A doce mãe de Jesus,
Que remiu a humanidade,
Sentia a cruel saudade
Que ao nada a alma reduz.
Nos céus não havia luz
Desde o sul até ao norte,
Só ella chorava a sorte
E o seu tão horrivel trilho,
Porque, ali, do querido filho
A Virgem chorava a morte.
Quão amargo era o seu pranto,
Quantas lagrimas vertia
Ao pensar que lhe morria
Quem na vida amava tanto!
Seu coração puro e santo
Sentia-se aniquilado,
E ora erguia aos céos um brado
Repassado de desgosto,
Ora olhava o bello rosto
Do seu filho idolatrado.

Tambem o fadista investe ás vezes com os problemas mysteriosos de alem da campa, como n’este Fado:

Satanaz, rei do Averno,
Reunindo o seu conselho,
Mandou fazer a caldeira
Do grande Pero Botelho.
Clara ideia ninguem faz
Da sua monstruosidade,
Nem de quanta humanidade
Em suas fornalhas jaz.
Por ordem de Satanaz
Foi posta ao meio do inferno,
E á ordem do seu governo
E ali tudo queimado,
Depois de haver decretado
Satanaz, rei do Averno.
As bruxas em volta d’ella
Preparam enguirimanços,
E os mais negros manipanços
Vigiam-n’a, com cautella.
Ali cae desde a donzella
Ao condemnado mais velho.
Ha bem perto um apparelho,
Semelhante a uma lousa,
Onde o diabo repousa
Reunindo o seu conselho.
Os infernaes feiticeiros
Que do demonio são filhos,
Cantam tristes estribilhos,
Ateiam os seus brazeiros.
Horropilam os berreiros
Que saiem d’esta lareira!
Mas o rei vendo a maneira
Como as almas se perdiam,
Vendo que mais appar’ciam,
Mandou fazer a caldeira.
É ali que tudo finda,
Ali tudo se consome:
De Pero lhe deram o nome
P’la sua crueza infinda.
Quem para o céu se não guinda
Attente bem n’este espelho:
Pois quem segue mau conselho,
Ou caminha com cegueira,
Vae acabar na caldeira,
Do grande Pero Botelho.

Quanto á historia de Portugal, tenho ouvido Fados sobre os amores e morte de D. Ignez de Castro e ainda sobre outras epocas e assumptos, como por exemplo:

Fazer nos Lusos matança
Muitos tyrannos tentaram;
Mas á voz da Liberdade,
Elles seus fóros salvaram.
Foi Dom João o primeiro,
Quem, por seu punho real,
Para livrar Portugal,
Estafou o conde Andeiro.
Dona Leonor n’um berreiro,
Pedia ao povo vingança;
Porem fugindo-lhe a esp’rança
De recobrar o seu mando,
Deu-se á prisão; mas jurando,
Fazer nas lusos matança.
Lá se partiu p’r’as Hespanhas,
Pedir ao rei que a vingasse,
Que Portugal conquistasse,
Contando-lhe outras patranhas.
Umas taes artes, e manhas,
Sempre o hespanhol abalaram:
Logo os seus terços entraram
No reino, altivos e bravos;
E já fazer-nos escravos,
Muitos tyrannos tentaram.
Mas os famosos montantes
De Dom João, formidavel,
E do seu grão Condestavel,
Deram-lhes rijo, possantes.
Eis rôtos já, vacillantes,
Os hespanhoes, co’anciedade,
Fogem, ou pedem piedade;
Triumpham, pois, dos revézes
Esses leaes portuguezes,
Mas á voz da Liberdade!
Sempre em continuas batalhas
Seu nobre sangue vertendo,
Aos inimigos tecendo,
Com ferro, as negras mortalhas;
Eis como assim das migalhas
O reino todo alimparam;
Eis como, pois, alcançaram
Das nações todas respeito:
E á Liberdade com preito
Elles seus fóros salvaram!

Disse-me o sr. Verol Junior tencionar imprimir uma collecção de Fados, que abrange todos os periodos da historia de Portugal.

A vida do fado está intimamente relacionada com a tauromachia.

O fadista não falta a uma espera de touros, com a sua guitarra na mão; o fadista de um e outro sexo, mulheres e homens.

Antigamente o enthusiasmo era maior, no tempo da Severa e do Vimioso, quando os fidalgos, «amadores» e «cavalleiros», não perdiam uma espera, nem uma tourada.

A tradição tauromachica era então muito mais intensa do que hoje, porque no seculo XVIII tinhamos tido touros de morte, e o enthusiasmo pelas luctas cruentas do redondel conservava ainda, no espirito do povo, um rescaldo ardente.

No seculo XVIII havia em Lisboa nada menos de quatro praças de touros: a da Estrella, nas terras do Infantado; a da Parada, junto ao Rocio; a do Salitre, e a do Campo de Sant’Anna. Não fallando no Terreiro do Paço, onde se realizavam as touradas de maior pompa.

Quem fazia as cortezias era o neto[49], (meirinho da cidade); quem as recebia era o rei, o senado da camara, o tribunal da junta da casa do Infantado, e, ás vezes, Nossa Senhora!

Assim, no programma de uma corrida em obsequio da devotissima imagem de Nossa Senhora do Cabo, sendo o producto para os cultos da mesma Senhora, lê-se o seguinte: «Ás duas horas e meia estará tudo prompto, e feito o signal costumado, entrará o Neto a fazer as suas cortezias á devotissima imagem de Nossa Senhora, que ha de estar collocada em um logar proprio, e depois ao Tribunal».

Por esta não esperava de certo o leitor: que a propria imagem de Nossa Senhora, collocada em altar todo florente de galas, fosse quem recebesse as cortezias do cavalleiro.

O costume de fazer touradas em beneficio de Nossa Senhora e dos santos, era então vulgarissimo.

Em setembro de 1778 effectuou-se na Praça do Commercio um combate de touros, como n’esse tempo se dizia, a bem do adeantamento das obras da egreja de Santo Antonio d’esta cidade.

Assistiram suas magestades.

Em agosto d’esse mesmo anno realizou-se na Praça do Commercio uma tourada em beneficio de Nossa Senhora do Cabo, funcção promovida pelo capitão João Dias Talaia Souto Maior, como escravo que era, e toda a sua familia, da mesma Nossa Senhora.

Os touros, em numero de 25, afóra os que vinham sobrecellentes, eram offerecidos bizarramente pela casa real.

No mesmo anno pediu o padre Emygio José da Costa licença para organizar um combate de touros na Real Praça do Commercio, a fim de adquirir uma avultada esmola destinada aos enfermos particulares da capital.

«Os touros que hão-de morrer, dizia o programma, são dezeseis, que El-Rei N. Senhor e varios fidalgos d’esta Côrte deram para o presente dia.»

Aqui temos, pois, as touradas de morte, que tanto horrorisam os portuguezes que a ellas assistem hoje em Madrid, Badajoz ou qualquer outra praça hespanhola.

Quantum mutatus ab illo... o portuguez!

Outro programma dizia:

«Entrará Nicolau Theodoro, suhiço (sic), vestido á suhiça com uma lança na mão, e sobre uma mesa á porta do touril esperará um touro, e ao tempo que o investir lhe metterá a lança, e repentinamente saltará por sima d’elle; e ficando em pé metterá a mão á espada, e esperará o touro cara a cara, e promette matal-o ás estucadas ou ás cotiladas.»

Copio textualmente para conservar toda a feição historica do programma. Pela mesma razão não alterei a orthographia dos seguintes periodos que de outros varios programmas vou transcrever.

«Entrará o Neto a fazer as cortezias ao Tribunal, e depois um breve divertimento de algumas danças, em quanto os cavalleiros se põem promptos, e rodeando a praça sahirá tudo para fóra, entrarão os quatro contendores a fazer as cortezias do costume ao Tribunal, em primeiro lugar Theodoro Francisco Ribeiro, o qual já domingo passado entrou tambem em primeiro logar, e mostrou o quanto era destemido; em segundo logar Jacintho Pinto de Moraes, aquelle que domingo passado ficou sem capa, pelo Touro lha tirar dos hombros, e n’este dia a quer restaurar; em terceiro logar Thomaz Cesar, o polvilheiro, que por esta Cidade vende poz (sic), que tendo noticias, que domingo passado os cavalleiros fizeram tantas proezas, quer elle imital-os; em quarto logar Carlos Antonio Canute, Genovez de Nação, com logea defronte do Palacio do Excellentissimo Monteiro Mór, sujeito de muito valor, e forças, e a figura muito especial, tem viajado pela China, e Indias de Hespanha, e quer mostrar como n’estes paizes se tourea, etc.»


«Seguir-se-ha logo o Contendor Bernardo de Magalhães e Noronha, filho do Capitão Mór de Formoselha, assistente no campo de Coimbra, pessoa bem conhecida n’esta côrte, o qual pelo seu nascimento, e valor, executará acções muito distinctas. Terá para combater 15 touros escolhidos das melhores raças; irá acompanhado de seus criados ricamente vestidos, e capinhas, tudo com igual aceio.»


«E logo entrarão os contendores, que serão quatro cavalleiros do gosto dos senhores espectadores, em primeiro logar Lourenço Antonio de Moraes Bandeira, o qual desempenhará n’esta tarde o seu logar, pelas valorosas acções que se esperarão do seu animo; em segundo logar Sebastião Antonio de Mendonça, igual ao primeiro no mesmo valor; em terceiro lugar Francisco da Silva Alcantara, por appellido o fava secca, este promette á sua parte matar de rojão tres, ou quatro touros, por se obrigar a isso no ajuste que fez; em quarto lugar Thomaz Cesar, pulvilheiro d’esta cidade, e n’ella muito bem conhecido; entrarão estes quatro cavalleiros bem vestidos, e providos de bons cavallos, acompanhados dos seus criados, homens de forcado, e capinhas a fazer as cortezias, e acabadas sairão para fóra a mudarem de cavallos; entrarão novamente, e cada um occupará um angulo da praça, e se irão seguindo cada um quando lhe tocar, esperar o touro á sahida da porta do touril, ficando n’esta forma touriando, sem haver perturbação de logares, somente quando houver duellos os perderão para se desaggravarem.»

«Entrará logo o Neto e depois os contadores a fazerem as devidas cortezias ao Tribunal da Junta da Casa do Infantado, os quaes serão Caietano Romão, criado do Excellentissimo Conde de Arcos, e João Gaspar, Allemão de Nação, professor da arte de Cavallaria, de muitas forças e igual valentia, o que pertende fazer certo neste combate; para o que promette pôr-se a pé, e chamar hum touro, que esteja com todas as suas forças, e ao investir pegar-lhe em huma ponta, e passando-lhe o pé dar-lhe huma tão grande cutilada, que, se fôr no pescoço, lho deixará quasi separado; e se fôr no lombo, lhe cortará o espinhaço, de sorte que lhe sáião os intestinos pela ferida; e se pela violencia do touro lh’o não puder fazer da primeira vez, tentará segunda e terceira; e no caso que o não possa conseguir apezar de toda esta diligencia que promette fazer, chamará o touro de cara a cara, e pegando-lhe por ambas as pontas o deitará em terra de pernas assima, tudo com muita ligeireza, e desembaraço: e se não fizer destas tres valentias huma perderá dez moedas de ouro, que tem depositado; e se executar das tres valentias alguma, as ganhará, etc.»

Vejamos agora a nomenclatura que tinham os diversos logares occupados pelos espectadores:

«Adverte-se que os preços dos camarotes do primeiro andar são a 600 réis a vara, e do segundo andar a 480 réis a vara; e as trincheiras da sombra a 150 réis, e as do sol a 60 réis.»

N’outros espectaculos, que não fossem touros, mas que se déssem em qualquer das praças, baixavam os preços consideravelmente.

Assim, n’uma exhibição pyrotechnica, feita por um hespanhol de nação, os preços dos camarotes eram a 300 réis por vara, tanto no primeiro como no segundo andar, e todos os palanques a 40 réis.

Um outro programma, da Praça do Campo de Sant’Anna, diz:

«Os camarotes do andar de sima serão com mais comado, (sic).»[50]

Comprehende-se que o seculo XIX recebesse do seculo anterior uma viva tradição tauromachica, que enthusiasmava ainda o povo pelas antigas corridas, cujo brilho e perigo não tinham sido menores que nas praças de Hespanha.

As mulheres de má vida não ficavam indifferentes a essa tradição; não ficou a Severa, que zombava das suas collegas menos animosas do que ella, e que fez escola.

Algumas raparigas do fado chegaram a tomar parte em touradas.

Assim aconteceu n’uma corrida realizada em outubro de 1842.

A Revista Universal, redigida por Castilho, commemorou o acontecimento n’este suelto vernaculo, de que se perdeu já o feitio:

«A corrida de touros de domingo ultimo no Campo de Sant’Anna pouca menção merece. Sim eram bravos os animaes; mas, exceptuando algumas quédas, alguns corpos humanos marrados e pisados, e algumas saudes provavelmente arruinadas para sempre, não houve ahi successo por onde a tarde se podesse chamar boa.

«Semear morte em vultos de figura humana, é de pequeno interesse dramatico; é preciso dar-lh’a prompta e estrondosa; é doutrina corrente, é aphorismo entre os partidarios do curro. Para descontar porém a semsaboria da festa, houve n’ella a novidade (pomposamente annunciada em todas as esquinas da capital) de uma rapariga a cavallo n’um rossinante, correndo um toiro á vara larga: o toiro, que a podia ter morto, contentou-se fidalgosamente de dar-lhe uma licção; e mettendo os cornos pelos peitos ao cavallo, e arvorando-o a prumo, a despejou da sella, estirada de costas no meio da praça por entre os risos dos circumstantes.

«A mulher forte, com razão assomada da descortesia, recavalgou para se desaffrontar; e não duvidamos que o houvera conseguido, se o cavallo não discordasse manifestamente das opiniões da cavalleira: o exame phrenelogico dos dois craneos, se algum curioso de anatomia comparada o tiver de fazer lá para o futuro, deverá, se nos não enganamos, redundar todo em gloria do quadrupede.»

O brado de um poeta contra as touradas não encontrava écco; nem as mulheres nem os homens lhe davam ouvidos.

Qualquer Fadinho toureiro, como relembraremos no capitulo seguinte, o combatia e supplantava.

Resta-nos ainda fallar de duas especies de Fados.

Aquelles que tratam assumptos pornographicos, mais ou menos desbragados, encontram-se na Guitarrinha innocente e no Almanach do fado bréjeiro.

Quanto aos Fados exdruxulos, e outros que apenas visam a uma combinação artificiosa de palavras, technicas ou arrevezadas, havemos de incluil-os na secção dos Fados de nomenclatura, não porque propriamente o sejam, mas porque melhor ficarão ali do que em qualquer outro grupo.

FADO CHORADINHO

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NOTAS DE RODAPÉ:

[40] Cordas da guitarra.

[41] Alberto Bessa, A giria portugueza.

[42] Adolpho Coelho, Os ciganos de Portugal, pag. 56.

[43] Bute é uma das palavras que o calão adoptou das linguas estrangeiras. Vem do inglez boot, bota, pé. (Adolpho Coelho.)

[44] Dos Cordões, por trazer sempre dois ao pescoço. Esta mulher devia ser do norte. Morava na rua das Gaveas.

[45] A Borboleta inculcava-se irmã natural do infeliz tribuno Vieira de Castro. Quando ella morreu, cantou-se-lhe um Fado que dizia:

Se em seu collo de alabastro
Nutrisse conducta sã,
Desmentira o ser irmã,
Do fraco Vieira de Castro.
Estava escripto no cadastro
Da sorte que os malfadou,
Matar o irmão quem matou;
Tornar-se a irmã prostituta,
Que d’essa chamma corrupta
Tanto á luz se aproximou!...

[46] Victor Hussla inspirou-se certamente n’esta lettra quando compoz a ballada «Triste vida do marujo».

[47] Dom Antonio ou Antonio Caro era o illustre estadista Antonio Maria de Fontes Pereira de Mello, chefe do partido regenerador. Este partido estava então no poder, sendo chefe do gabinete, por delegação de Fontes, o conselheiro Antonio Rodrigues Sampaio.

[48] Sem passar a fronteira, pag. 138.

[49] N’um opusculo em que se descrevem as touradas com que o senado da camara de Lisboa celebrou a acclamação da rainha D. Maria I, encontra-se a origem da accepção tauromachica da palavra Neto. Diz o folheto. «Seguiu-se a entrar na praça o meirinho da cidade João Marcelino Alvares de Sá (a que o vulgo n’estas funcções chama Neto, pela tradição de um meirinho de appellido Neto, que assistiu a muitos d’estes festejos) etc.» É uma nota curiosa, e por isso a registamos.

[50] Todas estas noticias foram colhidas n’uma curiosa collecção de programmas, coordenados em volumes de miscellanea, que existem na bibliotheca da Academia Real das Sciencias de Lisboa.