial do Fado, tambem a lettra, a glosa, se enredou em extravagancias e boleios exoticos de linguagem, parallelamente.

O espirito humano parece enfadar-se da simplicidade, que se lhe torna um ramerrão fastidioso, e d’ahi provéem os excessos e requintes com que arrebica as modas e exaggera os figurinos, tanto para vestir o corpo como o pensamento.

Os amphiguris, que ainda estavam em voga quando o Fado, singelo e corrido, os rechaçou como velharias[68], vieram mais tarde a reproduzir-se, em differente métrica, mas com o mesmo intuito de jogos malabares de phrase, nos Fados exdruxulos, nos Fados enygmaticos, nos Fados de trocadilho e nos Fados tautophonicos (repetição).

É claro que toda a naturalidade da poesia popular foi estrangulada n’estas tentativas de habilidosa gymnastica, algumas mais felizes do que outras; mas a alma de um povo não se torce facilmente, como vara tenra, nas manifestações da sua sentimentalidade espontanea e nativa.

Essas tentativas passam, e a indole fundamental do Fado permanece a mesma.

Os Fados exdruxulos, bem como todos os outros em que o artificio predomina, podem ser admirados quando o mereçam, como esforço de paciencia; mas só isso, porque não encontram ecco dentro do nosso coração, nem affectuosa adhesão no nosso espirito e memoria.

Pode achar-se-lhes mais ou menos graça, mas não se lhes encontra sentimento, e a poesia do povo só vive á custa das suas proprias emoções.

Exemplo de Fado exdruxulo:

Eu zombo d’homens teutonicos,
Eu zombo dos argentarios,
Eu zombo dos pythagoricos,
Eu zombo dos uzurarios.
Eu zombo dos dialeticos,
Eu zombo até dos sophisticos,
Eu zombo dos casuisticos,
Eu zombo já dos magneticos;
Eu zombo dos cynegeticos,
Eu zombo dos bons euphonicos;
Eu zombo dos sons harmonicos,
Eu zombo dos bons topasios,
Eu zombo dos taes pascasios,
Eu zombo d’homens teutonicos.
Eu zombo já dos grammaticos,
Eu zombo dos elegiacos;
Eu zombo d’esses syriacos,
Eu zombo dos esquipaticos;
Eu zombo até dos didacticos,
Eu zombo dos santanarios;
Eu zombo dos proletarios,
Eu zombo dos economicos;
Eu zombo dos pobres comicos,
Eu zombo dos argentarios.
Eu zombo dos privilegios,
Eu zombo dos sacrificios;
Eu zombo dos artificios,
Eu zombo dos sortilegios;
Eu zombo dos sacrilegios,
Eu zombo dos taes historicos;
Eu zombo dos allegoricos;
EU zombo até já dos clinicos;
Eu zombo dos proprios cynicos,
Eu zombo dos pythagoricos.
Eu zombo dos pathologicos,
Eu zombo dos fidelissimos;
Eu zombo dos modestissimos,
Eu zombo dos mythologicos;
Eu zombo dos pedagogicos,
Eu zombo dos breviarios;
Eu zombo dos perdularios,
Eu zombo dos cabalisticos;
Eu zombo dos humoristicos,
Eu zombo dos uzurarios.

Exemplo de Fado enygmatico, em que é preciso interpretar o sentido das cacophonias:

Minha T-O-L-A.
Só tu és minha nini!
Manda carta p’lo correio
P’ra o teu querido K-H-I.
Dois é bis, potes bem juntos;
Não faças como o judeu...
Que por-K, gallos me deu,
Em lugar dos taes presuntos.
Despresa, pois, os assumptos
Da do-O, mais do-H;
Bem vês que, muito não ha,
Por te ver dias seguidos
Me constipei dos ouvidos,
Minha T-O-L-A.
Bem deves conjecturar,
Não sou nenhum-O-I-S,
Que eu te fiz d’amor a prece,
A ti só quero adorar.
Não te deixes ingrolar
P’lo francez do G-U I;
Meu amor é só p’ra ti.
Manda á fava o-R-I-R;
Muito embora o-M berre,
Só tu és minha nini.
Peço-te que a mal não leves
Se te escrevo p’la-B-U;
V-A-L conheces tu...
Bastantes penas lhe deves.
Entre questão d’almocreves,
Do teu porte não descreio;
Se o-K-I te dá receio,
Toma conta no-Q-V;
Não o dés ao-D-K-D,
Manda carta p’lo correio.
Põe p’ra amor sómente um-A,
P’ra conselhos um-C só,
P’ra doçuras põe um-Dó,
P’ra lamentos põe um-Lá,
P’ra familia põe um-Fá,
P’ra o que te respeita-Mi,
P’ra situação põe um-Si,
P’ra que não te façam-Ré,
Põe-n’a com Sol-de-Loulé,
P’ra o teu qu’rido-K-H-I.

