Se houver de tomar amores
Ha de ser com um estudante:
Ainda que não tenha dinheiro,
Tem o passear galante.

As suas canções (estudantinas), muito sentimentaes, prestam-se facilmente ao rythmo mavioso do Fado, para o qual elles compõem quadras de fino sabor litterario, que contrastam, pela elevação dos conceitos e pela belleza da fórma, com o Fado popular.

Em algumas localidades ha Fados escolares de classe, como, por exemplo, o Fado dos estudantes açorianos, que foi recolhido no Cancioneiro de musicas populares[85].

N’outras localidades, principalmente em Coimbra, cada estudante poeta dá largas ao lyrismo individual em quadras de Fado, que vão passando de guitarra em guitarra até se generalisarem na classe e depois no paiz.

HYLARIO

Hylario foi moderadamente o grande aédo do Fado escolar coimbrão.

Depois de Luiz d’Almeida não tinha apparecido ainda entre a classe escolastica de Portugal um mais notavel e mais errante cantor de Fados litterarios.

A sua vida foi ephémera, segundo a lei fatal dos bohemios; mas o seu nome ficou ligado indissoluvelmente á tradição nacional do Fado.

Chamava-se Augusto Hylario Costa Alves; mas o seu nome de guerra foi simplesmente «Hylario».

Elle conquistou a celebridade que dispensa appelidos e avós.

Era natural de Vizeu e surprehendeu-o a morte quando, através as delongas proprias da vida esturdia, frequentava o 3.º anno da faculdade de medicina em Coimbra[86].

Tinha sido nomeado aspirante a medico do ultramar.

Matou-o, na sua terra natal, uma doença do figado, cremos que cyrrhose, aggravada por um ataque de grippe.

Falleceu, estando em férias de Paschoa, no dia 3 de abril de 1896.

A sua morte causou sensação em todo o paiz, e o seu funeral teve aquella pompa solemne que costuma derivar da celebridade do morto.

Dizia um telegramma de Vizeu, dando conta d’esse triste acontecimento:

«VIZEU, 4, ás 7 h. 35 m. da t.—Hylario, o estudante bohemio que todo o paiz conhece, principalmente pelo seu fado popularissimo, soffria do figado. Foi essa a doença que o matou, consequencia de um ataque de influenza.

«O seu corpo foi velado em casa da familia, onde morreu, por academicos.

«O seu enterro realizou-se ás 6 horas da tarde de hoje. Vestiram-lhe o uniforme de aspirante de medico naval. Acompanharam varias irmandades e a banda de musica de infantaria 14, sendo a chave do caixão entregue ao coronel do mesmo regimento. Ás borlas pegaram os officiaes, sendo o feretro conduzido pelos estudantes do lyceu de Vizeu e dos cursos superiores das differentes escolas do paiz, que aqui tinham vindo passar as ferias da Paschoa.

«No cemiterio foram depostas oito corôas, sendo uma da familia, outra do curso do terceiro anno medico e as restantes de varios academicos e pessoas amigas do inspirado guitarrista.

«Pronunciaram discursos, quando o corpo baixou á terra, um estudante do lyceu d’esta cidade, dois estudantes de Coimbra e o advogado Alberto Ponces.

«A guarda de honra, porque o finado tinha honras militares como aspirante a medico naval, foi prestada á porta do cemiterio por uma força, que deu as trez descargas do estylo.

«A morte do pobre rapaz foi muito sentida em Vizeu.»—M.

Na população de Coimbra, habituada a ouvil-o, a manifestação de sentimento foi ainda maior talvez do que em Vizeu.

Um telegramma d’aquella cidade dizia:

«O academico Hylario era muito conhecido em todo o paiz pelos seus popularissimos fados. Em Coimbra deixa saudosas recordações. Seu genio jovial e tendencias bohemias deram-lhe grande prestigio e ascendencia na actual mocidade academica. Em Coimbra é sentidissima a sua morte.»

Todos os jornaes diarios do paiz se referiram largamente ao Hylario; alguns publicaram o seu retrato, esse conhecido retrato em que elle, de capa e batina, cabeça ao lado, olhos em extasi, dedilha na guitarra um dos seus Fados dolentes.

Lisboa conhecia-o, tinha-o ouvido; mas os seus Fados haviam chegado á capital primeiro do que elle.

Um jornal da epoca relembrou n’estes termos a sua vinda a Lisboa:

«Occorreram as festas em honra do João de Deus. Com a academia de Coimbra veiu Hylario a Lisboa.

«O rythmo inédito do seu fado ia então ter o ensejo de lançar o vôo e popularisar-se como se popularisaram os versos do grande poeta.

«A poesia e a musica do povo abraçavam-se ali, por um decreto do acaso, tendo surgido com o intervallo de trinta annos.

«Todos iriam decorar o fado do Hylario como haviam decorado as quadras adoraveis de João de Deus.

«O destino como que quizera tambem consagrar o grande poeta do amor inventando este bohemio legitimo, authentico como os dos lendarios tempos de João de Deus, para fazer perdurar, por uma musica grata ao povo, a lembrança d’aquella festa sympathica da mocidade.

«E assim foi.

«Durante trez noites Lisboa ouviu, altas horas, os accordes tristes da guitarra do Hylario e a sua voz potente a que elle imprimia um tom de melancolia estranha:

«Foge, lua, envergonhada,
Retira-te lá do céu;
Que o olhar da minha amada
Tem mais brilho do que o teu.
«Um dia, quando morreres,
Ó pomba dos meus anhelos,
Consente que eu vá beijar
As tranças dos teus cabellos.

«Da rua passou ao theatro. A não ser nas peças puramente academicas, estava deslocado n’aquelle meio. Tão legitimamente bohemios eram os seus fados, a sua maneira de cantar, que o effeito falhava todo como falharia um trecho de Mozart tocado n’uma baiuca de camareras.»

Em Vizeu sahiu a 12 de junho de 1896 o primeiro numero de um semanario imparcial, intitulado Hylario.

Declarava no artigo do fundo que o seu programma, alem de ser «uma consagração á memoria do que pode dizer-se o ultimo bohemio portuguez» era, conservando uma feição accentuadamente litteraria, empregar como armas de combate a satyra e a critica, com firmeza, mas com moderação.

Estampou o retrato de Hylario na 1.ª pagina, o seu retrato de estudante e de bohemio; e varios artigos commemorativos da sua morte.

Não sei se este semanario tem continuado, mas possuo o 1.º numero.

Quero ainda referir-me á saudosa necrologia entoada nos jornaes do paiz, para transcrever as palavras com que um d’elles rematava a apologia do mallogrado Hylario:

«É menos um doido no mundo, dizem as pessoas graves e de circumstancia. Mas essas pessoas graves não farão verter, muitas d’ellas, á sua despedida d’esta vida, senão lagrimas de cerimonia, ao passo que esse doido é a esta hora sinceramente pranteado por muitos corações juvenis das filhas do Mondego, que, fascinadas pela sereia da sua guitarra, corriam em Coimbra apoz elle como as antigas virgens romanas apoz os seus heroes, offerecendo-lhe o óbolo do seu primeiro amor.

«Meu coração é quadrante,
Quadrante do meu desejo:
Nas horas em que te vejo
Não marca mais que um instante.[87]
«Vivo de ti separado,
Escravo da minha dôr.
Com prazer manietado
Por élos do teu amor.

«Pobre Hylario! Parece que tinhas a previsão do teu fim tão rapido quando perguntavas:

«...E passo a vida tristonho
A cantar por não saber
Se a vida está só no sonho
E a realidade em morrer![88]

«O destino acaba de te dar resposta.»

Hylario cantava quadras suas e de outros poetas, taes como Guerra Junqueiro, Antonio Nobre, Fausto Guedes Teixeira, etc.

Proprias ou alheias, avultavam no seu cancioneiro estas lindas trovas galantes:

