III
Os assumptos do Fado

O fadista, como já vimos a respeito do «bailhão», não deixa o seu credito por mãos alheias.

Pouco lhe importa que os litteratos o descrevam; descreve-se elle a si mesmo, propagando uma litteratura, que é d’elle ou feita para elle, e que lhe dá celebridade.

Essa litteratura é o Fado.

O fadista canta as outras classes; tão tolo seria elle que não cantasse a classe a que pertence.

Ha Fados que o descrevem na vida e na morte, no prazer e no azar, em liberdade e no Limoeiro.

A conjugação de todos esses Fados, dá, completa e integra, a vida do fadista.


Na vida

O fadista na taverna
Passa a vida socegada;
A um gesto da prostituta
Vae dar n’outro uma facada.
Chame-se embora immoral
Á vidinha do fadista,
Das boas vidas na lista
Não se conhece outra igual.
Trabalho não lhe faz mal,
O andar não lhe cança a perna,
Tem ao lado a amante terna
Cheia de doce carinho,
E tem sempre muito vinho
O fadista na taverna.
Quando diz o fadistinha
Que não tem dinheiro, um dia,
O tasqueiro logo lhe fia
Porque... o medo guarda a vinha.
Porque elle usa a navalhinha
Sempre de ponta afiada,
E a barriguinha adorada
Não póde estar no seguro...
O fadista, pois, o puro,
Passa a vida socegada.
Do lupanar para a tasca
Anda sempre a passeiar,
Com a esbelta amante a par,
A quem forte e feio casca.
Ás vezes arma borrasca
Por ciumes com que lucta,
E arruma pancada bruta,
Ou leva p’ra seu tabaco,
Só dando parte de fraco
A um gesto da prostituta.
Se a amante não tem dinheiro
E deve á contrabandista,
Então o heroe, o fadista,
Trabalha... de ratoneiro.
E se vae p’r’o Limoeiro,
Lá vae soccorrel-o a amada;
E ao voltar á vida airada,
Os bolsos trazendo fracos,
Até por quatro patacos
Vae dar n’outro uma facada.

Na morte

Vou despedir-me da vida,
Ao som da banza sonora;
P’r’a derradeira cantiga
Dá-me, ó musa, um quarto d’hora
Parte alegre o cantador,
Ouvindo o estylo do Fado,
Para o logar onde é dado,
Aos bons o justo valor.
Mas antes que o teu rancor,
Ó parca vil, destemida,
No coração cave a f’rida
E d’agonia os tormentos:
Ao som de tristes lamentos
Vou despedir-me da vida.
A fragil voz não levanto,
P’ra cantar minhas proezas:
Não vou relatar emprezas,
Que a todos causem espanto.
O que ora incita o meu canto
Para essa turba que chora,
N’esta pequena demora
Que peço ao Deus das verdades,
É dictar minhas vontades
Ao som da banza sonora.
Não quero sinos plangentes,
Nem pompa mal empregada;
Só quero em cova apartada
Dormir o somno dos crentes.
Que um d’esses faias valentes
Que Portugal hoje abriga,
Empunhando a banza amiga
Me faça a necrologia.
Bem vêdes. Não ha folia
P’r’a derradeira cantiga.
Na minha campa, gravado.
Seja visto este lettreiro:
«—Dorme aqui faia brégeiro
«Que soube cumprir o fado.»
Sinto-me, ó faias, cançado,
Vou partir sem mais demora.
Deixem-me só; vão-se embora
Sem pranto nem algazarra,
Mas p’ra que eu beije a guitarra
Dá-me, ó musa, um quarto d’hora.

Testamento do fadista

Deixo a guitarra á Joanna,
Quatro beijos á Francisca,
Deixo á Thomazia uma praga
E o baralho para a bisca.
’Stou no ultimo momento,
Dentro em pouco... era uma vez.
E, portanto, oiçam vocês
Qual é o meu testamento
—O Constancio, toma assento
Á banca que já abana;
Não faças lettra parrana
Como o teu irmão Calixto,
E começa por pôr isto:
Deixo a guitarra á Joanna.
Á Marianna d’Aliça
Deixo as de panno mui fino
Calças de bocca de sino
E o collete de ir á missa.
Deixo á Josepha Carriça
Um vintem para uma isca;
Á Bonifacia Lambisca
Deixo-lhe um chapeu de côco;
Á Felicia deixo um sôcco,
Quatro beijos á Francisca.
Deixo o gato que anda côxo
Á brejeirota Maria,
Que sempre quando eu pedia,
Não faltava a dar-me um chôcho;
Um canapé e um mocho
Deixo á Joaquina gaga;
Deixo á Brites Bestiaga
O meu luzente cachucho;
Deixo á Anna um ai machucho.
Deixo á Thomazia uma praga.
Á Adelaide do olho torto,
Fadista de boa pinta,
Deixo a minha linda cinta
Que mandei comprar ao Porto;
Deixo, para seu conforto,
Um litro á Lucia Petisca;
Á Cunegundes Arisca,
Que canta ás mil maravilhas,
Dois tachos, quatro rodilhas
E o baralho para a bisca.

A guitarra é o porta-voz do fadista. O calão é a sua linguagem. O Fado é a sua eloquencia, a sua poesia.

Por isso elle se mostra reconhecido ao inventor da guitarra, cuja estatua desejaria erigir na praça publica, como se se tratasse d’um heroe.

Mas, não o podendo conseguir, quer ao menos levantar-lhe um monumento com as melhores canções de todos os cantadores do Fado, o que faz lembrar a lenda da cortezã Rhodopis, que levantou uma das pyramides do Egypto convidando cada um dos seus amantes a acarretar uma pedra.

Da suavissima guitarra
Quem seria o inventor?
Qu’ria erguer-lhe um monumento,
Uma estatua de primor.
Inventaram-se os pianos,
As cornetas e os flautins,
As flautas, os cornetins
E os orgãos ha muitos annos.
Mas o saber dos humanos,
Do qual tanto ahi se narra,
Deu a prova mais bizarra
Do seu poder e magia,
Inventando a melodia
Da suavissima guitarra.
Quem se lembrou de fazer
As marimbas e as cornetas,
Quem inventou as trombetas
Não me importa a mim saber:
Mas o que me faz arder
É não achar um doutor,
Antiquario sabedor,
Em alfarrabios um barra,
Que me diga da guitarra
Quem seria o inventor.
Qu’ria metter nas cantigas
O nome d’aquelle heroe,
Que no peito me destroe
As tristezas inimigas.
Qu’ria empregar mil fadigas
Cantando-o com todo o alento,
E nos mil versos que invento
E conservo na memoria,
Para sua eterna gloria
Qu’ria erguer-lhe um monumento:
Um monumento fundado
Em cantigas escolhidas,
Que seriam muito qu’ridas
Pelos amantes do Fado.
Pediria em alto brado
A todo o bom cantador
Que me fizesse o favor
De poupar parte do cobre,
Para erguer a homem tão nobre
Uma estatua de primor.

Depois da invenção da guitarra, nada parece ao fadista tão admiravel e sublime como o Fado em que elle póde traduzir tudo quanto pensa e sente, toda a expressão da sua alma, toda a synthese da sua existencia.

Quando ouço qualquer pequena
Largar uma piadinha,
Sinto logo sensações...
De fazer uma escovinha.
Eu gosto da castanhola,
E deleita-me a habanéra,
Idolátro a penetéra
Cantada por uma hespanhola;
Acho pilheria á manóla,
Se tem graça e é morena,
Que na sua cantilena
Nos mostra verbosidade:
De a imitar tenho vontade,
Quando ouço qualquer pequena.
Mas gosto mais do Fadinho
Tocado mui mavioso,
Por um typo conscencioso,
Que trine no corridinho;
Não posso estar quietinho,
Se ouço uma guitarrinha;
Dá-me logo vontadinha
De entoar uma canção,
Se ouço qualquer ratão
Largar uma piadinha.
Se uma serva de Cupido,
Com meiga voz o cantar,
Fico-me logo a babar...
Mui peixóla e derretido;
Sinto-me então decidido,
Cá para certas funcções...
E n’estas occasiões,
Em que o meu ser todo gosa,
Cá para coisas ó Rosa...
Sinto logo sensações...
Decerto, não fica mal
Gostar do mavioso Fado,
Pois só elle é acclamado,
Como o hymno nacional.
Gosto do Fado em geral,
Tocado por brégeirinha,
Que com a nivea mãosinha,
O dedilha com primor.
Dá-me ganas e furor
De fazer uma escovinha.