Exemplo de Fado em trocadilho de homonymos:

P’ra que sinta bem a cinta
Não só no acto em que a ato,
No fio d’ella me fio...
Pois sou mui fatuo no fato.
Quem aos sessenta se senta
(Como a ama que não ama)
A chamma d’amor não chama,
Quando aos setenta se tenta;
Se venta, funga-lhe a venta
Quando pinta qualquer pinta:
Se eu fôr, na quinta, p’r’a quinta
Verei se a serra se cerra
P’ra que sinta bem a cinta.
A vella fez-se p’ra vella;
De massa se fez a maça;
Cobre-se a caça com cassa,
Na propria cella se sella:
Alguem p’la péla se pélla;
Eu cato os picos do catto.
Se mato as lebres no matto.
Sem anda tambem se anda;
Pois trago a banda p’r’a banda,
Não só no acto em que a ato.
Dou-lhe um laço muito lasso,
Da cota bem pago a quota:
E a bota que peso bota?
Asso o peito em peito d’aço;
A passo vou par’o Paço
Muito pio, sem dar pio;
Rio até do proprio rio;
Sou como o cura sem cura.
Se a dura espada me dura,
No fio d’ella me fio.
Carece o lente da lente,
Quando fita qualquer fita,
Se teve a dita da dita
Patente, que traz patente;
Se minha mente não mente,
O Tatto tem muito tacto;
Retrato-o, e não me retracto,
Pois papa as honras do Papa
Quem me capa mais a capa,
Pois sou muito fatuo no fato!

Exemplo de Fado tautophonico sem que a rima seja obrigada a exdruxulos:

Respeito o poder do gallo,
Respeito a voz do leão,
Respeito as têtas da vacca,
Respeito a pelle do cação.
Respeito o ferrão d’abelha,
Respeito as pennas do pato,
Respeito as unhas do gato,
Respeito as cans d’uma velha;
Respeito o vello da ovelha,
Respeito o nobre cavallo,
Respeito o rim-rim do rallo,
Respeito o fim da baleia,
Respeito a voz da sereia,
Respeito o poder do gallo.
Respeito o mau papagaio,
Respeito o bom pintarroxo,
Respeito a fórma do mocho,
Respeito o verde do gaio,
Respeito o fino garraio,
Respeito as pernas do anão,
Respeito os pés do pavão,
Respeito a velha serpente,
Respeito a lingua da gente,
Respeito a voz do leão.
Respeito a côr da rolinha,
Respeito o zum do bezoiro,
Respeito as armas do toiro,
Respeito o fel da pombinha,
Respeito o pôr da gallinha,
Respeito o mal da macaca,
Respeito o pello da alpaca,
Respeito a tal cegarrega,
Respeito o bico da pega,
Respeito as têtas da vacca.
Respeito as azas do grillo,
Respeito a feia minhoca,
Respeito o berro da phoca,
Respeito o vil crocodilo,
Respeito o curso do esquillo,
Respeito o ser tubarão,
Respeito os dentes do cão,
Respeito os coices da mula,
Respeito o gosto da lula,
Respeito a pelle do cação.

Entre os Fados de repetição merece menção especial o seguinte, que é, no genero, dos melhores e por ventura o mais litterario que conhecemos:

Alecrim é rei das hervas,
O ouro, rei dos metaes;
Rosa, rainha das flores;
Leão, rei dos animaes.
Deus é rei universal;
Homem, rei da creação;
Rei dos sabios, Salomão;
Rei dos sabores o sal;
Rei das mattas o pinhal;
Capitão, rei das catervas;
Virgem, rainha das servas;
Romã, rainha dos fructos;
O trigo é rei dos productos;
Alecrim é rei das hervas.
É o mar o rei das fontes;
Cruz, das armas é rainha;
Baccho é rei de toda a vinha;
O Sinai é rei dos montes;
O navio é rei das pontes;
Foi Adão o rei dos paes;
Coral rei dos mineraes;
Rei de amarguras o fel;
Rei dos doces é o mel;
O ouro, rei dos metaes.
Rei da riqueza o trabalho;
Aguia, rainha das aves;
Dó é rei dos sons suaves;
Rei dos martellos o malho;
Rei dos dentes é o alho;
O vinho, rei dos licores;
Cupido, rei dos amores;
Rei dos poetas foi Dante;
Rei das pedras o brilhante;
Rosa, rainha das flores.
Rei dos ventos é o norte;
É o sol o rei dos astros;
O traquete é rei dos mastros;
Rainha do pranto, a morte;
Rei dos dons é o bom porte;
Pena, rainha dos ais;
O ponto, rei dos signaes;
Rei das cannas o alcaçuz;
Rainha das cores, a luz;
Leão, rei dos animaes.

Lembrou, naturalmente, aos que procuravam esta estrondosa orchestra de palavras, que os glossarios ou nomenclaturas lhes podiam fornecer uma abundante mina, e trataram de exploral-a com os minguados recursos technologicos de que dispunham.

Exemplo de Fado mythologico:

Apollo o jogo talhava
N’uma casa de batota;
Cupido alugou um trem,
E bateu p’ra a Porcalhota.
Baccho estava sem dinheiro,
E combinou com Silvano
Para irem com Vulcano
Visitar qualquer banqueiro;
Foi o rancho galhofeiro,
Ao que mais perto ficava,
E quando na sala entrava
O ranchinho reinador,
Estendia-se o alvor,
Apollo o jogo talhava.
Minerva um cêrco fazia
Sobre um valete d’espadas,
Venus dobrava as paradas,
Sileno só recebia;
Neptuno sempre perdia,
Fauno fazia risota,
Marte saltou n’uma sôta,
Phebo jogava ao acaso.
Estava emfim todo o Parnaso
N’uma casa de batota.
Titão joga n’um valete,
Mercurio joga no az,
Cliópe só cêrcos faz,
Euterpe joga n’um sete.
Jove uma parada mette,
Plutão arrisca um vintem,
Esculapio já ganho tem,
E abandona a banca logo.
E co’o dinheiro do jogo,
Cupido alugou um trem.
Saturno vendo uma quina,
Saltou-lhe logo nos pés,
E fez cêrco sobre um trez,
Que lhe saiu papafina;
A Juno como é ladina
Não gostava da batota;
Deus Baccho, todo janota,
Contratou uma tipoia,
Deu o braço á lambisgoia,
E bateu p’ra a Porcalhota.

Exemplo de Fado botanico:

Nos espinhos d’uma rosa
Se feriu meu coração;
Não soltei nem uma queixa!
Muito póde uma paixão!
Eu sou bom floricultor,
Sou o rei dos jardineiros,
Tenho lá, nos meus canteiros,
Toda a casta, pois, de flôr.
Co’o meu grande regador
Lhes dou rega cuidadosa,
Quando a noite está calmosa,
Sem nenhuma m’escapar,
Mas senti-me espicaçar,
Nos espinhos d’uma rosa.
Caso novo foi p’ra mim,
Tal descuido desgraçado!
Tanta flôr tenho regado,
Sem jámais vêr coisa assim!
Com meu sangue, do jardim
Fui pingando todo o chão;
E, com folhas d’ensaião,
Estancava a hemorrhagia,
Pois, quem visse, julgaria
Se feriu meu coração!
Madre-silvas se sorriam,
De me vêr em tantas maguas;
E as devassas das anáguas
Grande troça me faziam!
Os chorões, esses carpiam,
Murmurando a sua endeixa,
Os geranios buscam reixa
Com seu riso impertinente;
Porém eu, por mais prudente,
Não soltei nem uma queixa!
Os martyrios suspiravam,
Tristes sempre, contrafeitos;
E os gentis amor’s-perfeitos,
Sempre bons, me lamentavam.
Por vingança já esp’ravam
Que eu, pegando no alvião,
Sem mais dó, nem compaixão,
Arrazasse todo o herbario,
Porém eu,—bem p’lo contrario!
Muito póde uma paixão.

Exemplo de Fado zoologico:

Faz o pombo—rú, tu, tú!—
Na certã enfarruscada.
É preciso ser bem má,
Nem me dás uma trombada!
Todo o gato faz—miau!
Quando chama p’la gatinha,
E, p’la fresta da cosinha,
Responde ella— renhaunhau!
Faz na rua o cão—bau, bau!—
O perú faz—glú, glú, glú!—
Só p’ra mim não fazes tu,
Por meu fado, e por meu mal,
O que á pomba, no pombal,
Faz o pombo—rú, tu, tú!—
Se a gallinha faz—cró, cró—
Logo o gallo arrasta-lh’ a aza,
E co’a crista toda em braza
Canta após—kó, kó, ró, kó!—
Dando ao rabo anda o tótó,
Atraz da cadella amada,
Só a mim não fazes nada,
Nem sequer uma omelêta
—Por que eu dou a pecholêta—
Na certã enfarruscada.
Vê tu bem como no estio,
Quando chega a noite escura,
’Té no meio da espessura,
Faz o triste môcho—pio!—
Espanando-se no rio
Faz o pato—quá, quá, quá!—
A perdiz faz—cá, cá, rá!—
Todos cantam seus amores,
Tu p’ra mim só tens rigores,
É preciso ser bem má!
Até mesmo o villão burro,
Nas manhãs de muita calma,
Á jumenta da su’alma,
Diz amor co’o triste zurro!
O javardo mais casmurro,
Chafurdando na enxurrada,
Faz—rom, rom!—e a porca amada
Animando vae co’a tromba!
Só teu peito de mim zomba,
Nem me dás uma trombada!

Esta especie de Fados valorisou-se pela intervenção de um estudante bohemio que, dispondo dos conhecimentos scientificos que ia adquirindo nas aulas, de veia poetica e de graça espontanea, lhes deu um caracter de rigorosa technologia ao mesmo tempo que um sainete espirituoso, alteando-se sobre as composições corriqueiras com que o povo pretendia invadir os dominios da sciencia.

Chamava-se Luiz Filippe Ferreira d’Almeida Mello e Castro, e era filho de Bernardino Antonio Ferreira e de D. Maria José d’Almeida Mello e Castro.

Nasceu em Lisboa a 21 de abril de 1844.

Um seu contemporaneo e amigo, Urbano de Castro,[69] traçou-lhe á penna o seguinte retrato, a meu pedido:

«Luiz d’Almeida era de estatura acima do regular; a não ser nos dias de desalento, que não eram muitos para o seu espirito naturalmente despreoccupado e alegre, desempenava a figura, e attraia a attenção das mulheres pelo seu porte garboso.

«Os olhos pardos tinham scintillações tão vivas, que muitos olhos negros os invejariam. Graciosissimo o sorriso, onde brincava a ironia. Raras vezes recorria ao sarcasmo. O seu coração era bom de lei.

«O bigode, castanho, não era propriamente o que se chama uma bigodeira, mas tinha alguma coisa de petulante, com as suas guias retorcidas, agudas, como pontas de lanças.

«A gesticulação era viva como a de um puro meridional.

«A voz agradavel, e punha-lhe um tic especial de graça o carregado do r.

«Quando lhe dava para janota, nenhum official o excedia no brilho do uniforme, na elegancia do porte, etc.»

Luiz d’Almeida matriculou-se na Escola Polytechnica em 15 de outubro de 1859.

Estouvado e folgasão, deu pouca attenção ao estudo das disciplinas que ali ia buscar para seguir o curso militar na Escola do Exercito.

Assim foi que ficou reprovado na 1.ª cadeira (mathematica) e que não fez exame da 5.ª cadeira (physica) nem do 1.º anno de desenho.

Sem embargo, tanto os seus professores como os seus condiscipulos reconheceram-lhe desde logo uma intelligencia penetrante e, tambem, um fina graça natural, que o tornava querido e procurado dos outros estudantes, os quaes o acclamaram chefe da bohemia academica.

Em 1860 repetiu o anno na Polytechnica, tendo obtido 12 valores em mathematica e 10 em desenho. De physica não fez exame.

Em outubro de 1862 matriculou-se na Escola do Exercito, como ordinario, com destino ao curso de infantaria.

Em 1863 fez exame da 1.ª cadeira a 22 de junho, e foi approvado com a classificação de sufficiente; exame de topographia, em 11 de julho, com igual classificação; e de sabre em 30 de julho, sendo approvado pela maior parte.