Nossa Senhora faz meia
Com linha feita de luz.
O novello é a lua cheia,
As meias são p’ra Jesus.[89]
O mar tambem tem amante,
O mar tambem tem mulher!
É casado com a areia,
Dá-lhe beijos quando quer.[90]
A minha capa velhinha
Tem a côr da noite escura.
N’ella quero amortalhar-me
Quando fôr p’ra sepultura.[91]
Ave Marias são beijos,
Padre Nossos são abraços.
Rosario dos meus desejos,
A cruz é abrires-me os braços.[92]
Tuas mãos são branca neve,
Teus dedos são lindas flores;
Teus braços cadêas de ouro,
Laços de prender amores.
Eu queria ser como a hera
Pela parede a subir,
Para chegar á janella
Do teu quarto de dormir.
Olhos verdes côr d’esp’rança,
Inconstantes, côr do mar.
Quem tem amor é creança,
Sou creança por te amar.
Ao lançar dos olhos meus
A rêde dos meus desejos
No lago dos labios teus,
Eu trago-a cheia de beijos.
N’esse teu labio vermelho
Ha risos do sol de agosto:
A alvorada é um espelho
Onde se mira o teu rosto.
Um canto ao vento fluctua,
Começa a aurora a cantar:
Ó vate, vai-te deitar,
Rasga o pandeiro da lua.[93]
Anda o luar prateando
Os ribeiros palradores.
O ar é quente, a seara
É como um ninho de amores.
Foge, lua, envergonhada,
Retira-te lá do ceu;
Que o olhar da minha amada
Tem mais brilho do que o teu.[94]
Tem o brilho das estrellas
E o fulgor dos arreboes.
Quem me dera com dois beijos
Apagar tão lindos soes!
Não ha saphiras mais bellas
Na grande concha dos ceus.
Pois se Deus quiz ter estrellas,
Roubou-as dos olhos teus!
Á porta do Infinito,
A traços largos, profundos,
A mão de Deus tinha escripto:
«Os teus olhos são dois mundos.[95]
Os teus olhos são escuros
Como a noite mais cerrada.
Apesar de tão escuros,
Sem elles não vejo nada.
Serve-te a madeixa negra
De moldura ao rosto franco,
Como se uma toutinegra
Pousasse n’um lirio branco.[96]
A lua tranquilla dorme
Na amplidão celestial,
Tal como perola enorme
N’uma concha colossal.
Ouvi dizer ao luar
Com trinados na garganta:
«Quem canta seu mal espanta.»
E eu puz-me então a cantar.[97]
Eu quero que o meu caixão
Tenha uma forma bizarra:
A forma de um coração,
A forma de uma guitarra.[98]
Guitarra, minha guitarra,
Solta teus ais, minhas queixas.
És tu a unica amante
Que por outro me não deixas.
Vai alta a lua, vai alta,
Brilha nos ceus, branca lua.
Vem tu vel-a, minha amada,
Illuminando esta rua.
A lua, onde os olhos fito,
A face em nuvens recaia,
Como lagrima de prata
Na palpebra do Infinito.[99]
Ás vezes quando, indeciso,
Me curvo p’ra o teu olhar,
Vem n’uma lagrima um riso:
Raio de Sol sobre o Mar.
Pequenas da minha terra,
Dou-vos canções, dai-me beijos.
A quem sua alma descerra,
Vai-se-lhe a alma em desejos.
Tenho já sêca a garganta.
E como é que isto é não sei.
Quem canta seu mal espanta...
Puz-me a cantar... e chorei!
Tu és o pomo vedado
Do Éden da minha vida;
Triste illusão do passado
Ao meu porvir transmittida.[100]
Ha malmequeres pelo ceu
—Esse azulino canteiro.—
A lua dá-lhes a côr.
É o sol o seu jardineiro.
Na noite do meu soffrer
Cheia de nuvens sombrias,
Ha o canto das nostalgias
Da minha alma a envelhecer.

Uma noite, no theatro do Principe Real, do Porto, Hylario improvisou esta quadra ás damas:

Ai! que lindas pombas brancas
Ha no Principe Real!
Quem me dera ser o pombo
Da que não tenha casal!

Depois conservou esta quadra no seu cancioneiro, modificando assim o segundo verso:

Vejo n’aquelle pombal!

Nas quadras que acompanham o Fado Serenata, publicado no Porto por Eduardo da Fonseca, vem uma que não é do Hylario, nem dos poetas seus contemporaneos:

Os teus olhos negros, negros,
São gentios da Guiné:
Da Guiné por serem negros,
Gentios por não ter fé.

Esta quadra é popular, e mais antiga. Já tinha saido no Cancioneiro de Theophilo Braga em 1867.

Ouvi cantar o Hylario no theatro da praia de Espinho, no verão, por occasião de uma récita de caridade que ali se organizou.

Cabeça pendida sobre o lado esquerdo, como para ouvir melhor o que dizia o coração, a sua voz soluçava requebrada n’uma especie de arroubo illuminado de inspiração.

