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Felicidade pela Agricultura (Vol. I)

Chapter 36: NOTAS Retrato de Castilho
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About This Book

A collection of essays and utopian meditations urging the improvement of rural life through agricultural reform and popular education. The author blends lyrical rural imagery, philosophical reflection, and autobiographical notes to argue that cultivating land, enlightening minds, and refining moral sentiment will foster public felicity. Practical recommendations alternate with visionary proposals; criticisms of contemporary policies appear alongside appeals to virtue and civic responsibility. The prose shifts between poetic exuberance and sober argument, using countryside metaphors to illustrate social aims and to propose gradual, humane paths to communal progress.

NOTAS
Retrato de Castilho

Ha coincidencias notaveis; é conveniente não as desaproveitar; parecem arabescos na sobrehumana calligraphia da Providencia.

O retrato com que se adorna este volume, é reproducção em photogravura, pelo talentoso artista o sr. Thomaz Bordallo Pinheiro, de um pequenino esboceto pintado por seu excellente pae, o notavel sr. Manuel Maria Bordallo Pinheiro. ¿Quem diria ao pintor, que, cincoenta e quatro annos andados, um filho, ainda então por nascer, havia de reproduzir a sua obra?

O esboceto foi pintado do natural, na casa onde o artista habitava, rua da Fé, palacete á direita subindo, em alguma visita que lhe fez Castilho na demora de quasi tres mezes que passou em Lisboa (27 de Fevereiro a 15 de Maio de 1849), achando-se então de residencia na Ilha de S. Miguel. Appareceu no espolio do eximio artista, e foi offerecido a um filho de Castilho.

Vê-se que estava apenas em principio; mas é, ainda assim, documento precioso, já pela semelhança, que ia bem encaminhada, já pela intenção affectuosa que motivou tal trabalho.

O velho Bordallo Pinheiro foi muito admirador e amigo do Poeta, e este ufanava-se de lhe retribuir eguaes sentimentos.

Pag. 12, lin. 3 e seg. Polemicas.

Houve, com effeito, folicularios mal ensinados, que pretenderam inculcar ser Castilho um revolucionario perigoso, uma especie de demagógo subvertedor de usos antigos e arraigadas crenças; isso deu aso a guerras crueis, cuja memoria não desejamos evocar aqui, mas que muito amarguraram o sincero Poeta. Quem ler com attenção este livro, verá quanto eram infundadas taes accusações. O livro é innovador, e não desordeiro; amante, e nunca hostil. Lamenta o que vê, deseja o bem, e procura remedio aos males que nos affligem. Interpretar as utopias theoricas pelo lado demolidor, é não as entender.

Pag. 27, lin. 7 e 12. Gessner.

São tristissimas as vicissitudes da reputação dos poetas. Ha nomes, que, depois de encherem o mundo, esquecem miseravelmente á propria phalange dos homens de Lettras.

Salomão Gessner, que no seu tempo foi um luminar, tanto pela belleza da forma dos seus livros, como pela sua moral, de poucos Allemães é hoje lido e conhecido a fundo. Castilho, que desde a meninice o leu, o tratou, o venerou, e até alguns dos seus idyllios traduziu, e imitou outro, conservou sempre ao virtuoso cantor suisso um verdadeiro culto.

Para os que hoje entre nós ignoram quem foi Gessner, duas palavras biographicas:

Nasceu em Zurich em 1730. Homem bom, quanto se pode ser, benefico, optimo marido, optimo cidadão começou por typographo; o trato intimo com as lettras elevou-o ao conhecimento das Lettras; graças á sua applicação e perseverança, tornou-se Gessner um verdadeiro filho dilecto do Publico: já pela graça e singeleza dos seus idyllios, já pela moral pura e santa que todos elles respiram. Em toda a parte onde appareceu recebeu provas de apreço, até das testas coroadas. Falleceu em Zurich a 2 de Março de 1787.

A celebre Madame de Genlis conta da seguinte maneira uma sua visita ao poeta suisso:

«Tinha-me Gessner convidado para o ir ver á sua casa de campo; e eu estava curiosissima de conhecer a mulher com quem elle casára por amor, e que o soube inspirar. Imaginava-a uma especie de pastorinha encantadora, e phantasiava a habitação de Gessner como uma choupana elegante, circumdada de vergeis e flores; ali, segundo eu pensava, só se bebia leite, e se pisavam pétalas de rosas Chego, atravesso um resumido quintal, cheio de cenoiras e couves; isto, confesso, começou a perturbar seu tanto os meus devaneios bucolicos e idyllicos. Entrei na sala, e ¿que vejo? No meio de uma fumaceira densa de tabaco, avisto Gessner a fumar cachimbo, e a beber cerveja; ao lado d’elle sentava-se a mulher, com a sua grande touca, e a fazer meia. O acolhimento de ambos, a doce união d’aquellas almas, o seu affecto para com os filhinhos, a singeleza de tal quadro, tudo isso me pintou ao vivo os singelos costumes pastoris que o poeta costumava cantar. Assisti pois a um idyllio, presenceei a edade de oiro, não em poesia brilhante, mas sob o seu aspecto vulgar e desataviado.»

Pag. 27, lin. 8 e 12. Klopstock.

Klopstock (Pedro Gottlieb) autor do poema epico Messiada, nasceu em Quedlinburg(?) a 2 de Julho de 1724. Cursou as melhores escolas superiores da Allemanha, concluindo na Universidade de Leyde o curso theologico. Desposou uma notavel e talentosa mulher, Meta Moller, fallecida em 1758. Foi muito protegido por el-Rei Frederico V, de Dinamarca. Os merecimentos d’este poeta como linguista e estylista são muito apreciados dos entendedores. Castilho elogiava com enthusiasmo a Messiada. Este denominado Pindaro da Allemanha falleceu a 13 de Março de 1803.

Pag. 29, lin. 28 Zimmermann.

Allude Castilho ao celebre livro Da Solidão, por Zimmermann; obra de pensador, evangelho para solitarios, consolação para tristes; livro bom e optimo, que é lastima se não reproduza entre nós em traducção. Castilho prezava muito esta obra, lia-a, relia-a, e fazia-a estudar aos filhos.

Pag. 36, lin. 34 e seguintes até ao meio da pag. 37.

Esse admiravel periodo que principia: N’uma palavra: um observador attento, é de eloquencia rara. Diz um critico entendedor o seguinte: Este trecho só um cego o podia escrever; ha ahi uma observação muda, uma attenção intelligente, que só o sexto sentido que possuem os cegos de talento sabia expressar. Percebe-se a contenção do ouvido do corpo, e ainda mais a do ouvido da alma. É uma esplendida manifestação de forma e de pensamento; é a linguagem do silencio das noites; é a intuição das trevas.

Pag. 47, lin. 14. Diario do Governo

Refere-se Castilho ao Diario como propagandista nato de sans doutrinas. É preciso notar que até certo prazo a folha official teve entre nós uma feição litteraria, e não se limitava a simples registo impresso da chancellaria governamental. Era superintendida por um redactor, persona grata ao Ministerio reinante, sujeito illustrado e habil; publicava noticias estrangeiras, artigos de litteratura, polemicas serias, etc. Por isso o nosso poeta dizia que o Diario devia e podia entrar na propaganda de theorias civilisadoras, mais e melhor que outras folhas.

Pag. 63, lin. 4, Ayres de Sá.

Ayres de Sá Nogueira, irmão do celebre Bernardo de Sá, Visconde de Sá da Bandeira, e depois Marquez, e de outros não menos prestadios cidadãos, figurou em Portugal como um dos maiores fautores da Agricultura e das industrias nacionaes. Como Vereador, como Deputado, como particular, empenhou-se toda a vida nos progressos publicos. Foi uma geração notavel esta familia de homens bons, valentes, dedicados, honestos, impetuosos para o bem. Castilho, amigo particular de todos elles, apreciava-os no muito que valiam.

Pag. 91, O Clero e as mulheres.

Se jamais houve doutrina bem orthodoxa, e philosophica, e social, é esta sobre o provimento dos Bispados e das Parochias, que eu expuz e provei, mais pelo gosto de expôr e provar verdades, do que por me persuadir que por ellas se havia de fazer obra. Em tal campo suppunha eu impossivel achar adversarios; esquecia-me dos guerrilheiros.

Um periodico de S. Miguel chamado O Cartista, pôz-me ... supponho que por impio. Um periodico de Lisboa (cuido que se chamava aquillo A União) disse ao publico, sêcca e esparvoadamente, em ar de quem lhe denunciava uma coisa medonha, que eu viera a S. Miguel pôr-me á frente de valentões, para pugnarmos pela eleição popular dos Bispos. Claro está que não respondi, nem pessoa alguma respondeu, á União de Lisboa, nem ao Cartista de S. Miguel.

No Clero, consta-me que não faltaram contra mim murmurações; todavia, não chegaram á suppuração da Imprensa. Com essas devia eu contar, e contava. Se não houvesse clerigos indoutos e ruins, para honrarem com o seu odio a minha proposta, tambem esta, por falta de materia prima, teria deixado de existir.

Pelo que respeita á emancipação politica das mulheres, não só nenhum homem me fez ecco, se não que todas quantas senhoras ouviram o alvitre, fizeram côro contra elle. Esta sua opposição, parecendo provar muito e muito em desabono da minha these, provou muitissimo a favor d’ella; recusam o seu quinhão de liberdade, porque a não apreciam; e não a apreciam, porque ainda a não provaram. O que muito sensatamente se pode portanto jurar contra a innovação, é que veio antes do seu tempo proprio, mil annos; quando menos, bons quinhentos.

Não importa. O que é chymera, algum dia será realidade, como infinitas realidades de hoje algum dia hão-de ser chymeras.

O tempo é um grande Homero, que inventa de continuo; e o Mundo um poema de metamorphoses. O que ás vezes faz com que os poetas terrestres pareçam doidos a quem os ouve, é que no meio dos primeiros cantos antecipam a leitura de algumas estancias pertencentes a cantos ulteriores.

Pag. 125, lin. 20. Assis Rodrigues

Refere-se Castilho ao bom e perito artista Francisco de Assis Rodrigues, Professor e por fim Director da Academia Real das Bellas Artes de Lisboa. Foi discipulo de seu pae, o esculptor Faustino José Rodrigues, amigo e alumno do grande Joaquim Machado de Castro. As relações entre Castilho e Assis Rodrigues começaram na infancia, e conservaram-se sempre cordeaes. Em 1836 o estatuario fez o busto do Poeta.

Pag. 138, lin. 16. Os Fastos de Ovidio.

Projectou Castilho, segundo se vê, dedicar a sua traducção dos Fastos a José do Canto; mas como entre esta data e a publicação da dita versão elle lhe dedicou outras composições, não realisou o que tencionava em 1849.