METODO DE PERSUADIR.

Manifesta loucura é persuadir-se, que é necesario saber tudo, o que dizem as Retoricas, para ser Orador[60]. Ja adverti a V. P. que estas Retoricas comuas, eram pola maior parte uma lista de nomes, e divizoens, impertinentes de se-aprenderem, e dificultozas para se-conservarem: mas tudo isto podia suceder, aindaque a materia fose boa. Porem eu nam paro aqui, mas digo, que nam só polo modo com que o-dizem, mas iso mesmo que dizem, tem pouquisima ou nenhuma utilidade; e nada conduz para o fim, de falar bem, e persuadir. E digo da-maior parte delas, o que lá dise Cicero de outra Retorica, que escrevèra Cleantes, Que para nam saber falar, nam avia coisa melhor[61]. Sam sinco as partes da-Retorica: Procurar meios de persuadir: dispolos: falálos bem: estudálos de memoria: e pronunciálos com as asoens que se-devem. A isto ajuntam, os trez meios de persuadir, que sam as provas, os costumes, e as paixoens dos-ouvintes. Dizem alem diso, que qualquer discurso oratorio deve ter exordio: despois, narrar o fato: despois proválo, e responder aos motivos contrarios: finalmente perorasam, na qual se-faz um epilogo dos-motivos, e se-excita novamente, o animo dos-ouvintes. Tudo isto é verdade: mas se pararmos aqui, pouco saberemos de Retorica. Eu direi alguma coiza da-Invensam: sobre as outras, reporto-me a eses livros comuns; e só tocarei, o que me-for necesario.

Para buscar argumentos ou provas, que persuadam, o que pertende o Orador; propoem os Retoricos uma lista de nomes, aque chamam, lugares comuns: os quais ensinam, considerar o argumento de tantas partes, e voltálo de tantas maneiras, que seja facil, dizer muita coiza do-tal sugeito. Confeso, que estas considerasoens genericas, dam materia para falar muito; e em tal ou qual cazo, podem nam ser inutis: mas, seguindo o parecer dos-omens de exata critica, constantemente digo, que estes lugares nada menos ensinam, que a falar bem: suministram ideias gerais, palavras sem sustancia, narizes de cera, que se-aplicam a tudo, e nam persuadem nada em particular. Um destes que cre muito nos-Topicos, falará uma ora inteira, sem dizer coiza alguma com propozito: justamente como os Logicos da-Escola. Estes escrevem longuisimos tratados de Syllogismo, dam mil regras, para discorrer com propriedade, e sem falencia; e para provar tudo o que ocorrer. A ouvilos na cadeira, julgará um omem, que sam letrados universais: mas introduza-os V. P. em um discurso particular, e verá, que tudo aquilo é palhada: concluirám um discurso pior, doque nam fará, um oficial ignorante. Muitas vezes nam sabem nem comesálo, nem acabálo: e se lhe-metem a pena na mam, é lastima ver, como escrevem as suas razoens. O mesmo Cicero, que tam apaixonado era pola Retorica, e seus preceitos, que escreveo um livro dos-Topicos; contudo reconhece, que é necesario muito juizo, para se-servir destes lugares, em modo que nam digamos parvoices[62].

Quem pois reflete nisto, intende o conceito que se-deve fazer, de semelhantes lugares. Se nam fose permetido falar, senam naquilo que se-sabe, a maior parte destes, que fazem profisam de falar em publico, ficaria calada. Ninguem é capaz de discorrer em uma materia; se é que a-nam-tem estudado fundamentalmente: e nunca poderá deduzir, boas consequencias, se acazo nam posûe bem, os principios. Pode um Fizico estar cheio de silogismos, até os olhos; ter lido quantas ridicularias se-tem dito, sobre os apetites da-Materia; se acazo nam tem bem examinado, as experiencias: nam poderá explicar, qualquer uzual fenomeno. Pode um Teologo saber, a quinta esencia da-fórma silogistica; mas se nam sabe bem, em que textos se-fundam os Dogmas, nam será Teologo senam de nome.

Isto suposto, a primeira e importantisima regra da-Invensam é, intender bem a materia, que se-trata[63]: porque só asim facilmente se-incontram, os argumentos proporcionados ao sugeito: e tam facilmente se-incontram, que naturalmente se-aprezentam, caiem da-boca, e da-pena. Este é o grande defeito, destes Pregadores Portuguezes. Propoem-lhe uma materia, que eles ignoram: e em lugar de estudarem o que devem, formam logo ideia, do-que querem dizer; e despois procuram os textos, que fasam ao intento: e se os-nam-acham, violentamente os-arrastam: porque finalmente, seja como for, deve-se provar, o que se-propoz. Ora a Escritura nem sempre dá textos literais, para confirmar todas as chimeras, que os Pregadores propoem: e asim é necesario recorrer, a algum destes comentadores Peripateticos: muitos dos-quais adotam nos-comentarios, as sutilezas: e, se falta este, nunca falta um destes Asceticos, que provam tudo o que querem: e temos o sermam feito. Se o Pregador tivese estudado a materia, conheceria, que verdades importantes, como sam as da-religiam, nam se-podem provar com sutilezas, mas com razoens solidas: razoens solidas nam se-podem achar, para provar conceitos ridiculos: de que vem, que necesariamente um omem que sabe a materia, deve desprezar estas puerilidades; e considerar todos os sermonarios, talhados por esta medida, como livros que nam se-devem ler.

Que seria do-mundo Retorico, se todos os omens um dia, abrisem os olhos! Eu seguro a V. P. que de cemmil livros, que se-acham nesta materia, pouquisimos se-poderiam conservar; e alguns deles, só por-fazer favor, aos seus autores. Pois aquilo que entam fariam todos, devem oje fazer os omens, que se-querem aproveitar a si, e aos outros. Quando eu era rapaz, e somente conhecia os autores polo sobrescrito, considerava mais felizes, e doutos aqueles omens, que posuiam mais livros, doque os que tinham menos: porque, dizia eu, aqueles gozam a lisam, de mais autores, e de mais omens insignes. Naquele tempo, Escritor, e Doutor, eram sinonimos no-meu Vocabulario. Eu era um daqueles, (que por-nosos pecados, ainda vemos oje tantos) que medîa a Ciencia a palmos: quanto mais livros, mais ciencia: e o livro maior sempre me-parecia, tezoiro mais preciozo. Mas despois que me-familiarizei, com aqueles mortos: que revolvi muitas, e grandes livrarias: que consultei omens doutisimos: que li atentamente os Criticos: e finalmente que tomei o trabalho de examinar, com os proprios olhos, o merecimento de muitas das-ditas obras: transformei-me neste particular: e formo tam diferente conceito do-mundo; que se explicáse tudo o que intendo, nam conservaria tam boa conrespondencia, com tanta gente. Ora isto que se-pode dizer, de toda a sorte de livros, aplico eu oje aos sermonarios, e outros que tratam de Retorica: e conclûo, que pouquisimos destes livros se-podem ler, e ainda eses com cuidado.

É coiza digna de observar, que nestes paîzes, a maior parte dos-que estudam, confundem o Ingenho, com o Juizo: o Juizo, com a Doutrina: esta, com o Criterio: sendo coizas na verdade bem diferentes. Pode um omem ser ingenhozo, porque pode unir diferentes ideias que elevem, ao que chamamos Ingenho; e nam ter uma oitava de Juizo: porque finalmente o Juizo é aquela faculdade da-alma, que sepára uma coiza da-outra, e conhece cadauma, como é em si. Pode este omem ter Juizo, e nam ter Doutrina, porque nam tem estudado. Pode ter alguma Doutrina, e nam ter aquela que é necesaria, para formar bom Criterio. Isto parece-me bem claro. Mas nam o-intendem asim aqueles, que por-verem um, que ideiou varias chimeras, e formou algumas ideias sutis, mas ridiculas; logo o-batizam, por-omem de juizo, e grande doutor. E daqui entam nace, que as ideias daquele tal omem, sam recebidas com mais respeito, doque nam eram as respostas, em Delfos. Mas, tornando ao argumento.

Para persuadir, quer-se em primeiro lugar, boa Logica, que dè os verdadeiros ditames, para julgar bem[64]: em segundo lugar, um juizo claro, que os execute. Sem estes primeiros principios. sam superfluos todos os ditames. Da-Logica em seu lugar falaremos. Decendo pois ao particular digo, que só a verdade ou verosimilidade, é a que pode persuadir um omem; e é aquela valente arma, com que nos-acomete a razam. Ninguem deixa de se-persuadir, de uma verdade clara. Verdade é que muitos se-persuadem, da-aparencia: mas tambem é certo, que os-move a verdade, que nela imaginam. Asimque só a verdade é a que persuade, quando se-lhe-dá atensam. A forsa que os omens fazem, para divertir os olhos do-intendimento, para outra parte; é a que impede, que a verdade nam triumfe, produzindo o seu efeito, que é a persuazam. Nisto é que está o empenho do-Orador, em descobrir a verdade: mostrála em toda a sua clareza: e manifestar o erro oposto. Nisto se-distingue o verdadeiro Orador, do-Declamador. Este, contentando-se das-aparencias, veste o erro com a mascara da-verdade: o Orador porem descobre e manifesta o erro, e poem a verdade em toda a sua luz.

Orar nam é inganar, é sim introduzir no-animo, alguma verdade importante. Mas muitas vezes os Oradores, tem mais necesidade, de convencer o erro, doque establecer alguma verdade notoria. Ninguem toma o trabalho de persuadir, que Deus castiga, e premeia: isto sabem todos os ouvintes: o ponto está em mover os omens à penitencia, mostrando o grande erro, de a-deferir para a ora da-morte. Em descobrir o erro, é que deve cuidar muito o Orador. Os omens nam se-inganam nas consequencias, porque comumente deduzem-nas muito bem: o em que se-inganam é, nos-principios; porque, por-falta de exame, recebem uns falsos, como se fosem verdadeiros. Deve pois o Orador, mostrar a falsidade destes principios. deve mostrar-lhe em que diseram bem, e em que faláram inganados. Desta sorte mostrando-lhe a verdade, se a materia o-pede; ou, se é notoria, descobrindo-lhe bem o erro, se-consegue o fim da-persuazam.

Mas nam basta isto, para persuadir: e sam necesarias outras circunstancias, para introduzir no-animo, a verdade. A primeira é, a atensam. Que importa, que o Sol alumeie o Mundo, se eu depropozito me-retiro em uma caza oscura; ou polo menos, nam dou atensam aos objetos, que se-me-propoem? Damesma sorte importa pouco, que a verdade seja notoria, e o erro muito bem convencido; se eu nam faso atensam para uma, nem para outra coiza. Deve pois com cuidado o Orador, excitar a atensam: e como as coizas ordinarias, nam conseguem isto, mas sim a singularidade e novidade; deve o Orador, vestir iso mesmo que diz, de uma certa novidade, que o-reprezente singular. As Figuras dam esta novidade às coizas: e por-iso elas sam, as que movem muito a atensam: dando a intender, que o objeto é novo, é grande, é singular. Certo amigo meu, descrevendo a cara de uma molher, igualmente feia, e desvanecida; soube dar tal novidade a este asumto, que é bem umilde, e esteril; que com gosto se-lia a descrisam, do-principio até o fim. Porei aqui um soneto, que fez ao dito asumto, e que tem o mesmo artificio.

Es feia: mas desorte, que orroroza
À tua vista é bela a feialdade.
Mas tens fortuna tal, que a enormidade
Te-consegue os tributos de formoza.
Cara tam feia, coiza tam pasmoza
Todos observam, e move a raridade.
Nam desperta o comum, a curzidade:
Ser rara, é que te-adûla vaidoza.
Ama-se o Belo, e cega o mesmo afeto.
O Feio, pois nam liga o pensamento,
Deixa miudamente ver o objeto.
Iso faz, que se-observe ese portento.
Quanto estás obrigada, a ese aspeto;
Se no-enorme te-dá merecimento!

O outro importante ponto, de excitar a atensam é, nam mostrar o objeto, que se-propoem, senam quando a atensam, ja nam é necesaria. Embebido o omem da-curiozidade, de saber o que se-propoem, vendo sempre coizas novas, e que prometem despois de si, outras maiores; vai seguindo com a considerasam o Orador, atéque lhe-explique, a inteira sustancia do-negocio. Asim se-conserva o ouvinte atento; e, estando atento, se-lhe-introduzem, as verdades que se-querem. Nos-Poetas de algum nome verá V. P. este artificio, bem executado: e tambem em muitos Prozadores. O mesmo Gracian no-seu Criticon, ingenha desorte a narrasam, das-figuras que introduz; que acaba o capitulo, quando se-á-de explicar, algum grande fato: e rezervando a solusam, para o seguinte, conduz o leitor, desde o principio até o fim, sempre com curiozidade de ler. Este tambem é o artificio mais comum, das-orasoens de Cicero, e de alguns Oradores modernos, que o-souberam imitar: como eruditamente adverte, um grande Retorico da-minha Religiam[65]. E nisto é que se-distingue o Orador, do-Filozofo. Ambos tem por-objeto, a Verdade: mas o Filozofo nam costuma, mover a vontade: contenta-se, de expor as razoens: porem se acazo nam acha um leitor, sem prejuizos e preocupasoens nam conclue nada. Mas o Orador move as paixoens: excita a curiozidade: mostra a verdade de tantos modos, com tanta clareza, com tanta eficacia: desfaz os prejuizos com tanto estudo; que finalmente convence o ouvinte.

O 3.o ponto importante é, saber ganhar a vontade, ou insinuar-se, no-animo dos-ouvîntes. A Verdade, diz o proverbio, é amargoza: e uma verdade nua e crua, proposta a uma pesoa, que as-nam-coze bem, é dura de digerir. Deve pois o Retorico, insinuar-se galantemente, no-animo dos-ouvintes: propondo-lhe a verdade, vestida de um tal modo, que ele a-admita, quazi sem advertir. V.P. ja sabe, que as pirolas de quinaquina, e outras tais amargozas, se-cobrem com marmelada, ou obreia branca, para se-engulirem sem dificuldade. Eu sei muito bem, que este negocio, nam está na esfera, de todos os Pregadores. Requer grande pratica do-mundo: grande-conhecimento dos-omens: do-modo com que obram, e com que se-excitam as paixoens: finalmente uma Filozofia particular, que descubra a origem de todos os movimentos do-animo: lisam de bons autores: e perfeita sagacidade: qualidades todas que pouquisimos chegam a conhecer, quanto mais posuîr.

Julga-se comumente, e nam sem razam, que o conceito que os ouvintes tem, da-virtude e merecimento do-Pregador; conduz muito, para se-persuadirem. Quem vai ouvir um omem, de quem é fama comua, ser muito santo, ou muito douto; vai meio convertido, ou persuadido. Em todas as Aldeias, á-de aver um barbeiro, que julgue de sermoens: o qual é estimado, como o omem mais inteligente. Os Aldeioens talvez nam ouvem, o que diz o Pregador; mas estam atentisimos aos movimentos, que faz o barbeiro: se este aprova o discurso, o Pregador é famozo. Asim se-vive nam só nas Aldeias, mas tambem nas Cidades. Sam poucos os omens capazes, de julgarem por-si: mas vem, ouvem, e julgam, polos sentidos dos-outros. A prevensam pois com que se-ouve um omem, é aquela que, entre a maior parte dos-omens, decide do-seu merecimento: e esta tal opiniam de merecimento, é a que faz receber com agrado, os discursos: os quais, quando nam acham opozisam no-animo, produzem todo o seu efeito. E asim deve o Pregador, mostrar-se digno de o-ser: deve pregar primeiro com as obras, que só entam os seus discursos, seram bem recebidos, e os seus ouvintes ficarám persuadidos, do-que lhe-propoem. Mas devem estas virtudes ser verdadeiras, porque sem iso, nada conclûem.

Em 4.ᵒ lugar, deve cuidar muito o Orador, em nam ofender com palavras, os seus ouvintes. Os Omens nam gostam, de repreensoens publicas: e parece que com razam. Tudo se-pode persuadir, com bom modo: e facilmente concordamos no-que nos-dizem, se ouvimos as razoens, propostas com amizade, e com brandura: e propostas por-um omem, que nam faz vaidade da-Eloquencia: que nam ostenta triumfos: mas que utilmente se-serve dela, para nos-inclinar, para onde devemos.

Em quinto lugar, é necesario tambem, mostrar aos ouvintes a utilidade, daquilo que lhe-propoem: mostrar-se parcial dos-seus intereses, para os-poder trazer, para a parte contraria. Nós facilmente damos orelhas àqueles, que intendemos obram, polo noso mesmo motivo; e estam persuadidos, da-mesma paixam. Por-iso é muitas vezes necesario, nam condenar tudo quanto eles dizem: louvar alguma parte, para podermos condenar a outra, com mais eficacia, e efeito. É necesario, saber dizer mal nas ocazioens, modificando a censura, com alguns elogios. Observei sempre, que um omem que nega tudo, ou concede tudo, nam conclûe nada. Devemos dar lugar à prevensam; e algumas vezes dar tempo à colera: esfogada a qual, entam é que pode ter lugar, a persuazam. Para isto requer-se doutrina, prudencia, afabilidade, e outras muitas virtudes.

Deve em 6.ᵒ lugar, saber excitar propriamente, as paixoens; e inspirar aquelas que sam proprias, para mover o Omem. Sam as paixoens as que nos-movem: e nam á coiza, que nam posa fazer um omem, se-acazo se-lhe-excitou, a paixam proporcionada. Nisto pois é que deve estudar o Orador: inspirando aquelas, que sam necesarias, para abrasar a verdade que propoem. Para isto é necesario, estudar bem as paixoens do-animo; porque, sem estas machinas, é certo, que nada obram os Omens. Isto que até aqui temos dito, abrasa todo o genero de orasoens, e sermoens: mas especialmente se-devem notar algumas coizas, para a eloquencia do-pulpito: que compreende duas sortes de orasoens, Panegiricas, e Morais.

Em primeiro lugar é uma ridicularia e impropriedade, tomar um texto da-Escritura, para fazer um panegirico Funebre. Nam é o asumto, explicar a Escritura: mas sim engrandecer, as virtudes todas daquele omem; paraque todos o-imitem: e consolar o auditorio da-sua perda, com a vista dos-monumentos, das-suas singulares prerogativas. Onde deve-se descrever a vida dele; tomando as asoens mais famozas, e deixando menudencias ridiculas, que nam dam maior ideia, da-dita pesoa. Devem-se narrar, e engrandecer as asoens: deve-se na exagerasam empregar todo o artificio da-Retorica; sem degenerar naquelas ridicularias, que todos os momentos vemos: a Istoria, o exemplo pode dar novo lustre, às mesmas virtudes. Mas sempre devemos ter diante dos-olhos, que uma coiza é orasam, em que se-persuade, a execusam da-virtude; e outra panegirico: naquela tem lugar, os textos da-Escritura; nesta de nenhuma sorte. Em uma palavra, todo o artificio que se-deve praticar, em todas as orasoens exornativas, que ou louvam, ou vituperam; consiste em narrar, e amplificar. Desorteque, para nam fazer istoria, deve nam só narrar; mas de tal sorte distribuir a narrasam, que despois de narrar um fato, ou uma serie de fatos, que pertensem ao mesmo ponto; os-amplifique: e asim mostre o seu juizo, na narrasam; e a sua eloquencia, na amplificasam[66]. Como todas as orasoens do-genero demonstrativo, tenham estado de comparasam, porque nam se-disputa, an res sit, mas quanta sit: deve ser o principal artificio do-Orador, introduzir a controversia conjetural; com que manifeste, a grandeza da-asám, considerando miudamente todas as coizas, que a-podem relevar. Despois, conjeturar das-virtudes pasadas, o que ele faria nestas, ou em outras circunstancias &c. Podem tambem nestes panegiricos ter lugar, diversos outros artificios, de controversia Definitiva, Translativa, e Judicial; praticados polos antigos Retoricos: os quais conduzem muito, para este mesmo fim.

Quanto à dispozisam dos-argumentos, aconselha Cicero, que primeiro se-toquem, os bens externos, quero dizer, da-gerasam: despois, os do-corpo, e os do-animo. Quanto às asoens, que ou se-siga a ordem dos-tempos, ou se-reduzam a diversos titulos de virtudes[67]. Desta sorte narrando, e amplificando, se-poderá formar, um panegirico perfeito.

Pasando daqui aos panegiricos de Santos, em quanto se-puderem evitar temas, será mais arrezoado: mas quando ou o costume, ou o genio obrigue, a tomar algumas palavras da-Escritura; nam é necesario, esquadrinhar profecias, nem procurar de acomodalas literalmente: basta que as ditas tenham alguma analogia, com a materia de que se-trata. Pode-se seguir a sentensa da-Escritura, para comesar o sermam; sem a-introduzir novamente, no-corpo dele. Isto tenho visto fazer, a omens muito grandes: e parece-me que um tal exemplo, se-deve preferir aos outros. No-corpo da-obra, deve-se seguir o mesmo estilo, das-outras orasoens laudatorias; narrar, e amplificar. Mas como a vida dos-Santos, principalmente antigos, é ja nota a todos; para evitar o fastio a estes delicados, pode escolher uma, ou duas asoens mais famozas, e delas formar o seu panegirico. E este metodo é o mais frequente, quando se-fala em Santos antigos: cujas asoens todas ou sam bem notas, ou deles somente sabemos, uma ou outra virtude, mas publica a todo o mundo: ou algum grande privilegio, concedido por-Deus ao dito omem: e este o-engrandecem, com todo o artificio da-Retorica. Mas nos-modernos, cuja vida nam é mui notoria; é melhor, seguir a ordem dos-tempos, ou virtudes, e explicar toda a vida do-Beato. O grande Orador Paulo Segneri, pregando de S.Estevam, engrandece a virtude deste Martir, com varias considerasoens. 1.ᵃ ser S.Estevam o primeiro, que dèse a vida pola Fé. 2.ᵃ tela dado por-uma fé, que entam comesava, e era ainda desconhecida. 3.ᵃ tela dado nam só sem esperansa, de receber aplauzos, mas com certeza moral, de experimentar oprobrios e derrizoens. 4.ᵃ ter dado o proprio sangue por-um, de quem nam tinha recebido, tam privilegiados favores, como recebèram os Apostolos. 5.ᵃ porque uma tal asám mereceo, comunicar a Paulo, e outros que o perseguiam, a sua mesma fé. Com este exemplo, se-podem tecer mil panegiricos: advertindo muito, que estes pontos, nam se-devem provar separadamente, como fazem neste Reino; porque este metodo destrue, a uniformidade do-sermam, e impede o exercicio oratorio: mas de um se-deve pasar a outro, de modo tal que, sem advertir o ouvinte, se-veja introduzido na considerasam, de uma nova prerogativa; com que o Pregador vai requintando, as virtudes que narra; e seguidamente o-conduz ao fim, de o-persuadir, que é grande o sugeito, de que se-trata. E nisto se-compreende tudo, o que pertence ao genero laudatorio, quero dizer, aos sermoens em que se-louva alguma pesoa, ou alguma asám de piedade.

A outra especie de sermoens, a que chamam Morais, podem em certo modo pertencer, ao genero demonstrativo: o qual nam só compreende, os que louvam alguma asám, mas os que vitupèram outras: como sam os morais, que pintam o Vicio mui feio, para mover os Omens, a que abrasem a Virtude oposta. Mas como nisto entra a persuazam, e admoestasam, que sam proprias do-genero deliberativo; podemos chamar-lhe, mixtos de ambos os generos. Mas chamem-lhe como quizerem, o mesmo artificio, que asima disemos, se-pratica nos-outros; deve praticar-se nestes, com sua proporsam: quero dizer, que se-tome um asumto singular, e proprio do-que se-quer dizer; e que se-busquem argumentos, e se-dilatem demaneira, que sempre se-vá subindo; para chegar a persuadir-se, o que se-quer. Isto suposto deve o Pregador, fugir de dois extremos: um, de querer agradar muito, dizendo galantarias, e enchendo a orasam de pensamentos sutis, de aplicasoens chimericas, e outras coizas destas: outro, de nam querer agradar coiza alguma, como fazem certos misionarios, que propoem as verdades tam nuas e cruas, que infinitamente dezagradam. Contra os primeiros, ja asima dise alguma coiza, repreendendo as afetasoens, onde nam entram: sendo certo que nam entram tais coizas, em materias tam sezudas e graves. Mas porque á muita gente, que, querendo fugir do-primeiro defeito, caie no-ultimo; e para cubrir a propria ignorancia, despreza todos os ornamentos da-Retorica; é necesario mostrar a estes, o seu ingano, com o exemplo dos-omens doutos, e pios.

O Pregador Evangelico deve instruir, e mover: e nam se-insinuando, no-animo dos-ouvintes, nam conseguirá o persuadilos. Onde, diz com muita razam S. Agostinho[68], que o Orador Cristam, deve saber uzar, dos-livros dos-Etnicos; principalmente dos-Retoricos, para agradar, e persuadir: o que prova com exemplos, de muitos Padres, que fizeram o mesmo. Semelhante pensamento expoem S. Jeronimo, escrevendo a Magno Orador Romano: e S. Gregorio Nazianzeno diz mui claramente[69], que todos os seus estudos profanos tinha deixado, menos a Retorica: na qual experimentava todos os dias, infinitas utilidades; e que dela se-servîra, e servia sempre. S. Bazilio, S. Ambrozio, e outros SS. mui doutos nas letras profanas, praticáram o mesmo: e nas suas obras conhecemos nós, como podemos uzar, dos-tais autores. Onde deve o Pregador, ter sempre na memoria, aquelas palavras de S. Agostinho no-lugar citado: Volumus non solum intelligenter, sed libenter audiri. e em outra parte: Nolumus fastidiri etiam quod submisse dicamus ..... Illa quoque eloquentia generis temperati, apud eloquentem Ecclesiasticum, nec inornata relinquitur, nec indecenter ornatur. Deve alem diso o Pregador, nam só instruir, e agradar; mas principalmente mover: o que conseguirá por-meio do-genero sublime, e patetico, quando se-trata de persuadir, as obras boas: porque no-saber mover é que consiste, o verdadeiro triumfo da-eloquencia. E para fazer isto, nam se-requerem, como jà dise, sutilezas, mas razoens fortes, e bem dispostas, e exageradas. &c.