Matriculou-se pela segunda vez na Escola do Exercito em 14 de outubro de 1863, na mesma classe de ordinario, e fez exame do 1.º anno de desenho, obtendo a classificação de sufficiente.

Em 1865 voltou á Escola Polytechnica, onde se matriculou nas aulas de calculo, chimica mineral e economia politica.

O gosto pela bohemia havia-o empolgado completamente. Era o mais endiabrado dos estudantes nas folias do carnaval. E como guitarrista, nas serenatas ao luar, não havia quem o excedesse a cantar Fados de sua mesma composição, Fados scientificos, feitos com a nomenclatura das disciplinas em que se tinha matriculado, e de que elle apenas parecia disposto a colhêr a flor da graça.

Perdeu na Polytechnica, successivamente, trez annos lectivos, de 1865 a 1868.

Em 1869 pôde finalmente vêr-se livre do calculo, da chimica mineral e da economia politica, ficando approvado com 10 valores em cada uma d’estas cadeiras.

Mas não conseguira ainda desembaraçar-se do 2.º anno de desenho, em que ficou reprovado.

Relativamente ao anno de 1869, diz a nota que solicitei da Escola Polytechnica:

Matricula em 14 de outubro:

3.ª cadeira (mechanica) exame em 6 de julho de 1870: reprovado.

5.ª cadeira (physica) exame em 26 de julho: approvado com 10 valores.

Geometria descriptiva (1.ª parte) não fez exame.

Analyse e chimica organica, exame em 6 de maio: approvado com 10 valores.

Desenho (2.º anno) exame em 30 de julho: approvado com 10 valores.

Em outubro de 1871 voltou a frequentar a cadeira da mechanica, ficando approvado com 10 valores.

Tambem fez exame da 1.ª parte de geometria descriptiva, sendo classificado com 11 valores.

Intencionalmente publicamos estas indicações escolares, porque ellas mostram eloquentemente a feição bohemia de Luiz de Almeida.

Quando se propunha dar alguma attenção aos compendios, ainda que pouca, logo conseguia aproveitar o anno lectivo, sem cuidar de que outros menos intelligentes lhe passasem adeante com melhores classificações.

Mas, adeus livros, adeus aulas, quando a vida alegre e irrequieta o tentava, e os condiscipulos lhe punham entre as mãos a guitarra para que cantasse os seus Fados, que adquiriram grande voga entre todos os estudantes de Lisboa.

D’esses Fados, que merecem ficar archivados n’este livro, vamos dar trez specimens, em que esfusia a graça brilhante de Luiz de Almeida, e que representam a alliança da poesia popular com o vocabulario da sciencia n’uma expressão rigorosamente technica.


Fado mechanico

A gentil velocidade
Pôz-me o peito em movimento,
Ficando sempre constante
N’este intervallo de tempo.
Andava um ponto no espaço,
Pela calçada da Gloria,
Sem saber da trajectoria,
Com um V 0[70] pelo braço.
Vão ao Terreiro do Paço,
Affectando gravidade;
E encontram, ó f’licidade!
No caminho escuro e só,
A mulher do v² ρ[71],
A gentil velocidade.
Eis o plano projectado!
«Se não vem o F¹,[72]
N’um dôce impulso lhe imprimo
O meu amor retardado.
Vê lá tu, que espaço andado
Ella tem, n’este momento!
Lá vae... no prolongamento
D’aquella diagonal!
«Que pureza inicial!
Poz-me o peito em movimento!
«Pára, agora, em m...[73]
Ah! meu Deus, se ella me vê!
Ó cousa! espera um dt,[74]
Não te affastes d’esta linha.
«—Senhora, deusa, rainha,
D’este amôr, só, resultante,
Dê-me attenção n’este instante!...
—Então, senhor! o meu esposo!...
Deixe-me estar em repouso,
Ficando sempre constante.
«—Ai! meu Deus! que resistencia,
Que attracção, que força viva!
Gosto de a vêr pensativa...
Dá-me um beijo, v. ex.ᵃ?
—Senhor ponto, que insolencia!
De onde parte o seu intento?»
«—Senhora, o meu elemento
Nunca mudou de sentido
Eis que apparece o marido
N’este intervallo de tempo!

Fado chimico

O H nascente[75]
Decompoz a H²O[76] mãe.
Vejam que typo esquisito
N’uma familia de bem!
Sentiu-se a Ag[77] pejada,
E um sal precipitado
Quiz matar o namorado
Com quem estava combinada;
A K²O[78] electrisada
Diz que o corpo é innocente,
O CL,[79] já meio quente
Em presença d’uma hulha,
Faz sair com grande bulha
O H[80] nascente.
Assim que o gaz maganão
Se encontrou livre no ar,
Tratou logo de chamar
Perna torta a um syphão.
Houve grande reacção
Nos metaes, gente de bem!
Indo a cousa por além,
O que fez o tal demonio?
Foi buscar o Sb,[81]
Decompoz a H²O[82] mãe.
Não parou n’isto o tratante:
Com provas de malvadez,
N’uma retorta de grés
Prende o gaz oleificante;
Toma o poder descórante,
Ataca um hyposulphito,
De um tubo faz, logo, apito,
D’uma caldeira faz bumbo,
Dissolve as cam’ras de Pb[83]...
Vejam que typo esquisito!
Perguntava o sal marinho
«—Quem é este rapazote?»
«—É filho do pae Az,[84]
E tem o rabo em cadinho
«—Não ves n’aquelle focinho
A cara do pae, tambem?»
«—Mal sabe a prenda que tem,
Tendo um filho comburente,
Que serve de reagente
N’uma familia de bem!»

Fado mathematico

Um polynomio estranho
Foi o melhor da soirée,
No dia do baptisado
Da raiz do P. A. B.
Na funcção ás 10¹⁄₂
Apparecia o infinito
Vestido como um palmito
—Casaca, sapato e meia.
Uma curva muito feia
Pedia ao numero inteiro
Para servir de parceiro
Na partida ao voltarete
Á mulher do 3 × 7,
Polynomio extrangeiro.

O festim era imponente:
Tocava um factor commum
1, 2, 3, n + 1
Na corda d’arco tangente.
Valsava toda contente
A mulher do D. V. D.
Por signal passa-lhe o pé,
Escorrega e cai no chão.
Diz uma nimia fracção:
—Foi o melhor da soirée!
—Minha constante arbitraria,
Diz o termo tão ratão
Á gentil dona Equação
D’uma formula imaginaria:
«Que faz aqui solitaria
Com esse rosto córado?
Eu por si fico elevado
Ao 5.º grau de potencia.
Que valor tem Vossa Excellencia
No dia do baptisado!»
Uma differença finita
Polkava com todo o esmero;
Fazia tender p’ra zero
Um delta todo catita.
Uma esphera mui bonita
Mostrava a perna e o pé,
Emquanto o T e o Z,
Recostados n’um sophá,
Conversavam co’ o papá
Da raiz do P. A. B.

Este Fado appareceu no Almanach de Lembranças para 1890, pag. 472, assignado por José Carlos Lagrange (Lisboa).

Mas todos os contemporaneos e amigos de Luiz de Almeida lh’o attribuem.

Um d’elles, Urbano de Castro, veiu á imprensa reivindicar para esse inolvidavel bohemio, que tinha a especialidade dos Fados scientificos, a paternidade d’este Fado.

Essa reivindicação foi feita no Correio da Manhã, a cuja redacção pertencia então Urbano de Castro, que pessoalmente me confirmou este facto.

Luiz de Almeida tambem compoz um Fado dos vinhos, de que apenas conheço uma quadra, o mote:

O Collares foi-se casar
Com a genebra de Hollanda.
O Torres, que a namorava,
Ficou de ventas á banda

Sobre a vida airada de Luiz de Almeida são muito interessantes as informações que me forneceu o illustre professor, e meu amigo, Luiz Feliciano Marrecas Ferreira.

Recorto de uma sua carta os seguintes periodos:

«Namorou-se de uma rapariga, que andava n’um baile de mascaras, vestida á Luiz XV—a Peregrina—levou-a para casa, mas, como o dinheiro, mal chegando para o indispensavel, não era elastico, não lhe pôde dar outro fato, resultando d’ahi o ella ter de ir ao talho, ao vinho... ao diabo! invariavelmente vestida á Luiz XV.

«Teve amores com uma outra, que era hespanhola, e, como não soubesse a significação de varias palavras do idioma d’ella, resolveu-se a comprar um diccionario. N’um bello dia a mulher foge, elle quer-lhe ir no encalço, junta o pouco dinheiro que tinha e o que pôde realizar. Lá foi o diccionario para o prégo!

«Mostrando aptidão devéras para o estudo das cadeiras, que devia frequentar, pouco estudou durante largos periodos. Chegando a certa altura do anno, abandonava qualquer d’ellas e fazia um fado, onde revelava sempre com bastante espirito algum conhecimento do assumpto, não se lhe tendo nunca apontado um erro.

«Inventou a seguinte reacção chimica: «o alcool em presença do ether vinico perde uma molecula de agua e toma uma de vinho.» Se o alcool realmente toma, ou não, os sabios que digam, elle é que nunca deixava de tomar varias vezes por semana com uma frequencia bem assignalada pela policia e pelos numerosos amigos e companheiros.

«Depois de lauta ceia em casa de um titular, bastante conhecido (visconde de Trancoso?) foi passear com um amigo e já de madrugada recolheu a penates. Deu-lhe para molhar toda a gente, que passava pela rua, e da saccada do segundo andar, defronte da Polytechnica, foi deitando agua até que se lhe acabou—n’esse tempo não havia canalisação, vivia-se em pleno regimen de barril e aguadeiro—e elle foi-se resignando a assistir a sêco ao transito da rua. N’isto passa o antigo bando dos toiros: campinos a cavallo, uma charanga de barulho ensurdecedor, arruaça, garotos e não garotos a apanhar cartazes.

«Luiz de Almeida lembra-se de que ainda poderia haver alguma agua no fundo do pote, foi n’um pulo á cosinha, tira-o do poial e tral-o para a janella, onde o sacudiu a vêr se deitava alguma coisa, até que se lhe escapa das mãos indo cahir com grande estardalhaço n’um intervallo dos cavallos, partida esta que o levou á Boa Hora.

«Felizmente ninguem ficou ferido, e o pote, tambem como a taça do celebre rei de Thule, mereceu as honras de uns versos.

«No primeiro andar d’essa casa moravam as Manas Perliquetetes, n’essa época gente séria e recatada e só deixaram de o ser quando ao L. de Almeida passou pela cabeça—o que realizou—tornar-se seu perceptor.

«Quando não vivia em faux ménage, arranjava uma républica de rapazes, sendo então um verdadeiro inferno para os senhorios.

«No pequeno largo, entre a R. do Telhal e a de Santo Antonio dos Capuchos, morava n’um primeiro andar com o Alves (que morreu capitão de artilheria); o Anthero, do Porto; e o Thomaz Malheiro (engenheiro civil já fallecido). N’uma manhã põe escriptos nas janellas, apesar de nenhum d’elles ter feito tenção de se mudar; batem á porta, vae abrir a uns sujeitos que não conhecia, mostra-lhes a casa e leva-os para a cosinha depois de longo discurso sobre as vantagens e inconvenientes do que iam vendo, até que pôde fechal-os á chave. Os homens berraram, era uma bulha dos demonios na cosinha, os companheiros d’elle riam a bandeiras despregadas e o Luiz de Almeida vae pôr-se á janella a assoprar n’um apito até que veiu a policia libertar os presos, pregando com estes e com aquelle no Carmo.

«Já official de artilheria e no polygono de Vendas Novas deu largas á veia poetica e folgazã fazendo versos a tudo e a todos.

«Alli havia por esse tempo um tal Rodarte, com mania de caçador, mas sem a destresa necessaria para esse sport, o qual á volta do campo trazia sempre, ou quasi sempre, alguma caça comprada a um ferrador, que existia no caminho. Fez-lhe um dia varias quadras, sendo a primeira:

Ó Rodarte, Rodartinho,
Ó Rodarte, ó meu amôr,
Quando fôres caçar perdizes
Busca á volta o ferrador.

Como todos os bohemios, Luiz d’Almeida morreu em plena mocidade, crêmos que pouco depois do verão de 1872, sem que possamos designar com segurança a data do seu fallecimento.

Na academia de Lisboa, elle foi o mais completo exemplar do estudante-menestrel, errante de bairro em bairro, de rua em rua, a cantar o Fado ao som da guitarra dolente, por noites de luar, n’umas férias sem fim.

Sempre os moços souberam canções, porque amam as mulheres, a liberdade e a alegria, e porque, n’uma palavra, são moços. Os estudantes teem por si a tradição de poetas e namorados, que tambem é uma recommendação suggestiva. Lá diz a trova: