CARTA OITAVA.
SUMARIO.

Trata-se da-Filozofia. Mao metodo com que se-ensina, em Portugal. Advertencia das-outras Nasoens, em procurar a Ciencia. Necesidade da-istoria Filozofica, para se-livrar de prejuizos. Ideia da-serie Filozofica. Danos, e impropriedades da-Logica vulgar. Da-se uma ideia, da-boa Logica.

Meu amigo e senhor, Dirá V. P. que eu sou mui preguisozo em responder, e conservar a conrespondencia, com os amigos: mas se-soubèse como eu tenho estado, reconheceria, que nam falto, senam com justificada cauza. Eu sou filho da-obediencia; e esta me-ocupou bastantes dias: a isto se-seguio, a minha costumada indispozisam da-cabesa, que me-impedio ler coiza alguma. Tambem me-lembrou, que tinha remetido a V. P. um proporcionado livro, com o titulo de carta; e que nam lhe-faltava que ler. Agora livre de algum modo, de um e outro impedimento; pego na pena para continuar, o noso comercio literario.

Nas duas ultimas me-pede V. P. com instancia, que me-dilate bem sobre a Logica, e que nam me-poupe, a nenhuma outra parte da-Filozofia. Eu nam sei, se poderei dignamente satisfazer, a curiozidade que V. P. mostra, nestas materias: porque finalmente á muito que dizer nelas; e muitas coizas, que nam am-de agradar: mas finalmente direi. Lembro-me, que na nosa ultima conversasam me-dise V. P. que as escolas de Filozofia deste Reino, necesitavam ainda maior reforma, que as outras: porque o mao metodo das-escolas baixas, alguma coiza se-pode emendar com o tempo: porem uma vez que o estudante comesou a provar, o ergo, e atqui, e a brincar com eles, e excogitar sofismas, e metafizicas oscuras; de tal sorte se-ocupa, com aquele negocio, que nam é posivel por-lhe remedio: de que nace, a confuzam na Medicina, Teologia, e mais Ciencias. Como V.P. reconhece de antemam esta verdade, me-animo a dizer-lhe sinceramente, o meu parecer.

Eu verdadeiramente nam sei, se as escolas de Filozofia deste Reino, tem pior metodo, que as escolas baixas: sobre iso avia muito que dizer: o que sei porem é, que nestes paîzes nam se-sabe, de que cor seja isto, a que chamam boa Filozofia. Este vocabulo, ou por-ele intendamos ciencia, ou com rigor gramatico, amor da-ciencia; é vocabulo bem Grego nestes paizes. Verá V. P. que se-dá este nome, a coizas bem galantes: Universais, Sinais, Proemiais, e outras coizas destas. Os pobres rapazes pasam os seus trez e quatro anos, lendo arengas mui compridas: e saiem dali, sem saberem o que lèram, nem o com que se divertîram. Falo do-estilo das-Universidades: porque o das-outras escolas é o mesmo, quanto à materia; e ainda pouco diferente, quanto à dispozisam.

No-primeiro ano se-pasa com dois tratados, a que chamam Universiais, e Sinais; cadaum dos-quais terá quando pouco, os seus 20. cadernos, de duas folhas: e ja vi mestre, que ditou 40. cadernos, somente de Universais. No-segundo ano acabam-se os Sinais: e parte do-ano fala-se muito, em Materia Primeira, e Cauzas; ao que chamam Fizica. No-terceiro ano estudam-se Intelesoens, Noticias, Topicos, e algumas questoens de Metafizica, digo do-Ente em comum: e com estas quatro, e as duas do-primeiro ano, se-faz o Bacharel. No-quarto explica-se um tratado, a que chamam Gerasam e Corrusam: e avendo tempo, outro a que chamam de Anima in communi. Despois fazem concluzoens, nas ditas materias, ou semelhantes: que é um ato em que muitas vezes sucede, que o defendente nam tem, argumento algum. Segue-se o Licenciado, que é um exame sobre as 6. materias do-Bacharel, com mais outras que apontamos: e temos o omem graduado, Filozofo.

Se isto pode ser bom metodo; se tais materias podem formar, um bom Filozofo; eu o-deixo considerar, aos pios leitores. Progunte-lhe V. P. aqueles Universais, e Sinais, de que coiza servem, quando se acaba a Filozofia. Diga-lhe que lhe-apontem, em que parte da-Teologia sam necesarios: que dogma se-explica com tal doutrina: fasa-lhe outras proguntas destas, e verá que limpamente lhe-confesam, que tudo aquilo morre com a escola. Se repetir a progunta em outras materias, concluirá o mesmo. E eisaqui tem V.P. o que significa Filozofia, nestes paîzes.

Mas isto serîa nada: o melhor da-festa está, na satisfasam com que ficam, de terem estudado tudo aquilo. Se alguem lhe-contradiz um ponto; se alguem quer tomar o trabalho de lhe-mostrar, que nada daquilo vale um figo; ou que Aristoteles nam falou naquele sentido; ou que a Filozofia se-deve tratar de outra maneira; e que asim a-tratam naqueles paîzes, que dam leis ao mundo, em materia de erudisam; e ainda em Roma, nas barbas do-Papa &c. acabou-se tudo, e vem o mundo abaixo com gritarias. A tal propozisam é uma erezia, contraria diametralmente à Escritura, e às definisoens dos-Concilios, e Padres; e ao costume da-Igreja Catolica; que canonizou as obras de Aristoteles, e tambem a doutrina dos-Arabes. Galilei, Descartes, Gazendo, Newton, e outros destes que a-nam-seguîram, cheiram a Ateistas; ou polo menos estam um palmo distantes, do-erro. Estas Filozofias só reinam, em paîzes de Erejes. Os estrangeiros que defendem isto, sam quatro bebados, que impugnam o que nam intendem, e nam intendem o que proferem. Isto, e outras coizas semelhantes, tenho eu ouvido algumas vezes.

Proguntava eu em certa ocaziam a um mestre, que me-parecia bom omem; e cujo defeito cuido que era, nam malicia, mas ignorancia: Tem V.P. lido nos-originais, a doutrina de Descartes, Galilei, Gazendo, Newton tem examinado fundamentalmente, os que explicáram melhor, a doutrina do-primeiro; como o P. Malebranche, o Baile, o Regis, o Le Grand: ou os que expuzeram a de Gazendo, como o Saguens, Maignan &c.? diz, Nam senhor. Observou, continuei, polo menos as objesoens, que o P. Genari Dominicano propoz ao Saguens, e Monsieur Arnaldo ao P. de Malebranche em outro sentido; com as respostas destes ultimos? diz, Nem menos. Muito bem: pois diga-me, intende V.P. na sua conciencia, que pode ser juiz nesta materia, sem ter examinado, as razoens de ambas as partes: e muito mais formar uma censura tam rigoroza, como é condenar a religiam, dos-que seguem esta Filozofia? Respondeo o omem: Na verdade eu nam sou informado, da-materia: mas tenho ouvido dizer muito mal dela, a outros mestres, de quem eu formo conceito. Maravilhozamente: mas diga-me, continuava eu, tem V.P. certeza, que eses tais examinasem o que digo; ou, aindaque o-examinasem, que julgasem sem paixam, e fosem capazes de decidir o ponto: porque sem isto deve-me conceder, que nada provam? Diz, Eles alegavam certas palavras, de que eu inferi, que os-tinham visto. Mas, proseguia o dialogo, poderá V. P. mostrar-me, que dogma se-destrue, com esta nova doutrina? Os acidentes Eucaristicos, e todo o sistema da-Grasa. Muito bem: vistoiso temos, que as fórmas acidentais no-sentido de Aristoteles, sam de fè? diz, sem duvida. Vistoiso, ou na Escritura, ou por-tradisam nam interrompida, digo, polo consenso de todos os Padres, definisoens de Concilios, ou Igreja Romana, estará determinado isto: porque eu nam reconheso outros principios, para fundar propozisam de fé. Mas atreverseá V. P. a mostrar-me, esa declarasam? Declaro, que eu tambem sou catolico Romano, e creio que na Eucaristia está Cristo, debaixo dos-acidentes de pam, e vinho: o que digo é, que os tais acidentes nam sam fórmas, no-sentido peripatetico: e disto é que peso, esa declarasam de fé. Concluio ele dizendo: Iso nam poso eu fazer, porque nam tenho visto a materia. Bem, respondi eu, pois pesa V. P. a um dos-seus amigos, que lhe-descubra esta revelasam, ou decreto; e entam falaremos sobre o particular: porque agora tem pozitivo impedimento.

Este dialogo podia-se repetir, com mais alguns acrecimos; e executar-se com algumas pesoas, que ouso falar nestas materias, com tanta satisfasam; como se soubesem o que dizem, e intendesem a materia, de que falam. Eu tive alguns ratos de divertimento, conversando com alguns destes mestres. Eles confundem, todos os autores modernos; e sem mais exame os-acuzam, dos-mesmos erros: e com estranha dialetica os-condenam, de ignorancia. Como se um omem doutisimo, nam pudese uma vez, dizer um despropozito! Os que tem erudisam exquizita, sabem que no-mundo ouve um Descartes: e algum deles, mais raro que mosca branca, leo alguma coiza, dos-Principios, ou Meditasoens Metafizicas. E aqui é ela: sobe à cadeira, e vomita mais decizoens, contra o pobre Descartes; doque ele nam dise palavras: E sem examinar, se ele é seguido em tudo, intende que tudo o que Descartes dise, foi, e é recebido, com a mesma venerasam; e sam todos obrigados, a seguilo. Em certa jornada que eu fiz, incontrei em uma estalagem um Religiozo * * que tivera a felicidade, de ler Descartes: o qual, conhecendo que eu era Estrangeiro, introu logo na materia: e todo o tempo que durou á ceia, empregou ele em provar, que, segundo os principios do-tal Filozofo, a Eucaristia estava somente, nos nosos olhos. Veja V. P. como este intendia bem, a doutrina dos-Cartezianos! Mas eu que vinha cansado do-caminho, e com fome; para abreviar a disputa concedi tudo, e meti-me na cama. Nam acho melhor modo de responder, a esta sorte de gente.

Eu certamente nam sou Carteziano, porque me-persuado, que o tal sistema em muitas coizas, é mais ingenhozo, que verdadeiro: mas confeso a V. P. que nam poso falar no-tal Filozofo, sem grandisima venerasam. Este grande omem, na Matematica foi insigne, e inventou algumas coizas, até ali ignoradas; e promoveo outras com felicidade. Em materia de Filozofia, acho que foi inventor, de um sistema novo. Isto nam parece nada, aos ignorantes: mas aos omens que intendem, qual é a dificuldade de inventar, e inventar com tanta propriedade; que ainda despois de descubertas as machinas, grande parte das-experiencias esteja da-sua parte; é sinal de um ingenho elevadisimo, e de grande criterio. Alem diso ele foi o primeiro, que abrio a porta, à reforma dos-estudos: pois aindaque Bacon de Verulamio, e Galileo Galilei, tivesem indicado o metodo, de fazer progresos na Fizica; e alguns outros os-fosem imitando; é certo porem, que Descartes foi o primeiro, que fez um sistema, ou inventou ipoteze; para explicar todos os fenomenos naturais: e por-este principio, abrio a porta aos outros, para a reforma das-Ciencias. E aindaque em tudo nam acertáse; é tambem certo, que se ele nam fose o primeiro, os outros nam teriam cuidado, de emendar os seus erros, e de adiantar os estudos, como estam oje.

Onde com todos estes principios, nam poso sofrer, que omens totalmente ignorantes da-materia; e que nam sabem de Descartes mais, que o nome; e aindaque o-leiam, nam tem olhos para o-intender: ainda asim tam indignamente o-tratem; e injuriem um omem, de quem eles nam seriam capazes, de serem amanuenses. Se estes censores tivesem lido, a istoria das-Ciencias, e do-restablecimento delas, desde o Concilio de Trento a esta parte; formariam diverso conceito destas coizas: e nam vomitariam tantos improperios, contra os modernos Filozofos: como eu vejo todos os dias, em varios autores, que podendo mostrar, o seu merecimento; o-perdem todo, quando entram a falar nestas materias, com tanta seguransa, como os que as-tem bem estudado. Dizem mil falsidades, que nunca sucedèram: fingem definisoens, que nunca se-sonháram: confundem a doutrina revelada, com as opinioens da-Escola: e querem que os SS. PP. aprovasem profeticamente, a Escolastica; que se-inventou alguns seculos, despois d’eles mortos. Esta é a celebre cantilena destes mestres, principalmente deste Reino: A qual provèm, da-grande ignorancia em que se-vive, da-Istoria antiga, e moderna, e dos-estilos dos-outros paîzes: do-pouco conhecimento que tem, de livros: e finalmente de quererem ser mestres, em uma materia, em que ainda nam foram dicipulos.

Sei, que a maior parte dos-Omens, vive mui satisfeita, dos-estilos, e singularidades do-seu paîz: mas nam sei, se á quem requinte este prejuizo com tanto exceso, como os Espanhoes, e Portuguezes. Observo, que os Francezes, Inglezes, Olandezes, que nam sam dos-que tem pior opiniam, e com razam, de si; aproveitam-se com todo o cuidado, dos-excesos que lhe-levam, as outras Nasoens. Os Francezes, mandam muita gente a Roma, para se-aperfeisoarem na Architetura, Escultura, Pintura; e em tudo o que pertence, às antiguidades Romanas. Sabem que estas artes, se-conserváram sempre em Roma, com distinsam: reconhecem, que os Romanos posuem o melhor, que neste genero nos-deixou a Antiguidade; e pode fugir à barbaridade, dos-incendios de Roma: e asim mandam lá os omens mosos e inteligentes, para beberem o bom gosto, da-Antiguidade. Muitos Senhores Inglezes, Olandezes, Francezes, Alemaens, que correm o mundo, para formarem os costumes; demoram-se tempo bastante em Roma, e nas principais Cidades de Italia; para observarem escrupulozamente, todas as antiguidades Romanas: e verem com os seus olhos aquilo, de que estam cheios os livros. Eu acompanhei alguns deles, que faziam estas observasoens; e os-achei sumamente instruidos, nas antiguidades Gregas, e Romanas: e com dezejo exorbitante, de verem com os seus olhos, e aprenderem o que nam sabiam: e faziam gloria de estudar, o que ignoravam. Polo contrario vejo, que os nosos Italianos se-aproveitam bem, das-belas edisoens de livros, e outra erudisam exquizita, que se-acha nos-livros, destas nasoens Ultramontanas: e que ainda em materias de Ciencias, se-regûlam polo metodo, das-Universidades de Sorbona &c. das-Academias Regias de Londres, Pariz, S. Pietroburgo, &c. por-conhecerem, que ali se-exercitam melhor; e dali saiem as melhores obras.

Isto é verdadeiramente conhecer, o merecimento de cada coiza. Mas observo tambem, que este metodo é ignorado nas Espanhas, e mui principalmente em Portugal: onde vejo desprezar, todos os estudos Estrangeiros, e com tal empenho; como se fosem maos costumes, ou coizas muito nocivas. Lembro-me a este intento, da-istoria do-Espanhol de Amsterdam. Nela viviam em uma estalagem, um Espanhol, e um Cavalheiro Florentino. Retirando-se este um dia a caza, proguntou ao Espanhol, que lhe-parecia Amsterdam: a belisima dispozisam da-Cidade no-material, e formal: a liberdade do-trato, contida dentro dos-limites do-justo: emfim ia-lhe repetindo uma por-uma, todas as singularidades de Amsterdam; e sobre cada uma lhe-proguntava, o que lhe-parecia. Mas o Espanhol, abanando a cabesa, nam respondia palavra. Até que o Florentino enfadado lhe-dise: Valha-me Deus, só vosé a-de ser singular neste mundo, nos-seus gostos; e só a um Espanhol nam á-de agradar, uma Cidade como Amsterdam, em que todos tem tanto que admirar? A isto respondeo o Espanhol mui laconico: Vaya, para pintada. Esta mesma resposta, com pouca diferensa, me-tem dado alguns, em outras materias. Quando se-vem obrigados com exemplos a reconhecer, que os Estrangeiros lhe-levam, consideravel exceso; respondem rindo, que asim é: mas que somente é, em coizas inutilisimas.

Isto suposto acho, que o melhor modo de dezinganar esta gente, e mostrar-lhe os seus prejuizos; é, por-lhe diante dos-olhos, uma breve istoria, da-materia que tratam: e persuado-me, que este é o mais necesario prolegomeno, em todas as Ciencias. Creia V. P. que com esta noticia, poupa-se muito trabalho, e muito estudo: adianta-se um omem muito, na inteligencia da-materia: e só asim fica capaz, de ouvir o que deve, e dezinganar-se por-simesmo. Asimque intendo, que por-esta istoria se-deve comesar. Nam digo, que o estudante deva saber, as opinioens de todas as setas de Filozofia; mas ao menos quando comesáram: quais foram as mais famozas: em que coiza comumente se-distinguiam: e como se-continuáram.

A Filozofia é o conhecimento das-coizas, que á neste mundo; e das-nosas mesmas asoens, e modo de as-regular, para conseguir o seu fim. Em todos os Povos do-mundo, e em todos os tempos achamos omens, que mais ou menos se-aplicáram, a estas coizas. Mas o noso estudante nam é necesario, que suba tam alto: basta que conhesa, os Filozofos da-Grecia. Toda a Filozofia Grega se-dividio ao principio, em duas setas; de que nacéram. todas as outras: estas duas sam a Jonica, e Italica. A Jonica fundou Thales Milesio, um dos-sete Sabios da-Grecia; o qual, como diz Diogenes Laercio, naceo 640. anos antes de Cristo. Foi grande Astronomo, Geometra, Filozofo, e escreveo muito de Fizica. Teve varios dicipulos, que se-ensináram sucesivamente: Anaximandro, Anaximenes, Anaxagoras, Archelao, e Socrates. Este Socrates foi aquele grande omem, que encheo de admirasam a Antiguidade: e alguns dos-nosos SS. PP. se-empregáram, na sua defeza. Socrates teve muitos dicipulos, que fundáram escolas separadas. Aristipo fundou a escola Cirenaica, Phedo a Eliaca, Euclides a Megarica, Antistenes a Cinica: da-qual naceo a Estoica, que foi famoza: porque Menedemo ultimo profesor da-Cinica, foi mestre de Zenam, que fundou a Estoica. Damesma escola de Socrates tendo saido Platam, fundou a Academica. Cadauma destas escolas se-diversificava nas opinioens: o que é necesario, que o estudante advirta.

Platam foi o mais insigne discipulo, de Socrates: naceo 428. anos antes de Cristo: e foi o primeiro que compreendeo, as trez partes da-Filozofia. Na Fizica seguia os sentimentos, de Eraclito, que se-reputava o melhor Fizico: na Metafizica seguia em tudo, a Pitagoras: e no-Moral, e Politico seguia a doutrina, de Socrates; poisque somente ao Moral, este se-aplicára. A escola de Platam se-dividio em duas, Academica, e Peripatetica. A primeira continuou os dogmas de Platam: donde vem, que Platonicos, e Academicos significam a mesma coiza. Nela sucedeo a Platam, seu sobrinho Speusippo; a este Xenocrates, Polemon, Crantor, e Crates. A Crates sucedeo Archesilao dicipulo de Crantor, e tambem de outro Filozofo chamado Pyrrho: do-qual Pyrrho aprendeo, um novo metodo de filozofar; com o qual fundou a Academia Media, que durou até Carneades. Este ultimo, fazendo nela alguma reforma, instituio a Academia Nova; que durou até Antioco: que foi o ultimo dos-Academicos, e foi mestre de Marco Tullio Cicero. A Peripatetica fundou Aristoteles, dicipulo de Platam. Diz Cicero, que somente se-diversificava da-Platonica, nas vozes; mas nam nos-sentimentos e opinioens. Dava Aristoteles as suas lisoens, no-Liceo: e continuou a escola nos-seus sucesores, até Diodoro; que se-conta por-ultimo Peripatetico: desorteque ja nos tempos de Cicero, esta escola se-achava mui descaida.

A outra seta de Filozofia, a que chamam Italica, foi fundada por-Pitagoras, naquela parte de Italia, a que chamáram Magna Grecia. Este Pitagoras florecia 564. anos antes de Cristo: e despois de longuisimas perigrinasoens, para aprender; se-estableceo em Crotona Cidade de-Calabria: e ensinou com grande aplauzo, a Filozofia. Esta seta foi famozisima, pola frequencia dos-ouvintes, e pola sua durasam. Dela nacèram varias: a Eleatica, que uns atribuem a Xenocrates, outros a Democrito. Anaxarcho ultimo dos-Filozofos Eleaticos, foi mestre de Pyrrho, que fundou a seta Pyrrhonica, ou Sceptica. Tambem da-Eleatica saio a Epicureia, uma das-mais celebres setas da-Antiguidade; e talvez a que durou mais: pois no-segundo seculo da-Igreja, ainda estava em flor. Estes sam os diversos ramos, da-seta Italica. Tambem um seculo despois de Cristo comesou outra, a que chamáram Ecletica, a qual teve bastantes dicipulos. O seu principal instituto era, nam jurar nos-dogmas de nenhuma seta: mas tirar de todas, o que parecia melhor. De alguns destes ainda temos as obras: o ultimo foi Damascio. Esta seta agradou muito aos Padres, dos-primeiros seculos da-Igreja; porque parecia a mais racionavel.

Estas sam as diferentes setas, da-antiga Filozofia. Destas a Academica, Estoica, Pyrrhonica, Epicureia, e Peripatetica, duráram na Grecia com pouca diferensa, até o tempo de Augusto, quero dizer, até Cristo. Nos-ultimos dois seculos da-Republica Romana achamos, que os Romanos comesáram a estudar, a Filozofia. Nam que eles fundasem setas, como os Gregos; mas iam estudar à Grecia: ou serviam-se em Roma dos-Gregos, que vinham à Italia: e seguiam quem uma, quem outra seta de Filozofia Grega. Pola maior parte eram Academicos, e Estoicos: alguns foram Epicureos: rarisimo Peripatetico. Os livros de Aristoteles, que ele deixára a Theophrasto seu discipulo, este os-deixou a Neleo: os erdeiros do-qual, para os-roubar à curiozidade d’El-Rei de Pergamo, de quem eram suditos; o qual procurava livros, para a sua Biblioteca; os-enterráram: d’onde foram cazualmente tirados, polos seus decendentes; que os-vendèram a Apellico Ateniez, quazi todos comidos da-umidade. Onde, para se-copiarem, foi necesario encher, todos os vazios da-corrusam: com o que sensivelmente se-alteráram, as opinioens. Despois da-morte de Apellico, Silla Ditador Romano os-transportou de Atenas, para Roma; e se-entregáram a Tirañio, para os-emendar, e dispor em melhor ordem. E tendo-se feito muitas copias, sem as conferir com os originais; foi pior o suceso em Roma, que nam tinha sido em Atenas. Comesou entam a ser conhecido melhor, este Filozofo: e os Romanos comesáram a fazer uzo, principalmente das-suas doutrinas politicas. Entre os Filozofos Romanos singularizou-se Cicero; ouveram tambem alguns outros, de que ainda temos as obras. Até que finalmente, com a ruina do-Imperio no-Ocidente, se-arruinou tambem, a noticia das-Ciencias.

Nos-principios do-VIII. seculo de Cristo, os Principes Arabes dicipulos de Mahomet, os quais uzurpáram grande parte da-Africa, Azia, Grecia, Espanha, e Sizilia; nas invazoens que fizeram, nas Cidades da-Grecia, entre os roubos com que se-recolhèram, foram alguns dos-livros dos-seus autores. E agradando-se destes estudos, fizeram em modo, que Almanon Califfo ou Imperador Saraceno, no-ano 820. mandou pedir ao Imperador de Constantinopoli, aonde as Ciencias ainda se-conservavam; os melhores livros Gregos; os quais se-mandáram traduzir em Arabio. Nam sendo o genio dos-Arabes inclinado a Poetas, Istoricos, e Oradores; somente se-aplicáram aos Filozofos, e Matematicos: e entre eles escolhèram trez, que foram, Aristoteles, Ipocrates, e Galeno. Aplicáram-se a estas Ciencias; e principalmente à Chimica, Magia, Geometria, Algebra, e Fizica. Fundáram Universidades em Tuniz, Tripoli, Fez, Marrocos, e algumas partes da-Espanha: d’onde saîram alguns omens insignes, para aquele tempo: Entre os quais se-singularizou Averroes; o qual na Universidade de Cordova, fez o seu grande comento, sobre Aristoteles, no-meio do-seculo duodecimo.

Neste meio tempo a fama de Aristoteles, que estava tam bem establecida, entre os Arabes; comesou a divulgar-se, entre os Cristaons. A comunicasam que os Napolitanos tinham, com os Sizilianos, lhe-deu noticia dos-estudos, establecidos entre os Arabes da-Sizilia. Tambem a vizinhansa da-Fransa com a Espanha, abrio a comunicasam aos estudos: e se-cre, que por-este meio pasáram a Fransa, os livros de Aristoteles; e intráram na Universidade de Pariz. Ja lá sabiam, que avia Dialetica, e a-estudavam: mas da-Fizica Aristotelica, nada sabiam. Finalmente ou para poderem disputar com os Judeos, e Maometanos, como fundadamente suspeita Monsieur de Fleury; ou por-outra razam que nam se-sabe; os Teologos recebèram benignamente Aristoteles, e pouco a pouco o-introduzîram, na Teologia. Os primeiros foram introduzindo as Dialeticas, como Abellardo, Roberto Pullo, Pedro Poitiers, e alguns outros no-duodecimo seculo. Daqui pasáram a introduzir, as doutrinas Fizicas: o que sucedeo, no-seculo decimoterceiro. Os primeiros foram Alberto Magno, Alexandre de Ales: despois Tomaz de Aquino, e alguns mais. Despois de S. Tomaz veio Escoto, que fundou escola separada: e despois deste, seu dicipulo Okam tambem Franciscano, fundador da-seta dos-Nominais. Demodoque despois do-seculo XIV. a Filozofia se-dividia em trez setas, Tomistas, Escotistas, e Okamistas: as quais com alguns mudansas duráram, atè o Concilio de Trento, celebrado no-meio do-seculo XVI.

Nam falo no-metodo de Raimundo Lullo de Maiorca, porque pola sua oscuridade, nam teve sequazes: excetuando alguns Maiorquinos, mais loucos que ele. No-ano 1565. Bernardo Telesio de Cosenza em Italia, publicou a sua Filozofia, que teve alguns sequazes. Pouco despois Jordano Bruno Dominicano, publicou muitos livros, em que, entre algumas coizas boas, dise muita estravagancia; sobre o Universo infinito, e diversos mundos. Despois deste, Tomaz Campanela, tambem Dominicano Calabrez, publicou algumas obras de Filozofia, quazi segundo os principios do-Telesio.

Neste mesmo seculo XVI. do-meio para diante, quero dizer, polos tempos do-Concilio de Trento, comesou a establecer-se o sistema Fizico-celeste, de Nicolao Copernico: que resucitando a opiniam de Filolao, e Eraclides Pontico, sobre o movimento da-terra arredor do-Sol; teve muitos sequazes, que asentáram, ser um sistema preferivel aos outros. No-fim do-seculo XVI. saio à luz o sistema de Tico Brahe, que tambem teve sequazes. Mas ninguem mais deo tanta luz à Fizica, quanta Francisco Bacon de Verulamio Chanceler mór de Inglaterra: o qual no-fim do-mesmo seculo, e principio do-seguinte, apontou o verdadeiro metodo de adiantar a Fizica, em belisimas obras que a este intento nos-deixou; principalmente de Augmentis Scientiarum, e de Novo Organo. Eu considero as especulasoens deste grande omem, como a mais famoza epoca, da-verdadeira Filozofia: porque observo de entam para diante, uma total mudansa, e adiantamento sempre para o melhor. morreo polos anos 1636. de anos 66.

No-mesmo tempo de Bacon, no fim do-XVI. e principios do-XVII. floreceo o insigne Galileo Galilei Florentino; que seguindo os ditames de Bacon, uzou da-Matematica, para explicar a Fizica: e aumentou sensivelmente a Mecanica: a qual desde Archimedes até o seu tempo, quazi nada se-tinha adiantado. Ele descobrio muitas leis, do-movimento dos-corpos, tanto solidos, como fluidos; e tambem da-Gravidade, e da-Luz, e do-Som &c. desorteque pode-se dizer, que ele foi o que comesou a servir-se, da-boa Fizica. morreo em 1642. de anos 78. Comesado o seculo XVII. florecèram Descartes, e Gazendo: que dando um paso mais adiante, descobriram mais terra, e comesáram a abrir os olhos ao mundo. Ja se-sabe as disputas, que os Peripateticos tiveram, com estes novos Filozofos; e as injurias, que contra eles vomitáram. Desde o fim do-Concilio de Trento, em que os melhores Teologos tinham aberto os olhos, sobre a Teologia; e comesado a intender, que nam se-devia misturar com ela, a Peripatetica; tinha esta descaido muito: mas nam tanto, que muitos Regulares nam intendesem, que devia ser a mimoza entre as mais. De que nacia, que com todo o empenho a-defendiam: porque, a falar verdade, nam intendiam mais, nem tinham outras noticias. Mas despois que se-viram atacados, por-estes modernos Filozofos; os quais nos-principios deste seculo conspiráram todos, para abrir os olhos, ao mundo Literario; nam querendo os velhos, perder as suas conquistas, fizeram um espalhafato orrendo: e o menos que diseram foi, que se-tinha levantado uma nova perseguisam, na Igreja Catolica; com a publicasam destas Filozofias. Mas como isto eram balas de lan, e palavras sem fundamento, nem verosimilidade; nam faziam brecha. Polo contrario os Modernos despediam, constantes experiencias, que eram balas eficazes. Em modo tal que a dita Filozofia foi-se continuando, e com forsa: e só os Regulares, e nem todos, seguiam a Peripatetica.

A introdusam das-Academias Experimentais, deu novo esforso, a esta Filozofia. Despois da-morte de Cartezio no-ano 1640., e a de Gazendo no-de 1655.; tinham comesado as ditas Filozofias, a aquistar credito: mas ainda com algum medo; pois nam tinham toda a necesaria protesám, que tiveram pouco despois. Nam foi senam despois que se-abrio, a Academia de Londres no-ano 1662. ou 63. e a de Pariz no-1666., que as Ciencias naturais se-continuáram, com empenho: asistindo-lhe os Reis, com o dinheiro e protesám. Dilatou-se aindamais este costume, porque o Imperador Leopoldo no-ano 1670. movido do-bom suceso das-duas Academias; fundou tambem, ou, melhor direi, protegeo uma Academia ja comesada, com o nome de Academia dos-Curiozos da-Natureza. El-Rei de Prusia em 1700. fundou tambem a sua Academia experimental. Os nosos Italianos fizeram o mesmo. O Conde de Marsilli em 1712. instituio uma em Bolonha, que tambem é famoza: em Padua e outras partes abrîram-se outras. Em 1725. a Imperatriz Catarina abrio em S.Petroburgo em Moscovia, outra famoza: deixando por-agora outras muitas, que se-abriram em diferentes partes da-Europa.

Esta dilatasam de estudos naturais chamou a si, todos os melhores Filozofos, principalmente os Seculares. Tambem alguns Regulares, nos-fins do-pasado seculo, comesáram a deixar, as sutilezas de Aristoteles. Porem neste XVIII. seculo infinitos se-tem declarado, contra o antigo estilo; e ensinam publicamente, a Filozofia moderna. Em Italia, e ainda em Roma, por-toda a Fransa, Alemanha &c. se-tem divulgado este metodo: e os mesmos Regulares, que ao principio o-tinham proibido, nam tem oje dificuldade alguma, em defendèlo. Verdade é, que algumas Religioens anda o-nam-aprováram: mas tambem é certo, que muitos leitores delas sam declaradamente, Filozofos modernos. Os doutisimos Dominicanos, e Jezuitas, que pareciam os mais empenhados, polo antigo metodo; comesáram a admetir, a nova Filozofia: nam só em Fransa, mas ainda em Italia. E eu sei de certo, que em algumas partes de Italia os Jezuitas, vendo que nas suas escolas e colegios, faltavam consideravelmente os estudantes, que concorriam a outros estudos publicos; se-vîram obrigados, a reformar o antigo metodo, e introduzir os estudos novos. Tam persuadidos estam todos oje, que o antigo metodo nam serve, para coiza alguma.

Esta, em poucas palavras, é a serie da-Filozofia: na qual se-compreende mui bem, com quam pouca razam estes mestres de Portugal, condenem uma coiza; que está tam bem introduzida: e nam entre Erejes, como eles dizem, mas entre Catolicos mui pios, e doutos. E tambem se-conhece, com quam pouca razam queiram persuadir-nos, que os SS. PP. aprováram, a doutrina de Aristoteles: pois nam sendo ela, ou polo menos esta que pasa, com o nome de Aristoteles; conhecida antes do-seculo XIII. é bem claro, que os PP. nam podiam aprovar uma coiza, que nam conheciam, nem intendiam, que naceria no-mundo. Seguro a V. P. que se estes mestres, que oje exaltam tanto Aristoteles, conhecesem os PP. nam polo sobrescrito, mas por-dentro; e tivesem bem examinado as suas obras; ficariam envergonhados, da-sua grande ignorancia, e talvez temeridade: pois veriam nos-escritos dos-Padres, que nada mais encomendam, que deitar fóra das-escolas Aristoteles: evitar todos os sofismas da-Dialetica: e propor as suas razoens, com a maior clareza posivel. Aprovavam na verdade, a boa Dialetica; mas despida totalmente de arengas. E nesta paz se-continuou, até o undecimo seculo: no qual, como asima digo, introduzîram nas escolas, estas embrulhadas. Desorteque a examinar bem o negocio, Aristoteles é mui moderno, nas escolas Catolicas: e ainda nesas nam durou, senam até o Concilio de Trento: pois de entam para cá pouco a pouco se-abrîram os olhos ao mundo: e oje todos os-tem mui bem abertos.

Intendido isto muito bem, com o que se-poupam mil respostas, e embarasos a cada momento; deve o estudante pasar, para a Filozofia. Mas é necesario, que primeiro intenda, que coiza ela é; para nam se-embrulhar, com as costumadas confuzoens da-Escola. Eu suponho que a Filozofia é, Conhecer as coisas polas suas cauzas: ou conhecer, a verdadeira cauza das-coizas. Esta definisam recebem os mesmos Peripateticos, aindaque eles a-explicam, com palavras mais oscuras: mas chamem-lhe como quizerem, vem a significar o mesmo. v. g. Saber qual é a verdadeira cauza, que faz subir a agua na siringa, é Filozofia: conhecer a verdadeira cauza, porque a polvora aceza em uma mina, despedasa um grande penhasco, é Filozofia: outras coizas a esta semelhantes, em que pode intrar, a verdadeira noticia das-cauzas das-coizas, sam Filozofia.

Mas como no-conhecer as cauzas das-coizas, principalmente naturais, pode aver ingano; e muitas vezes nos-inganemos, tomando uma coiza por-outra: alem diso como nos-mesmos discursos, com que nos-querem persuadir alguma coiza, suceda frequentemente ingano, cuberto com aparencia de verosimilidade; ao que chamam Sofisma, ou Paralogismo: daqui vem, que cuidáram os omens, em fugir estes inganos, e descobrir o vicio do-discurso, paraque nam caisemos nele. Isto primeiro comesou, sem arte alguma: mas cazualmente um omem descobrio um erro, outro descobrio outro, e asim os mais. Alguns dos-quais, fazendo uma colesam destas observasoens, fizeram tratados, em que se-pudese aprender, o modo de nam se-inganar. A isto chamáram Logica ou Dialectica: que é muito mais antiga que Aristoteles: mas ele foi o que a-compilou com melhor metodo, a respeito do-seu tempo: aindaque muito imperfeita, se olhamos para o noso. Quem fose o autor desta colesam, notará o estudante, quando ler a istoria da-Filozofia. Os Antigos dizem, que foi Zenam Eleates, que a-ensinou a Socrates: este a Platam: do-qual a recebeo Aristoteles. Mas esta Logica Socratica, era por-outro estilo, e convencia com proguntas. Platam era um pouco mais dogmatico. Comumente se-cre, que Speusippo, e Aristoteles, ambos dicipulos de Platam, guiados polos discursos dele, fizesem no-mesmo tempo, e cada um parasi, esta nova colesam, e acrecentasem muita coiza sua: os Estoicos com o tempo, acrecentáram muitas mais. Seja como for, o cazo é, que os Antigos reconhecèram, que para conhecer, e discorrer sem ingano, sobre as cauzas de todas as-coizas; é necesario observar algumas regras, a que quizeram chamar, Logica. Desorteque esta chamada Logica, nenhuma outra coiza é mais, que um metodo e regra, que nos-ensina a julgar bem, e discorrer acertadamente. Asimque establecido este importante ponto, fica claro, que se-deve abrasar aquela Logica, que conduz a este fim: e fugir qualquer outra, que nos-desvia dele.

Tendo percebido este ponto, nam pode aver duvida, sobre o cazo que devemos fazer, desta chamada Logica dos-Escolasticos: basta examinar, se o que se-ensina com este nome, é util, ou prejudicial, para julgar, e discorrer bem. Porque se achamos, que nam conduz; saie por-legitima consequencia, que se-deve deixar, e estudar outra coiza mais util. Ora eu creio, que sem grande trabalho se-conhece, que esta Logica vulgar, nam dá nenhuma utilidade, antes cauza suma confuzam. Os Proemiais sam a coiza mais inutil do-mundo. Com a simplez explicasam, do-que é Logica; sabe um estudante quanto basta, para intrar nela, e ser um grande Logico: toda a outra noticia util se-pode aprender, em uma advertencia, a que chamam notando. Que a Logica tenha por-objeto, os atos do-intendimento, ou as coizas, ou os modos de saber; nada serve para discorrer bem: o que importa é, ter boas regras, e sabèlas uzar bem.

Aqueles Universais, e Sinais sam coizas indignas de se-lerem: o menos que neles acho, é a inutilidade: o pior é o metodo: parecem a mesma confuzam: e de talsorte embrulham a mente, de um pobre principiante, que nam é facil ao despois, intender bem coiza alguma. Em lugar de facilitarem a um rapaz, a inteligencia das-coizas; o-confundem com uma quantidade de sofismas, e sutilezas, tam fóra de propozito; que eu nam sei, como os mestres nam fazem escrupulo, de perderem tam inutilmente o tempo. Acrecento a isto, a inutilidade: pois para nenhuma parte das-Ciencias serve aquilo. O mais que se-tira dos-Sinais é saber, que as vozes servem, para declarar as ideias da-mente, e os afetos da-alma: e que mediante as vozes comunicamos aos outros, o que intendemos, e queremos. Que as vozes nam excitam nos-que ouvem, as ideias de quem as-profere, por-virtude alguma natural, que tenham para iso: mas porque asim o-determináram, os omens de uma Nasam. Sendo certo que as vozes, que em Portugal significam uma coiza, em outro Reino significam coiza diferente, ou nada significam. Esta é toda a noticia util, que se-tira dos-Sinais: e isto é coiza que se-aprende, em um quarto de ora: tudo o mais que dizem dos-Sinais, sam arengas ridiculas, que espremidas na mam, nam deitam uma gota de doutrina. V.P. que perdeo bastante tempo, com estas arengas; fasa-me a merce de me-mostrar, alguma questam util, entre tantas que no-tal tratado se-incluem: estou certo que, uzando da-sua costumada ingenuidade, me-dirá, que nam acha alguma. De que fica bem claro, que o tal tratado, é somente divertimento de omens ociozos. Nem me-faz forsa que o P. * * * me-disèse um dia, que os Sinais eram o Apex Philosophiæ: e o seu P. Colegial * * * me-disèse mui sezudamente, que os Sinais tinham seu uzo na Teologia: poisque na Trindade se-falava, em priori signo &c. nem um, nem outro sabia o que dizia, como as suas respostas mostram: e, aindaque fosem leitores de Filozofia, tinham necesidade, de a-estudar outra vez.

