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A architectura religiosa na Edade Média

Chapter 19: CAPITULO TERCEIRO
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About This Book

Conjunto de ensaios que examina a formação e as funções da arquitectura religiosa na Idade Média, partindo de reflexões filosóficas sobre as noções de belo, bom e justo. Define três categorias de influências — a ambiental e climática, a histórica e social, e a pessoal do autor — e avalia como geografia e clima moldaram crenças e tipologias construtivas. Analisa a passagem do paganismo ao cristianismo e o impacto das invasões sobre práticas litúrgicas e formas edificadas, oferecendo leituras estéticas, simbólicas e sociais dos espaços sagrados e das suas transformações ao longo do período medieval.


CONSTANTINOPLA—Exterior de S.ta Sophia


A construcção, exceptuando a pequena saliencia da ábside principal, está circumscripta n'um vasto quadrado de 77 metros de lado, como se vê da seguinte planta, limpa das excrescencias de origem turca.




A disposição interna offerece tres naves, a do centro muito larga e alta em relação ás lateraes. A cobertura d'esta nave central constitue um dos caracteres principaes da architectura byzantina. No meio d'ella desenha-se um grande quadrado de 31 metros de lado, exactamente a largura da nave, definido pelos angulos internos de quatro enormes pilares muito elevados, sobre os quaes veem apoiar-se quatro grandes arcos de volta inteira. Repousando sobre os fechos d'estes arcos, ergue-se uma cupula colossal, cujo diametro é, portanto, egual ao lado do quadrado. O espaço vasio, que ficaria comprehendido entre os quartos de circumferencia da cupula e os dos arcos sobre que ella assenta, foi cheio, formando uma superficie concava e triangular, gerada pela curvatura da cupula descendo ao longo dos arcos. Esta construcção, facilitando a passagem da figura circular da cupula para a quadrada dos pilares, constitue quatro enormes pendentes, que ligam a mesma cupula aos arcos, sobre que ella repousa.




Esta disposição, muito caracteristica, comprehende-se com facilidade, estudando o anterior córte, feito pelo centro da cupula e perpendicular ao eixo maior da nave central.

Para o oriente e para o occidente—porque o eixo principal da egreja tem esta direcção—duas semi-cupulas firmam-se nas paredes externas e encostam-se aos arcos internos, tocando-lhes quasi o intradorso; assim fica fechada a cobertura da nave central. O templo era, pois, orientado; a luz da madrugada espalhava-se na grande nave, durante as ceremonias religiosas, em geral matutinas. Esta orientação apparece mais tarde no Estylo Romanico. Vamos, assim, fazendo desde já simples approximações.

Os grandes arcos lateraes da nave principal foram cheios por paredes, onde se abrem arcadas de volta inteira sobre as columnas do primeiro e segundo pavimento das naves secundarias; por cima d'estas galerias a egreja recebe luz directa de janelas, abertas para o exterior e deitando sobre os terraços das mesmas naves, cobertas por abobadas de volta inteira.

Assim, o corpo central do edificio apparece definido, mais elevado do que os collateraes, recebendo luz de fóra. Se o Estylo Latino deixou aqui reminiscencias das galerias sobrepostas para separação dos sexos, a disposição tambem faz lembrar as naves centraes mais elevadas dos templos romanicos e ogivaes. Na parede oriental, sob a semi-cupula respectiva, rasgam-se tres ábsides, das quaes a do centro, um pouco saliente do edificio, era o sanctuario. Na parede occidental em frente das ábsides, existem as tres portas de entrada, precedidas de um duplo narthex, reminiscencia do porticos dos templos classicos, adoptados tambem pelo Estylo Latino.

Se a isto accrescentarmos que o edificio é profusamente illuminado por numerosas janelas de volta inteira, relativamente pequenas, existindo na base da grande cupula central uma verdadeira corôa de quarenta d'estas janelas, que lhe dão um aspecto singular de elegancia e de levesa, teremos esboçado singela descripção architectonica, que, sem confusões e incertezas segundo pensamos, dará idéa do edificio e das feições caracteristicas do Estylo Byzantino, que Santa Sophia traduz magistralmente.

Sem falarmos por emquanto na ornamentação, devemos concluir que o primeiro caracter evidente d'este estylo é a cupula. Como quasi todos os elementos fundamentaes architectonicos, foi ella conhecida no mundo antigo. Constitue uma especie de cobertura, que os grandes constructores e architectos da antiguidade deviam ter descoberto quasi ao mesmo tempo, principalmente nos climas muito quentes, de longas estiagens e por isso de poucas florestas, que economicamente fornecessem madeira para construcções. Póde servir isto de exemplo para as influencias do clima sobre a construcção e d'esta sobre a arte. Assim, tambem a ogiva, por outras rasões especiaes, deve ter sido conhecida pelos bons architectos e constructores, porque os houve excellentes na mais remota antiguidade.

A cupula veiu do Oriente, da Persia dizem; é natural e logico. Mas não póde existir a menor duvida em que, pelo menos, na Roma antiga foi conhecida. Ainda hoje na cidade eterna A cupula veiu do Oriente, da Persia dizem; é natural e logico. Mas não póde existir a menor duvida em que, pelo menos, na Roma antiga foi conhecida. Ainda hoje na cidade eterna a podemos ver no Pantheon de Agrippa, transformado em egreja christã, onde por signal jazem os restos mortaes de Victor Manuel I, o unificador da Italia. O auctor d'este livro admirou esta soberba cupula, que produz espanto pela perfeição da construcção arrojada, tão excellente que resistiu á acção de dezenove seculos, porque foi edificada no imperio de Augusto. Se a cupula de Santa Sophia admira tendo o diametro de 31 metros, a do Pantheon causa assombro porque a excede em grandeza. É toda de pedra talhada e tem 43 metros de diametro; no alto, tambem a 43 metros, offerece uma grande abertura por onde o templo recebe a luz.


CONSTANTINOPLA—Interior de S.ta Sophia


Bastaria este exemplo existente para demonstrar, aos que não ignoram o principio da evolução da arte e da sciencia de construir, que uma maravilha d'estas não póde constituir um producto esporadico n'uma civilisação. Roma conhecia este systema de construcção, porque o empregou, logo conhecia-o tambem a Grecia. É regra logica e segura. Verdade seja que o Pantheon é um templo circular, precedido de um simples portico de frontão classico; n'este caso, a cupula repousa toda sobre paredes, emquanto que em Santa Sophia firma-se sobre quatro pilares, com auxilio dos pendentes. Eis a caracteristica differença.

D'esta fórma especial de construcção, que provavelmente foi empregada nos tempos mais remotos em Babylonia, na Assyria e na Persia, n'um ou n'outro ponto preferida por condições locaes, é que não se encontraram, até hoje, vestigios no classico romano e no hellenico. A cupula de pendentes é, pois, um dos caracteres fundamentaes do Estylo Byzantino, herdado de estylos antiquissimos.

Entre nós existe um exemplo d'esta cobertura, na Egreja do Sagrado Coração de Jesus, vulgarmente denominada da Estrella. A cobertura interior do cruzeiro, quadrado de cêrca de 12 metros de lado, é uma cupula d'este genero, sustentada por quatro arcos. A unica differença, aliás secundaria, consiste em que a cupula repousa sobre um corpo cylindrico, entreposto entre ella e os arcos, em cuja superficie se abrem as janellas. Em geral, as cupulas byzantinas repousavam directamente sobre os arcos sem interposição do tambor cylindrico; dizemos em geral, porque nos pareceu que esta interposição, embora pouco accentuada, se dá na egreja de S. Marcos de Veneza, sem, todavia, o podermos affirmar com plena convicção.

A ornamentação de Santa Sophia era tambem caracteristica. A vontade omnipotente do Imperador, secundada pelo espirito respeitoso—iamos a escrever servil—dos funccionarios das suas vastas provincias, fez saquear os templos pagãos do oriente, como tambem se praticára no occidente, para enriquecer o novo templo, o emulo do antigo templo de Salomão. A historia relata a este respeito espantosos factos de espoliação e destruição dos antigos templos classicos de Palmyra, Pergamo, Heliopolis, Epheso e outras cidades. Ora, as depredações n'este caso exerceram-se nos thesouros immensos da arte hellenica e oriental; emquanto, no occidente, o Christianismo encontrou a mais modesta arte do classico romano. Comprehende-se, pois, a enorme differença da ornamentação das egrejas nos primeiros estylos christãos.

Os mais ricos materiaes foram empregados com profusão. Marmores rarissimos e finos, o porphyro, o granito e a malachite constituiam as columnas e forravam as paredes. Por toda a parte reinava esse luxo asiatico, em que a prata, o ouro e até as pedras preciosas se revesavam com os grandes mosaicos orientaes de fundo dourado ou de azul escuro, revestindo as cupulas e os pendentes de immensos quadros, contendo passagens do Novo e do Antigo Testamento, scenas reaes e symbolismos diversos, onde as figuras appareciam com desenho incorrecto, sem vida e movimento, em grupos symetricos, expressões hieraticas de uma arte crystallisada, que perdera as tradições do grande estylo e não estudava a natureza.

A magnificencia dos objectos do culto attingiu proporções phantasticas em Santa Sophia.

Como se o ouro não fosse bastante precioso, o altar era feito de uma singular liga de ouro, prata e perolas e pedras preciosas reduzidas a pó. As suas quatro faces, cobertas de baixos relevos byzantinos, brilhavam rica e profusamente incrustadas de perolas e gemmas de todas as especies.

Este altar era coberto pelo ciborio em fórma de torre, cujo docel de ouro massiço repousava sobre quatro columnas tambem de ouro e prata, entre as quaes se viam suspensas grandes espheras de ouro com a cruz grega. No interior do ciborio, pendente do docel e como pairando sobre o altar, uma pomba de ouro representava o Espirito Santo. Era a custodia, onde se guardavam as sagradas particulas. Todo este conjunto refulgia de perolas e gemmas preciosas.

O sanctuario fôra separado do corpo da egreja por uma alta divisoria de prata, sustentada por doze columnas de ouro. Nas grandes superficies de prata d'esta divisoria viam-se esculpidas em alto relevo figuras de santos e lavores de caracter byzantino.

Quasi no centro da nave central, em frente do altar, um enorme ambon de fórma circular, em recinto vedado, servia de côro para as dignidades ecclesiasticas e de tribuna para a côrte imperial. Era coberto por um docel de metaes preciosos, encimado de uma grande cruz de ouro, recamada de granadas e perolas; este docel firmava-se sobre oito columnas de marmore. De marmore e recamadas de ouro eram tambem as escadas de accesso do ambon.

Nas hombreiras e nas portas do edificio havia-se prodigalisado a prata, o marmore, o marfim e o cedro. Emfim, todos os restantes objectos do culto, por mais secundarios que fossem, manifestavam riqueza deslumbrante, accusando a tendencia oriental de carregar as linhas e as fórmas estheticas com pesados ornamentos, encrustados de gemmas e metaes preciosos.

Imagine-se, pois, o effeito deslumbrante de tudo isto: columnas e paredes de finissimos marmores polidos, mosaicos de fundo de ouro revestindo as abobadas das cupulas e das absides, espalhando-se pelos pendentes e pelo corpo da egreja em grandes quadros, os altares, o ambon e os objectos do culto divino recamados de pedrarias, as grades e divisorias de prata, imagine-se toda esta riqueza salomonica e oriental, rutilando á luz de 6:000 grandes lampadas de metaes preciosos ricamente cinzelados!

Esta impressão extraordinaria, embora não comparavel, sentiu-a um dia o auctor d'este livro ao entrar n'uma festa religiosa, em S. Marcos de Veneza; occorrendo-lhe, n'esse momento, a bella e rigorosa phrase de Theophilo Gautier, porque a egreja, bem mais modesta em tudo do que o foi a de Santa Sophia, tinha reflexos fulvos e brilhantes, como se fosse uma grande caverna de ouro!

