Triste vida a do marujo,
Qual d’ellas a mais cansada.
Por’môr da triste soldada,
Passa tormentos,
Passa tormentos,
Don, don.
Anda á chuva e aos ventos,
Quer de verão, quer de inverno;
Parecem o proprio inferno
As tempestades,
As tempestades,
Don, don.
Foi um velho marinheiro
Que inventou esta cantiga;
Embarcado toda a vida,
Sem ter dinheiro,
Sem ter dinheiro,
D’este Fado correm pelo menos duas versões, como
se pode reconhecer confrontando a de Coimbra—que
vem no Cancioneiro popular de Theophilo Braga—com
a (de Lisboa) que vem appensa á Confissão geral do
marujo Vicente, edição de Verol Junior.
No Almanach da terra e mar, tambem edição d’este
livreiro, vem um novo Fado do marujo, decalcado sobre
o antigo; além de outros Fados maritimos.
É muito original, pelo emprego da technologia nautica
n’uma intenção amorosa, o seguinte Fado:
Do mar nas aguas salgadas,
Mais de trez annos andei
A navegar de bolina.
’Té que a final encalhei.
Como chaveco pirata
Andei correndo na alheta
D’uma velleira corveta,
Que me fugia, a ingrata!
Toda a manobra m’empata,
Virando sempre em bordadas;
Ora co’as vellas caçadas,
Ora com gávea, e latina;
Nunca vi barca mais fina,
Do mar nas aguas salgadas!
Quando largava os estaes,
E carregava o traquete,
Corria como um foguete,
Ou talvez mesmo inda mais!
Até os mastros reaes
Que tinha d’aço julguei;
Nunca por vante a pilhei,
Com brisa fresca ou escassa.
A dar-lhe sempre assim caça
Mais de trez annos andei!
Nos seus cachorros de proa
O meu sentido só tinha;
Porém p’ra fóra da linha
Da minha esteira ella vôa,
Como um safio s’escôa,
Que tem a quilha mui fina;
Já p’lo redondo a mofina
Zomba de toda a coragem,
Nem se lhe dá abordagem,
A navegar de bolina!
Senti-me desarvorado,
Nas ondas andando aos tombos,
O casco tendo com rombos,
E todo, emfim, adornado.
No tope, o signal içado
Pôr de soccorro mandei.
Ella então cedendo á lei,
Seja quem for que a invoque,
Trouxe-me tanto a reboque,
’Té que a final encalhei.
De outros Fados de classe daremos ainda alguns
exemplos.
Fado dos calceteiros
Nossa arte chega ao apuro,
Posso-o dizer com verdade:
Vêde os mosaicos de cores
Nos passeios da cidade.
Para que os trens de estadão
Rodem por modo ligeiro,
Passamos o dia inteiro
Em difficil posição.
Sempre ao rigor da estação,
O nosso trabalho é duro;
Mas podemos, asseguro,
Dizer mesmo aos de Pariz:
No lusitano paiz
Nossa arte chega ao apuro.
Com um passadio escasso,
Entre o frio e o calor,
Trabalham com todo o ardor
Os nossos homens de masso:
Dando no progresso um passo,
Formámos sociedade;
Reina entre nós amizade,
Detestamos os vis pulhas;
Não somos homens de bulhas,
Posso-o dizer com verdade.
Ordens, que do mestre vem,
Cumprimos, como é dever,
Mas não sabemos soffrer
Um insulto de ninguem.
Se qu’reis saber onde tem
Chegado os nossos primores,
Tornae-vos passeiadores
Das ruas que são mais vistas,
E com olhos, mas de artistas,
Vêde o mosaico de côres.
O estrangeiro em Portugal,
De certo fica encantado,
Quando vê lá no Chiado
Obra boa nacional:
Se elle quizer ser leal
E não faltar á verdade,
Dirá, com ou sem vontade,
Que por lá não se apresenta
O que em Portugal se ostenta
Nos passeios da cidade.
Fado dos galuchos
Deixei minha cara terra,
Minha mãe, o meu amor;
Como agora uns vis feijões,
E marcho ao som d’um tambor.
Como eu não tinha dinheiro,
Nem um empenho por mim,
Lavrador, coitado, vim,
Servir a patria guerreiro.
Não perguntaram primeiro
Se eu tinha geito p’r á guerra,
«Marcharás por valle e serra,
Nunca fugirás á briga»
Ai! p’ra tão dura fadiga
Deixei minha cara terra!
Se era duro o meu lidar
Em que suei pingo a pingo,
Eu tinha sempre ao domingo
As festas no meu logar.
Ai! já não oiço o cantar
Do ceifeiro lidador!
Já do bando voador
Eu não escuto o gorgeio!
Já não aperto a meu seio
Minha mãe, o meu amor!
Obedeço ao capitão,
Mesmo ao cabo muito bruto;
Ao tenente, que é matuto,
E ao sargento aldrabão.
Attendidas jámais são
As minhas justas razões.
D’antes nas minhas funcções
Comi coelho guisado.
Da patria bravo soldado,
Como agora uns vis feijões.
Não se fartam de dizer:
«Defender-se a patria deve.»
Mas o diabo me leve
Se eu sei quem vou defender!
Devo sempre combater,
E matar, seja a quem fôr,
Sem nunca sentir amor.
Isto farei, vil galucho,
Que ora triste aperto o bucho
E marcho ao som d’um tambor.
Sobre os aspectos da vida popular e a chronica das
ruas:
As hortas
Aos domingos, á tardinha,
Quem não sae fóra de Portas,
Não conhece a felicidade
De comer peixe nas hortas.
A gente cá de Lisboa
Gosta sempre, aos dias santos,
De se metter pelos cantos,
Comendo e bebendo á tôa;
Petisqueira toda boa
Procura a nossa gentinha:
Come pescada ou sardinha,
Com a maior alegria:
P’r’as hortas ha romaria
Aos domingos, á tardinha.
Por debaixo da folhagem
Enxuga do branco e tinto;
E creiam, que não lhes minto,
Bebe com toda a coragem:
No fim d’aquella viagem
Tudo tem as pernas tortas;
Parecem uns moscas-mortas,
Mesmo os que tocam a banza;
Pois só não fica zaranza
Quem não sae fóra de Portas.
Uns ficam inteiriçados
Debaixo ali d’umas bancas,
Outros vão movendo as trancas,
Mas bastante atrapalhados.
Tantos copos enxugados,
Com tal força de vontade,
Tiram logo a faculdade
De a gente mover as pernas.
Mas quem não vê taes tabernas,
Não conhece a felicidade.
Ir ás hortas de passeio,
É melhor que ser sultão:
Quem precisa distracção,
Procure logo este meio.
Podem ir lá sem receio
De virem co’as pernas tortas;
Pois lá por fora de Portas
Pouco bebe quem bem pensa;
Mas todos teem licença
De comer peixe nas hortas.
Pregões de Lisboa
Merca o tremoço saloio,
Merca laranja da China,
Saiu agora a dez réis:
Quem quer vêr a sua sina?
Merca a ginja garrafal,
Merca a cereja do sacco,
Marmello assado, a pataco,
Vá la da viva sem sal.
Quem merca a uva ferral
Que é mesmo trigo sem joio?
Quem compra a este maloio
Dois casaes de patos novos?
Quem me acaba a duzia d’ovos?
Merca o tremoço saloio.
Vá o par de bons melões,
Um quarteirão de tomates,
Vá peras quasi de gratis,
Rabanetes e limões.
Merca o mólho d’agriões,
Tinta fina, tinta fina,
Ricas postas de curvina,
Quarteirão de pêra parda,
Quem merca a couve lombarda?
Merca a laranja da China.
Vá o par de melancias;
Quem quer partidas á faca?
Merca o figado de vacca,
Pevides e alcomonias.
Bonitos, bijuterias
Dedaes, fitas e anneis,
Pentes, broches e paineis,
Canivetes com bons cabos
O Pimpão, Trinta Diabos
Saiu agora a dez réis.
Amola facas, tesouras;
Vá capachos e sapatos,
Vá lá carapau p’ra gatos;
Vá esteiras e vassouras.
Merca o mólho de cenouras,
Merca a boa tangerina;
Vá lá abob’ra-menina,
Figos quem quer almoçar?
Tam’ra doce p’ra jogar?
Quem quer ver a sua sina?
Noite de Santo Antonio
Em dia de Santo Antonio,
Toda a gente faz banzé;
Lá na praça da Figueira
Sempre ha socco e ponta-pé.
No Rocio ha bons bailados,
Na Praça muito empurrão;
Os que andam na multidão
Vem para casa estafados
Uns guinchos disparatados
Da flauta tira o laponio,
Sempre me lembra o demonio
Quando vejo mil fogueiras
E na rua as vendedeiras
Em dia de Santo Antonio.
Muita gente vae sornar
Lá p’ras bandas da Trindade;
E depois a liberdade
Lhe custa reconquistar.
Tem as custas de pagar
Por ter andado zaré.
N’estas noites de filé
Da nossa população
É jogar o cachação,
Toda a gente faz banzé.
Segue depois outro santo
S. João, santo adorado.
Novo motim é travado,
Ha riso, amor, odio, pranto
Á sombra do rico manto
Da policia sempre ordeira
Lá vae muita bebedeira
Parar á casa da guarda,
Pois quasi sempre ha bernarda
Lá na Praça da Figueira.
Segue S. Pedro, e o povinho
Da lucta não está cansado;
Toca a andar muito exaltado
Pelo fumo e pelo vinho.
Louvam mais a S. Martinho
Que a S. Pedro, o rei da fé!
Fazem grande fincapé
Nos palmitos e assucenas,
E por causa das pequenas,
Sempre ha socco e ponta-pé.
Os Fados sobre crimes notaveis são vulgarissimos;
como já dissemos, apparecem frequentes vezes, em folhas
volantes. Damos, por isso, apenas um specimen:
O crime do Bemformoso
Em pleno sec’lo das luzes...
Chega a par’cer impossivel!
N’uma cidade brilhante
Commetteu-se um crime horrivel!
Na rua do Bemformoso
(Por mostrar sua alforria)
Pôz loja de mercearia
Mais um caixeiro brioso;
Porém o Fado maldoso,
Peior do que os abestruzes,
Só por nos lembrar as cruzes
Do tempo do feudalismo,
Lhe cavou medonho abysmo
Em pleno sec’lo das luzes.
Quando todo mundo préga
Contra a pena derradeira,
É quando a mão traiçoeira
Mais sobre os homens carrega!
A vil ambição é cega,
Dos vicios, o mais terrivel!
Porque faz descer ao nivel
Do ladrão e matador;
Mas fazel-o ao bemfeitor,
Chega a par’cer impossivel!
Domingues foi tão malvado,
Que, além de fazer-lhe o roubo,
Por ter entranhas de lobo,
Quiz deixal-o estrangulado.
Dormindo mui socegado
Estava o pobre commerciante,
Quando um ferro perfurante
Lhe trespassou as guellas!
E dão-se scenas d’aquellas
N’uma cidade brilhante!
O desditoso Duarte
(Por dar aos homens abrigo)
Creou feroz inimigo,
Sem culpa da sua parte!
Não foi morto a bacamarte,
Nem por arma compativel;
Que, por tornar despresivel
Tanto a dita como o porte,
Não só se fez uma morte...
Commetteu-se um crime horrivel!
Sobre um desastre que impressionou Lisboa—a morte
do conde de Camaride:
O conde de Camaride
(Por dispensar o cocheiro)
Morreu desastrosamente...
Sem ser pintor, nem pedreiro!
Na rua Nova do Almada
(Mesmo junto á Boa Hora)
Deu-se a scena aterradora,
Que jaz na mente gravada.
Não só á pobreza honrada
Destroe a mundana lide;
Como a sorte é quem decide
De tudo quanto é mortal,
Quiz destruir a final,
O conde de Camaride.
Que importa que fosse nobre,
Que tivesse ouro a valer?
Não pôde deixar de ter
A mesma sorte que o pobre.
Se, de finados o dobre,
Lhe coube por ter dinheiro,
Não teve a gloria do obreiro,
Que morre ao som do martello:
Nem por isso foi mais bello,
Por dispensar o cocheiro.
