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Ubirajara: Lenda Tupi

Chapter 15: COLEÇÃO ALVES
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About This Book

A narrativa acompanha um jovem caçador que abandona a taba em busca de um nome de guerra, enfrenta desafios para provar sua valentia e encontra uma formosa caçadora que complica seus intentos. Entre provas individuais, duelos rituaizantes, hospitalidade, servidão amorosa, um combate nupcial e episódios de guerra entre povos rivais, alternam-se cenas íntimas e confrontos coletivos. O relato combina episódios heroicos e de costumes para explorar coragem, honra e laços comunitários num imaginário indígena marcado pela floresta, cerimônias e tradição oral.

Coqueiros.—Ao que disse em nota de Iracema ácerca do indijenismo desta planta acrecentarei a noticia que della nos deixou Guilherme Piso—Historiæ Rerum Naturalium Brasiliæ, Liv. 8o, p. 138.

«Inaiá Guacuiba cujus fructus inaiaguacu brasiliensibus; in congo vocatus Ejaquiambutu et fructus Quetiniga quiambutu: Palma nucifera, lusitanis coqueiro et fructus illius coco; qui tribus suis foraminulis lavam representat. Arbor caudice raro recto, sed plerumque incurvato, quatuor, quinque sex aut etiam septem pedes crasso, triginta, quadraginta et interdum quinquaginta pedes alto.»

É esta mesma palmeira que os Mexicanos chamavam Cogolli. Piso viu em 1640 na cidade Mauricéa (Recife) transplantarem-se pés que tinham mais de 24 anos.

Paj. 28

Cabelos.—Pelos cabelos costumavam distinguirem-se as diversas nações indijenas. Southey—I, cap. 8o. Das mulheres diz Barlœus:—Fœminis coma promissa nisi per luctus tempora aut absens marito.—paj. 36. Traziam as mulheres a madeixa longa, salvo no tempo do luto ou auzencia do marido.

Mais um traço do carater e costumes indijenas. Durante a auzencia do marido, a mulher trazia uma especie de luto, ou mostra de tristeza e saudade, que era simbolizada pelo sacrificio das longas tranças dos cabelos.

Paj. 28

Braços que tu querias para tua cintura.—Metafora da lingua tupí, que exprime o amor; aguaçaba, a amante, literalmente, o que se tem á cintura.

Paj. 31

Escravo.—Acerca das leis do cativeiro entre os indios leiam-se os dois capitulos XV e XVI, que a este assunto consagrou Ives d'Evreux, citado.

Os cativos viviam em plena liberdade na taba de seus senhores, e era muito raro que fujissem, porque se consideravam ligados por um vinculo desde o momento em que o vencedor lhes calcava a mão sobre a espadua. Quebrar esse vinculo, era por elles considerado uma dezhonra.

Até os prizioneiros destinados ao suplicio, preferiam a morte glorioza a se rebaixarem pela fuga no conceito de seus inimigos. «Muitas vezes as mulheres tomavam substancias que provocavam o aborto, não querendo passar pela mizeria de verem trucidada a prole; não raro favoreciam a fuga dos tristes maridos de alguns dias pondo-lhes comida nos bosques e até escapulindo-se com elles. Frequentemente sucedeu isto a prizioneiros portuguezes; os indios brazileiros, porém, julgavam dezhonroza a fuga, nem era facil persuadil-os a tomal-a.» Southey—cap. VII onde cita—Noticias do Brazil, II, 69 e Herrera 4, 3, 13.

Abbeville ainda é mais explicito:—Et bien que estant desliez et libres comme ils sont, ils puissent fuir et se sauver, si est ce que ils ne font jamais encore qu'ils soient assurez de estre tuez et mangez au bout de quelques temps. Car si quelqu'un des prisionniers s'etait eschapé pour retourner em son pays, non seulement il serai tenu pour un couaen eum, c'est a dire poltron et lasche de courage; mais aussi ceux de sa nation mesme ne manqueroient de le tuer avec mille reproches de ce qu'il n'aurait pas eu le courage d'endurer la mort parmi ses ennemis, comme si ses parents et tous ses semblables n'etaient assez puissants por venger sa mort, etc. pag. 290.

As leis da cavalaria no tempo em que ella floreceu em Europa não excediam por certo em pundonor e brios a bizarria dos selvajens brazileiros. Jámais o ponto de honra foi respeitado como entre estes barbaros, que não eram menos galhardos e nobres do que esses outros barbaros, godos e arabes, que fundaram a cavalaria.

Alí está uma pedra de toque para aferir-se o carater do selvajem brazileiro, tão deprimido por cronistas e noveleiros, avidos de inventarem monstruozidades para impinjil-as ao leitor. Nem isso lhes custava; pois a raça invazora buscava justificar suas cruezas rebaixando os aborijenes á condição de féras, que era forçozo montear.

Paj. 32

O suplicio.—Outro ponto em que se assopra a ridicula indignação dos cronistas é ácerca da antropofagia dos selvajens americanos.

Ninguem póde seguramente abster-se de um sentimento de horror ante essa idéa do homem devorado pelo homem. Ao nosso espirito civilizado, ella repugna não só á moral, como ao decoro que deve revestir os costumes de uma sociedade cristã.

Mas antes de tudo cumpre investigar a causa que produziu entre algumas, não entre todas as nações indijenas, o costume da antropofagia.

Disso é que não curaram os cronistas. Alguns atribuem o costume á ferocidade, que transformava os selvajens em verdadeiros carniceiros, e tornava-os como a tigres sedentos de sangue. A ser assim não faziam mais do que reproduzir os costumes citas, que sugavam o sangue do inimigo ferido,—quem primum interemerunt, ipsis é vulneribus ebibere. Pomponius Mœla. Descrip. da Terra.—Liv. 2o cap. 1o.

Outros lançam a antropofajia dos americanos á conta da gula, pintando-os igual á horda bretã das Gallias, os Aticotes, dos quais diz S. Jeronimo que se nutriam de carne humana, regalando-se com o ubere das mulheres e a fevera dos pastores. (S. Hieronimo IV.—paj. 201, adv. Jovin.—Liv. 2o.)

O canibalismo americano não era produzido, nem por uma nem por outra dessas cauzas.

É ponto averiguado, pela geral conformidade dos autores mais dignos de credito, que o selvajem americano só devorava o inimigo, vencido e cativo na guerra. Era esse ato um perfeito sacrificio, celebrado com pompa, e precedido por um combate real ou simulado que punha termo á existencia do prizioneiro.

Simão de Vasconcelos, Cronica da companhia, 1 § 49, alude a uma velha que sentia entojos por não ter a mãozinha de um rapaz tapuia para chupar-lhe os ossinhos: e Hans Stade, paj. 4, cap. 43 e seg., conta a historia de dois individuos moqueados pelos tupinambás, e guardados para um banquete.

Não exajeremos, porém, esses fatos izolados, alguns dos quais podem não passar de caraminholas, impinjidas ao pio leitor. Os costumes de um povo não se aferem por acidentes, mas pela pratica uniforme que elle observa em seus atos.

Se os tupís fossem excitados pelo apetite da carne humana, elles aproveitariam os corpos dos inimigos mortos no combate, e que ficavam no campo da batalha. A guerra se tornaria em caçada; e em vez de montear as antas e os veados, os selvajens se devorariam entre si.

Não ha, porém, escritor sério que deixasse noticia de fatos daquella natureza; e não me recordo de nenhum que referisse exemplos de serem devoradas mulheres e meninos; salvo quanto aos ultimos, o filho do prizioneiro de guerra (Not. do Brazil.—II, 69), do que tenho razão para duvidar.

Parece-nos, pois, que a idéa da gula deve ser repelida sem hezitação. Se em algumas tribus ou malocas se propagou o apetite depravado, essa dejeneração foi por ventura devida ao contajio dos Aimorés, cuja invazão é posterior ao descobrimento. Em todo o cazo é uma exceção que não póde preterir o rito da relijião tupica.

Tambem pela contraprova, havemos de excluir a ferocidade, como razão do canibalismo americano.

Se o instinto carniceiro dominasse o tupí, elle se lançaria sobre o inimigo como o cita, ou o sarraceno de que fala Am. Marcellinus, para sugar-lhe o sangue da ferida, e trincar-lhe as carnes ainda vivas e palpitantes.

Mas, ao contrario, vemos que o guerreiro tupí tinha por maior bizarria cativar seu inimigo no combate, e trazel-o prizioneiro, do que matal-o. Chegado á taba, em vez de o torturar dava-lhe por espoza uma das virjens mais formozas, a qual tinha a seu cargo nutril-o e tornar-lhe agradavel o cativeiro.

Releva notar que a idéa da antropofajia já era comum na Europa, antes do descobrimento da America; não só pelas tradições dos barbaros, como pelas crendices da média idade, nas quais figuravam gigantes e bruxas, papões de meninos. Que tema inexgotavel para a imajinação popular não veiu a ser a primeira noticia, senão conjetura, sobre o canibalismo do selvajem brazileiro?

Cronista ha que nesse costume, onde se está revelando a força tradicional de um rito, não enxergou senão o zelo do glotão, que engorda a preza para saboreal-a. Mas essa ridicula supozição nem ao menos se conforma com o teor da vida selvajem, a qual desconhecia a industria da criação.

O selvajem comia a caça como a encontrava no mato, gorda logo depois do inverno, e magra na força da seca. Não se dava ao trabalho de a engordar. Porque motivo se havia de afastar desse uzo ácerca do homem, se o homem fosse para elle uma especie de caça?

E por ventura faria parte do processo da engorda do bipede, o acessorio de uma companheira formoza e na flôr da idade, qual invariavelmente a davam ao prizioneiro?

É obvio que esse uzo tinha outra razão mui diversa. Não se tratava de engordar o prizioneiro, mas de fortalecel-o, para que elle morresse com honra no dia do sacrificio, que devia ser o seu ultimo combate.

Ainda nessa ocazião, os vencedores ostentavam sua gravidade, deixando que o prizioneiro exaltasse o proprio valor e os afrontasse com seu desprezo. Só chegado o momento depois de celebrada a ceremonia, o abatiam com um golpe de tacape.

A ferocidade não se coaduna com a calma e comedimento desse proceder. Póde-se explicar o sacrificio humano dos tupís por um intenso e profundo sentimento de vingança; mas não por sanha brutal.

Ferdinand Saint-Denis (Univers, Brésil, pag. 30) diz com muito criterio:—En accomplissant ces sacrifices, les tupinambás n'obéissaient pas, comme pourraient le croire quelques personnes, à un goût depravé qui leur aurait fait préférer la chair humaine à toutes les autres; ils étaient mus avant tout par un esprit de vengeance que se transmettait de génération en génération, et dont notre civilisation nous empêche de comprendre la violence.

Não era, porém, a vingança a verdadeira razão da antropofajia. O selvajem não comia o corpo do matador de seu pai ou filho, se acontecia matal-o em combate. Abandonava o cadaver no campo, e apenas cortava-lhe a cabeça para espetal-a em um poste á entrada da taba, e arrancava-lhe o dente para troféu.

A vingança, pois, esgotava-se com a morte. O sacrificio humano significava uma gloria insigne rezervada aos guerreiros ilustres ou varões egrejios quando caíam prizioneiros. Para honral-os, os matavam no meio da festa guerreira; e comiam sua carne que devia transmitir-lhes a pujança e valor do heróe inimigo.

Este pensamento resalta dos mesmos pormenores com que os cronistas exajeraram o cruento sacrificio.

Morto o inimigo, não era devorado; antes as mulheres tratavam o corpo e o curavam, moqueando as carnes. Essas eram guardadas; e distribuidas por todas as tribus, incumbindo-se os que tinham vindo assistir á ceremonia, de leval-as ás tabas remotas.

Os restos do inimigo tornavam-se, pois, como uma hostia sagrada que fortalecia os guerreiros; pois ás mulheres e aos mancebos cabia apenas uma tenue porção. Não era a vingança; mas uma especie de comunhão da carne, pela qual se operava a transfuzão do heroismo.

Por isso dizia o prizioneiro:—«Esta carne que vêdes não é minha; porém vossa; ella é feita da carne dos guerreiros que eu sacrifiquei, vossos pais, filhos e parentes. Comei-a; pois comereis vossa propria carne.» Deste modo retribuia o vencido a gloria de que os vencedores o cercavam. O heroismo que lhe reconheciam, elle o referia á sua raça de quem o recebera por igual comunhão.

Algumas nações tinham outra comunhão, inspirada no mesmo pensamento. Era a dos ossos dos projenitores que reduziam a pó, e que bebiam dissolvidos no cauim em festas de comemoração. Este fato, assim como o sacrificio tremendo da mãi, que devia absorver em si o filho que lhe nacera morto, bem mostram que por modo algum naceu do espirito de vingança o chamado canibalismo.

Transportemo-nos agora, não como homens e cristãos, mas como artistas, ao seio das florestas seculares, ás tabas dos povos guerreiros que dominavam a patria selvajem; e quem haverá tão severo que negue a fera nobreza desse barbaro e tremendo sacrificio?

A idéa repugna; mas o banquete selvajem, tem uma grandeza que não se encontra no festim dos Atridas; e está bem lonje de inspirar o horror dessa atrocidade que entretanto não foi desdenhada pela muza classica.

No Brazil é que se tem dezenvolvido da parte de certa gente uma aversão para o elemento indijena de nossa literatura, a ponto de o eliminarem absolutamente. Contra essa extravagante pretenção lavra mais um protesto o presente livro.

Para concluir com este ponto, observaremos que nem todas as nações selvajens eram antropofagas; e que em minha opinião esse costume, bem lonje de ser introduzido pela raça tupí, foi por ella recebido dos Aimorés e outros povos da mesma orijem, que ao tempo do descobrimento apareceram no Brazil.

Paj. 32

Espoza do tumulo.-Este rito selvajem é muito conhecido e dispensa-me de transcrever o que ácerca delle escreveram os cronistas.

Mais uma prova do carater generozo e bizarro do selvajem brazileiro. Lonje de torturarem seu prizioneiro, ao contrario se esforçavam em alegrar-lhes os ultimos dias pelo amor; davam-lhe uma espoza; e tão grande honra era esta que o vencedor a rezervava para sua filha ou irmã virjem; e se não a tinha, para a filha de algum dos principais da taba.

Falam alguns autores da cunhãmembira, como de uma ceremonia em que se devorava o filho que por ventura a espoza do tumulo concebia do prizioneiro morto. Duvido da generalidade desse fato, que me parece adulterado, e seria especial aos tamoios.

Cunhãmembira, dizem esses autores, significa filho da mulher; e daí diz Southey, copiando Lery, tiravam elles uma horrivel consequencia, que era devorarem a criança.

Ora, cunhãmembira significa saído do ventre da mulher. A lingua tupí não tinha outro modo de dezignar a maternidade: taíra—isto é, saído do sangue, diziam do filho ácerca do pai; e membira, diziam do filho ácerca da mãi. Na expressão cunhãmembira não ha senão a antepozição do substantivo cunham (mulher) que os indios suprimiam por superfluo; assim como suprimiam na outra palavra dizendo simplesmente taíra e não aba-taíra saído do sangue do varão.

Se o nome de cunhãmembira indicasse estar a criança destinada ao suplicio, então todos os nacidos da taba se achariam no mesmo cazo, pois todos eram em relação ás mais, membiras ou cunhã membiras.

Ainda mais, se a criança era condenada ao suplicio pela razão de ser do sangue inimigo, parece que o nome a ella dado devia exprimir esse fato importante e derivar-se antes desta fraze: miauçubtaíra—o gerado do sangue do cativo.

A estes filhos dos prizioneiros chamavam os indijenas marabá, gerado da guerra, nome honrozo, que revelava o apreço em que tinham essa prole, saída de um sangue heroico. E tanto assim era que destinavam para conceber essa prole o seio da virjem mais ilustre da taba.

Se os selvajens, que nada praticavam sem uma razão justificativa, só tinham em mira devorar os filhos do cativo, para que dar-lhe uma espoza ilustre? Mais sagazmente procederiam adjudicando-lhe diversas mulheres para terem maior criação a matar.

Está-se conhecendo que o tal banquete não passa de um invento de cronistas, que entenderam as outras palavras dos indios tão bem como a de cunhãmembira que elles diziam significar filho do inimigo.

Cunhãmembira creio eu ser a festa que se fazia pelo parto da mulher; e talvez acontecendo nacer morta a criança, se orijinasse a fabula do sacrificio que então se praticava entre algumas nações de ser a mãi obrigada a absorver em si esse fruto goro de sua fecundidade.

Paj. 33

Guainumbí.—«Persuadem-se os brazilienses haver uma ave, que chamam colibri, a qual leva e traz noticia do outro mundo.» Santa Rita Durão—Notas ao Caramurú.

Tambem chamavam os indios esse passaro, Guaraciaba—cabelos do sol; e Arati, ou Arataguaçú segundo Marcgraff, 197. Quanto ao nome de Guainumbí, ou mais corretamente Guinambí, penso eu que significa o brinco das flôres. Os selvajens tiraram naturalmente essa dezignação do modo por que o colibri tremula, como suspenso á flôr para chupar-lhe o mel, semelhante ao movimento das arrecadas suspensas ás orelhas, e que elles chamavam nambípora.

Paj. 35

Jussara.—«Nas povoações feitas em terra têm muitas nações guerreiras a providencia de as segurarem e munirem com fortes muralhas, não de pedra, mas de estacas do páu duro como pedra. Outros as fabricam de palmeira, que chamam jussara, cujos espinhos são tão grandes e duros, que servem a muitos de agulhas de fazer meias; e as trincheiras feitas de jussara são mais seguras que as mais bem reguladas fortalezas; porque de modo nenhum se podem penetrar e romper senão com fogo por crecerem não só cheias de grandes estrepes ou agudos espinhos, mas tão enlaçadas e enleadas umas com outras que se fazem impenetraveis. (Tezouro descoberto no rio Amazonas, Part. 2a, cap. 1o, no 2o vol. da Rev. do Instituto, paj. 350.)

O nome da palmeira é em tupí jussara, de ju—espinho e ara dezinencia.

Paj. 36

Carbeto.—Assim chamam Ives d'Evreux e Abbeville ao conselho dos velhos entre os selvajens. Este nome deriva-se naturalmente de caraiba, varão ilustre e ipê, logar onde.

Paj. 37

Hospede.—A virtude da hospitalidade era uma das mais veneradas entre os indijenas. Todos os cronistas dão della testemunho; e alguns, como Lery e Ives d'Evreux, descrevem com particularidade o modo liberal e generozo por que os selvajens brazileiros a exerciam.

É certo que não escapou tambem á malevolencia dos cronistas, essa excelencia e nobreza do carater indijena. Gabriel Soares cit. cap. 168 depois de falar do como os tupinambás agazalhavam os hospedes, acrecenta: «e lançam suas contas se vem de bom titulo ou, não; e se é seu contrario, de maravilha escapa que o não matem, etc.» Southey cit. cap. 8o faz coro com essa versão que nos parece suspeita.

É possivel que depois da colonização, os selvajens vitimas das perfidias dos aventureiros relaxassem suas tradições; mas a hospitalidade foi sempre entre elles uma coiza sagrada, como atestam em geral os escritores, que não referem aquella exceção.

Basta refletir sobre o modo por que exerciam os selvajens a hospitalidade para reconhecer que não é admissivel a suspeita de Gabriel Soares. Em verdade, aquelles cuja porta estava aberta sempre ao viajante; que franqueavam o ingresso de sua cabana por tal modo que o estranjeiro nella entrava como senhor, ainda mesmo na auzencia do dono; que sem perguntar o nome de quem chegava nem de onde vinha o agazalhavam com a maior liberalidade; esses que assim acolhiam o hospede, não podiam ocultar a intenção perfida de o matar, no cazo de ser contrario. Ha uma tal contradição entre esse desfecho e as circumstancias precedentes, que não se póde acreditar nelle pelo simples dizer de um cronista, que em muitas outras inexatidões caiu.

Se ha traço nobre do carater selvajem é essa hospitalidade, que o estranjeiro não pedia e sim exijia como um direito sagrado, com esta simples formula—Vim; ao que o dono da cabana respondia—Bem vindo.

O epizodio da deliberação do conselho sobre o nome do estranjeiro está justificado pelo trecho seguinte de Ives d'Evreux, cap. 50.

«Aprés ces paroles il vous dit—Marapé derere? comment t'appelles-tu? quel est ton nom? comme veux-tu que nous t'appellions? Quel nom veux-tu qu'on t'impose? Où faut-il noter que si vous ne vous estes donné et choisi um nom, lequel vous leur dites alors et desormais estes appellé par tout le pays de ce nom, les sauvages du village ou vous demeurez vous en choisiront um pris des choses naturelles, qui sont en leurs pays et ce le plus convenablement qu'il leur sera possible, selon la phisionomie qu'ils verront en votre visage, ou selon les humeurs et façons qu'ils reconnaitront en vous..... Eh bien quel nom donnerons nous a un tel ton compére? Je ne sais, il faut voir; lors chacun dit son opinion et le nom qui rencontre le mieux et est reçu de l'assemblée, est imposé avec son consentement si c'est quelque homme d'honneur.»

Ainda nessa circumstancia se revela a delicadeza da hospitalidade do selvajem.

Paj. 38

Artes da paz.—É ainda de Ives d'Evreux, cap. 18, esta curioza informação. «Je raconterai ici une jolie histoire. Un jour je m'allois visiter le grand Theon, principal des Pierres Vertes Tabaiares: comme je fus en sa loge et que je l'eus demandé, une des ses femmes me conduit soubs une belle arbre qui estoit au bout de sa loge, qui la couvrait du soleil; lá-dessous il avait dressé son mestier pour testre des licts de coton et travaillait après forte soigneusement; je m'étonnai beaucoup de voir ce grand capitaine, vieil colonel de sa nation, ennobli de plusieurs coups de mousquets, s'amuser à faire ce mestier et je ne peus me taire que je ne sçusse la raison espérant apprendre quelque chose de nouveau en ce spectacle si particulier. Je luy fist demander par le truchement qui estoit avec moy, à quelle fin il s'amusait à cela? il me fit response: «Les jeunes gens considérent mes actions et selon que je fais ils font; si je demeurais sur mon lit à me branler et humer le petim, ils ne voudraient faire autre chose; mais quand ils me voient aller au bois, la hache sur l'épaule et la serpe en main, ou qu'ils me voient travailler à faire des licts, ils sont honteux de rien faire, etc.»

Paj. 38

Lançadeira.—Os indijenas tinham um tear que é descrito por Lery, cap. 18. Uzavam tambem de um fuzo comprido e grosso, que as mulheres faziam girar entre os dedos, atirando ao ar, como ainda agora fazem as velhas fiandeiras do sertão.

Paj. 43

Jurandir.—Contração da fraze Ajur-rendipira—o que veiu trazido pela luz.

Paj. 45

Jabotí.—Contou-me o Dr. Coutinho que o jabotí para os indios do Amazonas é o simbolo da gravidade, prudencia e sabedoria, e prometeu-me dar um apologo, em que elles celebram essas virtudes, contando a historia de um jabotí, que venceu na lijeireza ao veado, na força á onça e assim aos mais animais.

Paj. 45

Tetivas.—Os Tetivas habitam nos olhos das palmeiras e de outras arvores: põem-lhes terra e acendem fogo. Humboldt cit., paj. 283.

Paj. 46

Mulheres guerreiras.—Aluzão ás Amazonas cuja existencia é tão controvertida. Eu acredito na sua existencia, embora reconheça que houve exajeração de Orellana.

Não é este o momento de elucidar este ponto da historia, ou antes mitolojia do Brazil selvajem. Proponho-me a fazel-o quando publicar uma lenda que tenho esboçada ácerca do assunto. Nessa ocazião direi o que entendo ácerca da memoria do Dr. Gonçalves Dias, publicada na Revista do Instituto.

Paj. 46

Senhoras de seu corpo.—Metafora tupí. No varão a parte nobre era o sangue; pelo que elle dizia do filho—taíra, o filho do meu sangue; e para indicar a independencia diziam taíguara, que os dicionarios traduzem livre, mas que literalmente significa, senhor do seu sangue.

A mulher que dizia do filho membira—o gerado de meu ventre, devia pela mesma razão uzar de expressão analoga para exprimir sua liberdade, e dizer membijara—senhora de seu ventre, que eu por elegancia traduzo menos literalmente, senhora de seu corpo.

Paj. 47

Pará sem fim.—Par, diz Humboldt cit. paj. 285, é uma radical guaraní e exprime agua. Pará creio eu que significou a grande abundancia de agua, e foi primitivamente empregado para dezignar os lagos e por ventura as vastas inundações do vale do Amazonas. Mais tarde os selvajens acrecentaram-lhe o verbo nhane correr, e disseram pará-nhanhe—donde paranãn para dezignar as grandes massas de agua corrente, isto é, os rios caudalozos.

Os dois maiores rios da America do Sul, o Amazonas e o Prata, ambos se chamavam Paranãn, assim como outros muitos do Brazil. O mesmo radical se encontra já composto em Paraíba, Parnaíba, Paranapanema, etc.

Foi a substituição do p pela analoga m que produziu o nome de Maranhão, ácerca de cuja etimolojia se inventaram tantas extravagancias.

Paj. 48

Guerreiros do mar.—Tradução da palavra tupí caramurú com que os tupinambás da Baía dezignaram Diogo Alvares Correia.

Caramurú é composto de cara, alteração de Pará—mar e moro, gente; homem do mar. Os selvajens acreditavam que as aguas eram habitadas, e daí naceu a lenda da mãi d'agua, que se transmitiu á raça invazora. Nada mais natural do que chamarem ao primeiro homem branco, que lhe apareceu surjindo do oceano, Caramurú—o guerreiro do mar.

Paj. 48

Rezina cheiroza.—É o ambar, que os tupís chamavam Piraoçurepoti, e de que ao tempo do descobrimento abundavam as ribeiras do mar, nas provincias do norte.

Paj. 49

Moças.—É dificil, senão impossivel, determinar atualmente, e pelas informações tão falhas quão malignas dos cronistas, a condição da mulher entre os selvajens.

Do que tenho lido coliji as idéas, a que no texto se alude mui lijeiramente, e a que em outro logar démos maior dezenvolvimento.

Paj. 51

Para servir a Itaquê.—«E quando o principal não é o maior da aldeia dos indios das outras cazas, o que tem mais filhas é o mais rico e estimado e mais honrado de todos, porque são as filhas mui requestadas dos mancebos que as namoram; os quais servem os pais das damas dois e tres anos primeiro que lh'as deem por mulheres e não as dão senão aos que melhor os servem, a quem os namoradores fazem a roça e vão pescar e caçar para os sogros que dezejam de ter, e lhes trazem a lenha do mato, etc.» G. Soares, cit. cap. 152.

Aí está a lenda biblica de Jacob servindo a Labam 7 anos para obter por espoza a Sara. Não consta, porém, que os selvajens uzassem da esperteza do pai de Lia, para descartar-se de uma filha defeituoza; se tal acontecesse entre os tupís, de que ridiculas indignações não se encheriam os cronistas?

Paj. 52

Manatí.—È o peixe-boi, de cujo couro mais forte que o do touro os indios fazem escudos. Anunciam a chuva, saltando acima d'agua. Gumilha—Orenoco ilustrado, paj. 276.

Paj. 52

Biaribí.—Um dos modos porque os indios assavam a caça, e consistia em enterral-a envolta em folhas de banana, e acender em cima o fogo, cujo calor penetrando no chão cozia a carne, concentrando-lhe o sabor.

Moquem era simplesmente o assado envolto em folha e feito sobre a braza; daí vem moqueca de que tirámos os verbos moquear e amoquecar.

Bucan, supõem alguns que seja alteração de moquem; mas eu o considero termo distinto que exprimia apenas a operação de secar a carne ao fumeiro para conserval-a. Neste sentido é que Lery e Ives de Evreux empregam constantemente o termo francez boucaner, derivado da palavra tupí.

Paj. 54

Pela mão da mulher. Refere Gumilla, cap. 45, que estranhando aos indios sobrecarregarem as mulheres com os trabalhos agricolas, elles retorquiram que as mulheres sabem dar fruto, o que não sabem os homens, e por isso na mão dellas as sementes naciam e se multiplicavam.

Paj. 56

Pirijá.—Uma especie de palmeira chamada palmeira real; é espinhoza e tem frutos semelhantes ao pecego. Humboldt cit., paj. 257 e 262.

Paj. 58

Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza, etc.—Arací reprezenta o amor da virjem tupí, segundo o costume tradicional de sua nação, que admitia a comunidade e partilha do amor, como um privilejio do guerreiro ilustre. Ser amada excluzivamente, significava para a mulher selvajem, ser amada por um guerreiro obscuro.

Jandira reprezenta o excluzivismo do amor, que muitas vezes devia lutar com a lei tradicional; porque é um impulso da natureza, a qual não é dado ao homem aniquilar embora muitas vezes a sopite.

Paj. 61

O combate nupcial.—Este rito, de ser a virjem requestada o premio do valor e da corajem, é atestado por grande numero de escritores.

Barlœus, paj. 420:—«Lucta et hastarum concursu decertare gloriosum, finis spectanctium voluptas est, presertim amantium fœmina de cujusque fortitudine et victoria pronuntiat, sic in proximo pignora, pugnandi irritamenta sunt fortitudinis præcones, ciborum administræ.»

Paj. 65

A figura da noiva.—Esta prova de destreza era muito uzada pelos selvajens. Marcgraff descreve a especie de torneio que elles faziam divididos em duas turmas, a ver qual levava mais depressa o seu tóro ao logar destinado para acampamento. Naturalis Historia Brazilia, liv. 8o, cap. 12.

Conclue com estas palavras:-«qui deinceps tempus terunt hastilibus certando, luctando, currendo; quibus certaminibus duæ fæminæ ad id selectœ prœsident et judicant de singulorum virtute et victoribus.

Estes certamens guerreiros, esses jogos de luta, combate e carreira, prezididos por mulheres que julgavam do valor dos campeões e conferiam premio aos vencedores, não cedem em galanteria aos torneios da cavalaria.

Ácerca da prova a que acima nos referimos, escreveu o Dr. Gonçalves Dias—Brazil e Oceania, cap. 10, Revista do Instituto, tom. 30, parte 2a, paj. 153:—Um tóro de barrigudo em um cabo delgado e de facil preensão, semelhante aos soquetes ou massetes de que ainda entre nós se uza em muitas partes para bater a terra das sepulturas, posto que mais poderozo que este, ou um grande pedaço de tronco de palmeira, era colocado no meio do terreiro. Vinha o guerreiro correndo, tomava o tronco, continuava a carreira, saltava fossos, subia elevações, arrojava-se ás vezes ao rio com elle e quem chegava primeiro e levava mais lonje a carga, esse ganhava a palma e a mulher que tinha de ser espozada. Explicou-se esse costume, de que trata Barlœus, Marcgraff e outros, e que ainda conservam algumas tribus do Piauí, pela necessidade que tinha o guerreiro de defender a mulher, e para que em ocazião de perigo a podesse salvar fujindo.»

Paj. 67

O camucim da constancia.—Lê-se no Tezouro do Amazonas, cit. tom. 3 da Revista do Instituto, paj. 169. «O 5o predicado que tambem, como muitas outras nações conservam os Arapiuns, é a prova da valentia quando cazam; é um exame prévio ou o primeiro principio, como se diz nas Universidades, a suas bodas, e uma experiencia ou tentativa de seu valor para mostrarem que posto cazem não é por afeminados, mas por valentes. Ha diversos generos dessa prova de valentia; mas uma mui ordinaria nos indios Arapiuns é encherem uns grandes e compridos cabaços das formigas que chamam saugas (saúvas) grandes e mui bravas; ferram na carne com tanta ou mais valentia que os cães de fila, com proporção á grandeza destes e pequenez daquellas; porque os cães assim vêm a largar; mas as saugas não largam ainda que as matem e antes perderão a cabeça ficando com as troquezes cravadas na carne do que soltarem ellas preza; por isso uzam dellas alguns cirurjiões quando querem cozer alguma cicatriz com segurança, sem uzarem pontos, como adiante dizemos. Cheios, pois, os cabaços de saugas, não só famintas, mas quando estão com fome talvez de dias ... e sobre isso bem enraivadas com sacudidelas, prezentes todos os velhos e graves da missão, sae a terreiro o noivo examinando, destapam-se os cabaços nos quais intrepido mete os braços, a que logo acodem as filas, já para saciar a fome, já para dezabafar a ira, e já para provar e castigar o bacharel, o qual posto que as dôres o façam mudar de côres, torcer a boca, tremer o corpo, levantar as sobrancelhas e arrebentar as lagrimas, tenha paciencia, que se quer, ha de aturar a bucha, emquanto os examinadores já bebendo-lhe á saude e já dando voltas em bailes se vão regalando á sua custa, etc.

Paj. 73

Igapê.—É o nenufar na lingua tupí, de Ig, ipe e potira—flôr d'agua. Os portuguezes corromperam essa palavra transformando-a em aguapé, nome por que é vulgarmente conhecida. Penso eu, porém, que devemos restaurar o nome indijena, até mesmo porque aguapé tem diversa significação em portuguez.

Uma dessas nímféas, a rainha das flôres, a que os indios chamavam milho d'agua, ou a flôr jaçanan, por servir de ninho a essas aves paludais, nace branca e com a luz do sol vai rozeando até se tornar escarlate.

Em uma noticia publicada pelos jornais li que o nome dessa flôr napê jaçanan significa, forno das jaçanans, do que duvido. O genitivo exprimiam os indios com antepozição do nome rejido por esse cazo; assim napê jaçanan significaria jaçanan do forno. Demais nem napê quer dizer forno; nem forno indica a idéa que se pretende de pouzo ou ninho.

Uapê aí é o mesmo igapê com a simples diferença de figurar-se a vogal indijena por u em vez de ig adotada pelo geral dos autores.

Paj. 82

Murinhem.—Palavra composta de morib afavel e nheng falar.—Veja-se a respeito dos cantores, nhengara, o que se disse na nota a paj. 117.

Paj. 86

Paan.—Palavra da lingua Macaulí que significa seta—Creban significa homem alvo; e Agniná, monte.

Paj. 97

Tomou a espoza aos hombros.—Era entre as mulheres selvajens prova de amor, suspenderem-se ás costas daquelles que preferiam, quando as requestavam com cantos e dansas. Assim o atesta Marcgraff cit. «Ubi vespera advenit, coeunt adolescentes in varias cohortes et castra perambulantes cantillant ante tuguria adolescentula autem quæ juvenibus delectantur, produnt et cantillantes atque tripudiantes sequuntur adolescentes et á tergo consistunt eorum quos amant, id enim ipsis amoris testimonium est. Paj. 280

Escaparam-me algumas notas que a intelijencia do leitor suprirá. Todavia rezumirei as de que me recordo neste momento.

Á paj. 44, quando diz Jurandir que conta os anos pelos dedos, quer dizer que não tem mais de vinte, pois tantos são os dedos das mãos e pés.

Á paj. 45, o grande lago que recolheu as aguas do diluvio é o Manoa, em cujas marjens se fabulou o El-Dorado. Manoa em achagua é diluvio, segundo Gumilha, 2.o vol., 7; palavra homologa ao vocabulo tupí amana, que significa chuva.

Á paj. 45, o combate que Jurandir figura entre o mar e o Amazonas é a descrição da pororoca. Elle chama as aguas do mar-guerreiros azues-por causa da côr das vagas, e as aguas do rio-guerreiros vermelhos-porque a corrente do rio é então barrenta.

Á paj. 45, onde se diz que os anos de Guaribú enchiam a corda de sua existencia alude-se ao costume que tinham os selvajens de contar os anos pelos nós que davam em um cordel, outros pelos frutos do colar.

Á paj. 40 faz-se referencia á lenda de Sumê, já muito conhecida. Foi Sumê que ensinou aos tupís a agricultura e os primeiros rudimentos das artes.

Á paj. 54 fala-se de matumbos. São as leivas que se fazem no norte para a plantação da mandioca.

LIVRARIA ALVES

EXTRACTO DO CATALOGO

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