D’estes que campam no mundo
Sem ter engenho profundo,
E, entre gabos dos amigos,
Os vemos em papafigos
Sem tempestade, nem vento:
Anjo bento!
De quem com lettras secretas
Tudo o que alcança é por tretas,
Baculejando sem pejo,
Por matar o seu desejo,
Desde a manhãa té à tarde:
Deus me guarde!
Do que passeia farfante,
Muito presado de amante,
Por fóra luvas, galões,
Insignias, armas, bastões.
Por dentro pão bolorento:
Anjo bento!
D’estes beatos fingidos,
Cabisbaixos, encolhidos,
Por dentro fataes maganos,
Sendo nas caras uns Janos,
Que fazem do vicio alarde:
Deus me guarde!
Que vejamos teso andar
Quem mal sabe engatinhar,
Muito inteiro e presumido,
Ficando o outro abatido
Com maior merecimento:
Anjo bento!
D’estes avaros mofinos,
Que põem na meza pepinos,
De toda a iguaria isenta,
Com seu limão e pimenta,
Porque diz que queima e arde:
Deus me guarde!
Que pregue um douto sermão
Um alarve, um asneirão;
E que esgrima em demasia
Quem nunca lá na Sophia
[1]
Soube pôr um argumento:
Anjo bento!