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Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos cover

Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos

Chapter 53: CAPITULO XXV
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About This Book

A group of artillery enthusiasts conceives sending a projectile to the Moon by means of a gigantic cannon, and the story traces their scientific planning, engineering design, fundraising and construction of the launch apparatus. The narrative follows technical debates, competing personalities, and public spectacle as calculations of trajectory and escape are worked out with enthusiastic rigor. A daring volunteer insists on joining the voyage, and after elaborate preparations the colossal gun is fired toward lunar space, leaving the result suspended in uncertainty. The work examines technological ambition, the interplay of mathematics and invention, and a wry perspective on scientific grandiosity.


Parti commigo para vermos (pag. 197).


--Pouco, respondeu o presidente do Gun-Club.



O gato tirado da bomba (pag. 206).


--Tambem eu não; apesar de que a historia tem registrado factos que, pelo menos, são para causar admiração. Assim em 1693, durante certa epidemia, morreu muita mais gente no dia 21 de janeiro, por occasião de um eclipse. O celebre Bacon desmaiava nas occasiões de eclipse da Lua, e só voltava a si depois da completa emersão do astro. O rei Carlos VI recaíu por seis vezes em demencia, no decurso do anno de 1399, e sempre em occasião de Lua nova ou de Lua cheia. Affirmam alguns medicos que a epilepsia deve classificar-se entre as doenças que acompanham as phases da Lua. As molestias nervosas tambem por vezes parecem depender da influencia lunar. Conta Mead que havia no seu tempo um menino que entrava em convulsões logo que a Lua entrava em opposição. Gall notou que a exaltação das pessoas debeis cresce duas vezes em cada mez, uma no novi-lunio, outra no pleni-lunio. Finalmente, ha mais de um milheiro de observações d'este genero, em respeito a vertigens, febres malignas e ataques de somnambulismo, que todos tendem a provar que o astro das noites gosa de mysteriosa influencia sobre o curso das doenças terrestres.

--Mas como? porque? perguntou Barbicane.

--Porque? respondeu Ardan. Á fé que te hei de dar a mesma resposta que Arago repetia dezenove seculos depois de Plutarco: «Talvez seja exactamente por não ser verdade!»

No meio do seu triumpho, não logrou Miguel Ardan escapar-se a nenhuma das massadas inherentes ao estado de homem celebre. Os especuladores de vogas e celebridades de occasião tentaram pô-lo em exhibição. Barnum chegou a offerecer-lhe um milhão para adquirir o direito de o transportar de cidade em cidade, em todos os Estados Unidos, e mostra-lo qual animal raro. A resposta de Miguel Ardan foi alcunha-lo de cornac, e manda-lo a elle Barnum... passeiar.

Todavia, recusando-se aliás a satisfazer por tal fórma a curiosidade publica, deixou Ardan pelo menos que seus retratos corressem pelo mundo inteiro e occupassem logar de honra em todos os albums; d'elles se tiraram provas de todas as dimensões, desde as de tamanho natural até as da grandeza microscopica da estampilha do correio. Estava ao alcance de toda a gente possuir a imagem do heroe, em qualquer das posições imaginaveis; cabeça só, meio corpo, corpo inteiro, de frente, de perfil, de tres quartos e até de costas. Tirou-se mais de milhão e meio de exemplares. A occasião era bem boa para se desfazer em reliquias, mas Ardan é que a não soube aproveitar. Só a vender os cabellos a dollar cada um, podia fazer uma fortuna, e mais já não eram muitos!

A popularidade, querendo fallar com inteira franqueza, não lhe era desagradavel. Pelo contrario, Ardan punha-se á disposição do publico, e correspondia-se com o universo inteiro. Por toda a parte se contavam, repetiam e propalavam os ditos conceituosos d'elle, muito principalmente os que elle nem tinha proferido. Como é uso, por isso mesmo que n'essa parte lhe sobrava a riqueza, é que mais lhe queriam dar ou emprestar. E não sómente soube tornar propicios os homens, senão tambem as mulheres. Bastaria que lhe tivesse passado pela cabeça a phantasia de «entrar no rol dos homens serios», para ter arranjado um numero infinito de «bellos casamentos». Principalmente as velhas misses, d'estas que ha bons quarenta annos se mirravam por não casar, todas devaneiavam dia e noite diante das photographias d'elle.

Certo é que teria achado companheiras aos centos, aindaque lhes impuzesse como condição acompanharem-n'o na aerea viagem; que as mulheres quando lhes não dá para de tudo terem medo, são verdadeiramente intrepidas. Porém, como Ardan não tinha intento de fazer estirpe no continente lunar, nem de para lá transportar raça atravessada de francez e americano, recusou-se formalmente a todos os enlaces.

«Ir eu lá para cima, dizia elle, fazer o papel de Adão com uma filha de Eva, obrigado! E se lá encontrasse serpentes!...»

Ardan, logoque alfim logrou subtrahir-se ás alegrias exageradamente repetidas do triumpho, foi com os amigos fazer uma visita á Columbiada, que bem lh'o merecia. De mais a mais, depois que Ardan vivia em contacto com Barbicane, J.-T. Maston e tutti quanti tinha-se tornado muito sabedor em questões de balistica. O seu maior prazer consistia então em repetir aos estimaveis artilheiros, que não eram elles mais do que amaveis e sabios assassinos. Ácerca de tal assumpto nunca se lhe esgotava a musa epigrammatica. No dia em que visitou a Columbiada, admirou-a com enthusiasmo e desceu até ao fundo da alma do gigantesco morteiro, que em breve havia de arremessa-lo para o astro das noites.

«Este canhão ao menos, disse, não ha de fazer mal a ninguem; o que da parte de um canhão já não é pouco para admirar. Mas não me venham cá fallar d'esses machinismos que destroem, que incendeiam, que despedaçam, que matam, e ainda menos dizer-me que têem «alma», que lá isso é que eu nunca hei de acreditar!»

Vem a pêllo narrar n'este logar um caso que diz respeito a J.-T. Maston. Quando o secretario do Gun-Club ouviu que Nicholl e Barbicane acceitavam a proposta de Miguel Ardan, resolveu lá no intimo juntar-se com elles, e fazer assim «uma parceirada de quatro»; um bello dia pediu para entrar na viajata. Barbicane, sentindo immenso ter que lhe responder com uma recusa, fez-lhe ver que o projectil não tinha lotação para tanto passageiro. J.-T. Maston, desesperado, foi ter com Miguel Ardan, que o convidou a resignar-se, fazendo até valer certos argumentos ad hominem.

«Ora pensa bem, meu velho Maston, e não vás tomar as minhas palavras em mau sentido; mas aqui para nós, a verdade é que estás muito incompleto para te apresentar assim na Lua!

--Incompleto! exclamou o velho invalido.

--Sim! meu estimavel amigo! Ora põe-te no caso de encontrarmos habitantes lá em cima. Quererias tu dar-lhes tão triste idéa do que se passa cá por baixo, patentear-lhe o que é a guerra, demonstrar-lhes que empregâmos por cá o melhor do nosso tempo a devorar-nos, a comer-nos, a quebrar-nos reciprocamente pernas e braços, e isto n'um globo que poderia alimentar cem mil milhões de habitantes, e que apenas tem mil e duzentos milhões d'elles? Ora vamos, meu digno amigo, isso era até caso de nos pôrem de lá fóra, por tua causa!

--Mas se vós lá chegardes feitos em pedaços, replicou J.-T. Maston, estareis tão incompletos como eu!

--De certo, respondeu Miguel Ardan, mas a verdade é que não havemos de chegar lá feitos em pedaços!»

Effectivamente, uma experiencia preparatoria, que se tentou a 18 de outubro, dera optimo resultado e fizera conceber as mais fundadas esperanças. Barbicane, que desejava conhecer exactamente o effeito da repercussão do tiro no momento da partida do projectil, fez trazer do arsenal de Pensacola um morteiro de trinta e duas pollegadas (0,75 centimetros), que installaram na praia do molhe de Hillisboro, para que a bomba viesse a cair no mar e o choque da quéda fosse amortecido pela agua, visto tratar-se sómente de experimentar ácerca do abalo á partida e não do choque á chegada.

Foi preparado com os maiores cuidados para a realisação d'esta curiosa experiencia um projectil ôco. Estofava-lhe as paredes internas um expesso acolchoado assente em cima de uma rede de molas de aço da mais fina tempera. Era um verdadeiro ninho cuidadosamente almofadado.

«Que pena não caber eu lá dentro!» dizia J.-T. Maston, lamentando que o proprio volume lhe não consentisse tentar a aventura. N'aquella encantadora bomba, que fechava por meio de uma tampa de rosca, introduziram primeiro um gato, depois um esquilo pertencente a J.-T. Maston, e a que o secretario do Gun-Club tinha particular affeição. Mas havia desejos de saber como é que aquelle animalsinho, pouco sujeito a vertigens, supportaria a viagem de experiencia.

Carregou-se o morteiro com cento e sessenta libras de polvora, e collocada a bomba na peça, fez-se fogo. No mesmo instante elevou-se rapidamente o projectil, descreveu magestosamente a sua parabola, chegou á maxima altura de approximadamente mil pés e foi-se abysmar por entre as vagas, descendo por graciosa curva.

Dirigiu-se sem perda de tempo uma embarcação para o logar onde caira a bomba, precipitaram-se habeis mergulhadores debaixo de agua e amarraram cabos ás auriculas da bomba que de prompto foi içada a bordo. Nem cinco minutos tinham decorrido entre o momento em que os animaes tinham sido encerrados na bomba e aquelle em que se lhes desatarraxou a tampa da prisão.

Ardan, Barbicane, Maston e Nicholl estavam na embarcação e assistiram á operação com um sentimento de interesse facil de conceber. Apenas se abriu a bomba, saltou fóra o gato um tanto machucado é verdade, mas cheio de vida, e sem ares de quem regressava de tal expedição. Mas a respeito de esquilo é que nada. Procurou-se. Nem rasto. A final não houve mais remedio de que reconhecer a verdade. O gato tinha comido o companheiro de viagem.

J.-T. Maston ficou extremamente contristado com a perda do pobre esquilo, e assentou que devia inscrever-lhe o nome no martyrologio da sciencia.

Caso é que depois d'aquella experiencia desappareceram todas as hesitações e todos os temores. Demais, os planos de Barbicane ainda haviam de aperfeiçoar o projectil e annullar quasi completamente os effeitos da repercussão. Portanto nada mais restava a fazer, senão partir.

Dois dias depois Miguel Ardan recebeu uma mensagem do presidente da União, honra a que se mostrou notavelmente sensivel.

O governo, tomando exemplo do que se praticára para com o cavalheiroso marquez de La Fayette, compatriota de Ardan, conferira a este o titulo de cidadão dos Estados Unidos da America.



CAPITULO XXIII

O WAGON-PROJECTIL


Depois que ficára concluida a celebre Columbiada, volvêra-se immediatamente a attenção publica para o projectil, novo vehiculo destinado a conduzir através do espaço os tres ousados aventureiros. A ninguem esquecêra, que Miguel Ardan tinha pedido, no telegramma de 30 de setembro, que se modificassem os planos combinados pelos membros da commissão.

Pensava então o presidente Barbicane, e com justa rasão, que era de pouca importancia a fórma do projectil, porque depois de atravessar a atmosphera em poucos segundos, havia de realisar o resto do percurso no vasio absoluto.

Adoptára por consequencia, a commissão a fórma espherica, para que a bala podesse girar sobre si propria e comportar-se como lhe acudisse á phantasia. Mas logoque a transformavam em vehiculo, o caso era outro.

Miguel Ardan nenhum prazer tinha por certo em fazer viagem á maneira de esquilo; desejava subir, sim, mas de cabeça para cima e de pés para baixo, com tanta dignidade e compostura como se viajára na barquinha de qualquer balão; seguramente com maior rapidez, mas sem se ver obrigado a fazer uma serie de cambalhotas menos decorosas.




Mandaram-se portanto novos planos á casa Breadwill e C.a de Albany, e com expressa recommendação de os pôr sem demora em execução.



J.-T. Maston tinha engordado! (pag. 217).


O projectil fundiu-se, com as modificações apontadas, a 2 de novembro, e foi expedido immediatamente para Stone's-Hill pela via ferrea de leste.

A 10, chegou sem accidente ao logar a que era destinado. Miguel Ardan, Barbicane e Nicholl esperavam com a maior impaciencia «o wagon-projectil» em que haviam de tomar passagem para voarem á descoberta de um mundo novo.

O projectil, força é confessá-lo, era uma peça de metal magnifica, um producto metallurgico que dava honra ao engenho industrial dos americanos. Pela vez primeira fôra o aluminium obtido em massa tão consideravel, e esse resultado só por si merecia com justiça ser considerado como um prodigio.

O precioso projectil scintillava aos raios do sol. Quem o visse com aquellas suas fórmas de metter respeito, coberto com o seu chapéu conico, facilmente o tomaria por uma d'aquellas macissas torres em fórma de pimenteiro, que os architectos da idade media suspendiam dos angulos dos castellos fortificados. Só lhe faltavam grimpa e setteiras.

«Está-se-me figurando, exclamou Miguel Ardan, que vae d'ali saír um homem de armas com o seu arcabuz e o seu corsalete de aço. Havemos de estar lá dentro quaes senhores feudaes. Se levassemos alguma artilheria poderiamos d'ali fazer frente a todos os exercitos selenitas, se é que ha exercitos na Lua.

--Com que então agrada-te o vehiculo? perguntou Barbicane ao amigo.

--Sim! Sim! de certo, respondeu Miguel que o estava examinando como artista.

--Sinto unicamente que não tenha as fórmas mais esbeltas e ligeiras, o cone mais gracioso; deviam ter-lhe posto como remate um florão de ornatos de metal lavrado, com uma chimera, por exemplo, uma carranca, ou uma salamandra a saír do fogo com as azas desdobradas e as fauces abertas...

--E para que servia tudo isso? disse Barbicane, cujo espirito positivo era pouco sensivel ás bellezas da arte.

--Para que servia, amigo Barbicane! Ai de mim! só pelo facto de m'o perguntares fico quasi seguro de que nunca o has de vir a comprehender!

--Vae sempre dizendo, estimavel companheiro.

--Pois ouve lá; é minha opinião que devemos sempre attender um pouco á arte em tudo quanto fazemos. Conheces acaso uma comedia india intitulada o Carro do menino?

--Nem de nome, respondeu Barbicane.

--Tambem não admira, proseguiu Miguel Ardan. Sabe pois, que n'essa comedia ha um ladrão que na occasião em que está para furar a parede de uma casa, cogita se ha de dar ao buraco a fórma de lyra, de flor, de ave ou de amphora?

Ora responde lá, amigo Barbicane, se n'aquella epocha fosses membro do jury, condemnavas o tal ladrão?

--Sem hesitar, respondeu o presidente do Gun-Club, e com a circumstancia aggravante do arrombamento.

--Pois eu cá absolvia-o, amigo Barbicane! E aqui está a rasão porque tu nunca me has de comprehender!

--Nem trato d'isso, meu valente artista.

--Pelo menos, proseguiu Ardan, já que o exterior do nosso wagon-projectil fica áquem dos meus desejos, hão de me dar licença que o mobile a meu geito e com todo o luxo que quadra a embaixadores da Terra!

--Lá a esse respeito, meu caro Miguel, respondeu Barbicane, farás o que te dictar a phantasia, deixar-te-hemos fazer o que melhor te aprouver.»

O presidente do Gun-Club porém, antes de passar ao agradavel, cuidára do util, e conseguira fazer applicar os meios por elle inventados para diminuir os effeitos da repercussão, com perfeita intelligencia.

Tinha Barbicane pensado, e com rasão, que nenhuma especie de molas teria força bastante para amortecer o choque, e no decurso d'aquelle famoso passeio da matta de Skersnaw, conseguíra resolver aquella grande difficuldade por uma fórma engenhosa. Á agua é que elle contava ser devedor de tão assignalado serviço. Eis por que maneira:

Encher-se-ia o projectil, até a altura de tres pés, de uma camada de agua destinada a aguentar um disco de madeira perfeitamente estanque que escorregasse com attrito pelas paredes internas do projectil.

Em cima d'aquella especie de jangada é que haviam de ir collocados os viajantes. A massa liquida havia de ser dividida por tabiques horisontaes que o choque á partida espedaçaria successivamente. N'esse mesmo momento todos os lençoes de agua, desde o debaixo até ao de cima, saíndo por tubos de despejo para a parte superior do projectil, fariam almofada; não podendo o disco, aliás guarnecido como era de possantes chapuzes, ir de encontro á culatra do projectil senão depois de terem sido successivamente esmagados os differentes tabiques. Por certo que os viajantes sempre haviam de soffrer violenta repercussão depois da saída completa da massa liquida, mas o primeiro choque havia de ser quasi completamente amortecido por aquella mola de grande potencia. Verdade é, que tres pés de altura de agua n'uma área de cincoenta e quatro pés quadrados haviam de pesar perto de onze mil e quinhentas libras; mas a força elastica dos gazes accumulados dentro da Columbiada na opinião de Barbicane, havia de ser bastante para vencer mais aquelle augmento de peso; demais o choque havia de expellir aquella agua toda em menos de um segundo, e o projectil de prompto retomaria o peso normal.

Era isto o que o presidente do Gun-Club imaginára, esta a maneira por que pensava ter resolvido o importante problema do amortecimento da repercussão do tiro.

De mais a mais, aquelle trabalho fôra comprehendido com perfeita intelligencia pelos engenheiros da casa Breadwill, e tambem maravilhosamente executado. Produzido o effeito desejado, e expellida a totalidade da agua, podiam os viajantes, desembaraçar-se com facilidade dos tabiques espedaçados, e desarmar o disco movel que os aguentára no momento da partida.

As paredes superiores do projectil, essas eram cobertas de um acolchoado expesso de couro, assente sobre espiraes do mais fino aço, tão flexiveis como molas de relogio. Os tubos de esgoto escondidos por debaixo do acolchoado nem deixavam suspeitar que existiam.

Tinham-se portanto tomado por aquella fórma todas as precauções imaginaveis para amortecer o primeiro choque, e, segundo dizia Ardan, quem ainda assim se deixasse esmagar, é porque era «de má raça.»

Media o projectil, pela parte de fóra, doze pés de altura sobre nove de largura.

E, para que não excedesse o peso calculado, tinham-lhe diminuido um pouco a espessura das paredes, e reforçado a culatra que tinha de aguentar toda a violencia dos gazes desenvolvidos pela deflagração do pyroxylo.

Assim succede geralmente com as bombas e obuzes cylindro-conicos, cuja maior espessura é sempre na culatra.

A entrada para aquella torre de metal era por uma estreita abertura reservada nas paredes do cone, similhante aos «buracos de homem» que têem as caldeiras a vapor, e que fechava hermeticamente por meio de uma chapa de aluminium, apertada da parte de dentro por possantes parafusos de pressão. Podiam portanto os viajantes saír á vontade da sua movel prisão, logoque lograssem chegar ao astro das noites.

Mas o caso não estava só em ir, estava tambem em ir vendo pelo caminho. Nada mais facil. Por debaixo do acolchoado das paredes estavam quatro vigias com vidros lenticulares de grande espessura, duas abertas na parede circular do projectil, uma no fundo e outra no chapéu conico. Teriam portanto os viajantes toda a facilidade para observarem durante o percurso, quer a Terra que deixavam, quer a Lua que íam buscar, quer os espaços constellados do céu.

As vigias estavam defendidas do choque á partida por chapas fortemente encaixadas, que era facil fazer caír para a parte de fóra desatarraxando porcas collocadas pela parte de dentro. Tornavam-se por aquella maneira possiveis quaesquer observações, sem que o ar contido no projectil podesse de lá saír.

Todos aquelles mechanismos, admiravelmente construidos e collocados, trabalhavam com a maior facilidade; os constructores tambem não deram menor prova de intelligencia na arrumação interna do wagon-projectil.

Para a conducção da agua e viveres necessarios para os tres viajantes havia recipientes solidamente seguros, e até aos passageiros era dado obter fogo e luz, porque tambem levavam gaz armazenado em recipiente especial debaixo de uma pressão equivalente a muitas atmospheras. Era abrir uma torneira, e tinham gaz para lhes illuminar e aquecer o confortable vehiculo para seis dias.

Claro está que não lhes faltava nada do que se póde reputar essencial á vida ou mesmo á commodidade. Alem d'isto, e graças aos instinctos de Miguel Ardan, veio ainda o agradavel juntar-se ao util, sob fórma de obras de arte; Miguel se não lhe faltára espaço, fazia do projectil um verdadeiro atelier de artista.

Errada seria a supposição de quem imaginasse que tres pessoas não estavam bem á larga n'aquella torre de metal.

Media-lhe a capacidade interna uma superficie de proximamente cincoenta e quatro pés quadrados por dez pés de altura, espaço que já consentia aos viajeiros certa liberdade de movimentos. Nem que fossem no mais confortable wagon dos Estados Unidos estariam tanto á sua vontade.

Estando resolvida a questão de mantimentos e illuminação, faltava ainda a questão do ar. Era evidente que o ar contido no projectil não podia chegar para a respiração dos tres viajantes pelo espaço de quatro dias; effectivamente, cada homem gasta n'uma hora todo o oxygenio contido em cem litros de ar. Barbicane, os dois companheiros e dois cães que tencionavam levar, haviam de consumir só em vinte e quatro horas, dois mil e quatrocentos litros de oxygenio, em peso proximamente sete libras. Forçoso era portanto renovar o ar do interior do projectil. Mas como? Por um processo muito simples, o dos srs. Reiset e Regnault, o mesmo a que Miguel alludíra no correr da discussão do meeting.

É vulgarmente sabido que o ar se compõe essencialmente de vinte e uma partes de oxygenio e setenta e nove de azoto. E o que é que succede no acto da respiração? Um phenomeno muito simples. O homem absorve o oxygenio do ar, gaz eminentemente proprio para sustentar a vida e expelle o azoto intacto. O ar expirado perdeu perto de cinco por cento do seu oxygenio e contém um volume proximamente igual de acido carbonico, que é o producto definitivo da combustão dos elementos do sangue pelo oxygenio inspirado. Portanto, em qualquer logar fechado, ha de succeder sempre, depois de certo tempo, transformar-se todo o oxygenio do ar em acido carbonico, gaz que é essencialmente deleterio.

Como o azoto se conservava intacto, reduzia-se portanto a questão ao seguinte: 1.º, refazer o oxygenio absorvido; 2.º, destruir o acido carbonico expirado. E não ha nada mais facil, por meio do chlorato de potassa e da potassa caustica.

O chlorato de potassa é um sal que se apresenta sob fórma de palhetas brancas; aquecido a uma temperatura superior a quatrocentos graus, transforma-se em chloreto de potassium, abandonando todo o oxygenio que contém. Dezoito libras de chlorato de potassa rendem por este processo sete libras de oxygenio, isto é, a quantidade d'elle necessaria aos viajantes para vinte e quatro horas. E aqui está como se havia de fazer o oxygenio.

A potassa caustica, essa é uma substancia muito avida do acido carbonico misturado com o ar. Basta agita-la no ambiente para que elle se apodere do acido carbonico, formando bicarbonato de potassa. E aqui está tambem como havia de ser destruido o acido carbonico.

Estes dois meios combinados restituem seguramente ao ar viciado todas as suas qualidades vivificadoras. Prova-o a experiencia feita com bom exito pelos dois chimicos, os srs. Reiset e Regnault.

Mas, força é confessar, que as experiencias até então feitas tinham sempre sido realisadas in anima vili. Ignorava-se absolutamente qual seria o effeito d'ellas sobre o homem, apesar da extrema precisão scientifica com que tinham sido executadas.

Esta foi a observação que a todos se offereceu na sessão em que foi ventilado tão grave assumpto. Miguel Ardan, que nem por sombras duvidava da possibilidade de viver por meio do ar, assim artificialmente preparado, offereceu-se para experimenta-lo antes da partida.

Porém Maston reclamou para si proprio com energia a honra de tentar o ensaio.

«Já que me não deixam partir, dizia o valente artilheiro, não será grande favor deixarem-me ao menos habitar no projectil por uns oito dias.»

Recusar em tal caso, era prova de má vontade. Satisfizeram-lhe portanto os desejos. Puzeram-se á disposição de Maston quantidades de chlorato de potassa, de potassa caustica e viveres bastantes para oito dias: em seguida e depois do aperto de mão aos amigos, encaixou-se o estimavel secretario no projectil, cuja tampa foi hermeticamente fechada, a 12 de novembro ás seis horas da manhã, recommendando expressamente que lhe não abrissem a prisão antes do dia 20 ás seis horas da tarde.

O que lá dentro se passava no decurso d'aquelles oito dias, não era possivel imagina-lo, que a espessura das paredes do projectil impedia que se percebesse cá de fóra qualquer ruido interior.

A 20 de novembro, ás seis horas em ponto, desaparafusou-se a chapa: os amigos de Maston sempre estavam um tanto desassocegados de espirito. Mas de prompto lhes serenou o animo uma voz alegre, que soltava formidavel hurrah.

Pouco depois appareceu no vertice do cone o secretario do Gun-Club em postura de triumphador.

Tinha engordado!


CAPITULO XXIV

O TELESCOPIO DAS MONTANHAS PENHASCOSAS


A 20 de outubro do anno anterior, depois de fechada a subscripção, tinha o presidente do Gun-Club aberto um credito a favor do observatorio de Cambridge, no valor das quantias necessarias para construir um enorme instrumento optico. Devia tal apparelho, luneta ou telescopio, ser de força bastante para tornar visivel na superficie da Lua qualquer objecto de nove pés de largura maxima.

Ha uma differença importante entre uma luneta e um telescopio, que é conveniente recordar aqui: a luneta compõe-se de um tubo, que tem na extremidade superior uma lente convexa, chamada objectivo, e na extremidade inferior outra lente chamada ocular, a que se applica o olho do observador. Os raios que emanam do objecto luminoso atravessam a primeira lente e vão, em virtude da refracção, formar uma imagem invertida do objecto no foco
[88] d'ella. Essa imagem é que é observada por meio do ocular, que a amplifica exactamente como qualquer lupa. Claro está pois que o tubo da luneta fica fechado n'uma e n'outra extremidade pelo objectivo e pelo ocular.

O tubo do telescopio, pelo contrario, é aberto na extremidade superior. Os raios luminosos que partem do objecto observado penetram livremente no tubo e vão incidir n'um espelho metallico concavo, e portanto convergente. D'ahi partem esses raios depois de reflectidos a encontrar um espelho menor que os envia para um ocular, disposto por fórma que amplifique a imagem produzida.

Nas lunetas portanto desempenha papel principal a refracção, nos telescopios a reflexão. É d'ahi que vem dar-se ás primeiras o nome de refractores, e aos segundos o de reflectores. A principal difficuldade de execução de taes apparelhos de optica está na construcção dos objectivos, quer sejam lentes, quer espelhos metallicos.

Entretanto na epocha em que o Gun-Club tentou a sua grande experiencia, estavam já estes instrumentos notavelmente aperfeiçoados, e davam resultados magnificos. Longe ia o tempo em que Galileu observára os astros com a sua pobre luneta, que apenas amplificava na proporção de sete para um, se tanto. Do seculo XVII até então tinham os instrumentos de optica crescido em comprimento e largura em proporções consideraveis, que permittiam explorar os espaços estellares até uma profundidade até áquella epocha ignorada.

Entre os instrumentos refractores que já então funccionavam, podem citar-se a luneta do observatorio de Pulkowa, na Russia, cujo objectivo mede quinze pollegadas (38 centimetros[89]), em largura, a luneta do constructor francez Lerebours, que tinha um objectivo igual ao da anterior, e finalmente a luneta do observatorio de Cambridge, com um objectivo de dezenove pollegadas de diametro (48 centimetros).

A respeito de telescopios, dois eram já conhecidos de notavel força e de gigantescas dimensões. O mais antigo, construido por Herschel tinha trinta e seis pés de comprimento e um espelho de quatro pés e meio de largura. Com este instrumento se obtinham amplificações de seis mil por um. O segundo fôra construido na Irlanda, em Kreastle no parque de Parsoastown, a expensas de lord Rosse. O comprimento do tubo d'este ultimo era de quarenta e oito pés, e a largura do espelho de seis pés (1 metro e 83 centimetros)[90]; amplificava na proporção de seis mil e quatrocentos para um, e fôra necessario construir uma immensa mole de pedra e cal para dispôr os apparelhos necessarios para a manobra do instrumento, que pesava vinte e oito mil libras.

Mas, como acabâmos de ver, apesar d'estas colossaes dimensões, não podéra obter-se amplificação em proporção superior a seis mil para um, numeros redondos; ora uma amplificação na proporção de seis mil para um, apenas trás a Lua á distancia de trinta e nove milhas (16 leguas), distancia á qual os objectos que têem sessenta pés de diametro são apenas perceptiveis, a não ser que sejam extremamente alongados.



O telescopio das Montanhas penhascosas (pag. 225).


E como no caso em questão, se tratava de um projectil de nove pés de largura por quinze de comprimento, forçoso era trazer a Lua a cinco milhas (2 leguas) pelo menos, e n'esse intuito, realisar amplificações na proporção de quarenta e oito mil para um.



Interior do projectil (pag. 231).


Era este o problema proposto ao observatorio de Cambridge, a quem sómente incumbia resolver difficuldades materiaes, pois que as pecuniarias lhe não tolhiam o passo.

Primeiro que tudo, teve o observatorio de optar entre telescopios e lunetas. As lunetas levam certa vantagem aos telescopios. Com igual objectivo, obtem-se por meio de uma luneta amplificações em proporção mais consideravel, porque os raios luminosos que atravessam as lentes perdem menos pela absorpção de que pela reflexão no espelho metallico do telescopio. Em compensação a espessura de que é possivel construir-se uma lente é limitada, porque sendo a lente demasiado espessa, não deixa passar os raios luminosos. Alem d'isto a construcção das enormes lentes a que nos vamos referindo é extremamente difficil e leva um tempo tão consideravel, que se mede aos annos.

Conseguintemente, apesar de serem as imagens mais illuminadas nas lunetas, vantagem aliás de subido preço quando se trata de observar a Lua que apenas emitte luz reflectida, decidiu o observatorio usar de um telescopio que se podia construir com mais promptidão e que permittiria obter amplificações em proporção maior. E como os raios luminosos perdem grande parte da sua intensidade no atravessar da atmosphera, resolveu o Gun-Club que o instrumento fosse assente n'uma das mais elevadas montanhas da União, circumstancia esta que havia de diminuir a espessura das camadas aereas atravessadas pela luz lunar.

Nos telescopios, como já dissemos, é a lente collocada no olho do observador, o ocular, que produz a amplificação, e o objectivo que maiores amplificações consente, é o que tem mais extenso diametro e maior distancia focal. Para conseguir amplificações na proporção de quarenta e oito mil para um, forçoso era ir nas dimensões muito alem das objectivas de Herschell e de lord Rosse. E exactamente ahi é que estava a difficuldade, porque a fundição dos espelhos de tal grandeza é operação estremamente delicada.

Por fortuna, inventára poucos annos antes, um homem de sciencia do instituto de França, Léon Foucault, um processo que tornára muito facil e muito rapida a operação de polir os objectivos telescopicos, substituindo os espelhos metallicos por espelhos prateados. Por este processo basta fundir um pedaço de vidro do tamanho requerido, metallisar-lhe depois a superficie por meio de um sal de prata, e está construido e polido o espelho. Foi este o processo, de resultados aliás excellentes, que se empregou na fabricação do objectivo.

Acrescente-se a isto, que o espelho objectivo foi collocado em harmonia com o methodo que Herschell imaginára para os seus telescopios. No grande apparelho do astronomo de Slough vinha a imagem dos objectos reflectida pelo espelho inclinado formar-se no fundo do tubo, na outra extremidade d'elle onde estava collocado o ocular. Por esta disposição o observador, em vez de estar collocado na parte inferior do tubo, içava-se a parte superior d'elle, e d'ali, munido da respectiva lupa, é que mergulhava a vista dentro do enorme cylindro. Esta combinação tinha a vantagem de supprimir o espelho pequeno cuja funcção é reenviar a imagem para o ocular. A imagem passava assim por uma reflexão unica em vez de duas. Por consequencia, menor era a quantidade de raios luminosos extincta, e menos enfraquecida ficava a imagem, obtendo-se portanto maior clareza, vantagem preciosa especialmente na observação que havia a fazer[91].

Tomadas estas resoluções, começaram os trabalhos. Segundo os calculos do pessoal do observatorio de Cambridge, o tubo do novo reflector devia ter duzentos e oitenta pés de comprido, e o espelho dezeseis pés de diametro. Por mais colossal que fosse tal instrumento, nem sequer era digno de comparar-se com um telescopio de dez mil pés (3 kilometros e meio) de comprimento, cuja construcção o astronomo Hooke propunha ha poucos annos. E no entretanto as difficuldades que apresentava a construcção e assentamento, tal como era, já não eram pequenas.

A questão da collocação, essa foi de prompto resolvida. Tratava-se de escolher uma elevada montanha, e as montanhas de grande elevação não abundam nos Estados Unidos.

Effectivamente, o systema orographico d'aquelle grande paiz reduz-se apenas a duas cadeias de montanhas de mediana altura, entre as quaes corre o magnifico rio Mississipi que os americanos appellidariam «o rei dos rios» se para elles não fôra inadmissivel uma realeza qualquer.

A leste, estão os Apalaches, cujo vertice mais elevado, no New-Hampshire, não vae alem de cinco mil e seiscentos pés, altura na realidade extremamente modesta.

A oeste, pelo contrario, encontram-se as Montanhas penhascosas, immensa corda que começa no estreito de Magalhães, acompanha a costa occidental do sul com o nome de Andes ou Cordilheiras, transpõe o isthmo de Panamá e corre através da America do Norte até ás praias do mar polar.

Não são muito elevadas estas montanhas; os Alpes ou o Hymalaya podiam com justa rasão olha-las de alto da propria grandeza com supremo desdem.

Com effeito, o mais alto vertice d'ellas tem apenas dez mil e setecentos pés de altura, ao passo que o monte Branco mede quatorze mil quatrocentos e trinta e nove, e o Kintschindjinga[92], vinte e seis mil setecentos e setenta e seis, acima do nivel do mar.

O Gun-Club, porém, visto ter empenho em que o telescopio assim como a Columbiada fossem assentes nos Estados da União, teve de se contentar com as montanhas Penhascosas, e mandou dirigir todo o material necessario para a cumiada de Long's Peak, no territorio do Missouri.

Nem a penna nem a palavra humana poderiam narrar as difficuldades de todos os generos que os engenheiros americanos tiveram de vencer, os prodigios de audacia e de habilidade que realisaram. Este trabalho foi um verdadeiro tour de force. Foi necessario levantar pedras monstruosas, pesadissimas peças forjadas, pilastras de ingente peso, os pedaços enormes do cylindro, o objectivo, que só por si pesava trinta mil libras, e levantar tudo acima do limite das neves perpetuas, a mais de dez mil pés de altura, e isto depois de ter transposto planicies desertas, florestas impenetraveis, temerosos «saltos» em torrentes impetuosas, longe dos centros de população, em meio de regiões selvagens em que cada um dos pormenores da existencia se transformava em problema quasi insoluvel.

Apesar de tantos obstaculos o engenho dos americanos de tudo soube triumphar. Menos de um anno depois do começo dos trabalhos, pelos ultimos dias de setembro, o gigantesco reflector erguia nos ares o seu tubo de duzentos e vinte e quatro pés de comprido suspenso de um enorme andaime de ferro, manobrando com facilidade por meio de engenhosos machinismos em direcção a todos os pontos do céu, e podendo seguir os astros de um a outro extremo do horisonte no decurso da sua marcha através do espaço.

Custára este telescopio mais de quatrocentos mil dollars. A primeira vez que o dirigiram para a Lua, experimentaram os observadores uma sensação mixta de curiosidade e inquietação. Que iriam descobrir no campo d'aquelle telescopio que amplificava na proporção de quarenta e oito mil para um as dimensões dos objectos observados? Populações, rebanhos de animaes lunares, cidades, lagos, oceanos? Não, nada que á sciencia não fôra já conhecido: a natureza vulcanica da Lua verificou-se com absoluta precisão em todos os pontos do disco.

Entretanto o telescopio das montanhas Penhascosas, antes de servir ao Gun-Club, prestou immensos serviços á astronomia.

Graças ao poder de penetração de tal instrumento, sondaram-se até aos ultimos limites as profundezas do céu, poderam medir-se com rigor os diametros apparentes de muitas estrellas, e até M. Clarke, membro do pessoal technico de Cambridge, decompoz a crab nebula[93] de Taurus, que o reflector de lord Rosse não lográra reduzir.


CAPITULO XXV

ULTIMOS PORMENORES


Contava já vinte e dois dias o mez de novembro, e a partida suprema devia realisar-se dez dias depois. Faltava ainda conseguir feliz exito n'uma unica operação, mas delicada, perigosa, que demandava infinitas precauções, e contra o bom resultado da qual ajustára o capitão Nicholl a sua terceira aposta.

Era o caso, carregar a Columbiada introduzindo-lhe as quatrocentas mil libras de algodão-polvora. Pensára Nicholl, e com justo fundamento talvez, que da manipulação de tão formidavel quantidade de pyroxylo haviam de provir graves catastrophes, e que, quando peior não succedesse, aquella massa eminentemente explosiva havia de inflammar-se por si mesma sob a pressão do projectil.

Havia n'isto serios perigos, que maiores se tornavam pela negligencia e leviandade habitual dos americanos. Haja vista o que succedeu durante a guerra federal: ninguem se incommodava a tirar o charuto da bôca para carregar uma bomba. Mas lá estava Barbicane, que tinha a peito chegar a bom resultado e não naufragar já dentro do porto; que escolheu por consequencia os melhores operarios, e que os fez trabalhar debaixo das suas proprias vistas, não os largando de olho um só momento, conseguindo assim á força de prudencia e de precaução, pôr a seu favor todas as probabilidades de bom exito.

Antes de tudo, teve Barbicane o maior cuidado em não mandar a carga inteira de uma vez para o recinto de Stone's-Hill, senão a pouco e pouco e em caixotes perfeitamente fechados. As quatrocentas mil libras de pyroxylo foram depositadas em pacotes de quinhentas libras, dando assim para oitocentos grandes cartuchos fabricados com o maior esmero pelos mais habeis pyrotechnicos de Pensacola. Cada caixão tinha capacidade para dez cartuchos, e os caixões íam chegando uns após outros pela via ferrea de Tampa-Town; por esta fórma nunca havia a um tempo mais de cinco mil libras de pyroxylo dentro do recinto. Caixão que chegava era logo descarregado por operarios descalços, e cada cartucho transportado para o orificio da Columbiada para dentro da qual descia por meio de guindastes manobrados a braço.

Tinham-se posto de parte todas as machinas que trabalhavam a vapor, e apagado todos os fogos n'um circuito de duas milhas de raio. Já era mais que bastante ter que preservar dos ardores do sol, mesmo em novembro, aquellas massas de algodão-polvora.

O trabalho, por este motivo, era de preferencia feito de noite ao clarão de uma luz produzida no vacuo por meio dos apparelhos de Ruhmkorff, que ministrava uma illuminação artificial que chegava ao fundo da Columbiada. Dentro do canhão ficavam os cartuchos arrumados com perfeita regularidade e ligados uns aos outros por meio de um fio metallico destinado a conduzir instantaneamente ao centro de cada um d'elles a faisca electrica.

E effectivamente por meio da pilha, é que se havia de dar fogo aquella massa de algodão-polvora.

Os fios metallicos todos envolvidos em capas de substancia isoladora, iam reunir-se em um só n'um estreito orificio aberto na altura em que o projectil havia de ficar; n'esse ponto atravessavam a espessa parede de ferro fundido, subindo depois até ao solo por um dos respiradouros do revestimento de pedra, especialmente reservado para este fim.

A partir do vertice de Stone's-Hill corria o fio por sobre postes pelo espaço de duas milhas, terminando n'uma pilha de Bunsen munida do competente apparelho de interrupção. Por consequencia logoque que se carregasse no botão do apparelho a corrente electrica restabelecia-se instantaneamente e ía dar fogo ás quatrocentas mil libras de algodão-polvora. Claro está que a pilha só tinha de funccionar no ultimo momento.

A 28 de novembro, já os oitocentos cartuchos estavam arrumados no fundo da Columbiada. Lográra bom exito esta parte da operação.

Mas quantos incommodos, quantas inquietações, quantas luctas tinha soffrido ou sustentado o presidente Barbicane? Debalde prohibíra a todos a entrada de Stone's-Hill; todos os dias um ou outro curioso subia por escalada as palissadas, e alguns houve que, levando a imprudencia até á loucura, foram pôr-se a fumar mesmo no meio dos fardos de algodão-polvora. Barbicane tinha ataques de furor todos os dias. J.-T. Maston fazia quanto em si cabia para o auxiliar, dando caça aos intrusos com grande vigor, e apanhando as pontas de charuto ainda a arder que os yankees deitavam para toda a parte. E a tarefa era de estafar, que mais de 300:000 pessoas faziam cêrco em volta das palissadas. Verdade é que Miguel Ardan tambem se offerecêra para escoltar os caixões até á bôca da Columbiada; mas o presidente do Gun-Club, que o apanhou em propria pessoa com um enorme charuto na bôca, ao tempo que ia perseguindo alguns imprudentes a quem dava assim tão funesto exemplo, logo percebeu que não podia contar com tão intrepido fumista, e viu-se obrigado a faze-lo vigiar a elle, e com muita especialidade.

Emfim, como é certo que ha um Deus especial para os artilheiros, não houve a menor explosão, e conseguiu-se a final pôr a carga inteira a são e salvo. Muito duvidosa estava portanto a terceira aposta do capitão Nicholl. Faltava só introduzir o projectil na Columbiada e collocá-lo em cima da espessa camada de algodão-polvora.

Antes porém de se dar começo a esta ultima operação, foram collocados e arrumados no wagon-projectil todos os objectos necessarios aos viajantes, que eram bastante numerosos e que, se tivessem deixado fazer a Miguel Ardan a sua vontade, dentro em pouco teriam enchido todo o espaço reservado para as pessoas. Ninguem imagina que cousas o amavel francez queria levar para a Lua. Uma verdadeira carregação de inutilidades. Interveio porém Barbicane, e não houve mais remedio de que reduzir-se ao estrictamente necessario. Na caixa dos instrumentos ía grande numero de barometros, thermometros e de oculos de alcance.

Os viajantes estavam com curiosidade de examinar a Lua no decurso da viagem, e levavam, para facilitar o reconhecimento d'aquelle novo mundo, um excellente mappa de Beer e Moedler, o Mappa selenographico, publicado em quatro folhas, e que, com justo fundamento, tem fama de verdadeira obra prima de observação e paciencia. Reproduz este mappa com escrupulosa exactidão os mais insignificantes pormenores da face do astro que olha para a Terra; montanhas, valles, circos, crateras, picos, ranhuras, tudo ali se encontra com exactidão nas dimensões e fidelidade na orientação e denominações, desde os montes Doerfel e Leibnitz, cujas altas cumiadas se erguem no extremo oriental do disco até ao Mare Frigoris, que se estende pelas regiões circumpolares do norte.

Era portanto este mappa, para os viajantes, um guia precioso, porque lhes tornava possivel o estudo do paiz, antes de lá porem os pés.

Levavam tambem os viajantes tres riffles e tres carabinas de caça do systema de bala explosiva, e alem d'isto grande quantidade de chumbo e polvora.

Dizia a este respeito Miguel Ardan: «Nós não sabemos com quem vamos lá haver-nos; sejam homens ou sejam animaes podem levar a mal que lhes vamos fazer uma visita! Por consequencia convem que cada qual tome as suas precauções».

Acrescentaremos, que as armas de defeza pessoal iam acompanhadas de picaretas, alviões, serras de mão e a mais ferramenta indispensavel, sem fallar dos vestuarios adequados para todas as temperaturas, desde o frio das regiões polares até aos calores da zona torrida.

Miguel Ardan desejava levar na expedição certo numero de animaes, que se não chegava a ser um casal de cada uma das especies conhecidas, é porque Ardan não reputava cousa necessaria acclimar na Lua nem serpentes, nem tigres, nem crocodilos, nem quaesquer outros animalejos damninhos.

«Tanto não, dizia elle a Barbicane, mas alguns animaes de carga, por exemplo bois, vaccas, burros ou cavallos, não só haviam de fazer bello effeito na paizagem, como nos haviam de servir de grande utilidade.

«Estou de accordo, meu caro Ardan, respondia o presidente do Gun-Club, mas o nosso wagon-projectil é que não é nenhuma arca de Nóe. Nem tem capacidade que chegue, nem para isso foi destinado; por consequencia fiquemo-nos nos limites do possivel.»

Finalmente, depois de longa discussão, concordou-se em que os viajantes tinham de se contentar em levar uma excellente cadella de caça que pertencia a Nicholl, e um vigoroso Terra-Nova de força prodigiosa. Entraram tambem no numero dos objectos uteis muitas caixas de sementes das mais usuaes. Miguel Ardan, por sua vontade levaria tambem alguns sacos de terra para as semear. Em todo o caso, sempre foi mettendo a um canto do projectil uma duzia de arbustos embrulhados em bainhas de palha.

Restava ainda a questão de viveres, porque necessario era ir prevenido para o caso de arribar a alguma região da Lua completamente esteril.

Barbicane tanto fez, que conseguiu metter no projectil provisões para um anno. É necessario acrescentar, para que ninguem d'isto se admire, que estes viveres consistiam em conservas de carnes e legumes, reduzidas ao minimo volume pela acção da prensa hydraulica, que todavia continham grande abundancia de elementos nutritivos; a variedade é que não era grande; mas tambem n'uma expedição d'aquellas não era occasião propria para alguem se mostrar niquento. Levavam tambem os viajantes uma reserva de aguardente, que montaria a uns cincoenta gallões[94], e agua para dois mezes apenas, porque, na verdade, em consequencia das ultimas observações astronomicas, já ninguem punha em duvida a existencia de certa quantidade de agua á superficie da Lua. Quanto a viveres, reputar-se-ía até insensato quem suppozesse que habitantes da Terra não haviam de lá encontrar farto alimento.

Miguel Ardan não conservava sombra de duvida a tal respeito. Se a conservára por certo não estaria decidido a partir.

«E demais, disse elle um dia aos amigos, os camaradas cá da Terra de certo nos não hão de abandonar completamente, antes terão todo o cuidado em nos não esquecer.