IDEIA DA LOGICA

Nós temos uma alma capaz de conhecer, todas as coizas deste mundo. Recebemos do-Criador esta alma, dotada de maior perspicacia, doque oje nam temos. O pecado de noso primeiro pai, nos-trouxe por-castigo, sermos sugeitos ao ingano: e por-pena do-mesmo pecado se-nos-limitou, a esfera da-nosa perspicacia: nam conhecemos tam bem como ele, e somos mais sugeitos, a conhecer mal. Contudo a alma é a mesma, que era ao principio: foi criada para conhecer a Verdade, e ficou-lhe sempre a propensam para ela: em modo que, quando a alma ve uma verdade clara, nam pode deixar de conhecèla, e abrasála. Nenhum omem de juizo duvîda, se é omem: nenhum duvîda, se fala, ou está calado; se está em pé, ou asentado: por-forsa á-de admetir uma destas coizas, porque sam mui claras; e uma delas á-de ser verdade. Por-iso nós pecamos, e pecando nos-desviamos da-verdade da-lei divina, que é tam conforme à boa razam; porque nam damos atensam, à dita verdade: que se a-desemos, sem duvida ficariamos persuadidos, que se-devia praticar, o que ela diz. Mas a rebeldia que experimentamos, no-noso corpo, que com dificuldade se-sugeita, aos ditames d’alma; é a cauza deste mal. Ele nos-inclina sempre, para a parte contraria, com a isca de coizas agradaveis: e a alma, divertida com outras considerasoens, dificultozamente volta os olhos para a verdade: e por-iso a-nam-recebe: e por-iso peca. Esta é a origem, de todos os nosos inganos, e de todos os nosos danos. Se a alma nam fose arrastada, polos tumultos da-fantezia, que comumente a-ingana; conheceria mui bem toda a verdade: nam só aquelas que conduzem, para posuir um bem eterno; mas tambem, estas verdades indiferentes das-coizas naturais: e discorreria sem ingano, em toda a materia: mas as cauzas dos-inganos sam tam frequentes, nesta vida mortal; que nam é maravilha, se os omens ajuizam tam mal: e ajuizando asim, obrem em tudo mal.

Isto suposto, a unica medicina que se-tem achado, para ajuizar bem, é desviar as cauzas, que nos-conduzem ao ingano. Ponho de parte, o ajuizar bem para conseguir, a bemaventuransa sobrenatural: (aindaque daqui posa receber muita luz; contudo como necesita de outras coizas, e nam é ese o meu argumento; por-iso o-deixo) e falo somente do-discorrer bem, em todas as outras materias. Digo pois, que o verdadeiro segredo de ajuizar bem, é desviar as cauzas que nos-inganam, e fazem julgar mal. Para fazer isto, é necesario examinar os modos, com que a alma conhece; e meios de que se-serve, para se-explicar.

Nós nam trazemos da-barriga da-maen, conhecimento algum: todos os-adquerimos despois de nacidos. Basta olhar, para o que faz um menino; para ver a sua ignorancia, e que nace despido de todo o conhecimento. Ele aprende a sua lingua, como nós aprendemos uma lingua estrangeira: quero dizer, asimcomo nós, aprendendo uma lingua estrangeira, só formamos ideia dos-nomes que vamos aprendendo, e nam daqueles que ainda nam ouvimos: asim tambem um menino, só tem ideia das-palavras que ouve, e nenhuma das-outras, que nunca ouvio. Mas alem diso nem menos tem ideia das-coizas, que significam os tais nomes, senam das-que ve, ou ouve. Um menino nam profere, senam as palavras que ouve: só intende e fala daquilo, que lhe-tem dito, ou visto. o que mostra claramente, que nam tem outros conhecimentos, senam os que entram polos sentidos. Os que defendem ideias inatas, que mostrem alguma, que nam entre polos sentidos; ou nam se-deduza das-ideias, que intráram por-eles: estou certo, que nam aparecerá alguma, a que nam posamos descobrir, esta origem.

Sam pois os sentidos, as principais portas, polas quais entram as ideias, na alma. Umas destas ideias entram, por-um só sentido: v. g. a Solididade dos-Corpos, que entra polo tato: outras entram por-dois sentidos: v. g. a figura, que pode intrar polo tato, e juntamente polos olhos. Algumas ideias originam-se em nós, com a meditasam, ou reflexam: deste genero é a vontade, percesam &c. Outras entram umas vezes por-sensasam; outras, pola reflexam: v.g. o gosto, dor, existencia, unidade, potencia, sucesam. Finalmente muitas ideias simplezes, se-originam em nós, por-meio das-cauzas privativas; tais sam as ideias que nós temos, das-qualidades dos-corpos: v.g. a ideia de negrura &c. O exame dilatado deste negocio, pertence a outro lugar: basta por-agora que o Logico conhesa, que por-todas estas vias podemos receber, ideias simplezes.

Admiravel é a virtude que a alma tem, para unir, e combinar estas diferentes ideias simplezes, que por-este modo recebe. Verdade é, que alma nace despida, de todo o conhecimento atual: mas fica mui bem recompensada, com a virtude de-que Deus a-dotou, de poder conseguir muitas, e novas ideias, com diferentes combinasoens. Unindo as ideias, que intráram polos sentidos, fórma a alma muitas outras ideias: outras vezes examinando as proprias ideias, nacem diferentes ideias na alma. Desta diferente combinasam de ideias, nacem todas as ideias compostas, que nesta vida experimentamos.

Mas aindaque sejam infinitas as ideias compostas, que a alma fórma, podem-se reduzir, a trez sortes de ideias: que sam as ideias dos-Modos, das-Sustancias, e das-Relasoens. As ideias dos modos sam aquelas ideias que nós formamos, de diversas coizas que nam existem por-si, mas sam dependencias de outras coizas. v.g. a ideia que eu tenho de um triangulo, de uma coluna, de um circulo &c. Estas ainda sam de duas maneiras: ou sam ideias de modos simplezes, ou de modos mixtos. Chamo modos simplezes, às ideias dos-modos, que sam compostas, de duas ideias damesma especie: v.g. a ideia que eu tenho de doze, de cem &c. que é composta das-ideias, de muitas unidades juntas: a ideia de imensidade, que é composta, da-repetisam de diferentes ideias de distancia, repetidas sem fim: e como cada distancia se-supoem ser, uma modificasam de espacio; a dita ideia é uma ideia composta. Chamo modo mixto, uma ideia composta, de modos de diferente especie: v. g. a ideia de beleza, que é um composto de diferentes cores, e proporsoens, que dá gosto vendo-se. tambem a idea de amizade, mentira, obrigasam &c. Estas ideias une o intendimento, sem examinar se existem, ou nam: e a estas dá o nome, que lhe-parece. Os omens porem comumente, recebem estas ideias dos-outros, que lhe-explicam o significado, de muitos termos. Desorteque ou por-aplicasam, ou por-experiencia recebemos as ideias, dos-modos mixtos.

A segunda especie de ideias, sam as das-Sustancias. Nam podendo nós intender, como as ideias simplezes existam por-si só, nos-acostumamos a supor alguma coiza, que as-sustenta: ao que damos o nome, de Sustancia. Digam o que quizerem, os que falam de Sustancia, como de uma coiza, que eles intendem bem o que é; certo é, que nam tem os omens, mais clara ideia de sustancia. Onde ideia de sustancia, é ideia de uma certa coiza incognita; a qual, quando nós queremos explicar, nam sabemos dizer o que é: mas somente dizemos; que é uma coiza, que nós supomos ser a baze, daquelas ideias que vemos. E esta ignorancia é aplicavel, a qualquer sorte de ideia de sustancia. Quanto às ideias das-particulares sustancias, esas formamos nós, unindo quantas ideias podemos ter de uma coiza. v.g. unindo a ideia de cristalino, durisimo &c. formamos ideia, do-diamante. Mas alem destas, devemos unir-lhe, a ideia confuza que nós temos, de uma coiza que as-sustenta: e daquelas ideias, e desta, rezulta a ideia composta, que nós temos neste mundo, da-sustancia do-diamante. Do-que se-segue, que tam clara ideia temos nós, da-sustancia do-Corpo, como do-Espirito: pois nenhuma outra ideia temos mais, que dos-modos ou efeitos, que se-observam; unidos à dita ideia de uma coiza, que supomos sustantála: cujos efeitos tam claramente se-conhecem do-Espirito, como do-Corpo. Alem destas ideias de sustancia, formamos outra ideia composta, ou complexa de sustancia, unindo diferentes ideias de sustancias. v. g. unindo diferentes ideias de naos, pesas de artilharia, marinheiros, almirante &c. fazemos a ideia complexa de armada: e damesma sorte de exercito, mundo &c. A estas damos um só nome, porque na verdade é uma só ideia.

A terceira sorte de ideias, sam as Relasoens. Estas fórma a alma, comparando uma coiza com outra: de que nacem mil denominasoens, que tem proprios nomes, e nos-conduzem a conhecer, outra coiza: e sem os tais nomes, nam conhecemos muitas relasoens. Estes nomes só se-podem dar, quando se-poem o fundamento deles. v. g. Pedro é omem: mas se ele se-caza, este contrato serve para lhe-dar o nome, de marido. Estas ideias de relasoens, sam muitas vezes mais claras, que as ideias das-coizas, que estam sugeitas às ditas relasoens; ou das-sustancias. A ideia de pai, e irmam é mais clara, que a ideia de omem: e com muita mais facilidade eu intendo, que coiza é um irmam; doque intendo, que coiza é um omem. Conhece-se mais claramente, que coiza é um amigo, doque que coiza é Deus. Porque o conhecimento de uma asám, ou de uma simplez ideia, basta muitas vezes, para me-dar o conhecimento, de uma relasam. Polo contrario, para conhecer um ser sustancial, é necesario um exato conhecimento, de uma colesam de ideias. Devemos porem advertir, que todas estas relasoens se-terminam, em ideias simplezes: aindaque nos-paresa, tudo o contrario: e os nomes que conduzem a mente, para conhecer outra coiza, alem do-sugeito da-denominasam; sempre sam relativos. Que todas as relasoens sejam compostas, de ideias simplezes, é coiza para mim certa: mas para o-provar, serîa necesario, fazer um longo discurso, sobre todas as especies de relasoens: para mostrar, donde vem a ideia de Cauza, Efeito, Lugar, Extensam, Identidade, Diversidade &c. como tambem as relasoens morais: v. g. Bem, Mal, Crime, Inocencia &c. Mas rezervo-me para explicar iso a V. P. em outra ocaziam: e agora continuo as minhas reflexoens. Esta em breve é a origem, de todas as nosas ideias.

Daqui fica claro, que das-nosas ideias umas sam simplezes, outras compostas: umas adventicias, que entram polos sentidos, e outras que a mente faz, a que chamam faticias. Destas umas sam claras, outras confuzas; umas adequadas, e outras inadequadas. Finalmente reais, e chimericas; singulares, particulares, e universais.

De todas as ideias, as que mais frequentemente faz a alma, sam as universais. Estas fórma a alma, considerando uma coiza, que tem outras semelhantes: onde considerando todas em uma masa, sem considerar diferensa alguma particular, formamos ideia universal. v. g. Temos trez sortes de triangulos: um se-chama Equilatero, outro Isosceles, e o terceiro Escaleno: cada um dos-quais tem suas particulares propriedades. Mas considerando os ditos triangulos somente, como uma figura de trez angulos, sem determinar as propriedades de cadaum, formamos uma ideia universal, que se-pode aplicar, a cada triangulo de per-si. Este modo de considerar, se-chama nas escolas precizam: palavra tirada do-verbo Præscindo, ou Præcido, que é o mesmo que cortar, separar: porque separamos os triangulos, das-suas propriedades.

Estas ideias universais tem entre os Logicos, diversos nomes. Chamam a uma, Genero: a outra, Especie, Diferensa, Proprio, Acidente. Basta intender brevemente, o significado destas vozes, para poder servir-se na ocaziam; e intender o que os Logicos, querem dizer com elas: nam considero outra utilidade, nestes cinco Predicaveis. Polo contrario, tudo quanto deles dizem os Logicos, comumente é falso: pois supoem claramente, que nós temos perfeito conhecimento, das-Esencias: o que é manifesta falsidade.

Sendo pois, que as nosas ideias, só se-podem comunicar aos outros, por-meio daqueles sinais, a que chamamos vozes; devemos fazer alguma reflexam, sobre esas mesmas vozes, ou palavras: o que pode conter, alguma coiza util. As palavras nam significam os pensamentos, por-virtude natural; mas porque asim o-determináram os Omens. A maior parte das-palavras sam gerais, quero dizer, significam ideias gerais: porque serîa imposivel, e inutil, que cada coiza particular, tivese um nome distinto: o comercio umano farseia insuportavel, e os Omens nam aumentariam os seus conhecimentos. Acostumando-se os Omens, a fazerem ideias abstratas, deram-lhe nomes, a que chamam gerais, ou universais. Á nomes para as ideias simplezes, para os-modos, e relasoens &c. e todos estes é necesario saber, como se-formam, e que coizas particulares tem. Sucede às vezes, que se-introduzam imperfeisoens nas palavras, por-cauza que as ideias que significam, sam mui complexas, e sam cauza que os nomes fiquem duvidozos. Sucede tambem, que os Omens abuzem das-palavras, servindo-se de umas, a que nam dam significado certo, ou lho-dam mui oscuro &c. Devem-se remediar estes defeitos: tendo prezente a origem deles, e o modo com que se-remedeiam: o que se-observa nos-autores, que explicam isto. Isto é o que pertence, à Percesam.

Alem da-faculdade que a mente tem, de formar ideias, a cuja damos o nome de Percesam; tem mais outra faculdade, de comparar uma ideia com outra, e reconhecer a conveniencia, e disconveniencia delas: ao que chamamos Consentimento, ou Juizo. Asimque o julgar nada mais é, que certificar-se a mente, que uma coiza convem a outra, ou nam convem: e comparando ela uma ideia com outra; reconhece, e se-certifica da-conveniencia, ou disconveniencia. Se o juizo se-explica, com as vozes; chama-se Propozisam, ou Enunciasam: e em tal cazo, tanto aquilo a que convem uma coiza, como as vozes porque se-explica; chama-se sugeito da-propozisam: e o que convem, chama-se predicado.

Decendo pois à diversidade de juizos, digo, que se a mente se-certifica, da-conveniencia entre duas propozisoens, chama-se juizo afirmativo; se da-disconveniencia, chama-se negativo. Nam digo, que aja juizos negativos, no-sentido em que o-tomam os Logicos vulgares: mas chama-se afirmativo, ou negativo, segundo a coiza que afirma. Esta diversidade de propozisoens, ou juizos, alcansa-se do-sentido, nam das-palavras: as quais sendo negativas, podem ter sentido afirmativo. O que muitos nam advertindo, fazem mil disputas, e arengas sobre coizas bem claras.

Qualquer dos-nosos juizos, (o mesmo digo das-propozisoens, que sempre correspondem aos juizos) afirmativo, ou negativo, ou explica o nome; ou explica as nosas ideias; ou explica alguma outra coiza que existe: ao primeiro chamamos, juizo Nominal: ao segundo, Ideial: ao terceiro, Real. v.g. Quando eu digo: O oiro nam é pedra: este juizo é real. quando digo: A ideia que eu tenho de pedra, é diferente da-ideia, que tenho de oiro: este juizo é ideial. quando digo: Este nome Amor significa, um afeto da-alma, ou um juizo que formo, da-excelencia de uma pesoa em algum genero, e utilidade que me-pode rezultar dela: este juizo chama-se nominal. Do-conhecimento destas trez sortes de juizos, depende o bom ou mao uzo, que fazem os Omens, das-suas faculdades, em qualquer materia que se-lhe-propoem. A maior parte das-disputas nace, de que nam intendemos bem, as definisoens dos-nomes: e cadaum as-toma, no-seu sentido. O mesmo digo das-definisoens, que explicam as ideias dos-outros, principalmente dos-mortos. Atribuimos aos autores que lemos, mil coizas que eles nunca diseram. Servimo-nos dos-Dicionarios, como de oraculos: sem advertir, que aqueles que os-compuzeram, podiam sofrer o mesmo ingano, procurando a verdadeira inteligencia deste nome. O mesmo sucede nas definisoens reais, tanto nas da-esencia, como de algum acidente ou modo. Persuadimo-nos, que sempre sam verdadeiras: e deste modo abrasando-as sem exame, establecemos um principio, que por-forsa nos-á-de conduzir ao ingano.

Sobre isto das-definisoens, é bem vulgar o erro dos-Logicos comuns, que dizem, que a definisam se-pode fazer por-uma ideia, ou simplez percesam, a que eles chamam, Apreensam. Isto é falso por-muitos principios: nem se-pode fazer definisam alguma, que nam seja, reconhecendo a conveniencia dela, com o seu objeto. Quando dizemos, Animal racional: (suponho agora, que esta seja a verdadeira definisam do-Omem: de que duvido muito, e com razam) ou a mente conhece a conveniencia daquela ideia, com a ideia de Omem; ou nam. Se a-conhece, define: mas em tal cazo produz um conhecimento, ou consentimento, a que chamamos Juizo: porque o expremir, ou nam expremir, com a boca o Est, nam faz ao cazo. Se a-nam-conhece, nam define; mas profere duas ideias separadas. É necesario intender, e advertir tudo isto muito bem, para nam se-inganar, com o que eles dizem.

Alem destes juizos, fórma a mente infinitos outros, damesma sorte, que disemos das-ideias. Temos juizos simplezes, compostos, singulares, e universais. A estas se-reduzem todas as sortes de juizos, ou propozisoens vocais. Conhece-se a especie a que pertence, pola qualidade do-sugeito.

Faz tambem a mente juizos verdadeiros, e falsos. E aqui é necesario o criterio, para nam se-inganar. Consiste o criterio da-verdade, na evidencia com que se-propoem uma coiza, desorteque nam deixe duvidar, de ser asim. Nisto se-inganavam manifestamente os Pirronicos; que chegáram, ou fingîram de duvidar daquilo mesmo, que viam com toda a evidencia. Sobre isto da-evidencia, á diversos graos: se a propozisam é evidente sem prova, chama-se axioma: se em vigor das-provas se-faz evidente, chama-se ilasam, ou concluzam evidente. Tambem estas concluzoens evidentes, segundo as materias recebem diversos nomes: umas vezes dizemos, que tem evidencia metafizica; outras fizica; e outras moral; as quais sem muito trabalho se-intendem. Finalmente acham-se juizos duvidozos, verosimeis, e inverosimeis: cuja natureza se-intende, com a simplez explicasam, e um breve exemplo.

Estas sam as duas operasoens diferentes da-mente, Percesam, e Juizo. nem á alguma outra de diferente especie. Tudo o que a mente faz é, variar estas duas em diferentes maneiras: fazendo de muitas ideias, uma composta: e reconhecendo a conveniencia ou disconveniencia, de uma com outra: e pondo-as em ordem proporcionada, para se-conhecerem. Quando os Dialeticos dizem, que nestas trez afirmasoens.

Todo o omem é animal.
Pedro é omem.
Logo Pedro é animal.

a ultima propozisam é de diferente especie, das-primeiras; dizem uma coiza, que nam poderám nunca provar. O que eu acho é, que tanto a ultima, como as primeiras, sam juizos, com que o intendimento reconhece, a conveniencia de duas ideias. Se o estar em ultimo lugar, ou reconhecer esta, porque ja tenho reconhecido as outras, faz mudar de especie; serîa necesario admetir, outras muitas operasoens do-intendimento.

Isto suposto, a principal operasam livre da-mente, é o Raciocinio, ou Discurso. Consiste ele em que, dadas duas, ou trez, ou dez, ou vinte ideias, se a primeira convem à segunda; e esta à terceira; e esta à quarta &c. a primeira á-de convir à ultima. Desta sorte o intendimento corre da-primeira, para a segunda: desta, para a terceira &c. E ao juizo com que reconhece, a conveniencia da-primeira com a ultima; se-dá o nome, de raciocinasam, inferencia, concluzam, discurso, e alguns outros nomes: o que nam faz mudar a especie: pois na verdade é um juizo, com que eu afirmo esta coiza, porque tenho afirmado, as antecedentes. Onde pode a consequencia ser boa, e ser falsa, se uma das-premisas é falsa: e somente será verdadeira, se as premisas o-forem tambem. O que importa pois é, julgar primeiro bem, e nam se-inganar nas premisas: porque só asim é, que nam se-inganará na concluzam. Para fazer isto, é necesario notar, com infinita diligencia, as cauzas e ocazioens dos-nosos erros, para os-poder evitar.

A primeira ocaziam de ingano, sam as nosas mesmas ideias. Nós percebemos mal, e contudo queremos discorrer com seguransa: os nosos sentidos sam falazes, e suministram-nos frequentes ocazioens de ingano, em materia fizica. O notar estes erros, pedia uma longa disertasam. Basta notar, que nos-inganamos nas ideias de gravidade, levidade, aspereza, gosto, cheiro, e som &c. Cuidamos que estas coizas existem nos-objetos, quando na verdade nada mais sam, que modificasoens do-noso corpo, e espirito. As ideias que recebemos polos olhos, tem mais outra razam, para serem falsas: pois segundo a diversa figura dos-olhos, de diferentes pesoas, devem reprezentar os objetos ou majores, ou menores doque sam. E asim nam nos-devemos fiar sempre delas, para julgar.

A segunda cauza, sam as ideias que formamos: em virtude das-quais mil vezes nos-inganamos. Chamo aqui ideias, àquelas supozisoens que fazemos, para explicar os efeitos da-natureza. Uma vez que nos-ocorre, uma supozisam ou sistema, que nos-parece racionavel, sem demora alguma o-abrasamos como verdadeiro; sem advertir, que muitos sistemas diferentes, podem explicar provavelmente, a mesma coiza. Outra especie de ideias que fazemos, sam as abstrasoens: seguindo as quais, muitos julgam imprudentemente. Atribuimos a diversos efeitos, diversas cauzas: sem advertir, que a mesma cauza pode produzir diferentes, e às vezes incontrados efeitos. Daqui nacem, mil inganos na Fizica, v.g. as virtudes que atribuimos, a muitos medicamentos, que nunca sonháram telas.

A terceira cauza de ingano, sam as palavras, de que nos-servimos. Intendemos, que muitos termos significam o mesmo, quando na verdade nam sam sinonimos. As vozes servem, para explicar os pensamentos: e como nem todos intendem o mesmo, nem todos vem a explicar o mesmo. Das-sustancias inviziveis, nem todos sentîram o mesmo: temos o exemplo nestas vozes, Deus, Animus, Spiritus, Angelus &c. às quais alguns antigos unîram certas ideias, e outros unîram diferentes. O que intende um Deus, de figura umana: o que supoem, um Deus igneo: o que o-julga, de um corpo sutilisimo: o que o-cre espiritual: todos se-servem do-mesmo nome: o mesmo digo de outros nomes. Tambem os Omens se-diversificam, na ideia das-sustancias corporeas: uma ideia fórma o ignorante, do-Corpo: e outra mui diferente, o Filozofo. Tambem nas definisoens de Vicio, Virtude, Piedade, Santidade, Justisa, Obrigasam &c. se-diversificam muito os omens: de que a Istoria suministra, famozos exemplos. Os mesmos Dicionarios apontam vozes, a que nós oje damos um sentido; e antigamente tinham outro: v. g. Navis, Triremis &c. Onde quem nam distingue com cuidado isto, frequentemente se ingana, e discorre mal.

A quarta cauza dos-nosos inganos, sam os afetos do-animo; que produzem infinitos erros. Eles impedem-nos muitas vezes, examinar bem as materias, e por-consequencia, julgar bem. E muitas vezes fazem-nos amar, ou dezejar o duvidozo por-certo. Os que abrasáram de todo o seu corasam, uma doutrina; nam só nam se-cansam em examinar, as razoens contrarias; mas nem o-podem fazer, porque as-nam-vem. Acrecento a isto, que nem menos as-querem ver, aindaque lhas-oferesam: nem ainda outras obras indiferentes, que saiem damesma pena, in odium auctoris. Este justamente é o cazo que sucedeo neste Reino, a um Teologo meu conhecido, que tinha abrasado a Ciencia media. Introu em uma livraria, onde cazualmente abrio um livro, que tratava dos-prolegomenos da-Escritura: lidos alguns paragrafos, louvou muito a materia, e o metodo; e proguntou quem era o autor: e quando ouvio dizer, que era um Dominicano, fechou logo o livro, e nam dise mais palavra. Comque, será necesario despir-se, de todos os prejuizos; para intender as coizas bem, e poder discorrer com acerto.

Conhecidos os erros, é necesario evitalos, procurando a verdade. Para o-fazer, é precizo observar algum metodo. É pois o metodo aquela operasam do-intendimento, tam necesaria em todo o genero de Ciencias: e sem a qual nam se-pode discorrer bem. O discurso é aquele progreso, que o intendimento faz, de um conhecimento para outro: o metodo é o que prepara a materia, ao discurso. Desorteque a mente com o metodo dispoem as ideias, em boa ordem: e com o discurso reconhece a conveniencia delas. De duas sortes é o metodo. Dispomos as vezes os nosos conhecimentos, de uma tal maneira, que dividimos a coiza que queremos conhecer, nas suas partes: paraque asim as-posamos conhecer todas, e consequentemente o todo. Este metodo chama-se rezolutivo, ou analitico, que vale o mesmo. Emprega-se comumente, para reconhecer a verdade de muitas questoens, e para descobrir, e adquerir conhecimentos. A outra sorte de metodo é, quando devendo ensinar uma doutrina aos outros, detal-sorte dispomos, os nosos conhecimentos; que intendendo cada um deles, venha o dicipulo a conhecer, todo o corpo da-Ciencia, que se-compoem, daquelas particulares doutrinas. Este metodo chama-se compozitivo, ou sintetico, que sam sinonimos: ou tambem metodo de doutrina, ou didatico, ou didascalico: que vale o mesmo. E deste uzam comumente os bons mestres, quando ensinam alguma materia.

Para nam nos-inganarmos no-metodo, é necesario ter diante dos-olhos, que nós ignoramos a esencia, de todas as coizas. Onde ignoramos, a esencia da-Materia, do-Corpo, das-Fórmas, do-Espirito, e das-nosas mesmas ideias: é necesario antes de tudo, pór esta advertencia. Isto suposto, fazem-se questoens indisoluveis, a que nam podemos responder: que sam as que dependem, do-conhecimento da-esencia das-coizas: e destas nam falamos. Temos alem diso questoens soluveis, que se-dividem em trez especies: I. posto um atributo, progunta-se qual é o sugeito que lhe-compete. II. posto o sugeito, progunta-se qual atributo determinado lhe-compete. III. dado o atributo e sugeito, progunta-se se um compete a outro. Trez sam as fontes donde se-tiram, as solusoens de todas as questoens: Razam, Experiencia, e o Testemunho dos-autores.

As leis do-metodo Analitico sam estas. Intender os vocabulos: determinar as questoens: separar as partes delas: fugir de todo o genero de equivocos: fugir das-oscuridades: establecer termos comuns, e claros: intender os testemunhos e autoridades, em que se-funda. Alem diso, saber os requizitos que sam necesarios, para intrar em uma questam: v.g. para a Istoria, as Antiguidades, Cronologia, Geografia &c. para a Fizica, a noticia das-melhores experiencias &c. Ler o contexto, e ver as mais coizas que apontam os outros, para nam errar no-criterio. Ter prezentes os canones, que comumente se-asinam, para distinguir as obras supostas, das-verdadeiras.

O metodo Sintetico, ou metodo de mostrar a verdade, tem estas leis. Nam admetir voz sem a-explicar: nam mudar o significado das-vozes: nam concluir sem evidencia: nam inferir senam de principios provados. Quem observa estas regras, pode ter a consolasam, que tem boa Logica.

Tendo visto o modo, com que o estudante se-deve regular, no-metodo das-Ciencias; fica claro, como se-deve conter nas disputas publicas, tanto argumentando, como respondendo. Deve pois argumentar com razoens, e nam com palavras: fugindo de sofismas, como indignos de um Filozofo, que sinceramente ama a verdade. Se quizer servir-se do-silogismo para argumentar, pode fazèlo. Digo porem, que muitas vezes sem silogismo, exporá melhor as suas razoens: servindo-se de um metodo de dialogo curto, e claro.

No-que toca a responder, se o arguente se-servir de silogismos, com boas razoens, pode seguir o mesmo metodo: se pois ele comesar com o sofisma, é melhor reduzilo fóra da-Fórma, para lhe-ensinar a argumentar. Em todo o cazo nam se-deve deixar pasar propozisam oscura, que nam se-explique. Se V.P. obriga a explicar-se um sofista, e pòr em pratos limpos, o que quer dizer nesta, ou naquela propozisam; acabou-se o sofisma. Esta nam é ideia nova, de que se-devam admirar os Dialeticos: eles o-praticam todos os dias argumentando, e respondendo. Se o que distingue uma propozisam, uza de termos incognitos; ou se o que argumenta, se-serve de semelhantes propozisoens; verá V. P. que os mais advertidos Peripateticos, sam os primeiros a dizer-lhe, que explique a propozisam, ou distinsam. Julgo pois, que o mesmo deve fazer qualquer defendente, que tem a infelicidade, de ter um Dialetico por-arguente. Ponha-se o estudante neste primeiro principio, de nam deixar pasar palavras confuzas, como fazem os Geometras; e verá que se-acabam, todas as disputas: as quais comumente versam, sobre a diversa inteligencia dos-termos; e nam tem mais forsa, que aquela que lhe-dá, a dispozisam artificial do-silogismo. Desorteque reduzido a proza corrente, o que estava armado em silogismo, nam tem forsa alguma.

Tenho dado em breve a V.P. uma ideia da-Logica, que pode ser util neste mundo, para todos os empregos. Isto necesitava ser provado, com mais extensam; mas iso excede o metodo de uma carta. Do-que aponto, compreende V. P. muito bem, como se-deve dispor a Logica, para servir em todo o genero, de bom discurso. Digno é de admirasam, que aja quem intenda, que a Logica somente deve servir, para a Teologia: e que por-iso a-encham, de todos aqueles termos, que se-acham na Escolastica comua: e fasam uma Logica, que nam serve para coiza alguma. Como se os omens somente na Fizica, ou Teologia devesem discorrer bem; e nas outras coizas mal! Persuado-me, que importa igualmente discorrer bem, em todas as materias da-vida civil, que naquelas duas. A maior parte dos-Omens, nam seguem aquela profisam, mas outras diferentes, e nam menos utis à Republica; tanto nos-empregos altos, como baixos; e asim é necesario, que tenham regras, para se-regular em todos os seus empregos; quero dizer na politica publica, e privada, a que chamam vulgarmente Economia. Cuido, que a Logica que apontei a V. P. suministra meios proprios, para nam se-inganar em ideia alguma, quanto é posivel ao Omem evitar os inganos, nesta vida mortal: e que por-este principio se-deve preferir, a todas as outras. Toda a dificuldade oje consiste em determinar, qual destas modernas, (porque das-Peripateticas nenhuma se-deve ler) posa suministrar, as ideias que procuramos. Nisto direi a V. P. o meu parecer, no-qual tenho alguns companheiros: vem aser, que ainda até aqui nam tem aparecido alguma, que satisfasa inteiramente, ao que dezejamos. Tenho lido quazi todas as modernas impresas, algumas bem raras, e tambem algumas manuscritas: e achei que muitos copiáram-se fielmente. Dos-outros que podemos chamar autores, todos tem coizas boas, e deles se-pode tirar muito; mas nem tudo neles é bom: alem diso algum deles é só para omens consumados, e nam para rapazes: e sam mui difuzos. Onde para os principiantes, asento, que ainda nam apareceo, a Logica dezejada. E asim será necesario, servirse de alguma das-melhores, emendando-lhe os defeitos. Chegando eu aqui, veio vizitar-me o Senhor * * * e proguntando-lhe com confiansa de amigo, se sabia de alguma boa Logica; me respondeo, que o * * compoz ultimamente toda a Filozofia, por-um modo excelente, que ele tinha visto. Proguntei-lhe que me-explicáse, o metodo da-Logica: e despois de o-ouvir, e considerar, asento que se-uniforma muito, à minha opiniam: e pode ser que seja ainda mais claro, e mais util para os principiantes, que este que asima apontei. Comque tem V. P. a Logica que dezejava: sabe V. P. mui bem, de que pezo é o juizo deste amigo. Dise-me que vencidas certas dificuldades ** faz conta impremila. Deus o-permita. Isto é o que me-ocorre por-agora dizer a V. P. pedindo ao Senhor, o-conserve por-muitos anos.

NOTAS DE RODAPÉ:

[82] In Logica, de Signis disp. I. in Prooemio.

FIM DO PRIMEIRO TOMO.