Em rapidos traços, tal foi nos primitivos tempos a Egreja de Santa Sophia de Constantinopla, ainda hoje rica e soberba apesar de saqueada pelos turcos de Mahomet II, se não pelo proprio Mahomet; egreja, transformada em mesquita, que os dignos descendentes dos conquistadores cobriram de estuques com arabescos orientaes e versiculos do Alcorão!

D'esta simples e modesta noticia deprehendem-se os caracteres, ou melhor as feições do Estylo Byzantino; devemos, porém, entrar ainda n'este ponto em alguns pormenores.

A fórma das egrejas byzantinas offerecia differentes disposições. Démos a de Santa Sophia, falaremos ainda de outras. Em S. Vital de Ravenna, edificio coevo de Santa Sophia, a planta offerece a figura de um octogono regular; a grande cupula central repousa sobre oito pilares internos, dispostos nos angulos do polygono, deixando entre si e as paredes da egreja uma nave octogonal. A cruz grega desenha-se nos eixos principaes dos dois corpos da egreja, o que termina na abside e o que ao meio lhe fica perpendicular. É claro que n'este caso os pendentes são pequenos e sel-o-iam successivamente, quanto mais numerosos fossem os lados do polygono.

Na antiga egreja dos Santos Apostolos em Constantinopla, a nave principal, tendo em comprimento o triplo da largura, é cortada ao meio por um transepto perpendicular das mesmas dimensões. Nove cupulas de pendentes eguaes cobrem esta superficie, representando uma verdadeira cruz grega. S. Marcos de Veneza é uma imitação d'esta egreja. Sem multiplicarmos os exemplos, poderemos estabelecer como tendencia geral a maior ou menor approximação da cruz de braços eguaes, a do estylo grego.

No conjunto os edificios, em geral, manifestam-se pesados, austeros e simples, pelo menos nos tempos primitivos. A cupula principal eleva-se e predomina sobre as menores e mais baixas, se estas existem, sobresaíndo na tendencia horisontal das outras coberturas. A construcção respira estabilidade e solidez. As janelas são pequenas, segundo o uso oriental, muito numerosas, de volta inteira como as portas, offerecendo ás vezes a fórma de ferradura tão usada no Estylo Arabe, que afinal teve tambem muitas das origens do byzantino no mundo oriental.

O interior respira a riqueza, que manifestou em grande escala a egreja de Santa Sophia. A ornamentação é caracteristica; mas, na realidade, são as cupulas de pendentes, os mosaicos orientaes, as arcadas sobre columnas, os capiteis, e os arcos geminados, que melhor definem o Estylo Byzantino, alem de outros que já descrevemos e vamos enumerar. Observaremos que um grande numero d'estes elementos, não todos, serão empregados depois nos Estylos Romanico e Ogival.

Os mosaicos, de fundo de ouro ou de azul muito vivo, representam em grandes quadros, principalmente nas cupulas, nos pendentes e nas abobadas das absides, motivos sagrados ou profanos em que entram poderosos senhores, como nos de Ravenna. A arte é, porém, hierarchica, secca e fria. Em geral, o desenho manifesta singulares intenções de symetria. As personagens não têem vida e movimento; parecem, se nos consentem a expressão, multidões de manequins, dispostos em maus quadros scenicos. Este espirito byzantino da arte influiu, de certo, nos pintores e nos esculptores occidentaes, nos periodos romanico e ogival.

A ornamentação profusa inspira-se nas artes do Oriente, offerecendo fórmas curiosas e originaes. Os capiteis, por exemplo, são de extrema diversidade. Massiços e pesados, quasi todos, variam de contornos: cubicos, arredondados na base, em pyramides truncadas de arestas salientes, ás vezes dois sobrepostos, como succede na egreja de Ravenna. A sua ornamentação manifesta, tambem, caracteres diversos, em que predominam perolas, galões entretecidos, rendilhados de folhas phantasticas, graciosos lavores abertos que parecem ornados de pedrarias. Ás vezes, aves e animaes de singulares aspectos, vasos e cestos, completam esta profusa ornamentação, em que foram abandonados e esquecidos o gosto e as proporções classicas.

No Estylo Byzantino, a esculptura, bem como a pintura, apresentam-se decadentes, padecem quasi de eguaes defeitos. A pedra é trabalhada sem os córtes largos e profundos, que procuram o relevo pelas sombras e saliencias dos planos e dos ornamentos. Os artistas byzantinos lavravam frouxamente a pedra. Parecia empregarem mais o buril do que o escopro; foram mais gravadores de metaes do que esculptores de pedra.

É evidente que todos estes caracteres byzantinos tiveram profunda influencia sobre os dos Estylo Romanico e Ogival, onde muitos apparecem, mas já tratados com outro vigor e largueza.

Assim, pensamos ter dado successiva idéa do Estylo Byzantino, que o calor do Christianismo fez brotar vigoroso e esplendido do fertil solo da arte hellenica e oriental.



CAPITULO TERCEIRO

ACÇÃO RECIPROCA DOS DOIS ESTYLOS CHRISTÃOS PRIMITIVOS



Assim, o espirito do Christianismo, reanimando as energias quasi moribundas da arte grega e oriental, e da romana, creára dois formosos estylos; correspondendo, na realidade, a expressões definidas do bello nas duas maiores civilisações, em que então se dividia a Humanidade.

O Estylo Latino nascera primeiro, começando a constituir-se logo após a saída do Christianismo das Catacumbas. Abandonando a Italia, Constantino levou-o comsigo e implantou-o na sua nova capital, Constantinopla, que teve, pois, como o occidente, as suas basilicas, entre as mais importantes a dos Santos Apostolos, a de Santa Irene e a primitiva de Santa Sophia, que Justiniano dois seculos depois transformou no grande templo byzantino, descripto no capitulo anterior.

No periodo de formação do Imperio do Oriente, isto é, desde Constantino até Theodosio, o Estylo Latino desenvolveu-se com maior ou menor intensidade, salvo n'essa breve tentativa reaccionaria do polytheismo vencido, que se encarnou no imperador Juliano.

O Estylo Latino não tinha, porém, as qualidades exigidas pelo meio grego e oriental, nem as basilicas classicas, de que elle derivava, eram muito vulgares no oriente, se algumas importantes existiam. O proprio clima não aconselhava coberturas de madeira, que o doce e temperado clima da Italia e a tradição conservaram no primitivo estylo. Como as plantas exoticas teem, em regra, vida artificial e difficil, o Estylo Latino, nascido no occidente, não encontrando no oriente condições favoraveis, estiolou-se a pouco e pouco e por fim desappareceu sob a influencia de elementos architectonicos mais poderosos, porque eram harmonicos com o meio natural e social, para onde o Estylo Latino fôra transplantado.

Todavia, o novo Estylo Byzantino, que ia formar-se em harmonia com esse meio natural e social, não podia repudiar os elementos architectonicos fundamentaes do Estylo-Latino vencido, que não eram antinomicos com os seus e correspondiam, alem d'isso, a qualidades e exigencias do espirito christão, que, sendo origem commum de ambos, imprimira á Arte novas feições em situações differentes.

De facto, não é difficil observar que o Estylo Byzantino, apesar da sua originalidade, se apropriou de alguns caracte De facto, não é difficil observar que o Estylo Byzantino, apesar da sua originalidade, se apropriou de alguns caracteres fundamentaes do Latino; muito embora, como em breve diremos, a fusão d'estes estylos se devesse realisar mais tarde sob a acção do elemento
barbaro, que não podia deixar de manifestar profunda influencia sobre a architectura christã, visto que a teve decisiva e innegavel na constituição das sociedades medievaes.

Uma observação interessante na formação do Estylo Byzantino consiste em que a sua maior obra, nunca depois excedida nem até egualada, Santa Sophia de Constantinopla, parece ter apparecido como um facto esporadico e uma creação inspirada dos architectos gregos; a verdade é, porém, que o Estylo Byzantino não fugiu á lei de todas as producções humanas, tendo uma formação lenta e evolutiva. Existem e existiram edificios, que constituem verdadeiros marcos milliarios d'esta evolução. O genio dos constructores de Santa Sophia, apenas a precipitou, dando-lhe a apparencia de uma verdadeira revolução nos estylos architectonicos.

É logico suppôr que o periodo de verdadeira constituição do Estylo Byzantino deve ter começado quando Constantinopla foi declarada capital do Imperio. O desenvolvimento de uma nova phase da arte exige sempre elementos de actividade social e de riqueza, que só poderam reunir-se quando a administração geral do Imperio concentrou no oriente todas as forças creadoras, com grave sacrificio do mundo occidental.

Nos principios do seculo VI, o estylo achava-se constituido, offerecendo a sua mais perfeita expressão no templo de Justiniano.

O apparecimento, relativamente rapido, d'esta obra de arte tão perfeita e rica do Estylo Byzantino tinha de exercer forçosamente profunda influencia sobre a arte occidental. Não só as egrejas e as construcções byzantinas começaram logo a elevar-se nos antigos dominios do Estylo Latino e a invadir a Italia, na parte que então constituia um Exarchado do Imperio do Oriente, mas foi rapida a dispersão d'este novo estylo, principalmente no sul da Europa.

Muitas causas especiaes do tempo facilitaram esta dispersão, que reinou na Italia, no sul da França e chegou até á Allemanha, as duas nações que mais tarde deviam cobrir-se de monumentos romanicos e ogivaes. As relações de todas as ordens, entre o occidente e o oriente, eram activas n'esses seculos. Commerciaes havia-as constantes, porque as grandes caravanas, que iam ao Extremo Oriente permutar mercadorias, atravessavam a extensa zona, onde florescia o Estylo Byzantino, tendo um dos seus grandes caravansarás em Constantinopla.

Além d'isso, o espirito religioso activava o movimento dos peregrinos occidentaes para os logares santos na Palestina, onde florescia o Estylo Byzantino, até no proprio templo do Santo Sepulchro de Jerusalem, que serviu depois de exemplar a tantos outros. As descripções, sempre um pouco imaginosas dos viajantes, adornavam o novo estylo de magnificencias e maravilhas, que segundo vimos eram bem merecidas.

Estas causas, só por si explicam a influencia da ornamentação oriental sobre a arte do occidente; a acção, porém, tinha de ser mais completa. Assim, ainda durante a existencia do Imperio ostrogodo de Theodorico, no curto reinado de sua filha Amalasonte, o Estylo Byzantino começou a invadir a Italia. A Egreja de S. Vital de Ravenna, capital do reino godo, foi erecta em 534, epocha em que duravam os trabalhos de Santa Sophia. A Cathedral de Parenzo, cidade maritima da costa oriental do Adriatico, seguiu-se-lhe em 540. Como era natural, a invasão fez-se primeiro pelas grandes cidades litoraes d'este mar, em constantes relações com o mundo oriental.

O facto historico culminante, que facilitou a dispersão do Estylo Byzantino, foi todavia a constituição do Exarchado em Italia. Por morte de Theodorico, sua filha Amalasonte assumiu a regencia em nome do filho Athalarico. Esta princeza herdára algumas das grandes qualidades de seu pae e entre ellas accentuadas tendencias para a civilisação classica, então representada pelo Imperio Byzantino. A morte do herdeiro da corôa entregou-lhe a herança paterna, que a nova imperatriz partilhou com Theodato, seu primo, transigindo assim com a surda irritação dos guerreiros ostrogodos. O assassinio da princeza foi o resultado da transigencia. Então, a desordem e a dissolução apoderaram-se dos estados de Theodorico.

Justiniano aproveitou o ensejo, pensando em restaurar o antigo Imperio de Constantino. Belisario conquistou o sul da Italia e avançou até Ravenna, que por momentos pertenceu á corôa do oriente. As constantes intrigas da côrte byzantina sacrificaram em parte a obra do heroico general de Justiniano, que então incumbiu o persa Narsés de recomeçar a conquista. O famoso eunucho, valido do imperador, em victoriosas companhas contra os godos conseguiu vencel-os, constituindo o ducado de Italia, reduzida a provincia do Imperio Byzantino.

A morte de Justiniano levou ao throno Justino II, espirito fraco, dominado pela imperatriz Sophia, que odiava o heroico eunucho Narsés. Na côrte de Constantinopla ferveram, pois, as intrigas ambiciosas contra o duque de Italia, a quem a propria imperatriz não poupava desgostos e motejos, não se atrevendo a atacar de face o poderoso exarcha e habil administrador. Uma phrase sangrenta fez trasbordar a vingança de Narsés. Dissera a imperatriz, referindo-se ironicamente ás desgraçadas qualidades physicas do duque de Italia, que elle era um homem digno de fazer parte de um grupo de fiandeiras. A resposta do eunucho não se fez esperar. Sentindo a morte proxima, Narsés, incitou entre os lombardos, poderosa e guerreira nação germanica que habitava a Pannonia, a idéa da conquista da Italia. Assim, elles, em 568 atravessando os Alpes, precipitaram-se sobre a peninsula, conquistando em poucos annos parte importante da região septentrional, que ainda hoje conserva o nome de Lombardia.

O Imperio Byzantino, privado de grandes generaes e profundamente corroido por vicios e intrigas, conseguiu apenas detel-os na marcha para o sul; ficando a Italia dividida entre duas poderosas influencias: ao norte, o reino lombardo; ao sul, as provincias do Exarchado de Ravenna, que durou até meiados do seculo VIII, em que foi, emfim, destruido e englobado no novo reino germanico. Assim, durante dois seculos, a civilisação e a arte byzantinas estiveram em contacto directo e intimo com uma das mais intelligentes nações barbaras, das que invadiram o solo da peninsula italica.

As relações entre os Chefes dos Estados tambem eram frequentes. O Imperio do Oriente tinha para os reis semi-barbaros singular prestigio, pelas tradições como legitimo representante do grande poderio romano, que aliás os seus antecessores haviam destruido, pela civilisação relativa e, emfim, pelas immensas riquezas e pelo luxo asiatico da côrte byzantina. As tradições gloriosas e as riquezas foram e hão de ser em todos os tempos motivos de admiração, de respeito e até de culto para os espiritos inferiores. Assim, muitos chefes barbaros solicitavam a nomeação de patricios romanos, ou acceitavam-n'a como grande honra; com effeito, foram patricios Theodorico, rei da Italia, e Clovis, rei de França. Estas relações diplomaticas do tempo não deviam contribuir pouco para a propagação da influencia da arte byzantina, nas nações occidentaes da Europa.

O movimento logico do ardente mysticismo christão facilitou, ainda, esta propagação em grande escala. Desde os primeiros tempos do Christianismo os seus mais ferventes e menos ignorantes proselytos deviam considerar a representação material das idéas sagradas, de Deus principalmente, quasi uma verdadeira profanação. Era a consequencia logica de doutrinas muito espiritualistas na essencia.

Assim acontecera, tambem, que os chefes do povo hebreu, Moysés entre outros, haviam mais de uma vez destruido os idolos, deante dos quaes se prostrava o povo. O Mosaismo e o Islamismo, duas religiões de forte essencia espiritual, não admittiram nunca a representação material da divindade. No rigor da logica o Christianismo devia chegar, e chegou de facto, a identicas conclusões.

D'aqui proveiu a famosa seita dos Iconoclastas, no fim do seculo V já tão poderosa que teve por chefe ou adepto, pelo menos, o Imperador Zenon. Estes destruidores de imagens, que as perseguiam com o terrivel furor religioso, atravessaram quasi quatro seculos no Oriente, chegando a invadir a propria Italia. No seculo VIII estes verdadeiros barbaros eram poderosos. Condemnados por Concilios regulares, embora protegidos por alguns imperadores, vieram só a extinguir-se no seculo IX. N'este periodo extenso as artes byzantinas, pelo menos a esculptura e a pintura, soffreram rudes perseguições nas suas obras, o que promoveu um exodo dos respectivos artistas para o occidente, onde a seita foi sempre menos poderosa e nociva.

Emfim, as Cruzadas no fim do seculo XI levaram para o Oriente centenas de milhares de homens de relativa instrucção, que conhecendo apenas a modesta arte occidental, se extasiavam deante dos primores e da magnificencia, que iam encontrando no seu caminho, desde Constantinopla até á Palestina.

Foram todas estas causas, que em varias epochas facilitaram a dispersão da arte byzantina no occidente. Assim, o Estylo Byzantino logo no seculo VI começou a espalhar-se na parte septentrional da Italia, alargando-se depois successivamente pela Lombardia.

A influencia da ornamentação byzantina em mosaicos, pinturas e esculpturas, que já anteriormente se manifestára sobre o Estylo Latino e que os artistas, emigrados do oriente pelas perseguições dos iconoclastas, haviam accentuado, achou-se agora fortalecida pelos proprios edificios, cujos fundamentaes elementos architectonicos eram bem superiores em majestade, grandeza e duração aos correspondentes no primitivo estylo christão, nascido no occidente.

Apesar das qualidades do seu emulo, o Estylo Latino occidental offereceu resistencia, e não foi tão facilmente vencido como no oriente. Na Italia fôra creado e se espalhára com profusão, correspondia ao meio natural e social; era, emfim, o producto do genio classico romano e o representante de antigas tradições.

Foi sempre singular a resistencia tenaz d'esse antigo espirito classico romano, que por longos seculos viveu sobre o solo da Italia, sem duvida conservado pela hereditariedade do sangue e pelas tradições vivas dos antigos monumentos. Assim, o Estylo Romanico não penetrou facilmente no sul de Italia e o Ogival, cuja expansão foi enorme por toda a parte, se a invadiu, teve de transigir e amoldar-se ás circumstancias. Entrou na Lombardia, elevando um dos melhores edificios em Milão; mas, a partir de Florença, onde na opinião dos proprios italianos começa a verdadeira Italia, o ogival tomou caracteres muito especiaes e transigiu com o espirito classico.

O auctor d'este livro teve ensejo de apreciar bem este facto, quando percorreu aquelle paiz. Alem d'isso, o movimento artistico da Renascença terminado no seculo XVI, que representa um verdadeiro retrocesso ás origens, isto é, ás idéas e aos estylos classicos, foi preparado e realisado em Italia, exclusivamente por elementos italianos, quer fossem escriptores, quer amadores ou artistas.

Assim, a grande vitalidade do espirito classico no solo da Italia foi origem de muitos factos importantes na Historia da Arte, sendo, segundo julgamos, tambem a causa da tenaz resistencia do Estylo Latino em face do poderoso invasor oriental.

Emquanto o Estylo Byzantino realisava a invasão da Italia, durante o seculo VI, elevando as suas construcções ao lado das latinas, as leis historicas preparavam as bases das futuras constituições sociaes. O seculo V fôra o periodo das invasões na Italia, nas Gallias e na Iberia. Na Italia, que mais nos interessa porque foi no occidente o fóco da arte, viu-se passarem os visigodos de Alarico, os suévos de Rodagués, os hunos de Atila e os herulos de Odoacro, como rudes e barbaros conquistadores; mas as conquistas succediam-se, deixando ruinas e miserias, sem crearem organisações sociaes estaveis. Como verdadeiras ondas rebentavam no solo da peninsula, espraiando-se em grandes côrsos, que tão rapidamente quasi se retiravam, como se haviam formado. Apenas, os herulos de Odoacro, revoltados contra Augustulo, o ultimo imperador do occidente, por curtos annos formaram uma vacillante monarchia, destruida no fim do seculo V pelos ostrogodos de Theodorico.

O proprio Imperio ostrogodo tivera ephemera duração. O genio indiscutivel do grande chefe imprimira-lhe, segundo vimos, certa unidade e brilhante grandeza; mas a fusão das raças não se déra. O conquistador era intelligente e humano, um espirito liberal e justo, civilisado na côrte de Byzancio; mas bem na essencia Theodorico ficára sempre um conquistador, confiando mais na força das armas do que na acção lenta e segura da catechese politica. Por isso, conservára os seus guerreiros isolados quanto possivel da civilisação classica, constituindo uma verdadeira casta. A morte de Theodorico foi o signal da dissolução dos seus Estados, sendo pouco depois d'ella conquistada a Italia por Belisario e Narsés, os habeis generaes de Justiniano.

No seculo VI começou na realidade a constituição de nacionalidades mais fortes e duradouras. Assim, ao expirar do seculo V, organisou-se no occidente da Europa, sob o energico governo de Clovis, convertido ao Christianismo, a monarchia dos frankos, origem do Imperio de Carlos Magno e da actual França; e nos meiados do seculo VI, como já vimos, a Italia achava-se dividida em duas grandes nacionalidades, ao norte a monarchia lombarda, ao sul as provincias byzantinas do Exarchado.

Os lombardos de Alboino eram, todavia, mais rudes do que os godos de Theodorico; ou, pelo menos, o chefe lombardo não possuia a malleabilidade do genio, a illustração e a grandeza de caracter do conquistador godo. Os povos vencidos foram no principio tratados com maior egoismo e crueldade. As exacções assumiram proporções violentas, porque o espirito selvagem e guerreiro das hordas lombardas não era temperado pelo caracter superior e prestigioso de Alboino.

A estabilidade relativa da conquista lombarda, que durou desde 568 até 774, anno em que foi destruida por Carlos Magno, e sem duvida as qualidades intellectuaes dos novos invasores permittiram a lenta fusão da raça vencida e da vencedora. Os riquissimos terrenos da Lombardia foram de novo arroteados pelos fortes e energicos homens do norte. A abjuração do arianismo pelos vencedores, que abraçaram o Christianismo orthodoxo dos vencidos, facilitou as relações sociaes. A combinação dos sangues creou a pouco e pouco novas gerações, em que se casaram as qualidades animicas e ethnicas dos vencedores e dos vencidos, recebendo de uns o espirito da liberdade e o valor guerreiro, que haviam perdido os romanos da decadencia, de outros a cultura intellectual e moral, que não podiam possuir os barbaros do norte, por melhores que fossem as suas tendencias e disposições. A fusão das raças produziu, assim, uma sociedade mais ou menos homogenea, fundada na unidade da religião e na constituição de uma lingua commum, primeiro esboço das futuras sociedades, que deviam resultar da alliança dos tres espiritos creadores, o christão, o classico e o barbaro. A ordem e a sciencia, o commercio e a industria começaram, pois, a reflorir na Lombardia, apesar das continuas guerras que os seus habitantes sustentavam, principalmente com o Exarchado, por elles emfim destruido em meiados do seculo VIII.

N'este cadinho, se nos consentem a expressão, a arte oriental e a occidental em contacto não podiam deixar de produzir uma liga especial, sob o calor de novas idéas e sentimentos, nascidos do rejuvenescimento de uma importante fracção da Humanidade.

A origem do Estylo Romanico deve ser attribuida a estes factos historicos, embora n'outros pontos e n'outros seculos se dessem circumstancias similhantes, que facilitaram tambem a evolução e a dispersão d'este estylo. Assim, é certo que a constituição da monarchia franka se deve considerar no occidente o resultado equivalente da acção das leis historicas, e sabe-se que durante a dynastia merovingiana, depois da conversão de Clovis, se elevaram muitas construcções; mas os lombardos encontraram-se na posição singular e favoravel de contacto com a arte byzantina, cujos edificios e producções se elevavam nos seus proprios Estados. Esta situação especial envolve logicamente mais directa e proficua influencia na formação de novas physionomias da arte.

Alem d'isso, os lombardos manifestaram-se sempre bons architectos e excellentes constructores, quer o fossem por disposições proprias de raça ou herança do sangue romano, quer o exemplo das construcções existentes lhes desenvolvessem e aperfeiçoassem estas qualidades. Assim, quando a monarchia lombarda foi destruida por Carlos Magno e reduzida a provincia do Imperio, os artistas lombardos espalharam-se pelos restantes Estados imperiaes, sendo considerados bons architectos e habeis constructores. Ainda hoje a expressão Estylo Lombardo, applicada a uma feição do romanico, attesta a grande influencia d'estes artistas n'este periodo da evolução da arte.

