Snr. redactor das NOITES DE INSOMNIA.
Conseguiu vossê que eu adormecesse antes de lêr a terceira sentença a favor d'el-rei D. Sebastião. Muito obrigado a vossê e aos tres papas.
Aquelle D. Sebastião que em 1630, com 76 annos de idade, tinha uns filhos, que ninguem depois conheceu, seria causa a eu descrer da authenticidade das sentenças, se não soubesse que santo Isidoro, arcebispo de Sevilha, o prophetisou assim, tal e quejando, com filhos, netos e bisnetos, um dos quaes afianço a vossê que não sou eu.
Palavras de santo Isidoro: Muitos filhos e filhas terá o Encoberto de legitimo matrimonio, e sempre seus descendentes, uns depois dos outros, reinarão pacificamente (não diz o santo onde se passa esta reinação); e o sceptro sagrado do temporal será administrado e regido por elles; e a final, fazendo-se pagens do povo, tornarão do deserto.
Não ha nada mais claro. Os descendentes de D. Sebastião, voltando do deserto, serão pagens do povo. Por «pagens do povo» percebo eu que o vidente de Sevilha queria fallar nos demagogos d'este paiz, nos oradores do Casino, no Guerra Junqueiro, nos redactores do Diario da Tarde, no Eça e no Ortigão, nos satanicos, e nos mais socialistas sobre quem pesam o gladio do Zêzere, os pés do conselheiro Arrobas e o redenho do conselheiro Viale. Os descendentes do Encoberto vem, pelos modos, a ser aquelles. Quanto a virem do deserto, como resa a prophecia, é obvia a interpretação. «Deserto» aqui, entende-se o conteúdo pelo continente. Veja se me percebe. Deserto é o vasio da algibeira. Isto percebe vossê bem. Um homem está no deserto quando não tem no bolso a voz que clama no mesmo. Deserto é estar homem só como succede a toda a pessoa que não tem
Aquillo com que mais se accende o engenho,
como disse um a quem o predilecto dos tres papas mandou dar 15$000 reis por anno em paga de ter perdido um olho em Africa e ter feito os Lusiadas na India.
Já vê vossê que, por este lado, as sentenças dos tres bispos de Roma são invulneraveis. D. Sebastião, com toda a certeza, de quinze em quinze annos, ia até Roma mostrar ao papa que tinha uma perna maior que a outra, um tufo de pello no hombro esquerdo, o joanete no dedo mendinho, e um dente de menos na queixada de baixo. Quando lá foi aos 76 annos, aposto que já não tinha dente nenhum.
Os documentos pontificios que vossê apresentou resistiriam á critica de João Pedro Ribeiro e Theophilo Braga. Este sabio e vossê são os dous homens que n'este seculo tem achado as melhores peças historicas. Vossê achou as sentenças a favor do Encoberto; o doutor Theophilo achou a carta de Ayres Barbosa a André de Rezende. Eu achei a vossês, os dous, dous odres de sciencia em que espero exercitar o meu intellecto como os touros exercitam a força nos ôdres de vento. Creio que está dada a solução do problema historico. Mande-me o premio pelo portador. E quando achar outra cousa, com esse faro de Herder que Deus lhe deu, abra torneio aos talentos, e faça invejas ao Theophilo a vêr se elle descobre agora a resposta de André de Rezende a Ayres Barbosa.
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Entreguei o premio, antes que venha outra carta mais insensata. N'este paiz quem, como Theophilo Braga e eu, achar alguma cousa, está perdido.
O primeiro, é dizer-se que, no governo absoluto, as condecorações, os fóros de fidalguia e os tratamentos eram judiciosamente dados e com muita parcimonia a quem os merecia.
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O segundo, é dizer-se absolutamente que a mudança do regimen politico de 1834 empobreceu de repente os fidalgos, esbulhando-os dos seus rendimentos provindos de privilegios, encargos, commendas, etc.
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Quanto ao primeiro preconceito, ouça-se o depoimento de um notavel fidalgo, que estudou cincoenta annos, e meditou dezesete nas lobregas cavernas da Junqueira. Era D. João José Ansberto de Noronha, conde de S. Lourenço, que morreu em 1804, com 79 annos de idade. No penultimo anno de sua vida, escreveu a sua ultima obra, que ainda não sahiu das gavetas avarentas dos curiosos de manuscriptos, e intitulou-a Apontamentos politicos.
Seja o conde de S. Lourenço quem impugne a arguição injusta que se faz ao governo representativo, doestando-o de perdulario de titulos e nobilitações. Observe-se que o fidalgo escrevia em 1803, e que as ultimas linhas d'este trecho do seu escripto são uma prophecia; que, n'aquelle tempo, a raros espiritos se prefiguravam idéas de liberdade, e menos ainda aos que haviam de ser apeados por ella do pedestal de sete seculos.
Eis a passagem que tem por epigraphe--Dos ennobrecidos:
«Os serviços ordinarios, e por assim dizer materiaes, pagam-se com dinheiro, que se tarifa como qualquer salario, á proporção do trabalho. Os serviços relevantes, isto é, os que são feitos com perigo de vida, com força de engenho, ou com espirito de patriotismo, e de que resultam grandes vantagens ou de facto, ou de exemplo, pagam-se com signaes honorificos, com distincções, e com titulos, porque se julga, que não tendo preço, se não podem remunerar senão com honras. E segue-se d'isto, que a moeda mais preciosa do thesouro do soberano é a faculdade de distinguir e honrar, porque alcança com ella o que não póde comprar com dinheiro. Mas se ha facilidade em conceder honras, se se alcançam sem sacrificios, nem habilidade, n'esse caso todos as querem, muitos as conseguem, e ninguem fica contente; uns porque querem mais, outros porque ainda não tiveram, e outros que as tem por seus justos cabaes, porque se acham confundidos na inundação dos nobres de acaso. As consequencias são, que as distincções deixam de o ser, porque se fazem geraes; que empobrece o thesouro politico do soberano, porque a moeda mais preciosa perde o seu valor, e que se perde o espirito da gloria, porque os individuos vem a achar por fim mais vantagens em buscar conveniencia, do que signaes, que pela sua multiplicidade, e modo por que se alcançaram vieram a ser de estimação incerta.
«Com effeito tem-se vulgarisado as honras, não só á força de concessões avulsas, mas até de tarifas. Na divisão das tres ordens militares deram-se tantos habitos de S. Thiago, que apesar de ser uma ordem tão respeitavel, já ninguem a quer. Concedea-se o fôro de fidalgo a quem no emprestimo real entrasse com porções avultadas, sem embargo de ficar ganhando juros. Concedeu-se o mesmo fôro a quem lavrasse certa porção de sêda para vender. Os officiaes de secretaria, cujo numero tem crescido tanto, tem o habito de Christo no primeiro anno de serviço, e o fôro de escudeiro no decimo. Os officiaes do erario tem o habito de Christo, etc., etc., etc.
«Esta quantidade de tarifas em muito poucos annos reduz os tres milhões de habitantes a tres milhões de nobres: n'este caso a maior distincção, que póde haver, é não ser nobre; e o modo de a conseguir é não servindo o estado de modo nenhum. Parecerá isto um paradoxo, mas a experiencia já vai mostrando que o não é.
«As leis do tratamento já não tem vigor, e a arrogação de senhorias, e excellencias é geral.
«É da maior difficuldade achar gente para trabalhar, e tanto que no anno de 1801 querendo-se expulsar os gallegos em razão da guerra, não se fez porque o intendente geral da policia representou, que se se mandassem embora, não haveria quem servisse a cidade de Lisboa e a do Porto.
«Se um corpo de nação não póde passar sem tomar criados estrangeiros, não para as artes, mas para o serviço ordinario, ou é a nação mais fidalga do mundo, ou a mais paralytica, e em todo o caso a que mais velozmente corre para o systema da igualdade, e que mais velozmente se afasta da monarchia.»
Até aqui o descendente de el-rei D. Fernando no que respeita á prodigalidade das mercês. Agora, pelo que é da pobreza dos fidalgos, cumpre saber que a maioria das casas titulares de primeira plana já principiava a esboroar-se no principio d'este seculo. O golpe da extincção das commendas pouco sangue já encontrou nos corpos dos commendadores. Se ainda no Torneio real de 1795, escripto pelo senhor de Pancas, encontramos trinta e dous fidalgos pompeando as galanices da Asia, indaguemos hoje a paragem dos netos d'esses homens, que eram os primeiros nomes de Portugal. Onde estão os haveres do conde de Aveiras? o grande patrimonio do marquez de Abrantes? de Lavradio? de José Telles da Silva? do marquez de Angeja? do de Ponte de Lima? do conde da Ega? do de Obidos? do marquez de Nisa? do de Penalva? do conde de S. Lourenço? do visconde de Barbacena? do marquez de Tancos? do conde de Sabugal? Estes eram do numero dos trinta e dous fidalgos que resplandeceram nas cavalhadas no anno de 1795 para festejar o nascimento do principe D. Antonio. E dos restantes, exceptuada a casa de Cadaval, com pesar de ss. exc.as, força é declarar que não ha ahi barão moderno que lhes inveje a riqueza.
A santa casa da Misericordia de Lisboa abre-nos o seu livro de creditos, no anno de 1813, e mostra-nos a voragem da parte ainda hypothecavel dos bens d'esses fidalgos que, em nossos dias, vimos inteiramente desbaratados. Entre 1813 e 1833 rodaram vinte annos, e a ladeira que resvalava os dissipadores á voragem era cada vez mais escorregadia. O proprio conde de S. Lourenço, que presentira o naufragio da nobreza, levada a pique pela rajada da liberdade, não educou seus filhos melhormente que os seus iguaes em fidalguia, e desigualissimos em intelligencia. Se elle anteviu a borrasca, devera colher as velas á nau, que se desmantelou, como as outras norteadas por palinuros, ignorantes e cegos.
Na lista dos devedores á Misericordia, encontramos algum raro fidalgo, cuja casa se teve no balanço, e hoje mantém o antigo luzimento. Esse tal achal-o-hemos acostado á restauração liberal de 1833, e quinhoeiro, por tanto, das regalias que auferiram os parciaes do imperador. No entanto, dos que serviram a liberdade, houve d'elles que nem assim lograram reparar as ruinas.
O leitor curioso poderá estremal-os na seguinte lista:
| A casa de Rezende devia á Misericordia de Lisboa com vencimento de juros, no dia 8 de março de 1813 | 9:991$509 |
| A de Ponte de Lima | 1:270$442 |
| A de Abrantes | 8:978$105 |
| A de Tancos | 11:750$000 |
| A de Louriçal | 9:600$000 |
| A de Obidos | 101:490$899[2] |
| A de S. Vicente | 4:000$00 |
| A de Soure | 21:080$698 |
| A de Borba | 1:278$154 |
| A de Pombeiro | 18:508$500 |
| A de Coculim | 9:400$000 |
| A de Loulé | 5:715$494 |
| A de Lavradio | 11:700$000 |
| A de Unhão | 4:655$011 |
| A de Vidigueira | 353$128[3] |
| A de Alorna | 40:665$011 |
| A de Atouguia | 3:989$115 |
| A de S. Miguel | 10:295$565 |
| A de Tavora | 7:289$433[4] |
Seguem-se Antonio Telles da Silva, D. Antonio Soares de Noronha, o conde de Alvor, dos Arcos, de José Felix da Canha, de D. Diniz d'Almeida, de D. Luiz de Portugal da Gama, de D. Rodrigo Xavier Pedro de Sousa, e outros, perfazendo 340:359$700.
O empregado da secretaria da Misericordia, que passou a certidão n'aquelle mesmo anno de 1813, acrescenta de lavra sua: «Alguns d'estes capitaes se consideram perdidos, porque os devedores tem provisões com tempo illimilado, e não possuem bens livres. Ha outros litigiosos e duvidados pelos devedores; de sorte que são muito poucos os que se podem manifestar como liquidos.»
Por onde se conclue que a minguada fortuna dos pobresinhos cahira em honradas mãos! Eu, contra o parecer do escripturario, creio que os fidalgos, menoscabados de insoluveis, pagaram todos com mais ou menos pontualidade; e, se não pagaram, desculpe-se-lhes o começarem a misericordia por si.
Eu sei que os fidalgos do acaso, como acima lhes chama o conde de S. Lourenço, se rejubilam de ter estirado as camadas do seu lodo por cima dos honrosos vestigios dos outros. Ouso, porém, a liberdade de lembrar a suas excellencias que a tradição da raça e as pêas dos vinculos conservaram através dos seculos os nomes historicos; ao passo que estes adventicios afidalgados, á falta do vinculo que os tenha alguns seculos pendurados no esgalho do tronco velho, bem póde ser que se estejam desentranhando em filhos para futuras tripeças.
Se assim fôr, que Deus os faça sapateiros engenhosos, para que a comedia humana não seja de todo em todo ridicula e inutil ás artes.
[2] O palacio d'esta familia foi comprado ha pouco pelo rei, e dado a uma senhora d'esta casa aia do principe.
[3] O fallecido marques de Nisa succedera na posse de duas riquissimas casas, a de Vidigueira e a de Cascaes. O Paul, vastissima propriedade vendida ao capitalista Eugenio de Almeida, havia sido dado por D. João I a João das Regras, ascendente dos senhores de Cascaes. O marques morreu pobre. Deixou dous nobilissimos filhos: um é aprendiz de negociante no Brasil, o outro tem um engenho de fazer cigarros depois de ter tido perto de Paris um restaurante, em que era caixeiro um filho de José Estevão. Ó Vasco da Gama!... Ó Demosthenes lusitano!
[4] Estas quatro ultimas casas estão ementadas na lista como extinctas.
Ha mais de dous seculos que um viajante francez de grande qualidade esteve em Lisboa. Volvidos trinta annos, o filho do companheiro de viagem d'esse incognito senhor mandou imprimir em Hollanda as viagens que seu pai escrevera, e deu este titulo ao livro: Voyages faits en divers temps en Espagne, en Portugal, en Allemagne, en France et ailleurs. Par Monsieur M. **** A Amsterdam, MDCC.
Entraram os viajantes em Lisboa, no dia 18 de maio de 1669. Em sete paginas de oitavo pequeno esgotaram as impressões que Portugal lhes suggeriu; mas não nos detrahiram nem calumniaram. D'essas sete paginas, provavelmente desconhecidas ao commum dos leitores, a substancia é esta:
«Lisboa é muitissimo povoada, pois que todas as nações alli trazem gente, sendo muita a mourisma que lá é escrava, e procede de Guiné. As liteiras são mais que as carroças; mas são magnificas. E, porque a cidade se fórma de outeiros, o que mais se usa são cavallos e mulas. As igrejas são aceadissimas e formosas. Os portuguezes andam armados de espada e punhal.
«São os portuguezes mais ciosos de suas esposas que os hespanhoes. As mulheres sahem de casa menos vezes que as de Madrid: o que faz que lá se diga que ellas vão á igreja tres vezes no anno: baptisar-se, casar-se e enterrar-se.
«É notório que o marido, apenas suspeita do proceder da mulher, trata logo de a esfaquear; d'onde lhes urge a ellas estarem muito de sobreaviso, e haverem-se com grande precate no logro dos maridos, vingando-se assim da escravidão em que vivem.
«Sobre a tarde, fomos vêr o convento da Esperança onde a rainha esteve encerrada seis mezes[5] quando deixou o rei que está na ilha Terceira, a trezentas leguas distante de Lisboa. D. Pedro, seu irmão, governa actualmente, e casou com a cunhada, filha do fallecido principe de Nemours da casa de Saboya. Ella vai ao conselho, e assiste com o marido ás audiencias. D. Pedro não quiz ainda ir ao paço para ser coroado. Vive em sua casa, que foi confiscada ao marquez de Castello Rodrigo, que seguiu o partido de Castella quando Portugal se rebellou. Segundo os tratados, os bens já deviam ter sido restituidos ao marquez; mas até agora nem n'isso pensam. Esta casa está situada á ourela do Tejo, perto do palacio real. Guardam-na vigilantemente trezentas sentinellas vestidas de pardo agaloado de verde. O paço é quadrado, e cheio de mercearias(?): é edificio pouco distincto. Tem dentro uma praça limpamente areada, e um chafariz no centro.
«É ahi a praça dos touros. O paço estava desalfaiado. A capella, rica de azul e ouro, é bellissima. Os armazens dos utensis destinados á marinha de guerra, são ahi ao pé. Navios mercantis tem poucos. Mandam apenas cinco ou seis ao Brazil, e servem-se dos inglezes e hollandezes para importar assucar e outros generos a Lisboa. Ahi perto andam a edificar-se dous salões, em que os mercadores se ajuntam a negociar. Vimos uma igreja que a rainha-mãi fandou, e onde está enterrada[6]. Todo o tecto é de ebano, bem como as columnas de laçarias douradas. Os pavimentos de todas as igrejas de Lisboa são de adobes azulejados com figuras. Ha ahi uma, onde se veem retratadas as cabeças das pessoas condemnadas e queimadas pela inquisição. Presentemente não ha inquisidor geral.
«O palacio onde mora D. Pedro e a rainha é composto de quatro pavilhões pequenos e dous eirados onde aquella princeza vai de tarde tomar ar com as damas. Está ahi sempre o «regimento da armada.» As ante-camaras estão sempre atalaiadas.
«O principe e ella dão audiencia todas as terças feiras. Elle é corpulento, rosto magro e trigueiro. Desde que esteve doente, usa cabelleira. Sahe pouco acompanhado, e dizem ser affavel e cortez. A rainha traja á hespanhola com guarda-infante, com os cabellos soltos pelas costas, encaracolados, e laçados de fitas. Tem uma filha que parece lindissima, cuja aia é a condessa de Añon (Unhão). Segue-a o seu mordomo duque de Cadaval. A rainha tem um anão indio que anda sempre com ella: é tão bem proporcionado que parece uma criança, visto pelas costas; mas pela frente não, que já tem barba. Já tinha sido da rainha-mãi, e goza da fama de engraçado... A rua dos Mercadores é muito bonita. Ha ahi bons acepipes, e confeitos excellentes. A 18 de maio comemos cerejas e damascos já maduros. O que é incommodo é não haver neve, nem as bebidas refrigerantes de Hespanha.»
E nada mais que mereça menção.
A respeito da Lisboa de 1669, que era, pouco menos, a Lisboa de 1754, um anno antes do terremoto, darei alguns pormenores. O que tenho visto impresso não satisfaz a curiosidade. João Baptista de Castro, o author do Mappa de Portugal, conheceu a velha Lisboa, e o que nos disse é tão diminuto que pouco vale. No Panorama e Archivo ha artigos de bons investigadores; mas pouco mais fazem que distender as noticias de Nicolau de Oliveira e outros que viram a Lisboa do seculo XVII.
O inedito, que tenho, ácerca da capital, dá noticias que provam ser escripto em 1754. Não lhe conheço author. Foi homem que, viajando, escrevia uma geographia da Europa alphabeticamente e levava a sua obra na letra L (LIXA, chamada pelos europeus LARACHE), quando, talvez, o terremoto lhe colheu de golpe a vida, ou lhe esfriou o ardor do trabalho.
No proximo numero trasladarei o que me parecer menos sabido.
[5] A mulher de Affonso VI e de Pedro II.
[6] Era a de Corpus-Christi dos carmelitas descalços, fundada no sitio em que Domingos Leite Pereira tentou matar D. João IV. Esta igreja desappareceu no terremoto e incendio de 1755.
Vivia aqui no Porto, ha pouco mais de mez, um homem que, ha vinte annos, atroava o café-Guichard com o trovão da sua voz. Chamava-se Francisco Ferreira Ribeiro Pinto Rangel.
Era liberal como um dos mais egregios romanos que morreram no templo de Diana, á beira de Caio Gracco. Era valente caudilho do povo; e das primeiras cutiladas do sabre dos esquadrões, nos motins anteriores a 1846, tinha elle as cicatrizes na cabeça. Era poeta da escóla antiga de Filinto e Diniz, como se demonstra no seu poema intitalado D. Sebastião. Era versado na lição dos socialistas, cujas doutrinas apregoava nos botequins, com um fogo de convicção, que lhe afusilava através dos oculos, e mettia medo nos peitos de mais fino aço.
Teve um irmão que lhe foi antipoda na esphera politica. As pessoas do tempo de D. Miguel conheceram-o, vivendo faustamente. Chamavam-lhe o escrivão-fidalgo, porque era escrivão e tratava-se á lei da nobreza. Este homem conheci eu chefe de estado-maior do general realista Macdonell. Morreu briosamente, em uma madrugada de janeiro de 1847, ao lado do general, desfechando um par de pistolas de pederneira, cuja escorva a neve d'aquella noite humedecera. O morto deixou dous filhos, e tres ou quatro esbeltas meninas. Parece-me que os vi e conheci na minha mocidade. Ouvi dizer que voltaram ricos do Brazil. Se bem me lembro, já escrevi a necrologia de um, que por signal estava vivo, e nem sequer me agradeceu, com um bilhete de visita, ser eu a unica pessoa de Portugal que lhe ajuntou ao nome esquecido quatro palavras de saudade e dó.
Agora, faço o mesmo ao tio, que morreu ha pouco mais de mez, e ninguem perguntou que pobretão era um que levaram na tumba dos pobres, entre quatro tochas, desde a rua Chã até ao Prado.
Pois era, era aquelle Ferreira Rangel que todos ouviamos e respeitavamos, ó rapazes de ha vinte annos!
A imprensa diária tem olheiros que superintendem em estupros, facadas, roubos e incestos; mas a alçada d'estes espias não chega até ao esquife do defunto sem testamento.
Ferreira Rangel chegou ao cemiterio ao fechar de uma noite orvalhada de dezembro. O coveiro estava prevenido e a postos. Não havia que esperar garganteações de psalmos. A fossa da valla dos pobres estava aberta. Na gleba desaterrada alvejava ainda o craneo e as vertebras cervicaes d'outro pobre. Tresandava o fartum da podridão abafada. Aquillo fez-se depressa. O caixão baqueou, desamparado de alto. Deu uma toada cava na terra fôfa. Os portadores d'aquelle pobre aconchegaram os capuzes das orelhas cortadas do suão, e sahiram de corrida. O coveiro deixou ao relento o caixão, e foi no dia seguinte, aquecido com aguardente, volver sobre as taboas chuviscadas o comoro de terra, que alisou com a pata da enxada.
Depois, o eterno silencio.
Envio os meus sentimentos aos sobrinhos ricos d'este homem, e dispenso-os do bilhete de visita.
Este ministro era Alexandre de Gusmão.
Nasceu no Brazil, em Santos, provincia de S. Paulo, por 1695, e falleceu em Lisboa, em 1753.
Foi cavalleiro professo na ordem de Christo;
Fidalgo da casa real;
Secretario particular de D. João V--o Dissipador;
Conselheiro de capa e espada do conselho ultramarino:
E, quando morreu, parte dos seus haveres, as joias de sua defunta mulher estavam empenhadas, e foram vendidas em hasta publica.
Tenho a triste satisfação de enviar esta novidade aos biographos d'aquelle varão illustre, e nomeadamente aos escriptores brazileiros, os snrs. Pereira da Silva e Fernandes Pinheiro, solicitos averiguadores da accidentada vida do seu conterraneo.
S. exc.as dizem que Alexandre de Gusmão morreu pobre, tendo perdido os bens e dous filhos no incendio de sua casa. Os documentos que, pela primeira vez se escavam no veio inexplorado das secretarias, ajustam-se á opinião d'aquelles notaveis escriptores; mas o ex-secretario de D. João V morreu sem ter conhecido as necessidades dos que se dizem pobres.
Do Livro dos registros, ou Copiador dos officios remettidos do gabinete do duque-regedor ás corregedorias, trasladamos o seguinte:
«Para o corregedor do civel da côrte Francisco Xavier de Mattos Broa. Sua Magestade é servido ordenar que vm.ce, em cumprimento do precatorio que lhe passou o desembargador Antonio de Sousa Bermudes de Torres, como juiz do inventario dos bens de Alexandre de Gusmão, faça logo remetter para o juizo do inventario para n'elle ser vendido um laço, fita de pescoço, e uns brincos de diamantes e rubins que se acham no deposito geral da côrte, a requerimento de Anna Maria do Vencimento, conservando-se no preço d'estas joias a mesma hypotheca e direito que esta credora tem pela penhora que n'elles fez. Deus Guarde a vm.ce Paço 13 de maio de 1755.»
Segue-se, com data do dia anterior, outro officio ao mesmo proposito:
«Para Amador Antonio de Sousa Bermudes de Torres. Sua Magestade deferindo ao requerimento que lhe fez Miguel de Avilez Carneiro foi servido ordenar que o corregedor do civel da côrte remettesse ao juizo do inventario dos bens de Alexandre de Gusmão as joias que se acham no deposito da côrte, com penhora feita por Anna Maria do Vencimento. É o mesmo senhor servido que vm.ce as faça vender em o leilão que se está fazendo dos ditos bens, com a declaração, porém, que o procedido das ditas joias se não confundirá com o preço dos outros bens, ficando no valor d'estes conservada a penhora e hypotheca especial que n'ellas tinha a credora, para se lhe reservar n'esta parte o direito que tiver para a preferencia. Deus Guarde a vm.ce Paço 12 de maio de 1755.»
Os descendentes d'esta snr.a Anna Maria, se a sorte lhes bafejou mais propicia que ao ministro de D. João V, devem estar hoje de posse das joias de Alexandre de Gusmão. Regosijem-se.
Quaes seriam os outros bens leiloados? Uma quinta já eu descobri folheando um grosso volume manuscripto, intitulado: Tombo das herdades de Nossa Senhora da Ajuda, de Val de Figueira, e da Atalaia, sitas no termo da villa de Cabrella, que são do ill.mo e exc.mo conde de Oeiras, feito por ordem de S. M. que Deus guarde. Anno de 1763.
Vejam que cousas eu folheio no intervallo de dous capitulos de romance em que ha meninas louras e mancebos de pupilla ardente a dialogarem á competencia com a calhandra portugueza e o sabiá brazileiro!
Pois d'este tombo a pag. 46 v. consta que uma herdade do valido de D. José partia com a quinta que foi de Alexandre de Gusmão em Val de Figueira.
Quem possue hoje a quinta do privado de D. João V?
Não me recordo onde li que elle tivera boa quinta de recreio no valle de Alcantara, e era convisinha de outra que pertencera ao grande escriptor D. Francisco Manoel de Mello, que lá se finou, mais pobre que Alexandre de Gusmão, um victima da libertinagem de D. João IV, outro victima da ingratidão de D. João V e de seu augusto filho.
Este ministro, irmão do padre Bartholomeu de Gusmão, alcunhado o Voador, foi sempre malquisto dos frades que perseguiram como necromante o inventor dos balões. Tres homens affectos a D. João V foram grandemente satyrisados n'aquelle tempo: o marquez de Gouvêa, D. Martinho Mascarenhas, pai do que depois foi duque de Aveiro, e morreu no patibulo como regicida; frei Gaspar Moscoso, ou da Encarnação, da mesma familia, e Alexandre de Gusmão.
Eis aqui um specimen das satyras:
Costumavam os nossos avós queimar os judeus--(não assevero que os avós de quem isto escreve não fossem tambem queimados). Se os não colhiam ás mãos, confiscavam-lhes os bens. Mas, dado caso que os judeus fugitivos enviassem lá do exilio aos reis ou aos ministros bons alvitres da arte de governar, aceitavam-lhes o favor e praticavam o seu parecer; mas não lhes concediam voltarem ao reino, sem a condição de se deixarem torrar. Isto aconteceu nomeadamente com o famoso Antonio Nunes Ribeiro Sanches, medico portuguez, nascido em Penamacor em 1699, e fallecido em Paris, por 1783. Vivendo 84 annos, grande parte dos quaes curtiu nos invernos da Russia, não precisa exhibir melhores certidões de bom medico. Se se deixa ficar na patria, havia de custar-lhe a resistir á temperatura alta que os frades dominicanos faziam no campo da Lã em obsequio á hygiene da alma.
Antonio Nunes Ribeiro Sanches, conselheiro de estado da imperatriz da Russia, correspondia-se com os estadistas portuguezes, christãos velhos. O marquez de Pombal, ou não quiz, ou apesar da sua omnipotencia, não logrou assegurar repouso na patria ao seu douto oraculo, em paga dos conselhos e projectos de boa administração que o neto de hebreus lhe suggeriu de Paris, e o valido ingrato aproveitou, occultando-lhes a procedencia. A creação do collegio dos nobres, por carta de lei de 7 de março de 1761, havia sido aconselhada por carta de Ribeiro Sanches, datada em Paris, em 19 de novembro de 1759.
Possuo esta carta autographa. Contém 129 paginas em 4.o maior. Não sei se um rarissimo livro intitulado Cartas sobre a educação da mocidade, impresso em Colonia em 1760, é o traslado d'este manuscripto. Não vi ainda exemplar algum. Entre as obras ineditas do illustre medico, nomeadas na biographia que Vicq-d'Azir lhe escreveu e Francisco Manoel do Nascimento traduziu, ha uma intitulada: Plano para a educação de um fidalgo moço. O manuscripto, de qualquer modo precioso, que possuo, deve ser o original de alguma das duas obras.
Dous escriptores portuguezes de subida reputação, ambos ministros de estado honorarios, os snrs. José Silvestre Ribeiro e D. Antonio da Costa, enriqueceram recentemente a litteratura patria, com os seus livros intitulados Historia da instrucção popular em Portugal desde a fundação da monarchia até aos nossos dias, e Historia dos estabelecimentos scientificos, litterarios e artisticos de Portugal nos successivos reinados da monarchia. Os doutissimos authores, com certeza, aproveitariam optimos subsidios da leitura do raro livro de Ribeiro Sanches, se o manuscripto, que tenho, é o rascunho do livro impresso em Colonia, cuja raridade o snr. Innocencio F. da Silva encarece. O senhor conselheiro José Silvestre Ribeiro, quando louva o progresso das letras e artes no reinado de D. José I, recordaria com menção gloriosa o nome obscurecido do medico portuguez, e daria ao marquez de Pombal a parte mediana que lhe cabe no alvidramento da reforma da universidade, do collegio dos nobres, nas escólas militares, e no mais, respeitante aos beneficios que a historia lhe desconta na ferocissima condição.
Ribeiro Sanches, antes de indicar o methodo proficuo na educação dos fidalgos, discorre ácerca da educação antiga, e chegando ao meado do seculo XVI, escreve:
«.... Vimos acima que, desde o anno 1500 até o anno de 1570, existiu o maior luxo que jámais viu Portugal. El-rei D. Manoel introduziu-o na côrte, e foi o primeiro que se vestiu umas vezes á franceza, outras á flamenga[7]. Como não teve guerra na Europa, nem seu filho, nem seu bisneto el-rei D. Sebastião, com as riquezas do Oriente cahiu a fidalguia no maior luxo, e por consequencia n'aquelle total esquecimento da boa educação que tinha ou na paço dos reis antigos ou em casa de seus paes. No tempo d'el-rei D. Pedro, o Justiceiro, tanto que se sabia no paço que tinha nascido algum filho de fidalgo, mandava logo el-rei a sua casa a provisão da moradia ou fôro que deixava em poder da mãi ou da ama que creava o menino, e n'estes tempos se chamavam os reis paes de seus vassallos. Depois, crescendo o numero, se ordenou que sómente se usasse d'esta graça com o primogenito, e d'esta resolução veio a descahir aquelle amor da patria, porque faltou a boa educação que tinham no paço todos os filhos de fidalgos com moradia.
«No tempo d'el-rei D. João II lhe representaram em côrtes que ordenasse se creassem os fidalgos no paço como era costume antigamente: signal certo que se educava alli a primeira mocidade do reino. Já dissemos acima que a educação da nobreza toda se reduzia a fazer o corpo robusto, e fortissimo, o animo ousado, e destemido; além d'aquelle agrado que reinava no galanteio, e serviço das senhoras, não deixavam de instruir o animo com aquelles poucos conhecimentos scientificos que se conheciam: sómente na familia do infante D. Henrique foi esta educação mais consideravel, porque sahiram muitos do paço d'aquelle famoso principe excellentemente instruidos nas mathematicas e boas letras, como foi o grande Albuquerque, e D. João de Castro.»
Discorre o medico ácerca das causas que abastardaram a educação dos fidalgos:
«Mas tanto que os reis tiveram mais que dar que as terras da corôa; tanto que tiveram commendas, governos, e cargos lucrativos, tanto nas conquistas, como no reino, logo os fidalgos começaram a cercar os reis, e ficarem na côrte; porque pela adulação, pelo agrado, e pelas artes dos cortezãos sabiam ganhar as vontades dos reis, não tendo aquellas occasiões forçosas de obrarem acções illustres para serem premiados por ellas. Isto vêmos succedeu no tempo d'el-rei D. Duarte, quando ordenou que todo o fidalgo que não tivesse cargo na côrte que fosse a viver nas suas terras.
«Logo que todos os fidalgos fizeram a sua assistencia na côrte no tempo da paz, logo que seus filhos eram educados em suas casas, já ricas, e poderosas pelas dadivas dos reis em commendas, pensões, governos e cargos, necessariamente se havia de seguir uma educação estragada; a meninice entregue na mão das amas, e de mulheres communs; a puericia entre as mãos dos criados, e dos escravos; até o tempo d'el-rei D. Sebastião poucos sabiam mais que lêr e escrever; porque já a escóla do infante D. Henrique estava acabada; e toda a educação se reduzia a saber os mysterios da fé, porque os seus mestres sendo ecclesiasticos e ignorantes da obrigação de subdito, de filho, e de marido, chegavam á idade da adolescencia com o animo depravado: sem humanidade, porque não conheciam igual; sem subordinação, porque eram educados por escravas, e escravos, ficava aquelle animo possuido da soberba, e vangloria, sem conhecimento da vida civil, nem com a minima idéa do bem commum. Assim degenerou aquella educação do paço, na qual pelo menos aprendiam a obedecer, na mais insolente tyrannia de todos aquelles com quem tratavam.»
E, vindo ao ponto da reforma urgente na educação da nobreza, escreve:
«Parece-me que vistos os notaveis inconvenientes da educação domestica, e das escolas ordinarias, que não fica outro modo para educar a nobreza, e a fidalgia do que aprender em sociedade, ou em collegios: e como não é cousa nova hoje em Europa esta sorte de ensino, com o titulo de corpo de cadetes, ou escóla militar, ou collegio dos nobres, atrevo-me a propôr á minha patria esta sorte de collegios, não sómente pela summa utilidade que tirará d'esta educação a nobreza, mas sobre tudo, o estado, e todo o povo.»
Ahi está o aviso do christão novo, seguido, e executado dous annos depois, quanto á fundação do collegio dos nobres.
Depois, indica o doutor Ribeiro Sanches as sciencias que devem ensinar-se já no collegio, já nas aulas militares. Todas entraram na organisação dos estatutos.
Em um §. intitulado: Em que idade deveriam entrar os educandos na escóla real militar, divaga o insigne medico por considerações a respeito das mães. Transcrevo o que me parece digno de ser lido por ellas:
«Tanto que as riquezas da Africa e do Oriente entraram em Portugal, logo começou a mostrar-se o luxo nos vestidos, comidas, e mais commodidades estrangeiras; começou a esfriar-se o amor das familias, e por ultimo da patria. El-rei D. João III foi o ultimo rei que foi creado com ama nobre, e já seus filhos, nem seu neto el-rei D. Sebastião, tiveram amas, mais que da classe plebêa; indicio certo que as senhoras não creavam já seus filhos, como nos tempos anteriores: introduziu-se este destructivo costume da raça humana, do amor filial, e dos bons costumes; e apesar de tanto sermão, missões, e praticas espirituaes, nenhuma senhora quer sacrificar a sua formosura. Seria loucura persuadir o que ninguem quer abraçar.
«Tem para si estas mães, que não criam, que conservarão por mais tempo a formosura, e que dilatarão a vida com mais vigor e forças, e que perderiam a sua boa constituição creando por dezoito mezes ou dous annos. Mas é engano manifesto, e o contrario se sabe pela experiencia, e pela boa physica.
«A mulher que deu á luz um filho, e que não o cria, em pouco tempo vem a conceber de novo: a gravidez de nove mezes é uma enfermidade, que enfraquece mais o corpo, do que crear aos peitos por anno e meio: e como concebem antes que as partes da geração adquirissem pelo repouso a sua natural consistencia, succede, que estas senhoras abortam mais frequentemente: enfermidade tão consideravel, que muitas ou perdem a vida, ou ficam achacadas; perdendo em poucos annos o idolo da sua belleza, ficando frustradas do seu intento, e expostas a viverem por toda a vida com mil desgostos, e pezares.»
«Até agora os damnos que soffrem as mães. Mas os mais consideraveis e lamentaveis são aquelles que se imprimem no animo das crianças creadas por amas. Se fôramos nascidos para viver nos desertos da Africa, ou nos bosques da America, pouco importava que as amas imprimissem no nosso animo aquellas idéas de terror de feitiços, de feiticeiras, de duendes, de crueldade, e de vingança; mas somos nascidos em sociedade civil, e christã; aquellas idéas que nos dão as amas são destructivas de tudo o que devemos crêr, e obrar: ficam aquellas crianças expostas ao ensino de mulheres ignorantes, supersticiosas; são os primeiros mestres da lingua, dos desejos, dos appetites, e das paixões depravadas: chegou o menino a fallar, já está cercado de duas ou tres mulheres mais ignorantes, mais supersticiosas do que a ama; porque estas são mais velhas, e sabem mais para destruir aquella primeira intelligencia do menino: chega á idade de caminhar, já tem seu mocinho, ordinariamente escravo, e como foram pelas mães creados por taes amas, e velhas, são os terceiros mestres até á idade de seis ou sete annos: e se o mau exemplo do pai e da mãi põem o sello a esta educação, fica o menino embebido n'estes detestaveis principios, que mui difficilmente os melhores mestres podem arrancar aquelles vicios pelo discurso da idade pueril.
«Será impossivel introduzir-se a boa educação na fidalguia portugueza em quanto não houver um collegio, ou recolhimento, quero dizer, uma escóla com clausura para se educarem alli as meninas fidalgas desde a mais tenra idade: porque por ultimo as mães, e o sexo feminino são os primeiros mestres do nosso; todas as primeiras idéas que temos provém da creação que temos das mães, amas, e aias; e se estas forem bem educadas nos conhecimentos da verdadeira religião, da vida civil, e das nossas obrigações, reduzindo todo o ensino d'estas meninas fidalgas á geographia, á historia sagrada, e profana, e ao trabalho de mãos senhoril, que se emprega no risco, no bordar, pintar, e estofar, não perderiam tanto tempo em lêr novellas amorosas, versos, que nem todos são sagrados, e em outros passatempos onde o animo não só se dissipa, mas ás vezes se corrompe; mas o peor d'esta vida assim empregada é que se communica aos filhos, aos irmãos e aos maridos. D'aqui vem, que sendo da mesma nação, da mesma familia, e da mesma casa, estão introduzidas duas sortes de lingua, ou modos de fallar: a conversação que se deve ter com as senhoras, não ha de ser sobre materia grave, séria; estas conversações judiciosas ficam reservadas para algum velho, ou para algum notado de extravagante: e assim succede que ficam as senhoras por toda a vida (ordinariamente) meninas no modo de pensar, e com tão miseraveis principios vem ellas as suas amas, as suas aias, e donas a serem os mestres d'aquelles destinados a servir os reis.
«Não me accuse v. ill.ma que sahi fóra do intento que lhe prometti: achei que tratar da educação que deviam ter as meninas nobres e fidalgas merecia a maior attenção, porque por ultimo vem a ser os primeiros mestres de seus filhos, irmãos, e maridos. V. ill.ma sabe muito melhor do que eu aquelles monumentos que temos na historia romana, e tambem na nossa, de tantas mães que por crearem, e ensinarem seus filhos foram as que salvaram a patria, e a illustraram: houve em Roma muitas Cornelias, como em Portugal muitas Philippas de Vilhena. Mas n'aquelle tempo ainda o luxo, ou a dissolução não se tinha apoderado do animo portuguez, porque as riquezas não eram tão appetecidas. A connexão que tem a educação da mocidade nobre que prometti a v. ill.ma me obriga a ponderar, se não seria mais util para a conservação e augmento da religião catholica transformarem-se tantos conventos de freiras, e das ordens, principalmente militares sem exercicio algum da sua destinação, n'estes estabelecimentos que proponho, tanto para a mocidade nobre masculina, como feminina? Com o exemplo das educandas, ou Filles de St.-Cyr, fundação perto de Versailles, e com o da escóla real militar, se poderiam fundar no reino outros ainda mais vantajosos para a mesma nobreza, e para a conservação e augmento da religião e do reino. Mas espero ainda vêr nos meus dias estabelecimentos semelhantes em tudo, ou em parte que satisfaçam todo o meu desejo.»
Eu tinha vontade de prolongar o traslado; mas a leitora que é mãi, joven e formosa, desdenha os conselhos do medico; a que não é mãi, de certo não percebeu as theorias physiologicas em que se fundamentam as censuras; e o leitor que de certo leu á esposa as paginas impregnadas de maternidade, n'aquelle tom circumspecto de nossos avós patriarchaes, dorme... patriarchalmente.
Boa noite.