Isto é obrigasam. Quanto ao meio de o-conseguir, deve, despois de bom fundamento, nas letras umanas, ter grande lisam da-Escritura, e dos-Padres que apontamos: cujas homilias ensinam, como se-deve pregar, para tirar fruto. Nam creio, que aja Pregador ou Misionario, que queira ser mais santo, mais douto, e mas zelante, da-onra de Deus; que os que apontamos, e outros semelhantes, como S. Joam Crizostomo &c. e tendo eles praticado isto, com tanto louvor; eles tambem devem ser, os nosos mestres. Especialmente se-deve ler S. Agostinho, nos-livros de Doctrina Christiana, onde explica bem a materia.

Mas porque a maior parte destes, prezados de Criticos, e Retoricos, que nam sabem a istoria Ecleziastica, nem Literaria; intenderám, que estes Padres só cuidavam na virtude, e nam sam bons para se-imitarem, na eloquencia &c. será necesario explicar-lhe em breve, quem eles eram. Bazilio Cesareense, ou Magno, de quem aqui falamos, estudou muitos anos, na mais famoza escola, que era Atenas. foi um dos-mais famozos Filozofos, Gramatico, e Retorico insignisimo. as suas homilias sam um perfeitisimo modelo de eloquencia: e o grande Photio chega a dizer, que se-podem igualar, a Demostenes. Leva a palma principalmente, nos-Panegiricos. Gregorio Nisseno seguio as pasadas, de seu irmam Bazilio. foi publico profesor de Retorica, e insigne Filozofo: e tam amante das-letras profanas, e especialmente da-Retorica, que S. Gregorio Nazianzeno, amigo comum de ambos, na carta 43. condena, este seu nimio estudo. O estilo dele é sublime, e juntamente agradavel. S. Gregorio Nazianzeno foi condicipulo, e amigo de S. Bazilio. Na eloquencia querem muitos, que exceda ao mesmo Bazilio. finalmente é tam sublime na pureza, e elegancia; que o grande Erasmo diz, que nam se-pode traduzir bem em Latim, por-cauza da-magnificencia &c. S. Ambrozio era eruditisimo em Grego, e Latim, mais doque comumente se-nam-cre. o seu estilo é concizo, e agudo, e quazi semelhante ao de Seneca; aindaque melhor. Nam era grande Retorico: mas é fluido, e proprio para convencer os erros com doutrina, piedade, e gravidade. S. Jeronimo todos sabem que era um omem eloquentisimo, em Latim, e Grego &c. e mui versado nos-livros dos-Etnicos, e na Filozofia Grega, e Istoria; e sumamente veemente: Onde pode-se aprender nele, muita coiza boa. S. Agostinho aindaque nem na pureza da-lingua, nem no-estilo seja igual a Jeronimo, e outros asima; contudo na sutileza, e no-mesmo tempo na profundidade do-juizo, talvez o-excede. Certamente que aindaque fose, profesor de Retorica, nam fez grande aproveitamento; nem chegou à erudisam dos-outros. Mas dele se-pode aprender muito: principalmente nos-ditos livros de Doctrina Christiana, emque ensina que dotes se-requerem, para interpretar bem as Escrituras; e fazer as outras obrigasoens de um Ecleziastico. Asimque dele se-podem aprender, muitos ditames. S. Joam Crizostomo tambem era doutisimo. Alem da-pureza da-lingua, que parece um verdadeiro Atico, une trez coizas admiravelmente; que sam a facundia, a erudisam, e a facilidade: desorteque ninguem tratou as materias, com mais clareza, e naturalidade. Alem diso é singular nisto, que acomodou a sua doutrina, à capacidade dos-ouvintes; e por-iso agrada a todos: em modo que para pregar ao povo, as suas obras ensinam muito. Estes sam os Santos, que propomos ao estudante; e nam só porque sam santos, e mui versados nas doutrinas sagradas; mas especialmente porque o-sam nas profanas: com as quais formáram o bom gosto, e intendèram melhor as sagradas. Porque muitos nam tem, estes principios de letras umanas, aplicadas às divinas; por-iso vemos tantos Pregadores, que nam sabem abrir a boca. E porque nas mesmas letras umanas, muitos as-nam-estudáram como deviam, nem chegáram a conhecer, qual era o bom gosto, da-Eloquencia; por-iso tambem V.P. ve todos os dias omens, que nam só nam sabem, fazer um papel sofrivelmente; mas nem menos conhecer nos-outros, as delicadezas da-Oratoria. Desorteque se acazo lhe-mostram, uma orasam bem feita; nam lhe agrada: ou só vam buscar nela, as coizas menos sofriveis; palavrinhas, e coizas semelhantes: sem olharem para o todo da-orasam, para a proporsam, e dispozisam das-partes, o modo de dilatar os argumentos, de aclarar uma verdade; a verosimilidade dos-mesmos argumentos, e outras particularidades, em que consiste a eloquencia. A este modo pois de examinar, como eles fazem, chamo eu, julgar com os cotovelos: e tudo isto nace, de terem estudado mal.

Tambem outra coiza importante, deve advertir o Pregador, que sam as asoens. parece isto nada, e é uma principal parte na Oratoria. Nisto pecam bastantemente em Portugal. Vemos Pregadores, que peneiram no-pulpito, movendo os brasos e maons orizontalmente, com afetasam vergonhoza. vemos outros, que amasam, e dam estocadas com os brasos, arregasando as mangas, e fazendo mil coizas e posturas improprias. Nam pode V.P. crer, quanto isto desfigura o Orador, e esfria o animo dos-que o-ouvem. Um papel bom, quando é mal reprezentado, nam vale nada: o que todos os dias experimentamos. Bem nota é a istoria de Demostenes, o qual tendo ja dezesperado, de poder orar em publico, pola infelicidade da-sua pronuncia; um Comediante o animou, com a esperansa de reprezentar bem: e deo-lhe tais lisoens, que foi a cauza principal, do-grande nome, e aceitasam que ao despois teve.

Os Romanos, que sabiam quanto importava, reprezentar bem o seu papel, desorte se-exercitavam nisto, que tomavam lisoens dos-Comediantes; como o mesmo Cicero de si confesa. E com efeito, nam podiam tomar melhores mestres: porque os Comicos eram tam insignes nisto, que falavam somente, com as asoens. Nos-ultimos tempos da-Republica, se-introduzîram nos teatros, os Pantomimos: que era uma especie de Comediantes, que com as asoens somente explicavam, o que outro, que estava imovel no-fim do-teatro, dizia. Desorteque um falava; e o Pantomimo animava com a asám, a expresam do-outro. Tal era a diligencia, com que sabiam com a asám, acompanhar os movimentos do-animo! Isto faziam aqueles que sabiam, que coiza era Retorica: e isto deve fazer qualquer omem, que á-de orar em publico.

Os nosos Italianos sam os unicos, entre todas as Nasoens, que melhor exprimam com a asám, o que dizem: e nam só quando oram, mas tambem quando recîtam versos. Os Inglezes nam se-movem, quando recîtam: os Francezes esfogueteiam, e cantam: os Espanhoes choram: outros tem outros defeitos. Mas pola maior parte convem todos, que os Italianos, sam os mais expresivos: e um grande ingenho Francez, do-seculo pasado, chegou a dizer, que os nosos Italianos naturalmente eram, Comediantes. Porem em Portugal, á muita falta disto. Dos-Pregadores é notorio, que nam só lhe-falta a asám, mas até o tom da-voz, que nam acompanha com a asám. Confeso a V.P. que nunca pude sofrer a afetasam, com que muitos pregam a Paixam, ou as Lagrimas. Estudam uma voz flebile, mas com modo tal, que em lugar de fazer chorar, provoca o rizo: muito mais se consideramos o que dizem, com a dita voz flebile. Eles circunscrevem o estilo patetico, na dita voz: e asentam que ela basta, para mover. Loucuras! O mesmo digo, quando fazem a exclamasam para o Sepulcro, nos-sermoens de Quaresma. todo o ponto está, em gritar muito: pedir mil mizericordias: e com isto se-contentam. Mas a falar a verdade, estes nam sabem o seu oficio. O estilo patetico, é a coiza mais dificultoza, da-Retorica, como confesa Cicero[70]: e nele é que consiste o triumfo, e aplauzo da-eloquencia. Nam é pequena dificuldade, ou para melhor dizer, é coiza admiravel, que as palavras que profere um omem, ajam de mover em mil ouvintes, os mesmos sentimentos, que quer o Orador: amor da-Virtude: odio do-Vicio: aborrecimento de si mesmo! Que cuida V.P. que será necesario, para conseguir isto? É necesaria doutrina admiravel: particular conhecimento das-paixoens umanas; como se-excitam, e adormecem: asoens proprias: e em uma palavra, saber uzar das-Figuras, na ultima perfeisam: e isto nam se-faz com voz flebile, nem com gritarias, mas com outras virtudes oratorias. Nam digo, que quem prega estes sermoens, esteja rindo: digo sim, que deixe aquelas afetasoens, e reconhesa em que consiste, o mover os animos: qual é a asám, qual a voz proporcionada.

Mas pior que tudo é, quando recîtam versos: rarisimo vi, que pronunciáse verso bem. Comumente vam detraz do-consoante, e fazem pauza, nam no-fim do-sentido, mas no-fim do-verso: o que é erro manifesto. Parece isto pior, quando recîtam versos Latinos, nos-quais nam á consoante: de que vem, que um carmen pronunciado por-um deles, e por-outro que o-saiba animar com a voz, e asám, parece diferente. Este defeito deve emendar o omem, que quér ser perfeito. deve exercitar-se em caza, diante de algum amigo bem informado; para ver, se expremio bem, a asám que quer. Só asim conseguirá, ser ouvido com gosto.

Mas eu quero parar, neste ponto: porque se deixo correr a pena, em lugar de reflexoens, escreverei um tratado de Retorica. Reconheso que já caî, no-mesmo defeito que condeno: mas a materia é tam fecunda, e as reflexoens ocorrèram-me, com tanta promtidam, que nam pude deixar, de as-admetir. Direi porem a V. P., que lendo o que tenho escrito, acho que é suficiente, para introduzir um moso no-estudo, da-verdadeira Eloquencia. e quem se-capacitar bem destas reflexoens; e comesar a ler os bons autores, tanto Latinos, como Vulgares; e observar neles, o artificio das-orasoens; sem ler mais outra Retorica, pode sair gravisimo Orador. Esta prezunsam nam nace de mim, mas damesma qualidade dos-preceitos: os quais sam tam antigos, como os Oradores: que é o mesmo que dizer, sam os mesmos que executou Demostenes, e Eschines, e Isocrates: que nos-deixou escritos Aristoteles, Demetrio, e Longino: que praticou e ensinou com tanto louvor Cicero, M. Seneca, e Quintiliano, e outros autores antigos. As Retoricas comuas nam apontam, senam alguns nomes, que eu aqui nam quiz apontar: sem saber os quais, pode um omem ser, muito bom Retorico, se souber imitar estes treslados. Como tambem pode um omem, com exata lisam de bons livros, discorrer bem, sem saber as especies de silogismos, que apontam os Logicos.

Neste pouco que tenho proposto, cuido que cheguei, ao verdadeiro principio da-Eloquencia. Nam apontei o artificio, dos-diversos estados de controversias oratorias; porque nam era ese o meu argumento; nem tambem se-acha, nas Retoricas ordinarias: e somente se-pode aprender, nos-mesmos autores originais. O meu Religiozo que asima aponto, explica muito bem estes artificios, dando os exemplos originais: mas tambem se-demora com minucias: e como escreve em lingua estrangeira, nam é para o cazo. Outros, de que eu me-aproveitei mui bem, tambem escrevem em linguas estrangeiras, ou sam difuzisimos. Neste cazo para dizer a V. P. o meu parecer, aconselho ao estudante Portuguez, que nam tem alguma boa Retorica Portugueza; que, despois de intender bem, o que aqui lhe-aponto, tome alguma ideia, da-distribuisam da-orasam; a saber, exordio, narrasam, provas, epilogo: que leia brevemente, o nome das-figuras das-palavras, e do-animo: o que o mestre facilmente podia explicar. Posto isto, segue-se ler um autor Portuguez, no-qual posa fazer, as reflexoens necesarias. Mas aqui esta a dificuldade: e eu que nam costumo inganar ninguém, devendo dizer-lhe sinceramente o que intendo; digo, que nam acho algum, que posa ser modelo.

Dos-sermoens nam tenho que dizer, sendoque ja expliquei, o que eram. As orasoens Academicas, que se-lem nos-Anonimos &c. nam merecem que se-leiam. Algum elogio da-Academia Real, que é mais toleravel, peca por-outro principio: porque é mera istoria, sem artificio algum retorico. * * * E aos que respondem, que tambem os Francezes praticam o mesmo, nos-elogios dos-seus Academicos; respondo o mesmo: que os ditos elogios sam istorias, e nam panegiricos: e asim o-julgam todos, os que tem voto na materia. Li nam á muitos dias o do-Cardial de Polignac, que teve ultimamente seus aplauzos: e achei que o autor, se ouvèse de escrever a istoria do-dito, nam se-serviria, nem de outras palavras, nem pensamentos, nem frazes. Com efeito eu julgo, que aqueles omens nam querem fazer outra coiza, que explicar em breve, a vida, e merecimentos dos-seus Academicos. Onde como eles nos-dispensem, de lhe-chamar orasam, ou panegirico; concedemos-lhe tudo o mais: mas devemos porem reconhecer, que nam sam obras no-genero Oratorio: e que nam sam para se-imitarem. Onde neste cazo deve o mestre, tomar sobre si o trabalho, de explicar tudo em Cicero: servindo-se para isto do-P. Cigne Jezuita: o qual, seguindo o metodo de um certo Inglez, faz a analize das-orasoens de Cicero. E asim nelas deve o mestre, mostrar o artificio da-Oratoria, fazendo as seguintes reflexoens. Notar primeiro a forsa das-razoens, dispostas com boa ordem, unidas naturalmente, e amplificadas com artificio. Notar a verosimilidade das-ideias: a pureza e elegancia das-palavras: a moderasam e propriedade dos-epitetos: o numero oratorio, que consiste em certa colocasam armonioza de palavras, mas que nam degenere em verso: a introdusam das-figuras, quando é necesario excitar as paixoens: as precausoens que observa, para nam dezagradar. Observando bem isto, na lisam dos-autores, bastava para conseguir, o bom gosto da-Eloquencia.

Deve porem unir-se com isto, o exercicio. Onde o mestre comporá, uma breve orasam Portugueza, segundo as regras da-arte: e mostrará nela aos dicipulos, o artificio e galantaria dela. Fazendo-se isto em Portuguez, facilmente se-aprende: e só asim podem eles, intender bem os preceitos, e executálos. Isto nam fazem em Portugal os mestres, e quazi se-envergonham, de escrever em Portuguez: sem advertirem, que a Retorica nestes paîzes, mais se-exercita em Vulgar, que em Latim. Mas por-esta razam sucede, que saiem todos da-Retorica, sem saberem dela mais, que o nome. Porem, tornando ao estudante, tendo-lhe proposto um modelo, de fazer uma breve orasam; será necesario exercitálo. Isto facilmente se-faz, propondo-lhe na escola um asumto, e proguntando-lhe, o que eles diriam em tal cazo, para defender v.g. ou acuzar aquela pesoa. Certamente um rapaz com a logica natural, dirá algumas razoens, que lhe-ocorrem: pois vemos, que a nenhum rapaz faltam razoens, para se-desculpar dos-erros que faz, quando o-querem castigar. A um rapaz pode dar, a incumbencia de acuzar, e a outro de defender. Despois que ambos tem dito o seu parecer, deverá o mestre, suministrar alguma razam mais; e ordenar aos rapazes, que as-escrevam, e fasam as suas orasoens, do-melhor modo que puderem. Isto feito, deve o mestre emendar os erros, tanto de lingua, como de Retorica; dando-lhe razam, de tudo o que faz: e variando sucesivamente os asumtos. Desta sorte aprende-se mais Retorica, em uma semana; doque polo metodo vulgar, em dez anos.

Quando o estudante sabe bem, que coiza é Retorica, no-resto do-ano se-pode empregar, em compor Orasoens Latinas: ou traduzindo, as que compoz em Portuguez, o que é mais acertado ao principio: ou compondo outras novas. Para quem ja intende Latim, e sabe compor bem em Portuguez, isto é um divertimento, sem ter dificuldade alguma. Terá pois o mestre cuidado, de lhe-encomendar, que leia os trez livros de Oratore de Cicero, e Orator ad M. Brutum, como tambem o de Oratoriis Partitionibus: os quais dois ultimos sam a quinta esencia, de toda a Retorica. Encomende-lhe que se-familiarize, com as Orasoens de Cicero, para aprender os seus modos de explicar. As outras reflexoens sam iguais, em ambas as linguas, com sua proporsam: e tambem o modo de emendar os defeitos, que os estudantes cometem. Desta sorte é sem duvida que em um ano, podiam saber muito facilmente Retorica, e mui solidamente.

Quanto aos mestres, sou de parecer, que leiam atentamente, nam só os ditos livros, que apontamos de Cicero, e alguns outros, pertencentes também à Retorica; mas os de Quintiliano, em que faz belisimas reflexoens, sobre ela. Valla diz[71], que ninguem pode, intender bem Quintiliano, sem primeiro saber bem Cicero: nem menos seguir perfeitamente Cicero, sem obedecer aos preceitos, de Quintiliano. O certo é, que Quintiliano é um Retorico insigne, e um grande Critico, que toda a sua vida empregou em refletir, e ensinar: e tem maravilhoza eloquencia: e dele podem tirar os mestres, as necesarias reflexoens, para comunicar a seu tempo, aos rapazes. Se o mestre quizese, mais alguma noticia particular, e ver as fontes, de toda a Retorica; devia ler os livros Retoricos de Aristoteles, que é o mestre nesta materia, e os ditos sam a sua melhor obra: nela bebèram todos. Podia servir-se da-versam Latina, se nam intendèse o Grego. A este ajunto um famozo Critico, e Retorico, que é Dionizio Longino, no-seu tratadinho de Sublimi stilo: em que faz admiraveis reflexoens, servindo-se tambem da-Versam[72]. E quem quizese mais, podia ler o Demetrio Falereo: aindaque nos-outros acha-se tudo. A estes quatro, Aristoteles, Cicero, Quintiliano, e Longino, se-reduz tudo o que á melhor na Antiguidade, sobre a Retorica. Aconselharia tambem ao mestre, que lese os panegiricos Latinos, que temos dos-Antigos, comesando em Plinio, e pasando aos outros que se intitulam, Panegyrici Veteres; que cuido sam uns quinze, compostos no-quarto, e quinto seculo: nam para os-seguir em tudo: mas para os-conferir com os antigos, ver em que diferem, e aproveitar-se deles, em alguma coiza menos má. Advertindo nestes ultimos, que o que aconselhamos nam é a lingua, que tem seus defeitos; mas algum pensamento &c. Retoricas modernas nam aconselho nenhuma, nem a dicipulos, nem a mestres: tirando o Vossio, nas suas Instituisoens Oratorias, que é famozo: o qual podiam ler uns, e outros, quando quizesem particularizar, alguma noticia. Aindaque quem le, e intende bem, o livro Orator de Cicero, nam necesita mais: mas como é breve, pode-se permetir, ler alguma coiza mais.

Aconselharia tambem, que aprendesem bem a lingua Italiana, para lerem as famozas tradusoens que se-acham, dos-Antigos Oradores Gregos, e Romanos, feitas por-omens insignes: como tambem para lerem as belisimas obras, em materia de Eloquencia; que os nosos Italianos tem produzido, e produzem todos os dias. Ninguem nos-disputa a prerogativa, de que a Eloquencia sempre se-conservou, em Italia. Os Francezes, que nam cedem facilmente, no-particular de literatura, fazem-nos este elogio. E aindaque eles abundem de omens doutos, nesta faculdade; vemos que na Italia se-conservou sempre, com mais extensam, e pureza. Quem le o P. Paulo Segneri Jezuita, o Cardial Cassini Capucinho, e ainda o mesmo Monsenhor Barberini, tambem Capuchinho, e mil outros de diversas Religioens, e Seculares sem numero; parece-lhe que conversa, com o mesmo Cicero: porque formados sobre estes antigos modelos, em nada se-distinguem, dos-originais. Acrecenta-se a isto a lingua, que, despois da-Latina, é a mais bela, e armonica, para a Eloquencia. Tem mais os Modernos, outra circunstancia; vem aser, que tendo-se aplicado a diversas materias, nam só profanas, mas sagradas, de que nam á vestigio, nos-antigos Retoricos; fizeram aos nosos olhos mais familiar esta faculdade, e mais facil de se-imitar: porque dam belisimos exemplos, em tudo. Desta sorte familiarizando-se muito, com os Antigos, e Modernos; observando em que diferem, e em que sam louvados; se-pode conseguir, a verdadeira Eloquencia.

Conheso, que se eu faláse com outra pesoa, que nam fose V. P. se-escandalizaria muito, que eu nam aconselháse aqui, a leitura do-P. Vieira, do-Baram Conego Regular, do-Bispo de Martiria, do-Arcebispo de Cranganor, e de alguns outros, que nam aponto; persuadindo-se, que estes omens sam originais, de toda a estimasam. E nam sei se V.P., aindaque superior no-criterio aos outros, intende, que algum deles podia ter lugar, entre outros que louvo. Mas eu, meu amigo e senhor, nam tenho nisto parcialidade alguma; e julgo, segundo o que intendo, na minha conciencia. Verdadeiramente é coiza indigna, de todo o omem ingenuo, quanto mais de um Religiozo; desprezar autores, que o-nam-meresam, e sejam em simesmos dignos, de todo o louvor: mas nam é menos indigno, aprovar um escritor, contra aquilo que intendo. Eu ja fiz a minha solene protesta, na primeira carta, e nesta da-Retorica tambem; que nam pertendia defraudar ninguem, da-sua justa estimasam: e novamente aqui repito, que estimo infinitamente qualquer destes Religiozos: mas eu os-distingo muito das-suas obras, que nada estimo.

E comesando polo mais famozo, o P. Vieira teve mui bom talento; grande facilidade para se-explicar; falou mui bem a sua lingua; e nas suas cartas é autor, que se-pode ler com gosto, e utilidade. Quanto aos sermoens, e orasoens, deixou-se arrebatar, do-estilo do-seu tempo; e talvez foi aquele que com o seu exemplo, deu materia a tanta sutileza, que sam as que destruem a Eloquencia. Nos-seus sermoens, nam achará V. P. artificio algum retorico, nem uma Eloquencia que persuada. Muitos, que gostam daquelas galantarias, lendo-o sairám divertidos: mas nenhum omem de juizo exato, sairá persuadido delas. Sam daquelas teias de aranha, bonitas para se-observarem, mas que nam prendem ninguem. Eu comparo esta sorte de sermoens, aos equivocos: que parecem bonitos, quando se-ouvem a primeira vez; mas quando se-examinam de perto, nam concluem nada. Porque finalmente se V. P. le os tais sermoens, e examina as provas e artificio delas; verá muitas coizas, que cheiram a Metafizica das-escolas: mas nam achará alguma, das-que asima aponto, como necesarias. Os exemplos que asima apontei, sam comumente tirados, dos-seus sermoens: e com eles à vista, poderá V. P. conhecer, quantas coizas eu deixei, que podia apontar. Se pois isto se-chama pregar, e pregar bem, eu o-deixo considerar, aos dezapaixonados.

O dezejo que o P. Antonio Vieira, em quazi todos os sermoens mostra, de agradar ao Publico, ainda quando às vezes o-critica; deixa bem compreender, que se-conformava muito, com o estilo corruto do-seu seculo. Tinha ingenho, imaginasam fecunda, e deixando-se conduzir, do-impeto do-seu fogo, ou talvez procurando de excitar em si, uma especie de entuziasmo; rompia nas primeiras ideias, que lhe-ocorriam; que sempre eram sutis, polo costume que tinha, de ideiar asim. Eu falo com V.P. que tem grande noticia dos-ditos sermoens, em virtude da-qual conhece, com que razam eu-digo isto: que se-faláse com outro, serîa mui facil, provar tudo quanto escrevo. Mas nam poso deixar de insinuar, que a maior prova do-que proponho, é a sua decantada obra, Clavis Prophetarum: de que nos-dá uma ideia, no-livro que intitula, Istoria do-Futuro. Neste livro acha V.P., uma chimera mui bem ideiada, e que a ninguem mais ocorreo. Promete provar primeiro, que á-de aver no-mundo, um novo Imperio: mostrar, que Imperio á-de ser: determinar, as suas grandezas e felicidades: explicar, por-que meios se-á-de introduzir: individuar, em que terra, em que tempo, e em que pesoa á-de comesar este Imperio[73]: o qual á-de ser tam grande como todo o mundo, sem iperbole, nem sinedoche[74]. Prova isto, segundo diz, com uma profecia de S. Frei Gil: com o juramento d’El-Rei D. Afonso: e com outras provas deste calibre. Diz tambem, que a maior parte, á-de sair da-Escritura; na qual estam reveladas, todas estas coizas. Quanto ao Imperador, aindaque claramente o-nam-explica, dá muito bem a intender, que sairá de Portugal; porque aos Portuguezes é que propoem, estas felicidades. Alem disto em outra parte[75] declara mui bem, que este Imperador será o filho primogenito, do-Serenisimo Rei D. Pedro II. e pretende proválo com os mesmos fundamentos, com que prova o Imperio, na Istoria do-Futuro. E nas cartas que escreve, a algumas pesoas, lhe-explica, que as felicidades de Portugal, estam muito vizinhas.

Eu nam entro aqui a disputar, se estes fundamentos, (nam falo das-Escrituras, pois é loucura persuadir-se, que falam em tal materia) sejam bastantes, para afirmar tal paradoxo: é bem claro, que isto tem aparencias de comedia; e bem parece obra feita, para divertir o tempo. Mas aindaque fose verdade, que as conquistas feitas, estivesem tam distintamente profetizadas, na Sagrada escritura; e despois do-suceso se-intendesem; fica em pé a dificuldade, de tirar da-Escritura, as conquistas futuras, deste novo Imperador. E quanto aos expozitores que ele aponta, e às profecias destes modernos, em que se-funda; creio nam faremos injuria ao P. Vieira, se nos-rirmos de todas estas provas, esperando, que as-procure mais fundadas. Mas o que digo a V.P. é, que na dispozisam deste livro preambulo, se-ve o estilo do-P. Antonio Vieira: porque tudo prova com a Escritura. Ainda as coizas mais triviais, as profanas, e a mesma justisima exaltasam de D. Joam IV. ele as-quer provar aos Espanhoes, com as Escrituras. O pior é, que pola major parte, funda-se em palavrinhas da-Vulgata. E este é mui mao modo de interpretar: porque nam tendo Deus falado em Latim, mas em Ebraico, Caldaico, e alguma coiza em Grego; é necesario saber estas linguas, para alcansar, a verdadeira inteligencia do-original. Sem estas preparasoens, nenhum interprete se-mete a dizer, coizas novas: mostrando a experiencia, que comumente se-inganam, e só podem dizer, sutilezas pouco sofriveis.

E eu creio que nam sam mui toleraveis, as que ele aqui escreve: observando-se suma contrariedade, na interpretasam que dá, aos seus mesmos fundamentos. Umas vezes, a decimasexta gerasam, é o Cardial Rei D. Enrique:[76] e ainda lhe-faz a merce, de nam contar a vida d’El-Rei D.Alfonso I. que cuido devia ser o primeiro, no-catalogo. Outras vezes, a decimasexta gerasam é D. Joam IV.; e D. Pedro II. é a prole atenuada[77]: e como ao dito Rei nam se-pode aplicar, a palavra atenuada; procura aplicála a seu filho, o Principe entam nacido. Eisque morre o tal Principe ainda menino: Neste cazo o noso interprete excogita a saida, de lhe-ir dar no-Ceo, a investidura do-Imperio[78]: e comesa com outra metafizica pior, que a primeira. Finalmente despois de muitas observasoens, fica desmentida a verdade, do-juramento d’El-Rei D. Alfonso: e o Imperio do-mundo, que tam claramente estava profetizado, e prometido ao tal Principe, lá vai polos ares: e nem menos á aparencia, que se-torne outra vez a restablecer: pois do-tempo em que ele escrevia até este, vam bons 80. anos; e ainda nam vemos aparencias diso. Eisaqui tem V. P. o que sam todas estas chimeras, da-Istoria do-Futuro; e das-coizas que tem parentesco, com ela.

Ora estas sutilezas do-P. Vieira, cuido que tem arruinado, muita gente: porque formando grande conceito, do-seu talento; o-imitáram tanto à letra, que nada agradou, que nam cheiráse ao mesmo estilo. Ja é coiza muito antiga, que em materia de literatura, um omem seja o treslado, para que olhem os outros do-seu tempo. Quando em uma Cidade um sugeito consegue, fama de eloquente, os outros o-imitam; e às vezes por-seculos inteiros, se-conserva o mesmo estilo[79]. Aquele Seneca a quem chamam o Filozofo, nam se-duvida, que tinha grande ingenho, e doutrina: mas querendo-se singularizar; entre os antecedentes, comesou a fazer um estilo tam florido; que foi a primeira cauza, de se-perder o bom gosto da-Eloquencia, que reinára no-tempo de Augusto. Multæ in eo claræque sententiæ: (diz um Orador grande) multa etiam morum gratia legenda: sed in eloquendo corrupta pleraque: atque eo perniciosissima, quod abundant dulcibus vitiis. Vettes eum suo igenio dixisse, alieno judicio. nam si aliqua contempsisset, si parum concupisset, si non omnia sua amasset, si rerum pondera minutissimis sententiis non fregisset; consensu potius eruditorum, quam puerorum amore comprobaretur[80]. Palavras que me-parecem cortadas, para o P. Antonio Vieira: do-qual creio que se-pode dizer, que se, servindo-se do-seu ingenho, seguise outro estilo; serîa um grande omem: quando porem nam se-ocupáse com o argumento, da-Istoria do-Futuro.

E daqui compreenderá V.P. que conceito se-deve formar, daqueles muitos epitetos, com que os apaixonados o-louvam. Chamam-lhe, Mestre do-pulpito: Principe dos-Oradores: Mestre universal de todos os declamadores Evangelicos: Aguia Evangelica: e mil coizas destas. Outros lem as suas obras de joelhos, em sinal de respeito: e á omens de tam pouca considerasam, que imprimem estas noticias[81]; e nam se-envergonham de dizer, Que o mundo sem contradisam, lhe-deo a coroa, de Principe dos-Oradores. Mas este censor, que nam fez maior jornada, que de Lisboa a Madrid; nam era juiz competente, nesta matéria: nam só, porque tinha visto pouco mundo; mas porque tendo somente conversado, com os que liam o Vieira de joelhos; e nam sendo a Eloquencia, e belas Letras profisam sua, segundo mostra; tinha impedimento dirimente, para votar com acerto. Isto pois que digo destes, aplico a todos os outros. Criados com o prejuizo, de que o Vieira foi, um grande Orador; e ouvindo sempre repetir isto aos velhos, que bebèram aquela doutrina; nam é maravilha, que digam tantas coizas dele, e que o-imitem tam cegamente.

V.P. pode fazer uma experiencia, que eu ja fiz, e vem aser: quando ouvir a um destes, gabar muito o Vieira, e louválo com alguns dos-ditos epitetos; fasa-me a merce de lhe-proguntar primeiramente, emque consiste ser grande Orador: despois, que lhe-explique, que qualidades oratorias sam, as que excedem no-P. Vieira. Se lhe-responder bem ao primeiro ponto, estou certo, que nam responderá ao segundo: mas a experiencia mostrará, que o primeiro nam terá resposta. Eu aindaque nam costumo ofender ninguem, e muito menos na sua cara; achando-me porem com certa pesoa, que me-dise maravilhas do-tal autor, rezolvi-me a fazer-lhe esta progunta. Leu V.M. bem as obras de Lysias, Isocrates, Iseus, Demostenes, Eschines, Teofrasto, e Cicero, e tudo o que á de bom na Antiguidade? observou miudamente as delicadezas, e singularidades daqueles; e a diferensa que se-acha entre eles, e Plinio, e alguns outros mais inferiores, como Nazario, Auzonio, Pacato &c.? leu os antigos Retoricos, Aristoteles, Cicero, Quintiliano &c. ou algum destes modernos, que deram belisimos preceitos, como Vossio, Cavalcanti, e Platina: e outros que nas suas orasoens os-executáram, como Policiano, Mureto, Vavaflor, Cuneo, Gravina, Paolino, Politi &c.? Diz, nam senhor. Pois sem tais preparasoens, conclui eu, nam entro em discurso com V. M. sobre estas materias, porque nos-nam-intenderemos. Onde vem V. P. a conhecer, que as aprovasoens destes omens, nam devem fazer forsa a ninguem, para reconhecer por-grande Orador, o P. Vieira.

Eu que tenho visto mais algum mundo: e falado com bastante gente douta: e conhecido em Roma omens, que tinham tratado, com os que ouviram o P. Vieira: nam achei nada doque ouso dizer dele. Bem sim, que foi um Religiozo estimavel, polas suas prendas, e virtudes: o que tudo pode estar, sem ser mestre dos-Oradores. Falei com muitos Religiozos da-Companhia, que tinham dele perfeita noticia; e me-faláram como de um omem, que era estimado em Portugal, mas nam em Roma. Acrecente V.P. a isto, que muitos opusculos do-Vieira, foram compostos em Italiano: e até os mesmos sermoens se-acham traduzidos nele, por-um seu apaixonado, ao menos um tomo que vi á anos: e asim pode-se julgar, com todo o conhecimento da-materia. Vejo sim, que os mesmos Jezuitas, e todos os omens doutos, reconhecem o merecimento, do-P.Paulo Segneri Jezuita, e de varios outros Oradores damesma, e de diferente Religiam; que sam reconhecidos e venerados, como Oradores da-primeira esfera: e que tanto se-distinguem dos-sermoens do-Vieira, como o dia da-noite. De que venho a concluir, que quatro Portuguezes, ou Espanhoes, que dizem o contrario, nam podem fazer mudar de conceito, ao mundo inteligente.

Ainda nas suas mesmas cartas, que louvo, acho coizas que reprovar. Deste numero é a afetasam, de repetir em cada regra, o tratamento da-pesoa, com quem fala. Pois aindaque nos-discursos familiares, posa ter às vezes lugar iso; nas cartas, é enfadonho: e as pesoas, e Nasoens cultas, fogem todas dese vicio. Nem vale o-dizer, que em Latim se-costuma: porque na tal lingua, nam ofende os ouvidos; vistoque o tratamento comumente nam se-distingue, das-diversas inflexoens do-Verbo. Os nosos Italianos, que participam mais do-Latim, uzam da-palavra Ella, para evitarem aquela repetisam: e ainda esta com moderasam. E oje os que escrevem melhor, despois de darem o tratamento, uma ou duas vezes, ou em carta particular, ou prologo de livro; servem-se da-palavra Vostra, que se-refere a Alteza, Eminencia, Santidade, Excelencia &c. nam só porque esta Elipsi, nam prejudica, ao respeito que se-deve, aos Senhores grandes; mas porque sendo mais simplez e natural, é tambem mais nobre; e se-evita a ridicula afetasam de alguns modernos, chegando-se mais ao estilo, da-Antiguidade. E, valha a verdade, este periodo: Excelentisimo senhor, a excelentisima pesoa de Vosa Excelencia guarde Deus, como Portugal, e os criados de Vosa Excelencia avemos mister: com que o Vieira fecha muitas cartas, ao Marquez de Gouveia, e outras pesoas; nam se-pode ler sem nauzea: achando-se muitas vezes, em quatro regras das-suas cartas, cinco vezes Vosa Senhoria &c.

O segundo reparo caie, sobre a fetasam de muitos periodos, e cartas inteiras. O que o mesmo coletor delas nam oculta, quando diz, que muitas nam publicára, por-nam serem tanto naturais. De que eu cuido, nam se-pode produzir melhor prova, que a carta que o P. Argote publicou, nas suas Regras Portuguezas; e que é escrita ao Cardial Lancastro: a qual é composta naquele estilo, que chamamos dos-Seicentos. Basta ler o primeiro periodo: Com melhor saude que o ano pasado; e com menos vida, porque ele pasou: a segunda parte do-qual, é noticia mui digna, de se-mandar a um Cardial, porque é coiza mui recondita. O que se-segue no-segundo paragrafo, sam, Sepulturas do-segredo: resurreisoens da-confiansa: exequias no-templo do-dezingano: estatuas da-ingratidam, e coizas semelhantes, que oje tem ranso. E nam sei se se-pode perdoar, a um omem douto como o P. Argote, o trazer a tal carta, para exemplo de construsam facil, e boa locusam. Conheso, que muitas vezes as cartas damesma pesoa, nam sam iguais: ou porque algumas escreveo, quando era moso, e sabia pouco; ou porque as-fez muito em presa. Conheso isto, e o-perdoo: o que reprovo é, que o coletor nam soubèse separar umas, das-outras, impremindo as melhores.

E aqui noto incidentemente, que o que fez o prologo da-colesam, que eu ignoro quem fose, dise uma falsidade, quando afirmou; Que nas linguas vulgares, tem todas as Nasoens escritores, mas nam em grande numero, deste estilo. Eu lhe-poso nomiar, somente na Italiana, nam digo duzias, mas centos: publicadas muitos e muitos anos antes, que saisem à luz, as do-Vieira: e entre estes escritores, muitos de purisima locusam, e estilo inimitavel. E o que mais é de admirar, omens que tratáram as Ciencias, mas principalmente todas as partes da-melhor Filozofia; com tal clareza, propriedade, e metodo, que envergonham os Filozofos da-Escola: os quais, empregados toda a sua vida nela, explicam-se muito mal. Na lingua Franceza, á infinitos tomos de cartas, em todas as materias; e alguns famozos. Deixo a Ingleza, e Olandeza, nas quais sei que se-tem seguido, este estilo. Onde, nam avendo coiza mais uzual, que estes escritores; mostra-se o tal coletor, mui pouco informado do-mundo.

O terceiro reparo que faso é, sobre a Ortografia, que nada me-agrada. Nelas acho mui praticado aquele estilo, que se-deve desterrar, da-lingua Portugueza; e vem aser, a duplicasam escuzada, de muitas consoantes; e mil outras, que na minha primeira carta mostrei a V. P. que nam deviam seguir, os omens doutos. Onde persuado-me, que neste particular, tam longe está de ser omem insigne, que eu o-nam-porei por-exemplar, a um principiante.

Ora eisaqui tem V. P. que as mesmas cartas do-Vieira, que eu julgo serem a sua melhor obra; aindaque tenham muita coiza boa, sejam facis, e as palavras nam sejam más; contudo, nam merecem aqueles cegos, e encarecidos louvores, que lhe-dam estes apaixonados: os quais ou estam preocupados, polas mesmas opinioens; ou julgam por-cabesa alheia; e nunca tiveram a paciencia, de examinar bem a materia. Defeito mui antigo nestes censores: que aprovam os livros comumente, sem os-lerem: e nam se-contentam de aproválos, mas os-elogiam, e tam encarecidamente, que perdem toda a fé. Deixo aos omens de melhor juizo, fazer a analize das-tais obras, com mais tempo, que eu nam tenho.

Mas eu ja vejo, que me-tenho aberto muito com V.P. o que fiz, confiado na nosa amizade. Certamente nam disera tanto com outro: pois sei certamente, que quem nam tiver examinado isto, me-terá quazi por-louco. Eu sempre fugi, desta sorte de conversasoens, com pesoas que sabem pouco: porque me-ensina a experiencia, que se-perde o tempo, e o conceito. Mate-me Deus com gente, que me-intenda: e que me-nam condene, sem perceber as minhas razoens, e responder a elas. Porque aquilo de reprovar um escritor, somente porque impugna os defeitos, de que eu gosto; sem ter o sofrimento de examinar, as dificuldades que propoem; aindaque seja uzo mui comum, nam sei porem se é concludente. Emfim com V.P. nam á este perigo: porque eu sei muito bem, que ao seu talento, nada se-encobre: e que mais para exercitar o seu juizo, doque para aprender alguma coiza nova, é que tem a bondade, de me-consultar.

Mas sempre devo declarar-lhe, que o juizo que formo das-obras, do-P.Antonio Vieira; deve ser intendido, com todo o respeito devido, à sua memoria. Eu estimo muito este Religiozo, polas suas virtudes, e capacidade. Vejo nas suas cartas retratado, um animo grande: um dezinterese nobre: uma viva paixam polos aumentos do-seu Reino: e ardente dezejo de se-sacrificar por-ele: e, para nam ocultar coiza alguma, vejo a suma ingratidam dos-seus nacionais, que conrespondèram a tantas finezas, com asoens indignas: e nam só nam souberam estimar, tam grande omem, mas pozitivamente o-opremîram, e a sua familia. Estas circunstancias todas mo-pintam, mais estimavel: e se eu vivèse no seu tempo, serîa o seu maior amigo. Deve tambem o que digo intender-se, sem a minima ofeza da-Religiam da-Companhia: a qual tem produzido, tantos omens grandes neste genero; que sem dor alguma pode ouvir declarar, que um dos-seus Religiozos, nam iguala, nem chega, à gloria de muitos outros: o que provèm menos do-talento, que do-infeliz estilo daquele tempo, que nam conhecia, outro gosto de Eloquencia. Damesma sorte que Plinio Cecilio, aindaque tivese talento, e indole insigne; nam pode menos que participar, do-estilo do-seu seculo; que degenerava muito, da-magestade da-primeira Eloquencia. Unicamente devo advertir isto a V. P., para justificar o meu proceder, contra aquela acuzasam, que me-podiam fazer aqueles, que, ouvindo-me falar d’eloquencia Portugueza, visem que nam citava, o P. Vieira.

O conceito que formo, dos-sermoens e orasoens do-Vieira, com mais razam se-deve aplicar, a todos os outros sermonarios; que V. P. conhece, estarem muitos furos abaixo do-Vieira. Digo pois, que o Orador, que quer avultar no-mundo literario, deve deixar todos os sermonarios Portuguezes, ou Espanhoes; e seguir a estrada que asima lhe-abrimos: que parece ser, a verdadeira estrada da-Eloquencia: e isto parece-me que basta, para regular o metodo da-Oratoria. Deve a isto ajuntar, o continuo exercicio de compor: e exercitar-se juntamente em particular, para poder falar em publico: sendo certo que o exercicio de compor, e falar conduz muito, para beber os principios, e sabèlos uzar a seu tempo, com dezembaraso. Perdoe-me V. P. a extensam desta, que desde o principio eu prevî, que serîa comprida: e conserve-me muito na sua memoria. Deus guarde etc.