Assistia a esse espectaculo uma menina portuense (J. L. R.) vestida de preto e toucada com uma rosa; Hylario improvisou em sua honra a seguinte quadra:

Ao vêr-te meiga e formosa
Nas tuas roupagens negras,
Eu cuido vêr uma rosa
N’um bouquet de violetas.

Hylario tencionava colligir as suas canções n’um volume com o titulo de Guitarrilhas.

É-lhe attribuida a musica de varios Fados.

O Catalogo geral alphabetico do Cancioneiro de musicas populares dá-lhe a paternidade de cinco, o que me parece exigir alguma correcção.

Indica os seguintes:

I—Cancioneiro, fasc. 16, «As Estrellas» 1.º fado. Recolhido em Coimbra, 1890.

II—Cancioneiro, fasc. 13, «A filha do Guadalquivir».

É com leves alterações o Fado que nós em Lisboa chamamos «do Roldão». O Catalogo diz ser o 2.º Fado do Hylario, mas o Cancioneiro annota a respectiva melodia dizendo: «Parece que a musa teutonica inspirava o melodista, que não temos o gosto de saber quem é[101]

III—Cancioneiro, fasc. 23. Fado serenata. Traz a designação de: Musica de Augusto Hylario.[102]

FADO SERENATA

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Foi este que ouvimos ao proprio auctor em Espinho, e o que, de todos que elle indubitavelmente compoz, se tornou mais popular. Reproduzimol-o na pagina anterior.

IV—Cancioneiro, fasc. 34, «O Ultimo Fado», com a designação de—Musica de Augusto Hylario—e a seguinte nota: «Quando nas férias de 1895, Hylario se hospedou em uma dependencia do escriptorio da nossa Empreza, offereceu-nos esta composição dizendo-nos que era o seu ultimo fado, mas que tencionava addicionar-lhe algumas variações, e que reservassemos a publicação para quando elle as tivesse composto definitivamente.»

Tambem se popularisou este Fado, e por isso o reproduzimos.

O ULTIMO FADO

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V—Cancioneiro, fasciculo 68. «Fada pósthumo do Hylario» com a seguinte annotação: «Este fado foi recolhido em Sinfães pelo ex.ᵐᵒ sr. dr. M. M. Castro Côrte Real, que nol-o enviou com a seguinte nota: «Fado do Hylario (ultimo). O fado (IV) que vem no Cancioneiro com a designação de ultimo é anterior a este. Este é que é geralmente conhecido pelo ultimo; sempre assim o ouvi designar aos estudantes coevos do grande bohemio. A lettra é do ex.ᵐᵒ sr. Luiz Osorio.»

Ora este Fado é o mesmo que no Porto foi publicado com o titulo de Fado do 28.

Pessoa auctorisada, por ser muito competente na materia, diz-me d’aquella cidade que o auctor foi o rapaz cego a quem me referirei no capitulo VI quando tratar do Fado do 28.

No Cancioneiro, fasciculo 60, vem outro Fado relacionado com o nome do Hylario: é dedicado á sua memoria e acompanhado da seguinte lettra:

Oh! Hylario, oh! Hylario,
Teu nome me dá paixão.
O teu fado faz vibrar
As cordas do coração.
Guitarra, minha guitarra,
Solta gemidos e ais;
Que os dias passam voando
E os prazeres não voltam mais.
Guitarras andam de luto,
Que o Hylario já morreu.
Seu corpo guarda-o a campa,
Sua alma voou ao ceu.
Oh morte, tyranna morte,
Eu de ti tenho mil queixas:
Quem has de levar não levas,
Quem has de deixar não deixas.

Diz a nota respectiva: «Este fado acha-se vulgarisado por todo o paiz com diversa lettra.»[103]

Na collecção de glosas de Fados modernos, vendida em Lisboa nos kiosques, sahiu um Fado para o Hylario, pranteando a sua morte.

Transcrevemos a ultima quadra:

Calem-se os sons da guitarra
Porque o Hylario morreu
E foi cantar serenatas
Ás virgens brancas do ceu.

O Hylario deixou escola em Coimbra, onde tem tido distinctos continuadores do Fado academico.

Um d’elles é o sr. Candido de Viterbo, que em 1899 compoz a serenatella para o Auto da sebenta, impressa (Coimbra, casa da viuva Paula e Silva) com outros Fados, a saber: Fado do Penedo da Meditação, Fado da Quinta das Lagrimas, Fado do Penedo da Saudade, Fado da Lapa dos Poetas, Fado da Fonte da Serêa.

O frontispicio, em lithographia, representa, alem de alguns trechos da cidade de Coimbra, o sr. Candido de Viterbo, de capa e batina, dedilhando a sua guitarra, sentado no alto de um penedo.

A lettra d’estes Fados pertence aos seguintes academicos: Augusto Gil, Lopes Vieira, Gomes Lopes, Antonio Macieira, Guedes Teixeira (Fausto Guedes), Teixeira de Paschoaes, Severo Portela, Humberto de Bettencourt, Pereira Barata, Marques dos Santos, Alberto Pinheiro, Mario Esteves e Dom Thomaz de Noronha.

Vamos dar alguns specimens:

De Augusto Gil:

Teus olhos, contas escuras,
São duas Ave-Marias
D’um rosario d’amarguras
Que eu reso todos os dias.
Canta mais devagarinho,
Viterbo, ao seu postigo.
Não sei porquê, adivinho
Que está sonhando comigo...
Donzellinhas, tomai tento,
Meninas, não vos fieis.
Cantigas, leva-as o vento,
Cartas d’amor são papeis.
Olhos negros de velludo
Heis de fazer-me doutor.
Sois os meus livros d’estudo
Na faculdade do amor.

Guitarra de luxo

De Lopes Vieira:

Adeus, rio, choupos, serra,
Adeus tudo, tudo emfim!
Donzellinhas d’esta terra,
Lembrai-vos por cá de mim.
Cantarei, na despedida,
P’ra onde me leva a sorte,
O fado da minha vida,
O fado da minha morte.

De Antonio Macieira:

Andam teus olhos perdidos,
Dizes, de tanto chorar.
Pois eu perdi os sentidos
De os andar a procurar.

De Fausto Guedes:

Deus que nos vê lá de cima,
Alma d’esta alma, querida,
Juntou-nos: somos a rima
Da linda quadra da vida.

De Teixera de Paschoaes:

Sepulturas de desejos
São teus labios ideaes,
Onde vão chorar os beijos
Mal empregados nas mais.

De Severo Portela:

A trança que tu me deste
É negra como o carvão.
De luto tu me vestiste
Dos olhos ao coração.

De Humberto de Bettencourt:

Perdido todo o juizo,
Ia morrendo d’amores:
Pôde mais um teu sorriso
Que a sciencia dos doutores.

De Pereira Barata:

Não tenho de ti reserva
Pelo mal em que me deixas:
Por mais que se pise a herva,
Nunca á herva se ouvem queixas.

De Marques dos Santos:

Ó minha santa madrinha,
Isabel de Portugal,
Heis de me dar a mézinha
Que me livre do meu mal.
Dos Olivaes Santo Antonio,
Lá no alto idolatrado,
Fazei com que as lindas moças
Me tenham todas de agrado.

De Alberto Pinheiro:

Ó Senhora da Bonança,
A quem eu reso a chorar:
Olhai pela minha amada,
Que anda sobre aguas do mar.
Dos meus anneis o mais lindo
Vos darei quando voltar,
E em vossa capella branca
Com ella me irei casar.

De Mario Esteves:

Senhora da minha vida,
A trança deitai-a ao vento,
Que quanto mais desprendida
Mais me prende o pensamento.

De Dom Thomaz de Noronha:

Nos teus seios de luar
Derrama-se o teu cabello,
Como uma aurora a brilhar
Sobre montanhas de gêlo.

Foi Coimbra que deu ao Fado a alta cotação litteraria, que elle tem hoje nas serenatas academicas.

Muitas d’essas quadras, que ahi ficam relembradas, são poemas encantadores, doloras suavissimas, verdadeiras obras d’arte em miniatura.

Não conheço na poesia popular dos outros paizes, e não a conheço mal,[104] perolas de mais subida concepção poetica do que a maior parte d’essas quadras que pareciam sair da bocca do Hylario como um bando de queixumes estonteados, que algum temporal de amor tivesse desaninhado da alma dos poetas.

De mais a mais o Fado, transplantado litterariamente para Coimbra, não soffreu uma deslocação violenta como quando entrou, producto exotico, nas salas de Lisboa, e passou da guitarra ao piano.

Em Coimbra elle tem conservado toda a sua amargura dolente, continua a ser, na voz dos estudantes, o hymno da desgraça, não da que se debate em abysmos de miseria social, mas em tormentos, certamente exagerados, de amor e de saudade.

Prevalece integral no Fado de Coimbra a mesma feição psychica de soffrimento e angustia com que nasceu o Fado de Lisboa.

Não tem a desnatural-o a garridice frivola das salas, a inconsciencia musical com que elle é martelado nos pianos alfacinhas sem uma parcella minima de senso esthetico e de vibração emotiva.

Em Lisboa alguns poetas «novos» teem seguido o exemplo dos de Coimbra, dando ás coplas do Fado uma expressão accentuadamente litteraria.

Guitarra commum

Do sr. Ribeiro de Carvalho citarei os seguintes.

Fados

1.º

Cantigas do Triste Fado,
Bemditas pelo Senhor,
Só as inventa quem soffre,
Canta-as só quem tem amor...

2.º

É um passo da Terra ao Céu,
Da Vida á Morte é um ai...
Só do meu peito ao teu peito
Tamanha distancia vae!

3.º

Quem espera sempre alcança,
Diz um dictado traidor...
E eu espero e desespero,
Não alcanço o teu amor!

4.º

Dou-te amor, tu dás-me penas,
Vives só pela traição...
Fazes commercio de injurias,
Nem Deus te dá o perdão![105]

Logo que a litteratura se apropriou do Fado, como de um poema curto e profundo, a arte foi procurar n’elle a alma do povo, o caracter nacional, e á semelhança do que fizera Franz Liszt, inspirando-se nos motivos populares da Hungria, começaram a apparecer as rapsodias portuguezas, o rythmo do Fado foi superiormente glosado por alguns compositores, n’uma alta expressão de technica profissional.

As Rapsodias de Victor Hussla contéem Fados; Munier compoz um arranjo sobre o Fado corrido; Rey Colaço já publicou 8 Fados, incluindo o Hylario e o Corrido; Moreira de Sá deu recentemente a lume o Fado choradinho variado, etc.

Foi certamente Coimbra que, fazendo entrar o Fado nos dominios da litteratura, chamou para elle a attenção dos artistas portuguezes e dos estrangeiros que, como Victor Hussla, viveram em Portugal.

Dos nossos poetas modernos, aquelles que passaram por Coimbra são pois os que melhor revelam nos seus cantares toda a delicada comprehensão esthetica do Fado, toda a sua grande doçura maviosa como expressão sentimental.

Lembra-me, a proposito, esta quadra de Antonio Nobre:

Meu violão é um cortiço,
Tem por abelhas os sons,
Que fabricam, valha-me isso,
Fadinhos de mel, tão bons!

Cito de preferencia este poeta ainda pela circumstancia de que a sua morte prematura inspirou o Triste Fado, musica de Julio Silva, lettra de Armando de Araujo.

Mas não deixarei em silencio outras quadras, de rapazes que passaram por Coimbra. Ellas dão toda a emoção produzida pelo Fado na alma nacional:

Não temos musica é a nossa falha!
Sabemos a do vento e mais do mar...
É a da India e do campo da batalha,
Que o proprio fado é um modo de chorar.
Fausto (Guedes).
Cantador enamorado
Á minha porta a cantar,
Não cantes, chora-me o fado,
Que o fado fez-se a chorar...
(Ladislau Patricio).
Eu se o meu fado cantar
Sineiro m’ hei de fazer:
P’ra todo o povo chorar
Quando o meu fado souber.
(Lopes Vieira).

Da academia de Coimbra tem partido a publicação de folhas volantes, editadas pelo livreiro França Amado: uma d’ellas intitula-se Cantigas para o Fado e para as Fogueiras do San João.

NOTAS DE RODAPÉ:

[68] Quando o sr. D. Antonio Ayres de Gouvea, hoje bispo de Bethsaida, foi cursar a Universidade em 1850, ainda os estudantes compunham e cantavam amphiguris. Segundo informação de s. ex.ᵃ, appareceu mais tarde o Fado de Coimbra e depois o da Figueira. Fado ainda não era então, em Coimbra, uma designação generica, mas apenas especial d’aquellas duas canções.

[69] Emquanto este livro esperava o momento de entrar no prélo, falleceu Urbano de Castro, ás 3 horas da manhã de 6 de novembro de 1902.

Aqui fica n’esta pagina um clarão do seu espirito tão finamente litterario. É como se eu plantasse aqui uma saudade.

[70] Leia-se: Vê zero.

[71] Leia-se: Vê dois ró.

[72] Leia-se: F (éfe) primo.

[73] Leia-se: M linha.

[74] Leia-se: Dêtê.

[75] Leia-se: Hidrogénio.

[76] Leia-se: Agua.

[77] Leia-se: Prata.

[78] Leia-se: Potassa.

[79] Leia-se: Chloro.

[80] Leia-se: Hydrogénio.

[81] Leia-se: Antimonio.

[82] Leia-se: Agua.

[83] Leia-se: Chumbo.

[84] Leia-se: Azote.

[85] Fasciculo 56.

[86] Ficára reprovado em alguns preparatorios e no 1.º anno d’esta faculdade.

[87] Esta quadra é de Guerra Junqueiro, na Morte de D. João.

[88] De Fausto Guedes.

[89] De Antonio Nobre.

[90] Presumo que esta quadra é do Hylario.

[91] Tambem attribuo esta quadra ao Hylario.

[92] De Francisco Bastos, estudante brazileiro, morto.

[93] De Fausto Guedes Teixeira.

[94] Repetimos esta quadra por causa do seu encadeamento com as duas seguintes. Suppomos que é do Hylario.

[95] É do Hylario.

[96] De Fausto Guedes Teixeira.

[97] De Fausto Guedes Teixeira.

[98] É do Hylario.

[99] Esta e as trez quadras seguintes são de Fausto Guedes Teixeira.

[100] Supponho que é do Hylario.

[101] Ha manifesta contradicção entre o Cancioneiro e o seu Catalogo, de modo que o leitor fica hesitante. O Cancioneiro é um vasto e importante repositorio de canções populares, mas carece de algumas rectificações e de muitas aclarações, o que aliás não admira em obra de tanto vulto. Assim, no fasc. 4., diz que o amphiguri Duzentos gallegos appareceu em 1846 e 1847, sendo porem certo que Filinto Elysio já se refere a elle. Reappareceu n’essa epoca, o que faz differença. No fasc. 56 traz sob o titulo Remar... remar... uma barcarola com a seguinte nota: «É esta barcarola, uma das canções orpheonicas do Mondego, hoje vulgarisada por todo o paiz.» Não cita o nome do auctor, e comtudo eu conheço-o muito bem. Sou eu mesmo, que dos 16 para os 17 annos a compuz: é a «Barcarola de Ismael» no poemeto A nereida.

Mais tarde, quando inclui este poemeto no livro Cantares, procurei corrigir algumas infantilidades, que me saltaram aos olhos. Fiz reparo nos dois seguintes versos:

Velas ao vento,
Remar, remar.

No commum dos casos, se o vento sopra não é preciso remar. Por isso modifiquei assim a barcarola:

Do mar no fundo,
Sobre as areas,
Cantam sereas,
Quando ha luar.
O mar é lindo
N’este momento!
Repoisa o vento,
Remar, remar.
Do mar no fundo,
Cheios de aljofres,
Ha muitos cofres,
Que te hei de dar...
O mar é lindo
E a tarde é calma.
Delira a alma!
Remar, remar.
Do mar no fundo,
Sobre as areas,
Cantam sereas,
Quando ha luar.
O mar é lindo!
O ceu convida!
O amor é vida...
Remar, remar.

A barcarola, tal como ella vem no Cancioneiro, chega a não fazer sentido logo no primeiro verso, que diz:

No mar, no fundo, etc.

E padece outras alterações, que facilmente podiam ter sido evitadas.

[102] Tambem publicado, com a lettra, nos Cantos populares editados no Porto por Eduardo da Fonseca.

[103] Tambem vem publicado na 2.ª série de Cantos populares, Porto, editor Eduardo da Fonseca.

[104] Consegui reunir na minha modesta livraria 24 volumes sobre a poesia popular das nações da Europa. Estimo muito esta collecção, não só porque não é facil juntal-a, mas porque n’ella encontro bellezas que deixam a perder de vista muitos poetas cultos e gloriosos.

[105] No jornal A Chronica, n.º 68, do 3.º anno.