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Ubirajara: Lenda Tupi

Chapter 2: INDICE
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About This Book

A narrativa acompanha um jovem caçador que abandona a taba em busca de um nome de guerra, enfrenta desafios para provar sua valentia e encontra uma formosa caçadora que complica seus intentos. Entre provas individuais, duelos rituaizantes, hospitalidade, servidão amorosa, um combate nupcial e episódios de guerra entre povos rivais, alternam-se cenas íntimas e confrontos coletivos. O relato combina episódios heroicos e de costumes para explorar coragem, honra e laços comunitários num imaginário indígena marcado pela floresta, cerimônias e tradição oral.

The Project Gutenberg eBook of Ubirajara: Lenda Tupi

This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.

Title: Ubirajara: Lenda Tupi

Author: José Martiniano de Alencar

Release date: January 5, 2012 [eBook #38496]
Most recently updated: January 8, 2021

Language: Portuguese

Credits: Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo, Manuela Alves,
Rory OConor and the Online Distributed Proofreading Team
at https://www.pgdp.net

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK UBIRAJARA: LENDA TUPI ***

JOSÉ DE ALENCAR

UBIRAJARA

LENDA TUPI

 

 

FRANCISCO ALVES & C.a


RIO DE JANEIRO
166, Rua do Ouvidor, 166


S. PAULO
65, Rua de S. Bento, 65


BELO HORIZONTE
1055, Rua da Baía, 1055

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

AILLAUD, ALVES & C.a


PARIS
96, Boulevard Montparnasse
(Livraria Aillaud)


AILLAUD, ALVES, BASTOS & C.a


LISBOA
73, Rua Garrett, 75
(Livraria Bertrand)

1911

UBIRAJARA

Composto e impresso na Tipografia JOSÉ BASTOS
Rua da Alegria, 100—Lisboa

INDICE

I—O caçador5
II—O guerreiro15
III—A noiva24
IV—A hospitalidade37
V—Servo do amor51
VI—O combate nupcial61
VII—A guerra74
VIII—A batalha85
IX—União dos arcos92
Notas101

 

UBIRAJARA

I

O CAÇADOR

Pela marjem do grande rio caminha Jaguarê, o joven caçador.

O arco pende-lhe ao hombro, esquecido e inutil. As flechas dormem no coldre da uiraçaba.

Os veados saltam das moitas de ubaia e vêm retouçar na grama, zombando do caçador.

Jaguarê não vê o timido campeiro; seus olhos buscam um inimigo capaz de rezistir-lhe ao braço robusto.

O rujido do jaguar abala a floresta; mas o caçador tambem despreza o jaguar, que já cançou de vencer.

Elle chama-se Jaguarê, o mais feroz jaguar da floresta; os outros fojem espavoridos quando de lonje o presentem.

Não é esse o inimigo que procura, porém outro mais terrivel, para vencel-o em combate de morte e ganhar nome de guerra.

Jaguarê chegou á idade em que o mancebo troca a fama do caçador pela gloria do guerreiro.

Para ser aclamado guerreiro por sua nação é precizo que o joven caçador conquiste esse titulo por uma grande façanha.

Por isso deixou a taba dos seus e a prezença de Jandira, a virjem formoza que lhe guarda o seio de espoza.

Mas o sol tres vezes guiou o passo rapido do caçador através das campinas, e tres vezes como agora deitou-se além nas montanhas da Aratuba, sem mostrar-lhe um inimigo digno de seu valor.

A sombra vai decendo da serra pelo vale e a tristeza cae da fronte sobre a face de Jaguarê.

O joven caçador empunha a lança de duas pontas, feita da roxa craúba, mais rija que o ferro.

Nenhum guerreiro brandiu jámais essa arma terrivel, que sua mão primeiro fabricou.

Lá estaca o joven caçador no meio da campina. Volvendo ao céu o olhar torvo e iracundo, solta ainda uma vez seu grito de guerra.

O bramido rolou pela amplidão da mata e foi morrer lonje nas cavernas da montanha.

Respondeu o ronco da sucurí na madre do rio e o urro do tigre escondido na furna; mas outro grito de guerra não acudiu ao dezafio do caçador.

Jaguarê arremessou a lança, que vibrou nos ares e foi cravar-se além no grosso tronco da emburana.

A copa frondoza ramalhou, como as palmas do coqueiro ao sopro do vento, e o tronco gemeu até á raiz.

O caçador repouza á sombra de sua lança.


Salta uma corça da mata e veloz atravessa a campina.

Mais veloz a persegue gentil caçadora com a seta embebida no arco flexivel.

Ergue-se Jaguarê.

Seu olhar ardente voou, sofrego de encontrar o inimigo que lhe tardava.

Avistando uma mulher, a alegria do mancebo apagou-se no rosto sombrio.

Pela faxa côr de ouro, tecida das penas do tucano, Jaguarê conheceu que era uma filha da valente nação dos Tocantins, senhora do grande rio, cujas marjens elle pizava.

A liga vermelha que cinjia a perna esbelta da estranjeira dizia que nenhum guerreiro jámais possuira a virjem formoza.

A corça veiu cair aos pés de Jaguarê, atravessada pela flecha certeira da joven caçadora que a seguia de perto.

A virjem reconheceu o cocar da nação que na ultima lua chegára aos campos do Taari e da qual os pajés tinham dado noticia.

—Guerreiro araguaia, pois vejo pela pena vermelha de teu cocar que pertences a essa nação valente; se pizas os campos dos Tocantins como hospede, bem vindo sejas; mas se vens como inimigo, foje, para que tua mãi não chore a morte de seu filho e tenha quem a proteja na velhice.

—Virjem dos Tocantins, Jaguarê já soltou seu grito de guerra. Elle piza os campos de teus pais como senhor. Tu és sua prizioneira. Não que vencer a corça timida seja gloria para o caçador; mas tu chamarás o inimigo que elle espera.

—Se o veado te der a sua lijeireza, joven guerreiro, elle não te servirá senão para ver o rasto de meu pé antes que o vento o apague.

A linda caçadora desferiu a corrida pela imensa campina. Após ella se arremessou Jaguarê, que muitas vezes vencera o tapir.

Mas a virjem dos Tocantins corria como a nandú no dezerto, e o caçador conheceu que seu braço nunca a poderia alcançar.

Travou do arco e o brandiu. A seta obedeceu-lhe, pregando no tronco do assaí a faxa que flutuava ao sopro do vento.

—A filha dos Tocantins tem no pé as azas do beija-flôr; mas a seta de Jaguarê vôa como o gavião. Não te assustes, virjem das florestas; tua formozura venceu o impeto de meu braço e apagou a cólera no coração feroz do caçador. Feliz o guerreiro que te possuir.

—Eu sou Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê, pai da grande nação Tocantim. Cem dos melhores guerreiros o servem em sua cabana para merecer que elle o escolha por filho. O mais forte e valente me terá por espoza. Vem comigo, guerreiro araguaia; excede aos outros no trabalho e na constancia, e tu romperás a liga de Arací na proxima lua do amor.

—Não, filha do sol; Jaguarê não deixou a taba de seus pais, onde Jandira lhe guarda o seio de espoza, para ser escravo da virjem. Elle vem combater e ganhar um nome de guerra que encha de orgulho a sua nação. Torna á taba dos Tocantins e dize aos cem guerreiros cativos de teu amor, que Jaguarê, o mais destemido dos caçadores araguaias, os dezafia ao combate.

—Arací vai, pois assim o queres. Se fores vencido, ella guardará tua lembrança, pois nunca seus olhos viram mais belo caçador. Se fores vencedor, será uma alegria para a virjem do sol pertencer ao mais valente dos guerreiros.

A virjem disse e dezapareceu na selva. Os olhos de Jaguarê seguiram o passo lijeiro da formoza caçadora, como o guachimim que rasteja a zabelê.

Quando ella dezapareceu, o joven caçador recostou-se ao tronco da emburana e esperou.


Do outro lado da campina assoma um guerreiro.

Tem na cabeça o canitar das plumas de tucano, e no punho do tacape uma franja das mesmas penas.

É um guerreiro tocantim. De lonje avistou Jaguarê e reconheceu o penacho vermelho dos araguaias.

As duas nações não estão em guerra; mas sem quebra da fé póde um guerreiro cansado do longo repouzo oferecer a outro guerreiro combate leal.

Quando o tocantim armou o arco, Jaguarê já tinha brandido o seu e disparado no ar uma seta, mensajeira do dezafio.

Respondeu o guerreiro disparando tambem uma flecha no ar, para dizer que aceitava o combate.

Então os dois campeões caminharam um para o outro com o passo grave e pararam frente a frente.

—Eu sou Jaguarê, filho de Camacan, chefe da valente nação dos araguaias, que vem de lonje em busca da terra de seus pais. Minha fama corre as tabas e tu já deves conhecer o maior caçador das florestas. Mas Jaguarê despreza a fama de caçador; elle quer um nome de guerra, que diga ás nações a força de seu braço e faça tremer aos mais bravos. Se tua nação te aclamou forte entre os fortes, prepara-te para morrer; se não, passa teu caminho, guerreiro vil, para que o sangue do fraco não manche o tacape virjem de Jaguarê.

—O caraiba guiou teu passo ao encontro de Pojucan, o matador de gente, guerreiro chefe da terrivel nação tocantim, que enche de terror as outras nações. Ha tres luas, desde que fujiram espavoridos os barbaros Tapuias, que Pojucan não combate; e seu tacape tem fome do inimigo. Tu não és digno dos golpes de um guerreiro chefe; mas Pojucan se compadece de tua mocidade e consente em combater comtigo. Terás a gloria de ser morto pelo mais valente guerreiro tocantim. Os cantores de meus feitos lembrarão teu nome; e todos os mancebos de tua nação invejarão tua sorte.

—Jaguarê agradece a Tupan que te fez um grande guerreiro e o chefe mais feroz da terrivel nação tocantim, Pojucan, matador de gente. A tua morte será a primeira façanha do caçador araguaia e lhe dará um nome de guerra que se torne o espanto dos seus e o terror das outras nações.

Os dois campeões recuaram passo a passo até que se acharam a um tiro de arco.

Então soltaram o grito de guerra e se arremessaram um contra outro brandindo o tacape.


Os tacapes toparam no ar e os dois guerreiros rodaram como as torrentes impetuozas no remoinho da Itaoca.

Dez vezes as clavas bateram, e dez vezes volveram para bater de novo.

Os animais que passavam na floresta fujiram espavoridos, como se a borrasca ribombasse no céu.

Ainda uma vez encontraram-se os dois tacapes e voaram em lascas pelos ares.

—O ubiratan é forte; mas ha outro ubiratan que lhe reziste. Como o braço de Pojucan é que não ha outro braço. Já viste, joven caçador, o veado nas garras da giboia? Assim vais morrer.

—Se tu fosses a cascavel que sómente sabe morder, Jaguarê te esmagaria a cabeça com o pé e seguiria o seu caminho. Mas tu és a giboia feroz; e Jaguarê gosta de estrangular a giboia. Não morrerás pelo pé, mas pela mão do caçador. Lança teu bote, guerreiro tocantim.

Pojucan estendeu os braços e estreitou os rins de Jaguarê, que por sua vez cinjiu os lombos do guerreiro.

Cada um dos campeões pôz na luta todas as suas forças, bastantes para arrancar o tronco mais robusto da mata.

Ambos, porém, ficaram imoveis. Eram dois jatobás que naceram juntos e entrelaçaram os galhos ligando-se no mesmo tronco.

Nada os desprende; nada os abala. O tufão passa bramindo sem ajital-os; e elles permanecem quedos pelo volver dos tempos.

Um pajé que passou na orla da mata viu os lutadores e esconjurou-os, pensando que eram as almas de dois guerreiros prezos no abraço da morte.

Já a sombra se desdobrava pelo vale fóra e o sol despedia-se dos cimos dos montes, sem que os campeões se movessem.

Por fim afrouxaram os braços e cada lutador recuou para contemplar seu adversario. Nenhum mostrava no rosto sombra de fadiga.

Conheceram que podiam lutar corpo a corpo, a noite inteira, sem que um prostrasse o outro.

—Tu és igual na valentia e na força ao guerreiro chefe da nação tocantim. Mas Pojucan não consente que haja na terra quem rezista a seu braço. É precizo que tu morras, Jaguarê, para que elle seja o primeiro dos guerreiros que o sol alumia.

—Pojucan, matador de gente, guerreiro feroz da nação tocantim, Jaguarê deixou-te viver até este momento para saber se tu eras digno de dar-lhe um nome de guerra. Agora que te conhece como o primeiro dos guerreiros que existiram até este momento, elle quer que tua derrota seja a sua primeira façanha.

Disse, e, arrancando do tronco da emburana a lança de duas pontas, caminhou outra vez para Pojucan.

—Esta arma que tu vês é a lança de duas pontas. Jaguarê fabricou-a do rijo galho da craúba, endurecido pelo fogo. Sua mão foi a primeira que a arremessou e teu corpo é o primeiro cujo sangue ella vai beber. Empunha a lança de duas pontas, guerreiro chefe, e ataca Jaguarê para receberes a morte dos valentes.


Pojucan repeliu a lança que o joven caçador lhe aprezentára.

—Jámais no combate um guerreiro tocantim atacará seu adversario dezarmado; nem Pojucan preciza da lança. Ataca tu, Jaguarê, que não tens confiança em teu braço; o de Pojucan basta para te prostrar.

—O orgulho te cega, guerreiro chefe. A lança conhece Jaguarê que a inventou e lhe obedece como o arpão á corda do pescador. Aperta-a bem em tua mão robusta e Jaguarê estará duas vezes mais armado do que tu, que não sabes manejal-a.

O chefe tocantim cruzou os braços.

—Toma a lança, Pojucan, se não queres que te chame covarde; pois tu sabes que Jaguarê não te matará dezarmado, mas te abandonará como indigno de combater com o filho do maior guerreiro araguaia, o grande Camacan.

O chefe tocantim arrojou-se contra Jaguarê que lhe travou dos pulsos e outra vez os dois campeões ficaram imoveis.

A noite veiu achal-os na mesma pozição. Tres vezes cessaram a luta, e de novo a travaram. Mas afinal se convenceram que nenhum derrubaria o outro.

Então Pojucan disse:

—Guerreiro araguaia, é precizo acabar o combate. A terra não chega para dois guerreiros como nós. Finca no chão a lança e caminhemos até á marjem do rio. Aquelle que primeiro chegar, será o senhor da lança e da vida do outro.

Assim fizeram os dois campeões. Chegados á marjem do rio, dispararam a corrida. Ao mesmo tempo a mão de ambos tocou a haste da lança; mas Jaguarê, arremessado pelo impeto da desfilada, não pôde arrancar a arma que ficou na mão de Pojucan.


O guerreiro chefe enrista desdenhozamente a lança e caminha para Jaguarê. Não vai como o guerreiro que marcha ao combate, mas como o matador que se prepara para imolar a vitima.

—Guerreiro chefe, Jaguarê não te quer matar como a serpente que ataca o descuidado caçador. Dez vezes já, se quizesse, elle te houvera ferido com tua propria mão.

—Abandona a gloria do guerreiro, que não é para ti, nhengaíba. Pojucan te concederá a vida, e te levará cativo á taba dos tocantins para que tu cantes as suas façanhas na festa dos guerreiros.

—Cativo serás tu, mas não para cantar os feitos dos guerreiros. Tu servirás na taba dos araguaias para ajudar as velhas a varrer a oca.

Arremessou-se Pojucan avante e desfechou o golpe; mas a lança rodára e foi o chefe tocantim quem recebeu no peito a ponta farpada.

Quando o corpo robusto de Pojucan tombava, cravado pelo dardo, Jaguarê de um salto calcou a mão direita sobre o hombro esquerdo do vencido e brandindo a arma sangrenta, soltou o grito do triunfo:

—Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencivel que tem por arma a serpente. Reconhece o teu vencedor, Pojucan, e proclama o primeiro dos guerreiros, pois te venceu a ti, o maior guerreiro que existiu antes delle.

—Se meu valor, que serviu para aumentar a tua fama, merece de ti uma graça, não deixes que Pojucan sofra mais um instante a vergonha de sua derrota.

—Não, chefe tocantim. Tu me acompanharás á taba dos araguaias para narrar meu valor. A fama de Jaguarê preciza de um prizioneiro como o grande Pojucan na festa da vitoria.

—Tu és cruel, guerreiro da lança; mas fica certo que, se tua arma traiçoeira me feriu o peito, o suplicio não vencerá a constancia do varão tocantim que sabe afrontar as iras de Tupan e desprezar a vingança dos araguaias.


II

O GUERREIRO

Retumba a festa na taba dos araguaias.

As fogueiras circulam a vasta ocara e derramam no seio da noite escura as chamas da alegria.

Toda a tarde o trocano reboou chamando os guerreiros das outras tabas á grande taba do chefe.

Era a festa guerreira de Jaguarê, filho de Camacan, o maior chefe dos araguaias.

No fundo da ocara prezide o conselho dos anciãos, que decide da paz ou da guerra, e governa a valente nação.

Os anciãos, sentados no longo giráu, contemplam taciturnos a geração de guerreiros que elles ensinaram a combater, e têm saudades da passada gloria.

Suspenso em frente delles está o grande arco da nação araguaia, ornado nas pontas das penas vermelhas da arara.

É a insignia do chefe dos guerreiros, a qual Camacan, pai de Jaguarê, conquistou na mocidade e ainda a conserva, pois ninguem ouza disputal-a.

Eil-o, o velho chefe, embaixo do arco, que sua mão tantas vezes brandiu na guerra. Em pé, arrimado ao invencivel tacape, elle dirije a festa.

De um e outro lado da vasta ocara, está a multidão dos guerreiros, colocados por sua ordem; primeiro os chefes das tabas; depois os varões; por ultimo os moços guerreiros.

Vêm depois os jovens caçadores que já deixaram a oca materna e estão impacientes de ganhar por suas proezas a honra de serem admitidos entre os guerreiros.

Mas para isso têm de passar pelas provas, e sua juventude não lhes consente ainda a robustez, que tamanho esforço demanda.

Todos invejam a gloria de Jaguarê que hontem era o primeiro entre elles, e hoje ali está disputando a fama aos mais valentes guerreiros.

Por detraz da estacada apinham-se as mulheres, que segundo o rito patrio não podem ser admitidas nas festas guerreiras.

De lonje acompanham silenciozas com os olhos, as velhas aos filhos, as espozas aos seus guerreiros, e as virjens aos noivos.

Exultam quando ouvem celebrar as façanhas dos seus; mas não ouzam murmurar uma palavra.

Entre ellas está Jandira, a doce virjem, cujos negros olhos não se cansam de admirar Jaguarê, seu futuro senhor.

Já lhe tarda o momento de ver aclamar guerreiro ao joven caçador, para ter a felicidade de servil-o como escrava na paz, e acompanhal-o como espoza ao combate.


No centro da ocara ergueu-se Jaguarê.

Defronte delle, Pojucan, no corpo que a ferida não abateu, mostra a grande alma, serena em face dos inimigos.

Camacan troou a inubia para ordenar silencio e o filho começou:

—Guerreiros araguaias, ouvi a minha historia de guerra.

«Depois que Jaguarê sofreu as provas do valor, partiu para conquistar um nome famozo.

«Deixando a taba, viu o falcão negro que despedia o vôo para as aguas sem fim, e Jaguarê disse:

«O falcão negro é o valente guerreiro dos ares; elle será a fama do guerreiro araguaia que atravessará as nuvens e subirá ao céu.

«Então Jaguarê marcou o vôo do falcão negro e seguiu por elle.

«O sol despediu-se e voltou; uma, duas, tres vezes. No ultimo sol Jaguarê encontrou um guerreiro da nação tocantim, senhora do grande rio.

«Guerreiros araguaias, quereis saber qual foi o campeão que Tupan enviou a Jaguarê para dar-lhe o nome de guerra?

«Elle aí está diante de vós.

«É o grande Pojucan, o feroz matador de gente, chefe da tribu mais valente da poderoza nação dos tocantins, senhores do grande rio.

«Vós que o tendes aqui prezente, vêde como é terrivel o seu aspeto, mas só eu que o pelejei conheço o seu valor no combate.

«O tacape em sua mão possante é como o tronco do ubiratan que brotou no rochedo e creceu.

«Jaguarê, que arranca da terra o cedro gigante, não o pôde arrancar de sua mão; e foi obrigado a despedaçal-o.

«Os braços de Pojucan, quando elle os estende na luta, não ha quem os vergue; são dois penedos que saem da terra.

«Seu corpo é a serra que se levanta no vale. Nenhum homem, nem mesmo Camacan, o póde abalar.

«Pojucan era o varão mais forte e o mais valente guerreiro que o sol tinha visto até áquelle momento.

«Foi este, guerreiros araguaias, o heróe que ofereceu combate ao filho de Camacan; e Jaguarê aceitou, porque logo conheceu que havia encontrado um inimigo digno de seu valor.

«Elle vos contempla, guerreiros araguaias. Se alguem duvida da palavra de Jaguarê e da força do guerreiro tocantim, chame-o a combate e saberá quem é Pojucan.»

O chefe tocantim lançou um olhar ameaçador á multidão dos guerreiros; mas nenhum ouzou aceitar o dezafio.


Pojucan alçou a mão em sinal de que dezejava falar; todos escutaram com respeito o heróe, ainda maior na desgraça.

—Guerreiros araguaias, ouvi a voz de Pojucan, vosso inimigo, que afronta as iras dos fortes e despreza a vingança dos fracos.

«Pojucan, guerreiro chefe da grande nação tocantim, jámais encontrou guerreiro que rezistisse á força de seu braço invencivel.

«Mas Tupan, cansado de ouvir celebrar em todas as festas o nome de Pojucan, como vencedor, emprestou sua força a Jaguarê, o maior guerreiro que já pizou a terra.

«Eu que senti o impeto de sua corajem, posso dizer-vos que só o sangue tocantim é capaz de gerar um guerreiro tão poderozo.

«Foi alguma virjem araguaia que vagando pela floresta encontrou Pojucan, e trouxe no seio fecundo a alma do grande guerreiro.

«Seu braço é como o corisco do céu; e a sua força como a tempestade que dece das nuvens.»

Calou-se Pojucan; e Jaguarê continuou o seu canto de guerra:

«Quando a sombra começava a decer da crista da montanha, Pojucan e Jaguarê caminharam um contra o outro.

«Toda a noite combateram. O sol nacendo veiu achal-os ainda na peleja, como os deixára; nem vencidos, nem vencedores.

«Conheceram que eram os dois maiores guerreiros, na fortaleza do corpo, e na destreza das armas.

«Mas nenhum consentia que houvesse na terra outro guerreiro igual; pois ambos queriam ser o primeiro.

«Foi então que o chefe tocantim ganhou na corrida a lança de duas pontas, que Jaguarê havia fabricado.

«Tres vezes seu punho robusto a brandiu, e tres vezes ella escapou-lhe da mão, como a serpente das garras do gavião.

«Mais uma vez o grande guerreiro investiu com o bote armado; e a lança, escrava de Jaguarê, cravou o peito do inimigo.

«Elle caiu, o guerreiro chefe, o grande varão dos tocantins, o valente dos valentes, Pojucan, o feroz matador de gente.

«E Jaguarê brandindo a arma da vitoria bradou:

«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, que venceu o primeiro guerreiro dos guerreiros de Tupan.

«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro terrivel que tem por arma uma serpente.»


O trocano ribombou, derramando lonje pela amplidão dos vales e pelos écos das montanhas a pocema do triunfo.

Os tacapes, vibrados pela mão pujante dos guerreiros, bateram nos largos escudos retinindo.

Mas a voz possante da multidão dos guerreiros cobriu o imenso rumor clamando:

—Tu és Ubirajara, o senhor da lança, o vencedor de Pojucan, o maior guerreiro da nação tocantim.

«Os guerreiros araguaias te recebem por seu irmão nas armas e te aclamam forte entre os fortes.

«Os cantores celebrarão teu nome como os mais famozos da nação araguaia e Camacan terá a gloria de chamar-se pai de Ubirajara, como foi gloria para Jaguarê ser filho de Camacan.»

Quando parou o estrondo da festa e cessou o canto dos guerreiros, avançou Camacan, o grande chefe dos araguaias.

De um salto o ancião alcançou o arco da nação, insignia do chefe na guerra, e caminhou para Ubirajara.

O arco era de ubiratan, grosso como o braço do mais robusto guerreiro; a corda trançada de crautá tinha o corpo do dedo que a brandia.

Os mais possantes varões da nação araguaia a custo empunhavam o grande arco; mas só um tinha força para disparar a seta.

Era Camacan, o chefe dos chefes, que dirijia na guerra os guerreiros araguaias.

Assim falou o ancião:

—Ubirajara, senhor da lança, é tempo de empunhares o grande arco da nação araguaia, que deve estar na mão do mais possante. Camacan o conquistou no dia em que escolheu por espoza Jaçanan, a virjem dos olhos de fogo, em cujo seio te gerou seu primeiro sangue. Ainda hoje, apezar da velhice que lhe mirrou o corpo, nenhum guerreiro ouzaria disputar o grande arco ao velho chefe, que não sofresse logo o castigo de sua audacia. Mas Tupan ordena que o ancião se curve para a terra até dezabar como o tronco carcomido, e que o mancebo se eleve para o céu como a arvore altaneira. Camacan revive em ti; a gloria de ser o maior guerreiro crece com a gloria de ter gerado um guerreiro ainda maior do que elle.


Ubirajara tomou o arco que lhe aprezentava o pai e disse:

—Camacan, tu és o primeiro guerreiro e o maior chefe da nação araguaia. Para a gloria de Jaguarê bastava que elle se mostrasse teu filho no valor como é teu filho no sangue. Mas o grande arco da nação araguaia, Ubirajara não o recebe de ti e de nenhum outro guerreiro, pois o ha de conquistar pela sua pujança.

Disse, e arremessando no meio da ocara o grande arco, bradou:

—O guerreiro que ouze empunhar o grande arco da nação araguaia, venha disputal-o a Ubirajara.

Nenhuma voz se ergueu; nenhum campeão avançou o passo.

O trocano reboou de novo, e no meio da pocema de triunfo, a multidão dos guerreiros proclamou:

—Ubirajara, senhor da lança, tu és o mais forte dos guerreiros araguaias; empunha o arco chefe.

Então Ubirajara levantou o grande arco, e a corda zuniu como o vento na floresta.

Era a primeira seta, mensajeira do chefe, que levava ás nuvens a fama de Ubirajara.

Os cantores exaltaram a gloria dos dois chefes: a do velho Camacan, que trocára a arma do guerreiro pelo bordão do conselho; e a do joven Ubirajara, que na sua mocidade já se mostrava tão grande, como fôra o pai na robustez dos anos.

Pojucan teve o consolo de ouvir seu nome, repetido muitas vezes e louvado a par com o de seu vencedor.

Os cantores celebraram depois os grandes feitos da nação araguaia, desde os tempos remotos em que os projenitores deixaram a grande taba dos Tamoios, seus avós.

Quando os nhengaçáras entoaram o canto do triunfo, vieram as mulheres com vazos cheios do generozo cauim e aprezentaram as taças aos guerreiros.

Jandira suspirou; ella era virjem, e como suas companheiras, não podia aparecer na festa dos guerreiros.

Sentiu não ser já espoza, para ter o orgulho de encher de vinho espumante, por ella fabricado, a taça de seu heróe e senhor.

O guincho agoureiro da inhúma resoava na mata, quando começou a dansa guerreira que durou até perto da alvorada.


III

A NOIVA

Ao raiar da luz no céu, Jandira abriu os lindos olhos negros.

Seu canto foi o primeiro que saudou o nacer do dia e acordou em seu ninho a viuvinha.

A doce filha de Majé saltou da rêde que embalára os sonhos castos da virjem, e despediu-se della como a jaçanan que deixa a moita para habitar o ninho do amor.

A virjem tocantim acreditava ter dormido a ultima noite na cabana paterna, que essa manhã ia trocar pela cabana do espozo.

O joven caçador que a amava, Jaguarê, fôra aclamado guerreiro, e entre todos os guerreiros o chefe da nação.

Como guerreiro elle póde tomar uma espoza; e como chefe pertence-lhe a virjem de sua escolha, entre as mais formozas da taba.

Ainda que a virjem tenha um noivo, ou que o pai a destine a outro, se o chefe a dezeja, a vontade de Tupan é que lhe pertença.

Tupan assim ordena para que os grandes chefes possam gerar de seu sangue os mais belos e valentes guerreiros.

Jaguarê antes de ser aclamado chefe já a tinha escolhido, e Jandira não aceitaria outro noivo senão o joven caçador a quem amava.

Ella o espera. Logo que o sol alumie a terra, Ubirajara, o grande chefe, ha de vir buscal-a.

Então a virjem se despedirá de Majé; e irá armar na cabana de seu guerreiro e senhor a rêde da espoza.

Lijeira e contente corre a banhar-se no rio antes que chegue Ubirajara, para quem purifica seu corpo e se unje com o oleo fragrante do sassafraz.

Ella quer que o destemido guerreiro ache seu amor saborozo como o vinho que espumá na taça, e ferve nas veias.

Tornando á cabana, perfumou de beijoim a larga rêde que tecera dos fios do algodão entrelaçados com as penas do guará.

Essa rêde tinha duas vezes o tamanho de sua rêde de virjem, porque era a rêde do cazamento em que devia receber o espozo.

Depois arrumou no urú a louça que havia fabricado para o serviço do guerreiro, e que devia transportar á sua nova cabana.

Quando terminou todos os preparativos, encostou-se á porta da cabana; seus olhos impacientes chamavam Ubirajara.

Mas o guerreiro não vinha, e o sol já tinha subido além da crista da serra.

A luz do dia derramava a alegria pelos campos; e a alegria que lhe afagára os sonhos da noite fujia agora da alma de Jandira.

Então a filha de Majé partiu em busca do noivo que a esquecera.


No mais escuro da mata vaga o chefe dos araguaias.

Seus olhos fojem á luz do dia e buscam a sombra, onde encontram a imajem que traz na lembrança.

Á noite quando o guerreiro dormia em sua rêde solitaria, Arací, a linda virjem, lhe apareceu em sonho e lhe falou:

—Jaguarê, joven caçador, tu dormes descansado emquanto os guerreiros tocantins se preparam para roubar a virjem de teus amores. Ergue-te e parte, se não queres chegar tarde.

Elle erguera-se para seguil-a; mas a virjem formoza desferiu a corrida veloz através da campina e dezapareceu na floresta.

Neste ponto do sonho o guerreiro acordára.

Uma estrela brilhante listrava o céu, como uma lagrima de fogo, e Ubirajara pensou que era o rasto de Arací, a filha da luz.

A jurití arrolhou docemente na mata e Ubirajara lembrou-se da voz mavioza da virjem do sol.

O guerreiro tornou á rêde, esperando achar ali outra vez o sonho que vizitára sua alma; porém o sono fujira de seus olhos.

Quando raiou a primeira alvorada, Ubirajara saiu da cabana e buscou no mais espesso da mata a sombra propicia á saudade.

Seu passo o guiava sem querer para as bandas do grande rio, onde devia ficar a taba dos tocantins.

É assim que os coqueiros, imoveis na praia, inclinam para o nacente seu verde cocar.

Ubirajara ouviu o rumor de um passo lijeiro através da mata; de lonje conheceu Jandira que o procurava.

A doce virjem achára á porta da cabana o rasto do guerreiro e o seguira através da floresta.

—Que máu sonho aflige Ubirajara, o senhor da lança e o maior dos guerreiros, chefe da grande nação araguaia, para que elle se afaste de sua taba e esqueça a noiva que o espera.

—A tristeza entrou no coração de Ubirajara, que não sabe mais dizer-te palavras de alegria, linda virjem.

—A tristeza é amarga; quando entra no coração do guerreiro, o enche de fel. Mas Jandira fará como sua irmã, a abelha, ella fabricará em seus labios os favos mais doces para seu guerreiro; suas palavras serão os fios de mel que ella derramará na alma do espozo.

—Filha de Majé, doce virjem, ainda não chegou o dia em que Ubirajara escolha uma espoza; nem elle sabe ainda qual o seio que Tupan destinou para gerar o primeiro filho do grande chefe dos araguaias.


O labio de Jandira emudeceu; mas o peito soluçou.

A virjem conheceu que o amor de Ubirajara retirava-se della, e que de todo o perderia se o não defendesse.

Então escondeu a dôr no fundo da alma e chamou o rizo a seus labios, a alegria a seus olhos.

Ella sabia que os guerreiros amam a flôr da formozura, como a folhajem da arvore; e que a tristeza murcha a graça da mais linda virjem.

—Chefe dos araguaias, Ubirajara, não desprezes Jandira que outr'ora escolheste para tua noiva. Se então ella era formoza a teus olhos, mais formoza se fará para merecer teu amor. Tu gostavas de seus cabelos negros que arrastam no chão; ella os entrançará com as plumas vermelhas do guará para que te pareçam mais bonitos. Seus olhos negros que te falavam, ella os cercará de uma listra amarela como os olhos da jaçanan. Sua boca, que ainda não provaste, Jandira a encherá de amor para que bebas nella o contentamento.

Jandira esperou a palavra de Ubirajara; mas os labios mudos do guerreiro não se abriram.

—Teu amor, Ubirajara, ficará em meu seio como a flôr no vale. Jandira te dará muitos filhos e todos dignos de teu valor. Nestes peitos, que te pertencem, ella os nutrirá com seu sangue, não menos guerreiro do que o teu; porque é o sangue de Majé, o maior dos anciãos, depois de Camacan. Seus braços que outr'ora querias para tua cintura, não servirão unicamente para te abraçarem, mas tambem para te servirem. Tua espoza te acompanhará por toda a parte, na taba, como no campo do combate; ella cuidará de tua cabana; aprontará as mais saborozas iguarias para seu guerreiro, e fabricará para elle o vinho, que é a alma da festa.

—Jandira é a mais bela das virjens araguaias. Seu amor fará a ventura de um guerreiro valente. Ubirajara não podia achar para si uma espoza mais fiel, nem para seus filhos outra mãi tão fecunda. Mas a noite deceu em sua alma. Só a estrela do dia póde restituir-lhe a alegria que o abandonou. A filha de Majé merece um guerreiro que tenha olhos para a sua formozura.


Pojucan sentou-se pensativo á porta da cabana.

O semblante, sempre grave, como convém a um chefe, cobre-se de tristeza.

A noite que foje da terra, vencida pelo sol, parece recolher-se na alma do chefe tocantim.

Não é sua ferida que o faz sofrer. O balsamo suave da embaiba sára rapidamente os golpes mais profundos; e os varões tocantins aprendem desde o berço a desprezar a dôr.

É em seu coração de guerreiro, que Pojucan sente as garras do Anhanga.

O revez de ser vencido e cair prizioneiro, elle o suporta como o varão forte que viu prostrados por Aresqui no campo da batalha os mais terriveis guerreiros.

A grandeza do vencedor o consola; resta-lhe ainda a gloria de ter rezistido a um braço, como o de Ubirajara, grande chefe dos araguaias.

Mas elle esperava que depois de haver ornado com sua prezença a festa do triunfo, o vencedor fosse generozo, e lhe concedesse a honra do sacrificio.

É o temor de que Ubirajara lhe recuze uma morte glorioza e o retenha cativo, que nesse momento acabrunha o chefe dos tocantins.

Elle, um guerreiro livre que pizára outr'ora como senhor aquelles campos, reduzido á condição de escravo?

Elle, um varão chefe que tinha na obediencia de seu arco mais de mil guerreiros valentes, obrigado a reconhecer um dono?

Elle, que afrontava a cólera de Tupan, quando o deus irado rujia do céu, curvar-se ao aceno de um homem, fosse embora o mais pujante dos filhos da terra?

Pojucan estremecia quando se lembrava que podia ser condenado a tão grande humilhação.

Em seu terror promovia o passo, com o impeto de fujir para sempre da taba dos araguaias, onde o ameaçava aquella vergonha.

Mas uma força invencivel atava-lhe a vontade. Elle não se pertencia desde o momento em que Ubirajara lhe calcou a mão direita no hombro.

Esse era o sinal da conquista, que prendia o vencido ao vencedor; aquelle que violasse a lei da guerra, perderia para sempre o nobre titulo de guerreiro.

O desprezo do inimigo o acompanharia aos seus campos nativos; e a taba de seus irmãos não se abriria para o fujitivo que houvesse dezhonrado o nome de sua nação.

Por isso na cabana solitaria, Pojucan está mais guardado do que se o cercasse a multidão dos guerreiros araguaias.

Véla elle proprio em si, porque véla em sua fama.

Póde Ubirajara esquecel-o, que na volta o encontrará ali onde o deixou.

Nada o arrancará da cabana; nem a necessidade de buscar o alimento para o corpo.

Bem vinda será a fome, se durar tanto que prostre seu corpo robusto, e o entregue ao seio da terra, onde o guerreiro dorme o sono da gloria.

Além rompe da selva Ubirajara, que se encaminha para a cabana com o passo rapido.

Segue-o de perto Jandira, como a gentil corça acompanha o caçador, que lhe roubou o companheiro.

Descobrindo o chefe dos araguaias, Pojucan encerrou a tristeza dentro de sua alma; e chamou ao rosto a altivez dos grandes guerreiros.

O chefe tocantim não queria que seu vencedor se regozijasse de ter-lhe abatido o animo inflexivel.


Quando Ubirajara se aproximou da cabana, Pojucan tomou-lhe o passo.

—Ubirajara, senhor da lança, grande chefe da nação araguaia, não confessaste tu diante dos anciãos das tabas e de todos os teus guerreiros, que Pojucan era o varão mais forte e o mais terrivel no combate, que o sol tinha visto até o momento de ser vencido por ti?

—Ubirajara o disse. É a voz da nação araguaia.

—Desde que tu cruzaste comigo a seta do dezafio até este momento, Pojucan, guerreiro varão, e chefe de uma taba, na valente nação dos tocantins, mostrou-se pela sua constancia e valor digno do sangue de seus avós?

—Pojucan o disse; e a fama o repete.

—Então porque Ubirajara, o grande chefe dos araguaias, não concede a Pojucan a morte glorioza, que os tocantins jámais recuzaram a um guerreiro valente, e que sómente se nega aos fracos? Já não serviu Pojucan á tua gloria na festa do triunfo? Esperas delle que te obedeça como um escravo? Se aviltas o varão, a quem venceste, humilhas o teu valor que elle exaltava.

O grande chefe araguaia ouviu sem interromper o prizioneiro, e respondeu com gravidade:

—Ubirajara não recuza ao bravo chefe tocantim, seu terrivel inimigo, o suplicio, que não negaria a qualquer guerreiro valente. Elle esperava que tua ferida se fechasse de todo, para que o grande Pojucan possa no dia do ultimo combate sustentar a fama de seu nome, e a gloria de um varão que só foi vencido por Ubirajara.

O grande chefe dos araguaias levou aos labios a inubia de Camacan; a voz do mando reboou pelo vasto ambito da taba.

Apareceram vinte jovens guerreiros, a quem elle ordenou que chamassem a conselho os anciãos.

Depois tornou ao chefe tocantim:

—Os araguaias receberam de seus avós o costume das nações que Tupan creou. Elles destinam ao prizioneiro a mais bela e a mais ilustre de todas as virjens da taba, para que ella conserve o sangue generozo do heróe inimigo e aumente a nobreza e o valor de sua nação.

—É esta tambem a lei, que os guerreiros tocantins observam em suas tabas.

—A mais bela e a mais nobre de todas as virjens araguaias, aquella que se ergue como a palmeira no meio da campina coberta de flôres, é Jandira, a filha de Majé, que tem no seio os doces favos da abelha.

Travando então do pulso de Jandira, que ali ficára preza de sua vista, levou-a ao prizioneiro.

—Recebe-a como espoza do tumulo.

Jandira que ouviu espavorida aquellas palavras, quiz fujir; porém a mão do chefe araguaia a reteve.

—Ubirajara parte, mas elle voltará para assistir a teu suplicio e vibrar-te o ultimo golpe. Pojucan terá a gloria de morrer pela mão do mais valente guerreiro.


Ficaram Jandira e Pojucan em face um do outro.

—Virjem dos araguaias, Tupan te rezervou para espoza do mais terrivel dos inimigos de tua nação. O filho de seu sangue será o mais valente dos guerreiros; tu sentirás orgulho por havel-o gerado em teu seio.

—Pojucan, chefe tocantim, Jandira nunca será tua espoza.

—Não é Ubirajara o chefe de tua nação, e não te destinou elle para servir de noiva do tumulo ao guerreiro que vai morrer no suplicio?

—Ubirajara é o grande chefe da nação araguaia; á sua voz cala-se a palavra dos anciãos; a seu gesto curva-se a fronte dos guerreiros; á sua vontade obedecem as tabas. Mas no amor de Jandira, ninguem manda, nem Tupan. Jandira é noiva de Ubirajara, e se elle não quizer aceital-a, o guanumbí a levará para os campos alegres onde repouzam as virjens que morreram.

—Pojucan não carece do amor de Jandira. Nas tabas dos tocantins a mais bela das virjens se regozijaria de pertencer ao mais valente dos chefes, e de habitar sua rêde. Nas tabas dos araguaias, onde nacem guerreiros como Ubirajara, não faltarão virjens formozas, que dezejem a gloria de ser mãi de um filho de Pojucan.

—Jandira seria a primeira, se não conhecesse Jaguarê, o mais belo dos jovens caçadores, que é hoje Ubirajara, o senhor da lança e chefe dos chefes. Pojucan merece uma espoza que nunca tenha ouvido o canto de outro guerreiro, para dar-lhe um filho digno delle.

—Os ritos de tua nação não punem a noiva que rejeita o prizioneiro?

—Jandira sabe que se sujeita á morte; mas a morte é menos cruel do que o abandono.

—Então foje, virjem dos araguaias, e esconde-te á cólera dos anciãos. Talvez mais tarde Ubirajara se arrependa e te perdôe.

—Jandira parte. Ella te dezeja uma espoza terna e a morte glorioza.

A filha de Majé penetrou na floresta, e afastou-se rapidamente da taba.

Quando já estava muito lonje, sentou-se á sombra de um manacá coberto de flôres e cantou:

—Eu fui Jandira, a linda abelha, que fabricava os favos de cêra para enchel-os de mel saborozo.

«Agora arrancaram-me as minhas azas com que eu voava pela campina colhendo o pó das flôres; e secou a doçura de meu sorrizo.

«O canto que saía de meu seio era como o da patativa ao pôr do sol, quando se recolhe em seu ninho de paina macia.

«Agora eu queria ter no coração uma serpente para morder aquella que me roubou o amor de meu guerreiro.

«Guardei a minha formozura para orgulho do espozo, e inveja dos outros guerreiros.

«Agora eu trocaria a flôr do meu rosto por um aspeto terrivel que infundisse pavor.

«Meus seios mais lindos que os botões do cardo por um peito feroz, e as mãos lijeiras que tecem os fios do algodão pelas garras do jaguar.

«Eu fui Jandira, o manacá viçozo que se vestia de flôres azues e brancas.

«Agora sou como a jussara que perdeu a folha, e só tem espinhos para ferir aquelles que se chegam.»


Os anciãos já estavam reunidos na oca do conselho, quando Ubirajara entrou.

Falou Camacan:

—Ubirajara, senhor da lança, chefe dos chefes, os pais da grande nação araguaia escutam a tua voz.

O grande chefe tres vezes bateu no chão com a ponta do arco e disse:

—Pojucan, o chefe tocantim, pede a morte do combate; elle a merece, porque é um grande guerreiro e um varão ilustre. Ubirajara concedeu-lhe essa honra, como seu vencedor.

—Ubirajara é um inimigo generozo; respondeu Camacan.

Todos os anciãos inclinaram gravemente a cabeça encanecida para exprimirem sua aprovação ás palavras de Camacan.

Proseguiu Ubirajara:

—É tempo de escolher para o prizioneiro uma espoza digna de acompanhar em seus ultimos dias ao heróe inimigo, e de ser mãi do marabá, o filho da guerra.

Todos os abarés dezejavam para si a gloria de oferecer uma filha ao prizioneiro.

—Ubirajara destinou-lhe Jandira, filha de Majé. Ella o merece por sua formozura, e pelo sangue do grande guerreiro que gira em suas veias.

—Ubirajara é um grande chefe, disse Camacan.

Os anciãos aprovaram outra vez com a cabeça; Majé acrecentou:

—O sangue do velho Majé não desmentirá em Jandira a fama da nação araguaia.

—Não! disse Ubirajara e todos os anciãos repetiram: Não!

O grande chefe tornou com a voz pauzada:

—Celebrai a ceremonia da entrega da espoza ao prizioneiro. Ubirajara parte; só estará de volta na proxima lua para assistir ao suplicio de Pojucan. Se na auzencia de Ubirajara cair na taba a flecha, nuncia da guerra, conduzi o trocano ao sitio onde se abraçam os grandes rios, e soltai a voz da nação araguaia. Nesse dia Ubirajara será comvosco.

Os prudentes anciãos, com a cabeça inclinada para melhor ouvir, recebiam as palavras do grande chefe e as guardavam na memoria.

Quando Ubirajara se calou, Camacan repetiu, ainda mais pauzado, as recomendações do filho:

—É esta a vontade de Ubirajara?

—Tu o disseste.

—Os anciãos guardaram a palavra do chefe dos chefes? perguntou ainda Camacan.

—Ella entrou no espirito dos abarés, como a raiz no seio da terra, observou Majé.

—Bem dito, repetiram todos.

Ubirajara saiu do carbeto; após elle os anciãos se retiraram lentamente.


IV

A HOSPITALIDADE

Na entrada do vale ergue-se a grande taba dos tocantins.

É a hora em que as sombras abraçam os troncos das arvores e o sol descansa em meio da carreira.

A floresta emudece, e todos os viventes se abrigam da calma que abraza.

Ubirajara deixa o escuro da mata e caminha para a grande taba dos tocantins.

Quando chegou á distancia do tiro de uma flecha despedida pelo mais robusto guerreiro, tocou a inubia.

O guerreiro de vijia respondeu; e o chefe araguaia, quebrando a seta, alçou a mão direita para mostrar a senha da paz.

Então avançou para a taba; na entrada da caissara que cercava o campo dos tocantins, atirou ao chão a seta partida.

Os guerreiros que tinham acudido ao som da inubia, deixaram passar o estranjeiro sem inquirir donde vinha, nem o que o trouxera.

Era este o costume herdado de seus maiores, que o hospede mandava na taba aonde Tupan o conduzia.

Ubirajara passou entre os guerreiros, e dirijiu-se á cabana mais alta que ficava no centro da ocara.

A figura do tucano, feita de barro pintado, e colocada em cima da porta, dizia que era ali a cabana do grande chefe.

Mas Ubirajara já o sabia; pois antes de penetrar na taba, subira á grimpa do mais alto cedro da floresta para conhecer o sitio onde habitava Arací, a estrela do dia.

A cabana estava dezerta naquelle instante, mas ouvia-se a fala das mulheres que trabalhavam no terreiro.

Ubirajara transpôz o limiar, e levantando a voz disse:

—O estranjeiro chegou.

Acudiram as mulheres, e conduziram Ubirajara á prezença do grande chefe dos tocantins.

Itaquê passava as horas da ardente calma á sombra da frondoza gameleira, que podia abrigar cem guerreiros em baixo de sua rama.

Repouzando dos combates, o formidavel guerreiro não desdenhava as artes da paz em que era tão consumado como nas batalhas.

Assim honrava as fadigas da taba, dando o exemplo do trabalho á familia de que era pai, e a nação de que era chefe.

Nesse momento as mulheres colocadas em duas filas, com as mãos erguidas, urdiam os fios de algodão, passados pelos dedos abertos em fórma de pente.

Itaquê manejava a lançadeira, tão destro como na peleja vibrava o tacape. Sua mão lijeira tramava a teia de uma rêde, que entretecia das penas douradas do galo da serra.

Quando chegou Ubirajara, o grande chefe dos tocantins, depois de ter rematado a urdidura, entregou a lançadeira ao guerreiro Pirajá que estava a seu lado, e veiu ao encontro do hospede.

—O estranjeiro veiu á cabana de Itaquê, grande chefe da nação tocantim, disse Ubirajara.

—Bem vindo é o estranjeiro á cabana de Itaquê, grande chefe da nação tocantim.

Então o tuxava voltou-se para Jacamim, a mãi de seus filhos:

—Jacamim, prepara o cachimbo do grande chefe, para que elle e o estranjeiro troquem a fumaça da hospitalidade.

Os mensajeiros já corriam pela taba, avizando os guerreiros moacaras da vinda do hospede á cabana de Itaquê.

Os moacaras, revestidos de seus ornatos de festa, se encaminharam com o passo grave á oca principal afim de honrar o hospede do grande chefe da nação tocantim.

Ali chegados, cada um dirijiu ao estranjeiro a pergunta da hospitalidade e deu-lhe a boa vinda.


Depois que Itaquê ofereceu a Ubirajara o cachimbo da paz, e com elle trocou a fumaça da hospitalidade, os cantores entoaram a saudação da chegada:

«O hospede é mensajeiro de Tupan. Elle traz a alegria á cabana; e quando parte leva comsigo a fama do guerreiro que teve a fortuna de o acolher.

«Nas tabas por onde passa, e na terra de seus pais, elle conta aos velhos, que depois ensinam aos moços, as proezas dos heróes que viu em seu caminho, e de quem recebeu o abraço da paz.

«O hospede é mensajeiro de Tupan. Elle traz comsigo a sabedoria; na cabana do guerreiro que tem a fortuna de o acolher, todos o escutam com respeito.

«Em suas palavras prudentes, os anciãos da taba aprendem, para ensinar aos moços, os costumes dos outros povos, as façanhas de guerra desconhecidas por elles, e as artes da paz, que o estranjeiro viu em suas viajens.

«O hospede é mensajeiro de Tupan. O primeiro que apareceu na taba dos avós da nação tocantim, foi Sumê, que veiu de onde a terra começa e caminhou para onde a terra acaba.

«Delle aprenderam as nações a plantar a mandioca para fazer a farinha, e a tirar do cajú e do ananaz o generozo cauim, que alegra o coração do guerreiro.

«O hospede é mensajeiro de Tupan. Quando o estranjeiro entra na cabana, o guerreiro que tem a fortuna de o acolher, não sabe se elle é um chefe ilustre ou o grande Sumê que volta de sua viajem.

«O sabio ensina por onde passa os segredos da paz, e o heróe as façanhas da guerra; mas ambos deixam na cabana da hospitalidade a gloria de ter abrigado um grande varão.

«O hospede é mensajeiro de Tupan. Por seu caminho vai deixando a abundancia e a festa; depois do banquete da boa vinda as arvores vergam com os frutos, e a caça não cabe na floresta.

«A cabana que fecha a porta ao hospede, o vento a arranca, o fogo do céu a abraza. O guerreiro que não se alegra com a chegada do hospede, vê murchar ao redor de si a espoza, os filhos, as mulheres e as roças que elle plantou.

«Bem vindo seja o estranjeiro na cabana de Itaquê, o grande chefe da nação tocantim, que teve a gloria de ser escolhido pelo hospede.

«Os guerreiros exultam com a honra de seu chefe, e os cantores te saudam, mensajeiro de Tupan.»

Emquanto na cabana resôa o canto da boa vinda, Jacamim, a espoza de Itaquê, chamou as amantes do marido, suas servas, para ajudal-a a preparar o banquete da hospitalidade.

As servas pressurosas estenderam á sombra da gameleira as alvas esteiras de palmas entrançadas de airis e colocaram sobre ellas os urús cheios de farinha d'agua.

Trouxeram tambem os camocins razos, onde se apinhavam as moquecas envoltas em folha de banana, e peças de carne, assada no biaribí, que ainda fumegava nos pratos feitos de concha de tartaruga.

Depois suspenderam a caça mais volumoza, veados e antas, assim como as igaçabas de cauim, nos ramos inclinados da arvore, em altura que o braço do guerreiro podesse alcançar.

Frutas de varias especies, pencas douradas de banana, cachos rôxos de assaí, os rubros croás, e os fragrantes abacaxis, enchiam o giráu levantado no meio do terreiro.


Jacamim conduzira o hospede á sombra da gameleira, onde o esperava o banquete da chegada.

Ao lado de Ubirajara sentou-se Itaquê e depois os moacaras que tinham vindo para a festa da hospitalidade.

Os guerreiros comeram em silencio. As mulheres dilijentes os serviam, enchendo de vinho de cajú e ananaz as largas combucas, tintas com a pasta do crajurú que dá o mais brilhante carmim.

Quando o hospede, depois de satisfeito o apetite, lavou o rosto e as mãos, Jacamim ordenou ás servas que recolhessem os restos das provizões, e retirou-se com ellas.

Tambem se afastaram os jovens guerreiros que ainda não tinham voz no conselho. Só ficaram sentados com o hospede, Itaquê, e os moacaras senhores das cabanas.

O cachimbo do grande chefe passou de mão em mão e cada ancião bebeu a fumaça da herva de Tupan, que inspira a prudencia no carbeto.

Então disse o chefe:

—Itaquê dezeja dar a seu hospede um nome que lhe agrade, e preciza que o ajude a sabedoria dos anciãos.

A lei da hospitalidade não consentia que se perguntasse o nome ao estranjeiro que chegava, nem que se indagasse de sua nação.

Talvez fosse um inimigo, e o hospede não devia encontrar, na cabana onde se acolhia, senão a paz e a amizade.

O chefe, que tinha a fortuna de receber o viajante, escolhia o nome de que elle devia uzar emquanto permanecia na cabana hospedeira.

Foi Ipê quem primeiro falou:

—Tu chamarás ao hospede Jutaí, porque sua cabeça domina o cocar dos mais fortes guerreiros, como a copa do grande pinheiro aparece por cima da mata.

Disse Tapir:

—Chama ao hospede Boitatá, porque elle tem os olhos da grande serpente de fogo, que vôa como o raio de Tupan.

Os moacaras, cada um por sua vez, falaram; e como a voz começava do mais moço para acabar no mais velho, as ultimas falas eram menos guerreiras e traziam a prudencia da idade.

Assim Caraúba, que era o segundo antes do chefe, disse:

—Itaquê, o hospede é o nuncio da paz. Tu deves chamal-o Jutorib, porque elle trouxe a alegria á tua cabana.

Guaribú, cujos anos enchiam a corda de sua existencia de mais nós, do que tem o velho cipó da floresta, falou por ultimo:

—O viajante é senhor na terra que elle piza como hospede e amigo; e o nome é a honra do varão ilustre, porque narra sua sabedoria. Pergunta ao estranjeiro como elle quer ser chamado na taba dos tocantins.

—Bem dito!

Itaquê, aprovando as palavras prudentes do ancião, perguntou a Ubirajara que nome escolhia; este lhe respondeu:

—Eu sou aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Chama-me Jurandir.

Nesse momento, Arací, a estrela do dia, apareceu por entre as palmeiras, e caminhou para a cabana.

Os mais valentes entre os jovens guerreiros tocantins acompanhavam a formoza caçadora. Eram os servos do amor, que disputavam a beleza da virjem.

Os cantores saudaram de novo o hospede pelo nome que elle escolhera:

—Tu és aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos Jurandir; para que te alegres ouvindo o nome de tua escolha.

«Tu és aquelle que veiu trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos Jurandir; e o nome de tua escolha alegrará o ouvido dos guerreiros.»


De longe Arací viu o estrangeiro, sentado entre os anciãos, como o frondoso jacarandá no meio dos velhos troncos das aroeiras.

A virgem reconheceu logo o caçador araguaia e adivinhou que ele viera á cabana de Itaquê para disputar sua beleza aos guerreiros tocantins.

O coração de Arací encheu-se de alegria. Seus negros cabelos estremeceram de contentamento, como as penas da jaçanan quando presente o formoso inverno.

O estrangeiro não queria ser conhecido; pois deixára o cocar das plumas da arara, que era o ornato guerreiro da sua nação. Mas a imagem do jovem caçador ficára na lembrança da virgem, como fica na terra a verde folhajem, depois da lua das aguas.

A lei da hospitalidade proíbia á virgem revelar o segredo do estranjeiro, só della sabido. Nesse momento foi á sua alma que obedeceu e não ao costume da nação.