Quanto aos Universais da-Escola, comque se-gasta tanto tempo, nam sam melhores que os Sinais: todos sam talhados, pola mesma medida. Pase V.P. ligeiramente com os olhos, por-aqueles tratados; e me-dirá, o que acha em tantos cadernos. Ali disputa-se mui largamente, se se-dá Universal a parte rei, como eles lhe-chamam: se a Unidade de precizam, e Aptidam sejam da-esencia do-Universal: e outras coizas destas, que quando eu as-considero, fico persuadido; que os que falam nisto, nam intendem iso mesmo que proferem. Que bulha nam se-faz, sobre a divizam em cinco especies! que arengas, sobre cada especie em particular! que confuzoens, sobre as precizoens! Ora eu tomára que me-disesem, o que se-tira de todo aquele negocio; e que noticia util para discorrer se-colhe, de todas aquelas confuzoens? Achei muitos, que, despois de alguns anos de Filozofia, e despois de terem defendido concluzoens publicas, e com grande aceitasam; nam sabiam, por-qual razam se-introduzîram os Universais, na Logica. O que digo dos-Universais, deve-se aplicar aos Predicamentos; que uns introduzem na Logica, outros na Metafizica: e sobre os quais se-disputa, com igual fervor.

Os omens mais advertidos entre os Peripateticos, reconhecem a verdade do-que digo, e sinceramente confesam, que se-deviam cortar, estas longuisimas disputas, que para nada servem. Peripatetico, e bem Peripatetico, era o Suares Granatense, o Barreto Portuguez &c. contudo sam do-meu parecer: e o tal Barreto acrecenta[82], que o aumento que se-deo aos Sinais, é vicio dos-Portuguezes. Mas tornando aos Universais, de que falavamos, a unica razam que eles alegam, para introduzirem esta longa arenga de Universais, e Predicamentos; é, porque as propozisoens de que se-fazem os silogismos, constam de predicados universais. Digo pois, se aquilo nam tem mais serventia, que mostrar, que um nome pode ser universal, ou particular &c. de que serve aquela arenga sempiterna, que nam conduz para iso? Certamente que, seguindo os seus mesmos principios, tudo aquilo se podia reduzir, a meia folha de papel.

Nem cuide V. P. que eu reprovo, toda a sorte de exame, das-propozisoens universais, e particulares: conheso, que iso pode ter seu uzo, e tem utilidade: mas tambem conheso, que se-deve tratar de outra maneira, como em seu lugar direi. Somente condeno muito, o que dizem os Peripateticos; porque nem serve para o intento, que eles propoem; nem para outro algum: confunde as especies, e intendimento dos-rapazes: e é o mesmo a que nos chamamos, perder tempo sem interese algum, e sem saber por-qual razam. Mas prosigamos o curso, da-Logica Peripatetica.

Aos Predicamentos, e Sinais, segue-se o enfadonho tratado de Enunciatione, ou Propozisam. Aqui fazem eles infinitas disputas, tam fóra de propozito; que eu fico pasmado. Confundem a propozisam vocal com a mental, ou ato do-intendimento: ora disputam de uma, ora de outra: desorteque nam se-pode saber, o que eles querem explicar. Sendo aquele um tratado, que se-deve explicar mui claramente, para intender os seguintes; eles o-fazem com tal negligencia, e confuzam, como quem nam cuidáse neste fim. O melhor que eu acho é, que em vez de proporem as coizas, em que todos convem; disputam tudo o que propoem: e a cada propozisam acrecentam, uma longa cadeia de argumentos; e às vezes tam embrulhados, que um omem adiantado teria trabalho, em lhe-responder. E como á-de o principiante, formar conceito das-coizas, e executar os ditames que le; se ele nada acha, em que todos convenham: mas em cada propozisam acha, quem o-contradiga? Isto è o mesmo, que se um carpinteiro tomáse um aprendiz, e em lugar de lhe-ensinar, como se-á-de servir dos-instrumentos; fizese longuisimos discursos, sobre a diversidade de instrumentos de Carpinteiro: contando-lhe miudamente, que a alguns nam agradam, aqueles instrumentos: que outros escrevem, que se-deviam fabricar de outra maneira: e todo o tempo pasáse com isto.

Este é o grande defeito que eu acho, nestas Logicas: nam buscarem aquelas coizas, em que todos convem, para as-explicar aos estudantes. nam acharem um metodo de ensinar Logica, comesando por-documentos claros, que todos intendam: fugindo todo o genero de disputas, que nam servem para principiantes. Pois este devia ser, todo o seu cuidado: e quem nam pratica este metodo, nam quer ensinar Logica. Isto conhecerá V. P. melhor, olhando para as longas disputas, que eles aqui introduzem, sobre os atos verdadeiros e falsos. Nam é crivel, a confuzam com que aquilo se-trata. nam é menos admiravel, a quantidade de coizas falsas, que ali se-supoem, como se fosem demonstrasoens matematicas. Disputa-se com fervor, se o mesmo ato do-intendimento, posa pasar de verdadeiro, para falso: e outras coizas destas. Isto supoem manifestamente, que o dito ato dura algum tempo, na alma; porque se nam duráse, a questam serîa de nada. Mas isto que eles supoem, é manifestamente falso. Basta olhar, para as muitas distrasoens involuntarias, que um omem tem; para conhecer, que a nosa alma está em continuo movimento de conhecimentos: e que devemos dizer, que ela nam pára em algum juizo, ou ato. Ainda quando nos-parece, que sempre cuidamos na mesma coiza, creio eu que nam perziste, o mesmo ato: mas que a alma muitas, e muitas vezes considera, a mesma coiza: que é o mesmo que dizer, com atos diferentes. A razam disto nam me-parece oscura: pois vejo a violencia, que é necesario fazer ao intendimento, para o-fixar no-mesmo objeto: pois um minuto que nos-descuidamos, ja estamos em outro objeto. E ainda quando nos-parece, que consideramos um só, v. g. um painel; é certo que fazemos muitos atos: pois nam vemos só um ponto, mas diferentes pontos, e partes do-mesmo todo: o que se-faz, com diversos atos. Nam é crivel, com quanta velocidade a alma conhece, e pasa de um objeto para outro. Fazemos todos os instantes mil asoens, que nam advertimos: e contudo é certo, que a alma as-conhece todas: mas falas com tal velocidade, que parece as-nam-conhece. Deste genero é o continuo movimento de pestanas, que nós fazemos; e a alma, por-obediencia da-qual se-faz, o-conhece: e contudo nenhum de nós adverte tal coiza. O que mostra bem, quam veloz é a nosa alma, em pasar de um conhecimento para outro. E sendo isto tam claro, os-Peripateticos, sem fazerem cazo disto, introduzem as suas longas disertasoens, fundadas sobre um suposto falso. Demos-lhe, que seja materia duvidoza; sempre é coiza ridicula, propor como coiza certa um fundamento, que tem tantas aparencias de falsidade: e ocupar o tempo com isto, devendo ensinar outras coizas.

Mas, para abreviar este exame, pase V. P. comigo, ao tratado de Priori resolutione. Na primeira parte se-disputa eternamente, sobre os termos, e diversos modos, com que significam as coizas. Isto explicado bem com clareza, e brevidade, podia servir ao estudante de alguma coiza: mas iso é o que eles nam fazem: e todo o tempo pasam em disputar, se o verbo Est pode ser termo; e outras galantarias destas. O que dizem das-Propozisoens, da-sua Conversam, das-Modais, é tam embrulhado, e tam inutil; que nam sei, que pior coiza se-posa dizer. Seguro a V. P. que ja achei Peripateticos, que ingenuamente me-confesáram, que a maior parte daquelas coizas eram inutis.

Mas sem grande trabalho, cuido que mostrarei a V. P. que tudo aquilo, que nestas escolas se-disputa, se-deve totalmente pór de parte. apontarei uma unica razam, que compreende o Priori, e Posteriori, da-Logica vulgar. Examine V. P. com toda a atensam, quanto se-disputa naquelas duas partes da-Logica, e fasa-me a merce de notar mui distintamente, algumas coizas. 1.a Se o que ali se-disputa, é materia inteligivel. Cuido, que a resposta será clara, se olhar-mos para o que sucede nos-estudantes: pois é certo, que despois de muitas, e muitas explicasoens, comumente nam intendem, o que ali se-diz. Apelo, para o que cadaum experimenta em si, e para o que os mestres experimentam, nos-dicipulos. Sei polo contrario, que os meninos intendem muito bem as coizas, se lhas-explicam bem: e sabem dar razam do-seu dito. v.g. se diserem a um rapaz: Aquele ramo que ves naquela porta, é sinal que ali se-vende vinho: porque em todas as partes em que se-vende vinho, se-costuma pòr aquele sinal; porque asim determináram, os nosos antigos: estou certo, que á-de intender facilmente, o que lhe-dizem. Ora fale-lhe V. P. por-estas palavras: Aquele ramo é sinal ex instituto do-vinho: que se-constitue na razam de sinal, por-um respeito de dependencia do-ato da-vontade, que o-deputou para significar vinho: polo que se-distingue do-sinal natural, que se-constitue, por-um respeito de independencia: Despois de toda esta arenga filozofia, o tal rapaz intenderá muito menos, o que lhe-dizem, doque se lhe-falasem em Caldeo. De que vem, que ainda as coizas que se-deviam dizer, se-dizem de um modo tal, que nam se-intendem. Isto é quanto ao modo de se-explicar: pasemos à materia.

A 2.a coiza que V. P. deve notar é, a serventia que tem aquelas regras, para discorrer sem ingano, em toda a materia. Traga V. P. à memoria, tudo o que tem estudado de Priori, e Posteriori, e tenha o sofrimento de considerar; se lhe-servem, ou nam, para intender, e discorrer bem em qualquer materia: ou para provar alguma coiza, que lhe-seja necesaria; nam só nos-atos publicos quando argumenta, ou defende; mas ainda no-seu bofete, quando compoem em alguma materia: ou ainda no-discurso familiar. Tenho tantas provas, da-sua candura de animo, que nam tenho receio que diga, ter experimentado utilidade. Mas eu nam quero por-agora, um juiz tam alumiado como V.P. contento-me que me-respondam os mesmos, que perdem os anos com estas arengas. Eu os-faso juizes nesta disputa: e lhe-deixo considerar, se, quando eles provam o que lhe-negam, ou discorrem familiarmente; o-fazem porque se-lembram das-regras; ou se o-fazem, porque asim se-costuma discorrer no-mundo: e a lisam que tem tido, lhe-suministra os argumentos e meios termos: e a natural penetrasam que cadaum tem, lhe-mostra, com a maior promtidam, a conexam das-partes? O que eu poso dizer neste particular é, que muitos Escolasticos, como ja apontei, me-diseram, que era inutil toda aquela machina de regras: e li alguns, damesma opiniam. O P. Arriaga no-prologo da-sua Filozofia diz claramente, que nam ditou muitas questoens da-fórma Silogistica, porque lhe-parecèram escuzadas: e que avendo vinte anos que era mestre; nunca vîra, que pesoa alguma se-servise da-ponte dos-Asnos, para argumentar, ou responder. E quanto a esta parte da-Ponte dos-asnos, achará V. P. muitos, que dizem ser inutil.

Mas eu paso adiante com o discurso, e creio, que nem menos me-mostrarám omem, que se-sirva das-Figuras, ou de alguma das-outras regras; quando quer provar alguma coiza seria. Conheso, que os que argumentam nesta materia, para mostrarem que a-tem estudado; ou os que nam querem argumentar com razoens, mas com palavrinhas, àmaneira dos-sofistas; poderám fazer algum uzo delas: o que digo é, que quando um omem quer provar, o que lhe-negam, nunca se-serve, de tais arengas. Se ele tem ingenho, e doutrina, mais de presa se-lhe-oferece o meio termo, e modo de o-dizer; doque a regra, que o-ensina. Se nam tem ingenho, estou certo que nem regras, nem figuras, nem modos, nem coiza alguma lhe-ocorrerá; com que posa discorrer fundadamente. Nunca me-sucedeo que, discorrendo comigo, me-viese à imaginasam, servir-me do-silogismo. nunca vi tratar negocio algum grave, com o meio da-Dialetica: ainda sendo as partes, pesoas de toda a penetrasam; e tendo perdido muito tempo, com a Dialetica. Isto da-Logica é o mesmo, que a Retorica: os ignorantes das-regras, se tem ingenho e alguma lisam, oram e provam melhor o que dizem, doque os Logicos e Oradores da-Escola. O omem ignorante das-regras, nam perde tempo com palavrinhas, mas vai direito à razam, e busca aquelas que conduzem, ao seu intento. Ora é sem duvida, que as razoens, e nam as palavras, sam as que persuadem, e provam o que se-quer. Poderám as palavras, e modo com que se-diz, dar mais luz às razoens: mas palavras sem razoens nada provam. E esta é a razam, porque os Logicos finos discorrem pior, que os que nam sam Logicos. E esta mesma razam me-dá fundamento para dizer, que é melhor que nam se-fale, em tais regras.

Acho ainda outra razam, e cuido ser mais forte, para nam seguir este metodo do-silogismo; vem aser, que o silogismo nam serve em modo algum, de ajudar a razam, para que aumente os seus conhecimentos, e neles discorra bem. Quando se-á-de persuadir, e discorrer bem, o primeiro e principal ponto está, em descobrir as provas: o segundo, em dispolas com tal ordem, que se-conhesa clara e facilmente, a conexam e forsa delas: o terceiro, em conhecer claramente, a conexam de cada parte da-dedusam: o quarto, em tirar uma boa concluzam do-todo. Estes diferentes graos se-conhecem muito bem, em qualquer demonstrasam matematica. Uma coiza é, perceber a conexam de cada parte, ao mesmo tempo que um mestre vai explicando a demonstrasam: outra coiza diferente, conhecer a dependencia, que a concluzam tem, de todas as partes da-demonstrasam: terceira coiza muito diferente, conhecer por-simesmo clara e distintamente, uma demonstrasam: e finalmente uma quarta coiza, totalmente diferente das-trez, ter achado as provas, de que se-compoem a demonstrasam. O que suposto, o silogismo nam faz mais, que mostrar a conexam das-partes, sem ensinar a buscar as provas: onde fica claro, que nam é de grande socorro à razam. Muito mais, porque a alma pode conhecer, e conhece, muito mais facilmente por-simesmo, a conexam das-partes; doque por-nenhum silogismo. Quantos omens nam vemos todos os dias, que intendem mui bem, toda a forsa de uma razam; a falacia, e eficacia de um discurso comprido; e discorrem mui acertadamente; sem terem ouvido falar em silogismos? E nam digo somente, entre os omens de boa educasam; mas quem quizer considerar, a maior parte da Africa, e America; achará omens que discorrem tam sutilmente, como os nosos Europeos; sem saberem reduzir um argumento à fórma. Achei negros vindos de la, tam maliciozos, e fingidos; que nam se-pode dizer mais. Ja eu dise a V. P. em outra parte, que me-tem feito muitas vezes mais forsa, as razoens de muitos rusticos, doque de alguns Logicos, e Oradores de profisam.

Ainda daqueles mesmos que estudam Logica, rarisimos sam que cheguem a conhecer, por-que razam trez propozisoens, combinadas de um certo modo, produzam uma conduzam justa: e que saibam com toda a individuasam, por-que razam de mais de 60. combinasoens diferentes, só umas 14. sejam boas. A maior parte destes estudantes contentam-se, com uma Dialetica tradicional: e nada mais fazem doque crer, o que lhe-dise seu mestre, que certos Modos reduzidos a certas Figuras, sam bons; outros, sam maos: sem chegarem a certificar-se, que na verdade asim é. Ora daqui saie por-legitima consequencia, que, se é verdade o que eles dizem, que o silogismo é o verdadeiro e unico instrumento da-razam, com o qual é que se-pode chegar, ao conhecimento das-coizas; antes de Aristoteles, ninguem raciocinou bem, nem teve conhecimento certo; e despois dele, entre vintemil omens nam se-achará um, que goze esa fortuna.

Mas eu creio que serîa louco, quem tiráse tal consequencia: observando-se claramente, que os Omens intendem as coizas bem, sem o dito socorro. Tomára que me-disesem, com que outra Dialetica conheceo Aristoteles, que muitos daqueles Modos eram certos, e outros falazes; senam com a penetrasam da-sua mente, que reconheceo a conveniencia que se-dava, entre umas ideias, e disconveniencia entre outras? A nosa mente tem de sua natureza a facilidade, de conhecer a conexam destas ideias, a polas em boa ordem, e tirar delas concluzoens justas; sem que para isto a-preparem, com artificio algum. Dizei a uma molher rustica, convalecente de uma grande infermidade, que asopra um nordeste agudo, e que o Ceo ameasa grande chuva: ela facilmente perceberá, que nam é tempo para sair de caza. O seu juizo une com toda a facilidade, estas diferentes ideias; Nordeste, Nuvens, Chuva, Umidade, Frio, Recaida, Perigo de morte: e isto em um abrir de olhos; sem ter necesidade daquela fórma artificial, e embarasada de quinze ou vinte silogismos. Ora é certo, que o silogismo nam suministra esta faculdade de perceber, e ordenar as ideias; nem suministra as ideias para iso: e como destas duas coizas dependa tudo; fica bem claro, que nam serve para discorrer bem.

Se V. P. observa o que dizem os doidos, achará, que eles nam se-inganam nas consequencias, mas nos-principios: e por-iso discorrem mal. Unîram-se por-alguma cauza, no-intendimento de um doido, duas ideias; v. g. a que tem de si, e a que tem de um Rei: postas as quais, discorre o omem mui bem: quer Magestade: quer gentilomens, e treno de soberano &c. Estas consequencias decem mui bem, daquele principio: todo o mal está, nas ideias que ele abrasou, e unio mal. Damesma sorte os que nam sam doidos: nam consiste o ingano nas consequencias, porque a alma com toda a facilidade as-infere, e percebe a conexam delas com os meios: todo o ponto está, nos-principios, e pòr as ideias em boa ordem. Isto nam suministra a Silogistica, e asim nam me-parece que pode servir, para o que se-pertende.

A nosa mente naturalmente inclina, para admetir uma propozisam por-verdadeira, em virtude de outra admetida por-tal; ao que chamam inferir: e acha com facilidade, uma terceira ideia, que tenha conexam, com ambas as duas. Progunto agora: ou a mente buscando a ideia terceira, se-certificou da-conexam dela, com as primeiras, ou nam? Se a-procurou asim, fez um conhecimento certo: se a nam-procurou, fez um erro: mas em ambos os cazos fez tudo, sem silogismo. Se o omem nam tivese conhecido, a conveniencia da-terceira ideia, com as duas extremas; nunca pudera afirmar, a consequencia. Ora é certo, que o silogismo em nada contribue a mostrar, e fortificar, a conexam do-meio com os extremos: ele mostra somente, a uniam dos-extremos entre si, em virtude da-conexam com o meio, que ja está conhecida. Em uma palavra, aindaque eu conhesa, a quantidade, e qualidade de duas propozisoens, nam sei se sam verdadeiras: e a Silogistica somente ensina, a inferir; nam a conhecer as premisas: se uma delas for falsa, será falsa a concluzam. Asimque nam é o silogismo o que ensina, a discorrer bem: antes tudo o contrario; conhece mais facilmente o juizo, a conexam de muitas ideias, todas as vezes que estam postas em ordem natural; doque reduzindo-se às embrulhadas do-silogismo: como a experiencia todos os dias ensina.

Acrecento a isto, que sem a boa ordem das-ideias, nam se-pode dar boa ordem, aos silogismos. Ponha V. P. um juizo embrulhado, com mil ideias incoerentes, e verá se pode fazer algum silogismo. Polo contrario, ponha em boa ordem, as ideias de um silogismo; e verá com que facilidade se-intendem sem silogismo, que sempre é mais embarasado. Mais facilmente se-intende a conexam de omem, e vivente, pondo as ideias nesta ordem, natural; omem, animal, vivente: doque nesta; animal, vivente, omem, animal: que é a forma do-silogismo.

Quanto aos que dizem, que o silogismo serve, para descobrir os inganos dos-sofismas, e discursos retoricos; é certo que se-inganam muito. O motivo por-que nos-inganamos nos-tais discursos é, porque ocupados da-beleza daquela metafora, ou pensamento delicado, nam examinamos a conexam das-ideias, de que se-compoem. Explique V. P. o que diz o sofista, separe umas ideias das-outras; e verá que se-acaba o sofisma, sem necesidade de silogismo: porque postas elas na sua ordem natural, intendem-se maravilhozamente, se sam, ou nam coerentes. E que outra coiza fazem os Dialeticos vulgares, quando respondem a algum sofisma? V. P. oporá um sofisma; e respondem-lhe logo: Distinguo minorem, v.g. materialiter, concedo: formaliter, nego. pede V. P. a explicasam dos-tais termos; e eles lha-dam com um discurso longo, ou curto, mas sem genero algum de silogismo. Onde parece-me que sem injuria podemos dizer, que os que defendem a necesidade do-silogismo, como de uma famoza arma contra os sofismas; ou zombam, ou nam intendem o que dizem.

Desorteque examinando bem o silogismo, ele nam dá ideias; que sam os principios dos-nosos conhecimentos: nam dá a boa ordem das-ideias, e da-percesám, porque iso faz a alma por-si só. Serve fomente de pór em certa ordem, as poucas ideias que nós temos: e o maior uzo que tem é, nas disputas dos-Escolasticos; aonde às vezes dá a vitoria. O mais informado nesta arte, confunde com eles, e convence o que nam é tanto: e ainda em tal cazo nam o-reduz ao seu partido: porque nunca se-vio, que os silogismos produzisem ese bom efeito; que aquele que fica convencido, pasáse para a opiniam do-contrario. Conhecerá que nam sabe responder: mas nam receberá tanta luz, que aja pasar para a parte do-seu adversario. Esta é a natureza do-silogismo.

Mas aindaque esta razam seja mui forte, cuido que dos-mesmos principios dos-Escolasticos, se-tira nova razam, para se-excluirem, e vem aser; que as tais regras do-silogismo só servem, para estes silogismos simplezes, feitos de propozisoens que constam de dois termos, e Verbo: v. g. Todo o omem é animal = Pedro é omem = Logo Pedro é animal. Quando porem intramos nos-silogismos, compostos de varias propozisoens, e com mil termos obliquos; é loucura persuadir-se, que neles valham tais regras, tomadas no-rigor da-Logica. Incontram-se mil discursos de evidencia tal, que nenhum omem de juizo, pode duvidar da-sua verdade: vemos cada momento discursos, a que os Logicos chamam Sorites, compostos de dez, e doze propozisoens; tam claros e manifestos; que todos os-devem admetir, ainda aqueles que nunca lèram Logica: que é a maior prova da-verdade, e evidencia: e contudo nam pertencem, a Figura alguma das-ditas. Sei, que alguns destes Logicos antigos se-amofinam, para lhe-descobrir a Figura, e Modo; mas superfluamente: pois aindaque dizem muitas coizas, e apontam outras propozisoens, que expoem as ditas; e nas quais exponentes querem mostrar de alguma maneira, as regras; nam provam o que dizem, nem respondem ao que se-lhe-progunta: ficando sempre em pé a dificuldade, que o dito silogismo, do-modo que se-propoem, nam pertence a Figura alguma: e contudo é verdadeiro, e todos o-intendem com facilidade. E como nos-discursos familiares, nos-discursos oratorios, e quando se-impugnam propozisoens ou concluzoens; somente se-uze destes discursos compostos; fica claro, que em nenhuma destas partes podem ter lugar, as tais Figuras: e que nam só sam inutis, mas imposiveis.

Seguro a V. P. que tendo lido muito, visto, e ouvido muito, e asistido a disputas de toda a considerasam; nam vi ninguem, que se-servise da-dita Fórma. Nunca vi converter Ereje algum com fórma Silogistica, nem Ebreo, ou Ateista. E contudo tenho-me achado em algumas partes, com estas trez sortes de pesoas, e conversado com eles larguisimamente. Eles me-respondèram sempre com razoens ou boas, ou más; mas nunca com fórma Silogistica: e quando alguma vez sucedia, que o discurso caîa em questam de nome; logo me-advertiam, que deixase a Dialetica, e argumentáse com razoens. Nem menos falei com algum, que me-disese, ter-lhe sucedido o contrario: nem acho dogma algum, que necesite da-fórma Silogistica, para se-poder intender, ou explicar. Nam leio que Cristo, ou os Apostolos se-servisem do-silogismo, para persuadir as verdades, que defendiam; e propunham: nem acho que a Igreja Romana, ou os Concilios uzasem desta fórma, para declarar alguma materia controversa: antes tudo o contrario. Vejo que os SS. PP. encomendam muito, que os Dogmas se-próvem com razoens solidas, fugindo de todas as sutilezas da-Dialetica: e que eses mesmos Padres praticam muito bem, o que encomendam. O que mostra bem, a nenhuma necesidade, ou utilidade destes termos da-Escola, na Teologia.

Alem disto acho outra nova razam, para desprezar totalmente estas doutrinas: vem aser, o enfadonho metodo que introduzem, em todo o genero de discursos. Nam á coiza mais dezagradavel e confuza, que um longo discurso Dialetico: e nam á discurso, que, reduzido ao metodo da-Escola, nam seja longuisimo. Um paragrafo de discurso familiar mui breve e claro, reduzido a silogismos, enche boa meia folha de papel. Ouvem-se cem vezes os mesmos termos: porque cada silogismo deve repetir, uma das-propozisoens do-antecedente. E tudo aquilo se-pode dizer, em breves palavras, e com muita clareza, sem nem menos introduzir um silogismo. Polo contrario, quando entra o silogismo, é necesario recorrer, a propozisoens gerais, que nam toam bem, nem provam muito: e tem mais aparencia de declamasam, que de prova filozofica, e discurso sensato.

Esta simplez propozisam: Quero-vos bem, pois vos-tenho obedecido, e nam podeis duvidar, da-sinceridade comque vos-sirvo: porque tendes experiencia constante, deque a nenhum outro o-faso: pode dar de si bastantes silogismos, se ouver quem a-dilate. v. g. Quem faz a outro, tudo o que lhe-pede; dá sinal certo, de lhe-querer bem. Eu tenho-vos feito, quanto me-tendes pedido: logo tenho-vos dado um sinal certo, deque vos-quero bem. O sinal certo do-querer bem, nam pode separar-se, do-mesmo querer bem: logo se eu vos-dou um sinal certo, deque vos-quero bem, obedecendo ao que me-ordenais; é certo, que vos-quero bem. Provo a maior. Quem faz a outro, tudo o que lhe-pede, e o outro nam pode duvidar, da-sinceridade com que lhe-obedece; dá-lhe um sinal certo, de lhe-querer bem. Eu tenho-vos feito quanto me-pedistes, e alem diso vós nam podeis duvidar, da-sinceridade do-afeto, com que vos-sirvo: logo fazendo-vos o que me-pedis, dou-vos um sinal certo, de vos-querer bem. Provo esta maior. Quem tendo uma experiencia constante, deque um sugeito que conhece, a ninguem costuma servir; nam obstante iso tem outra experiencia constante, deque este mesmo sugeito o-serve a ele; recebe um sinal certo, da-sinceridade com que lhe-obedece. Vós tendo constante experiencia, deque eu nam sirvo a ninguem; nam obstante iso tendes outra experiencia constante, que eu sempre vos-sirvo, e obedeso: Logo tendo vós estas duas experiencias, recebeis um sinal certo, da-sinceridade com que vos-obedeso. Nam quero continuar mais, os silogismos da-maior: e nem menos quero continuar, as provas da-primeira menor subsumpta: o que dise basta para provar, que qualquer pequena propozisam composta, pode produzir mil silogismos. Ora é certo, que a primeira propozisam é clara, e todos a-intendem: e aquela longa enfiada de silogismos é oscura, e só a-intendem, os que sabem a fórma Silogistica: e contudo iso nam diz mais, doque dizia a primeira propozisam. Do-que se-conclue, que o dito metodo se-deve desprezar, quando nam fose por-outra razam mais, que por-ser enfadonho, e cauzar molestia sem utilidade.

Dirmeá V. P. que este meu discurso tem por-fim, condenar todo o silogismo: e desterrar do-mundo todos os livros, que se-explicam por-silogismos: e mostrar, que nam só sam inutis, mas prejudiciais: como ja me-respondeo um Dialetico. Mas a isto respondo, que nam é esa a minha intensam. Confeso, que todos os nosos discursos, se-podem reduzir em silogismos: um sermam, um discurso familiar, uma escritura que persuade, um inteiro livro, pode-se chamar, silogismo composto de infinitos termos obliquos: nas mesmas demonstrasoens matematicas, se-podem descobrir silogismos. Ainda digo mais, nam á discurso que persuada, que nam seja em vigor de um silogismo, ou claro, ou oculto. Contudo iso defendo, que de pouca ou nenhuma utilidade é o silogismo, para quem á-de discorrer bem. Nam é o mesmo intervir o silogismo em tudo, que ser a unica arma, com que se-discorre bem; desorteque quem nam tem esa noticia, seja obrigado a discorrer mal. Quando Aristoteles escreveo, as suas reflexoens sobre o silogismo; nam nos-quiz ensinar, a fazer silogismos; porque iso fazemos nós sem reflexam, nem estudo algum: quiz somente mostrar-nos, em que se-fundava, a verdade dos-nosos conhecimentos discursivos: e como procedia o intendimento, quando consentia em algum objeto. Porem nam devemos daqui inferir, que sem praticar advertidamente, tudo o que ele propoem, nam posamos discorrer bem: nam senhor: a dita noticia é mais especulativa, que pratica. Abráse V. P. bons principios, e evidentes; e verá que perfeitos raciocinios fórma, sem noticia alguma da-Silogistica: explicarmeei com um exemplo. Para comer alguma coiza, e com iso sustentar-se um omem, é necesario mover uma grande quantidade de musculos, que se-movem matematicamente. Quer-se uma particular dispozisam da-lingua, para empurrar o comer para os-dentes, e despois para a goela: quer-se a saliva, para ajudar a triturasam, e o fermento no-estomago: e finalmente mil outras coizas, que agora me-nam-ocorrem. Tudo isto é tam necesario, e estas coizas estam tam unidas, que faltando uma, nam sucederia o cazo. Seria porem louco quem, ouvindo isto, nam quizese comer, sem saber primeiro tudo, quanto tem dito os Matematicos, sobre as leis do-movimento, e sobre a Mecanica: como tambem tudo o que tem dito os Anatomicos; sobre os ditos musculos, umores, fermentasoens &c. Este omem morreria de fome, no-mesmo tempo que outro, rindo-se da-sua loucura, comeria mui descansado, e com muito gosto. A razam disto é: porque sem tanta erudisam, a machina do-noso corpo está disposta em modo, que metendo o comer na boca, e querendo mastigar, (fóra dos-impedimentos) tudo aquilo se-faz, sem estudo ou reflexam alguma. Damesma sorte a machina espiritual da-nosa alma, (se me-é licito, servir-me desta expresam) recebeo tal faculdade de Deus, que conhece todas as coizas evidentes, e especialmente a conexam de umas ideias com outras, sem estudo ou artificio algum: aindaque nese mesmo ato de conhecer, pratique aquilo, que superfluamente aprenderia de outro.

Daqui fica claro, que servindo-nos do-silogismo para persuadir, nem por-iso somos obrigados, a saber estas coizas. Contudo aprovo que se aprenda, alguma noticia mais geral: o que se-pode fazer em duas palavras. Pode alem diso o silogismo ter seu uzo entre aqueles, que desde rapazes estam acostumados a ele. Quizera porem que a gente reconhecèse, que o silogismo vale dez, e nam cem, nem mil: e que nam nos-quebrasem a cabesa com o silogismo, como uma invensam singular, para conhecer a verdade, e aumentar os conhecimentos, nas Ciencias. Explico isto com outro exemplo, de que ja se-servio um grande omem, do-seculo pasado. Vemos omens de vista tam curta, que nam podem ver distintamente os objetos, em alguma distancia, sem uns oculos sumamente concavos de uma, ou de ambas as partes. Mas porque eles nam vem sem eles, nem por-iso devem julgar o mesmo, dos-outros: porque á muitos, que vem maravilhozamente, sem tal socorro. Damesma sorte a alma dos-Escolasticos, nam ve sem os oculos do-silogismo: que lhe-fasa muito bom proveito, e se-sirvam deles quanto quizerem: a alma porem dos-outros omens, exercitando-se em discorrer com advertencia, pode ver a conexam das-ideias, sem aquele socorro. Sirva-se cadaum do-que quizer, e mais lhe-convier: o que importa é, que os Peripateticos nam julguem todos, pola mesma medida: e da-falta de oculos nos-outros, nam infiram, que todo o mais mundo anda às cegas.

Conheso, que algumas vezes se-pode uzar do-dito metodo, com utilidade; quando se-quer introduzir um dialogo, para evitar os discursos compridos, e oratorios. Mas em tal cazo sam necesarias varias cautelas, para ser util o dito metodo: porque se deixamos provar a cadaum o que quer; caimos no-defeito, que queria-mos evitar. Deve pois evitar-se toda a superfluidade, e tocar unicamente o ponto da-questam. Mas neste cazo, nam é tanto estimado o tal metodo, por-ser Escolastico, mas por-ser metodo de dialogo: no-qual se-propoem a dificuldade, por-uma parte, e da-outra se-lhe-dá a resposta. Temos um belo exemplo, no-Concilio geral Florentino, congregado por-Eugenio IV. Como nele se-avia tratar, da-uniam da-Igreja Grega, com a Latina; sobre alguns pontos em que diversificavam; escolhèram-se seis omens de cada parte, para examinarem a questam, e dizerem o que se-avia propor, por-uma e outra parte: e lhe-ordenáram, que, deixados os discursos compridos, seguisem um metodo breve, e dialetico. Mas quem examina nos atos do-tal Concilio, que coiza era este metodo dialetico, acha, que nada mais era, senam um dialogo sem rodeios, nem prolixidades: no-qual de uma parte, um punha a dificuldade: e da-outra, o seu opozitor respondia sim, ou nam: ou brevemente dava a razam, porque duvidava &c. Esta foi toda a Dialetica, que se-praticou na dita disputa: o que bem mostra, que muitas vezes se-chamou dialetico, o estilo de falar concizo e breve; sem aquelas Figuras que constituem, o estilo retorico: e isto é o mesmo que eu digo, ser muito util. Mas nam achará V.P. que se-fizese cazo, das-ridicularias da-Logica vulgar: ou que, fazendo-se, rezultáse daî utilidade alguma: que era o que eu asima dizia.

Nem cuido que V. P. me-mostrará, que às Ciencias rezultase utilidade alguma, do-uzo do-silogismo. A falar verdade, nenhum omem douto cuidou nunca nestas ridicularias: os sofistas sim. Os seculos do-silogismo foram os mais barbaros, e ignorantes. Ele comesou cá no-Ocidente no-IX. seculo: aumentou-se com muito mais exceso no-XI. e durou até o meio do-XVI. E que coiza boa acha V.P. neses tempos? Polo contrario, desde o principio do-XVII. em que o silogismo se-comesou a deixar, e se-procurou outro metodo; o aumento é tam sensivel, que serîa loucura mostrálo: muito mais neste ultimo seculo, em que os olhos estam mais abertos. Asimque, com estes exemplos à vista, nam parecerá maravilha que eu diga, que o silogismo vale pouco, e tem servido de muito pouco: e que avendo outra ideia melhor, é loucura, demorar-se com ele. De tudo isto concluo, que a Logica que pode servir no-mundo, é mui diversa, desta chamada Logica das-escolas: a qual por-muitos principios nem menos se-deve ler. Creio que V.P. me-perdoará esta digresam, com que interrompi, o que lhe-queria dizer da-Logica; se-quizer refletir, que nam é alheia do-meu argumento: antes justifica o que abaixo lhe-direi, e me-poupa algumas repetisoens. Torno à ideia, que lhe-queria dar da-Logica.

Digo pois, que o metodo de filozofar nam se-deve seguir, porque o diz este, ou aquele autor: mas porque a razam e experiencia mostram, que se-deve abrasar. Isto é o que eu nam poso meter em cabesa, a muita gente: porque a maior parte do-mundo, nam examina os principios das-coizas; mas vam uns detraz dos-outros como carneiros; sem mais eleisam, que o costume: e antes querem errar, por-cabesa alheia, que acertar pola propria. Persuadem-se, que os velhos nam podem ensinar, coiza alguma má: e recebem os tais ditames, com a posivel venerasam. Nenhum toma o trabalho de examinar, se a opiniam é boa, ou má: uma vez que a-diseram os antigos mestres, é o que basta. De que nace, que omens de ingenho mui perspicaz, seguem doutrinas contrarias a toda a boa razam; e que eles mesmos dezaprovam, quando lhas-explicam bem. Entre tantos Peripateticos, que V.P. conhece, nam achará algum que duvidáse uma só vez, se Aristoteles na sua Logica dise bem, ou mal: como conste que o-dise Aristoteles, é o que basta: nam faltará modo de explicar, a dita doutrina, ou texto. E deste principio nacem, aqueles grandes comentarios, com que amofinam a paciencia ao mundo; e fazem perder o tempo, nas escolas.

Bem claro é que um omem, que escrupulozamente comenta um autor, supoem ser verdade, quanto ele diz: pois de outra sorte, devia fazer um rigorozo exame, na materia que comenta. E eisaqui tem V.P. que estes tais, querendo ensinar aos outros a discorrer bem, eles sam os primeiros, que discorrem muito mal. Falava eu em certa ocaziam, com um mestre Peripatetico, e caindo o discurso sobre uma destas materias, me-produzio ele um texto do-Filozofo, em uma questam bem controversa. Respondi eu, que nam me importava, o que dizia o Filozofo, mas o que ele na dita conversasam me-provava. Aqui admirado o omem clama logo, V.P. nam pode negar o texto: deve explicálo. ao que eu pontualmente respondi: Quem lhe-dise a V.P. que eu nam poso negar o texto? dise-lho algum concilio Ecumenico, ou algum texto da-Escritura? Se V.P. me-citáse, alguma propozisam de Euclides; em tal cazo lha-admetiria; nam porque Euclides o-dise, mas porque a evidencia mostra, que dise bem; e todos reconhecem a verdade, das-ditas propozisoens: fóra daqui nam admito senam aquilo, que me-provam com clareza, e verdade. Onde é necesario que V.P. primeiro que tudo, me-prove trez coizas. 1. Que Aristoteles nam podia dizer uma parvoice, advertidamente. 2. que nam podia inganar-se. 3. que o que nós oje achamos nos-seus escritos, seja verdadeiramente o que ele dise: postas estas circunstancias considerarei entam, o que ei-de responder ao texto. Até aqui o discurso, que eu tive com o dito Padre. Agora acrecento, que o dito mestre, ouvindo estas minhas razoens, nam se-aquietou: mas continuou de admirar-se damesma sorte, que se nam lhe-tivesem respondido coiza alguma.

Concluo pois, que é necesario seja bem louco, quem nam conhece, quam grande impedimento seja, para discorrer bem, seguir as pizadas de um autor só, ou seja Aristoteles, ou algum moderno. A Verdade, e a Razam é uma só. Todos podemos discorrer, e intender o que nos-dizem: e quem fala em maneira que melhor o-intendam, e prova melhor o que diz, ese é que se-deve seguir, com preferencia aos outros. Se acazo nam prova o que diz, antes o que diz nam parece bem, ou á razoens para se-intender, que é mao; nam se-deve fazer cazo, de tais discursos. Esta é a pedra de toque, nam só da-Logica, mas de qualquer outra Faculdade: tomar por-principios coizas tais, que as-intendam todos, os que dam alguma atensam às ditas regras: mas principalmente é necesario, na Logica. Certamente que a Logica nam foi feita, para Clerigos, ou Frades, ou pesoas de uma exquizita erudisam: deve servir a todos os que falam, e raciocinam: e nam só em discursos estudados; mas em qualquer sorte de discurso, publico ou particular; serio ou agradavel. Se ela serve, para ensinar a discorrer bem, deve dar ditames, que posam servir em toda a parte, em que se-discorre, e se-deve discorrer bem. Importa pouco, o que dise este ou aquele, da-Logica: o que importa é, facilitar os meios, para nam se-inganar: e buscar para isto um metodo, que a boa razam persuade ser util, e os omens que tem voto na materia, reconhecem com razam, e experiencia, ser o unico meio, para conseguir aquele fim. Alem diso propolo de um modo, que qualquer pesoa de juizo, se-capacite da-dita verdade. Isto suposto, farei a V.P. algumas reflexoens, sobre o metodo de dirigir o juizo. Mas devo supor, que falo com um omem, sem nenhuma preocupasam: e que nam tenha lido Logica alguma: ou, se a-tem lido, que procure esquecer-se de tudo: mas no-mesmo tempo que tenha juizo claro, para conhecer as coizas. a este omem farei, as seguintes reflexoens.