Difficil será, sem duvida, tentar a fixação de datas, embora seculares, para os factos da genese do Estylo Romanico primario. N'estes remotos seculos por completo fallecem os documentos e os melhores, os proprios monumentos coévos, em grande parte desappareceram pela acção de longa antiguidade e de muitas e profundas catastrophes, offerecendo os que existem duvidosa classificação. É indiscutivel, todavia, que esse periodo de transição existiu, porque entre o Estylo Latino primitivo e o Romanico secundario, constituido no seculo XI, as differenças manifestam-se tão radicaes que só as pôde explicar uma longa evolução.

O Estylo Byzantino, em verdade, approxima-se mais do Romanico secundario em certos caracteres fundamentaes; mas ainda entre elles as respectivas physionomias manifestam-se tão distinctas, que envolvem um longo periodo intermedio de elaboração. Como as transformações biologicas e ethnicas das raças animaes exigem gerações successivas e numerosas de verdadeiros typos intermediarios, assim, entre os estylos christãos primitivos e o Estylo Romanico secundario é logica e necessaria a existencia de um periodo de transição.

Alem d'isso, a comparação dos caracteres architectonicos demonstra que o Estylo Romanico secundario comprehende os de ambos os seus antecessores, constituindo não uma simples mistura de elementos diversos, mas em verdade uma sabia e harmonica combinação, que fixou uma feição especial da arte.[1]

Assim, o Estylo Romanico recebeu do Latino as disposições geraes das fachadas e os narthexs, a fórma interior das egrejas nas naves, nos transeptos e nas absides, os triforios, as cryptas, os altares, os ciborios, as tribunas e outras disposições particulares archictetonicas e ornamentaes; e do Byzantino as abobadas e as cupulas, os pilares massiços e as grossas columnas, os pesados e variados capiteis, as arcadas de volta inteira, os arcos geminados e sobretudo a variedade e riqueza da ornamentação.

Quando começou a manifestar-se essa transformação, que constitue o periodo do Estylo Latino de transição, ou o Estylo Romanico primario?

Em geral, as maiores creações do espirito humano, coincidem com os grandes movimentos historicos. O marasmo politico suffoca a actividade intellectual e entibia a energia da alma; escravisa e annulla o pensamento, estancando-lhe as forças creadoras; substitue os grandes ideaes pelos pequenos interesses, as nobres ambições pelo sordido egoismo; emfim, reduz o animal humano a um automato, que apenas sente a necessidade e o prazer de uma vida de sensações faceis e vulgares. Assim, vivem os chinezes ha milhares de annos, adormecidos dentro de uma formula social crystallisada na sciencia, na moral e na arte.

A constituição do extenso e poderoso Imperio franko de Carlos Magno, em meiados do seculo VIII, principalmente depois da conquista do Reino Lombardo, póde considerar-se o inicio provavel do Estylo Romanico primario. Este grande facto politico, um dos maiores da Historia, deu, como é sabido, profundo impulso á civilisação, e sob o aspecto da arte disseminou-a pelas vastas provincias de um vasto Imperio, habil e energicamente governado por um dos maiores espiritos, com que até hoje se inflorou a Humanidade.

Foi então que os architectos e constructores lombardos, espalhando-se no occidente e no centro da Europa, encontraram, sem duvida, excellente atmosphera para desenvolver as singulares aptidões do seu talento e a profunda sciencia de longa pratica, creando novos elementos e novas combinações architectonicas, que prepararam o Estylo Romanico secundario, a phase pura e perfeita d'este estylo.

Esta revolução na esthetica nasceu indiscutivelmente da acção de um novo espirito creador, sem a influencia do qual a arte no occidente teria crystallisado, permanecendo quasi invariavel por longos seculos, como succedeu no oriente ao Estylo Byzantino, que apenas gerou o Estylo Russo, cuja physionomia actual conserva ainda accentuados e caracteristicos os traços, embora orientalisados, do seu antecessor. Esse espirito innovador, que modificou a politica e a moral das antigas sociedades, esse forte e benefico movimento, que agitou e saneou o pantano do mundo classico, esse espirito revolucionario, que das montanhas da philosophia, da sciencia e da arte classicas fez brotar poderosos mananciaes de novas idéas e de novas fórmas, foi o elemento barbaro.

A sua grande qualidade, o amor pela liberdade do pensamento, foi o sangue forte e generoso, que veiu dar calor e vida á cançada e anemica compleição classica. Na arte o seu trabalho de regeneração, atravessando as phases do periodo romanico, devia produzir a definitiva e magnifica concepção do mais perfeito estylo religioso conhecido, o Estylo Ogival.



PARTE TERCEIRA


OS ESTYLOS CHRISTÃOS DEFINITIVOS

XI SECULO AO XV SECULO




CAPITULO PRIMEIRO

SYNTHESE SOCIAL DOS SECULOS XI E XII



Quando no anno de 814 da era de Christo morreu Carlos Magno, o seu vasto Imperio, abrangendo a França, a Allemanha, parte da Austro-Hungria, a Hespanha até ao Ebro e a Italia quasi toda até ao Volturno, entrou em dissolução, tendo o destino fatal de todas as tentativas de restauração do antigo poder romano.

A unidade apparente, que reinava entre raças e nações differentes, proviera do prestigio pessoal de Carlos Magno, do seu talento administrativo, da bondade do seu caracter, em summa da elevação intellectual e moral de um homem, que imprimiu ao movimento do espirito humano, tão abatido n'aquelles tempos, um vigoroso impulso, afrouxado nos seculos seguintes, mas, ainda assim, não perdido para a Humanidade.

As antigas e inuteis discussões byzantinas tomaram, com effeito, novo caracter especial, constituindo a philosophia da Edade-Media, a Escholastica, que na realidade nasceu nas academias e nas escolas, creadas por Carlos Magno. Este movimento intellectual é interessantissimo, principalmente nas duas primitivas phases: a primeira sob a influencia do idealismo de Platão, subordinando a philosophia, isto é, a sciencia, á theologia; a segunda, sob a acção do realismo de Aristoteles, durante a qual a sciencia e a theologia caminham a par.

O seculo XIII, como veremos, foi o da lucta mais activa entre realistas e nominalistas, entre as influencias de Aristoteles e de Platão, lucta formidavel, nem sempre incruenta porque teve perseguidoras e martyres, sendo uma das origens da reforma religiosa do seculo XVI e do movimento philosophico e positivo das sciencias nos seculos seguintes.

O Imperio de Carlos Magno constituiu, pois, um periodo curto e brilhante depois d'esse espaço obscuro e terrivel das invasões, em que tantos povos de origem differente se precipitaram sobre o esqueleto do antigo mundo romano.

Sob a acção poderosa de Carlos Magno, a unidade administrativa do Imperio podia considerar-se completa. Os delegados do poder central, duques, condes, vigarios e outros funccionarios, governavam os diversos Estados, quasi reduzidos a provincias, em nome do imperador, em quem residia o poder supremo indiscutivel e respeitado. Já no tempo de Carlos Magno, comtudo, o espirito de rebellião lavrava entre estes funccionarios, cujo caracter germanico, guerreiro e independente, altivo e ambicioso do poder, os levava a pensar na hereditariedade dos cargos e na permanencia das funcções. O prestigio pessoal do imperador contrariára-lhes os designios, que tomaram vulto e animo depois da sua morte. Estas tendencias definem a origem e são a causa da organisação do feudalismo, constituido no seculo XIII, em que tambem se manifesta o primeiro periodo do Estylo Ogival.

Os filhos e netos de Carlos Magno não lhe haviam herdado nem o prestigio nem as qualidades pessoal. Tibios e ambiciosos, em continuas guerras, enfraqueciam-se mutuamente, deixando engrossar a idéa de independencia, que sempre germinára entre os delegados imperiaes. Assim, o fraco Carlos-o-Calvo, rei de França, reconheceu aos senhores, que o eram já de facto, o direito da hereditariedade e certa independencia, na Capitularia de 877, anno da sua morte, que define historicamente o começo do feudalismo.

Ao mesmo tempo, nas classes sociaes inferiores, constituidas principalmente pelos vencidos e pelos pobres e trabalhadores, lavrava tambem o espirito da liberdade, animado pelo Christianismo e pelas tradições das antigas instituições romanas. A Republica excitára sempre a vida local. O Imperio, depois, restringira-a successivamente; conservando-lhe, apenas, as funcções indispensaveis para facilitar o exercicio do poder central. Esta acção, a decadencia dos costumes dos cidadãos dos ultimos tempos e as responsabilidades fiscaes dos municipios romanos, fizeram decaír as curias da sua primitiva grandeza.

É sabido que nos ultimos tempos do Imperio as funcções municipaes, consideradas de perigo e onerosas, não eram disputadas, como outr'ora; para obter os curiales, os imperadores viram-se forçados a obrigar os cidadãos a desempenharem estes cargos, com penas e multas correspondentes. O espirito communal, todavia, não se extinguira de todo nem com a depravação dos costumes romanos, nem com a conquista dos barbaros. No sul da França, por exemplo, mais livre das invasões, os antigos municipios romanos haviam-se conservado com maior ou menor pureza.

Além d'isso, a tradição d'estas instituições locaes mantinha-se, e os seus principios existiam vivos, com o brilho das legislações theoricas, no antigo direito romano. É muito provavel, tambem, que o espirito de fraternidade e de solidariedade de certas classes romanas, como as dos artifices e dos operarios, tivesse atravessado o longo collapso do V ao X seculo. Pelo menos parece serem d'isto exemplo as associações franco-maçonicas constructoras, que tanta influencia tiveram na arte ogival e, a nosso ver, se não se filiam nas similares romanas, pelo menos derivam d'ellas, como exporemos a seu tempo, n'outro ponto d'este livro.

Seja como for, julgamos que os dois principios, o feudalismo, nascido do espirito barbaro, e o movimento das communas, insufflado pelo espirito christão, sem duvida os agentes principaes da civilisação dos seculos XI ao XV, manifestaram as primeiras tentativas de evolução entre o Imperio de Carlos Magno e os começos do seculo XI, no qual na realidade começa a Renascença, que se operou durante um longo periodo, com relampagos admiraveis nos seculos XIII e XVI, sobretudo sob o aspecto da arte.

De facto, a Edade-Media parece dividida em dois periodos distinctos: o primeiro do seculo V ao seculo X, o das terriveis luctas entre os tres principios, o classico, o christão e o barbaro; o segundo periodo do seculo XI ao seculo XV, o da lenta combinação e fusão d'estes principios. No seculo V, a luz já quasi crepuscular do grandioso mundo classico perde-se na noute, longa e tempestuosa noute d'alguns seculos. A pallida aurora do mundo moderno começa a despontar a partir do seculo XI.

Estes dois periodos são definidos por um facto historico interessante e de alguma importancia. O espirito mystico do Christianismo e as profundas miserias, soffridas pelo mundo romano logo após a victoria d'esta religião, geraram a lenda do millenio periodo de mil annos durante o qual a humanidade dos vivos e os martyres e adeptos do Christianismo resuscitados gosariam, sob o proprio reinado de Jesus Christo, todas as felicidades e os maiores bens sobre a terra. O principio d'estes seculos de Justiça implicava logicamente o fim de um mundo cheio de dores e flagellos, que assim foi prefixado para o ultimo dia do seculo X.

A superstição teve sempre grande presa sobre os espiritos ignorantes e fracos; julgue-se, pois, da influencia na Edade-Media d'esta prophecia, fundada em textos sagrados, tendo uma longa tradição e admittida por homens superiores, até por alguns papas. Nos fins do seculo X, a approximação d'este dia tremendo amortecera todas as expansões da actividade humana. Para que servia, com effeito, trabalhar, produzir, construir, fazer esforços, quando estava prestes o fim d'este mundo e o principio d'aquelle em que todos seriam eguaes e felizes, reinando sobre a terra a justiça e a felicidade sob o sceptro do proprio Christo?!

Por isso, a historia descreve o collapso profundo e crescente, que se apoderou do mundo christão, quando se avisinhava esse dia de Juizo, tão admiravelmente traduzido pelo desconhecido poeta medieval de um dos mais bellos canticos da egreja: