Planta da SÉ DE LISBOA—Estado actual
Occupando os espaços onde hoje estão as capellas do Santissimo e a de S. Vicente, que abrem para os dois extremos do transepto, existiam provavelmente a sacristia e o thesouro. A estes elementos se reduzia a planta da Sé primitiva, porque o claustro e todos os edificios annexos são de construcção posterior. Escusado será observar que a supposição da existencia de cinco naves na antiga cathedral resulta do erro grosseiro de tomar certos edificios annexos, de que falaremos mais tarde, por naves extremas, hypothese que a simples inspecção da planta não admittiria com a menor probabilidade, quando a existencia das primitivas janelas e da porta, hoje restaurada, da fachada lateral-norte não fosse indiscutivel prova de que a egreja nunca teve mais de tres naves.
A fachada primitiva era formada, como a actual, por duas torres quadradas, massiças e revestidas de fortes botareos. Entre estas torres corria a parte da fachada, correspondente ao côro. A disposição das linhas geraes não foi, pois, alterada pelas restaurações, que aliás estragaram o estylo; com effeito, as torres foram, sem duvida, coroadas de agulhas e as horriveis janelas quadradas n'ellas abertas substituiram, não se póde bem avaliar por que razões, as bellas janelas geminadas romanicas, que ultimamente foram restauradas na torre-norte. As agulhas ou corucheus primitivos, em nossa opinião, não tiveram a detestavel fórma, com que apparecem em gravuras e azulejos posteriores ao seculo XV; naturalmente destruidas por algum terramoto—talvez o de 1384—foram restauradas sob a fórma de elevadas torres quadradas, de muito menor superficie do que a das torres inferiores e cobertas por telhados vulgares de quatro aguas!
A parte central da fachada, comprehendida entre as duas torres, tambem não podia ser em nada parecida com a existente. A rosacea devia existir, bem como o grande arco, dando accesso ao portal da egreja; mas toda esta parte actual é de construcção posterior e do frio e decadente Estylo da Renascença, no seu peor periodo.
Tem-se attribuido as janelas quadradas da fachada, a mesquinha rosacea e o bruto e feio arco do vestibulo á grande restauração, depois do terramoto de 1755; é um erro. Uma gravura franceza do tempo, mostrando o estado das ruinas da egreja depois do terramoto, prova que tudo isto existia antes d'esta catastrophe. Assim, nós suppomos, com o maior fundamento, que todos estes absurdos elementos, bem como o ridiculo coroamento das torres são obras coévas da sacristia, encostada á fachada lateral-sul da primitiva egreja, datando tudo dos começos do seculo XVIII, talvez do reinado de D. João V.
Ruinas da SÉ de LISBOA—Terramoto de 1755
Alem d'isso, as torres soffreram restaurações em differentes epocas; a do norte no periodo ogival e depois na renascença manuelina; a do sul foi quasi toda reconstruida depois do terremoto de 1755. N'uma e n'outra, as grandes janelas primitivas foram transformadas em sineiras, fim que primitivamente não tiveram, porque os sinos occupavam uma elevada torre, construida sobre o cruzeiro, que desabou tambem pelo terremoto de 1755.
Fundados n'estes raciocinios, elaborámos o projeto de restauração da fachada, que melhor nos parece traduzir a physionomia especial do Estylo Romanico da velha egreja. Embora essa fachada não seja grandiosa em dimensões e rica em ornamentação, julgamos traduzir a severa solemnidade do estylo e o aspecto de força, que nunca perderam as grandes e massiças torres da Sé, apesar de torturadas por absurdas restaurações e coroadas por platibandas ridiculas, repousando sobre cornijas classicas.
O interior da primitiva egreja deduz-se da respectiva planta, esclarecendo-a com algumas observações, colhidas em investigações directas e sondagens feitas no actual edificio.
A nave central, a capella mór e o transepto, offerecendo quasi a mesma largura, eram cobertas por abobada de volta inteira, nascendo a egual altura; nos quatro arcos do cruzeiro repousava uma grande torre quadrada no exterior, que se elevava muito para cima d'estas abobadas. No interior da egreja esta torre tomava a fórma de um octogono regular, firmando-se em pendentes as paredes, correspondendo aos angulos biselados do quadrado exterior. Em cada uma das faces d'este octogono, rasgava-se uma janela muito alta e estreita, que illuminava a cupula coberta por abobada, gerada pela intersecção de quatro semi-cylindros, lançados entre as faces oppostas do prisma octogonal, isto é, por uma abobada de oito arestas.
Esta abobada da cupula formava o primeiro pavimento da torre, que para cima offerecia no exterior duas ordens sobrepostas de sineiras, tres em cada ordem e em cada face. Segundo a nossa opinião, esta torre não tinha senão um andar, a que fazia pavimento a abobada da cupula. Não nos parece que a espessura dos muros, ainda existentes na base, permittisse a sobreposição de tres abobadas, sendo possivel até que a cobertura da torre fosse de madeira revestida de telhado.
Voltando ao interior da egreja, observaremos que esta disposição particular da cupula octogonal devia ser de excellente effeito architectonico. As naves lateraes tinham as abobadas muito menos elevadas do que a da nave central; mas esta disposição não permittiu o rasgamento de janelas, que directamente illuminassem esta nave, porque por cima das segundas naves foram construidas galerias de egual largura, cujas abobadas em pouco ficavam inferiores á da nave central, não deixando espaço para rasgamento de janelas do clerestory.
Nas paredes da nave central, por cima dos arcos que dividiam as naves, e nas do transepto, corria ao longo da egreja, com excepção da capella mór, um estreito triforio, em communicação directa com as galerias, que acabamos de apontar.
SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA—Restauração da fachada principal
Todas estas disposições foram depois mais ou menos alteradas; assim, por exemplo, no triforio a restauração não só modificou as dimensões como empregou columnas com galba e capiteis classicos! As paredes cobertas por estuques horriveis, fingindo marmore de varias côres, subsistem na actual egreja.
Feixes de grossas columnas romanicas sustentavam os arcos de volta inteira, que dividem as tres naves; mas toda esta parte do edificio está excellentemente mascarada com columnas corynthias, tendo capiteis de madeira, fustes de gêsso e bases de marmore verdadeiro combinado com madeira, tudo, excepto os marmores, imitando tambem marmore! Assim, é impossivel fazer hoje clara idéa d'estes elementos, que o maior idiotismo imaginavel de restauradores em cidade civilisada conseguiu estragar, com grande perda de tempo e dispendio de dinheiro!
A primitiva capella-mór era mais pequena do que a actual de construcção mais moderna, como o indica o tom mais leve da planta; devia ser formada de grandes arcos de volta inteira, repousando sobre fortes columnas romanicas e abrindo na charola.
Apesar da tradição corrente e escripta, que affirma haver na Sé de Lisboa grandes subterraneos, não deparámos ainda com elles nas sondagens e investigações realisadas. Até podemos quasi concluir que, pelo menos, nem existe uma crypta importante; reduzindo-se tudo a pequenas capellas sepulcraes subterraneas, ou carneiros escavados muito depois da data da construcção do edificio[2].
A illuminação do primitivo templo foi assás perfeita. A nave central recebia luz da rosacea da fachada principal; as segundas naves de janelas e portas abertas nas fachadas lateraes, que vamos descrever; o transepto das rosaceas, rasgadas nos seus dois extremos, não existindo, é claro, as feias janelas rectangulares, que actualmente por baixo d'estas rosaceas abrem para o triforio; finalmente, a capella-mór era illuminada pelas grandes janelas da charola e directamente por outras superiores ao terraço da mesma charola. Alem d'isso, a cupula central com as suas oito janelas devia, tambem, contribuir para derramar bastante claridade no interior do templo.
Foram todas estas aberturas fechadas por vitraes coloridos?
Não nos parece. Na epoca da construcção, os verdadeiros vitraes coloridos eram muito raros, nem ella foi rica e cuidada. Vê-se que D. Affonso Henriques tinha mais fé religiosa do que dinheiro. No periodo do maior emprego dos vitraes, nos seculos XIII, XIV e XV, não é muito provavel que o gosto artistico nacional exigisse este complemento esthetico. Haja vista os martyrios, que inflingiram ao pobre edificio romanico!
As fachadas lateraes eram muito simples. A partir das torres, acima descriptas, a muralha, tendo a altura das naves lateraes e das galerias sobrepostas a estas naves, apresentava-se dividida por botareos pouco salientes, em cujos intervallos se abriam seis janelas todas de volta inteira; as mais baixas e proximas do solo eram grandes, alargando para dentro; por cima d'estas existiam outras muito menores, rasgadas quasi em estreita fresta.
Umas e outras illuminavam as segundas naves. Em terceira linha superior seis janelas abriam para as galerias, sobrepostas ás naves lateraes. No terceiro vão entre os botareos, a contar da torre, pelo menos na fachada-norte, a janela inferior era substituida por uma porta, que foi nos primitivos tempos resguardada por um vasto alpendre, coberto por telhado. Esta porta foi ultimamente restaurada. É muito provavel que na fachada lateral-sul se désse egual disposição; mas essa porta, se existiu, foi inutilisada pela construcção da nova sacristia. Nos lados do transepto viam-se apenas as janelas superiores.
Em face da fachada principal, e terminando em frente das portas lateraes, devia existir um adro, cujos tijolos podémos ainda ver em escavações praticadas junto do monumento.
Eis a descripção summaria da antiga Sé de D. Affonso Henriques. Não era de certo nem grande nem rica; mas, indiscutivelmente, o seu todo devia manifestar os caracteres do Estylo Romanico, a força e a severidade, sem excluir certa elegancia, que ainda hoje se póde notar nos elementos primitivos, embora suffocados e esmagados por estuques, construcções absurdas, umas já desapparecidas, outras que será impossivel eliminar.
Oxalá os restauradores de todos os tempos tivessem procurado conservar ao edificio as feições primitivas, porque n'esse caso Lisboa teria um monumento de Estylo Romanico secundario de certo valor. Assim, nós, as gerações actuaes, temos obrigação de fazer desapparecer pelo menos as vergonhosas excrescencias, restaurando a parte restauravel do edificio, como adeante explicaremos.
Bem cedo começaram as construcções annexas a prejudicar a esthetica do primitivo templo. Vamos seguir as principaes por ordem de relativa antiguidade.
Logo pouco depois da egreja ter sido terminada, foi no rigor da palavra encostada no angulo formado pela fachada lateral-norte e pelo transepto a primeira d'estas construcções, consistindo n'um recinto coberto por abobada de volta inteira, que inutilisou duas janelas inferiores da nave. Este recinto, cujo terraço ficava inferior ás mais elevadas janelas da fachada, abria para o exterior em toda a dimensão da sua secção; não tendo mais janela ou abertura alguma. Todas estas observações podem ser ainda verificadas em elementos existentes.
Qual seria o fim d'este annexo?
Difficil será descobril-o. É possivel que fosse um narthex, ou galilé lateral, aberto mais tarde, talvez um logar de refugio para peregrinos ou viandantes. Sobre este ponto poderá, apenas, fazer-se alguma luz, quando a eliminação dos estuques, que revestem interiormente este recinto e a parte correspondente da egreja, deixar ver se existem alguns vestigios de antigas portas para o transepto ou para a nave lateral-norte.
Depois d'esta epoca, sobre o recinto anteriormente descripto, levantou-se uma grande sala abobadada, em que a ogiva se accentua ja bem claramente. Esta sala, não tendo egualmente janelas na sua frente-norte, era illuminada por uma grande janela ogival, em parte cega, rasgada na parede, que repousa sobre o grande arco do supposto narthex. As duas janelas mais elevadas do edificio principal, que ficaram inutilisadas por esta construcção, acham-se tapadas por tal fórma que, segundo pensamos, não póde existir a menor duvida em não haverem jámais dado communicação da primitiva Sé para a referida sala; apenas se póde admittir, embora a achassemos tambem murada, que esta communicação se fazia por uma janela do transepto, transformada em porta para o triforio. Estas disposições, tanto a do recinto inferior como a da sala sobreposta, comprehender-se-ão claramente, notando na planta a segunda intensidade do tom escuro.
Assim, temos uma sala de importantes dimensões apenas ligada com o interior da egreja pela acanhada galeria do triforio, que a seu turno é servido por uma pessima e estreitissima escada de caracol, encastrada no botareo do transepto! Qual foi o fim d'esta sala?
O problema, porém, complica-se ainda mais. Uma terceira construcção, tendo dois andares correspondentes aos dois pavimentos existentes, veiu encostar-se ás duas precedentes. Devemos observar que propositadamente temos escripto a palavra encostar, porque na realidade os successivos constructores nem se deram ao trabalho de travar reciprocamente os edificios; encostando-os, apenas, uns aos outros, o que permitte que em determinados casos seja possivel ver claridade atravez das separações.
O pavimento inferior d'este novo annexo tinha de certo ligação com a egreja, havendo sido transformada a janela da nave em porta, que ainda actualmente existe; mas no pavimento superior as cousas passam-se por fórma differente. A janela ogival da sala anteriormente descripta foi transformada em porta, que serve os dois compartimentos; porém, a janela da Sé, inutilisada pela nova construcção, essa, encontramo-la nós murada como as duas outras precedentes; e quando a abrimos, por necessidades de serviço e aproveitamento de local, ficámos convencidos, pela perfeição do espesso massiço de silharia e de alvenaria, de que o tapamento era, sem duvida, antiquissimo, se não contemporaneo d'esta inexplicavel construcção.
Assim, como ainda se póde ver, existem duas salas, illuminadas por duas altas frestas, que apenas communicavam com o interior da egreja por duas estreitas escadas de caracol: a primeira, já indicada, a do triforio, a segunda encastrada n'uma especie de botareo, que faz parte da ultima construcção.
Que fins podia ter esta disposição mysteriosa dos dois importantes recintos?
Debalde temos pensado no problema e investigado as pedras, a fim de ver se nos revelam o segredo; em vão temos consultado os eruditos. Apenas, alguem suggeriu a idéa de que, tendo as antigas cathedraes o direito de asylo, isto é, de tornar inviolaveis os perseguidos pelas justiças ordinarias, talvez as salas, tão bem defendidas e mysteriosas, se podessem relacionar com esse direito de protecção. Ahi deixamos posto o problema, que talvez investigações e sondagens mais completas possam mais tarde resolver.
Das tres construcções, que acabamos de descrever e apreciar, a primeira deve datar dos fins do seculo XII e a ultima dos fins do seculo XIII. Eis tudo quanto nos parece ser licito affirmar ácerca da edade d'estes edificios, annexados á primitiva Sé.
Como se deprehende da planta, estas construcções approximaram-se successivamente da porta lateral-norte, que ainda nos fins do seculo XIII abria directamente para a rua, ou terrado d'este lado da Sé. Que esta porta, como dissemos, tinha alpendre coberto de telhado, provam-n'o os vestigios, ainda existentes na fachada do ultimo dos mencionados annexos.
No anno de 1324 falleceu em Lisboa Bartholomeu Joannes, rico mercador de fidalga linhagem franceza, como parece demonstrarem-n'o os brazões e as flores de liz do seu tumulo, deixando em testamento legado especial para ser erecta na Sé de Lisboa uma capella, onde jazessem os seus restos mortaes e os das pessoas, que por elle fossem indicadas. Esta disposição testamentaria originou uma quarta construcção, a de uma elegante capella do Estylo Ogival francez, que foi encostada á fachada lateral-norte, occupando o espaço de duas janelas a partir da torre.
N'estas condições, a porta lateral ficaria encravada, entre as construcções primitivas e a da nova capella; por isso, substituindo o antigo alpendre, o espaço da porta foi coberto por uma abobada. Esta especie de vestibulo abre sobre a rua por um grande arco ogival.
Taes são os edificios, que em successivos seculos foram encostados á fachada lateral-norte da primitiva Sé, mascarando-a por completo.
É claro que em qualquer projecto de restauração ninguem poderá pensar sequer em repôr o edificio nas condições primitivas; muito embora todos estejamos de accordo em que teria sido muito preferivel ter evitado estes acrescentamentos, que lhe prejudicaram a unidade do estylo. Além d'isso, a capella de S. Bartholomeu, apesar da sua pequenez, é um excellente exemplar do ogival secundario. Assim, no projecto de restauração d'esta fachada, attendemos a todos os edificios, aproveitando-os o melhor possivel.
Ainda no seculo XIV, em 1344, um forte terremoto destruiu ou pelo menos arruinou a primitiva capella-mór romanica. A reconstrucção realisou-se, alterando as dimensões d'esta parte da egreja e empregando o Estylo Ogival. As capellas, que guarnecem a nova charola, e o claustro, que não existiam anteriormente, datam da mesma reconstrucção.
Depois, entre esta grande restauração e a que resultou do terremoto de 1755, devem ter-se realisado muitas outras de secundaria importancia e principalmente as obras, que estragaram o edificio. Assim, por exemplo, as janelas quadradas das torres, substituindo as lindas janelas geminadas primitivas, a rosacea, as sacadas e o arco do frontispicio, bem como o edificio da sacristia e da sala capitular, que mascarou grande parte da fachada lateral-sul, parece-nos datarem dos começos do seculo XVIII, pelas qualidades do estylo; sendo, portanto, anteriores ao terremoto de 1755, como o prova a gravura das ruinas, a que já nos referimos.
Devem pertencer tambem a este periodo as construcções dos vergonhosos pardieiros de todas as ordens, especies e fins, que mascaravam completamente a fachada lateral-norte, subindo até elevada altura entre os botareos da respectiva torre, e a inutilisação da bella porta lateral e do respectivo vestibulo, substituidos por uma horrivel porta, rasgada na capella de Bartholomeu Joannes.
O terremoto de 1 de novembro de 1755, finalmente, produziu profundas ruinas na egreja e no claustro da Sé. Metade da torre do sul desabou, bem como a torre sineira que veiu esmagar a abobada da nave central e a da capella-mór. A memoria da parte principal d'estas ruinas foi conservada n'uma gravura franceza do tempo, que nos pareceu interessante reproduzir. Durante muitos annos estas ruinas permaneceram no meio da cidade, até que em 1767 começaram as grandes obras de reconstrucção.
Teria sido esta a occasião azada para a restauração completa da Sé, não na sua fórma primitiva, que já não seria possivel renovar; ao menos, porém, nos Estylos Romanico e Ogival que se ligaram intimamente em varios pontos do edificio. As tendencias da epoca, que já começavam a condemnar estes bellos estylos como barbaros e gothicos, a insciencia dos restauradores, a pressa e talvez a carencia de dinheiro deram os resultados, que ainda podemos ver.
A abobada da nave central foi simulada em madeira e estuque, abrindo se-lhe medonhos oculos para melhor illuminar a egreja. Na capella-mór procedeu-se por fórma parecida. A egreja foi por toda a parte coberta de espessas camadas de estuque pintado, mascarando os velhos elementos romanicos e ogivaes com elementos classicos absurdos e desordenados. Assim, se o edificio da Sé, olhado exteriormente, causava a impressão, principalmente na fachada lateral-norte, de uma sobreposição de casebres, visto no interior, produz a desagradavel surpreza de uma miseria, que pretende ostentar riqueza, e de um cahos de fórmas disparatadas e deselegantes, que resultam da desharmonica combinação das linhas principaes dos estylos christãos mais perfeitos com elementos classicos, exigindo linhas geraes differentes[3].
Depois de termos dado succinta idéa, porque outra não comportam os quadros d'este livro, do primitivo estylo da Sé Patriarchal de Lisboa e das modificações mais importantes, que este edificio soffreu atravez dos sete seculos da sua existencia, em curtos periodos diremos as nossas opiniões ácerca da respectiva restauração, de que ultimamente fomos incumbidos e tentamos executar com os melhores criterios estheticos.
Embora a Sé de Lisboa, nem pelas suas dimensões nem pela grandeza do estylo, possa ser considerada importante monumento romanico, no estado primitivo, como acabamos de observar, não deixava de manifestar algum valor architectonico.
Restaurações successivas e barbaridades de construcção em seculos differentes reduziram-n'o ao estado lastimoso, em que se conservou por longos annos e em parte se encontra ainda n'este momento. A reconstrucção e restauração mais ou menos radical do antigo monumento é, portanto, quasi um dever de patriotismo.
Pensar em lhe dar a feição primitiva, apurando o Estylo Romanico secundario em que foi construido, seria uma verdadeira loucura; no conjunto do edificio os elementos ogivaes são mais importantes do que os romanicos e, em regra, acham-se em melhor estado de conservação.
A restauração, a nosso ver, deve começar pelas fachadas. A principal póde, sem duvida, assumir novamente a sua expressão romanica, manifestando certa grandeza, se as suas torres forem convenientemente coroadas de agulhas e substituida a parte central, entre as duas torres. Esta obra é indispensavel e uma das primeiras que deve ser realisada.
SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA—Restauração da fachada lateral-norte
A fachada lateral-norte ficará sempre uma juxtaposição de edificios; mas a indiscutivel belleza da Capella de Bartholomeu Joannes desculpará até certo ponto esta agglomeração de estylos. Pelo que respeita á fachada-sul, não haverá remedio senão conservar o annexo onde estão a sacristia e a sala capitular, melhorando o seu frio e pobre Estylo da Renascença.
O claustro e as respectivas capellas são obras de restauração facil, embora dispendiosa, attendendo ao estado de profunda ruina em que se encontram. O claustro não tem, na realidade, grande valor architectonico; mas para elle abre uma vasta sala de elevada abobada artezonada, que primitivamente devia ser muito bella. Diz-se que n'esta sala foi instituida a primeira Misericordia nacional. Mais tarde, talvez em principios do seculo XVIII, foi transformada em capella no Estylo da Renascença, onde abundavam os mosaicos florentinos no arco, nas paredes da abside e no altar. Suppomos que esta capella foi primitivamente a sala capitular.
Realisadas todas estas restaurações, a parte interior da egreja tem de ser completamente reedificada, aproveitando-se apenas as fundações dos pilares das arcarias das naves e as paredes exteriores. Não só as abobadas da nave central e da capella-mór não existem, sendo simuladas em madeira e estuques, mas, os proprios pilares, ou feixes de columnas, e as arcadas sobrepostas estão fendidos por tal fórma que não suppo Realisadas todas estas restaurações, a parte interior da egreja tem de ser completamente reedificada, aproveitando-se apenas as fundações dos pilares das arcarias das naves e as paredes exteriores. Não só as abobadas da nave central e da capella-mór não existem, sendo simuladas em madeira e estuques, mas, os proprios pilares, ou feixes de columnas, e as arcadas sobrepostas estão fendidos por tal fórma que não supportariam o peso de verdadeiras abobadas. Além d'isso, as abobadas das naves lateraes são de tijolo e provavelmente substituiram as primitivas de silharia.
É natural que a restauração exterior do templo leve, mais cedo ou mais tarde, a esta importante obra de reedificação interna da egreja, porque outra não se deve tentar, por improficua e dispendiosissima.
Em todo o caso já seria um adeantado passo acabar a restauração externa da velha egreja de D. Affonso Henriques, que deve considerar-se um verdadeiro monumento da epoca, recordando a constituição e a independencia da Nação Portuguesa.
CAPITULO QUARTO
SYNTHESE SOCIAL DO SECULO XIII
Traçar um quadro do seculo XIII, dando-lhe a verdadeira expressão social, scientifica e esthetica, é materia difficil, principalmente nos limites estreitos d'este livro; todavia, por nos parecer indispensavel, conforme o methodo adoptado, tentaremos este trabalho em modestas proporções.
O seculo XIII foi incontestavelmente o mais brilhante da Edade-Media; concentra e dá unidade, por assim dizer, aos trabalhos do pensamento humano, realisados nos anteriores seculos, prepara os thesouros de sciencia e de philosophia, que produziram a renascença artistica e litteraria do seculo XVI, a philosophica do seculo XVII e, emfim, os grandes movimentos sociaes e politicos dos seculos seguintes.
A organisação das monarchias feudaes, como a tentámos descrever n'outros capitulos, estava completa no começo do seculo XIII; em verdade, até começava a resvalar para a dissolução, que se operou no fim do seculo XV e de que foram principaes agentes em França Luiz XI, em Inglaterra Henrique VII, o fundador da dynastia dos Tudors.
As grandes guerras religiosas para libertação do solo sagrado de Jerusalem, que aliás nunca foi perfeitamente livre e christão, foram a grande obra das monarchias feudaes, desde os fins do seculo XI aos do seculo XIII. Este grande esforço do feudalismo accumulou as causas da propria decadencia; como as organisações vigorosas se enfraquecem pelo excesso de trabalho.
Prégadas pelos proprios Papas ou animadas por elles, as Cruzadas tinham levado ao oriente, durante dois seculos, milhões de homens das nações occidentaes. A melhor cavallaria feudal, durante este longo periodo, havia deixado no caminho de Jerusalem parte das riquezas, e as vidas nos campos das batalhas ou dizimadas pela peste. Este enorme fluxo e refluxo de homens ligara intimamente as relações entre os dois extremos da Europa, trazendo para o occidente novos elementos de uma civilisação mais adeantada, novas idéas e processos; activando, emfim, as reciprocas transacções commerciaes, de que foram poderosos centros Genova, Marselha e Veneza.
Os grandes senhores arruinavam-se, sustentando longinquo e dispendioso estado de guerra, emquanto a burguezia se enriquecia no commercio pacifico e as classes populares repousavam e trabalhavam, livres de grande numero dos pequenos tyrannos. A exaltação do espirito religioso, excitado pelas santas Cruzadas, approximara as nações e dentro d'ellas as respectivas classes. N'esta atmosphera favoravel, a liberdade ganhava vigor na vida local das communas, cujas revoltas eram mais faceis e mais baratas as compras de direitos civicos a senhores, que careciam de dinheiro para as enormes despezas da guerra e satisfação de um luxo exagerado, que traziam sempre inveterado nos costumes, quantos tocavam sequer de leve as civilisações orientaes. Assim, no seculo XIII baixava o sol do feudalismo e começava a raiar a aurora d'essa energica vida communal, que nas mãos de suzeranos habeis devia servir mais tarde de poderoso instrumento para reduzir os barões feudaes, livres e turbulentos, a vassallos, subordinados e pacificos, e a pouco e pouco a simples cortezãos, servis e lisonjeiros, que apenas ostentavam nas antecamaras reaes honorificos titulos de antigos apanagios e nomes de gloriosos antecessores.
No seculo XIII a egreja adquirira indiscutivel preponderancia sobre o orbe christão, a Europa. Pela religião e pelo respeito tradicional, o Papado impozera-se aos grandes e aos pequenos; era o arbitro supremo entre os principes, perseguia-os como revoltosos e criminosos sobre os proprios thronos e, sendo preciso, separava-os do povo pela interdicção dos Estados, ou pela excommunhão dos rebeldes.
Desde os fins do seculo XI, o poder temporal do Papa tornara-se um facto consummado. O antigo bispo de Roma já usava em volta da tiára a primeira corôa da soberania terrestre, que o punha ao lado dos reis christãos, cuja consciencia elle dominava pelo espirito da religião. Senhor quasi absoluto, depois da querela das investiduras, d'essa machina immensa que se chama hierarchia ecclesiastica, levando a acção poderosa até ás consciencias mais humildes e obscuras, no seculo XIII, o Papa era o primeiro poder da Europa. Assim, o Papado fôra o espirito das Cruzadas e o feudalismo o seu braço armado, que na lucta gastou as forças e perdeu quasi os bens, herdados em grande parte pela egreja, cujas enormes riquezas não satisfizeram nunca as suas ambições colossaes.
A atmosphera de liberdade, embora fraca, que se formou no seculo XIII, deixára florescer, emfim, a cultura das artes e da sciencia. Grandes discussões philosophicas enchem o seculo. Promove-as a theologia. Os profundos dialecticos e os sabios pertencem em regra ás Ordens Religiosas, é certo; mas nos sombrios claustros penetrára a luz de fóra. A Escholastica n'esse periodo tomou uma feição nova e caracteristica, que trazia em si os germens da liberdade do pensamento. A philosophia da Edade-Media offerece, com effeito, tres periodos differentes; no primeiro, a theologia subordina a sciencia; no segundo, estes dois principios caminham a par, depois dividem-se, seguindo rumos divergentes.
No segundo periodo, durante o seculo XIII, os talentos mais elevados e cultos travam renhidas luctas de palavras e de escriptos, nem sempre incruentas; uns são pelo realismo de Alberto, o grande doutor, e do seu genial discipulo Thomaz de Aquino, outros pelo nominalismo de Duns Scott, o doutor subtil. O discipulo excedeu o mestre. Santo Thomaz de Aquino foi o chefe da eschola, que definiu os principaes dogmas da egreja e preparou a constituição definitiva do Catholicismo, no concilio de Trento.
O nominalismo, fundado sobre as doutrinas de Aristoteles, desenvolvia as bases da sciencia; o methodo da observação e da experiencia recomeçava o seu caminho, interrompido por longos seculos. No seculo XIII viveu o franciscano Roger Bacon, que só por si define uma eschola e illustra um seculo. Philosopho, astrologo e alchimista, cujo saber immenso nas azas do genio chega a saír fóra dos limites do seu tempo, Bacon descobre, ou pelo menos prevê factos e verdades, que hão de manifestar-se nos seculos seguintes.
Arnaldo de Villanova, outro profundo sabio do seculo, medico e alchimista, discute a metaphysica escholastica e combate-a á luz dos principios da sciencia ainda vacillante e incerta, mas procurando já firmar-se nas bases do positivismo moderno. A sua vigorosa critica não se atemorisa ante os perigos de atacar os erros da eschola philosophica triumphante nas doutrinas de um dos maiores sabios e casuistas do tempo. «Que importa, escreve o grande luctador, que Alberto, o grande doutor, affirme que as folhas de salva lançadas n'uma fonte fazem sobrevir a tempestade? Lancemos folhas de salva n'uma fonte e vejamos se a tempestade sobrevem».
A revolta do livre pensamento attinge o dogmatismo da Escholastica orthodoxa, a essencia do methodo experimental está claramente definida n'esta ironica e simples phrase. Arnaldo de Villanova é um precursor, como Roger Bacon e os escholasticos revolucionarios nominalistas, d'esse methodo, que ha de produzir a sciencia moderna e por meio d'ella o espantoso progresso do seculo XIX.
N'estes primeiros movimentos revolucionarios do nominalismo sentem-se já energicas aspirações da liberdade do pensamento. As suas doutrinas são a semente, que, ao calor do estudo, das luctas, e pela acção do tempo, ha de produzir, por ininterrupta evolução, a reforma religiosa do seculo XVI e a philosophia do seculo seguinte. Os adeptos do nominalismo são perseguidos e as doutrinas consideradas heterodoxas; mas, como correspondem a necessidades organicas do espirito humano, se os martyres ficam desconhecidos, as suas idéas preparam o futuro. Os primeiros luctadores contra o poder de Roma, Arnaldo de Brescia, discipulo de Abelard o nominalista, em Italia, Pedro de Vaux em França, Lollard e Wiclef em Inglaterra, são os precursores de João Huss e depois de Luthero, Melancton, Calvino, Zwinglio e Knox, os fundadores victoriosos da reforma religiosa do seculo XVI.
No seculo XIII, a esthetica experimenta, tambem, uma acção profunda. Um dos maiores genios, de entre os que têem engrandecido a Humanidade, o florentino Dante Allighieri, cujas feições energicas e tragicas nos conservou o pincel de Giotto, aperfeiçoa, se não cria litterariamente a primeira e mais bella das linguas latinas, a italiana, em que teve como discipulos e commentadores Petrarcha e Boccacio. Genio colossal, fortalecido por sciencia profunda e inspirado por grandes sentimentos, attingindo a febre da paixão, Dante revoluciona a poesia e quebra os velhos moldes dos poetas da decadencia.
A sua prodigiosa lyra, tendo todas as cordas desde a sublime epopeia até ao delicado lyrismo, produz o mais gigantesco poema, creado pela intelligencia humana, a Divina Comedia, onde o poeta se revela sabio, theologo, historiador do seu tempo, ás vezes apaixonado e injusto, se quizerem, mas sempre supremo artista. Dante, talvez a figura principal do seculo XIII, a quem os seculos seguintes não fizeram perder ainda na poesia a posição culminante, é a mais pura e clara expressão d'esse espirito classico, sempre vivo no solo da grande Italia. A liberdade do pensamento, como nova e rica seiva, inflora no poeta esse vivido espirito, impellindo-o para fóra da esphera humana e levando-o a procurar no Inferno, no Purgatorio e no Paraiso, symbolos da metaphysica theologica, um campo infinito, onde podiam exercer-se intelligencia e phantasia tão excepcionaes.
As outras bellas-artes, excepto a musica para a qual não chegára ainda o momento historico, bem mais tarde manifestado, principalmente em fins do seculo XVIII e no seculo XIX, offerecem um caracteristico movimento correspondente.
Até ao seculo XIII, a influencia do espirito byzantino mantivera-se preponderante, sobretudo na pintura e na esculptura, aliás ainda subordinadas á architectura, de que constituiam artes auxiliares e complementares. Ora, as artes do oriente, como vimos, haviam ficado estacionarias, crystallisando em fórmas hieraticas e convencionaes. A inspiração e a liberdade dos pintores e dos esculptores foram esterilisadas por esse immovel e hybrido espirito oriental. Os artistas copiavam-se successiva e reciprocamente, procurando amoldar a espontaneidade do proprio talento a antigas e consagradas formulas, a que as tradições religiosas contribuiam para dar quasi força de dogmas.
Foi ainda a Italia, que deu os primeiros gritos, sacudindo essa lethargia; foi ainda o espirito classico, reanimado pela liberdade do pensamento, que despedaçou a rede dos formalismos tradicionaes e da ignorancia technica, que envolvia e suffocava a inspiração dos pintores e esculptores.
Esta reacção inicia-a Cimabué, libertando-se dos liames das escolas byzantinas. Giotto, seu discipulo, pintor, esculptor e architecto, segundo o uso e as necessidades do tempo, opéra a revolução. A correcção do desenho e o rigor do colorido, a expressão e a vida, isto é, a verdade na arte que só nasce do estudo da natureza, são o resultado d'essa outra victoria do espirito humano. Os dois primeiros mestres italianos do seculo XIII ficam sendo na historia os precursores da grande arte da renascença, poderoso movimento que tambem a Italia quasi exclusivamente realisará nos fins do seculo XV e durante o seculo XVI, no grande periodo em que floresceram homens como Leonardo de Vinci, Raphael Sanzio e Miguel Angelo Buonaroti.
A architectura e as artes secundarias annexas saem dos conventos, vindo expor novos productos e novas creações á luz da liberdade nascente. Já não são as grandes communidades religiosas, que monopolisam as construcções, crystallisando-as um pouco e enviando de convento para convento os architectos mais famosos e os planos mais completos. A esthetica, como a sciencia, manifesta energica expansão. A arte revoluciona-se e liberta-se.
Nas communas constituem-se grandes corporações de artes e officios. As associações de architectos e de operarios de todas as ordens, que nos seculos precedentes trabalhavam sob a direcção monastica, esse resto dos gremios romanos, ou formados á sua imagem, emancipam-se, libertam-se do jugo ecclesiastico nas producções artisticas, tomando definitivo caracter civil, embora subordinadas e protegidas pelo espirito religioso, que imperou sempre durante toda a Edade-Media.
São, com effeito, as corporações franco-maçonicas que vão construir muitos, se não todos os edificios ogivaes mais grandiosos e celebres. Houve-as em Inglaterra, tendo um dos centros principaes em York. Foram incontestavelmente os free-stones-masons, que elevaram um dos grandes monumentos ogivaes inglezes, a cathedral de York. Teve-as a Allemanha, com o principal centro em Strasburgo, onde Erwing Steinbach construiu a grande e formosa cathedral, um dos primeiros monumentos do Estylo Ogival, que serviu de exemplo a tantos outros e cuja fama deu á loja-mestra a supremacia sobre quasi todos os centros principaes allemães e ao seu presidente o grão-mestrado supremo. Existiram em França, onde predominou a loja-mestra de Paris, construindo as grandes cathedraes de Amiens, Reims e outras, Notre-Dame e a Saint-Chapelle em Paris. Encontravam-se, emfim, na propria Italia, onde aliás o Estylo Ogival experimentou energicas reacções classicas, principalmente ao sul. Foram os magistri comacini, que, sem a menor duvida, construiram o colosso ogival, a cathedral de Milão.
Como estas associações tiveram grande influencia sobre a formação e a dispersão do Estylo Ogival, parece-nos conveniente entrar em alguns pormenores ácerca da sua organisação no seculo XIII, visto que das respectivas origens provaveis e evolução constituinte já falámos em precedentes capitulos.
Não póde existir, a nosso ver, a menor duvida em que estas corporações franco-maçonicas, que se estendiam pela França, Allemanha e Inglaterra, chegando pelo menos ao norte da Italia, tinham entre si intimas relações, offerecendo um caracter internacional bem definido. Esta affirmação resulta não só da propria natureza das associações de mutuo auxilio e de defeza dos interesses dos respectivos associados; mas é, ainda, demonstrada pela essencia e tradição das associações franco-maçonicas politicas, em que as primeiras se transformaram, durante os seculos XVI e XVII.
A grande unidade do Estylo Ogival e a sua rapida dispersão nas zonas, aliás extensas, em que floresceu, devem ser attribuidas em grande parte ás relações muito apertadas entre as corporações maçonicas do mesmo paiz e assás intimas entre as de nações differentes. Em 1459, por exemplo, a assembléa capitular de muitas lojas allemãs, reunida em Strasburgo, reconheceu como grão-mestre o presidente da loja-mestra d'esta cidade. Mais do que provavel nos parece que em França e em Inglaterra se procedesse por identica fórma; é a consequencia logica dos fins d'estas associações de trabalho e de soccorro mutuo.
Alem d'isso, as deslocações dos associados de uns para outros paizes, em procura de trabalho ou por outras quaesquer causas, só por si constituiriam, n'esse tempo de construcções muito activas, constantes relações internacionaes, quando não existissem outras officiaes e regulares, como é assás provavel. O operario associado em viagem encontrava, naturalmente, a protecção e o apoio das associações do mesmo genero, formadas em outros paizes. Este facto dava-se com as associações romanas e corresponde á tendencia internacional das poderosas associações operarias. Assim, na Edade-Media o trabalho teve uma organisação muita extensa e protectora, que a moderna Internacional tentou debalde realisar no ultimo quartel do seculo XIX.
A constituição interna d'estas sociedades franco-maçonicas é, como a sua historia, assás obscura. Visto que fixavam os proprios salarios dos differentes trabalhadores, parece-nos logico que estas associações se ligassem por simples contractos pessoaes, ou porventura em muitos casos por contractos de empreitadas parciaes ou geraes, como se pratica nos modernos tempos. Evidentemente, estas presumpções fundam-se apenas na logica e no principio de que em todas as epocas a eguaes necessidades corresponderam, sempre, instituições e processos analogos ou equivalentes.
Deve notar-se que estas associações foram muito protegidas durante a Edade-Media. Altas personagens civis e ecclesiasticas faziam d'ellas parte como socios honorarios, no periodo da sua maior grandeza. Foi até a existencia numerosa d'estes elementos estranhos ao trabalho, que, depois da decadencia e transformação do Estylo Ogival, facilitou a conversão das associações primitivas em corporações politicas, conservando os symbolismos dos officios, os provaveis signaes de reconhecimento, as praticas secretas e o espirito internacional, protector e caridoso, da maçonaria moderna, que foi nos ultimos seculos um instrumento poderoso de movimentos sociaes.
É natural que as lojas-mestras dirigissem as obras de varios edificios, elevados na sua respectiva esphera de acção; sabe-se, como a partir dos meiados do seculo XIII, as construcções ogivaes tomaram grande incremento. Sendo assim, a elaboração dos planos seria a tarefa dos maiores e mais habeis architectos e, por logica divisão do trabalho, as particularidades caberiam ao pessoal technico, que por ordem hierarchica se ia seguindo, classificado pela competencia e pelo merito. Esta hypothese é corroborada pelo espirito disciplin É natural que as lojas-mestras dirigissem as obras de varios edificios, elevados na sua respectiva esphera de acção; sabe-se, como a partir dos meiados do seculo XIII, as construcções ogivaes tomaram grande incremento. Sendo assim, a elaboração dos planos seria a tarefa dos maiores e mais habeis architectos e, por logica divisão do trabalho, as particularidades caberiam ao pessoal technico, que por ordem hierarchica se ia seguindo, classificado pela competencia e pelo merito. Esta hypothese é corroborada pelo espirito disciplinado e methodico, que constitue a melhor garantia de producções completas e perfeitas em obras collossaes.
Esta divisão do trabalho devia chegar ao ultimo extremo. Assim, sabe-se que as construcções eram dirigidas por um mestre ou architecto, escolhido provavelmente em harmonia com a grandeza da obra, sob cujas ordens turmas de dez homens trabalhavam, dirigidos a seu turno por um mestre pedreiro. Esta organisação explica a grandeza da concepção dos planos, a analogia, quasi similhança, que manifestam muitos dos seus elementos e, emfim, a extrema diversidade da ornamentação no mesmo edificio. Póde notar-se, por exemplo, que as altas agulhas de Zurich, Vienna, Colonia e Landshut offerecem reminiscencias muito accentuadas das de Strasburgo.
A extrema variedade de ornamentação, a diversidade dos capiteis, no mesmo edificio numerosissimos e poucas vezes repetidos, esses symbolismos grotescos uns, pornographicos outros, espalhados nos capiteis e constituindo algumas gargulas, não podem ser explicados senão pela extrema liberdade de acção dos esculptores e lavrantes de pedra, mais numerosos e inferiores. Este uso caracteristico, já mencionado no Estylo Romanico, conservou-se depois ainda nos paizes, como o nosso, onde a franco-maçonaria teve, quando muito, residencia accidental.
Isto exposto, o perfil do seculo XIII póde desenhar-se em poucas palavras. O pensamento humano, activo e energico, procura conquistar a liberdade na esphera moral e politica. O feudalismo perde lentamente as forças e empobrece. Pelo contrario, a burguezia progride, accumula riquezas pelo commercio e pela industria, e trabalha. As communas multiplicam-se e florescem. N'este estado social, um poder predomina, o Papado e a hierarchia ecclesiastica, pela intelligencia e illustração, pelo prestigio da religião sobre as consciencias e pelo poderio de riquezas immensas. As futuras reacções da reforma estão ainda embryonarias e latentes. A sciencia busca despir as faixas da theologia e da metaphysica, approximando-se lentamente do methodo experimental, que ha de ser o poderoso instrumento da rapida e prodigiosa evolução social e scientifica dos seculos XVIII e XIX. Tambem a arte, conforme a propria essencia, observa e experimenta, retemperando-se no estudo da Natureza.
Em summa, a liberdade hesitante bruxoleia ainda; mas os tenues raios de luz são sufficientes para dissipar as sombras medievaes, deixando ver o caminho do futuro e os direitos da Humanidade. Eis como comprehendemos a synthese do brilhante seculo XIII.
CAPITULO QUINTO
ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO OGIVAL
A formação do Estylo Ogival resulta logicamente do meio social do seculo XIII. A phase da evolução da arte corresponde-lhe com rigor. É o espirito do seculo que toma fórma nas pedras dos monumentos, descobrindo novas combinações de antigos elementos, empregando-os com mais arrojo e inspiração esthetica, mais sciencia e experiencia de construcção. Assim, na realidade o Estylo Ogival é a floração esplendida do romanico, aberta á luz e ao calor do sol nascente da liberdade do pensamento.
Onde se manifestou primeiro o Estylo Ogival? É impossivel fixal-o. Os seus productos, mais ou menos originaes, elevam-se por toda a parte, onde o meio foi identico; como certas plantas nascem em sólos afastados, quando são de natureza similhante. É certo, todavia, que se desenvolve e progride com maior rapidez, principalmente entre as nações onde teve mais tarde maior preponderancia a reforma religiosa, vencedora na Allemanha e em Inglaterra, em França vencida após longas e tenazes luctas: mas deixando sempre um permanente fermento religioso. Na Hespanha, em Portugal e na Italia, onde a Inquisição e a Companhia de Jesus esmagaram a reforma logo á nascença, o caminho do novo estylo manifesta-se, pelo contrario, mais penoso e lento.
N'aquelles paizes, que hão de ser o foco das futuras luctas da religião, entre o dogma e a disciplina de um lado e do outro a liberdade do pensamento e da interpretração da Biblia, a dispersão do ogival foi rapida e fecunda. Os reis, os pequenos senhores feudaes seculares e ecclesiasticos, as communas e as ordens religiosas, numerosas e ricas depois das Cruzadas, rivalisavam em construcções grandiosas, espalhavam-n'as por toda a parte com piedade religiosa, onde havia tambem muita emulação humana. Assim, por exemplo, resolvendo a construcção da grande Cathedral de Sevilha, o respectivo Cabido escrevia: «construamos obra tão grandiosa e magnifica que os vindouros possam dizer que estavamos loucos».
As associações franco-maçonicas, fornecendo um exercito de constructores desde os architectos até aos mais simples operarios, facilitavam este grande movimento, imprimindo-lhe a rapidez e a unidade de feições, que anteriormente notámos.
Recordando n'este ponto o que escrevemos ácerca da abobada e das consequencias logicas do respectivo emprego, bem como as doutrinas expostas no mesmo sentido sobre o arco ogival, procuremos agora definir os caracteres do Estylo Ogival, que aliás se ligam intimamente com os do romanico terciario. O arco em ogiva, diminuindo muito os impulsos horisontaes sobre os supportes, permittia dar-lhes menos espessura, fossem pilares ou paredes. A elevação dos edificios, dando-lhes incontestavelmente elegancia e nobreza, foi a consequencia necessaria do emprego d'este arco. Os architectos ogivaes aperfeiçoaram o systema, empregando as abobadas artezonadas, ou de nervuras, d'onde decorreram modificações importantes na arte da construcção dos edificios. É este, sem duvida, o caracter mais importante do Estylo Ogival.
Figuremos por um instante que da abobada da nave central da Egreja da Batalha, bem conhecida de todos, tiravamos a silharia encastrada entre os artezões, como o parenchyma das folhas vegetaes enche os meandros das nervuras salientes. Da folha ficaria uma fina renda de estreitas malhas, da abobada um grande arcabouço de arcos ogivaes parallelos sobre pilares correspondentes, formando successivos tramos quadrados eguaes. Outros arcos em ogiva, perpendiculares entre si e cortando-se nos fechos, ligariam de angulo para angulo os quatro pilares do tramo. Emfim, uma nervura recta ao longo do eixo da nave pareceria dar rigidez e estabilidade ao systema, encadeando os vertices dos arcos parallelos e perpendiculares.
Se a figura foi exposta com alguma clareza, comprehender-se-á com pequeno esforço de intelligencia o systema das abobadas ogivaes. Tudo consiste, em summa, no artificio de descarregar, o mais possivel, as pressões verticaes e os impulsos horisontaes da abobada sobre os pilares. Em theoria tambem a silharia entre os pilares poderia desapparecer, deixando um pavilhão aberto, uma especie de esqueleto formado pelos pilares, reforçados por arcobotantes, e pelos arcos, constituindo as nervuras ou artesões das abobadas.
As conclusões logicas d'este systema de construcção são de extrema evidencia. As pressões verticaes e os impulsos horisontaes dos arcos determinam certa espessura aos pilares. As primeiras não podéram ser supprimidas; mas os impulsos horisontaes foram diminuidos pela fórma ogival da curva e podem ainda, ser, contrariados pelo lado de fóra por botareos salientes, e pela ligação d'estes botareos a outros exteriores por meio de arcobotantes. Assim por este modo, um edificio ogival pode ser theoricamente reduzido a um esqueleto de pedra, como as casas de Lisboa representam um esqueleto de madeira, antes de preenchidos os intervallos com a alvenaria das paredes e de fechada a cobertura dos tectos.
É evidente que este systema da construcção ogival permitte o facil rasgamento de grandes vãos abertos, portas, janelas e rosaceas, entre os intervallos dos botareos e dos arcobotantes; por isso, ao contrario do romanico, o Estylo Ogival abunda n'estes elementos, multiplicando as janelas e as rosaceas para illuminar as grandes naves e os transeptos, que attingem alturas muito elevadas em relação á respectiva largura, ás vezes, alturas relativas enormes, como succede na Egreja da Batalha. Pretender dar mais clareza a uma exposição d'esta ordem, sem desenhos ou modelos, seria caír em diffusão de palavras, que mais complicaria ainda o assumpto. É, pois, contraproducente tental-o. A imaginação do leitor, impellida por estes traços, preencherá as lacunas.
Expostas estas generalidades, inutil será entrar em divagações sobre o emprego da ogiva, o que aliás já fizemos succintamente no segundo periodo do Estylo Romanico. A ogiva foi conhecida e empregada muito antes do estylo a que deu o nome, é facto incontestavel. Não conhecido nem empregado era o systema das abobadas, tal como o havemos descripto. Eis qual foi a verdadeira creação dos architectos ogivaes.
Em verdade, este systema ainda póde considerar-se a conclusão logica e scientifica do emprego da ogiva e das suas respectivas qualidades estheticas e mechanicas. O arco de volta inteira podia, com effeito, ter sido applicado ao systema com alguns resultados, sómente implicando grande sacrificio da elegancia e da majestade do edificio. Parece-nos, pois, um verdadeiro circulo vicioso investigar, se o arco em ogiva deu origem ao novo systema de abobadas, se este systema exigiu a fórma quebrada do arco. Emquanto a nós, se houvesse vantagem em fixar opinião sobre este ponto, admittiriamos, como mais natural e logica, a primeira hypothese.
O Estylo Ogival manifesta uma duração de tres seculos. Vimol-o nascer com o feudalismo na decadencia, durará durante a agonia d'esta instituição e desapparecerá com ella, transformando-se em novo estylo. Está definitivamente formado a partir dos meiados do seculo XIII, constituindo o primeiro periodo. As construcções d'este periodo são harmonicas e regulares, mas a sua feição é ainda um pouco fria e severa.
No seculo XIV adquire feições mais elegantes e distinctas. N'este segundo periodo, que os architectos denominaram radiante, devido a disposições caracteristicas de certos elementos de construcção e ornamentação, os edificios são mais puros e alegres, mais elevados e finos, emfim mais ideaes, d'esse espirito que principiou a manifestar-se no seculo anterior.
No seculo XV e nos começos do XVI o Estylo Ogival attinge elevado grau de elegancia, ás vezes exagerada. N'este terceiro periodo, os elementos verticaes tendem a tomar grandes proporções, a ornamentação manifesta-se riquissima e caprichosa, os coroamentos enchem-se de agulhas e de pinaculos, uma floresta de corocheos elevados e ponteagudos dá aos edificios phantastico aspecto, causando a impressão caracteristica de chammas, principalmente quando illuminados pelos raios do sol poente. D'esta impressão proveiu, de certo, o ser conhecido este periodo pela designação de Estylo Ogival flammejante, ou florido.
Taes são os periodos, que offerece a evolução do novo estylo; devendo, porém, notar-se n'este ponto o que dissemos ácerca da classificação um pouco empirica por seculos. A passagem dos estylos faz-se sempre evolutivamente, sendo impossivel marcar-lhes limites rigorosos e bem definidos.
No interior as egrejas ogivaes manifestam excepcional grandeza e elegancia, provindo da elevação dos pilares polystilos e da profundidade das abobadas, ricamente artezonadas, com fechos ornados de bocetes. Numerosas janelas e rosaceas, tendo vitraes polychromicos, inundam o templo de luz doce e poetica. O mysticismo sombrio e severo das egrejas romanicas, a profunda melancholia que produzem no espirito, transforma-se nas ogivaes em alegre e suave sentimento religioso.
A egreja romanica traduz a profunda tristeza e o desalento da Edade-Media, principalmente nos primeiros seculos; a sua expressão é lugubre, quasi sinistra, como a do espirito monastico que lhe deu origem. Ha n'ella a impressão desoladora de uma vida rude e cruel, d'onde a alma procura fugir para o socego eterno. A egreja ogival produz sensações differentes. Respira-se ali a vida livre e activa, supremo bem sobre a terra, seguida depois pela felicidade eterna, cuja esperança irisada illumina o espirito, como os raios do sol, atravessando as grandes vidraças coloridas, inudam de luz suave e avelludada as naves do templo.
Nas disposições internas a egreja ogival soffreu algumas modificações importantes. A cruz latina já havia sido por vezes abandonada ou alterada no Estylo Romanico, muito embora, tanto n'este estylo como no ogival, deva ser considerada fórma fundamental e preferida. Pelas necessidades do culto, sempre crescente em riqueza, os coros ogivaes tomaram proporções maiores em relação ás naves. A charola, quando existe, é ornada de capellas, a correspondente ao eixo central da egreja mais elevada e comprida, dedicada ao culto da Virgem. As capellas ao longo das naves lateraes não se encontram ainda no primeiro periodo ogival; mas apparecem no fim do segundo, no seculo XIV. Em algumas egrejas observa-se a inclinação do eixo do côro em relação ao da nave principal, desvio que citámos e apreciámos no Estylo Romanico de transição.
A planta circular e a polygonal manifestam-se, tambem, como no estylo precedente. Em certas egrejas as absides são prismaticas ou desappareccm, sendo substituidas por paredes planas em que se abrem grandes janelas. É evidente ser impossivel abranger em curta synthese as disposições, variaveis em muitos elementos, das plantas das egrejas ogivaes, que se contam por centenas, se não por milhares em todo o orbe christão. Uma idéa geral, embora, pouco caracteristica, é o mais a que se póde chegar n'este momento; todavia, não devemos deixar de especificar a elegante planta da egreja da Batalha, que descreveremos n'outra parte d'este livro.
Uma disposição particular muito constante das egrejas ogivaes parece-nos ser a maior elevação da nave central sobre as colateraes. Nas paredes d'esta nave, exteriormente fortalecidas por arcobotantes, abrem-se as grandes janelas do clerestory. Ás vezes, desapparecendo o triforio, estas janelas assumem enormes proporções, prestando-se então admiravelmente aos magnificos quadros dos vitraes polychromicos. Esta disposição, que dá extrema belleza ás naves centraes, é a da Egreja da Batalha.
N'algumas egrejas, os ambons primitivos—as tribunas onde era lido o Evangelho—foram substituidos por galerias elevadas, lançadas entre a nave central e o côro, com accesso pelos dois lados. Estas galerias, profusa e ricamente ornamentadas, repousam sobre grandes arcos, por baixo dos quaes fica livre e desembaraçada a ligação do corpo da egreja com o côro. D'esta construcção, aliás pouco vulgar e não existente entre nós, ha exemplos elegantissimos e muito ricos.
Pelo que respeita ás fachadas, a diversidade é maravilhosa; todavia, de um grande numero de edificios póde deduzir-se um schema de certa importancia e clareza. Tomaremos, para exemplo, um monumento bem conhecido, a Cathedral de Notre Dame de Paris. A fachada é dividida em trez partes verticaes—em geral ha tantas partes definidas, quantas são as naves interiores da egreja—a do centro comprehende a porta principal, sobrepujada pela rosacea; as lateraes, correspondendo ás torres, conteem as portas secundarias e por cima as respectivas janelas ou rosaceas, que illuminam as naves correspondentes. A fachada offerece, tambem, tres divisões horisontaes bem distinctas, a primeira envolve as tres portas, a segunda a rosacea e as janelas ou rosaceas lateraes, a terceira começa na nascença das torres.
Nas fachadas sem torres, como as das Cathedraes de Milão e de Sevilha, de cinco grandes naves, e na da Egreja da Batalha de tres, as divisões verticaes são muito evidentes, accusando, sempre por fórma bem marcada, o numero e a disposição decrescente das naves interiores.
Este schema parece-nos apenas interessante; porque seria impossivel abranger a variedade infinita das fachadas ogivaes em curtas regras e poucos principios. Diremos mais: é quasi impossivel descrever a mais modesta só com simples palavras oraes ou escriptas.
As torres ogivaes são caracteristicas, de extrema elegancia, principalmente quando coroadas de elevadas, finas e rendilhadas agulhas. Offerecem a impressão de força e grandeza, sem duvida; mas a profusa ornamentação e as grandes janelas, onde reina a ogiva, dão-lhes um aspecto especial de leveza e elegancia, que não possuem as romanicas. Algumas vezes as torres da fachada apresentam-se deseguaes; accusando, assim, a secundaria importancia da egreja na hierarchia ecclesiastica.
Estes e outros caracteres dos templos ogivaes manifestam-se tão salientes, impressionam tão profundamente a intelligencia e a memoria, que os menos entendidos e versados na architectura podem distinguil-os, classificando com relativa facilidade edificios bem definidos.
A ornamentação ogival é em extremo complexa; mas tão harmonica e bem combinada, que produz a sensação de grande simplicidade. Para bem a apreciar seria indispensavel estudar elemento a elemento as differentes partes de um edificio, o que não podemos fazer.
Na ornamentação mural do seculo XIII predomina o reino vegetal; na Cathedral de Reims, por exemplo, contaram-se mais de trinta especies vegetaes differentes, espalhadas pelos varios pontos do edificio. Os ornamentos mais usados são os trifolios, os quadrifolios, as violetas, as crossas ou arpões, orlando os angulos das pyramides e as linhas dos frontões e das cornijas, os pinaculos, rematando as cabeças dos botareos, os nichos com doceis mais ou menos pyramidaes e rendilhados, zig-zags, cabeças de pregos e algumas outras molduras romanicas. A antiga ornamentação byzantina, que floresceu ainda no Estylo Romanico, tende a desapparecer. O trabalho é fino e perfeito; procura-se imitar a natureza, sem a copiar, com extrema liberdade de concepção e firmeza de execução.
No seculo XIV esta ornamentação subsiste. Os doceis dos nichos tomam fórmas mais elevadas e pyramidaes. Os triforios obscuros tornam-se transparentes, illuminados por janelas. As arcaturas teem n'este periodo uso mais geral.
No seculo XV, domina nas molduras a secção prismatica. Os doceis dos nichos accentuam-se em elevação e em caprichosos e ricos ornamentos. Os caixilhos, ou almofadas, constituem decorações muito vulgares, que mascaram a nudez das paredes. A ornamentação do seculo XV acompanha, como é natural, a evolução do estylo, é grandiosa e complexa, approximando-se das fórmas da renascença.
A esculptura no seculo XIII começa a perder as fórmas tradicionaes e byzantinas dos seculos anteriores. Tem mais grandeza e naturalidade, sem prejudicar a uncção religiosa. A architectura emancipou-se da influencia monastica, a esculptura seguiu-lhe o exemplo. É o elemento profano que vae preparando successivamente o movimento artistico da renascença, pelo estudo da natureza e da antiguidade classica.
No seculo XIV apparecem as creações grotescas, algumas assás livres, e as satyras da vida monastica, de que entre nós existem exemplos. Na Egreja da Batalha, alguns capiteis mais elevados, segundo nos disseram operarios que os restauraram, descrevem scenas equivocas, ou pelo menos pouco edificantes. Não pudémos verifical-o, attendendo a enorme altura dos capiteis e á pouca claridade do templo. Algumas gárgulas offerecem disposições parecidas; uma parece symbolisar accentuadamente o classico deus Priappo.
No antigo Convento da Conceição em Evora, mosteiro de freiras, uma gárgula representa uma freira, dando á luz uma creança. Na egreja matriz de Caminha, outra gárgula figura um homem, voltando as costas para Hespanha em posição assás equivoca. Estas e outras anomalias, aliás vulgares e caracteristicas n'este estylo, procurámos explical-as, tratando da organisação das associações franco-maçonicas. Em qualquer caso, são o producto do trabalho independente da acção monastica, talvez uma manifestação deploravel da liberdade de pensamento, que foi a aspiração do segundo periodo da Edade-Media.
No seculo XV a esculptura e a pintura libertam-se. A verdade da natureza traduz-se nas posições e nos actos. Sente-se bem que a Renascença está á distancia de um seculo. Os esculptores e os pintores teem individualidade propria, as suas escolas e os seus discipulos; não se apresentam simples decoradores, manifestando já a dignidade de artistas, que professam artes independentes.
A pintura mural foi muito usada no Estylo Ogival. No interior, as abobadas eram, ás vezes, pintadas de azul e constelladas de ouro e prata. A côr verde applicava-se aos capiteis, a encarnada aos fustes das columnas. Nas paredes desenhavam-se varios ornamentos, em alguns casos simulando elementos architectonicos que melhor pertencem á esculptura. No exterior, a pintura cobria tambem os portaes, as arcaturas e os pontos principaes do edificio. As folhagens offereciam a côr verde e as figuras dos porticos eram recamadas de ouro.
A pintura mural rivalisava com a dos grandes vitraes. O tempo fel-a, porém, desapparecer quasi por completo, habituando a esthetica moderna a não comprehender nem admirar a polychromia dos edificios, aliás tambem muito empregada nos Estylos Classicos. A Sainte Chapelle de Paris, modernamente restaurada, offerece no interior um excellente exemplo da pintura mural. É, todavia, mais do que provavel que este uso não fosse geral, pelo menos nas egrejas de menor importancia. Segundo a nossa opinião, devemos confessal-o, as velhas cathedraes devem aos seculos o grande beneficio de lhes haverem substituido o effeito garrido da pintura exterior pela côr sombria e solemne, que provém da acção do tempo.
Um dos mais bellos ornamentos do Estylo Ogival consiste, sem a menor duvida, nos vitraes. As vidraças multicolores, rutilantes á luz do sol, como se fossem de pedrarias, coando serena claridade pelas grandes superficies irisadas, onde se desenham, envoltos em caprichosa ornamentação, complexas scenas, paisagens, episodios guerreiros ou religiosos, nichos rendilhados com grandes figuras asceticas, produzem effeitos de luz surprehendentes e de extrema belleza esthetica. Estes vitraes polychromicos causam uma impressão profunda e indelevel, em que se mistura a poesia da alma com a musica das côres. Sem elles as mais bellas cathedraes perderiam grande parte do espirito mystico e do seu finissimo caracter artistico.
Vimos apparecer estes vitraes no ultimo periodo romanico, pelo menos com mais importante applicação; vamos agora esboçar as transformações, que soffreram nos seculos seguintes.
No seculo XIII, as vidraças coloridas attingem grande perfeição. A arte do vidreiro e a pintura aperfeiçoaram-se. Como se chegou a obter na mesma chapa de vidro côres differentes e esbatidas, as malhas do tecido de chumbo são maiores, não recortam tanto o desenho, e os tons dos vitraes manifestam mais harmonia e doçura. As figuras são mais elevadas, o que provém logicamente dos grandes vãos das janelas. Os ornamentos, mais cuidados e ricos, harmonisam-se com os do interior do templo.
São variadissimos os motivos; scenas do Novo e Antigo Testamento, lendas do Christianismo, o florilegio dos martyres, combinam-se com episodios do tempo e representações de industrias coévas, verdadeiros subsidios de estudo. Retratos de personagens da epocha, ecclesiasticas e civis, guerreiros com armaduras e bispos paramentados, constituem recordações historicas de piedade christã e de votos dos que offereceram estes despendiosos ornamentos, que embellezam as antigas cathedraes.
No seculo XIV o desenho dos vitraes é mais correcto e as figuras vão sempre perdendo o caracter byzantino. Os pintores começam a estudar mais a antiguidade e a natureza, abandonando as fórmas tradicionaes dos seculos anteriores. A esthetica consegue em bellos effeitos o que perde em originalidade e espirito de tradição, que aliás encerra sempre manifestações de belleza mais de accordo com a architectura dos templos. As côres tornam-se menos vivas, prevalecem as neutras pouco carregadas. As egrejas precisam de luz, a fim de que os fieis possam ler nos breviarios os exercicios divinos; as vidraças tornam-se, pois, mais claras. A Imprensa, inventada no seculo XIV, se esclareceu o mundo, sacrificou um pouco as velhas cathedraes, desfazendo essa penumbra doce e encantadora que era a expressão mais adequada ao mysticismo religioso.
Uma ornamentação, embora accessoria, que embelleza as cathedraes ogivaes, é a rica obra da talha ou a esculptura em madeira, principalmente nas cadeiras dos córos, que nos estylos mais primitivos eram de pedra. A perfeição d'este trabalho attinge proporções admiraveis no seculo XIV. N'este genero de coros, em que a nossa pobreza é extrema, deve citar-se o da Sé da Guarda. Em Hespanha, pelo contrario, ha riquezas immensas nos coros e nas respectivas obras de talha. O mais rico, que temos visto é o da Cathedral de Sevilha, collocado segundo o uso n'aquelle paiz na nave principal, como no Estylo Latino. Este côro, admiravel e riquissimo em todo o sentido, parece-nos que deve datar dos meiados, se não dos fins do seculo XVI.
Antes de finalisar este capitulo, são indispensaveis algumas considerações geraes de ordem mais ou menos technica, que somos forçados a desenvolver. Em nenhuma das phases da evolução da arte se manifesta mais accentuada a influencia do meio, do que no Estylo Ogival. Provam esta asserção a unidade dos seus caracteres geraes e tambem a sua rapida dispersão nas zonas, onde esse meio, como o definimos na introducção d'este livro, era mais ou menos identico; todavia, a existencia de elementos e de condições particulares nos differentes paizes tinha de influir necessariamente nos caracteres da arte.
As construcções ogivaes, obedecendo á influencia do meio particular das nações, entre as quaes se desenvolveram, tomou feições proprias em cada uma, muito embora subordinadas ás leis e aos caracteres geraes do estylo. O mesmo facto succedeu com o Estylo Romanico. Assim, as feições especiaes, diriamos talvez mais nitidamente as physionomias, do ogival allemão, francez e inglez são por tal fórma definidas, que os grandes entendedores da arte as distinguem com facilidade.
A evolução e a decadencia do estylo não se manifestaram, tambem, em identicos periodos: por exemplo, a Inglaterra conservou mais puro e duradouro o bom estylo, não experimentando quasi o periodo de decadencia. A Italia, principalmente ao sul, offereceu sempre tenaz resistencia a todas as innovações artisticas, que mais se distanciavam do profundo espirito classico, herdado no sangue das gerações successivas e conservado em numerosos restos dos antigos monumentos. Ao Estylo Ogival aconteceu facto analogo: as suas construcções appareceram primeiro nos pontos, onde menos abundavam as romanicas. Não falaremos na Grecia e no Oriente, porque n'esses paizes o meio social conservou-se sempre differente.
A estas indicações se deve attender na historia de um estylo, sem perder, tambem, de vista que a unidade e a harmonia dos edificios são sempre prejudicadas pela demorada construcção. É sabido, com effeito, que alguns dos maiores monumentos ogivaes levaram seculos a terminar, não falando, ainda, nas successivas restaurações, que chegam a alterar a unidade e o caracter de um edificio.
Um facto, que parece caracteristico tanto no Estylo Romanico como no Ogival, consiste no pequeno numero de nomes dos grandes architectos, que nos conservou a historia, emquanto são conhecidos muitos dos classicos. Tem-se procurado, com excesso de paciencia archeologica, explicar este facto pela humildade christã dos frades architectos do Estylo Romanico e pela organisação especial das associações franco-maçonicas, principaes constructoras dos edificios ogivaes.
Talvez em parte fossem estas causas a origem do silencio; não comparemos, porém, a illustração e o gosto artistico dos cidadãos livres da Grecia e de Roma com a ignorancia dos barões feudaes e dos cavalleiros medievaes, que timbravam em não saber ler e escrever, sellando os documentos com os copos das proprias espadas. Nem confundamos a plebe d'aquellas florescentes republicas com a multidão desgraçada e quasi selvagem da Edade-Media. Nos paizes classicos a arte foi sempre considerada nobre e elevada funcção; na Edade-Media deve ter sido apenas olhada como simples profissão. Assim, conservaram-se os nomes dos fundadores dos templos e dos grandes e poderosos da terra, para quem foi inventada a Historia; os dos pequenos e humildes, embora geniaes e creadores, mergulharam nas trevas do esquecimento e da ignorancia medieval.
Alem d'isso, os architectos não punham em evidencia os seus nomes. Aqui e além dão-se pequenas excepções a esta regra. Quando muito, empregavam signaes caracteristicos e proprios em qualquer ponto evidente da construcção. Assim, já o dissemos, na pequena e elegante capella do Estylo Ogival secundario, agora em via de restauração na Sé de Lisboa, a flor de lyz, gravada na face de uma columna prismatica, póde bem indicar a origem franceza do architecto.
Os signaes gravados nos silhares dos monumentos ogivaes tambem são muito vulgares. Teem sido attribuidos a simples marcas dos canteiros, que indicavam, talvez para pagamento, as pedras feitas por cada um. O facto de serem os signaes gravados na pedra e alguns difficeis e complicados, como se póde verificar no Mosteiro da Batalha, prejudica no nosso espirito esta hypothese. Mais provavel nos parece que sejam signaes particulares das differentes lojas maçonicas, ou secções d'ellas, a que pertenciam os differentes trabalhadores, mestres e architectos. O assumpto não offerece, aliás, senão o simples valor de curiosidade.
Temos exposto, segundo nos parece, os caracteres principaes do Estylo Ogival. O trabalho é incompleto, nem podia deixar de o ser em assumpto tão vasto e complexo, sobre o qual muito se tem escripto e muito ha ainda para escrever. N'este estylo temos, felizmente, um riquissimo exemplar no Mosteiro da Batalha, cuja historia e descripção reservamos para uma parte especial d'este livro. Esta rapida monographia completará a exposição feita, melhor talvez do que outros desenvolvimentos mais ou menos didacticos.
Na nossa opinião, o Estylo Ogival é a mais elevada expressão esthetica, até hoje revelada na evolução da architectura. Para o comprehender não é necessario ser artista, sabio ou crente; bastará, apenas, possuir algum sentimento, firmado em instrucção vulgar, e comparar os movimentos do nosso espirito em face das creações dos melhores estylos.
Nós vimos grandes templos, restos da antiguidade classica, sumptuosas basilicas, magnificos exemplares byzantinos e romanicos; encontrámol-os por muita parte. Em longas horas de contemplação e de estudo, procurámos o espirito d'esses monumentos, transportando-nos aos seculos, que lhes imprimiram physionomia. As impressões mais perfeitas e harmonicas foram-n'os dadas, sempre, pelas grandes cathedraes do Estylo Ogival.