Para o fadista, cidadão dos bairros infamados, habitué das espeluncas e dos bordeis, todo o paiz se resume n’esse mundo, que é o seu, a «sua patria», o seu habitat.

Por isso considera o Fado um «hymno nacional».

FADO CORRIDO

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Quando a prima e a toeira[40]
Dão do Fado os sons divinos,
Esqueço todos os hymnos
Da Carta, mais da Terceira.
Eu despréso a petisqueira
De mais fino e bom sabor;
Despréso o vinho e o amor;
Das magoas fico esquecido:
Que ao som do Fado corrido
Não ha tristeza nem dôr.

E lisonjeia-se de que as classes superiores da sociedade executem o Fado no piano, em sumptuosas salas; como um estrangeiro se póde lisonjear de ouvir o hymno da sua nação, apreciado n’uma terra que não é a d’elle.

E não me venham dizer
Santarrões de idéas tortas
Que o Fado é bom para as hortas
Entre as furias do beber:
Já tive o gosto de o vêr
Nos salões muito acatado;
Vi-o por vezes cantado,
Em beneficio dos pobres,
Por senhoras muito nobres,
No piano acompanhado.
Se o Fado ajuda os folgares
Da pobre gente do povo,
Não deve ser caso novo
Louvar-lhe os dons singulares:
Triumphem, pois, os cantares
Em que a voz d’alma nos falla;
Sôe a guitarra que abala
O albergue dos desgraçados,
E sob tectos doirados
Por’hí se ouve em muita sala.

O Fado é, para o fadista, a melhor de todas as musicas, a mais dôce, a mais terna, a mais estonteadora: o que vale ao Padre Santo, para não ultrajar a dignidade da tiara, é «não saber o gosto que o Fado tem»; o Diabo, nas profundezas do inferno, arde menos no fogo das suas paixões quando se põe a cantar o Fado como um faia da Mouraria:

O diabo lá no inferno,
Onde nos leva ao chamusco,
Tambem o Fadinho canta
Como o mais bello patusco.

Um Fado infernal descreve a macabra alegria do Averno quando lá sôam os accordes de algum Fado mephistophélico:

Satanaz com voz possante,
Com sua voz d’estentor,
Canta o diabolico amor
Da sua infernal amante.
Recitam versos do Dante
Todas as furias do Averno,
E por entre o fogo eterno
Que mil almas tem queimado,
Os demos tocam o Fado
Nos grandes tan-tans do inferno.

Á gargalhada estridente
Succede o tristonho pranto,
E os diabos folgam tanto,
Que não ha um descontente.
Entra o Fado finalmente
Na região bacchanal,
Faz-se um enorme arraial
Que em brilho vae progredindo
E o Demo canta, sorrindo,
O seu Fadinho infernal.

O calão é a linguagem habitual do fadista. Parece um dialecto, sem o ser rigorosamente. Muito pittoresco, não se limita apenas a alterar phoneticamente as palavras como a giria infantil; além de lhes alterar o som, altera-lhes tambem a forma, e muitas vezes lhes desloca a significação, levando-a para outros objectos, n’um sentido tropologico, fundado na relação de semelhança.

Assim, a garrafa preta da taberna é viuva; os copos são filhos da viuva: uma viuva e dois filhos quer dizer—uma garrafa e dois copos.

Mas se o copo é maior que o da decilitração habitual, chama-se sino grande.

