--Pouco, respondeu o presidente do Gun-Club.
--Tambem eu não; apesar de que a historia tem registrado
factos que, pelo menos, são para causar
admiração. Assim em 1693, durante certa epidemia,
morreu muita mais gente no dia
21 de janeiro, por occasião
de um eclipse. O celebre Bacon
desmaiava nas occasiões de eclipse da Lua, e só
voltava a
si depois da completa emersão do astro. O rei Carlos VI
recaíu por seis vezes em demencia, no decurso do anno de
1399, e sempre em occasião de Lua nova ou de Lua cheia.
Affirmam alguns
medicos que a epilepsia deve classificar-se entre as doenças
que
acompanham as phases da Lua. As molestias nervosas tambem por vezes
parecem depender da influencia lunar. Conta Mead que havia no seu tempo
um menino que entrava em convulsões logo que a Lua
entrava em opposição. Gall notou que a
exaltação das pessoas debeis cresce duas vezes em
cada mez, uma no
novi-lunio, outra no
pleni-lunio.
Finalmente, ha mais
de um milheiro de observações d'este genero, em
respeito a vertigens, febres malignas e ataques de somnambulismo, que
todos tendem a provar que o astro das noites gosa de mysteriosa
influencia sobre o curso das doenças terrestres.
--Mas como? porque? perguntou Barbicane.
--Porque? respondeu Ardan. Á fé que te hei de dar
a mesma resposta que Arago repetia dezenove seculos depois de Plutarco:
«Talvez seja exactamente por não ser
verdade!»
No meio do seu triumpho, não logrou Miguel Ardan escapar-se
a nenhuma das massadas inherentes ao estado de homem celebre. Os
especuladores de vogas e celebridades de occasião
tentaram pô-lo em exhibição. Barnum
chegou a
offerecer-lhe um milhão para adquirir o direito de o
transportar de cidade em cidade, em todos os Estados Unidos, e
mostra-lo qual animal raro. A resposta de Miguel Ardan foi alcunha-lo
de
cornac, e manda-lo a elle Barnum... passeiar.
Todavia, recusando-se aliás a satisfazer por tal
fórma a curiosidade publica, deixou Ardan pelo menos que
seus retratos corressem pelo mundo inteiro e occupassem logar de honra
em todos os albums; d'elles se tiraram provas de
todas
as dimensões,
desde as de tamanho natural até as da grandeza microscopica
da estampilha do correio. Estava ao alcance de toda a gente possuir a
imagem do heroe, em qualquer das posições
imaginaveis; cabeça só, meio corpo, corpo
inteiro, de frente, de perfil, de tres
quartos e até de costas. Tirou-se mais de milhão
e meio
de exemplares. A occasião era bem boa para se desfazer em
reliquias, mas
Ardan é que a não soube aproveitar. Só
a
vender os cabellos a dollar cada um, podia fazer uma fortuna, e mais
já
não eram muitos!
A popularidade, querendo fallar com inteira franqueza, não
lhe era desagradavel. Pelo contrario, Ardan punha-se á
disposição do publico, e correspondia-se com o
universo inteiro. Por toda a parte se contavam, repetiam e propalavam
os ditos conceituosos d'elle, muito principalmente os que elle nem
tinha proferido. Como é uso, por isso mesmo que n'essa parte
lhe sobrava a
riqueza, é que mais lhe queriam dar ou emprestar. E
não sómente
soube tornar propicios os homens, senão tambem as mulheres.
Bastaria que lhe tivesse passado pela cabeça a phantasia de
«entrar no rol dos homens serios», para ter
arranjado um numero infinito de
«bellos casamentos». Principalmente as velhas
misses, d'estas que ha bons quarenta annos se
mirravam por não casar, todas devaneiavam dia e noite diante
das photographias d'elle.
Certo é que teria achado companheiras aos centos, aindaque
lhes impuzesse como condição acompanharem-n'o na
aerea viagem; que as mulheres quando lhes não dá
para de tudo
terem medo, são verdadeiramente intrepidas.
Porém, como
Ardan não tinha intento de fazer estirpe no continente
lunar, nem de para lá transportar raça
atravessada de francez e
americano, recusou-se formalmente a todos os enlaces.
«Ir eu lá para cima, dizia elle, fazer o papel de
Adão com uma filha de Eva, obrigado! E se lá
encontrasse
serpentes!...»
Ardan, logoque alfim logrou subtrahir-se ás alegrias
exageradamente
repetidas do
triumpho, foi com os amigos fazer uma visita á Columbiada,
que bem lh'o merecia. De mais a mais, depois que Ardan vivia em
contacto com Barbicane, J.-T. Maston e
tutti quanti tinha-se tornado muito sabedor em
questões de balistica. O seu maior prazer consistia
então em repetir aos estimaveis
artilheiros, que não eram elles mais do que amaveis e sabios
assassinos. Ácerca de tal assumpto nunca se lhe esgotava a
musa
epigrammatica. No dia em que visitou a Columbiada, admirou-a com
enthusiasmo e desceu até ao fundo da alma do gigantesco
morteiro, que em breve havia de arremessa-lo para o astro das noites.
«Este canhão ao menos, disse, não ha de
fazer mal a ninguem; o que da parte de um canhão
já não
é pouco para admirar. Mas não me venham
cá fallar d'esses machinismos que
destroem, que incendeiam, que despedaçam, que matam, e ainda
menos
dizer-me que têem «alma», que
lá isso
é que eu nunca hei de acreditar!»
Vem a pêllo narrar n'este logar um caso que diz respeito a
J.-T. Maston. Quando o secretario do Gun-Club ouviu que Nicholl e
Barbicane acceitavam a proposta de Miguel Ardan, resolveu lá
no intimo juntar-se com elles, e fazer assim
«uma parceirada de quatro»; um bello dia pediu para
entrar na viajata.
Barbicane, sentindo immenso ter que lhe responder com uma recusa,
fez-lhe ver que o projectil não tinha
lotação
para tanto passageiro. J.-T. Maston, desesperado, foi ter com Miguel
Ardan, que o convidou a resignar-se, fazendo até valer
certos argumentos
ad hominem.
«Ora pensa bem, meu velho Maston, e não
vás tomar as minhas palavras em mau sentido; mas aqui para
nós, a verdade
é que estás muito incompleto para te apresentar
assim na Lua!
--Incompleto! exclamou o velho invalido.
--Sim! meu estimavel amigo! Ora põe-te no caso de
encontrarmos
habitantes lá em cima. Quererias tu dar-lhes
tão triste idéa do que se passa cá por
baixo, patentear-lhe o que
é a guerra, demonstrar-lhes que empregâmos por
cá o melhor do nosso tempo a devorar-nos, a comer-nos, a
quebrar-nos reciprocamente pernas e braços, e isto n'um
globo que poderia alimentar cem mil
milhões de habitantes, e que apenas tem mil e duzentos
milhões d'elles? Ora vamos, meu digno amigo, isso era
até caso de
nos pôrem de lá fóra, por tua causa!
--Mas se vós lá chegardes feitos em
pedaços, replicou J.-T. Maston, estareis tão
incompletos como eu!
--De certo, respondeu Miguel Ardan, mas a verdade é que
não havemos de chegar lá feitos em
pedaços!»
Effectivamente, uma experiencia preparatoria, que se tentou a 18 de
outubro, dera optimo resultado e fizera conceber as mais fundadas
esperanças. Barbicane, que desejava conhecer
exactamente o effeito da repercussão do tiro no momento da
partida do projectil, fez trazer do arsenal de Pensacola um morteiro de
trinta e duas pollegadas (0,75 centimetros), que installaram na praia
do molhe de Hillisboro, para que a bomba viesse a cair no mar e o
choque da quéda fosse amortecido pela agua, visto tratar-se
sómente de experimentar ácerca do abalo
á partida e
não do choque á chegada.
Foi preparado com os maiores cuidados para a
realisação d'esta curiosa experiencia um
projectil ôco. Estofava-lhe as paredes
internas um expesso acolchoado assente em cima de uma rede de molas de
aço da mais fina tempera. Era um verdadeiro ninho
cuidadosamente almofadado.
«Que pena não caber eu lá
dentro!» dizia J.-T. Maston, lamentando que o proprio volume
lhe não consentisse tentar a aventura. N'aquella encantadora
bomba, que fechava por meio de uma tampa de rosca, introduziram
primeiro um gato, depois um esquilo pertencente a J.-T. Maston, e a que
o secretario do Gun-Club
tinha
particular affeição. Mas havia
desejos de saber como é que aquelle animalsinho, pouco
sujeito a vertigens,
supportaria a viagem de experiencia.
Carregou-se o morteiro com cento e sessenta libras de polvora, e
collocada a bomba na peça, fez-se fogo. No mesmo instante
elevou-se rapidamente o projectil, descreveu magestosamente a sua
parabola, chegou á maxima altura de approximadamente mil
pés e foi-se abysmar por entre as vagas, descendo por
graciosa curva.
Dirigiu-se sem perda de tempo uma embarcação para
o logar onde caira a bomba, precipitaram-se habeis mergulhadores
debaixo de agua e amarraram cabos ás auriculas da bomba que
de prompto foi içada a bordo. Nem cinco minutos tinham
decorrido entre o momento em que os animaes tinham sido encerrados na
bomba e aquelle em que se lhes desatarraxou a tampa da
prisão.
Ardan, Barbicane, Maston e Nicholl estavam na
embarcação e assistiram á
operação com um
sentimento de interesse facil de conceber. Apenas se abriu a bomba,
saltou fóra o gato um
tanto machucado é verdade, mas cheio de vida, e sem ares de
quem regressava de tal expedição. Mas a respeito
de
esquilo é que nada. Procurou-se. Nem rasto. A final
não houve mais remedio de que reconhecer a verdade. O gato
tinha comido o companheiro de viagem.
J.-T. Maston ficou extremamente contristado com a perda do pobre
esquilo, e assentou que devia inscrever-lhe o nome no martyrologio da
sciencia.
Caso é que depois d'aquella experiencia desappareceram todas
as hesitações e todos os temores. Demais, os
planos de Barbicane ainda haviam de aperfeiçoar o projectil
e annullar quasi completamente os effeitos da repercussão.
Portanto nada mais
restava a fazer, senão partir.
Dois dias depois Miguel Ardan recebeu uma mensagem do presidente da
União, honra a que se mostrou notavelmente sensivel.
O governo, tomando exemplo do que se praticára para com o
cavalheiroso marquez de La Fayette, compatriota de Ardan, conferira a
este o titulo de cidadão dos Estados Unidos da America.
CAPITULO XXIII
O WAGON-PROJECTIL
Depois que ficára concluida a celebre Columbiada,
volvêra-se immediatamente a attenção
publica para o
projectil, novo vehiculo destinado a conduzir através do
espaço os tres
ousados aventureiros. A ninguem esquecêra, que Miguel Ardan
tinha pedido, no telegramma de 30 de setembro, que se modificassem os
planos combinados pelos membros da commissão.
Pensava então o presidente Barbicane, e com justa
rasão, que era de pouca importancia a fórma do
projectil, porque depois
de atravessar a atmosphera em poucos segundos, havia de realisar o
resto do percurso no vasio absoluto.
Adoptára por consequencia, a commissão a
fórma espherica, para que a bala podesse girar sobre si
propria e comportar-se como lhe acudisse á phantasia. Mas
logoque a transformavam
em vehiculo, o caso era outro.
Miguel Ardan nenhum prazer tinha por certo em fazer viagem á
maneira de esquilo; desejava subir, sim, mas de
cabeça para cima e de pés para baixo, com tanta
dignidade e compostura
como se viajára na barquinha de qualquer balão;
seguramente com maior rapidez, mas sem se ver obrigado a fazer uma
serie de cambalhotas menos decorosas.
Chegada do projectil a
Stone's-Hill (pag. 210).
Mandaram-se portanto novos planos á casa Breadwill e C.
a
de
Albany, e com expressa recommendação de os
pôr sem demora em execução.
J.-T.
Maston tinha engordado! (
pag. 217).
O projectil fundiu-se, com as modificações
apontadas, a 2 de novembro, e foi expedido immediatamente para
Stone's-Hill pela via ferrea de leste.
A 10, chegou sem accidente ao logar a que era destinado. Miguel Ardan,
Barbicane e Nicholl esperavam com a maior impaciencia «o
wagon-projectil» em que haviam de tomar passagem
para voarem á descoberta de um mundo novo.
O projectil, força é confessá-lo, era
uma peça de metal magnifica, um producto metallurgico que
dava honra ao engenho industrial dos americanos. Pela vez primeira
fôra o aluminium obtido em massa tão consideravel,
e esse resultado só
por si merecia com justiça ser considerado como um prodigio.
O precioso projectil scintillava aos raios do sol. Quem o visse com
aquellas suas fórmas de metter respeito, coberto com o
seu chapéu conico, facilmente o tomaria por uma d'aquellas
macissas torres em fórma de pimenteiro, que os architectos
da idade
media suspendiam dos angulos dos castellos fortificados. Só
lhe
faltavam grimpa e setteiras.
«Está-se-me figurando, exclamou Miguel Ardan, que
vae d'ali saír um homem de armas com o seu arcabuz e o seu
corsalete
de aço. Havemos de estar lá dentro quaes senhores
feudaes. Se levassemos alguma artilheria poderiamos d'ali fazer frente
a todos os exercitos selenitas, se é que ha exercitos na
Lua.
--Com que então agrada-te o vehiculo? perguntou Barbicane ao
amigo.
--Sim! Sim! de certo, respondeu Miguel que o estava examinando como
artista.
--Sinto unicamente que não tenha as fórmas mais
esbeltas e ligeiras, o cone mais gracioso; deviam ter-lhe posto como
remate um florão de ornatos de metal lavrado, com uma
chimera, por exemplo, uma carranca, ou uma salamandra a saír
do fogo com as azas desdobradas e as fauces abertas...
--E para que servia tudo isso? disse Barbicane, cujo espirito positivo
era pouco sensivel ás bellezas da arte.
--Para que servia, amigo Barbicane! Ai de mim! só pelo facto
de m'o perguntares fico quasi
seguro de que nunca o has de vir a comprehender!
--Vae sempre dizendo, estimavel companheiro.
--Pois ouve lá; é minha opinião que
devemos sempre attender um pouco á arte em tudo quanto
fazemos. Conheces acaso uma comedia india intitulada o
Carro
do
menino?
--Nem de nome, respondeu Barbicane.
--Tambem não admira, proseguiu Miguel Ardan. Sabe pois, que
n'essa comedia ha um ladrão que na occasião
em que está para furar a parede de uma casa, cogita se ha de
dar ao buraco a fórma de lyra, de flor, de ave ou de
amphora?
Ora responde lá, amigo Barbicane, se n'aquella epocha fosses
membro do jury, condemnavas o tal ladrão?
--Sem hesitar, respondeu o presidente do Gun-Club, e com a
circumstancia aggravante do arrombamento.
--Pois eu cá absolvia-o, amigo Barbicane! E aqui
está a rasão porque tu nunca me has de
comprehender!
--Nem trato d'isso, meu valente artista.
--Pelo menos, proseguiu Ardan, já que o exterior do nosso
wagon-projectil
fica
áquem dos meus desejos, hão de me dar
licença que o mobile a meu geito e com todo o luxo que
quadra a embaixadores da Terra!
--Lá a esse respeito, meu caro Miguel, respondeu Barbicane,
farás o que te dictar a phantasia, deixar-te-hemos fazer o
que melhor te aprouver.»
O presidente do Gun-Club porém, antes de passar ao
agradavel, cuidára do util, e conseguira fazer applicar os
meios por
elle inventados para diminuir os effeitos da repercussão,
com
perfeita intelligencia.
Tinha Barbicane pensado, e com rasão, que nenhuma especie de
molas teria força bastante para amortecer o choque, e no
decurso d'aquelle famoso passeio da matta de Skersnaw,
conseguíra
resolver aquella
grande difficuldade por uma fórma
engenhosa. Á agua é que elle contava ser devedor
de tão
assignalado serviço. Eis por que maneira:
Encher-se-ia o projectil, até a altura de tres
pés, de uma camada de agua destinada a aguentar um disco de
madeira perfeitamente estanque que escorregasse com attrito pelas
paredes internas do projectil.
Em cima d'aquella especie de jangada é que haviam de ir
collocados os viajantes. A massa liquida havia de ser dividida por
tabiques horisontaes que o choque á partida
espedaçaria
successivamente. N'esse mesmo momento todos os lençoes de
agua, desde o debaixo até ao de cima, saíndo por
tubos de
despejo para a parte superior do projectil, fariam almofada;
não podendo o disco,
aliás guarnecido como era de possantes chapuzes, ir de
encontro á
culatra do projectil senão depois de terem sido
successivamente
esmagados os differentes tabiques. Por certo que os viajantes sempre
haviam de soffrer violenta repercussão depois da
saída completa da massa liquida, mas o primeiro choque havia
de ser quasi
completamente amortecido por aquella mola de grande potencia. Verdade
é, que tres pés de altura de agua n'uma
área de cincoenta e quatro pés quadrados haviam
de pesar perto de onze mil e
quinhentas libras; mas a força elastica dos gazes
accumulados dentro da
Columbiada na opinião de Barbicane, havia de ser bastante
para vencer mais aquelle augmento de peso; demais o choque havia de
expellir aquella agua toda em menos de um segundo, e o projectil de
prompto retomaria o peso normal.
Era isto o que o presidente do Gun-Club imaginára, esta a
maneira por que pensava ter resolvido o importante problema do
amortecimento da repercussão do tiro.
De mais a mais, aquelle trabalho fôra comprehendido com
perfeita intelligencia pelos engenheiros da casa Breadwill, e tambem
maravilhosamente executado. Produzido o effeito desejado, e expellida
a totalidade da agua, podiam os viajantes,
desembaraçar-se com facilidade dos tabiques
espedaçados, e desarmar o disco movel que os
aguentára no momento da partida.
As paredes superiores do projectil, essas eram cobertas de um
acolchoado expesso de couro, assente sobre espiraes do mais fino
aço, tão flexiveis como molas de relogio. Os
tubos de esgoto escondidos por debaixo do acolchoado nem deixavam
suspeitar que existiam.
Tinham-se portanto tomado por aquella fórma todas as
precauções imaginaveis para amortecer o primeiro
choque, e, segundo dizia Ardan, quem ainda assim se deixasse esmagar,
é porque era «de má
raça.»
Media o projectil, pela parte de fóra, doze pés
de altura sobre nove de largura.
E, para que não excedesse o peso calculado, tinham-lhe
diminuido um pouco a espessura das paredes, e reforçado a
culatra que tinha de aguentar toda a violencia dos gazes desenvolvidos
pela deflagração do pyroxylo.
Assim succede geralmente com as bombas e obuzes cylindro-conicos, cuja
maior espessura é sempre na culatra.
A entrada para aquella torre de metal era por uma estreita abertura
reservada nas paredes do cone, similhante aos
«buracos de homem» que têem as caldeiras
a vapor, e que
fechava hermeticamente por meio de uma chapa de aluminium, apertada da
parte de dentro por possantes parafusos de pressão. Podiam
portanto os viajantes saír á vontade da sua movel
prisão, logoque lograssem chegar ao astro das noites.
Mas o caso não estava só em ir, estava tambem em
ir vendo pelo caminho. Nada mais facil. Por debaixo do acolchoado das
paredes estavam quatro vigias com vidros lenticulares de grande
espessura, duas abertas na parede circular do projectil, uma no fundo e
outra no chapéu conico. Teriam portanto os viajantes toda
a facilidade para observarem
durante o percurso, quer a Terra que deixavam, quer a Lua que
íam buscar, quer os
espaços constellados do céu.
As vigias estavam defendidas do choque á partida por chapas
fortemente encaixadas, que era facil fazer caír para a parte
de fóra desatarraxando porcas
collocadas pela parte de dentro. Tornavam-se por aquella maneira
possiveis
quaesquer observações, sem que o ar contido no
projectil podesse de lá saír.
Todos aquelles mechanismos, admiravelmente construidos e collocados,
trabalhavam com a maior facilidade; os constructores tambem
não deram menor prova de intelligencia na
arrumação interna do wagon-projectil.
Para a conducção da agua e viveres necessarios
para os tres viajantes havia recipientes solidamente seguros, e
até aos
passageiros era dado obter fogo e luz, porque tambem levavam gaz
armazenado em recipiente especial debaixo de uma pressão
equivalente a muitas atmospheras. Era abrir uma torneira, e tinham gaz
para lhes illuminar e aquecer o confortable
vehiculo para seis dias.
Claro está que não lhes faltava nada do que se
póde reputar essencial á vida ou mesmo
á commodidade. Alem
d'isto, e graças aos instinctos de Miguel Ardan, veio ainda
o agradavel juntar-se ao util, sob fórma de obras de arte;
Miguel se
não lhe faltára espaço, fazia do
projectil um verdadeiro
atelier de artista.
Errada seria a supposição de quem imaginasse que
tres pessoas não estavam bem á larga n'aquella
torre de metal.
Media-lhe a capacidade interna uma superficie de proximamente cincoenta
e quatro pés quadrados por dez pés de
altura, espaço que já consentia aos viajeiros
certa
liberdade de movimentos. Nem que fossem no mais
confortable
wagon dos Estados Unidos estariam tanto á sua vontade.
Estando resolvida a questão de mantimentos e
illuminação,
faltava ainda a questão do ar. Era evidente que o ar contido
no projectil não podia chegar para a
respiração dos tres viajantes pelo
espaço de quatro dias; effectivamente, cada homem gasta
n'uma hora todo o oxygenio contido em cem litros de ar. Barbicane, os
dois companheiros e dois cães que tencionavam levar, haviam
de consumir só em vinte e quatro horas, dois mil e
quatrocentos litros de oxygenio, em peso proximamente sete libras.
Forçoso era portanto renovar o ar do interior do projectil.
Mas como? Por um processo muito simples, o dos srs. Reiset e Regnault,
o mesmo a que Miguel alludíra no correr da
discussão do meeting.
É vulgarmente sabido que o ar se compõe
essencialmente de vinte e uma partes de oxygenio e setenta e nove de
azoto. E o que é que succede no acto da
respiração? Um phenomeno muito simples. O homem
absorve o oxygenio do ar, gaz eminentemente proprio para sustentar a
vida e expelle o azoto intacto. O ar expirado perdeu perto de cinco por
cento do seu oxygenio e contém um volume proximamente igual
de acido carbonico, que é o producto definitivo da
combustão dos elementos do sangue
pelo oxygenio inspirado. Portanto, em qualquer logar fechado, ha de
succeder sempre, depois de certo tempo, transformar-se todo o oxygenio
do ar em acido carbonico, gaz que é essencialmente
deleterio.
Como o azoto se conservava intacto, reduzia-se portanto a
questão ao seguinte: 1.º, refazer o oxygenio
absorvido;
2.º, destruir o acido carbonico expirado. E não ha
nada
mais facil, por meio do chlorato de potassa e da potassa caustica.
O chlorato de potassa é um sal que se apresenta sob
fórma de palhetas brancas; aquecido a uma temperatura
superior a quatrocentos graus, transforma-se em chloreto de potassium,
abandonando todo o oxygenio que contém. Dezoito libras de
chlorato de potassa rendem por este processo sete libras de oxygenio,
isto é, a quantidade d'elle
necessaria aos viajantes para
vinte e quatro horas. E aqui está como se havia de fazer o
oxygenio.
A potassa caustica, essa é uma substancia muito avida do
acido carbonico misturado com o ar. Basta agita-la no ambiente para que
elle se apodere do acido carbonico, formando bicarbonato de potassa. E
aqui está tambem como havia de ser destruido o
acido carbonico.
Estes dois meios combinados restituem seguramente ao ar viciado todas
as suas qualidades vivificadoras. Prova-o a experiencia feita com bom
exito pelos dois chimicos, os srs. Reiset e Regnault.
Mas, força é confessar, que as experiencias
até então feitas tinham sempre sido realisadas
in
anima
vili. Ignorava-se absolutamente qual seria o effeito d'ellas
sobre o homem, apesar da extrema precisão scientifica com
que tinham sido executadas.
Esta foi a observação que a todos se offereceu na
sessão em que foi ventilado tão grave assumpto.
Miguel Ardan, que nem por sombras duvidava da possibilidade de viver
por meio do ar, assim artificialmente preparado, offereceu-se para
experimenta-lo antes da partida.
Porém Maston reclamou para si proprio com energia a honra de
tentar o ensaio.
«Já que me não deixam partir, dizia o
valente artilheiro, não será grande favor
deixarem-me ao menos habitar no projectil
por uns oito dias.»
Recusar em tal caso, era prova de má vontade.
Satisfizeram-lhe portanto os desejos. Puzeram-se á
disposição de Maston quantidades de chlorato de
potassa, de potassa caustica e viveres bastantes para oito dias: em
seguida e depois do aperto de
mão aos amigos, encaixou-se o estimavel secretario no
projectil, cuja tampa foi hermeticamente fechada, a 12 de novembro
ás seis
horas da manhã, recommendando expressamente que lhe
não abrissem a prisão antes do dia 20
ás seis horas
da tarde.
O que lá dentro se passava no decurso d'aquelles oito dias,
não era possivel imagina-lo, que a espessura das paredes do
projectil impedia que se percebesse cá de fóra
qualquer
ruido interior.
A 20 de novembro, ás seis horas em ponto, desaparafusou-se a
chapa: os amigos de Maston sempre estavam um tanto desassocegados de
espirito. Mas de prompto lhes serenou o animo uma voz alegre, que
soltava formidavel hurrah.
Pouco depois appareceu no vertice do cone o secretario do Gun-Club em
postura de triumphador.
Tinha engordado!
CAPITULO XXIV
O TELESCOPIO DAS MONTANHAS PENHASCOSAS
A 20 de outubro do anno anterior, depois de fechada a
subscripção, tinha o presidente do Gun-Club
aberto um credito a favor do observatorio de Cambridge, no valor das
quantias necessarias para construir um enorme instrumento optico. Devia
tal apparelho, luneta ou telescopio, ser de força bastante
para tornar visivel na superficie da Lua qualquer objecto de nove
pés de largura maxima.
Ha uma differença importante entre uma luneta e um
telescopio, que é conveniente recordar aqui: a luneta
compõe-se de um tubo, que tem na extremidade superior uma
lente convexa, chamada objectivo, e na extremidade inferior outra lente
chamada ocular, a que se applica o olho do observador. Os raios que
emanam do objecto luminoso atravessam a primeira lente e
vão, em
virtude da
refracção, formar uma imagem invertida
do objecto no foco
[88]
d'ella. Essa imagem é que é
observada
por meio do ocular, que a amplifica exactamente como qualquer lupa.
Claro está pois que o tubo da luneta fica fechado n'uma e
n'outra
extremidade pelo objectivo e pelo ocular.
O tubo do telescopio, pelo contrario, é aberto na
extremidade superior. Os raios luminosos que partem do objecto
observado penetram livremente no tubo e vão incidir n'um
espelho
metallico concavo, e portanto convergente. D'ahi partem esses raios
depois de reflectidos a encontrar um espelho menor que os envia para um
ocular, disposto por fórma que amplifique a imagem
produzida.
Nas lunetas portanto desempenha papel principal a
refracção, nos telescopios a reflexão.
É d'ahi que vem
dar-se ás primeiras o nome de refractores, e aos segundos o
de reflectores. A principal difficuldade de
execução de taes apparelhos de
optica está na construcção dos
objectivos, quer sejam lentes,
quer espelhos metallicos.
Entretanto na epocha em que o Gun-Club tentou a sua grande experiencia,
estavam já estes instrumentos notavelmente
aperfeiçoados, e davam resultados magnificos. Longe ia o
tempo em que Galileu observára os astros com a sua pobre
luneta, que apenas amplificava na proporção de
sete para um,
se tanto. Do seculo XVII até então tinham os
instrumentos de
optica crescido em comprimento e largura em
proporções
consideraveis, que permittiam explorar os espaços estellares
até uma
profundidade até áquella epocha ignorada.
Entre os instrumentos refractores que já então
funccionavam, podem citar-se a luneta do observatorio de Pulkowa, na
Russia,
cujo objectivo mede quinze
pollegadas (38 centimetros
[89]),
em largura, a luneta do constructor
francez Lerebours, que tinha um objectivo igual ao da anterior, e
finalmente a luneta do observatorio de Cambridge, com um objectivo de
dezenove pollegadas de diametro (48 centimetros).
A respeito de telescopios, dois eram já conhecidos de
notavel força e de gigantescas dimensões. O mais
antigo,
construido por Herschel tinha trinta e seis pés de
comprimento e um espelho
de quatro pés e meio de largura. Com este instrumento se
obtinham amplificações de seis mil por um. O
segundo
fôra construido na Irlanda, em Kreastle no parque de
Parsoastown, a expensas de lord Rosse. O comprimento do tubo d'este
ultimo era de quarenta e oito pés, e a largura do espelho de
seis pés (1
metro e 83 centimetros)
[90];
amplificava na
proporção de seis mil e
quatrocentos para um, e fôra necessario construir uma immensa
mole de
pedra e cal para dispôr os apparelhos necessarios para a
manobra do instrumento, que pesava vinte e oito mil libras.
Mas, como acabâmos de ver, apesar d'estas colossaes
dimensões, não podéra obter-se
amplificação em proporção
superior a seis mil para um, numeros redondos; ora uma
amplificação na proporção
de seis mil para um, apenas
trás a Lua á distancia de
trinta e nove milhas (16 leguas), distancia á qual os
objectos que têem sessenta pés de diametro
são
apenas perceptiveis, a não ser que sejam extremamente
alongados.
O telescopio das Montanhas
penhascosas (pag. 225).
E como no caso em
questão, se tratava de um projectil de
nove pés de largura por quinze de comprimento,
forçoso era trazer a Lua a cinco milhas (2 leguas) pelo
menos, e n'esse intuito,
realisar amplificações na
proporção de quarenta e oito mil para um.
Era este o problema proposto ao observatorio de Cambridge, a quem
sómente incumbia resolver difficuldades materiaes,
pois que as pecuniarias lhe não tolhiam o passo.
Primeiro que tudo, teve o observatorio de optar entre telescopios e
lunetas. As lunetas levam certa vantagem aos telescopios. Com igual
objectivo, obtem-se por meio de uma luneta
amplificações em proporção
mais consideravel, porque os raios
luminosos que atravessam as lentes perdem menos pela
absorpção de que pela reflexão no
espelho metallico do telescopio. Em
compensação a espessura de que é
possivel construir-se uma lente
é limitada, porque sendo a lente demasiado espessa,
não deixa passar os raios luminosos. Alem d'isto a
construcção das
enormes lentes a que nos vamos referindo é extremamente
difficil e
leva um tempo tão consideravel, que se mede aos annos.
Conseguintemente, apesar de serem as imagens mais illuminadas nas
lunetas, vantagem aliás de subido preço
quando se trata de observar a Lua que apenas emitte luz reflectida,
decidiu o
observatorio usar de um telescopio que se podia construir com mais
promptidão e que permittiria obter
amplificações em proporção
maior. E como os raios luminosos perdem grande parte da sua intensidade
no atravessar da atmosphera, resolveu o Gun-Club que o instrumento
fosse assente n'uma das mais elevadas montanhas da União,
circumstancia esta que havia de diminuir a
espessura das camadas aereas atravessadas pela luz lunar.
Nos telescopios, como já dissemos, é a lente
collocada no olho do observador, o ocular, que produz a
amplificação, e o objectivo que maiores
amplificações consente, é
o que tem mais extenso diametro e maior distancia focal. Para conseguir
amplificações na proporção
de quarenta e oito mil para um,
forçoso era ir nas dimensões muito alem das
objectivas de Herschell e de lord Rosse.
E exactamente ahi é que estava a
difficuldade, porque a
fundição dos espelhos de tal grandeza
é
operação estremamente delicada.
Por fortuna, inventára poucos
annos
antes, um homem de sciencia do instituto de França,
Léon
Foucault, um processo que tornára muito facil e muito rapida
a
operação de polir os objectivos telescopicos,
substituindo os espelhos metallicos por espelhos prateados. Por este
processo basta fundir um pedaço de vidro do tamanho
requerido, metallisar-lhe depois a superficie por meio de um sal de
prata, e está construido e polido o
espelho. Foi este o processo, de resultados aliás
excellentes, que se
empregou na fabricação do objectivo.
Acrescente-se a isto, que o espelho objectivo foi collocado em harmonia
com o methodo que Herschell imaginára para os seus
telescopios. No grande apparelho do astronomo de Slough vinha a imagem
dos objectos reflectida pelo espelho inclinado formar-se no fundo do
tubo, na outra extremidade d'elle onde estava collocado o ocular. Por
esta disposição o observador, em
vez de estar collocado na parte inferior do tubo, içava-se a
parte
superior d'elle, e d'ali, munido da respectiva lupa, é que
mergulhava a vista
dentro do enorme cylindro. Esta combinação tinha
a
vantagem de supprimir o espelho pequeno cuja
funcção
é reenviar a imagem para o ocular. A imagem passava assim
por uma reflexão unica
em vez de duas. Por consequencia, menor era a quantidade de raios
luminosos extincta, e menos enfraquecida ficava a imagem, obtendo-se
portanto maior clareza, vantagem preciosa especialmente na
observação que havia a fazer
[91].
Tomadas estas resoluções, começaram os
trabalhos. Segundo os calculos do pessoal do observatorio de Cambridge,
o tubo do novo reflector devia ter duzentos e oitenta pés de
comprido, e o
espelho dezeseis pés de diametro. Por mais colossal que
fosse tal instrumento, nem sequer era digno de comparar-se com um
telescopio de dez mil pés (3 kilometros e meio) de
comprimento, cuja construcção o astronomo Hooke
propunha ha
poucos annos. E no entretanto as difficuldades que apresentava a
construcção e assentamento, tal como era,
já não eram
pequenas.
A questão da collocação, essa foi de
prompto resolvida. Tratava-se de escolher uma elevada montanha, e as
montanhas de grande elevação não
abundam nos
Estados Unidos.
Effectivamente, o systema orographico d'aquelle grande paiz reduz-se
apenas a duas cadeias de montanhas de mediana altura, entre as quaes
corre o magnifico rio Mississipi que os americanos appellidariam
«o rei dos rios» se para elles
não fôra inadmissivel uma realeza qualquer.
A leste, estão os Apalaches, cujo vertice mais elevado, no
New-Hampshire, não vae alem de cinco mil e seiscentos
pés, altura na realidade extremamente modesta.
A oeste, pelo contrario, encontram-se as Montanhas penhascosas, immensa
corda que começa no estreito de
Magalhães, acompanha a costa occidental do sul com o nome de
Andes ou Cordilheiras, transpõe o isthmo de
Panamá e corre
através da America do Norte até ás
praias do mar polar.
Não são muito elevadas estas montanhas; os Alpes
ou o Hymalaya podiam com justa rasão olha-las de alto da
propria grandeza com supremo desdem.
Com effeito, o mais alto vertice d'ellas tem apenas dez mil e
setecentos pés de altura, ao passo que o monte Branco mede
quatorze mil quatrocentos e trinta e nove, e o Kintschindjinga
[92],
vinte e seis mil setecentos e setenta e seis, acima do nivel do mar.
O Gun-Club, porém, visto ter empenho em que o telescopio
assim como a Columbiada fossem assentes nos Estados da
União, teve de se contentar com as montanhas Penhascosas, e
mandou dirigir todo o material necessario para a cumiada de Long's
Peak, no territorio do Missouri.
Nem a penna nem a palavra humana poderiam narrar as difficuldades de
todos os generos que os engenheiros americanos tiveram de vencer, os
prodigios de audacia e de habilidade que realisaram. Este trabalho foi
um verdadeiro
tour de
force. Foi necessario levantar pedras monstruosas,
pesadissimas peças forjadas, pilastras de ingente peso, os
pedaços enormes do cylindro, o objectivo, que só
por si pesava trinta mil libras, e
levantar tudo acima do limite das neves perpetuas, a mais de dez mil
pés de altura, e isto depois de ter transposto planicies
desertas,
florestas impenetraveis, temerosos «saltos» em
torrentes
impetuosas, longe dos centros de população, em
meio de
regiões selvagens em que cada um dos pormenores da
existencia se transformava em problema quasi insoluvel.
Apesar de tantos obstaculos o engenho dos americanos de tudo soube
triumphar. Menos de um anno depois do começo dos trabalhos,
pelos ultimos dias de setembro, o gigantesco reflector erguia nos ares
o seu tubo de duzentos e vinte e quatro pés
de comprido suspenso de um enorme andaime de ferro, manobrando com
facilidade por meio de engenhosos machinismos em
direcção a todos os pontos do céu, e
podendo seguir os astros de um a outro extremo do horisonte no decurso
da sua marcha
através do espaço.
Custára este telescopio mais de quatrocentos mil dollars. A
primeira vez que o dirigiram para a Lua, experimentaram os observadores
uma sensação mixta de curiosidade e
inquietação. Que iriam descobrir no campo
d'aquelle telescopio que amplificava na proporção
de quarenta e oito mil para um as dimensões
dos objectos observados? Populações, rebanhos de
animaes lunares, cidades, lagos, oceanos? Não, nada que
á sciencia
não fôra já conhecido: a natureza
vulcanica da Lua verificou-se com
absoluta precisão em todos os pontos do disco.
Entretanto o telescopio das montanhas Penhascosas, antes de servir ao
Gun-Club, prestou immensos serviços á
astronomia.
Graças ao poder de penetração de tal
instrumento, sondaram-se até aos ultimos limites as
profundezas do céu,
poderam medir-se com rigor os diametros apparentes de muitas estrellas,
e até
M. Clarke, membro do pessoal technico de Cambridge, decompoz a
crab
nebula[93]
de Taurus, que o
reflector de lord Rosse não lográra reduzir.
CAPITULO XXV
ULTIMOS PORMENORES
Contava já vinte e dois dias o mez de novembro, e a partida
suprema devia realisar-se dez dias depois. Faltava ainda conseguir
feliz exito n'uma unica operação, mas delicada,
perigosa, que demandava infinitas precauções, e
contra o bom
resultado da qual ajustára o capitão Nicholl a
sua terceira
aposta.
Era o caso, carregar a Columbiada introduzindo-lhe as quatrocentas mil
libras de algodão-polvora. Pensára Nicholl, e
com justo fundamento talvez, que da manipulação
de
tão formidavel quantidade de pyroxylo haviam de provir
graves catastrophes, e que, quando peior não succedesse,
aquella massa
eminentemente explosiva havia de inflammar-se por si mesma sob a
pressão
do projectil.
Havia n'isto serios perigos, que maiores se tornavam pela negligencia e
leviandade habitual dos americanos. Haja vista o que succedeu durante a
guerra federal: ninguem se incommodava a tirar o charuto da
bôca para carregar uma bomba. Mas
lá estava Barbicane, que tinha a peito chegar a bom
resultado e não
naufragar já dentro do porto; que escolheu por consequencia
os
melhores operarios, e que os fez trabalhar debaixo das suas proprias
vistas, não os largando de olho um só momento,
conseguindo assim á força de prudencia e de
precaução, pôr a seu favor todas as
probabilidades de bom exito.
Antes de tudo, teve Barbicane o maior cuidado em não mandar
a carga inteira de uma vez para o recinto de Stone's-Hill,
senão a pouco e pouco e em caixotes perfeitamente fechados.
As quatrocentas mil libras de pyroxylo foram depositadas em pacotes de
quinhentas libras, dando assim para oitocentos grandes cartuchos
fabricados com o maior esmero pelos mais habeis pyrotechnicos de
Pensacola. Cada caixão tinha capacidade para dez
cartuchos, e os caixões íam chegando uns
após
outros pela via ferrea de Tampa-Town; por esta fórma nunca
havia a um tempo mais de cinco mil libras de pyroxylo dentro do
recinto. Caixão que
chegava era logo descarregado por operarios descalços, e
cada
cartucho transportado para o orificio da Columbiada para dentro da qual
descia por meio de guindastes manobrados a braço.
Tinham-se posto de parte todas as machinas que trabalhavam a vapor, e
apagado todos os fogos n'um circuito de duas milhas de raio.
Já era mais que bastante ter que preservar dos
ardores do sol, mesmo em novembro, aquellas massas de
algodão-polvora.
O trabalho, por este motivo, era de preferencia feito de noite ao
clarão de uma luz produzida no vacuo por meio dos apparelhos
de Ruhmkorff, que ministrava uma illuminação
artificial que chegava ao fundo da Columbiada. Dentro do
canhão ficavam os cartuchos
arrumados com perfeita regularidade e ligados uns aos outros
por meio de um fio metallico destinado a conduzir instantaneamente ao
centro de cada um d'elles a faisca electrica.
E effectivamente por meio da pilha, é que se havia de dar
fogo aquella massa de algodão-polvora.
Os fios metallicos todos envolvidos em capas de substancia isoladora,
iam reunir-se em um só n'um estreito orificio aberto na
altura em que o projectil havia de ficar; n'esse ponto atravessavam a
espessa parede de ferro fundido, subindo depois até ao
solo por um dos respiradouros do revestimento de pedra, especialmente
reservado para este fim.
A partir do vertice de Stone's-Hill corria o fio por sobre postes pelo
espaço de duas milhas, terminando n'uma pilha de Bunsen
munida do competente apparelho de interrupção.
Por consequencia logoque que se carregasse no botão do
apparelho a corrente electrica restabelecia-se instantaneamente e
ía dar fogo
ás quatrocentas mil libras de algodão-polvora.
Claro
está que a pilha só tinha de funccionar no ultimo
momento.
A 28 de novembro, já os oitocentos cartuchos estavam
arrumados no fundo da Columbiada. Lográra bom exito esta
parte da operação.
Mas quantos incommodos, quantas inquietações,
quantas luctas tinha soffrido ou sustentado o presidente Barbicane?
Debalde prohibíra a todos a entrada de Stone's-Hill; todos
os dias
um ou outro curioso subia por escalada as palissadas, e alguns houve
que, levando a imprudencia até á loucura, foram
pôr-se a fumar mesmo no meio dos fardos de
algodão-polvora. Barbicane tinha
ataques de furor todos os dias. J.-T. Maston fazia quanto em si cabia
para o auxiliar, dando caça aos intrusos com grande vigor, e
apanhando as pontas de charuto ainda a arder que os yankees deitavam
para toda a parte. E a tarefa era de estafar, que mais de 300:000
pessoas faziam cêrco em volta das palissadas. Verdade
é
que Miguel Ardan tambem
se offerecêra para escoltar os
caixões até á bôca da
Columbiada; mas o
presidente do Gun-Club, que o apanhou em propria pessoa com um enorme
charuto na bôca, ao tempo que ia perseguindo alguns
imprudentes a quem dava assim tão funesto exemplo, logo
percebeu que não podia
contar com tão intrepido fumista, e viu-se obrigado a
faze-lo vigiar a
elle, e com muita especialidade.
Emfim, como é certo que ha um Deus especial para os
artilheiros, não houve a menor explosão, e
conseguiu-se a
final pôr a carga inteira a são e salvo. Muito
duvidosa estava portanto
a terceira aposta do capitão Nicholl. Faltava só
introduzir
o projectil na Columbiada e collocá-lo em cima da espessa
camada de
algodão-polvora.
Antes porém de se dar começo a esta ultima
operação, foram collocados e arrumados no
wagon-projectil todos os objectos necessarios
aos viajantes, que eram bastante numerosos e que, se tivessem deixado
fazer a Miguel Ardan a sua vontade, dentro em pouco teriam enchido todo
o espaço reservado para as
pessoas. Ninguem imagina que cousas o amavel francez queria levar para
a Lua. Uma verdadeira carregação de inutilidades.
Interveio porém Barbicane, e não houve mais
remedio de que reduzir-se ao estrictamente necessario. Na caixa dos
instrumentos ía
grande numero de barometros, thermometros e de oculos de alcance.
Os viajantes estavam com curiosidade de examinar a Lua no decurso da
viagem, e levavam, para facilitar o reconhecimento d'aquelle novo
mundo, um excellente mappa de Beer e Moedler, o
Mappa
selenographico, publicado em
quatro folhas, e que, com justo fundamento, tem fama de verdadeira obra
prima de
observação e paciencia. Reproduz este mappa com
escrupulosa exactidão os mais insignificantes pormenores da
face do astro que olha para a Terra; montanhas, valles, circos,
crateras, picos,
ranhuras, tudo ali se encontra com exactidão nas
dimensões e fidelidade
na orientação e
denominações, desde os montes Doerfel e Leibnitz,
cujas altas cumiadas se erguem no extremo oriental do disco
até ao
Mare
Frigoris, que se estende pelas regiões
circumpolares do norte.
Era portanto este mappa, para os viajantes, um guia precioso, porque
lhes tornava possivel o estudo do paiz, antes de lá
porem os pés.
Levavam tambem os viajantes tres
riffles e tres carabinas de caça do
systema de bala explosiva, e alem d'isto grande
quantidade de chumbo e polvora.
Dizia a este respeito Miguel Ardan: «Nós
não sabemos com quem vamos lá haver-nos; sejam
homens ou sejam animaes podem
levar a mal que lhes vamos fazer uma visita! Por consequencia convem
que cada qual tome as suas
precauções».
Acrescentaremos, que as armas de defeza pessoal iam acompanhadas de
picaretas, alviões, serras de mão e a mais
ferramenta indispensavel, sem fallar dos vestuarios adequados para
todas as temperaturas, desde o frio das regiões polares
até aos calores da zona torrida.
Miguel Ardan desejava levar na expedição certo
numero de animaes, que se não chegava a ser um casal de cada
uma das
especies conhecidas, é porque Ardan não reputava
cousa
necessaria acclimar na Lua nem serpentes, nem tigres, nem crocodilos,
nem quaesquer outros animalejos damninhos.
«Tanto não, dizia elle a Barbicane, mas alguns
animaes de carga, por exemplo bois, vaccas, burros ou cavallos,
não
só haviam de fazer bello effeito na paizagem, como nos
haviam de servir de grande utilidade.
«Estou de accordo, meu caro Ardan, respondia o presidente do
Gun-Club, mas o nosso wagon-projectil é que não
é nenhuma arca de Nóe. Nem tem capacidade que
chegue, nem para isso foi
destinado; por consequencia fiquemo-nos nos limites do
possivel.»
Finalmente, depois de longa discussão, concordou-se em que
os viajantes tinham de se contentar em levar uma excellente cadella de
caça que pertencia a Nicholl, e um vigoroso Terra-Nova de
força prodigiosa. Entraram tambem no numero dos objectos
uteis muitas caixas de sementes das mais usuaes. Miguel Ardan, por sua
vontade levaria tambem alguns sacos de terra para as semear. Em todo o
caso, sempre foi mettendo a um canto do projectil uma duzia de arbustos
embrulhados em bainhas de palha.
Restava ainda a questão de viveres, porque necessario era ir
prevenido para o caso de arribar a alguma região da Lua
completamente esteril.
Barbicane tanto fez, que conseguiu metter no projectil
provisões para um anno. É necessario acrescentar,
para que ninguem
d'isto se admire, que estes viveres consistiam em conservas de carnes e
legumes, reduzidas ao minimo volume pela acção
da prensa hydraulica, que todavia continham grande abundancia de
elementos nutritivos; a variedade é que não era
grande; mas
tambem n'uma expedição d'aquellas não
era
occasião propria para alguem se mostrar niquento. Levavam
tambem os viajantes uma reserva de aguardente, que montaria a uns
cincoenta gallões
[94], e agua
para dois mezes apenas, porque, na verdade, em consequencia das ultimas
observações astronomicas, já ninguem
punha em duvida a existencia de certa quantidade de agua á
superficie da Lua.
Quanto a viveres, reputar-se-ía até insensato
quem
suppozesse que habitantes da Terra não haviam de
lá encontrar farto
alimento.
Miguel Ardan não conservava sombra de duvida a tal respeito.
Se a conservára por certo não estaria decidido a
partir.
«E demais, disse elle um dia aos amigos, os camaradas
cá da Terra de certo nos não hão de
abandonar
completamente, antes terão todo o cuidado em nos
não esquecer.