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A guerrilha de Frei Simão: romance historico cover

A guerrilha de Frei Simão: romance historico

Chapter 31: NOTAS
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About This Book

The narrative reconstructs the life and struggles of a religious friar born into a provincial family whose sons follow military and monastic paths, tracing family background, wartime service, political divisions, and the friar's involvement in guerrilla action against the prevailing authorities. The author interleaves documentary research and eyewitness memory to depict episodes of imprisonment, escape, clandestine resistance, and the moral conflicts between loyalty to conscience and political allegiance, while evoking rural settings and the social networks that shape loyalties and tragedies.

Estes são os espelhos, em que nos devemos todos vêr, e n’elles ver-se a luz, e guia que deante vai.

Luiz de Souza de Lima—«Avisos do céu».

Em agosto de 1833 Margarida Candida teve occasião de recuperar a liberdade, e recuperou-a.

Frei Simão não poude chegar a abrir-lhe as portas do mosteiro, mas a sua familia, na primeira hora de triumpho, logrou não só cumprir a promessa do frade, mas até vingar por um acto publico a morte d’elle.

Segundo a informação publicada pela Chronica no seu numero correspondente ao dia 31 d’aquelle mez e anno, o capitão-mór de Arouca, sabendo que se tratava de acclamar ali a senhora D. Maria II, mandou prender o capitão d’ordenanças, por suspeito de proteger a conspiração, e com o fim de o enviar á commissão mixta de Vizeu.

«Este acto de violencia, diz a Chronica, despertou o brio dos conjurados, e por diligencias de Antonio Pinto Pereira de Vasconcellos, que com zelo incançavel fez deliberar o resto dos amigos apalavrados, no mesmo dia se dirigiram á cadea, soltaram o preso, e concluiram depois o acto solemne da acclamação da senhora D. Maria II.»

Antonio Pinto Pereira de Vasconcellos era, como se sabe, o irmão mais novo de frei Simão. Mas um documento de familia diz-nos que o pae, apesar de velho e doente, tambem se associou á conspiração planeada pelo filho mais novo.

«O capitão-mór fugiu—prosegue a Chronica—com os abbades de Santa Eulalia e S. Salvador, bem como as freiras do convento, excepto quatro. D’estas tem voltado algumas, sabendo que reina a boa ordem, e que não se commettem as violencias com que o partido da usurpação intimida os povos, fazendo-lhes crer que as vinganças e a desordem é ao que aspiram os constitucionaes.»

Margarida Candida foi das freiras que fugiram, e não voltaram.

Teve razão, porque a hydra do absolutismo não ficára ainda esmagada em Arouca.

O capitão-mór fugitivo requisitou forças que fossem prender José Bernardo Pereira de Vasconcellos e seu filho Antonio, motivo por que ambos emigraram para o Porto.

A dentro das trincheiras liberaes, no Porto, Antonio Pinto, no empenho de fazer triumphar a causa que lhe tinha victimado dois irmãos, tomou sobre si a tarefa de organisar um batalhão de voluntarios de Arouca, que se lhe foram reunir.

Saibamos o destino de Margarida Candida, depois que fugiu do mosteiro.

Restaurada a liberdade, appareceu em Aveiro uma senhora vestida de preto, e acompanhada por uma criada, sua unica familia. Alugou casa n’aquella cidade, e ali se domiciliou. Todos os dias, pela manhã, visitava a egreja de Santo Antonio, e orava longo tempo ajoelhada sobre a sepultura de Joaquim Maria de Vasconcellos.

Esta senhora era a sobrinha de André Pinto.

O tio vivia ainda, mas estava refugiado em Hespanha, temendo-se principalmente dos seus adversarios politicos de Traz-os-Montes. Constava que tinha feito testamento deixando a pessoas extranhas algumas propriedades que tinham escapado á voragem de grandes despesas politicas. Mas, vindo a morrer em Hespanha, não se lhe encontrou o testamento, pelo que Margarida Candida se habilitou á herança.

Em Aveiro suppunha-se que a familia Vasconcellos de Cezár tinha estipulado a Margarida Candida uma mesada, que ella receberia em quanto os tribunaes a não reconheceram como herdeira do tio.

Ninguem revelou a D. Anna de Vasconcellos o fim tragico de frei Simão, mas é de suppôr que ella suspeitasse o que tinha acontecido, porque os seus padecimentos aggravaram-se desde 1833.

A enfermidade de que soffria pareceu retomar o seu antigo curso, por algum tempo interrompido, ou pelo menos attenuado. Sobreveio a difficuldade dos movimentos, a atrophia gordurosa dos musculos, a inercia, a cerrada tristesa que obscurecia o espirito, mas o tremor nervoso tinha diminuido.

Quando, porem, o periodo terminal da paralysia agitante tendia a accentuar-se, uma doença intercorrente, em 1837, apressou a morte.

D. Anna de Vasconcellos foi sepultada na egreja de Cezár.

O pai, acompanhado por alguns amigos, trouxe, uma noite, o feretro da filha para a capella de familia, onde se acha depositado.

Do fim de José Maximo da Fonseca sabemos pelo livro do sr. Martins de Carvalho, intitulado Apontamentos para a historia contemporanea.

«No dia 15 de dezembro de 1865—diz este livro, a pag. 102—falleceu em uma casa da misericordia de Lagos, no Algarve, um individuo com o nome supposto de Manuel do Nascimento, e conhecido pela alcunha de Fresca Ribeira.

«Este individuo, que tinha por profissão habitual concertar pratos e outros objetos de louça, e que se apresentava como caldeireiro ambulante, tinha o rosto desfigurado com polvora e com algumas cicatrizes.

«Era em todo o Algarve, em Beja e outras povoações do Alemtejo, voz geral que este homem fôra um dos que tomaram parte no crime commettido no dia 18 de março de 1828.

«Via-se que não era o que inculcava, porque mal podia comprehender-se que, sendo elle o que dizia, fallasse com correcção as linguas francesa e hespanhola, e tivesse conhecimento muito regular do latim.»

Os ultimos annos da existencia de José Maximo foram a suprema miseria de um desgraçado.

Quando em Beja apurou discretamente que D. Anna de Vasconcellos tinha morrido, torturada por tão longos soffrimentos, começou a embriagar-se, o que até ali jámais havia feito.

Os curiosos, explorando o ébrio, faziam-lhe perguntas, a que elle então respondia, dizendo inconscientemente a verdade: Que tinha sido estudante de um e outro direito em Coimbra; que tivera parte no crime do Cartaxinho; que fugira e andára emigrado pela Belgica, França e Hespanha; e que ainda durante o governo de D. Miguel viera por algumas vezes a Portugal a vender matala-uva, sem que ninguem o reconhecesse, graças ao seu completo disfarce.

Apesar de embriagado, José Maximo chorava, n’uma funda tristeza, quando fazia estas revelações.

Mas nunca pronunciou uma unica phrase allusiva a D. Anna de Vasconcellos.

Esse segredo era para elle tão instinctivamente inviolavel, que nem a «verdade do vinho» lh’o podia arrancar.

O sr. Martins de Carvalho completa as suas informações escrevendo:

«Dizia-se em Beja e no Algarve que este homem era natural d’uma terra do Alemtejo, onde tinha familia.

«Em Beja ensinava aos estudantes do lyceu, quando com elles se encontrava no largo d’este edificio, latim, logica, e outros preparatorios, recebendo por isso o que lhe queriam dar.

«Conta-se que um seu contemporaneo do Alemtejo, fallando com elle, o reconhecêra; que instara para que deixasse a vida em que andava, e que até lhe dera facto novo para vestir. Apesar d’isso, continuou sempre até morrer no seu modo de vida.»

Faremos ligeiros commentarios a estas informações.

O dizer-se que o Fresca Ribeira era natural do Alemtejo proviria do facto de elle, no tempo em que no Porto adoptou aquella alcunha, se inculcar como natural d’essa provincia.

A circumstancia de José Maximo, no regresso a Portugal, onde certamente o attrairia a saudade da patria que refina nos desgraçados, não sahir das provincias meridionaes, a mim mesmo a explico pelo horror que experimentaria em tornar a vêr as regiões do norte do paiz, onde a felicidade lhe tinha sorrido no amor.

Era-lhe dolorosa consolação poder erguer os olhos ao ceu da patria e pisar terra portuguesa, sem comtudo ter animo para transpor a linha ideal, que na carta geographica de Portugal separava o seu passado do seu presente.

Para atormental-o, bastavam-lhe as dilacerantes recordações que levava em si mesmo para toda a parte. Mas aclarar a memoria de tantos logares conhecidos, visitando-os, reconstituir scena a scena o drama da sua existencia pela exacta renovação do proscenio e do scenario, seria sacrificio superior ás forças de quem já tão quebradas as trazia pelos embates e conflictos de um amargo destino.

O contemporaneo que, fallando com elle no Alemtejo, o reconhecêra, devia ter sido talvez Jayme de Carvalho, o marido de Ernestina.

Assim acabou no catre de um hospital, ultimo paradeiro de todos os desgraçados, aquelle enthusiasta poeta da liberdade, que, melhor orientado, poderia haver prestado ao seu paiz relevantes serviços e occupado os mais honrosos cargos na gerencia dos negocios publicos.

Mas, na miseria em que viveu, a morte foi para elle um beneficio da Providencia. Desde 1828, José Maximo da Fonseca não era senão o epitaphio ambulante de si mesmo: epitaphio em que não se lia um nome, nem uma data, mas apenas, como acontece algumas vezes, uma simples invocação á piedade dos viandantes.

Quem em Beja ou no Algarve via passar o caldeireiro, coberto de remendos e cicatrizes, e sabia que elle preleccionava aos estudantes varias disciplinas, teria porventura dó d’esse mysterioso homem, que, apesar de redusido a tão humilde mister, denunciava haver tido mais alto nascimento e uma selecta educação litteraria.

A piedade que elle inspirava era como que o Pater noster do viandante ao passar pela cruz negra das encruzilhadas sinistras.

Havia ali uma victima, cujo nome se ignorava.

«Emquanto ao seu verdadeiro nome—perora o sr. Martins de Carvalho com referencia ao Fresca Ribeira—e á sua naturalidade, nem mesmo embriagado o revelava.»

Os restos mortaes de frei Simão de Vasconcellos foram em 1836 trasladados, com os dos seus guerrilheiros e outros martyres da liberdade, por iniciativa de uma commissão patriotica, para um mausoléo de honra levantado nos claustros da Sé de Vizeu.

A trasladação realisou-se com grande pompa religiosa e apparato civico.

A tradição refere que o corpo de frei Simão estava ainda incorrupto quatro annos depois do fallecimento, quando o transferiram da capella de S. Martinho, que já não existe, para o moimento da Sé.

Tambem em Cezár me asseverou um contemporaneo de frei Simão, e seu intimo, que elle costumava trazer cilicios por baixo do habito monastico.

A inscripção lavrada no mausoléo dos liberaes arcabusados em Vizeu consta de texto latino e respectiva traducção, que diz assim:

«Pela adhesão á liberdade, carta e rainha Maria II, por iniquas sentenças foram innocentemente condemnados e fusilados no anno de 1832 e 1833,

(Seguem-se os nomes dos liberaes portugueses, incluindo o de frei Simão, e de alguns hespanhoes).

«Descançam suas cinzas n’este monumento, o qual em detestação da execranda tyrannia d’aquelle tempo, e para memoria perpetua de varões tão benemeritos da patria os cidadãos de Vizeu religiosamente e por commum subscripção lhes dedicaram no dia 26 de agosto de 1836.

Esta glorificação pósthuma explica o motivo por que, na capella de familia, em Cezár, falta o cadaver de frei Simão de Vasconcellos.

Frederico Pinto, que, durante o cêrco do Porto, voltou, espontaneamente, ao serviço militar, sendo ajudante do batalhão de voluntarios de Santa Catharina, foi mais tarde empregado publico ao serviço da fazenda nacional.

Casou em segundas nupcias com D. Anna Clementina Pereira Berredo, da illustre familia dos Berredos de Gaya.

Morreu desastrosamente no sitio das Barrancas, estrada dos Carvalhos, por se ter empinado a égua que montava, ficando elle esmagado na quéda, sob o peso do animal.

O cadaver de Frederico Pinto foi condusido á capella de familia, onde jaz.

Um filho de Frederico Pinto, o major Augusto Cezár de Vasconcellos, morreu tragicamente, cumprindo o seu dever de militar, ás mãos dos soldados que o desrespeitaram na revolta de Braga, em 1862.

Tambem os seus restos mortaes estão na capella de Cezár.

O primogenito de Frederico Pinto teve o nome do pai, e já não existe. Foi elle que forneceu ao dr. Henriques Sêcco as ligeiras informações que a respeito de frei Simão este professor agrupou no primeiro volume das Memorias do tempo passado e presente.

Na casa de Cezár vive actualmente, como representante da familia do Outeiro, outro filho de Frederico Pinto, o sr. Alfredo Praça de Vasconcellos, engenheiro civil, que ha alguns annos abandonou a engenheria pela vida agricola.

Foi elle, mais uma vez o direi, que teve a paciencia e a bondade de me dar muitos esclarecimentos que lhe pedi sobre a vida e morte de seu tio frei Simão.

FIM


NOTAS

[1] O sr. Joaquim Martins de Carvalho.

[2] Esta senhora, tendo tomado gosto á vida conventual, veio, mais tarde, para as Commendadeiras de Santos, em Lisboa. Sahiu d’ahi, velha e doente, para ir residir n’um predio da Travessa do Convento de Jesus, onde falleceu ha cinco annos, como consta do obituario da freguezia de Santa Catharina.

[3] Este predio pertence hoje ao sr. conselheiro Francisco de Castro Mattoso Pereira Côrte Real.

[4] Este carpinteiro de Milheirós da Feira ainda vive. Chama-se Antonio Joaquim Corrêa Paes.

[5] Esta irmã de frei Simão veiu a casar, mais tarde, na casa do Bairro, em Arouca.

[6] Monsenhor Dupanloup foi depois uma das glorias do episcopado francez.

[7] «Historia da guerra civil», terceira epocha, tomo IV, pag. 4.

[8] Frei Joaquim morreu conego da Sé de Lisboa, cêrca de 1874.


ERRATAS MAIS IMPORTANTES

Nota do transcritor: Corrigido; e alguns erros adicionais também foram corrigidos.

Pag. 13-14, onde se lê—o rendimentos—leia-se—o rendimento.

Pag. 16, linh. 21, onde se lê—monsenho—, leia-se monsenhor; linh. 22, onde se lê—portuguer, leia-se—portuguez; linh. 23, onde se lê—cardeaz, leia-se—cardeal.

Pag. 17, linh. 21, onde se lê—accontecimentos, leia-se—acontecimentos.

Pag. 43, linh. 4 e 6, onde se lê—tres, leia-se—trez.

Pag. 174, linh. 16, onde se lê—a fim, leia-se—o fim; linh. 17, onde se lê—secreto, leia-se—occulto.

Pag. 213, linh. 8, onde se lê—Villa da Freira, leia-se—Villa da Feira.

Pag. 219, numeração do capitulo, onde se lê—XIX, leia-se XX; mesma pag. linh. 1.ª, onde se lê—Villa da Freira, leia se—Villa da Feira.

Pag. 225, linh. 22, onde se lê—está salva, leia-se—estava salva.

Pag. 227, linh. 9, onde se lê—um um, leia-se—um.

Pag. 272, linh. 34, onde se lê—le, leia-se—e; linh. 35, onde se lê—as, leia-se—las.