AOS CAVALLEIROS
QUE CORRERAM NA FESTA DAS VIRGENS NO ANNO DE 1685, PRIMEIRO DO GOVERNO DO MARQUEZ DAS MINAS

Clori, nas Festas passadas,
Que ás virgens são off’recidas,
Houve quadrilhas corridas
Parentas de envergonhadas:
Porém estas realçadas
Vi neste anno derradeiro;
Pois na esphera do Terreiro
Apparecia um Brandão,
Que correndo exhalação,
Acabava cavalleiro.
Com estas apparições
De cometas tão luzidos
Nos Mirões espavoridos
Eram tudo admirações:
Em maximas conjuncções
De ouro, de prata e mil côres,
Notei que os festejadores
Faziam com graças summas,
No ar um jardim de plumas,
E na terra um mar de flôres.
Sua Excellencia[3] assistia,
O Conde[4] e toda a nobreza,
E os padres por natureza
Lhes faziam companhia:
Estava sereno o dia,
A esphera toda anilada,
A agua do mar estanhada,
Brando o vento e lisongeiro;
E com tudo no Terreiro
Houve grande carneirada.

[3] Marquez das Minas.

[4] Conde do Prado.

Emfim, que a festa passada
Tão cheia de cavalleiros
Si a fizessem de barbeiros
Não seria mais sangrada:
Alli vi dar cutilada,
Que todo o ventre dissipa
Do bruto que a participa,
E eu disse pasmado e absorto
Que a Catana era do Porto,
Por rilhar sempre na tripa.
Logo na primeira entrada
Houve jogo de manilha,
Que para isso a quadrilha
Pelo Lindo era pintada:
Quem lhe dava uma encontrada,
E quem na ponta a levava,
Tudo então nos agradava,
Pois conforme ouvi julgar
Alli entre dar e levar
Pouca vantagem se dava.
Cada qual sem mais tardança
Á dama, a quem mais se applica,
Levou na ponta da ...
O que ganhou pela lança.
Até o padre Hortalança,
Digo, o conego Gonçalo,
Se logrou d’este regalo:
E eu só na baralha ingrata
Não vi manilha de prata,
Que na de ouro já não fallo.
Ao Marinho generoso
O dia franco e escasso
Concedeu-lhe o galanaço,
Recatando-lhe o ditoso;
E visto que por airoso
É o Adonis da quadrilha,
Zundú se lhe rende e humilha,
Dando-lhe, porque o conforte,
No cravo a primeira sorte
E a segunda na manilha.
Barreto alheio de susto,
Que não implica ha mostrado
Nem ao forte o asseado,
Nem ao galante o robusto;
Luzimento á pouco custo,
Bom ar sem affectação,
Foi julgado em conclusão
Que a destreza o não desvela,
Pois sem cuidado na sella
Cahia no caprazão.
Muito Euzebio se desvella
Em correr mais que ninguem,
E por correr sempre bem
Nunca se assentou na sella;
Como ha de assentar-se nella,
Si correr só pretendia?
Tão propriamente o fazia
Que porque estar e correr
Não podem junctos caber,
Não se assentava, corria.
O valeroso Moniz
Em gala, cavallo e arreio
Quanto ganhou pelo asseio,
O perdeu pelo infeliz;
O que eu vi e a terra diz
É que de muito adestrado
Andou tão avantajado,
Que a voz do povo levou:
Com que desde então ficou
O povo mudo e pasmado.
Outro Moniz valentão
O fez tão perfeitamente,
Que sendo em sangue parente,
Era na destreza irmão:
Pelo forte em conclusão
Deixou de si tal memoria,
Para sua e nossa gloria;
Mas deixando aos mais em calma,
Fez pouco em levar a palma
Quem é filho da Victoria.
Do Bolatim a cavallo
Dizia o povo gostoso
Que era da festa o gracioso,
E eu digo, que era o badalo,
Quem chegou á pondera-lo
Correndo sobre a rocina,
Revirar a culatrina,
Pernil aberto para o ar,
A que o póde acommodar
Mais que a um sino que se empina.
Ao Araujo famoso
No principio da carreira
Resveiou-lhe a dianteira
O cavallo de furioso;
Cego, arrojado e fogoso
Entre uns Baetas metteu-se,
Quem sentado estava ergueu-se,
Porém o baixel violento,
Como ia arrazado em vento
Deu nuns bancos e perdeu-se.
Cahido o moço infeliz
Houve grita e alarido,
Sendo que cabe o entendido
Em tudo o que se lhe diz;
Ergueu-se em menos de um triz,
E pondo-se na vereda
Correu com cara tão leda,
Que causou admiração
Em todos, porque já então
Tinha elle com todos queda.
Um sobrinho do Frizão
Ao cheiro acudiu dos patos,
Porque é em publicos actos
Muito ouzado um patifão;
Prezea a redea a um arpão,
Nos estribos dous arpeus,
Puz eu os olhos nos céus,
E disse que bem podiam
Louvar a Deus os que viam
A cavallo um louva-Deus.
Uma aguilhada por lança
Trabalhava á meio trote,
Qual servo de dom Quixote,
A quem chamam Sancho Pança;
Na cara infame confiança,
Na sella infame perneta,
E com tramoia secreta
Eia sôbre o seu jumento
Pelo arreio e nascimento
Á bastarda e á gineta.
Elle andou tão desastrado,
Que para dar-lhe sentido,
O cavallo era o corrido
E elle o desavergonhado;
Estava o Frizão pasmado
De gosto babando o freio,
Por ser de razão alheio
Vêr-se com tão pouco abalo
Não no centeio o cavallo,
Mas no cavallo o centeio.
A este filho universal,
Com tres paes e tres padrastos,
Todo vestido de emplastos
Se emprestado o mesmo val;
Se seguia um sigarral,
De quem tomaram modelos
Para a corcova os camellos
Cuja perna dobradiça
Sempre a memoria me atiça
Da rua dos Cotovellos.
No menino Ascanio fallo,
Que o pae Eneas a murro,
Devendo de o pôr num burro,
O mandou pôr a cavallo;
Este menino ia ao gallo,
E encontrou-se co’a galhofa,
Onde servira de mofa
Os dias, que alli gastára,
Si um braço lhe não quebrára,
E mandaram numa alcofa.
Lá vem o Chico ás carreiras,
Dando esporadas crueis;
Numa sella de alambeis,
Vestido de bananeiras;
Nas laranjadas primeiras
Teve tão adversa estrella
Que foi cahir na esparrella,
Não como rôla em verdade,
Porque queda foi de frade,
Pois logo agarrou da sella.
Ás festas não deu desmaio
Nenhum d’estes entremezes,
Que não ha ouro sem fezes,
Nem comedia sem lacaio:
Qualquer correu como um raio,
E fez sua obrigação,
Excepto o boi do sertão,
Sendo que alguem lhe cubiça
O resistir á justiça,
E dar co’ a forca no chão.
O lindo Eusebio da Costa,
Escrivão das Onze mil,
Por assombrar o Brazil,
Fez tudo de sobre a posta;
C’os passados deu á costa,
E excedeu á toda a lei,
E assim eu sempre direi
Hoje, em toda a occasião,
Que o ser por casta Reimão,
Lhe vem por ter mão de Rei.