Se guiava o tal cavallo
Que lhe concorreu p’r’a morte,
Não partilhava da sorte
Dos que tinham de tratal-o;
Sómente por seu regalo
Governava o tal vivente,
Sem sentir o que se sente
Quando o trabalho é forçado:
Todavia o desgraçado
Morreu desastrosamente.
O seu famoso corsel
(Apesar de fina raça)
Foi o motor da desgraça
Que lhe deu cabo da pel’.
Se gosava o doce mel
De, no carrinho ligeiro,
Ter o logar sobranceiro
Que tanto dava nas vistas,
Teve a sorte dos artistas,
Sem ser pintor, nem pedreiro.
Na morte de personagens celebres apparecem sempre
Fados, que encontram um grande exito na rua
entre as classes populares.
O que se segue, escripto por occasião da morte de
Antonio Feliciano de Castilho, cantou-se na Mouraria,
posto accuse uma origem culta:
Chorae, Musas Lusitanas,
O nosso dilecto filho;
Desceu á estancia da morte
O grão poeta Castilho.
Á luz do mesmo astro santo
Que lhe sorriu na innocencia,
Desfez-se da humana essencia
O rei do moderno canto.
Destillae amargo pranto,
Ó Graças ovidianas,
Que as Parcas sempre tyrannas
Ceifaram mais um talento.
Com profundo sentimento
Chorae, Musas Lusitanas.
Como Milton na Inglaterra
Cantou sem ver a natura.
Como elle, na sepultura
Para sempre Deus o encerra.
Extinguiu-se em nossa terra
Um esforçado caudilho,
Dos trez astros de mais brilho
Que nos deram mais auxilio.
Chorae, manes de Virgilio,
O vosso dilecto filho.
Com o mau destino humano
Nenhum poder se intromette.
Perdemos o bom Garrett
Ha quasi vinte e um anno.
Já só nos resta Herculano
D’essa trindade tão forte.
Dos grandes genios a sorte
Choremos com dor sincera,
Que o cantor da Primavera
Desceu á estancia da morte.
Privado na curta edade
De ver o grande Universo,
Cantava em sonoro verso
D’este mundo a magestade.
Ensinou á mocidade
Da instrucção o bom trilho,
Cantou a flôr e o tomilho
Como cantar ninguem ousa;
E emfim descansa na lousa
O grão poeta Castilho.
Apontemos outro facto mais recente: o suicidio de
Mousinho de Albuquerque.
Vendeu-se logo um folheto de 8 paginas contendo a
noticia da sua vida e morte, glosada em decimas.
A catastrophe final é assim descripta:
O destemido guerreiro,
Que sempre a morte affrontou,
Quando a vida lhe sorria
A negra morte chamou.
Contra si erguendo o braço,
Que a tantos a morte deu,
Encarando a luz do céu,
Teve da vida o fracasso.
Seu corpo de puro aço
Teve o golpe derradeiro,
Mas tão fatal, tão certeiro,
Que a vida, n’elle, apagou-se;
Pois sem fraqueza matou-se
O destemido guerreiro.
A tão notoria coragem
Que de louros o cobriu,
Não fraquejou nem fugiu
N’esta ultima passagem.
Decerto alguma visagem
Falso p’rigo lhe mostrou,
E o bravo não hesitou
Em morrer bem dignamente,
F’rindo de morte o valente
Que sempre a morte affrontou.
Quem conheceu o soldado
Que lembra os passados feitos,
Tributa honrosos respeitos
Ao luctador denodado:
Nenhum mais galardoado
Pela sua valentia,
Pois nenhum mais merecia
O logar que se lhe deu,
Mas a vida aborreceu,
Quando a vida lhe sorria.
Quando gosava o descanso,
Da morte e do p’rigo ausente,
Pensou de modo diff’rente,
Buscou o eterno remanso.
De bemdizel-o não canso
Porque a sua patria honrou;
Briosamente luctou
Contra os revézes da sorte;
E sem ter temido a morte,
A negra morte chamou.
Os acontecimentos politicos e os conflictos religiosos,
quando agitam fortemente a opinião publica,
tambem encontram écco na poesia popular.
A questão do caminho de ferro de Salamanca (vulgarmente,
Salamancada) inspirou em 1883 este Fado:
Casou Dona Salamanca
Com Dom José Portugal;
Foi padrinho o Dom Antonio
De tal... e coisas... e tal.
Zé povinho parvonez!
Salta... dança... canta... brinca...
Pois, como tu, ninguem chinca
Tantos coices d’uma vez:
Se o grande cantor de Ignez
Te visse, ó chanca-lha-chanca,
Na sua lyra tão franca
Gabaria o teu socego...
Que p’ra te fazer gallego,
Casou Dona Salamanca.
Casou a velha das covas
D’onde sae a estudantina;
Zombando da tua sina,
Das tuas ideias novas!
Depois de tantas mil provas
D’essa verdade fatal...
P’ra complemento do mal
D’alguns corações sinceros,
Casou a tal dos boleros,
Com Dom José Portugal!
Casou-se!?... não digo bem;
Fizeram-lhe o casamento
Com quem já foi o tormento
Do Portugal que Deus tem;
Assiste lá p’ra Belem
Quem o fez andar erroneo:
Se tu fizeste o demonio
Por causa do syndicato...
De tão nojento contrato
Foi padrinho o Dom Antonio.
Se não passas d’uma aranha...
P’ra que gritas, Zé-povinho?!
Deixa viver o ranchinho,
Como melhor lhe convenha;
Se querem os ares d’Hespanha...
Deixa-os ir, porque, a final,
Salamanca e Portugal
Hão de ser do homem raro,
Que se chama—Antonio Caro...
[47]
De tal... e coisas... e tal.
A questão religiosa, ultimamente levantada a proposito
do incidente Calmon no Porto, provocou Fados
de occasião contra os jesuitas, os conventos e recolhimentos,
etc.
Trecho de um Fado ironico contra os jesuitas:
É injusta a crua guerra,
Que contra os santos fazemos,
Pois mil feitos lhe devemos.
Do palacio até á serra
A sua doutrina encerra
O que o povo necessita:
Instrucção que a crença agita,
Conselho que o faz feliz;
Por isso é que o mundo diz:
Que mal faz o jesuita?
O virtuoso varão,
Tão respeitado e bemquisto,
Que só prega a lei de Christo,
Plantando a religião,
P’ra que chamar-lhe villão,
Se ao contrario é mui cordato?
Educador e pacato,
E devoto d’alto lote;
Se é um bello sacerdote,
Severo, grave e sensato!
No Porto havia um musico ambulante, de nome
Marcolino, que improvisava Fados com caracter satyrico,
entrando frequentes vezes pelo dominio da politica.
Aos Fados de nomenclatura (como os nauticos) que
do caracter popular passaram ao caracter scientifico
pela intervenção do famoso bohemio Luiz de Almeida,
reservamos menção especial.
Exemplo de Fados toponymicos, a começar por
Lisboa:
N’este semestre passado,
Houve grande confusão:
Foi uma familia séria,
P’r á rua do Capellão.
Um dandy todo liró
Poz escriptos no Chiado,
E mudou-o sôr Calado
P’r’ó becco do Falla Só.
Um excellente sol e dô,
Foi p’r’ó Pateo socegado
Mudou-se um trapeiro honrado
Para o Collegio dos Nobres.
Viram-se em pancas os pobres,
N’este semestre passado.
P’r á rua dos Sapateiros
Mudou-se um amolador,
E até um entalhador,
Foi p’r’ó Largo dos Torneiros.
Foram dois atheus brejeiros,
P’ra rua da Conceição;
Té se mudou o Paixão,
Para a Praça d’Alegria.
Foi immensa a berraria,
Houve grande confusão.
P’ra um bello primeiro andar,
Sito no Largo do Rato,
Foi o senhor João Gato
Com a familia morar.
Foi um de livre pensar,
Para a de Santa Quiteria
E a familia do Miseria
P’r’ á Calçada do Pombeiro;
P’r’ o Arco do Limoeiro
Foi uma familia séria.
Um céguinho se mudou
P’r á rua da Bella Vista,
E uma senhora modista
P’r’ós Ferreiros se passou.
N’ Alegria casa achou
O senhor Pena Tristão;
Mudou-se um avarentão
P’r á rua da Caridade,
E foi o Dr. Verdade
P’r á rua do Capellão.
Um barbeiro de Bucellas quiz lembrar-se, para me
dizer, de certo Fado composto sobre o onomastico locativo
do Termo de Lisboa, mas não se recordou senão
d’estes quatro versos:
Deu Bucellas uma facada
Na ribeira do Trancão.
Acudiu-lhe a Ponte Nova,
Camarate e Appellação.
O Fado saloio tem já hoje vida propria e autónoma.
Quero dizer que os fadistas do Termo não se limitam
a copiar os Fados de Lisboa, mas já por sua
vez os compõem sobre assumptos locaes: portanto é
natural que lhes dêem um caracter toponymico.
N’esta especie de Fados a quadra substitue a decima,
que é de mais difficil improvisação; mas já ouvi
quadras locaes da Ericeira—por mim recolhidas em
outro livro—[48]cantadas no rythmo do Fado.
Sem embargo tambem ha Fados saloios em décimas,
que Lisboa exporta nos almanachs, com o fim
de conquistar leitores entre as povoações suburbanas:
Fado saloio
Sou saloio, honro-me d’isso,
P’ra casacas não sou mau;
Os janotas atrevidos
Sei correr a varapau.
Que andamos no ramerrão
Dizem lá os de Lisboa;
Porém entre nós já sôa
O brado da illustração:
Escolas já cá estão
Fazendo bello serviço;
Eu cá já tenho toutiço
Para entender os jornaes,
Tenho ideias liberaes,
Sou saloio, honro-me d’isso.
Aos comicios vou tambem
E lá sei fallar em barda
Contra quem me põe albarda,
E nos deixa sem vintem:
É certo que não vou bem
Com quem se me faz marau;
Mas jámais corro a calhau
Quem me sabe respeitar;
Se não veem cá namorar
P’ra casacas não sou mau.
P’r’ as madamas que cá veem
Com o fim de tomar ares,
Temos modos singulares
E attenções como ninguem;
Nós cantamos muito bem
Os doces fados corridos;
D’amor mil versos sentidos
Sabemos improvisar.
E com elles castigar
Os janotas atrevidos.
E saiba qualquer senhor
Que eu, saloio esperto e girio,
Não soffro manguem co’o cirio
A que tenho tanto amor:
Se vem com ar zombador
Algum janota marau
Fazer o serviço mau
De quem a crença me ataca,
Verá como eu um casaca
Sei correr a varapau.
O Algarve tem o seu Fado, que abrange toda a
provincia:
Fado algarvio
Dos seus fructos abundantes
O Algarve se ensoberbece;
Graças ao trabalho honrado,
De dia a dia enriquece.
Quem é que torceu a venta,
Quem fez, acaso, careta,
Ao bom vinho da Fuzeta
Que o nosso Algarve apresenta?
Quem é que se não contenta
Co’os nossos figos chibantes?
Quem não quer ver quanto antes
No prato o atum saboroso?
Pasma este solo, orgulhoso,
Dos seus fructos abundantes.
Abundante e variada
É no Algarve a pescaria,
E quem na vida porfia
Mantém sempre a vida honrada;
A figueira abençoada
Vigorosa aqui floresce;
Por parte alguma apparece
Outra que lhe seja igual.
De n’ella não ter rival
O Algarve se ensoberbece.
É bem formosa Tavira,
Villa Nova formosa é,
Formosissima Loulé,
Gloria a Faro ninguem tira:
Galharda brilha Odemira
Em o seu torrão fadado;
E de pobre ou rico estado,
Do Algarve a boa gente
Leva a vida alegremente,
Graças ao trabalho honrado.
Salve, pois, terra eminente
A que devo chamar nobre,
Onde o rico vale ao pobre
Tão briosa e christãmente!
O Algarve um brado valente
De toda a nação merece;
E é justo que aqui me apresse
Em offerecer a cantiga
A quem, graças á fadiga,
De dia a dia enriquece.
Os assumptos biblicos são muitas vezes aproveitados
pelo cantador fadista n’um sentido religioso.
Por exemplo: