[7] Diogo de Paiva de Andrade, o sobrinho, confirma nas soas Memorias ineditas, esta passagem com a seguinte anecdota: «Duarte Galvão, um dos benemeritos varões do seu tempo, foi secretario d'el-rei D. João II, e por elle e seu successor el-rei D. Manoel mandado muitas vezes por embaixador a differentes côrtes da Europa. Encarregado pelo emprego de chronista-mór de ordenar as chronicas dos reis d'este reino, escreveu nove desde D. Affonso Henriques até el-rei D. Fernando, servindo em toda a sua vida com muita aceitação dos seus principes os empregos que lhe confiaram.
«Era já de quasi 80 annos quando o imperador da Ethiopia mandou a Lisboa um embaixador com grandes presentes para el-rei D. Manoel procurando sua amizade e propondo reciprocos interesses; e, querendo el-rei corresponder-lhe, entrou na consideração de quem seria a pessoa que lá mandasse por embaixador. Succedeu depois, estando el-rei em Evora, mandar fazer um gibão de uma fazenda rara que lhe chegára da India; e, no dia em que o vestiu, sahiu a uma sala em que estavam varios fidalgos, a cada um foi mostrando o gibão, que todos gabavam por comprazer a el-rei; e, como fosse um d'elles Duarte Galvão, só este o não lisongeou, dizendo-lhe que os reis de Portugal seus antecessores cuidavam menos em atavios do que em cumprirem com os encargos que Deus impunha aos reis. Seria melhor que não fallasse assim para seu descanço, porque isto decidiu a eleição do embaixador que havia de ir á Ethiopia; e logo el-rei, com palavrosos termos de honra e conceito, nomeou o pobre ancião; mas assentando que morreria no caminho como succedeu na altura da ilha do Camarão em 9 de junho de 1517.»
O snr. Pinheiro Chagas, na sua estimadissima Historia de Portugal, tomo III, pag. 155, relatando vigorosamente a ferocidade de D. João II, escreve:
«Estamos bem longe d'applaudir, com Ruy de Pina e Garcia de Rezende, estas ferocissimas repressões, mas tambem não podemos concordar com o snr. Camillo Castello Branco, que escreve o seguinte a respeito d'el-rei D. João II:
«O real carrasco, a quem infamissimos aduladores da corôa chamaram principe perfeito, surge hediondo diante da posteridade, alçando-se por sobre a nuvem dos incensos, com que thuribularios abjectos cuidavam escondel-o á execração dos vindouros. Raro ha quem se canse em esgaravatar razões d'estado, que contrapesem a ferocidade do filho d'Affonso V. A historia, á volta d'elle, o que encontra é cadaveres, oitenta cadaveres de homens illustres, uns estrangulados, outros decapitados, estes mortos a punhal, aquelles a peçonha. Oitenta, confessou elle o numero, quando a morte lhe acenava de perto, e se lhe desabafava a consciencia, supplicando ao papa contritamente o perdão dos seus peccados.
«Os lances capitaes de tão má alma contou-os a historia á tragedia. O theatro portuguez já se enlutou com os quadros de canibalismo, trazidos á rampa e ao grande brilho dos lustres, para que o povo visse justificada a razão que teve a villanagem dos chronistas d'alligarem ao assassino do duque de Vizeu o antonomastico epitheto de principe perfeito.»
«O illustre escriptor é demasiadamente severo com o grande rei a quem Portugal deve tanto. Que a energia de D. João II degenerava em ferocidade, é incontestavel, e não pretendemos absolvel-o dos crimes que pesam sobre a sua memoria. Mas qual dos grandes homens, que figuram na historia, se apresenta immaculado no tribunal da posteridade? No assassinio do duque de Vizeu achamos, devemos confessal-o, em attenção aos costumes da época, D. João II, menos hediondo do que no caso do duque de Bragança. É uma luta a todo a transe entre D. João II e a nobreza, e el-rei, que teve por tantas vezes a morte diante dos olhos e que sempre a affrontou sem empallidecer, pôde, quando se lhe offereceu ensejo, antecipar-se aos seus adversarios, e voltar contra elles o punhal com que o ameaçavam. O duque de Vizeu foi ferido pela catastrophe que trazia pendente sobre a cabeça do seu adversario; foi vencido na batalha. Se D. João II abusou da victoria, e não soube, como nunca soubera, perdoar, culpemos d'isso a imperfeição humana. Perdoar! Parece que no mundo só Christo soube cumprir essa maxima sublime, que debalde prégou na sua santa doutrina. A civilisação, abrandando os costumes e modificando as paixões, tem introduzido felizmente, no espirito do homem, o horror do sangue derramado, mas, nos fins do seculo XV, ainda a vida das creaturas da nossa especie estava longe de ter o caracter inviolavel que hoje possue. Por tanto D. João II, aceitando de rosto descoberto a batalha, e vibrando o punhal como vibraria a espada, tem uma certa grandeza selvagem, que não desculpa mas attenua o crime.»
Até aqui o destro escriptor. Agora, a historia que os reis e as camarilhas não deixavam estampar.
O punhal que D. João II vibrou ao peito do duque de Vizeu foi acto cobarde que não póde ser attenuado por grandeza selvagem. O rei apunhalava o adversario em quanto os braços possantes de um valente alcaide prendiam pelas costas a victima desarmada.
Nas Memorias ineditas de Diogo de Paiva e Andrade, author do Casamento perfeito, faz-se menção do conflicto, e encarece-se a bravura do coadjuctor de D. João II com uma anecdota bastante significativa da coragem do fidalgo e da cobardia do rei.
Diz assim:
«D. Pedro de Eça, alcaide-mór de Moura, foi um fidalgo a quem a natureza dotou de muito animo e grandes forças, e por isto el-rei D. João II o escolheu, quando quiz matar a D. Diogo, duque de Vizeu, a quem abraçou por detraz. Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus, foram-se dous irmãos do morto queixarem a el-rei e disseram-lhe que D. Pedro lh'o mandára; pelo que o mandou vir á côrte, e esteve n'ella mais de dous annos, posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro disse a el-rei que, pois sua alteza não queria crêr que elle não tinha culpa na morte do homem, e os que o accusavam eram dous, que lhe fizesse mercê de lhe mandar dar campo com ambos para assim se purificar; do que, agastando-se el-rei, lhe disse que tomára elle ser um dos dous. E D. Pedro lhe respondeu: «não fôra vossa alteza meu rei, e fosse com elles o terceiro.»
Não temos o desvanecimento de sobre-excitar contra D. João II o animo do nosso talentoso amigo; todavia, insinuamos-lhe a suspeita de que o homem não era capaz de matar outro sem lh'o agarrarem pelas costas, tendo ainda por cautela mais dous bravos que se chamavam Diogo de Azambuja e Lopo Mendes do Rio.
O poeta satyrico Antonio Lobo de Carvalho, fallecido em Lisboa aos 26 de outubro de 1787, nasceu em Guimarães, não se sabe precisamente quando. Era filho illegitimo de fidalgo, e tinha em Villa Real parentes maternos que o educaram nas letras, consoante os frades da terra podiam ministrar-lh'as. O bom que os frades tinham não o aprendeu o rapaz. Era poeta de lingua farpada, da escóla de Gregorio de Mattos Guerra, o maior e mais sujo talento que deram as plagas de Santa Cruz, desde a cidade de Jequitinhonha até á cidade de Pindamonhamgaba.
Os cavalheiros villa-realenses andavam mordidos pelas vespas das suas trovas. Lobo não perdia lanço de os satyrisar.
Em uma procissão de Corpus-Christi, o senado da terra ordenou que S. Jorge fosse em andor e não em cavallo. A razão d'este descavalgamento não é bem liquida. Ha muitos mysterios que nunca se hão de dilucidar, mormente em cousas de cavalgaduras.
N'essa occasião, Antonio Lobo de Carvalho escreveu e divulgou o seguinte soneto:
Os fidalgos da villa dilecta d'el-rei D. Diniz,--que eram muitos, a julgar pelos brazões musgosos em que as andorinhas dormem de verão e as corujas assobiam de inverno--assanharam-se contra o poeta, fazendo-se representar no desforço pelos seus moxillas.
Espancado e fugitivo, foi parar a Lisboa Antonio Lobo, onde conhecia um tal Anacleto, que mais tarde foi juiz de fóra em Angeja.
A mãi do poeta era remediada de bens da fortuna, e quanto tinha quanto deu ao estouvanado filho, que nunca procurou modo de vida, nem bajulou os grandes, á imitação dos vates do seu tempo.
O duque de Cadaval, D. Miguel, ouvindo recitar versos de Antonio Lobo, disse aos seus criados que lh'o levassem ao palacio... para se divertir. Um lacaio de s. exc.a procurou o poeta e deu conta do recado. Lobo mandou-o esperar, improvisou um soneto, e remetteu-o ao duque. É o mais galhardo feito de poeta do seculo XVIII. Dizia assim:
Antonio Lobo indispoz-se em Lisboa com fidalgos e frades. A mezada que a mãi lhe enviava permittia-lhe dispensar-se das sympathias de clero e nobreza. Foi muito soado e mordido um soneto que elle dardejou contra um frade leigo, dado a libações de certa taverna. Era d'esta laia o poema:
Ao odio do clero e nobreza, ajuntou o poeta o odio do povo representado nas pessoas dos capellistas, acirrados por estes versos:
N'esta vida de odios e irritações, viveu Antonio Lobo de Carvalho até aos cincoenta annos. Se nos merecesse credito o que João Bernardo da Rocha escreveu no Portuguez, tom. X, pag. 356, o atrevido vate haveria sido aleivosamente assassinado por ordem de um tio do marquez de Olhão, a quem o maldizente frechára com um soneto que abria assim:
Mas o snr. Innocencio Francisco da Silva, posto que não decida qual haja sido a morte do poeta, com justificados motivos desabona a affirmativa de João Bernardo da Rocha.
Eu tambem não sei. Ando n'essas pesquizas; e receio ir dar com elle no hospital, expirando envolto em gloria... de cataplasmas de linhaça.
É notorio que o capitão Vicente Lunardi, natural de Luca, e empregado na embaixada napolitana em Londres, effectuou em Lisboa, na tarde de 24 de agosto de 1794, uma viagem aerea.
Mas ainda ninguem disse que o aeronauta, antes da ascensão, esteve preso á ordem do intendente geral da policia Diogo Ignacio de Pina Manique, pelo motivo de vir com tal novidade a Lisboa, onde a inquisição, por causa identica, desejára queimar o padre Bartholomeu de Gusmão.
Os documentos que sobrevivem a tamanho opprobio são autographos, authenticados pela assignatura do famigerado intendente.
Lunardi chegou a Lisboa em fins de maio de 1794. N'esse mesmo anno, em janeiro, tinha elle em Madrid subido no seu balão, que desceu na provincia da Mancha, onde os camponezes o receberam tão benignamente que o levaram em triumpho á igreja parochial da villa de Orcajo.
Cuidou elle que a familia real portugueza o recebesse com igual agrado ao da côrte hespanhola.
Logo que chegou a Lisboa, foi intimado a comparecer na corregedoria do bairro, e obrigado a assignar termo de não subir ao ar, sem que a machina fosse examinada por peritos. Este exame levava em vista satisfazer as suspeitas do publico, receoso de artes diabolicas.
Assignou Lunardi o termo, e entendeu que dava plena satisfação ás authoridades e ao publico, expondo o balão com todos os seus aprestos. E, para isso, construiu uma barraca na praça do Commercio, e grudou nas esquinas das ruas mais concorridas um cartaz em que minudenciosamente explicava o balão exposto, e os mais instrumentos necessarios ás viagens aereas. (Veja o Panorama, tom. VIII, pag. 15).
Apenas o estirado cartaz appareceu, o intendente geral da policia, officiou ao desembargador Luiz Dias Pereira, corregedor do bairro dos Romulares, no theor seguinte, e textual orthographia:
«Vm.ce logo mandará hir seguro á sua presença Vicente Leonardi, Author da Maquina Aereostatica, e na presença de um dos escrivães dos Lugares, que vm.ce está servindo, lhe perguntará, com que authoridade fixou os editaes, contra o que se havia determinado no termo que elle assignou perante vm.ce por ordem d'esta intendencia; e não apresentando ordem por escripto, emenada (sic) das Secretarias de Estado, ou do seu Real Gabinete, ou Gentil Homem da Camara ou Garda (sic) Roupa do Dito senhor; vm.ce o mandará prender, mandando-lhe abrir assento á minha ordem; e dar-me[8] parte do resultado d'esta diligencia acompanhando o Auto da declaração que o mesmo Vicente Leonardi fizer. Deus guarde a vm.ce Lisboa 10 de junho de 1794.==Diogo Ign.eo de Pina Manique.==Snr. Dz.or Luiz Dias Pereira.»
Lunardi, conduzido pelos quadrilheiros ao corregedor, e interrogado, disse que, tendo assignado termo de não funccionar sem que o balão fosse examinado, cuidára dar a maxima prova de boa fé e sciencia estreme de sortilegio, exhibindo ao exame de toda a gente a sua machina.
O corregedor achou-lhe razão. Não obstante, mandou-o esperar, em custodia, novas ordens da intendencia, em quanto elle officiava e a resposta vinha.
Eis a resposta do Manique:
«Vm.ce executará sem exhitação, ou duvida alguma, a diligencia que lhe encarreguei em aviso da data de hontem a respeito do estrangeiro Leonardi, author da maquina aereostatica; pois me consta com toda a certeza não ter o mesmo Estrangeiro licença alguma de Sua Alteza Real o Principe Nosso Senhor para o referido fim: e vm.ce me dará conta por escripto da execução da sobredita diligencia, na conformidade que lhe tinha ordenado. Deus guarde a vm.ce Lisboa 11 de junho de 1794.==Diogo Ign.eo de Pina Manique.==Snr. Dz.or Luiz Dias Pereira.»
Em vista d'isto, o aeronauta foi conduzido ao Limoeiro; e, n'esse mesmo dia, o intendente elogiava o corregedor n'estes termos:
«Li a conta que vm.ce me deu em que me participava a prisão do estrangeiro Leonardi, o que vm.ce tem executado com todo o acerto; agora porém vm.ce mandará arrancar todos os editaes, que o mesmo tinha afixado. Deus guarde a vm.ce Lisboa 11 de junho de 1794.==Diogo Ign.eo de Pina Manique.==Snr. Dz.or Luiz Dias Pereira.»
Não sei que tempo esteve o italiano em ferros; mas tenho plausiveis razões para presumir que o principe regente o mandou soltar, pois que, volvidos dous mezes, foi sua alteza que lhe deu licença para subir no balão.
Aos ouvidos do intendente chegaram rumores sinistros. Segredava-se que algumas pessoas, influenciadas pelos frades de mais selvagem ignorancia e acrisolada religião, tencionavam despedaçar a machina e o aeronauta, suspeito de feiticeria. E, visto que sua alteza licenciára a subida do balão, cumpria a elle intendente obstar que os fanaticos insultassem o estrangeiro. No entanto, o sagaz magistrado, que tinha mais velhacaria que syntaxe, não queria indispôr-se com o povo intimidando-o com o poder armado, nem indispôr-se com o principe abandonando o aeronauta á ferocidade das turbas. Neste proposito, officiou assim ao corregedor na véspera da ascensão:
«Vou a prevenir a vm.ce que não deve levar official algum de capote ámanhã de tarde para hir assistir na Praça do Commercio, nem ainda mesmo os quadrilheiros, e aquelle que não tiver cazaca o dispense vm.ce e lhe dê positiva ordem para não apparecer na mesma Praça do Commercio: o mesmo tambem ordenará vm.ce aos Cabos geraes do seu Bairro para não haver alguma confuzão e obviar, que alguns malvados se queiram mascarar affectando serem officiaes, para levarem as armas a seu salvo.
«Recomendo a vm.ce a prudencia, procurando não comprometter a authoridade, e respeito da justiça, e só, no caso indispensavel que ameace consequencias é que deve vm.ce ter o procedimento, pedindo auxilio da tropa para rebater qualquer insulto que se queira praticar: o modo nestas occasiões, e a polidez conduzem muito para se concluir o dia sem que seja preciso praticar procedimento algum, e sem que tambem se suscitem conflictos de jurisdicção. Tudo isto quer a prudencia, que recomendo a vm.ce se pratique como sem hesitação espero; e outro sim que não separe de si os seus officiaes para que não vão fazer acção alguma que não seja por vm.ce regulada. Deus guarde a vm.ce Lisboa 23 de agosto de 1794.==Diogo Ign.eo de Pina Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira.»
Na pagina em branco d'este officio, escreveu o corregedor: Subiu no dia 24 d'agosto na real praça do Commercio depois das quatro horas e meia da tarde. Eu o vi subir. Foi pelas oito horas e meia da noite cahir ás Vendas Novas, voando depois a Magaina(?) sem que elle a podesse segurar, a qual foi depois cahir a Veiros.
Vicente Lunardi escreveu depois a sua Viagem aerea, impressa no mesmo mez e anno em Lisboa. Da sua escripta não transpira queixume dos portuguezes. Apenas estas expressões denotam uma alma nobremente magoada: Os applausos, com que me tem honrado a nação portugueza, me fazem esquecer «as minhas passadas desgraças» e me obrigam a dar-lhe, em prova do meu reconhecimento, uma exacta narração de toda a minha viagem aerea, etc. (Veja o Panorama, tom. VIII, pag. 21 e seg.)
Estes «applausos» consistiram em uns endecasyllabos anonymos, publicados n'essa occasião. Quem quer que fosse, o author não teve a coragem de assignar os seus aleijados versos. Além d'isto, uma epistola do padre José Agostinho de Macedo a Stochler; e, sobre tudo o elogio que lhe consagrou Bocage, em versos esplendidos, que podem aferir-se por esta estancia:
Lunardi descrevendo os trabalhos que passou até embarcar em Aldeia Gallega, conclue assim a narrativa da sua viagem:
«Embarquei finalmente ás quatro horas da manhã, e com uma feliz viagem; cheguei ás 7 horas da mesma manhã ao caes do Terreiro do Paço, onde achei um grande numero de pessoas que me esperavam, e no meio de vivas de alegria me conduziram á minha habitação.
«Estes signaes de verdadeiro contentamento, e o concurso continuo de pessoas ainda das ordens mais respeitaveis, provam assás os sentimentos, que produziu a minha viagem aerea, que tanto é mais famosa, quanto mereceu os applausos de uma nação illustre, que pelo muito, que se empenha agora em honrar-me, tem adquirido incontrastaveis direitos ao meu reconhecimento, e eterna gratidão.
«Esta a narração fiel da minha viagem, e dos seus successos: e posto que ella não contenha em si nada de extraordinario para os corações indifferentes, deve com tudo interessar as almas sensiveis, e compadecidas, que saberão estimar em seu justo valor as minhas fadigas, e os meus soffrimentos. Para estas pois é que eu escrevo, na certeza de que, se não lhes merecer os seus louvores, conseguirei ao menos a sua compaixão, e o seu affecto, que é toda a minha ambição e o unico objecto d'esta pequena descripção.--Vicente Lunardi.»
Seduzido pelas ovações, que alguns poetas e rapazes lhe fizeram no Terreiro do Paço, cuidou o aeronauta que lhe seria permittido renovar a ascensão, e auferir d'ahi recursos com que voltar a Inglaterra onde tinha o seu emprego na embaixada napolitana. Embalado pelas poesias de Bocage e Macedo, lhe sorria a esperança, quando na madrugada do dia 29 de agosto, cinco dias depois da primeira subida, o acordaram para lhe noticiarem que o seu barracão na praça do Commercio se derruia esphacelado pelos machados de quarenta carpinteiros, á ordem do corregedor.
Aqui tem o leitor, como coronal d'este padrão de vergonha patria, o officio do intendente Manique ao corregedor que executou brutalmente a demolição da barraca em que Lunardi gastára os seus poucos recursos:
«Vm.ce logo mandará chamar o mestre carpinteiro Joaquim Pereira, que o foi da Praça construida para a machina aereostatica de ordem do capitão Vicente Leonardi, para dar logo principio a demoli-la e deita-la abaixo, não lhe admittindo subterfugio algum a este fim, e devendo amanhan sesta feira dar principio á demolição para o que lhe mandará embargar os carpinteiros de obra branca e de machado, que lhe forem necessarios: igualmente mandará vm.ce notificar o dito capitão Vicente Leonardi para este mesmo fim. Deus guarde a vm.ce Lisboa 28 de agosto de 1794.==Diogo Ign.eo de Pina Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira[9].»
Os frades e a estupidez tinham vencido.
Não sei se lhe abriram subscripção ao pobre italiano para o livrarem de Portugal e das presas do Manique. O que sei é que os poucos, que o applaudiram, apenas podiam dar-lhe... versos.
E, depois, a gente irrita-se quando os estrangeiros nos não enfileiram na vanguarda da civilisação!...
[8] Que grammatica a d'este afamado intendente geral!
[9] Estes documentos autographos podem vêr-se na livraria do insigne bibliophilo, o snr. Innocencio Francisco da Silva, que me fez a honra de os aceitar.
São justas as reflexões do estudioso antiquario o snr. Joaquim Martins de Carvalho, redactor do Conimbricense.
Agora direi os argumentos, bem que menos valiosos, em que eu assentava o meu erro.
Em 1805 divulgou-se em Vizeu um poema ou pasquim, injuriando os magistrados. Houve devassa e um dos pronunciados foi o doutor Ferro, que viveu no Porto, e aqui falleceu ha vinte annos, deixando, como prova do seu mal empregado engenho, um notavel poema que diz respeito á invasão franceza.
Em um volume de manuscriptos, tenho a celebrada satyra do Ferro, precedida da seguinte nota: Este libello é dedicado á memoria do Estopa e Carqueja, dous heroes que tudo levavam a pau e espada em Vizeu, ahi pelos annos de mil setecentos e tantos, e de um d'esses valentões tomaram o cognome os estudantes de Coimbra chamados o Rancho do Carqueja.
Isto não obstante, a correcção do snr. Martins de Carvalho deve antepor-se, visto que a sentença condemnatoria diz: «Rancho que denominaram DA Carqueja, originando este nome de haverem queimado com ella uma porta, etc.»
Chamar a D. João III principe perfeito podia ser lapso, sem ser ignorancia; mas nem sequer foi lapso: foi proposito.
Vá o noticiarista ao escriptorio da typographia, onde as Noites de insomnia são impressas. Peça ao snr. Antonio José da Silva Teixeira, honrado proprietario da typographia, que lhe mostre a primeira prova do artigo intitulado D. JOÃO III, e encontrará piedoso, como estava no original, emendado para principe perfeito, como está no livro. Se quer saber por que motivo corrigi o que havia escripto em harmonia com a historia official, respondo-lhe que está no meu arbitrio alterar os cognomes que não derivam de razão justificada; e á luz da historia, tanto monta para mim a perfeição de D. João II, o algoz, como a piedade de D. João III, o fanatico. Uns historiadores chamaram ao filho de D. Manoel o Pai da patria; outros o Filho da igreja; outros, authorisados por Paulo III, o Zelador da fé. Eu chamei-lhe o principe perfeito, e cancellei na prova o titulo de piedoso, que lhe dera de camaradagem com o snr. Viale, por não querer manchar um adjectivo digno de S. Francisco Xavier ou de S. João de Deus.
Além de quê: está rigosamente estatuido que sejam dogmas historicos a perfeição e a piedade do D. João II e D. João III? Poderemos, com juizo, associar-lhes taes epithetos, fóra de ironia? Ora assim como uns historiadores cognominaram D. João III com variados titulos, dá-me o noticiarista licença que eu chame perfeito ao principe, e sabio a sua senhoria? A patarata é a mesma.
N'isto de acolchetar antonomasias, tanto aos reis como aos subditos, quero e peço que haja liberdade plena. Por exemplo: o redactor da noticia da Actualidade, conhecido entre os seus parceiros por um epitheto qualquer, está sujeito a que a posteridade lh'o altere ou inverta. Eu, por em quanto, circumscrevo os limites da minha phantasia a chamar-lhe tolo.
Apesar de superfluo o meu testemunho, depois da asseveração do snr. Camillo Castello Branco, declaro que é verdade ter o mesmo snr. escripto no original: D. JOÃO III, o piedoso, e na prova que lhe enviei, e que conservo em meu poder, ter o author emendado: D. JOÃO III, o principe perfeito.
Não obstante attentar na emenda feita, mandei, como devia, que o typographo a observasse.
A. J. da Silva Teixeira.