O cigarro é soldado de calça branca; a navalha, sardinha; a faca, sarda; o apito, rouxinol; a quantia que o rufião recebe da amante, queijada; o dinheiro, painço; o café com leite, mulato; a agua com café, meio-caiado; Deus, juiz do Bairro Alto; as pernas, juntas; a barriga, folle das migas; as notas de banco, filhozes; enfiar uma guitarra pela cabeça d’outra pessoa é fazer uma gravata; a bofetada é estampa; a meia-porta dos bordeis do Bairro Alto, avental de madeira, etc.[41]

Nas outras linguas encontra-se um vocabulario correspondente ao calão dos nossos fadistas: os hespanhoes chamam-lhe germania e chamavam-lhe antigamente gerigonza; os francezes jargon e argot; os italianos gergo e lingua furbesca; os inglezes cant, etc.[42]

Calão vem de caló, nome que os ciganos dão a si mesmos.

Portanto significa propriamente «cigano», «lingua de cigano.»

A giria portugueza, isto é, a linguagem especial usada pelas classes vis a fim de que as outras classes sociaes a não entendam, é muito antiga: já no seculo XVI Jorge Ferreira de Vasconcellos se refere aos que fallavam germanía.

No seculo XVII D. Francisco Manuel de Mello empregou alguns termos de giria na Feira dos anexins, que é, como se sabe, uma galante collecção de equivocos e jogos de palavra.

No seculo XVIII, o padre Bluteau organizou uma lista d’aquelles termos, que incluiu no seu Vocabulario, e que foi copiada em parte no Compendio de orthographia de Frei Luiz de Monte Carmelo.

No mesmo seculo, os Rasgos metricos, de Alexandre Antonio de Lima, e as Infermidades da lingua, a que já tivemos occasião de referir-nos, fornecem elementos subsidiarios para o estudo do calão.

No seculo XIX, a Historia do captiveiro dos presos d’estado na Torre de S. Julião da Barra, por João Baptista Lopes; a traducção dos Mysterios de Pariz, feita no Porto pelo dr. Pereira Reis; o romance Fr. Paulo ou os doze mysterios; o romance Eduardo ou os mysterios do Limoeiro pelo padre Rabecão; os artigos de Candido Landolt na Revista do Minho (1875) e os de Queiroz Vellozo na Revista de Portugal, 1890; os Ciganos de Portugal, por Adolpho Coelho, abrangendo um importante estudo sobre o calão, e o diccionario de giria ultimamente publicado pelo sr. Alberto Bessa constituem copiosas fontes para o vocabulario do calão portuguez.

Adolpho Coelho traz o seguinte Fado composto em calão, reproduzido por Alberto Bessa:

Ao fadista chamam faia,
Ao agiota intrujão;
Ao corcovado golfinho,
Ao valente bogalhão.
Entre o povo portuguez
Ha calões tão revesados,
Que deixam muitos pintados
Por mais de cento e uma vez.
Lá vão alguns—trinta e trez
(Não sei se n’elles dou raia):
Á prata chamam-lhe laia,
Ás nossas cabeças pinhas;
Aos porcos chamam sardinhas,
Ao fadista chamam faia.
Ás nossas mãos chamam batas,
Ao genio chamam ralé;
Á esperança chamam filé,
Ás bruxarias bagatas;
Ás velhas chamam cascatas,
Ao poupado sovelão;
Um gabinardo ao gabão;
Ao caldo chamam-lhe rola;
A um relogio cebola,
Ao agiota intrujão.
Ao fugir chamam raspar;
Chamam á casa mosqueiro;
Ao ébrio chamam-lhe archeiro,
Ao comprehender toscar.
Ao roubo chamam cortar,
Á guitarra pianinho,
Ao chapeu escovadinho;
Ao jogo chamam batota,
A uma sardinha aranhota,
Ao corcovado golfinho.
Á fome chamam peneira;
Tambem lhe chamam larica.
Chamam á cara botica,
Á aguardente piteira.
Chamam bico á bebedeira,
A uma mentira palão;
E tambem é de calão
Chamar-se ao vinho briol;
Ao nosso bucho paiol,
Ao valente bogalhão.

Ha, porém, outros Fados compostos em calão. Conhecemos quatro que não devemos deixar de transcrever, tanto mais que elles contéem alguns termos, como por exemplo antrames e gamotes, que não foram incluidos no diccionario do sr. Bessa.

Quem se metter c’um fadista
E o ouvir fallar calão,
Fica logo a ver navios,
’Té perde a mastreação.
Chamam ao bater suquir,
Á gazúa uma retanha,
Á bofetada uma sanha;
Roncar é estar a dormir;
Esgueirar é ter de fugir,
Um arranjo é uma conquista,
A taverna é uma modista,
Cemiterio se-m’entende;
Decerto o não comprehende,
Quem se metter c’um fadista.
Homem honesto e honrado,
É um gajo direitinho;
Bater é fazer joginho,
Mattar é deixar espalhado.
Ser pobre estar desarmado,
Gamote é reunião:
Pois quem se chegue a um bailhão
Passe-lhe logo as palhetas,
Quando o vir fazer caretas,
E o ouvir fallar calão.
Elles chamam laia á prata,
A um casebre um cortiço,
Namorar é um serviço,
A pancada é zaragata,
Um sôcco é uma batata;
Chapeus altos são cepios,
Aos ladrões chamam larpios,
Ás algibeiras antrames:
Quem ouvir dizer arames,
Fica logo a ver navios.
Arames é o dinheiro;
Ao vinho chamam briol;
Ao apito um rouxinol;
Jogador de pau, cocheiro;
Um bebado é um archeiro,
Um gabinardo um gabão,
Dois vintens um buzilhão,
Avésa quer dizer tem:
Quem os não percebe bem,
’Té perde a mastreação.
Passei os butes[43] á Annica,
Pois tinha naifa na liga:
Boas noites, meus senhores.
Vou cantar uma cantiga.
De briol tinha atirado
Duas viuvas e meia:
Sentou-se uma centopeia
Junto onde eu estava sentado.
Fiquei mais envinagrado,
Quiz dar cabo da futrica.
Já por ser feia e não rica
E me negar um paivante,
Em tempo que é já distante
Passei os butes á Annica.
Puz-me a mirar a gajona
E fez-me tanta arrelia,
Que por pouco a não enfia
A minha naifa, intrujona.
Tinha um ar de marafona,
De mulher que vende em giga.
Mas não quiz armar a briga,
Apesar já da piélla,
Não me quiz medir com ella,
Pois tinha naifa na liga.
A final engole a isca
Que tinha mandado vir,
E diz-me assim ao sair:
«Chamo-me Nuna Francisca.
Se você se não arrisca
A mostrar-me os seus valores,
Vá ler co’a Julia Dolores,
P’ra nos soccarmos com ella».
Vejam lá que bresundella!
Boas noites, meus senhores.
Se alguem d’aqui foi capaz
De saber o que eu cantei,
Uma prenda lhe darei,
Seja velhote ou rapaz.
Sabem o que aqui me traz,
O que a servil-os me obriga?
É essa amizade antiga
Que por mim lhes é bem dada.
Visto que fiz esta entrada,
Vou cantar uma cantiga.

Quando tenho uma carinha,
E um charuto a fumegar,
Já sou mais que o faroleiro,
É dar-lhe, toca a gimbrar.
O meu corpo não foi feito
P’ra se ralar...—isso pára!
P’ra gozança é que esta cara
Sempre leve todo o geito.
Se avélo por o direito,
Seja só uma rodinha,
Já dou mil voltas á pinha
A pensar como estafal-a,
E então isso não se falla
Quando eu tenho uma carinha!
Elle é a bella murraça,
É a bella rapioca,
Elle é a gostosa móca,
Elle é tudo que tem graça.
Lá p’ra fazer de panaça
Co’as mondongas a versar,
Nunca me esteve a calhar;
Prefiro bater a bisca,
Ou dar-lhe então d’uma isca
E um charuto a fumegar.
Se a cousa gruda ao domingo,
Dou girança até ás hortas,
E de lá por horas mortas
E já torto que me tingo:
Que eu tambem nunca me pingo
Até perder o carreiro;
Fico só um pouco archeiro,
A trez furos de pingado,
E assim mystico, orchatado,
Já sou mais que o faroleiro.
Todo o gajo que na orchata
Nunca entortou o pescoço,
Avezando bago grosso,
Tem a pitorra bem chata.
Devia logo uma data
De camolete apanhar,
Que era então p’ra se lembrar
Que o mundo é uma fumaça,
E emquanto n’elle se passa
É dar-lhe, toca a gimbrar.

Em calão a atirar

Dê-me a naifa, não se ponha
Comigo ás duas por trez.
Não passe os butes agora...
Que está na mão de má rez.
—Eu estafo-o, seu mariola.
—E eu cá chego-lhe amas todas.
—Não se me ponha com modas,
«Que o mando já p’r’o esfolla.
—Olhe que é de ponta e móla.
«Olhe que esta tem peçonha.
—Você perdeu a vergonha?
—Perdi a vergonha? Hom’essa!
—Vamos lá, que tenho pressa;
«Dê-me o naifa, não se ponha...
—Não me ponho a fazer vistas
«De fadista ou galopim;
«Lá está aberto o eslarim
«P’ra quem rentar com fadistas.
—Você porque faz conquistas...
«Que eu não sei já quantas fez,
«Vem cá fazer-se francez?
«Porque pertence á gentalha,
«Vem pôr-se aqui, seu canalha,
«Comigo ás duas por trez!...
«—Está nadando, meu amigo;
«Passe p’ra cá essa espinha.
—Isso, não; que é muito minha:
«Você, chamava-lhe um figo!
—Eu se lhe afinfo no embigo
«Um sôcco sem mais demora...
«Veremos, se você chora
«O seu empenho tão cego!...
«Eh! onde vai, seu gallego?
«Não passe os butes agora!
«—Arrede-se já d’aqui...
«Já o não vejo, percebe?
«—Pois já a comadre bebe?
«Seu pateta!... seu cri-cri!...
«—Eu cá logo quando o vi;
«Puxei da naifa outra vez:
«Vá, marche, seu montanhez,
«Ou dou-lhe quatro naifadas;
«Conte co’as guellas cortadas,
«Que está na mão de má rez.

Assim, pois, o fadista creou para si um mundo á parte, onde a linguagem, os usos, os costumes constituem uma vida exótica, de aberração, que se escôa por entre a sociedade portugueza como um enxurro negro e torvo.

N’essa vida destragada todos os mais nobres sentimentos da humanidade se abatem e enlameiam, attingindo ás vezes as proporções de um paradoxo.

Uma das coisas que mais custam a comprehender na vida do fadista é o ciume que elle tem da mulher perdida, que todos os dias se vende ao primeiro homem que passa.

Interesse? affeição? tudo isto talvez, porque o fadista vive á custa da depravação da amante, mas quando o ciume o domina dir-se-ha haver n’esse sentimento o que quer que seja superior ao interesse material.

Reconhecendo-se atraiçoado, o fadista procura matar a mulher que lhe foi desleal, e desprésa todas as conveniencias pessoaes que d’essa convivencia amorosa lhe resultavam.

É então que parece comprehender o amor e sentir o ciume como todos os outros homens.

Fóra d’esses lances, encara a prostituição da mulher como um commercio que exclue toda a idéa de sentimentalidade, e que o ajuda a viver.

Do que elle tem ciumes não é das caricias que a sua amante vende; é d’aquellas que ella pode dar por um impulso espontaneo do coração.

O mobil das grandes desordens entre os fadistas tem quasi sempre origem no ciume—este ciume de contrabando, paradoxal, que tanto custa a comprehender.

Nos Fados, a mulher perdida é cantada pelo fadista como sendo tambem uma victima da fatalidade do destino:

Não me prendeu sempre o vicio,
Tambem donzella nasci;
Mas meu candor deprimi,
N’um criminal desperdicio.
Na beira do precipicio,
Onde o meu fado me tem,
Não vê meus prantos ninguem,
Nem minha dor avalia,
Privada de quanto havia
No collo de minha mãe!

Tudo p’ra mim se acabou,
Beijos de mãe, meus folguedos;
Meus innocentes brinquedos,
Um sonho foi que passou.
O fado meu me votou
A toda a triste agonia,
Até que p’r’a valla fria
Meu corpo seja deitado,
Pois que dos bens do passado
Nada me resta hoje em dia.

Camillo, no Eusebio Macario, reproduz dois versos de um Fado da Escarnichia (Escarniche, na pronuncia popular), os quaes dão a impressão rapida da «má sorte» que, segundo a lenda fadista, a arremessou para a desgraça:

Nascêra n’um berço de ouro
E não teve uma mortalha.

Todas as rameiras mais populares, desde a Severa, a Escarnichia, a Joaquina dos Cordões,[44] etc., até á Borboleta[45], teem sido choradas pela guitarra e encontrado uma necrologia nas glosas sentimentaes do Fado.

Além da vida do fadista e da morte das mal-fadadas que viveram entre o povo, o Fado canta ainda outros assumptos, a saber:

a) O amor, como o fadista é capaz de o sentir; sem delicadeza e sem recato: o amor sensual, que principia por onde nas outras classes acaba.

Porém, se é o teu desejo
Saber isto mais a fundo,
Deixa lá fallar o mundo
E passa p’ra cá um beijo:
Só então, segundo vejo,
Serei grande explicador.
Só então, anjo d’amor,
Saberás p’la vez primeira,
Que te fallo de cadeira,
Que sou n’arte professor.

E muitas vezes o amor é declarado em calão, para ser melhor entendido:

Quando eu apenas tosquei
Essa facha tão formosa,
Senti coisinhas ó Rosa,
E apaixonado fiquei.
Sou feliz que nem eu sei...
Minh’alma se desatina
Só pôr ver que é papa fina
Sua elegante pessoa;
Palavra, que é toda boa,
Minha adorada menina!

b) Os trabalhos e soffrimentos das classes sociaes que estão em contacto com o fadista ou proximas a elle.

c) Os aspectos da vida popular e a chronica das ruas, como as hortas, os pregões, a noite de Santo Antonio.

d) Os grandes crimes e os grandes desastres terrestres ou maritimos, que impressionam a opinião publica.

e) A morte de personagens celebres.

f) Os conflictos politicos ou religiosos que provocam discussões na imprensa e no parlamento.

g) A nomenclatura popular de utensilios de trabalho nas artes e officios ou de animaes, arvores, plantas, flores, etc.

h) As cidades, seus bairros e ruas, as villas e aldeias do paiz, n’um jogo de metaphora ou de antithese; n’um sentido de orgulho local e patriotico ou de funda nostalgia.

i) Passagens da Biblia, assumptos religiosos, especialmente relativos á vida eterna, e episodios da historia de Portugal.

j) Descripção das esperas de touros, peripecias das touradas, triumphos e desastres dos toureiros mais evidentes.

k) Expressão de malicias e gaiatices, que ou é formulada brutalmente n’uma linguagem obscena ou recorre ao equivoco e ao trocadilho.

l) Floreios de palavras exdruxulas e arrevezadas que muitas vezes não fazem sentido.

Entre as classes sociaes que são cantadas no Fado, avulta a dos marinheiros, talvez pela razão, de que o marujo é meio fadista.

Já dissemos que, segundo a opinião do velho guitarrista Maia, o Fado do marinheiro é um dos mais antigos.

Tornou-se muito popular uma cantiga, que não seguia a metrica tradicional do Fado, mas que entrou logo no genero, a que realmente tinha direito não só pelo assumpto, como tambem pelo seu rythmo plangente: