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LEGENDA
primeira epocha
1 egreja. 2 capela do fundador. 3 sacristia. 4 thesouro. 5 claustro principal. 6 casa do capitulo. 7 ponte ou lavabo. 8 refeitorio. 9 cozinha. 10 adega e dispensa. 11 portaria. segunda epocha
12 claustro de d. affonso v. terceira epocha
13 vestibulo. 14 capellas imperfeitas. |
CAPITULO TERCEIRO
AS EPOCHAS DA CONSTRUCÇÃO DO MOSTEIRO
Como dissemos em anterior capitulo, os edificios, constituindo o antigo Convento da Ordem de S. Domingos, na Batalha, foram construidos em epochas differentes. Depois da extincção das ordens religiosas, esteve o Mosteiro completamente abandonado durante longos annos, caindo em ruinas parte d'elle e soffrendo graves prejuizos a parte monumental, exposta á acção do tempo e ás grosseiras depredações, praticadas pela ignorancia popular.
Mais tarde, quando começaram com algum methodo e continuidade as obras de conservação e restauração dos edificios, uns foram arrasados como inuteis, porque formavam as arruinadas pertenças do convento, e outros para desaffrontar a parte monumental do Mosteiro. A planta geral, que apresentamos, traduz o estado actual e definitivo d'estes edificios.
Em tres epochas muito proximas, quasi successivas, foram elles construidos. Na planta procurámos distinguir estas epochas, dando tons diversos ás construcções respectivas existentes. Assim, temos:
1.ª Epocha. Envolve, bem nitidamente definidos pelas intimas ligações, a capella sepulcral do fundador, a egreja, a sacristia, o claustro principal, a casa do capitulo, a portaria, a adega, a cozinha e o refeitorio.
2.ª Epocha. Comprehende actualmente o claustro de D. Affonso V e alguns dos antigos annexos.
3.ª Epocha. Abrange, apenas, as chamadas capellas imperfeitas, que mais rigorosamente se deveriam denominar incompletas, porque o nome lhes vem de estarem ainda em grande parte por acabar, e o respectivo vestibulo.
Da historia dos edificios da primeira epocha já nos occupámos nos anteriores capitulos, por serem do monumento os que pertencem ao Estylo Ogival. Não será, todavia, longa e escusada digressão, determo-nos um pouco na apreciação dos edificios das outras epochas.
Os edificios da segunda epocha eram assás vulgares; apenas o claustro chamado de D. Affonso V, cujo reinado durou de 1438 a 1481, offerece algum valor architectonico. É do Estylo Ogival, muito espaçoso e simples, não manifestando ornamentação alguma, nem até nos proprios capiteis das columnas prismaticas dos porticos. Apesar d'isso, as suas linhas geraes são agradaveis, embora tenha de luctar com a proximidade do bello claustro monumental. Sem duvida, foi construido para servir de centro ás pertenças do convento, que principalmente para elle abriam.
O Cardeal D. Francisco de S. Luiz admitte que a construcção d'este claustro se deve attribuir aos mestres Martin Vasques e Fernão de Evora. O primeiro d'estes mestres, segundo o mesmo auctor, dirigiu as obras de 1438 a 1448. Como este claustro era o centro das pertenças conventuaes, a respectiva construcção deve ter acompanhado de perto a dos edificios da primeira epocha.
Os edificios da terceira epocha reduzem-se ás capellas imperfeitas e ao respectivo vestibulo, que são peças de elevado valor architectonico, onde a primeira physionomia do Estylo da Renascença se desenha com excessiva nitidez e se accentua, á medida que a ornamentação se manifesta nas partes superiores do edificio, parecendo marcar-lhe varios e successivos periodos de construcção.
Julgamos indiscutivel que este conjunto é obra do reinado de D. Manuel, que durou de 1495 a 1521. Assim, logo no interior do vestibulo, por baixo das lindas janelas que o illuminam, uma ao norte outra ao sul, vê-se em logar superior o caracteristico E, letra do nome d'este rei, Emmanuel, cercada de uns lavores, que por signal têem dado tratos á imaginação dos archeologos pacientes, e por baixo as seguintes legendas em caracteres romanos: perfectum fuit anno domini 1509. Ora, é mais do que natural que as paredes do vestibulo crescessem simultanea e parallelamente com a elevação das paredes das capellas.
O Cardeal D. Francisco de S. Luiz, que estudou o monumento, infere, não sabemos com que criterio, que esta data corresponde á suspensão das obras. Julgamos infundado este asserto. Não é natural nem logico suppor que a suspensão se désse n'esse anno, quando D. Manuel no seu testamento, feito em 1517, recommenda com a maior instancia ao seu successor que as mande acabar.
N'este documento, com effeito, lêem-se textualmente os seguintes periodos: «item, rogo muito e encomendo que se mandem acabar as Capellas da Batalha naquella maneira que milhor parecer, que seja conforme á outra obra e asy lhe dem entrada para a Igreja do Mosteiro da milhor maneira que parecer, e mandem mudar para ellas, sendo primeiro de todo acabadas, e asy seus Altares, e todas as outras cousas necessarias: El-Rei Duarte, que foy o primeiro principiador dellas, e assy El-Rey D. Affonso meu thio, e El-Rey D. João, que Deus aja, e o Principe D. Affonso, meu sobrinho».
As phrases terminantes d'esta parte do testamento parece indicarem D. Duarte como iniciador das obras, quer este principe tivesse apenas o pensamento de construir um pantheon de familia, que D. Manuel depois adoptou, quer lhe lançasse os fundamentos, sobre os quaes depois, e muito mais tarde, começaram a crescer os edificios. Em nossa opinião só a tanto se poderia ter alargado a iniciativa de D. Duarte, não só porque o reinado d'este principe, de 1433 a 1438, foi curtissimo; mas ainda porque em principios do seculo XV seria impossivel em qualquer parte, principalmente em Portugal, o emprego do estylo d'estas capellas.
N'este tempo reinava o Estylo Ogival no seu estado de pureza, e a evolução da arte não manifestára ainda os primeiros symptomas da renascença. Além d'isso, a carta, anteriormente citada, de D. Duarte a Fernão Rodrigues, védor das obras do Mosteiro da Batalha, corrobora esta presumpção. O principe não teria deixado de referir-se ás obras das capellas, sendo natural ter maior interesse pelas da sua propria iniciativa. A construcção devia, pois, estar parada e ter ainda pequena importancia no principio do reinado de D. Manuel, se na realidade passou de simples plano.
Todas estas presumpções são fortalecidas por outras rasões, que seguidamente vamos adduzir, muito embora não pretendamos alongar esta exposição e fazer detida descripção d'esta parte do Mosteiro.
A grande porta das capellas imperfeitas é uma das melhores, das mais ricas e bellas, se não a melhor que temos visto até hoje, fóra e dentro do paiz. Deve ser considerada incontestavelmente um primor de elegancia, de ornamentação e de execução; mas um architecto ogival não a poderia ter creado, por maior genio e sciencia que possuisse. A potente concepção do artista, fosse elle quem fosse, já estava fortemente aquecida pela renascença e enthusiasmada pelas glorias das viagens portuguezas ao Oriente. Sente-se, vê-se isto n'aquellas pedras, quasi cinzeladas.
Sem a pretensão de descrever, o que é indescriptivel sem o auxilio de planos e desenhos minuciosos, diremos, apenas, que na face voltada para o vestibulo, a de ornamentação mais sobria e pura, as molduras da porta estão, de cima até abaixo, absolutamente cobertas de pequenos anneis encadeados, em cujos espaços circulares se lêem caracteristicas legendas. No alto da porta, em dois grandes anneis similhantes, que a fraca claridade do vestibulo mal deixa perceber, lêem-se em caracteres gothicos as palavras gregas: pante taray. Nos anneis mais pequenos repete-se sempre outra legenda, tambem em grego: tanyas erey.
Sem falarmos nos erros orthographicos, que provêem de se empregar muitas vezes n'esse tempo o y por i, estas legendas completam-se na symbolica e imperativa phrase: depressa por toda a parte descobre regiões. É o grito da alma portugueza dos seculos XV e XVI que o architecto deixou gravado na pedra do formoso monumento!
Na face voltada para o recinto das capellas, o estylo parece mudar de physionomia. Os rendilhados assumem proporções phantasticas. A pedra parece trabalhada por joalheiros. A nossa memoria occorrem essas filigranas delicadissimas, que a India e a China nos enviam, abertas em sandalo e marfim!
Se é licito, deante de tal primor, lembrar defeitos, talvez seja esta ornamentação, levada ao ultimo excesso de finura e riqueza, aquelle que impressiona o nosso espirito, principalmente quando passamos abruptamente do grande estylo, simples, puro e ideal dos edificios da primeira epocha para os das capellas imperfeitas. Que nos perdoe o poderoso e genial creador d'esta maravilha architectonica!
Ora, se é possivel duvidar de que as paredes do vestibulo crescessem simultaneamente com as do recinto das capellas imperfeitas, duvida que aliás para nós não existe, seria um absurdo insustentavel fazer egual supposição ácerca da porta monumental, que dá entrada unica para este recinto.
Devia ter um genio prophetico o architecto ogival, que em começos do seculo XV, durante o reinado de D. Duarte, projectasse esta porta monumental de accentuada renascença, com indiscutiveis influencias orientaes na ornamentação e nas legendas, excepcionalmente escriptas em lingua grega!
No interior do recinto das capellas a physionomia do estylo muda sensivelmente. Até á altura das janelas em começo, a influencia ogival ainda é profunda; embacia-se mais, depois, accentuando-se os caracteres da renascença. Por cima da magnifica porta, que acabamos de indicar, uma bella janela accusa já fortemente a renascença italiana, que aliás se manifesta na ornamentação geral d'esta parte superior do edificio. Aos espiritos um pouco versados na historia e nos caracteres dos estylos occorre que algum tempo deve ter separado estas duas construcções sobrepostas, realisadas por architectos differentes[9].
De facto, parece que depois da interrupção da construcção das capellas imperfeitas, ainda no tempo de D. Manuel, as obras tiveram andamento. Assim, D. Sebastião, para continuação dos trabalhos, mandou dar em 1574, pela Casa da India, 400$000 réis annuaes, impostos sobre o contrato da pimenta. Já n'este tempo tinhamos addicionaes! Segundo consta, este imposto pouco ou nada produziu; mas isto não prova que o mesmo rei não concedesse outros fundos para esta construcção, que lhe mereceu as attenções. Depois, em 1591, Filippe I—o celebre demonio do meio dia—mandou fazer o orçamento, como se diria hoje, para terminação das capellas imperfeitas; mas o dinheiro nunca chegou de Hespanha, onde mal dava para a grandiosa obra da construcção do Mosteiro de S. Lourenço, no Escurial.
Seja como for, a parte superior das capellas imperfeitas pela feição especial do seu estylo parece-nos de construcção posterior á outra parte, devendo datar dos meiados do seculo XVI.
Apesar do seu incontestavel valor architectonico, a elevação d'este edificio, na situação onde se encontra, foi um grave e irremediavel erro, que se tornaria monstruoso se a construcção tivesse sido finalisada e posto em directa communicação o pantheon dynastico com a egreja primitiva, como D. Manuel indicava no seu testamento. Por esta fórma, as absides do templo ogival ficariam quasi sem luz e as communicações directas só podiam ser rasgadas, ou na abside central, a capella-mór, ou nas duas absidiolas lateraes adjacentes, estragando completamente a bella egreja ogival.
Ainda no estado actual as capellas imperfeitas prejudicam muito a luz das janelas inferiores das cinco absides do templo, principalmente das tres comprehendidas no vestibulo, tirando-lhes os bellos effeitos dos vitraes, atravessados pelos primeiros raios do sol nascente, tão procurados pelos architectos da edade media.
Pensar em demolir as capellas imperfeitas, dado o seu grande valor historico e architectonico, constituiria um crime de lesa-arte; mas o que poderia fazer-se com vantagem para ambos os monumentos, um ganhando luz para as respectivas absides, outro para a soberba porta acima descripta, seria demolir a abobada do vestibulo, deixando-lhe apenas as paredes lateraes, onde existem, como dissemos, duas bellas janelas, que devem ser respeitadas.
Eis em rapidos traços a summaria enumeração das construcções da terceira epocha. Se excede os quadros d'este livro, exige-a a descripção do Mosteiro, que não ficaria completa, se a este trabalho por inopportuno nos houvessemos poupado.
MOSTEIRO DA BATALHA—Córte longitudinal segundo o eixo da Egreja
CAPITULO QUARTO
DESCRIPÇÃO GERAL DOS EDIFICIOS DA PRIMEIRA EPOCHA
—Estylo Ogival—
Por ordem logica, deveriamos, talvez, começar pela descripção exterior das fachadas do Mosteiro, porque estes elementos se apresentam primeiro á nossa observação; todavia, alteramos esta ordem, visto ser impossivel bem avaliar e estudar uma construcção, sem previamente haver formado clara idéa das disposições geraes da respectiva planta.
I
Plano geral dos edificios ogivaes
Egreja. Está orientada, como era costume, na direcção leste-oeste, correspondendo a porta da fachada principal ao poente e abrindo as bellas janelas das cinco absides sobre o oriente, d'onde o templo devia receber a primeira luz radiante da madrugada, atravez dos vitraes polychromicos. A absurda escolha do local para a construcção das capellas imperfeitas inutilisa, em grande parte e sem remedio, este effeito poetico, procurado em quasi todas as cathedraes romanicas e ogivaes.
A egreja tem tres naves, apenas; a do centro, mais larga e elevada do que as outras, termina pela abside principal, tambem de maior altura e comprimento do que as quatro absidiolas, duas de cada lado, correspondendo as confinantes com a nave central ás naves lateraes, e as extremas vencendo o excesso de comprimento do transepto sobre a largura das tres naves. Dada esta disposição, não existe charola. Assim, a nave central, prolongada pela respectiva abside e cortada pelo transepto, desenha uma elegante cruz latina. No extremo sul do transepto abre-se outra porta para a egreja; esta porta, e a da fachada principal, são as unicas que de fóra a servem. Em poucas palavras eis a descripção da elegantissima planta do templo.
A egreja é pequena, já o dissemos; mas tão pura de estylo que a pequenez não lhe sacrifica a majestade. Para formar idea das suas dimensões, apresentamol-as comparadas com as das Cathedraes de Milão e de Sevilha, colossos de cinco grandes naves do Estylo Ogival.
| Milão | Sevilha | Batalha | ||
| m | m | m | ||
| Comprimento da porta ao fim da abside | 148 | 140 | 81,18 | |
| Largura de todas as naves | 57 | 77 | 21,97 | |
| Comprimento do transepto | 87 | 77 | 36,12 | |
| Largura do transepto | 19 | 16 | 9,48 | |
| Nave central | { Altura | 46 | 40 | 27,73 |
| { Largura | 19 | 16 | 9,48 | |
MOSTEIRO DA BATALHA—Córte transversal da Egreja segundo o eixo do transepte
N'estas dimensões devemos observar a relação da largura para a altura das naves centraes. Na Egreja da Batalha esta relação é representada por 1:2,9, emquanto na Cathedral de Milão attinge apenas 1:2,4 e 1:2,50 na de Sevilha. Differenças similhantes se devem dar nas naves lateraes; por isso, a expressão de elegancia do edificio portuguez é bem superior ás dos monumentos italiano e hespanhol.
As naves lateraes são illuminadas por sete janelas, das quaes duas na do sul mais pequenas, porque ficam em parte inutilisadas pela capella do fundador. São elegantissimas e correspondem aos vãos interiores das arcadas da egreja. A nave principal recebe, tambem, luz de cada lado, por sete janelas do clerestory, verdadeiras reducções das anteriores, abrindo sobre os terraços das naves lateraes, entre os arcobotantes que amparam o corpo mais elevado do centro.
Estas disposições serão facilmente comprehensiveis estudando e comparando as pequenas gravuras correspondentes ao corte longitudinal, segundo o eixo da egreja, ao transversal, segundo o eixo do transepto e finalmente ao do claustro principal[10].
Por cima da porta principal, uma grande janela maior do que o vão d'esta porta, fechada por finissimos rendilhados de pedra, derrama luz suave e multicolor ao longo da nave central. O transepto recebe luz de quatro janelas, rasgadas sobre as absidiolas e ainda de outra sobre a porta do extremo sul do mesmo transepto; janela enorme, de dimensões bem superiores ás da porta, com tympano de quadrifolios sustentado por dois maineis, entre os quaes existe um tecido de pedra aberto em lozangos. Em geral, na ornamentação dos tympanos das janelas predominam os quadrifolios. Insistimos na descripção para darmos idéa da feição caracteristica do ogival inglez, que se manifesta por toda a parte na Egreja da Batalha[11].
MOSTEIRO DA BATALHA—Córte do Claustro principal
Capella do fundador. Seguindo a planta, ao entrar na egreja á direita, depara-se-nos esta capella de fórma quadrada, tendo 20m,1 de lado, juxtaposta á nave do sul, de que inutilisa parte de duas janelas. O conjunto d'este pequeno edificio é de um encanto grandioso, apesar das dimensões. O recinto é illuminado profusamente por tres janelas em cada uma das paredes livres, a do centro magnifica, com sete maineis sustentando um grande tympano, as lateraes de tres maineis. Arcocelios de puro estylo, encostados ao lado sul da capella, cobrem os sarcophagos dos infantes filhos de D. João I e de D. Filippa, cujos restos foram tambem recolhidos n'outro grande e bello sarcophago, isolado no meio da capella entre os arcos de um elevado zimborio, ou torre.
Levanta-se esta construcção sobre oito arcos, formando um octogono de 5m de lado. Estas arcadas sobem e sobre ellas e as paredes lateraes assentam as abobadas da parte rectangular da capella; depois, as respectivas paredes crescem, formando exteriormente uma torre octogona, amparada por arcobotantes, tendo em cada uma das faces uma janela. É admiravel o effeito d'este mausoleo, quer no interior, quer no exterior, verdadeira obra prima no genero. Constitue uma creação esthetica tão feliz no exito, que, ainda visto muitas vezes, causa sempre agradavel impressão.
Sacristia. Da absidiola do norte passa-se para este recinto, tendo 11m,95 por 9m,47, que nada envolve importante a não ser as duas respectivas janelas conjugadas, viradas ao nascente. Para a sacristia abre a pequena casa do thesouro.
Claustro principal. Encosta-se á nave lateral do norte; mas os porticos não lhe mascaram as janelas, que abrem sobre os terraços d'este claustro. Os porticos são, pois, baixos e não affrontam o corpo da egreja; pelo contrario, completam-n'o, dando-lhe o realce de varios planos. Este magnifico claustro, tendo 55m,3 de lado, é formado de grandes arcos, encastrados entre fortes botareos, com tympanos rendilhados repousando sobre cinco finos columnellos; produz um effeito deslumbrante. Sob um pavilhão, tendo paredes communs com o claustro, no angulo sudoeste, existe o lavabo, ou a fonte, a que indubitavelmente se refere a carta citada de D. Duarte. N'este ponto gosa-se de um dos mais bellos golpes de vista, que offerece o Mosteiro.
Casa do capitulo. No portico oriental do claustro depara-se com a entrada d'este edificio, uma grande porta, ladeada por janelas, uma de cada lado, manifestando tudo extraordinaria belleza nas linhas geraes e na ornamentação. A sala forma um quadrado perfeito de 19m,95 de lado. É coberta por um só vão de abobada de extrema elegancia, ricamente artezonada e com enorme bocete. Esta abobada, cuja geração é um pouco complexa, constitue uma especie de cupula, dando em projecção horisontal uma estrella de seis raios. Nos cantos da sala os artezões nascem de misulas; nas paredes, firmam-se em columnellos, que descem ao pavimento. Em verdade, é uma das abobadas mais bellas e bem lançadas que temos visto. Além d'isso, distingue-se pela admiravel perfeição do trabalho; observação que devemos em rigor applicar a todas as obras ogivaes do Mosteiro da Batalha.
MOSTEIRO DA BATALHA—Portico sul do Claustro principal
Ácerca da construcção d'esta abobada, considerada muito difficil, correm varias lendas. É certo que a abobada é bastante abatida; não nos parece, porém, que a difficuldade extrema da construcção seja o caracter que mais a recommenda. Bem mais difficil julgamos ser a construcção de uma abobada unica, como a que por exemplo cobre o extenso transepto da Egreja do Mosteiro dos Jeronymos, em Belem.
Em frente da porta da entrada d'esta sala, uma grande janela com vitraes, talvez os mais antigos e melhores do Mosteiro, dá luz ao recinto. Tambem se vêem por cima das janelas, que ladeiam a porta, duas pequenas rosaceas. São as unicas, aliás bem insignificantes, que se encontram em todo o Mosteiro, onde reinam exclusivamente as janelas de formas elegantissimas, algumas vezes simples, em geral divididas por maineis.
Refeitorio. Communica com o portico occidental do claustro real. Nada tem notavel; é apenas uma grande sala de 27m,3 por 9m,7, abobadada, bastante feia e abaixo do valor architectonico do resto do edificio.
Cosinha. Em communicação directa com o refeitorio existe a cosinha, tendo 10m,17 por 9m,34, que por cousa alguma se recommenda.
Adega, e dispensa. Este edificio abobadado, tendo 37m,36 por 9m,34, corre ao longo do portico norte do claustro principal, para onde abre apenas por tres frestas.
Portaria. É uma grande sala, tendo 12m,08 por 9m,34. Servia de aula para as lições, que os frades davam a estudantes seculares.
Eis a succinta descripção do plano geral do Mosteiro, na parte que se refere aos edificios da primeira epoca, os ogivaes. Quizemos dar uma idéa do conjunto e das disposições relativas, para acompanhar a planta geral e as gravuras, que, segundo pensamos, muito esclarecem e completam a descripção.
II
Descripção das fachadas
Descrevamos agora succintamente o exterior do edificio, limitando-nos ás linhas mais geraes. A fachada principal, que olha para o occidente, é formada por tres corpos diversos: o da egreja, ladeado ao sul pelo da capella do fundador e ao norte pelo do refeitorio. Os dois primeiros estão no mesmo alinhamento, o terceiro avança sobre este alinhamento a respectiva largura.
Fachada principal. Não é ornada de torres. Pertence á categoria das construcções, de que são exemplo as Cathedraes de Sevilha e de Milão. Assim, tambem n'esta fachada se notam, perfeitamente marcadas por botareos encimados de pinaculos, tres divisões verticaes: a do centro correspondendo á nave principal, e as lateraes ás naves secundarias.
MOSTEIRO DA BATALHA—Fachada principal
A divisão central, de cerca de 30 metros de altura, excede n'um terço approximadamente as divisões lateraes. Comprehende o unico portal, sobrepujado por uma grande janela coroada por elegante platibanda. As divisões lateraes apenas teem as janelas, que illuminam as respectivas naves. Assim, nas linhas geraes, a fachada define com nitidez as dimensões e as disposições internas da egreja.
Na divisão central, o portal pouco profundo, de molduras ogivaes embocetadas e decrescentes, repousando sobre columnellos eguaes, termina no vão da porta, ornada de tympano de pedra. A parede d'esta divisão da fachada cresce sobre o portal e quasi a dois terços da altura cessa, deixando estreita passagem, resguardada por uma platibanda, em frente da grande janela, que dá luz á nave principal. Esta passagem liga entre si os terraços das naves lateraes. O corpo medio da egreja, mais elevado do que os colateraes, é amparado por arcobotantes, dos quaes os mais proximos da fachada são mais rendilhados e leves.
A ornamentação é de extrema sobriedade. Por cima do portal e da janela, altas e estreitas arcaturas—melhor lhe chamariamos talvez caixilhos ou almofadas—cujo lavor pouco sobresae da silharia da parede, parece sustentarem uma faixa de galões tecidos em losangos. As platibandas do edificio offerecem fórmas quadrilobadas, repousando sobre cornijas sustentadas por pequenos modilhões ogivaes. Os botareos centraes da fachada são ornados de caixilhos ou almofadas, a partir de certa altura.
A simplicidade da ornamentação, despretenciosa e pura, é encantadora e traduz no emprego geral das arcaturas principalmente e dos caixilhos, bem como na relação das portas e das janelas e na ausencia de rosaceas, os caracteres do ogival inglez, apontados por Hope, na citação anteriormente feita[12].
Fachada da capella do fundador. É ainda de maior simplicidade. A parte quadrada inferior está dividida por quatro botareos, em cujos vãos se rasgam tres janelas. Dos botareos centraes partem arcobotantes, que terminam proximo das cabeças de outros oito botareos, revestindo os angulos da torre octogonal; a cada intervallo corresponde uma das oito respectivas janelas. A ornamentação, muito sobria e do caracter da anterior fachada, resume-se nas platibandas, desacompanhadas de arcaturas. A torre central foi coroada por um grande corucheo. Pena é que a restauração do Mosteiro não abrangesse até hoje este importante complemento, que tanto engrandeceria a fachada principal.
MOSTEIRO DA BATALHA—Portal do sul
Fachada do refeitorio. Por um muro curto e liso, apenas encimado pela platibanda já descripta, muro que corresponde a uma pequena extensão do claustro principal, liga-se a fachada simplicissima do refeitorio e da cozinha com a da egreja. É um edificio longo, dividido por nove botareos, entre os quaes se abrem janelas ou frestas, seis do refeitorio e duas da cozinha. São de verga inteira, sem ornamentação alguma. Platibanda similhante á do resto do edificio corôa tambem esta construcção.
Como se vê, o conjunto das fachadas, offerecendo original simplicidade, é muito sobrio nas linhas geraes e mais ainda na ornamentação, em nada parecida com as disposições complicadas de outras construcções ogivaes, principalmente de caracter francez e allemão. Seria isto ainda um indicio, se necessario fosse, da origem do estylo do Mosteiro da Batalha.
Fachada sul. Desenham-se as duas naves, a lateral com as janelas sobre parede lisa: as duas primeiras mascaradas em parte pela capella do fundador. A nave central vê-se por cima, guarnecida de botareos, sustentados por arcobotantes, encastrando as respectivas janelas do clerestory.
Na parte correspondente ao transepto, outro portal, mais simples do que o primeiro, constitue a segunda entrada da egreja, tendo por cima a grande janela que anteriormente descrevemos. Na desproporção dos respectivos vãos mais se accentua, ainda, a observação de Hope sobre o ogival inglez. Seguem-se as absides com estreitas janelas e, encostada ao fundo d'essas absides, a construcção das capellas imperfeitas.
Fachada norte. A este lado da egreja está encostado o claustro. A disposição d'esta fachada é em tudo similhante á precedente, salvo a elegante torre do relogio, coroada de fina e rendilhada agulha.
O córte do edificio pelo claustro, gravura anteriormente apresentada, completa a descripção das mais importantes fachadas, porque as restantes se acham, em parte ou no todo, mascaradas pelas capellas imperfeitas e pelos edificios do antigo convento, ainda hoje existentes.
III
A ornamentação architectonica do Mosteiro
A grande arte traduz-se nas linhas geraes, que a ornamentação deve acompanhar, realçando-as apenas, sem lhes prejudicar a pureza e as elevadas qualidades essenciaes. O excesso de ornatos constitue, em geral, grave symptoma de decadencia na arte ou falta de genio nos artistas.
Assim, uma das fórmas fundamentaes da belleza é incontestavelmente o corpo humano; ora, a suprema expressão d'esta unidade esthetica consiste em o representar em completa nudez. A grande difficuldade está incontestavelmente em realisal-o.
Os artistas gregos, os geniaes creadores da mais perfeita esculptura do corpo humano, em que até hoje não tiveram senão bem raros competidores, descobriram esta lei do bello e enunciaram-n'a em milhares de creações, algumas das quaes, que resistiram á acção destruidora do tempo e dos homens, são ainda hoje causa de sincera e profunda admiração. Eis por que elles representavam quasi sempre Venus e Apollo, symbolos da belleza humana, em perfeito estado de nudez; e quando excepcionalmente lhes envolveram os corpos em leves estofos, a ornamentação contribuia para avigorar e realçar a perfeição das fórmas e das carnes nuas.
Uma das mais formosas estatuas classicas, semi-vestidas, ainda existente, a Venus Callipygia do Museu de Napoles, arregaça com a mão esquerda a fina e leve tunica, deixando ver as linhas mais puras e suaves do corpo humano, traduzidas admiravelmente no antigo marmore de Paros, a que os seculos deram quasi o tom avelludado e quente de uma carnadura viva e palpitante. A casta Diana, a sabia e guerreira Minerva não fogem a esta regra. Uma das melhores estatuas da Galeria Chiaramonti no Vaticano, Diana contemplando Eudymion adormecido, veste o peplum tão cingido, que por baixo d'elle se desenha o bello torso; a tunica roçagante é tão fina e sedosa, que atravez do estofo transparente se vêem as fórmas delicadas e perfeitas da casta deusa.
Assim, na esculptura como na architectura, o genio grego demonstrou que nas linhas geraes reside a suprema belleza, não sendo a ornamentação mais do que um accessorio, que, longe de as abafar e deturpar, deve pelo contrario contribuir para as engrandecer e realçar. A simplicidade, a pureza e a harmonia da ornamentação são, pois, qualidades indispensaveis dos grandes estylos da arte[13].
Os primitivos architectos ogivaes do Mosteiro da Batalha executaram esta lei esthetica com verdadeiros rasgos de genio. Assim, em edificio algum do mesmo estylo, dos muitos que temos visto, a harmonia e a pureza das linhas geraes tocam o grau da perfeição, attingido no monumento portuguez; nem é possivel encontrar segundo, entre os de correspondente importancia, tão sobrio e puro na ornamentação. Estas qualidades excepcionaes são exactamente as que originam o seu incontestavel e elevado valor artistico. A harmonia architectonica entre as linhas geraes e a ornamentação é tão intima e perfeita, que, ao primeiro golpe de vista, o monumento portuguez produz a impressão profunda de uma unidade esthetica.
É muito difficil, se não impossivel, com simples palavras definir impressões. Certos movimentos do espirito são comprehensiveis, porque, nascendo da propria essencia da alma, todos os possuimos e os sentimos em maior ou menor escala. A não ser isto, tornar-se-iam muitas vezes enigmaticos, visto que a linguagem humana, perfeita para a enunciação de idéas, é um instrumento incompleto, quando pretende definir a intima e profunda natureza das sensações e dos sentimentos. Assim, esta expressão unidade esthetica poderá parecer obscura aos que não tenham larga cultura intellectual, ou pelo menos não possuam poderosas faculdades artisticas.
A nossa experiencia tem-nos demonstrado que em taes casos uma simples comparação vale mais do que longas e didacticas dissertações. Evoquemos do passado de vinte e cinco seculos uma mulher d'essa belleza singular, que serviu de modelo aos maiores esculptores da Grecia; vistamol-a, depois, de qualquer fórma. Ficará sempre uma mulher formosa. Mas o penteado elegante e alto, o peplum afivelado nos hombros nús, caindo sobre a tunica leve e roçagante, emfim, esse vestuario que o genio grego creou para as linhas geraes da belleza jonica, fará da mulher formosa uma unidade esthetica.
Assim, o Mosteiro da Batalha produz-nos a impressão encantadora das mulheres virgens, honestas e formosas, ornadas com essa extrema e elegante simplicidade, que é o reflexo exterior e harmonico de um puro estado da alma.
Já falámos das fachadas do Mosteiro; bem longe estamos d'esses enormes porticos profundos de caprichosa ornamentação, coroados de grandes rosaceas, e ladeados de torres immensas, cujas agulhas finas e rendilhadas parece tocarem as mais altas nuvens. O Mosteiro da Batalha não offerece esta rica ornamentação. Nem torres, com flechas arrojadas, nem profundos porticos guarnecidos de grandes esculpturas de phantasticas e mysticas personagens, possue o modesto e singelo monumento!
A Cathedral de Milão é povoada por 6:000 estatuas de todas as grandezas, dispersas pela vasta construcção em nichos de ricos e variadas fórmas. O Mosteiro da Batalha tem apenas as doze estatuetas do portico; em mais parte alguma se vê outra estatua, ou um nicho deserto espera ainda a obra do esculptor!
O interior da egreja é, tambem, de absoluta simplicidade. A ornamentação limita-se aos pontos, onde era indispensavel: aos capiteis das columnas, aos tecidos das janelas e, por excepção, aos lambrequins de pedra que guarnecem o intradorso dos arcos das absides.
Os feixes de columnellos, de extrema elegancia e delicadeza, que revestem os pilares das naves, sobem a grande altura e ramificam-se nas abobadas, abrindo-se em simples rede de nervuras singelas. A Cathedral de Sevilha, no vastissimo cruzeiro e nos primeiros vãos das naves, a de Milão, em toda a extensão da grande nave, offerecem as abobadas recamadas de verdadeiras rendas de pedra, entre os meandros de complicadas nervuras.
As paredes nuas do templo, emolduradas pelos arcos e pelos columnellos, crescem de baixo até acima sem o mais simples ornamento, sem a mais ligeira moldura; n'essas superficies immensas brilham, apenas, as janelas de excellentes proporções, como refulgem os grandes diamantes, encastoados em velha prata oxidada. A Egreja da Batalha possue a belleza ideal das suas linhas geraes, a perfeição innegavel da construcção e a côr de velho marfim, que os seculos deram á antiga pedra. Mais nada.
Em todo o Mosteiro reina egual simplicidade. Na capella do fundador, cujas disposições elegantissimas já tentámos descrever, a ornamentação é um pouco mais rica nos lambrequins dos arcos da cupula interna. Não falaremos no tumulo de D. João I e D. Filippa e nos bellos arcocelios dos tumulos dos infantes seus filhos, porque na realidade não constituem verdadeiros elementos de ornamentação architectonica.