Á CAVALLARIA
DA FESTA DAS VIRGENS NO TEMPO DO GOVERNO DE D. JOÃO DE ALENCASTRE, SENDO JUIZ GONÇALO RAVASCO CAVALCANTE DE ALBUQUERQUE

Foi das Onze mil donzellas
Juiz o juiz mais nobre
De quantos no Brazil cobre
O manto azul das estrellas:
Nesta festa sem cautellas
Gastou com liberal mão;
E para mais devoção
Usar de escrivão não quiz,
Sendo o primeiro juiz
Que serviu sem escrivão.
Bem mostra que de Bernardo
Tem herdado o natural,
Além de ser principal
O seu amigo galhardo:
Applausos grandes aguardo,
E de Camena melhor,
Que publiquem seu primor,
Que a minha Thalia nova
Hoje admirações approva
Por mais heroico louvor
Seis dias de cavalleiros
Houve com bastante graça,
Foram bons e maus á Praça
Em ginetes e sendeiros:
Tambem houve aventureiros
Premios e mantenedor,
Touros que foi o melhor:
Porém sem ferocidade,
Que os touros nesta cidade
Não são de muito furor
E pois eu chronista sou
D’esta gran festividade,
Tenho de fallar verdade
E dizer o que passou:
Agaste-se quem andou
Mal, que á mim se me não dá;
Sem saber não fôra lá;
E si lhe der isto espanto,
Quando eu fizer outro tanto
Tambem de mim fallará.
Bem sei que é culpa fatal,
E contra a razão sossobra
Dizer mal de quem bem obra,
E bem de quem obra mal:
Mas nesta festa cabal
Com meu fraco entendimento,
Aos cavalleiros intento
Julgar sem odio nenhum,
Applaudindo á cada um
Conforme o merecimento.
Nestes dias festivaes
Com summa gala e grandeza,
Assistiu toda a nobreza
Dos homens mais principaes,
Ministros, officiaes
De guerra e damas mui bellas,
Que em palanques e janellas
Mostravam com arrebol,
Que estando alli posto o sol,[5]
Bem podiam ser estrellas.

[5] Refere-se ao governador.

Posto o sol alli se via,
Porém com notavel gosto,
Quando vi que era o sol posto
Mais o Terreiro luzia:
Dois soes[6] postos na Bahia
Vi com differença atroz
Um Saturno que se poz,
Outro posto na janella
Sol de luz mais clara e bella,
Que hoje nasce para nós.

[6] Allude aos dois governadores d. J. de Aloncastre e Camara Coutinho, que se achavam presentes.

Desterrando sombras mil
De um sol que causou desmaios,
Nasce com benignos raios
Este sol para o Brazil:
Oh quem tivera a subtil
De Apollo lyra discreta,
Da fama a aguda trombeta,
Para que pudesse ousado,
Sem temor, nem perturbado
Descrever este planeta.
Mas é fraco o meu engenho
Para de um sol sem desmaios
Querer ventilar os raios
Quando olhos de aguia não tenho:
E si a tão sublime empenho,

Onde o mais sabio delira,
Meu pensamento subira,
Logo d’essa esphera clara
Como Phaetonte rodára,
Ou como Icaro cahira.
Quando o planeta maior
Á vista humana se expõe,
É que a seus raios se oppõe
Atrevido algum vapor:
E si neste sol melhor
Nenhuns eclypses se vêm,
Não se atreverá ninguem
Sem ter de nescio desmaios
Querer contemplar os raios
Esclarecidos que tem.
Quando da esteril mulher
Nasceu o maior do mundo
Admirações e profundo
Pasmo veiu a gente a ter:
E si com João nascer
Houve tanta admiração,
Á Bahia outro João,
Sol de claro nascimento
Nasce com merecimento
Para a mesma suspensão.
E como não pasmarei
Eu, e este povo tambem,
De ter por General, quem
Sceptro merece de rei?
Pois a ventura e a lei
Divina dispoz, senhor,
O seres Governador,
Com tudo sabemos nós,
Que um foi de vossos avós
De Pedro progenitor.
D’aquelle em tudo primeiro
João era nada segundo
Sois, e bem conhece o mundo,
Descendente verdadeiro:
Tambem da Casa de Aveiro
Muita nobreza alcançaes:
Alencastre vos chamaes,
De Duarte Inglez potente
Clarissimo descendente:
Silva sois, não digo mais.
Com branca e encarnada pluma
Galan vestido de verde,
Que inda a esperança não perde
Do Neto da clara espuma:
Capitão de graça summa
André Cavallo sahiu:
Logo o povo se sentiu;
Porque de incidente novo
Os olhos levou do povo
Quando no Terreiro o viu.
Num branco bruto corria
Mais ligeiro do que o vento,
Tanto que c’o pensamento
Correr parelhas podia:
Veloz desapparecia
Das pernas ao leve abalo,
E não podia julga-lo
O povo que alli se achava,
Si era vento que levava
Pelos ares o Cavallo.
Poz André com bizarria
Todas as lanças mui bem,
E inda assim não faltou quem
Murmurasse todavia.
Soube elle da zombaria,
Que se fez e presentiu
Quem fôra o que alli se riu,
E no outro dia com brio
Um cartel de desafio
Fixou, mas ninguem sahiu.
No cartel que poz, mostrava
Que a qualquer que se julgassem
Tres lanças que se tirassem,
Mil cruzados offertava:
O delinquente acceitava
O desafio esta vez,
Porém que sem interêz
Com gosto perder queria
Nesta contenda e porfia
Não só mil cruzados, tres.
Pede licença ao senhor,
Que no nome a graça traz;
Mas elle como sagaz
O aconselha com primor:
Diz-lhe que fôra melhor
Esta contenda escuzar;
Porém o mancebo alvar,
Fiado em ser cavalleiro
E fiado em ter dinheiro,
Não quiz o pacto acceitar.
Porque se não vence não;
Dizia o moço magnata,
Nem por ouro, nem por prata
O seu sangue de Aragão;
E vendo o senhor dom João
Que si a licença negava
A André Cavallo ultrajava,
Pois podiam presumir,
Si ao Campo o não vissem ir,
Que o dinheiro lhe faltava.
Lhe disse que não só tres
Si corressem mil cruzados,
Si não que depositados
Tinha André Cavallo dez:
Mas o moço Aragonez
Vendo esta resolução,
Por temer a perdição,
A que punha o seu dinheiro,
Toma conselho primeiro
Co’o reverendo Frizão.
O padre, que sem estudo
As leis entende civis,
E com manhosos ardis
Obra mal e entende tudo;
Lhe diria mui sizudo
Com aspecto venerando,
Rindo-se de quando em quando,
Que assim seus enganos lavra:
«Não se lhe dê da palavra,
Diga que estava zombando.»
Assim foi que o desafio
Veiu a parar em burrada,
Que a palavra não val nada,
Si na occasião falta o brio:
E para que com desvio
Não fossem mais inimigos,
Evitando alguns perigos,
Em boa paz os chamou
O General e tractou
De que ficassem amigos.
Depois das pazes, emfim
Lhes pediu que cavalgassem,
E um par de lanças tirassem
Cada qual em seu rossim:
Elle lhe disse que sim,
E de improviso avisou
Ao irmão que não tardou
Com trazer-lhe bons arreios,
Cavallos, sellas e freios,
E com elles se embarcou.
Num dia dos derradeiros
Ao Terreiro os dous chegaram,
E ambos se separaram
Logo dos mais cavalleiros:
Cuidam que são os primeiros
Fidalgos que a terra tem;
E nescios não antevem
Que diz o povo, e não erra,
Que são Fidalgos da Terra,
E outros na Terra ha tambem.
Empinou-se-lhes a Ruça,
E de quatro companheiros,
Sem mais outros cavalleiros,
Fizeram a escaramuça:
O General se debruça,
Para mette-los bem nella,
Na janella com cautela;
Porém usou de revoltas,
Porque mettendo-os nas voltas,
Mandou fechar a janella.
A escaramuça acabada
Fizeram a cortezia,
E todo o povo seria
Vendo a janella fechada:
Nas voltas não viram nada;
Que com notavel trabalho
No ay hombre cuerdo á cavallo;
Porém depois que acabaram,
E o General não acharam,
Ficaram de vinha d’alho.
Com rostos descoloridos,
Desesperados agora
Iam por dentro e por fóra
Da propria côr dos vestidos:
Os que são desvanecidos
E, sem prudencia e razão,
Presumem mais do que são,
Emendem seus pensamentos,
Que para seus desalentos
É vivo o senhor d. João.
Não presumam porque tem,
Que são mais que os pobres, nobres,
Pois ha muitos homens pobres
Mui bem nascidos tambem:
Ao pequeno não convém
Por pequeno desprezar,
Que si este quizer fallar,
Achar póde algum defeito,
Que nenhum ha tão perfeito
Em quem se não possa achar.
Seguia-se um cavalleiro
Ao famoso André Cavallo,
Que levou sem intervallo
De cada golpe um carneiro:
Tambem foi aventureiro
De um premio, mas com defeito
Dava ao corpo um grande geito,
E ficou passado e absorto
De que fosse ao premio torto
E o premio a outro direito.
Ao famoso Braz Rabello
Razão é de mestre o apode,
Pois dar dias sanctos póde
Nesta arte ao que fôr mais bello;
E si com louco desvelo,
Do que digo algum se abraza,
Attenda á razão que é raza,
E verá se faz espantos
Que dar possa os dias sanctos
Quem tem Domingas de Casa.
Nas lanças que poz mui bem
Teve de premios ganança,
E certo que pela lança
Não o ha de vencer ninguem:
Dos cavalleiros que tem
Modernos hoje a Bahia
Leva Braz a primazia,
Porque não ha nesta Praça
Quem se ponha com mais graça,
Fortaleza e bizarria.
Tambem aquella fatal
Emulação de Mavorte,
Para os inimigos forte,
Para os amigos leal;
Applauso merece egual;
Pois nesta cavallaria
Si aos mestres não excedia
Por mais antigos nesta arte,
Aos modernos nesta parte
Elle leva a primazia.
Tambem no Machado fallo,
Que é razão por elle accuda,
Pois sempre ao Cavallo ajuda,
Mas não o ajuda o Cavallo:
Inda assim posso louva-lo
Dando-lhe varios apodos,
Porque conheço em seus modos,
E mui bem posso affirmar
Que nisto de cavalgar
Leva vantagens á todos.
Em mau cavallo corria,
Mas um premio mereceu:
Veja-se quem o perdeu
Que cavalleiro seria?
Aposto que alguem diria,
Vendo que ás carreiras passa
Sem fortaleza, nem graça,
Que o moço com seu sendeiro
É nos fumos cavalleiro,
Porém não cá para a Praça.
Outro cavalleiro airoso
Andou na festividade,
E vi na velocidade
Com que corre ser Velloso;
Por cavalleiro famoso
O povo o acclamou de novo,
E eu só admirando o louvo,
E acho discrição calar,
Porque é escusado fallar
Quando por mim falla o povo.
O Ricardo valeroso
Andou bem, porém sem sorte,
Porque tem pouco de forte,
Si bem tem muito de airoso:
Perdeu pouco venturoso,
Mas sem nenhum sentimento,
Um premio que Braz attento
Ganhou; porque não se atreva
Á aquillo que tambem leva
Com as palavras o vento.