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Estrellas Propícias

Chapter 28: EPILOGO.
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About This Book

The narrative unfolds in a setting marked by social dynamics and personal relationships, exploring themes of love, hope, and societal expectations. Characters engage in discussions about marriage prospects and familial expectations, revealing the complexities of their interactions. The story reflects on the contrasts between aspirations and reality, as well as the influence of wealth and status in romantic pursuits. Through a blend of drama and social commentary, the work delves into the emotional landscapes of its characters, highlighting their desires and the societal pressures they navigate.

«


«Ás seis horas da tarde, quando vou do escriptorio, encontro sempre a minha Corinna sentada n'um pequenino ressaio, como se lá diz no meu Barcellos, que tenho á porta da chacara. Alli é a minha primeira paragem, em que o espirito se desfadiga do pesadello das leis: o coração toma absoluto imperio sobre as minhas outras faculdades, e todo me deixo adormecer na quietação d'um bem-estar, que só podem conhecer os operarios d'um dia inteiro, quando ao cahir da noite, se repousam ao lado da companheira, por amor da qual se cansam e recobram. Os nossos frugaes jantares são rapidos, e assazoados dos infantis gracejos da minha Corinna, que os tem sempre novos para encarecer a profusão das iguarias. Depois vamos por esses caminhos fóra, admirando tudo que nos vem ao encontro a sorrir: são as arvores e flores de todas as ricas vivendas d'este luxoso torrão: tudo é nosso, porque, meu amigo, nada ambicionamos do que vamos vendo.

«Corinna está-me sempre repetindo a historia dos nossos amores, que eu acho sempre nova. Os dois bailes do Porto em que a vi; as primeiras palavras que eu lhe disse, com destemperada lamuria; os seus pensamentos lá no Lima, dia por dia, e hora por hora. Sinto-me duplicadamente viver na sua vida passada; parece-me que estou tomando posse d'uma existencia que devia ser minha desde então.

«Deito-me cedo para me levantar com a aurora. Corinna lê até tarde: lê alto em quanto vê que eu a escuto; depois, vai diminuindo gradualmente a voz até me ver adormecido. Rirás tu d'esta miudeza de traços no quadro da felicidade domestica? Se ris, visconde, mal de ti, que os não has de saber gosar. Uma coisa magnifica, estrondosa, e apparatosa, que vai pelo mundo, chamada Felicidade, feitas as contas, sabes o que é? É isto, são os singellos prazeres, que não valem nada descriptos, e são a bemaventurança sentidos. E não valem nada, porque a gente que os lê, pensa que pouco vai de desejal-os a tel-os. Que engano! A mais facil felicidade é a que requer mais grande coração e pura consciencia. Se estes bens fossem communs, todos eramos felizes. Nós antes queremos ser todos ricos.
»


Valentim da Costa foi, um domingo, jantar com os seus filhos, termo de muita amizade com que elle os acarinhava. N'esse dia se completavam os setenta e nove annos do ancião. Depois do jantar, desceram a sentarem-se debaixo das quatro palmeiras, que davam o usurpado titulo de chacara á casinha dos venturosos. Ahi fallou sempre o velho, com a perdoavel vaidade de quem sabe tudo do passado, e possue a chave dos futuros. Ora! por onde elle andou! Foi cavar na raiz da revolução franceza, contou a vida de Napoleão, a fuga de D. João VI, as anecdotas da côrte, a infancia e juventude do senhor D. Pedro IV, a mocidade estudiosa e as virtudes civicas do actual imperador do Brazil, e tudo isto para concluir que o presente era melhor que o passado, e que o futuro será melhor que o presente. E a tal proposito ajuntou:

—Vossês não façam caso do que eu disser, quando elogiar as coisas e pessoas do meu tempo. O seu tempo é a balda dos velhos, que, ao verem-se carregados de tempo, não só querem que seja seu—o que ninguem lhes contesta—; mas até querem que o tempo d'elles fosse a melhor quadra dos dezenove seculos que já lá vão. Ora eu, que sou velho e ao mesmo passo rasoavel, se duvidasse das virtudes d'este tempo, duvidaria das vossas, meus filhos. Dizem que a velhice é egoista, e morre devorada de odientos ciumes da geração nova, não só porque é boa de indole, que tambem por ser inventora das regalias que vieram tarde para ella. Deus me livre de ir á eternidade com este trambolho agarrado ás pernas: bem me basta a gotta! Eu cá de mim até folgo de acabar, quando começa uma transfiguração na face da terra, coisa nem sequer sonhada ha quarenta annos, quando eu e os meus contemporaneos motejavamos o desconfortavel viver de nossos paes. Não me dirão o que nós tinhamos mais do que elles, ha quarenta annos?! Vossês é que podem rir-se de mim e dos meus; mas nem por isso lhes quero mal de inveja. O meu amor á gente nova chega a ponto de eu me desejar morrer no meio d'ella. Querem-me os meus filhos trazer para sua casa? Eu estou por alli sósinho n'aquella rua do Ouvidor, muito rica, e muito bulhenta. Tenho lá tres pretos e tres pretas a quem quero dar a liberdade, e os diachos não a querem! Olhem que é forte mania a dos que dizem que a escravidão é o antagonismo permanente com a ideia de Jesus! Se os meus pretos fossem novos, e eu lhes désse liberdade, os pobresinhos, em vez de irem aos seus sertões respirar ar livre, assoldadavam-se a senhor que os carregava de trabalho; ora, como os meus escravos são velhos, os coitados não querem a liberdade, que para os de sua especie é uma palavra van. Pois se eu me não posso, nem devo desfazer d'elles, peço-vos que m'os deixeis trazer comigo para a vossa companhia. Verdade é que esta casa é mui estreita para tanta negraria, e commodidades d'um hospede octogenario. Aqui é que o meu Azevedo ha de mostrar-se amigo do seu velho. Está alli abaixo uma boa casa, com muito arvoredo em roda. Vai o meu filho arrendar aquella casa, e recolher-se a ella com o seu mestre de leis. Faça de conta que eu sou um pulvereo praxista que vossê tem na sua livraria... O ingrato não me responde. Vou voltar-me para a minha filha Corinna. Faz-se o que eu peço?

—Faz—disse Corinna, sorrindo ao esposo.

—Pois então—tornou o velho—já d'aqui não saio. Onde me dais agasalho esta noite? Quero já saber onde está o meu quarto.

No dia seguinte, Azevedo arrendou a chacara magnifica, mudou para ella com o ancião, e com os seis velhos escravos e amigos de Valentim. Logo ao segundo dia, o hospede chamou Azevedo, e disse-lhe:

—Eu tambem tenho a minha dignidade, a minha vaidade e o meu orgulho. Quero entrar com a minha quota parte para as despezas da casa, minhas e da minha pretaria. Arrendamento da chacara, a meias; o importante da cozinha, isso é cá com o anjo dos lares, com a nossa Corinna.

Antonio d'Azevedo ia contrariar o velho, e reteve-se ante um gesto de desagrado, e logo esta risonha exclamação:

—Vossê cuida que tem mais pundonor que eu!

Este viver continuou assim seis mezes. Corinna tinha ouvinte certo ás suas leituras em quanto o marido dormia. Valentim repousava tres horas em cada noite, e velava as outras, folheando papeis, e dando expediente a negocios attinentes aos seus haveres. Algumas vezes ia á cidade em carruagem que comprara n'este ultimo praso da vida, não tanto para elle, como para os passeios de Corinna. Valera-lhe a gotta para colorir o presente aos seus queridos commensaes.

N'este tempo as cartas vindas de Portugal davam a noticia confirmada dos casamentos de Emma e Leonor. As duas noivas tinham ido para o Porto com seus maridos, e Felismina com seu marido e o primogenito estavam nas margens do Lima, ou no palacio reconstruido de Fernão de Athaide, onde o filho natural mandara acastellar os telhados. Fernando era já visconde do Ameixial, e estava pasmado da barateza da coisa, em comparação do muito que dera por uma commenda cinco annos antes. Tinha sido logrado pelo procurador.

Gastão de Noronha, D. Mafalda e a menina mais nova tinham ido a Paris comprar mobilia para renovar a decoração do palacio de Lisboa. Esta era a razão ostensiva que o publico deve acceitar por ser melhor, se não a mais ajuizada; mas os indiscretos portuguezes que então estavam em França, disseram que o ainda robusto Gastão de Noronha fôra espairecer saudades de uma duqueza, ou duas duquezas, ou mais seriam, que, pelos modos, em Paris, isto de amar quatro duquezas é coisa mais que frequente a quantos portuguezes lá vão, como eu tenho visto nos apontamentos de pessoas que lá estiveram quinze dias. D. Mafalda é que ha de saber a verdade de tudo.

Com estas noticias chegou outra concernente a Francisco d'Azevedo. O caixeiro chegou a Lisboa, pagou a sua divida, mandou o recibo ao irmão, foi a Barcellos, vendeu a pequena legitima, abraçou suas irmans, e tornou a Lisboa, d'onde partiu para a Africa.

As quatro meninas das margens do Cávado viviam abundantemente. Seu irmão Joaquim, já estabelecido e coadjuvado pelos Taveiras, occorria-lhes a todas as necessidades, dava-lhes tudo, menos o prazer de leval-as ao Porto, porque o irmão do Brazil, em todas as cartas recommendava instantemente, que as deixasse estar em Barcellos com as arvores e flores da casa paterna. Outros dois irmãos de Azevedo, sem importancia n'esta chronica de familia, exerciam probamente a profissão do commercio.

—Todos felizes!—exclamou o velho, que ouvira attentamente lêr as cartas, como se fossem de familia sua—Todos felizes! Só o meu pobre Azevedo ainda a trafegar para o pão de cada dia! Os dois contos de reis, ganhados nos primeiros mezes, lá se foram na restituição do Francisco. Desde então para cá as economias são impossiveis! Esta Corinna é uma grande avára! Tem alli na gaveta trinta contos, que ella chama os seus alfinetes de noiva, e não os quer arriscar nas despezas da cozinha! Ora deixa-te estar, minha sovina, que te não hei de deixar em testamento as minhas tres pretas velhas!

—O Antoninho não quer o dinheiro...—disse ella, afagando o cabello do marido, que ria muito do sainete comico do velho—Ha que tempos—continuou ella—eu não vi o meu thesouro! Vou-lhe desafiar a inveja, doutor, a mostrar-lhe as minhas notas! ora espere...

Foi Corinna a uma gaveta de sua commoda, e voltou pallida, exclamando:

—Ó Antoninho! mudaste o dinheiro da gavetinha do meio?

—Eu nunca soube onde tinhas o teu dinheiro—respondeu placidamente o marido.

—Não está lá... roubaram-m'o—bradou ella.

Dias antes tinha fugido uma negra, alugada para a cozinha.

—Seria a preta?—perguntou tranquillamente o bacharel—Póde proclamar-se rainha nas suas senzalas a negrinha!

Corinna mostrava-se afflicta. O marido chamou-a a si, encostou-a ao seio, e disse-lhe com muita meiguice:

—A tua grande alma, minha filha? Então! ha ahi dinheiro que valha uma lagrima tua, Corinna? Imagina que Deus te experimentava, privando teu marido da saude de tres dias! Que farias então, minha amada?... Quantas vezes darias os teus trinta contos por uma tisana que me restaurasse?! Quero só ver-te lagrimas, quando eu as chorar.

—Tens razão!—exclamou ella—Estou alegre! perdoa á minha fraqueza de mulher, sim? Quem me visse chorar, julgaria que eu amava aquelle dinheiro inutil!

—Pois sim; tudo isso é muito admiravel—exclamou o velho—mas é necessario annunciar a fuga da ladra, agarral-a e despedaçal-a com o azorrague!

Antonio de Azevedo ergueu os hombros e sorriu. Corinna fitou os seus humidos e negros olhos em Valentim, e murmurou:

—Despedaçal-a! Coitada da infeliz!

—Essa agora é que não é piedade irreprehensivel, menina!—redarguiu o velho—Chama coitada infeliz á negra que lhe rouba uma quantia que em Portugal se chama uma fortuna!... Eu tomo a negra á minha conta! Ha de ser cortada pelo azorrague!

—Não deixes, Antoninho!—clamou Corinna, tomando-lhe o rosto entre as mãos.

—Não deixo, não, filha. O doutor está feroz; mas aquillo passa-lhe.

—Ora, senhores—tornou o velho tregeitando espanto—O nome, que isso tem em boa hermeneutica, é fomentar o crime! A sociedade não se serve assim! É preciso que cada qual contribua com o cauterio para lhe extirpar os cancros que a corroem.

—Parece que está no tribunal, doutor!—disse Azevedo—A velha eloquencia é ainda brilhante; mas a lei nova, a lei do justo que os fariseus azorragaram, manda cahir o azorrague das mãos do offendido, e castigar moralmente o culpado.

—Moralmente!—retorquiu o doutor—Com que então vossê crê no moral dos negros?!

—Creio na alma dos negros.

—Isso é uma impiedade!

Azevedo riu-se, e, por momentos, duvidou do concerto intellectual do velho.

Mas, a esta injuriosa duvida, ergueu-se o velho, e caminhando para elles, com os braços abertos, exclamou:

—Não calumniemos a negra, meus filhos! Abraçai-me, anjos! Eu quiz experimentar a vossa caridade! Abraçai-me, —Não calumniemos a negra, meus filhos! Abraçai-me, anjos! Eu quiz experimentar a vossa caridade! Abraçai-me, santos da honra e da misericordia, que os vossos trinta contos quem os furtou fui eu!



XX.



Em uma tarde de maio de 1849, ao oitavo mez de ceo sem nuvens n'aquella chacara, onde á competencia os tres ditosos moradores se davam alegrias, chegou o anjo pallido da morte, e sentou-se no limiar d'aquelle éden, como para vedar o accesso ao anjo do contentamento.

A um lado do leito de Valentim da Costa estava Corinna da Soledade, com o cotovello apoiado no travesseiro e a face na palma da mão esquerda, orvalhada de lagrimas.

Do outro lado Antonio de Azevedo, com as mãos entrelaçadas debaixo do rosto que encostava á borda do leito, erguia a espaços os olhos lagrimosos, e cravava-os nas faces emaciadas e lividas do ancião.

Aos pés do leito estavam sentadas duas velhas negras soluçantes, com os rostos escondidos entre os joelhos.

Na ante-camara moviam-se pé ante pé os restantes dos antigos servos de Valentim, e cada um por sua vez, de instante em instante, vinha, por entre os cortinados de cassa, espreitar o enfermo, e retirava com as mãos postas e o coração em ancias e suspiros.

Valentim da Costa tinha sido confessado e ungido n'aquella tarde. A sciencia retirara ante a irremediavel decomposição dos oitenta annos.

Mas Corinna e Azevedo não podiam convencer-se de que o seu amigo havia de morrer assim, quando, a intervallos, o ouviam discorrer com o socego e energia moral dos mais saudaveis dias. Era a alma imperecedoira allumiada já pela claridade do empyreo: era a prova suprema que ella estava dando de sua immortalidade. A cryzalida desfazia-se, e a borboleta do ceo, n'aquelles assomos de intelligencia, ensaiava seu voejar para o alto.

O moribundo descerrara as palpebras, e dissera:

—Não devia eu esperar tão suave morrer. Homem que viveu sósinho os annos da juventude e força, morrera sósinho. Não quiz o Altissimo que eu pagasse amargosamente a minha incuria. Eis-me com filhos e amigos em volta do meu leito. Bemdito seja o Senhor!

Falleceram-lhe forças, e descahiram as palpebras transparentes, flacidas e azulejadas.

D'ahi a pouco reabriu os olhos, fez signal a Antonio d'Azevedo, e indicou-lhe o travesseiro, que forcejou por levantar.

Azevedo correu a mão por debaixo do travesseiro e tirou papeis, que offereceu ao ancião. Este não pôde erguer os braços quebrantados, e disse:

—Um é o meu testamento; o outro papel é a minha despedida de vós. Está escripto ha quinze dias: escrevi-o quando conheci o fim. Lêde-o vós, filhos; quero ouvil-o; o coração quer ainda o goso de se escutar.

Antonio d'Azevedo abriu vagarosamente a folha dobrada em oitavo, e leu com tremor de suspiros:

«Um secreto aviso me manda preparar. Não posso dizer como o santo:—O meu coração está prompto—; mas vejo o termo da viagem sem susto. A face do Juiz transluz misericordia. O meu Creador foi para si que me creou.

«É dôr deixar-vos, filhos; porém saudades haverá mais pungentes entre os vivos que se apartam. A providencia divina permitte que o aspeito da morte seja menos afflictivo, quando em verdade ella está comnosco. Ai de nós, se este desapego da terra, onde se é feliz ou se espera sel-o, não existisse! O morrer custa ruins quebrantos da materia; mas a alma como que se está despenando e alegrando para ir ao seu destino.

«Vou deixar-vos, meus amigos. Chorai-me, porque vos quiz muito, e vos fui grato ás doces horas que me déstes. Chorai-me, porque ao moribundo é consolador o pranto dos que lhe deram os risos da ventura.

«Ficaes novos e ricos. Pela vida além haveis de encontrar muita gente affligida: sêde valedores de todos, e associai sempre o meu nome á vossa beneficencia. Assim viverá comvosco uma faisca d'esta chamma, que não póde ser toda vossa, por ser de Deus.

«Dai-me sepultura, e ide depois para a patria e para os vossos. Empregai lá a vossa actividade menos em accumular, que em repartir a sobejidão de vossa riqueza. Quando houverdes filhos não lhes ensineis a honra do rico, que essa é facil: ensinai-lhes a honra do pobre, a honra de Antonio d'Azevedo e a abnegação de Corinna. Vivei de modo que a vossa descendencia se glorifique do exemplo, quando vossos nomes estiverem já esquecidos.

«Estou a dar-vos conselhos, como se carecesseis d'elles: desculpai ao velho este fraco da muita idade. É uma missão paternal que cumpro. Se eu tivesse dois filhos, exemplares em virtudes, havia de fallar-lhes assim. Deixai-me acabar n'esta abençoada illusão. Admoesto-vos, meu Antonio d'Azevedo, a que deis de mão ao grande pezo do trabalho. O que hontem era precisão, será ámanhan sêde sobre sêde de riquezas inuteis. O bastante é muito pouco. Da riqueza de vossa alma é que deveis ser grande dissipador: derramai-a em preceitos, conselhos, allivios e censuras. O solitario virtuoso é um egoista do ceo. Ide ao meio do povo e fallai. O homem sósinho póde ter muito de que alegrar-se; mas não alegra os milhares de infelizes que gemem, e a gemer se vão despedaçando.

«Sabei que eu, á custa de sessenta annos de trabalho, cheguei a esta hora podendo dizer que não tenho um ceitil. Tudo dei a uns, e perdoei a outros. Os bens de fortuna, que vos lego, deu-m'os uma herança, no ultimo quartel da vida. Ahi vol-a transmitto. Foi sempre meu intento deixal-a a pobres: sei que fica sendo vossa e d'elles.

«Agora abraçai-me, e dai-me o vosso adeus.»

Antonio d'Azevedo fôra algumas vezes embargado pelas lagrimas, e Corinna, com os labios postos na mão do moribundo, soluçava mui anciada. No final da leitura, Valentim fez um vão esforço de levantar os braços para receber os dois filhos que se achegaram ao seio d'elle. Os escravos tinham entrado todos de roldão, e beijavam-lhe os pés por cima da coberta. O agonisante relanceou os olhos de sobre elles para a face d'Azevedo, e murmurou:

—Serão vossos amigos tambem... Levai-os... Os pobrezinhos morreriam de saudade... e miseria.

Os negros ajoelharam de mãos postas, e oraram. Corinna insensivelmente ajoelhou tambem, conservando entre as su Os negros ajoelharam de mãos postas, e oraram. Corinna insensivelmente ajoelhou tambem, conservando entre as suas a mão do moribundo.



CONCLUSÃO.



Passados seis mezes, á porta do quinteiro de uma pequena granja, visinha de Barcellos, parou uma liteira, d'onde apearam Antonio d'Azevedo e Corinna da Soledade. Logo em seguida, chegaram algumas cargas, acompanhadas por negros, em volta dos quaes o rapazio de Barcellinhos fizera grande alarido de apupos e espirros. Das tres escravas, uma só resistira á saudade do senhor; os pretos viviam todos, amparados pelo bom tracto dos novos amos.

As irmans do bacharel vestiam as suas mais vistosas e secias galas. Eram quatro frescas moças, robustas, côr escarlate de quem vende saude, alegria a desbordar do coração aos olhos, e um rir franco e aberto de innocencia, e felicidade expansiva.

Corinna abraçou-se n'ellas, que a levaram em andor para o primeiro sobrado. N'este sobrado, algum tanto escuro, rescendia um acre de rosmaninho e alecrim, como em festividade de presbyterio. Por cima de mesas, commodas, e banzos das janellas, tudo eram jarras de louça ordinaria com grandes feixes de dhalias, rozas e folhudos gira-soes. O oratorio estava aberto, e allumiado o crucifixo com a lampada usual, e mais duas vellas de cera de meio arratel, voto da mais nova das meninas. Os frizos do sanctuario eram grinaldas de flores, atadas pelas hastes umas n'outras, enfeite de menos engenho que apparato.

Antonio d'Azevedo entrou depois de sua mulher; sentou-se em um tamborete de coiro; descobriu-se, quando deu pela imagem do Christo, e murmurou:

—Finalmente!

Corinna da Soledade sentou-se á sua beira, e disse-lhe:

—Que celestial graça tem isto tudo, ó filho!

—Aqui tens a pobre casa onde nasci. Corinna!...—disse Azevedo, relanceando em redor os olhos humidos—Isto póde explicar a estreiteza das minhas ambições. Moldou-se-me a alma nas dimensões acanhadas d'esta casinha. Olha as flores de que eu tinha tantas saudades! Alli tens a minha banca de estudo... Lá estão ao lado do oratorio os meus primeiros livros... Mas como isto é pequeno! Como caberemos aqui!

—Perfeitamente, Antoninho!—disse Corinna.

Entrou, n'este ensejo, Joaquim d'Azevedo, o negociante do Porto, que ficara arrumando n'outro sobrado os bahus.

—Não sei, não sei como hão de caber aqui, meus irmãos—disse elle, rindo—Tu já sabes, Antonio, que, além d'esta saleta, e dois quartos, segue-se um casarão velho, e umas oito alcovas, de que os ratos estão de posse immemorial. Ora vem ver! Estou certo que a nossa Corinna vai ficar espavorida!

Abriu Joaquim de Azevedo a porta que abria para o casarão. Antonio fez pé atraz de maravilhado. Tinha diante de si uma sala luxuosamente trastejada, com janellas lateraes rasgadas em arco, e envidraçadas a cores. A jardineira central estava cogulada de flores raras, e ricas encadernações de albuns. A um lado o piano. A outro a othomana e as cadeiras de respaldo em setim amarello. No centro, o lustre pendente do estuque primorosamente lavrado da mais engenhosa filagrana. Ao fundo d'esta sala estava um quarto com recamara, espaçoso, alegre, com alfaias de muito valor e gosto.

—É o vosso quarto, meus irmãos—disse Joaquim—Ao lado tendes outro: será o do vosso primeiro filho. Quando os filhos augmentarem, iremos rompendo com o edificio pelo campo, ou daremos á casa a largura que precisa para corresponder ao comprimento. O defeito não foi do mestre architecto: foi meu por tua causa. Era preciso, cá para o meu plano um pouco de peça magica, que tu visses a frontaria da velha casa, e não podesses ver o fundo. O que era de nossos paes, está em pé; tens que farte onde ver o teu passado; tudo se conservou por amor de ti, que tens lá essa poesia das casas velhas. Mas has de perdoar que eu tenha destruido o casarão, antes que os ratos devorassem as nossas irmans.

Antonio abraçou Joaquim de Azevedo com fervorosa alegria, e este, com o outro braço, apertou Corinna ao peito.

Seguiu-se um dia e muitos dias de contentamento incessante. A cada hora em que se encontravam juntos, á mesa, no jardim, nos campos, ou á margem do Cávado, era uma festa, uma alegria de crianças!

Gastão de Noronha estava já em Lisboa, de volta de França, onde se deteve um anno a comprar a mobilia. Aquellas duquezas eram os seus peccados!

Fernando de Athaide desceu do alto-Minho a receber seus cunhados na quinta do Lima. Tambem Corinna queria ir reconhecer os arvoredos de sua infancia, e mostrar ao marido os logares onde chorara mais lagrimas de saudade. N'esta quinta se reuniram as quatro irmans casadas.

Emma, viscondessa da Cruz, tinha nutrido muito; e, com quanto o jubilo lhe désse azas, não cessava de queixar-se dos incommodos de tamanha viagem, desde o Porto alli! Leonor, casada com Luiz Taveira, ria muito da irman gorda, chamava-lhe o ideal da preguiça, e saltava muito, pendurada no braço do marido, que era doido por ella. O velho Bernardo Taveira seguiu os filhos, e fazia discursos, que ninguem lhe ouvia, excepto Antonio d'Azevedo, que via n'elle um dos classicos velhos talhados a molde das virtudes de Valentim da Costa. Dias depois, chegou Gastão de Noronha, Mafalda e Elisa, a mais nova, e ainda solteira das meninas. Gastão, com todo o aprumo de sua fidalga altivez, approximou-se do genro Azevedo, abraçou-o cordialmente, e disse-lhe:

—Meu caro commendador!

—Vossa excellencia está enganado!—disse o attonito Azevedo—Eu sou, salvo a pequena differença de alguns cabellos brancos, o Antonio de Azevedo de 1844.

Gastão tirou da algibeira uma chapa refulgente da ordem de Christo, e disse:

—Aqui tem! É o meu presente de noivado.

—Muito agradecido a vossa excellencia—disse Antonio d'Azevedo—Qualquer dadiva de vossa excellencia me alegra; e esta, que tanto luz, deve ser muito agradavel entre os brinquedos de meu primeiro filho.

—Mas eu quero que a use—tornou o sogro.

—Na minha aldeia?—perguntou o genro.

—Em Lisboa, para onde eu quero que o senhor vá gosar a vida e a riqueza que tem. A minha Corinna não se fez para o mato de Barcellos. Não é assim menina?

—Respeito muito a vontade de meu pae—disse Corinna com submissão—mas a nossa casa é em Barcellos, e as minhas flores estão lá por aquelles matos. Tenho lá uma segunda familia que me chama, e á qual eu tenho escrupulos de roubar por mais dias o seu irmão querido. Ámanhan partiremos.

Antonio de Azevedo, sem temer reparos, cedeu á alma reconhecida, e deu um beijo na face de sua mulher.



EPILOGO.



Lá vão quatorze annos.

Não me consta que tenha morrido algum dos personagens que ha instantes vimos tão alegres nas margens do Lima.

Conhecem romance em que tenha morrido tão pouca gente? Eu não! Se aquelle santo do Rio de Janeiro não vergasse debaixo dos oitenta annos, ainda agora podia estar no seio da patriarchal familia de Barcellos, onde elle tencionava acabar seus dias.

As irmans de Antonio de Azevedo estão todas casadas, e senhoras de boas casas de lavoira e numerosa descendencia.

Está ainda solteira Eliza, a irman mais nova de Corinna. Tem hoje trinta e um annos. É ainda formosa. Se o leitor é solteiro e rico... (não será mau que seja rico, para maior segurança) póde dar a este romance um supplemento, casando com aquella senhora, que está aqui em Lisboa. Eu de muito boa vontade, na segunda edição d'este romance, darei a possivel immortalidade ao acto.

Pude tambem saber que o menino mais velho de Antonio d'Azevedo amolgou a commenda na borda de um tanque, e acabou por atirar com ella a um poço. Que grande democrata se está alli criando!

FIM.



Notas:

[1] O Snr. Antonio Pereira da Cunha.

[2] O Snr. José Barbosa e Silva, author do romance==Viver para soffrer.



Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


Original Correcção
#pág. 65 Ningnem ... Ninguem
#pág. 164 pimas ... primas
#pág. 178 ao labios ... aos labios
#pág. 184 nogociante ... negociante


Foram mantidas as variações de nomes próprios.