Nota de editor:
Devido à
quantidade de erros tipográficos existentes neste texto,
foram tomadas várias decisões quanto à
versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi
mantida de acordo com o original. No final deste livro
encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita
Farinha (Fev. 2008)
GOMES DE BRITO
NOTICIA
de
Livreiros e Impressores
em Lisbôa
na
2.ª METADE DO SECULO XVI
composta
em face de um codice
da camara municipal desta cidade
1911
Imprensa Libanio da Silva
Travessa do Fala-Só, 24
lisboa
Livreiros e Impressores em Lisbôa
na 2.ª metade do Seculo XVI
GOMES DE BRITO
NOTICIA
de
Livreiros e Impressores
em Lisbôa
na
2.ª METADE DO SECULO XVI
composta
em face de um codice
da camara municipal desta cidade
1911
Imprensa Libanio da Silva
Travessa do Fala-Só, 24
lisboa
Do Boletim da
Sociedade de Bibliophilos
Barbosa Machado
Tiragem: 50 exemplares
N.º 44
NOTICIA
de
Livreiros e Impressores em Lisbôa
na
2.ª METADE DO SECULO XVI
Até o tempo em que o Cardeal D. Henrique, depois
rei, procedeu á nova circumscripção
das parochias de Lisbôa,
erijindo mais cinco freguezias a ajuntar ás vinte e
cinco já existentes (1564 a 1569), demarcando-lhes o
territorio
nos recortes feitos a quatro destas, a secular compartilha
que resultava deste regimen, estabelecido no intuito
de accomodar o serviço religioso ás necessidades
dos fieis, e sua mais immediata satisfação,
soffrera tres
remodelações. Ordenara a ultima, durante a
regencia do
principe D. João, ausente em França seu pai, o
rei D.
Affonso V, o celebre cardeal de Alpedrinha.
Por effeito daquelle regimen, grande numero de vias
públicas lisbonenses eram, como ainda hoje o são,
compartilhadas
por diversas freguezias confinantes. O
Summario
de Christovão Rodrigues de Oliveira, apezar de
imperfeito neste ponto, nos mostra, pela
repetição das
denominações,
que não dos
disticos,
porque tal providencia
estava ainda por nascer, quaes e quantas eram as
vias públicas compartilhadas, por effeito da
remodelação
parochial então vigente.
Comprehendia-se entre as deste numero a muito falada
«Rua Nova», dividida em dois troços, um
mais antigo
que o outro; um, o primeiro, fazendo parte do territorio da
freguezia da Magdalena, o outro pertencendo á freguezia
de «S. Gião» (S. Julião).
Do mesmo modo, esta notavel rua da Lisbôa medieva,
que principiando no Pelourinho, ía entroncar na Calcetaria,
era conhecida por duas denominações,
correspondentes
á sua compartilha. Á parte oriental, territorio
da parochia
da Magdalena, que terminava no Arco dos Barretes,
chama Christovão «Rua Nova dos Ferros»;
a que
desde o predito Arco ía embeber-se na Calcetaria, um
pouco adiante do Chafariz dos Cavallos, é designada na
relação do
Summario, referida á
freguezia de S. Gião,
pela denominação de «Rua Nova dos
Mercadores».
I
É em toda a extensão da Rua Nova, de um e outro
lado della, que, mercê de um valioso codice pertencente
á Camara Municipal de Lisbôa
[1], nós
vamos encontrar, de
porta aberta, nos annos intermedios dos já preditos (1565
a 1567), não só alguns dos livreiros e editores
já conhecidos
dos que conversam o passado literario de Portugal,
mas outros tambem, ainda até agora não
mencionados.
Começando a juzante da formosa linha de agua com a
qual a Rua Nova andava, se pode dizer, parallela, o primeiro
que se nos depara é Bartholomeu Lopes, que não
deixou de si, que saibamos, memoria averiguada, mas que
poderá ser, porventura, membro de uma notavel
geração
de livreiros deste appelido;—os Lopes.
[2]
Em 1563, isto é, dois annos, apenas, antes do primeiro
dos dois a que o codice de onde extractamos estes apontamentos
se refere, havia um Christovão Lopes estabelecido
«á Porta da Sé», segundo se
vê do titulo seguinte,
que abreviamos, mas se pode ler completo em Innocencio,
Diccion. Bibliog. II, 166:
«
Exposiçam da Regra do glorioso
Padre Sancto Augustinho...
por frey Diogo de Sam Miguel, &—Vendense (sic)
á porta da See, em
casa de Christouam Lopes
Liureyro a dous tostões em papel.—Foy impresso
em Lixboa em casa de Joannes Blavio de Agrippina
Colonia—Anno de 1563».
Vista a propinquidade dos annos, poderá acaso Bartholomeu
Lopes ter sido irmão, ou filho (?) de Christovão
Lopes,
e seu successor, passando o estabelecimento da Porta da
Sé para a Rua Nova, ou estabelecendo-se elle ahi de novo.
É possivel tambem que este mesmo livreiro seja pae do
livreiro-impressor Simão Lopes, que deu em Lisbôa,
em
1593, a primeira edição do
Itinerario, de Fr.
Pantaleão
d'Aveiro, as
Cartas do
Japão, etc., e em 1596 reimprimiu
a
Chronica de D. João II,
de Garcia de Rezende.
A seguir a Bartholomeu Lopes, seu visinho, estabelecido,
até, nas mesmas casas, tendo ambos por senhorio
um tal Jeronymo Corrêa, tinha a sua lojinha Sagramor
Fernandes. Era livreiro de modestas posses, a julgar pela
avaliação que os
«lançadores», para tal effeito
deputados,
deram á sua fazenda, na proporção de
cuja totalidade deveria,
como todos, pagar o respectivo escote. O nome baptismal
do homem era novellesco, mas as
cavallarias, ao
que parece, não eram grandes.
A influencia das novellas de cavallaria faz-se ainda sentir
em toda a sua pujança no codice que nos facilita esta
noticia, imprimindo-lhe um matiz pictoresco e variado.
O nome novellesco do obscuro livreiro não é unico
entre
os seus congeneres de ambos os sexos, inscriptos neste
curioso recenseamento. A par dos Sagramor ha os Lançarote;
de envolta com as Ginevras passam as Briolanjas.
A procedencia francesa e a italiana, dando-se as mãos.
Lançarote é o «Lancelot»
francez; Lancelot du Lac, o heroe
cavalheiresco de Gauthier Mapp, o amigo de Henrique
II de Inglaterra. Sagramor é o
«Sagromoro» milanez,
que Jorge Ferreira aportuguesou, fazendo-o heroe do seu
Memorial; Sagramor Constantino,
designado por el-rei
Arthur para seu successor, se a sorte das armas lhe fôsse
adversa.
Por aproposito, lembraremos a dúvida que Barbosa Machado
fez nascer, ácerca da existencia dos
Triumfos de
Sagramor, novella que, segundo elle, teria sido
impressa
em Coimbra, em 1554, por João Alvarez, mas de que parece
que nem o douto Abbade de Sever, nem, de certeza,
o seu successor, o diligente Innocencio, viram jámais
exemplar
algum. Será esta hypotética novella o proprio
Memorial,
assim duplicado pelo auctor da
Bibliotheca
Lusitana?
Eis um curioso thema, digno, nos parece, de attrahir
a attenção da nossa Sociedade, e a que o artigo
de
Innocencio (IV, n.º 2095, pag. 170) prestaria a base.
Em compensação, porém, algumas lojas
mais adiante do
modesto Sagramor achava-se estabelecido o opulento João
de Borgonha. Livreiro-editor de nomeada, fornecedor de
artigos do seu ramo para a fazenda de S. A., proprietario
nas visinhanças do seu estabelecimento, e em mais de um
sitio,
[3] os
seus teres, como negociante, foram avaliados
em «um conto de réis».
Na epoca em que o encontrámos, tinha elle por seu
«obreiro», talvez o que hoje chamariamos seu
«director-technico»,
seu administrador ou seu apoderado, a um certo
Miguel de Arenas, um castelhano, porventura, como da
Borgonha seria, com effeito, o patrão; estranjeiros quasi
todos, estes negociantes das letras portuguezas do seculo
XVI, que, vindo concorrer com os nacionaes, faziam,
ao que parece, mais fortuna que elles.
[4]
Certo é que Miguel de Arenas estabeleceu-se posteriormente,
com o mesmo ramo de commercio, de sociedade
com João de Molina; tambem, e mais vulgarmente conhecido
por «João de Hespanha», outro abastado
mercador
de livros, mas não tanto como o seu confrade borgonhez.
O negocio de João de Hespanha foi avaliado em
«duzentos
mil réis». Como «obreiro» de
João de Borgonha, Miguel
de Arenas devia fazer bons interesses. Dos seus ordenados—e
foi por esta circumstancia que o suppuzemos
empregado superior da casa de seu
patrão—foram-lhe
arbitrados «cinquo mill rs», para na
razão delles pagar o
respectivo escote.
[5]
A João de Borgonha segue-se, nas tendas de Alvaro de
Moraes, o livreiro Manoel Carvalho, provavelmente o pae
de Sebastião Carvalho, que em 1598 publicou, em 3.ª
edição, a
Recopilaçam
das cousas que conuem guardarse
no modo de preseruar a Cidade de Lisboa,
instrucções
redigidas em 1569 pelos medicos Thomaz Alvarez
e Garcia de Salzedo Coronel, e repetidas na primeira
das datas a que acima nos referimos, «por mandado da
cidade de Lisbôa», &.
[6]
Sebastião Carvalho conservaria
assim na mesma Rua Nova o estabelecimento paterno.
Apresentam-se, logo em seguida a Manoel Carvalho,
Diogo Machado, João Lopes e «Graviel» de
Araujo, dos
quaes não viramos ainda noticia, antes que o codice que
lhes revelou a existencia no'los désse a conhecer. Ao ultimo
destes segue Diogo Moniz, que por ter apresentado
carta de familiar do Santo Officio, foi escuso do escote.
Porfim, e quasi no extremo da parte da rua pertencente á
freguezia da Magdalena, o «Grafeo», isto
é, o livreiro-editor
Francisco Grapheo, em cujo estabelecimento se
vendia a novella
Menina e
Moça, de
Bernardim
Ribeiro,
impressa em Colonia, em 1559,
[7]
e uma das muitas
edições
da
Diana, do nosso Jorge de
Montemor, ao qual
ainda não chegara a hora de ser incluído nos
Indices expurgatorios
das duas Inquisições peninsulares.
II
Continuando na mesma Rua Nova, agora já no territorio
da freguezia de «S. Giam»; isto é, para
a direita do
Arco dos Pregos, ainda ahi encontramos um Francisco
Mendes, que estará no caso de Sagramor Fernandes, visto
o diminuto do escote, bem como o «framengo» Giraldo
de
Frisa, que pertence tambem, ou nos enganaremos, ao numero
dos da sua classe, de que não chegára noticia
até
nossos dias.
Emfim, na mesma Rua Nova, e territorio da sobredita
freguezia de «S. Giam» (S. Julião), mas
da banda das
Varandas, encontramos, fronteira ao Arco dos Pregos, a
«viuva de Salvador Martel», Leonor Nunes, a qual,
estabelecida,
com seu filho, nas casas de Fernão d'Alvarez
de Almeida, teve pelos lançadores a
avaliação de duzentos
mil réis.
Salvador Martel foi livreiro conhecido. Deverá ter fallecido
no decurso das operações do
Lançamento, de
cujo livro tiramos estas singelas notas, visto como Tito
de Noronha ainda o refere ao anno de 1566.
[8]
Algum tanto mais atrás, e tornando ao territorio da
freguezia
da Magdalena, voltando da rua de D. Gil Eanes,
pelo «Pelourinho», para a rua da Ourivesaria da
Prata,
em cuja entrada tinham suas lojas os «calciteiros»,
encontramos
o livreiro Jeronymo de Aguiar, que tambem não
conheciamos, e, ali perto, no Poço da Fotéa, o
já mencionado
João de Molina, appelidado no codice que vamos
percorrendo «Johão de Espanha»,
livreiro-editor que rivalisava,
sem comtudo o hombrear, como já notámos, com
o seu opulento confrade João de Borgonha.
Não era, porém, só na famosa Rua Nova,
e suas immediações,
que se encontravam os mercadores de livros. Na
rua direita da Porta do Ferro,
[9]
numas casas que ahi possuia
a camareira-mór, estava estabelecido «Jorge
Dagiar»
(Aguiar ou Aguilar?) talvez antecessor de Antonio de Aguilar,
que nesse sitio teve a sua loja em 1576.
Pelas vizinhanças, na «travessa da porta travessa
da
Madalena», que se ligava á «rua do fim
do pé da Costa»,
tinham tambem suas lojas Francisco Fernandes e «Bautista
da Fonsequa».
[10]
Lá para a Porta do Mar, entre a
Mizericordia e a «Fonte da Pregiça»,
[11]
nas tendas da Cidade
que jaziam nas costas do Terreiro do Trigo, vendia
livros um tal Manoel Francisco, lojista de medianos teres,
cuja fazenda foi avaliada em 10$000 réis.
Por pouco mais abastado sería tido um Antonio Dias,
com estabelecimento na rua da Gibetaria,—15$000 réis
de fazenda.—E nos mesmos casos Pero Castanho, lá para
perto de Valverde, numa travessa que vinha de Paio de
Novaes para aquelle sitio, isto é, por perto do Rocio.
III
Estes são os livreiros que encontrámos arrolados
em
1565-1567 no
Livro do
Lançamento que nos tem guiado.
São
vinte, isto
é, mais do dobro dos que Tito de Noronha
contou em sua já lembrada Memoria, referidos aos
mesmos annos.
Não poderemos, todavia, affirmar que o João Lopes
(1588), da lista daquelle auctor, seja o mesmo que figura
nestas singelas notas. A identidade não se nos afigura
improvavel.
Do Christovão Lopes (1563), daquella lista, já
dissemos
o que temos por presumivel. Quanto ao livreiro Antonio
Curvete (1565), mencionado tambem por Tito, não se nos
deparou no longo exame feito ao curioso codice, sob este
particular ponto de vista. Isto não quere dizer que elle se
não ache entre os 15:000 nomes contidos no volumoso
recenso. Bem poderá, porém, ter escapado, por
isso que
nem sempre as profissões dos fintados lhes acompanham
os nomes, ou achar-se-ha substituido por outro dos arrolados.
Como quer que seja, um e outro do numero total dos
livreiros, apontado por Tito de Noronha e por nós, como
estabelecidos em Lisbôa entre 1565 e 1567, está
muito
longe do que mencionou Christovão, onze annos
antes
[12]—«54».
Este numero, na verdade, inconcebivel por si só,
e sem mais explicações, é justificado
pelo ignorado auctor
da chamada
Estatistica de Lisboa, de
1552, que se
guarda na Bibliotheca Nacional, de modo assás plausivel,
e que, demais, acerta muito satisfatoriamente a nossa
conta.
Diz, com effeito, o auctor da
Estatistica:
«Tem XX tendas de livreiros, e [na] maior parte delas
i i j, i i i j criados e sserã as p
as
que nellas
trabalham
huas per outras lx...... 60 p
as».
Se em vez de Antonio Curvete, que nos falta, pode
estar algum dos diversos desconhecidos, de que damos os
nomes, hypothese que não parece improvavel, haveria
nesta capital, de 1565 a 1567, o mesmo numero de livreiros
que foi contado pelo auctor da
Estatistica, em 1552.
Adoptada, com effeito, a conta dos «criados» ou
«obreyros
de livreiros» que os lojistas teriam a seu
serviço, calculada
pelo mesmo auctor, ahi teremos o numero de Christovão
assaz justificado.
Será a seguinte Noticia dedicada aos
Impressores.
IV
Ao
testemunho do curioso codice
do
Archivo Municipal,
que temos seguido, na famosa Lisbôa da segunda metade
do XVI.º seculo
seis individuos
exerciam a «arte impressoria»,
como a denominou Valentim de Moravia, em sua
traducção do livro de Nicolau Veneto.
O primeiro dos seis «imprimidores», segundo se lhes
então chamava, e elles a si proprios se designavam,
encontrados
no alludido codice, é o velho João Blavio de
Agripina Colonia
[13],
cujas impressões, conforme a tabella
organisada por Tito de Noronha, em sua tão curiosa
quanto instructiva monographia;—
A Imprensa Portugueza
durante o seculo XVI, remontam a 1554.
É, porém, de notar que nesta tabella, ou lista
chronologica
dos impressores deste seculo, assigna-se á actividade
de João Blavio os onze annos, apenas, que começam
em
1554, e terminam em 1564.
Ora, o ról do
Livro do
Lançamento, onde apparece este
impressor, foi recebido pelos
sacadores (os encarregados
da cobrança da extraordinaria
imposição) em 11 de
março de 1566, e por elles entregue, com o producto da
cobrança, em 17 de agosto, do mesmo anno.
Vê-se pois que a actividade de João Blavio se
prolongou
algum tanto mais do que o indica a citada lista. O
que fica para saber, é que genero de trabalhos produziria
este typographo durante o lapso de tempo em que se
averigúa agora ter elle ainda conservado a sua typographia,
e a data precisa da sua desapparição.
[14]
Era pouco importante nesta epoca, segundo parece, a
actividade officinal de João Blavio. A moderada
avaliação
de 3$000 réis, que teve, o está
inculcando.
Achava-se o velho impressor estabelecido no «Beco de
Gaspar das Naus», freguezia de «Sam
Giam», nas casas de
um tal Bento Gonçalves. Aquella minguada arteria de
Lisbôa tinha sua entrada na Calcetaria, entre a rua dos
Fornos, a L. e o beco da Ferraria, a O. Rematando-se,
ao N., por uma especie de cotovello, sem sahida, bifurcava-se
na ligação com a rua dos Fornos, a que se chamava
«beco do Loureiro». O plano Pombalino, assentando
sobre
esta um tanto emmaranhada topographia, mostra-nos,
como pode ver-se na
Est. I da obra
valedora do sr. Vieira
da Silva,
As Muralhas da Ribeira de
Lisboa, o Beco
de Gaspar das Naus atravessado transversalmente, de
cima para baixo, na entrada da rua do Crucifixo, tendo
a sua abertura no quarteirão que fica entre a esquina P.
da rua do Crucifixo e a do N. da rua Nova do Almada,
fronteira, por conseguinte, á parede lateral esquerda da
actual igreja da Conceição Nova.
O personagem que deu o nome a este beco, e provavelmente
residiu nelle, fôra, a julgar pelo que allega o
«
Negro»,
na
Pratica de oito figuras, do poeta
Chiado, sujeito que
empunhara no mercado a vara da justiça... policial.
Diz com effeito,
«
Gama»:
«Não vou por esse
caminho!
Fallae ao que vos pergunto,
Dizei, negrinho sandeu:
saibamos que mal vos fiz,
porque não me daes perdiz,
pois que m'a compraes do meu?
Responde o
«
Negro»:
«Nunca elle mim acha...
Muito caro, nunca bem...
Mim dá-le treze vintem
pr'o dôzo; não querê dá.
A regatêra muito máo!
Mim dize quére vendê?
Elle logo saconde...
medo
Gasapar da náo
proqu'elle logo prende.»
[15]
Gaspar das Naus não é o unico a quem tenha sido
applicado o cognome. Houve por esta epoca um outro individuo,
chamado Manoel Lopes, tambem cognominado
«das Naus». Ainda não sabemos em que se
occupasse.
V
Segue-se, na ordem da leitura, Marcos Borges, que nos
apparece arrolado como «imprimidor obreyro»,
residindo em
uma de tres vias públicas, enfeixadas pelos
lançadores
da sobredita imposição num só
titulo:—«
Rua de quebra
q... com travessa de calca
(calça)
frades e Rua de
pino vay»
[16].
O rol onde figura Marcos Borges foi entregue aos
sacadores
em 2 de maio de 1566, sendo por elles restituido
ao thesoureiro da imposição em 1 de agosto
seguinte.
Ora, «ao primeyro de janeiro de 1566» appareceu a
público,
impresso por este typographo, o
«
Paradoxo», de
João Cointha, lendo-se no frontispicio da obra,
além da
sobredita data, mais a seguinte
indicação:—«
Vede se
na
empressam detraz de nossa senhora da
Palma».
[17]
Se, pois, Marcos Borges já no 1.º de janeiro de
1566
estava estabelecido por sua conta, e nos dá testemunho
irrecusavel do facto na obra que lhe foi, porventura, estreia,
como é que elle nos apparece classificado como
«imprimidor
obreyro», em maio, deste mesmo anno? Não deviam os
individuos que o classificaram conhecer bem a sua
posição?
Por outro lado, a indicação um tanto vaga:
«detrás de
nossa senhora da Palma» poderia até agora fazer
suppôr
que Marcos Borges estava, com effeito, estabelecido nalgumas
casas situadas na parte posterior da capella-mór
da ermida daquella invocação, onde, de certeza,
havia já
neste tempo casas para alugar, como as continuava havendo
em 1755, e a ellas se referiram os engenheiros encarregados
das medições dos Bairros, ordenadas no
começo
do anno seguinte pelo ministro do rei D. José.
[18]
Desde, porém, que Marcos Borges nos apparece residindo
num sitio differente do indicado na obra, de que terá
sido o proprio editor, como tal indicação nos
auctorisa
a crêr, ainda que ambos os locaes fôssem
convizinhos, o
que parece curial é entender-se que o impressor do
«
Paradoxo»,
tendo, com effeito, a sua officina no sitio que
a obra indica, residiria no «
Pino
Vay», viela ingreme,
quasi fronteira á parte posterior da ermida, e que laborava
a escarpa, no alto da qual passava a «rua detraz de Santa
Justa», correspondendo, salvo o actual aspecto, á
rua da Magdalena,
na parte que vae da Betesga ao largo dos Caldas.
Vamos ver adiante que Antonio Gonçalves, confrade,
já
agora celebre, de Marcos Borges, morava numas casas de
certa rua, e tinha nella, e perto, em outras, a sua officina.
Mas, encosta acima, enlaçava-se no
«
Pino vay» a
«
travessa
de quebra q...», que rasgando-se entre a
«
rua dos
torneiros» e a
«
Correaria», um
tanto mais abaixo da
abertura inferior do «
Pino
vay», ía formar com esta viella,
a meio da encosta, o enlace que fica apontado.
São poucos os contribuintes arrolados no grupo das
tres vias públicas em questão, e tanto se pode
suppôr que
Marcos Borges, sempre na hypothese de ter a sua officina
«
atras de nossa senhora da
Palma», morasse no
«
Pino
vay» como na travessa predita, ou na
rua de calça frades.
A circumstancia, porém, de não mencionarem os
lançadores
pessoa alguma a fintar na parte posterior da ermida
da Palma, justamente no anno em que este impressor
se declarara, na obra que citámos, estabelecido nesse
sitio desde o 1.º de janeiro, tenta-nos a ver em tal
indicação
um
alibi, por elle empregado, para
remediar um inconveniente
a que o decoro devia attender. O que se nos afigura
por mais certo, é que os
sacadores encontraram,
com effeito, Marcos Borges residindo na mesma casa onde
teria a sua officina, o que era regra, a bem dizer, geral,
não «atrás da ermida de nossa senhora
da Palma», mas
na
travessa de quebra costas, uma
das tres do grupo
onde o seu nome apparece, entre
outros, e da qual se pode
admitir, sem grande violencia, que
ficasse
fronteira, mas
do lado opposto da
Correaria,
á parte posterior daquella
ermida.
Quanto á menos exacta qualificação que
ao impressor
foi attribuida pelos
sacadores, pode
entender-se egualmente,
ou que houve equivoco da parte destes, ou que elles
quizeram favorecer o recem-estabelecido
«imprimidor»,
conservando-lhe a qualificação de
«obreyro», com o fim
de lhe minorar a importancia do escote. Marcos Borges,
typographo proprietario de officina, poderia, é verdade,
ser avaliado em 3$000 réis, como o fôra o seu
confrade
João Blavio, e pagaria 21 rs. de escote, mas passando,
por favor dos
sacadores, por
méro «imprimidor obreyro»,
alcançava o beneficio da «menor contia»,
que eram 2$500
rs., correspondendo-lhe a contribuição de 17 rs.
Era uma
differença apreciavel. Valia a pena acceitar o favor. Marcos
Borges,
encolhendo-se, ganhava 4
réis, isto é, defraudava
S. Alteza em obra de 30 réis, de hoje.
Este impressor, ainda em 1567; isto é, no anno seguinte
áquelle em que se estabeleceu por sua conta, continuava
a dar como séde da sua typographia o mesmo sitio:
«
detrás de nossa senhora da
Palma». Assim se lê,
com effeito, no fim da «
Chronica do valoroso
principe e
invencivel capitão Jorge
Castrioto», de Francisco de Andrade.
Era então já «impressor delrey nosso
senhor».
Não continuou, porém, ahi. Do facto ficou
testemunho
no depoimento de Pero Alberto, flamengo, seu obreiro,
que a 5 de novembro de 1571 declarava seu mestre estabelecido
no «Arco dos Carangueijos», se não
é Arco do
Caranguejo, simplesmente.
[19]
A indicação é preciosa, porque nos
mostra quem foi o
successor da viuva de Germão Galharde, da qual adiante
nos occuparemos com tal qual individuação.
VI
Ao «imprimidor» Marcos Borges seguem-se, no codice
que estamos examinando, os seus dois confrades Manoel
João e Francisco Corrêa, encontrados, este na
freguezia
de Santa Justa, aquelle, na de S. Christovão.
É Manoel João o primeiro, e delle e da sua
actividade
industrial vamos dar os breves respigos por nós colhidos
nas duas interessantes e eruditas monographias de Tito
de Noronha—
A Imprensa Portugueza, e
Ordenações do
Reino, ambas referidas ao seculo XVI.
[20]
Manoel João exerceu a sua arte entre os annos de
1565 e 1578. Destes quatorze annos, porém, os dois primeiros
occupou-os o impressor em Lisbôa, transferindo-se
após a Vizeu, onde trabalhou durante os seguintes
déz.
Em 1576, provavelmente, Manoel João terá voltado
a esta
capital, publicando nella, datados deste mesmo anno, os
Diesisiete coloquios, de Baltazar
Collazos. De 1578
em diante, desapparece.
Deverá ter sido limitada, e pouco sortida, a actividade
industrial deste impressor, accrescendo que as obras sahidas
do seu prélo não se distinguem por perfeitas.
Para o
facto concorria tambem o cançado tipo de que
dispôs, e
o papel em que imprimiu. A decadencia da Arte começava
a accentuar-se.
Dos dois primeiros annos do estabelecimento de Manoel
João em Lisbôa conhece-se, impressa no anno de
1565, a
4.ª ed. das
Ordenações do
Reino, dada a lume, como as
anteriores, por mandado régio
[21].
Esta
edição foi feita á
custa do livreiro Francisco Fernandes, e será o mesmo
que referimos no Cap. II ter encontrado estabelecido na
«
Travessa da porta travessa da
Madalena»; isto é, por
perto da actual calçada do Correio Velho.
No anno seguinte dava o nosso impressor a lume a
segunda edição da
Primeira Parte
da Chronica dos
Menores, como lembrámos em uma das notas
do Cap. IV.
A esta obra seguiu-se a
Oração
na trasladação dos
ossos de Affonso de Albuquerque, e depois os
Artigos
das Cizas, edição geralmente
desconhecida de nossos
bibliographos, e de que Tito de Noronha menciona tres
exemplares; o da livraria de Lord Stuart, e os de dois
amadores do Porto
[22].
Em Vizeu, onde Tito conjectura se estabelecera Manoel
João, a convite do bispo D. Jorge de Atayde, deu este
impressor, em 1569, o
Compendio de
Confessores, e no
anno seguinte as
Regulae
Cancellariae, de Pio V.
Tal é a noticia abreviada da actividade officinal de
Manoel João. Cumpriria agora ver como se exprimiu
Bastião
de Lucena, o escrivão da
voluntaria
imposição, graças
á qual nos foi possivel ajuntar as poucas noticias que
constituem o assumpto de nossas singelas notas, ao lançar
no volumoso codice que estamos compulsando, o nome
deste impressor entre os fintados da freguezia de S.
Christovão. Antes, porém, importa que o benevolo
leitor
nos consinta um breve relance á topographia lisbonense,
da epoca a que pertence o interessante
Livro do
Lançamento
que temos examinado. Ver-se-ha não ser sem motivo
a digressão.
VII
Quem percorrer as tão bem ordenadas listas da
viação
pública parochial lisbonense, impressas no
Summario de
Christovão Rodrigues de Oliveira, com as suas tres
categorias
de becos, ruas e travessas perfeitamente distinctas,
e os seus sessenta e dois «Postos que nam sam
ruas»,
onde o auctor, ou os que taes listas organisaram, accommodam
os «sitios», os adros das parochias, os arcos, as
varandas, os terreiros, ficará de todo illudido, se cuidar
que tudo na vida administrativa de Lisbôa se passava com
regularidade tão exemplar, em pleno seculo XVI, que
todos os habitantes da famosa cidade lhe conheciam as
vias públicas, destrinçando-as umas das outras,
como hoje
o fazemos, por suas exactas denominações e
categorias,
sem ser preciso designa-las por signaes, ou auxiliar-se de
referencias mais ou menos complicadas, para lhes descreverem
a marcha itineraria.
A prova de que tal regularidade não passou dos
«roles»
que os parochos de Lisbôa ministraram ao guarda-roupa
do Arcebispo, por ordem deste, e Christovão fez imprimir
após as noticias que ía dando das differentes
freguezias,
está neste codice que temos manuseado, e de que
vamos dando noticia a nossos benignos leitores. No breve
espaço dos quinze annos que medeiam entre a data que
é
costume attribuir á curiosa obra do solícito
famulo do
prelado lisbonense, é o
Livro do
Lançamento, do Archivo
Municipal (1551-1565), um grande numero de vias públicas
de todas as tres categorias se haviam aggregado ás
quinhentas
e vinte e uma, de que o
Summario pretende dar
a conta, não em somma total, mas em sommas parciaes,
referidas a cada qual das tres categorias
[23].
Estava no seu auge o facto que a
Miscellanea de Garcia
de Resende commemora;
«Lisboa vimos crescer
Em povos e em grandeza.
E muito se nobrecer
Em edificios, riqueza».
Lisbôa desenvolvera-se a olhos vistos, e uma nova
remodelação do territorio parochial,
divisão unica, de tal
qual regularidade por então em vigor, e essa mesma mais
para o ecclesiastico, do que para o civil, estava imminente.
Ora, desde o 1.º de janeiro de 1560 que a freguezia de
«Santa Catharina do Monte Sinay» encetava, pelo
funccionamento
da sua parochia, a série de providencias, que
o Cardeal Infante resolvera promover, para instituir mais
cinco freguezias na cidade, recortando-as no territorio
das vinte e quatro já existentes, segundo
lembrámos no
começo destas singelas Notas.
Pois bem: cinco annos depois de ter começado a funccionar
esta parochia, ainda a grande maioria das vias
públicas que lhe sulcavam o territorio carecía de
denominações,
ou os
lançadores,
freguezes nella, e que haviam
formado os roes da
voluntaria
derrama, lh'os não conheciam.
A calçada
do Congro[24]
ahi figura já, na verdade, substituindo
se á
denominação bem mais pictoresca de que
dispusera, de calçada da
Boa
Vista, no tempo em que,
seguindo os roes de Christovão, a vemos mencionada na
freguezia de Nossa Senhora do Loreto, cujo territorio,
já no começo da segunda metade do seculo XVI,
alcançava
até o «Valle das Chagas». Nascera
igualmente a
«Rua do Conde», que em nossos dias mandaram
appelidar
«Travessa do Caldeira»
[25],
a «Bica do
Bello», de 1551,
apparece já em 1565 com a denominação
com que ficou,
de «Rua da Bica de Duarte Bello», Fernão
Rodrigues de
Almada dá o seu appelido á rua que ainda agora
conserva
tal nome, proximo á antiga «Cruz de
Pao», desde 1885,
«Rua do Marechal Saldanha».
Em compensação, porém, os roes dos
sacadores falam-nos
de 4 ruas que «vão das Chagas para Santa
Catharina»,
assim como de 2 outras que «vão por
detrás de
Santa Catharina, uma para a Costa, outra para o Valle»,
e destas seis não é em nenhuma maneira facil
fixar a
situação. Por outro lado, se conjecturamos que a
«rua
dereita [~q] vai p'la calçada do congro abaixo»
seja a actual
rua do Sol, a «rua da Cruz para Santa Catharina» a
actual
rua do Marechal Saldanha, a «rua que vai da cruz da
esperança para as casas de Christovão de
mello» a actual
rua dos Mastros, e assim como estas, outras ruas ou travessas,
apenas indicadas por informações, nem sempre
estas, se se pretendesse fazer um estudo comparativo
local, seriam faceis de precisar.
Ora, consoante a taes exemplos, tirados, aliás, do
territorio
parochial de uma freguezia incipiente, muitos
outros se offerecem neste codice, dispersos por diversas
freguezias, e até por algumas das mais antigas.
Mas não é só isto. Palpita-nos que
certas vias públicas
das listas de Christovão passaram a ser indicadas por
differentes designações, o que se explicaria pela
decadencia
da respectiva determinante. Exemplos deste facto
ha-os, até bem mais recentes. A calçada de
Damião de
Aguiar, do seculo XVII,
passou a
ser denominada «calçada
do Lavra» (aliás Lavre), quando os Lopes de Lavre,
do
Concelho Ultramarino, vieram, pela infallivel lei das
renovações,
e consequentes substituições, a entrar na posse
do palacio e ermida que haviam pertencido áquelle
desembargador;
construcção que fórma a esquina
esquerda da
referida calçada, sobre a rua de S. José. Outra
calçada,
a de Salvador Corrêa de Sá, trocou o nome pelo de
S.
João Nepomuceno, quando os religiosos protegidos pela
rainha D. Maria Anna de Austria fundaram o seu hospicio,
daquella invocação, nas abas occidentaes do monte
de
Santa Catharina.
De outras vias públicas do codice em exame se pode
inferir que se haja obliterado a significação do
nome que
as distinguia, visto como é evidente que Bastião
de Lucena,
o escrivão desta derrama, lhes desfigurou as
denominações,
com a mesma inconsciencia com que deformou
o nome do velho João Blavio de Agripina Colonia. Uma
viela, para exemplo; uma viela que recordava o appelido
de certo parente do arcebispo de Genova, Agostinho
Salvago, e que viera estabelecer-se em Lisbôa, apparece-nos
transformada por Lucena em "Beco da Salvaje», e
assim outras mais. Do mesmo modo que ha, em summa, no
Livro do Lançamento
muitas vias públicas não mencionadas
no
Summario do guarda-roupa,
ha neste livro noticia
de grande numero de outras, de que aquelle codice
não conservou memoria.
Torna-se, pois, a conciliação entre os roes do
Summario,
e a nomenclatura da viação daquelle repositorio
difficil,
e não se consegue que sáia perfeita. A
impossibilidade
de identificação é manifesta.
VIII
Somos assim chegados ao ponto que nos levou á precedente
digressão. Onde, em que rua, travessa ou beco,
apparece fintado, na freguezia de S. Christovão, o
«imprimidor»
Manoel João?
O titulo desta freguezia lê-se no alto da fol. 406,
v.
o do
volumoso codice, redigido nos seguintes textuaes termos:
«
T.o da freguezia De san
Xpuão—Começa o primeiro
rol No chan Dalcamin pera a costa»
[26].
Vae seguindo o recenseamento, e a fls. 407 lê-se:
«
Duas ruas [~q]
começão De san Xpuão pera san
Lourenço».
No v.
o desta folha, e no alto della, assentou
Bastião de
Lucena o 8.º lançamento deste titulo. Diz:
«It Manoel Johão Inprimidor em casas Do doutor
João
de bairos av.
do [~e] seis mill rs. paguara rij
rs»
[27]
Portanto, tudo quanto se colhe de similhante
informação,
sem nada adiantar ao nosso proposito, é que este
sitio soffreu, em epoca não facil de determinar, ainda que
não estejâmos longe de fixa-la de 1756 para
diante, consideravel
alteração. Hoje, rua que comece de S.
Christovão
para S. Lourenço, apenas conhecemos todos
uma;
a rua das Farinhas, á qual o auctor do
Summario, ou
quem para elle escreveu esta parte do livro, chama «Rua
das Farinheiras». Poderia, porém, ter-se em
consideração
que no terreno que fica entre a parochial de S. Christovão
e a garganta por onde se penetra na rua das Farinhas,
e é denominado «rua de S.
Christovão», haveria modo de
existir nas eras remotas que nos occupam, qualquer viela
que, embebendo-se em outra similhante, déssem ambas
as «duas ruas que começam de S.
Christovão para S.
Lourenço», segundo o abreviado modo de exprimir-se
dos
lançadores da imposição. É,
pelo menos, o que resulta
das medições do Tombo do
Bairro
do Rocio, (1756), a
fls. 121, onde se lê: «Largo da Igreja de S.
Christovão—Corre
o seu comprimento N. S. Tem de comprimento desde
a rua do Regedor até
á travessa
que vai para a rua das
Farinhas, 214 p.; de largura pelo N. 35 p., e pelo S.
45».
Ora, a lista das vias públicas, do
Summario, que laboravam
o territorio parochial de S. Christovão comporta 9
ruas, 3 travessas, 1 adro, 2 terreiros, 1 beco e 1 arco.
De toda esta estatistica de viação, apenas uma
rua, a
«do Crucifixo», uma travessa, e os dois terreiros
se não
podem identificar com a actual topographia da parochia
[28].
E como naquelle tratado, a disposição das
«Ruas», tal qual
quem ordenou a lista das vias públicas della as foi
escrevendo,
nos mostra que se começou do N. para o S. da
freguezia, isto é da «Rua das
Fontainhas», compartilhada
pelas parochias de S. Lourenço e de Santa Justa, para a
extrema opposta; para a «Rua do chão
dalcamim», segue-se
que a «Rua do Crucifixo», por maior que seja o
nosso
desejo de precisar qual das «duas ruas que vão de
S.
Christovão para S. Lourenço» era a que
habitava, com
a sua officina, o tipographo Manoel João, não
parece que
possa ser a designada, visto como se apresenta na lista
parochial após a «Rua do Regedor», isto
é, do lado diametralmente
opposto á provavel situação daquellas
duas ruas.
Assim pois, se a tal «travessa que vai para a rua das
Farinhas», do Tombo Pombalino, não era, como, de
facto, não parece ter sido, a «rua do
Crucifixo», do
Summario de Christovão,
ainda existente, e conhecida
por esta denominação em 1712, como se mostra na
Corografia
de Carvalho da Costa, e se não era, portanto,
nella que Manoel João estava arrolado, tudo que se
póde
concluir, é que o nosso impressor teve a sua officina no
territorio da freguezia de S. Christovão, e numa via
pública
muito proxima á séde da parochia, mas para o N.
do territorio desta.
Em algum dos proximos capitulos veremos que a fórma
imperfeita como os
lançadores organisaram os
roes da
derrama dá motivo a iguaes hesitações
e perplexidades
que nos não deixam satisfeito, quanto ao sitio em que
teve a sua operosa officina tipographica o celebre Germão
Galharde, e onde vamos ainda encontrar a sua viuva.
IX
Como o seu confrade Manoel João, tambem Francisco
Corrêa, seguindo as noticias que deste impressor nos
dá
Deslandes, em sua
Historia da Typographia
Portugueza,
exerceu a sua arte fóra de Lisbôa.
Provavel «obreiro de imprimidor» de
Germão Galharde,
acaso foi convidado para ir dirigir em Coimbra a officina
do Estudo Real, estabelecida na rua da Sophia, como seu
presumivel mestre o fôra igualmente, para ir organisar a
imprensa dos Cruzios, daquella cidade.
Em tal situação ali se demorou, com effeito,
Francisco
Corrêa desde o anno de 1549, em que principia a apparecer,
até 1555. Passando por este tempo ao Porto, ali
deu á estampa o compendio de arithmetica, de Bento
Fernandes
[29].
Transferindo-se em seguida a Lisbôa, onde
assentou prélos até 1585, anno que parece ter
sido o do
seu fallecimento, ainda em 1580 imprimiu em Almeirim,
de parceria com seu confrade Antonio Ribeiro, segundo
informações de Tito de Noronha,
in A Imprensa Portugueza,
as
Allegações de
direito por parte da Infanta D.
Catharina, sobrinha do Cardeal Infante.
Além destas noticias, publíca tambem Deslandes
em
sua predita obra o Alv. de 12 de novembro de 1566, concedendo
a Francisco Corrêa isenção de direitos,
até certa
quantia, do papel que despachasse em cada anno, a começar
no de 1565. Pelo restante teor deste diploma se
prova, outrosim, que Francisco Corrêa foi arrendatario
das officinas que, por morte de João Blavio, ficaram em
Lisboa e na India, em Gôa, muito mais que provavelmente,
sendo-lhe concedidos os 40$000 réis que os herdeiros
daquelle impressor haviam alcançado se descontassem
nos direitos do papel que despachassem para o expediente
das preditas duas officinas.
Taes são em breve resumo, e salvo a
supposição de
que Francisco Corrêa fôsse compositor na officina
de
Germão Galharde, que é nossa, as noticias
colhidas nas
obras de Deslandes e de Tito de Noronha, acima apontadas,
ácerca deste notavel tipographo, cujos trabalhos,
além de numerosos, se avantajam, a testemunho do segundo
daquelles dois auctores, em sua tão curiosa monographia
das
Ordenações do
Reino, em nitidez e satisfactorio
aspecto, aos do seu confrade Manoel João.
Ao percorrermos no
Livro do
Lançamento o «3.º rol
da freguezia de Santa Justa», ahi se nos deparou a
«Rua
de Valverde», e nella, como 16.º contribuinte:
«Francisco corea [~e]presor [~e] casas de margaida de matos
avaliado [~e] seis mill rs paguara Rij rs.»
O rol a que nos referimos teve começo na rua que
ía do
mosteiro de S. Domingos para a Porta de Santo
Antão.
Comprehendia a rua do Chafariz do Rocio para a Mancebia,
a que ía da estrebaria del-rei ao longo do muro para
a Porta de Santo Antão, a «rua do beco»
do chafariz do
Rocio, e finalmente, a rua de Valverde, que laborou, provavelmente,
parte da actual Praça dos Restauradores,
da banda do S., e vindo imbeber-se, talvez, na rua de
Mestre Gonçalo, isto é, no terreno da rua do
Principe, e
por perto da actual calçada do Duque.
Para o seguinte estudo, a viuva de Germão Galharde,
a que acima alludimos, e o glorioso impressor da primeira
edição dos
Lusiadas, Antonio
Gonçalves.
X
Vamos folheando o volumoso recenseamento, onde colhemos
as informações que temos transmitido a nossos
benignos leitores, e achamo-nos agora em face do 7.º e
ultimo rol da freguezia da Magdalena
[30].
Começam os sucintos apontamentos itinerarios dados
neste rol aos
sacadores encarregados
da cobrança das
voluntarias fintas, pela:
«
Rua Dos torneyros [~q] travessa para as
pedras negras
pela rua de Ilusuarte Peris[31]
ate a rua drt.a da
Costa».
Não ocorreu ao escrivão desta derrama, escrevendo
para comparochianos, conhecedores como aos seus dedos
de todas as enredadas arterias da sua freguezia, que alguns
seculos depois, compatricios seus viriam que tivessem
interesse em perceber, mais do que as suas garatujas
pictorescas, as suas abreviadas, e até menos exactas
indicações
do territorio parochial a que se referiam!
Se tal, com effeito, se houvera dado, não só
Bastião
de Lucena não estabeleceria, contra a exacta nomenclatura
local, que a
rua dos Torneiros
atravessava para as
Pedras Negras, vertendo assim uma confusão de desnortear
na compartilha parochial, mas não sacrificaria á
extrema
concisão que adoptou a precisa clareza, para sabermos
agora a que via pública, entre as comprehendidas na
sua abreviada indicação, viria a pertencer o
35.º lançamento,
dos 38 lançados sob o correspondente enunciado,
e que é o seguinte:
«
It A molher de germão galharde
[~e]primidor em casas
suas avaliada [~e] settenta mill rs paguará i i i j c l v
rs»
[32].
Com effeito, uma vez que se nos deparára aqui a viuva
do celebre impressor francês, que tanto realce deu
á typographia
lisbonense do XVI.º seculo, e tão util
foi
ás letras
portuguesas destas afastadas eras, bem natural fôra
que desejassemos precisar o sitio, a rua, a travessa ou
beco onde a digna matrona residisse. O mesmo seria que
ficarmos sabendo precisamente onde seu defuncto marido
terá tido a sua operosa officina.
A difficuldade, porém, mostra-se insuperavel, ainda
quando reponhamos, até, em seu logar a desfigurada
topographia
local, e se, posteriormente, nenhum outro indicio
nos não fizer suspeitar onde possa ter estado estabelecida
esta tão interessante imprensa, teremos o desgosto
de nos contentarmos, á semelhança do que nos
aconteceu,
tratando de Manoel João, com as vagas
indicações que
ficam expressas.
Procurando formar idéa da ordem que presidiu á
elaboração
dos roes desta freguezia, concluímos que os
lançadores
adoptaram a orientação topographico-descriptiva
do
sul para o norte, isto é, das muralhas marginaes da cidade
para cima; «Rua Nova dos Ferros», «Porta
d'Erva» e
«Porta da Ribeira»,
«Carnaçarias Velhas»,
«Pelourinho»,
«Misericordia», «Rua do
Principe», «Rua da Ferraria Velha,
por detrás da Conceição»,
«Cristaleiras», «Rua dos
Fanqueiros», «Rua dos Corrieiros de obra grossa e
delgada»,
&, &. Todos estes sitios, todas estas vias
públicas
entram nos seis anteriores roes, com outras que, por
abreviar, se não mencionam. Este 7.º rol
comprehende,
portanto, a zona alta da freguezia, e dentro delle observa-se
disposição igual á que se adoptou para
os anteriores.
Se bem entendemos, pois, o breve apontamento de
Bastião de Lucena, havia na freguezia da Magdalena uma
via pública, uma viella, como tantas outras deste tempo,
que, partindo de qualquer ponto, por agora indeterminado,
atravessava, mas não directamente, para as Pedras Negras.
A travessia fazia-se com o auxilio da rua de Ilusuarte
Peris. Portanto, o que se queria indicar aos
sacadores,
é que, principiando
as suas
visitas pela tal via
pública, erradamente classificada e denominada
«Rua dos
Torneiros», e continuando-as pela rua de Ilusuarte Peris,
que se lhe seguia, fôssem indo até
alcançar a rua direita
da Costa, nesse tempo, como agora e sob a
denominação
de calçada do Correio Velho, limite léste da
predita freguezia.
Uma vez chegados áquella rua, os
sacadores,
conforme se deprehende da continuação da leitura
deste
7.º rol, descê-la-íam, entrariam na rua
do Arco
de Dona Tareja;
isto é, retrocederiam para Oeste, e desta rua continuariam o
seu itinerario por onde já nos não importa
segui-los.
Está tudo muito bem, menos uma circumstancia importante.
Não houve em Lisbôa, em tempo algum, nenhuma
«rua dos Torneiros», nem na freguezia da Magdalena,
nem em nenhuma outra freguezia da cidade. Existiu, sim,
a «rua da Tornoaria», mas essa pertencia
á freguezia de
S. Nicolau. Passava pela parte posterior do edificio parochial
deste orago, e era, por conseguinte, o mais septemtrional
dos successivos tramos em que se fraccionava a
longa, e em parte alcantilada via pública que ligava uma
á
outra as duas sédes parochiaes.
Para se ir da Magdalena a S. Nicolau, haveria de percorrer-se
a Correaria, a Fancaria, a Tornoaria, e ainda
quando se quizesse admittir que os
lançadores, e
Bastião
de Lucena com elles, haviam chamado «rua dos
Torneiros»
á rua da Tornoaria, daqui se vê que tal rua
não podia ser
compartilhavel entre a freguezia de S. Nicolau e a da
Magdalena, como o não eram as suas duas parceiras, a
Correaria e a Fancaria.
Temos, pois, de recorrer ao
Summario, de
Christovão
Rodrigues de Oliveira, para destramar a meada.
Em boa hora o fazemos, porque a via pública que o solicito
guarda-roupa do arcebispo D. Fernando nos aponta
como situada na freguezia da Magdalena, em 1551, é a
«
travessa dos
Torneiros». Ora, é evidentemente
tal «
travessa»
aquella a que se referem os lançadores, porque
partindo, cá em baixo, da Tornoaria, em sentido transversal
para L., galgava a barreira que separava o valle da Baixa
das cumiadas que iam terminar na Alcaçova, e surdindo
muito proximamente no local fronteiro á actual Travessa
das Pedras Negras, ía soldar-se á Rua de
Ilusuarte Peris.
Cumpre, no emtanto, advertir que o sitio que no seculo XVI.º
deu
origem á
denominação «Pedras Negras»
não era
precisamente onde se rasgam, pela planta Pombalina, a
rua e a travessa d'esta denominação, e que a rua
de Ilusuarte
Peris, ou desapparecera nos provaveis aspectos
diversos que o sitio apresentou entre os seculos XVI.º e
XVIII.º, ou
se conservava ainda,
acaso, ás vesperas do
terremoto de 1755, mas com differente
denominação; o
que não seria de extranhar, como já
observámos. As «Pedras
Negras», como era o sitio a que deram o nome, anteriormente
ainda ao seculo XVI.º, póde
vêr-se a
configuração
provavel que tiveram em mais escuras eras, na planta
que acompanha a obra valedora do sr. Vieira da
Silva:—
As
Muralhas da Ribeira de Lisboa.
A «rua de Ilusuarte Peris» é que na
mencionada planta
não apparece, e mal se suppõe onde possa ter
sido
[33]. A
travessa dos Torneiros é o «Beco de Nossa Senhora
da
Conceição», da sobredita planta, muito
mais que provavelmente.
XI
Fixados como é, já agora, possivel
fazê-lo, a muito
perto de trezentos e cincoenta annos de distancia, e com
tão escassos elementos topographicos, estes indispensaveis
pormenores, digamos agora o que se sabe do activo
industrial de quem fôra «molher» a pessoa
a quem se referiu
o lançamento que é assumpto ao nosso
despretencioso
estudo.
Germão Galharde, francês de
nação, o que elle não
deixou de recordar-nos em algumas de suas assignaturas
[34],
foi, como anda sabido, o mais operoso impressor que teve
o XVI.º seculo português. Estabelecido em
Lisbôa
pelos
primeiros annos delle, conhecem-se, executadas no espaço
de mais de quarenta annos, e até 1560, data da sua
morte, «70 edições» sahidas
da sua officina, sem contar
as leis avulsas, impressas, em geral, numa folha apenas
[35].
Quem poderá dizer quantas mais obras Germão
Galharde
terá executado, de que o seculo ultimo e o acual
não
lograram já ter
conhecimento?—Interrogação é esta que
terá de ficar sem resposta. Sabe-se apenas que da sua
officina começaram a apparecer edições
datadas de 1519,
e que um lapso de revisão, importante, levou alguns
bibliophilos
a retro-fixar o começo da operosa actividade do
celebre impressor no ultimo anno da primeira década do
seculo que o viu trabalhar; no de 1509.
Foi o caso que o
Missal da igreja de
Evora, de que se
guarda um bom exemplar na Bibliotheca Nacional, apresenta
como data de impressão este predito anno. Notou-se
o facto, e houve quem, não lhe occorrendo de quantos
lapsos anda tecida a historia da typographia, em geral,
tirasse delle irreflectido motivo para declarar Galharde estabelecido
desde aquelle supposto anno. O academico Silva
Tullio, que tanto no caso estava de desilludir os menos
avisados, constituiu-se exactamente o paladino d'elles,
sustentando contra Tito de Noronha a hypothetica possibilidade
de ter o
Missal sahido das officinas
de Galharde
no anno impugnado.
Rebateu Tito, a nosso ver humilde com raciocinios de
pêso, as razões que Tullio bem escusára
de ter produzido,
visto como, se a verdade historica bem pouco poderia
ganhar com semelhante improvavel accrescimo á actividade
officinal do impressor francês, assás mal parados
ficaram,
em troca, os créditos do prestante conservador, insistindo
em sustentar a méra presumpção que
tudo se conjurava
para invalidar
[36].
Tito, tendo feito notar o isolamento em que a data de
1509, attribuida áquelle livro, ficava das obras por
Galharde
impressas em 1520, e quão pouco provavel era que
entre um e outro anno obra alguma, naquella
typographia
impressa, viesse quebrar o largo periodo de onze annos
de inactividade officinal, lembrou que o
Missal
Eborense
poderá ter sido impresso em
1529, tendo faltado na
subscripção latina o vocabulo
«
vigesimo»
[37].
Esta probabilidade
nada tem, com effeito, contra si que a invalide, e
um facto, porque assim o digâmos hodierno, a vem demonstrar
plausivel:
Convidou o editor Fernandes Lopes a Innocencio Francisco
da Silva para dirigir a reimpressão do
Elucidario,
de Santa Rosa de Viterbo. Em 1865 sahiu, com effeito, a
lume esta obra dividida em dois tomos, como a 1.ª
edição,
imprimindo-se no 1.º uma «Advertencia
preliminar»
do illustre
bibliographo, a qual elle datou do «1.º de junho de
1865». Pois bem;... na capa e no frontispicio de cada
um dos dois tomos assignou-se a esta reimpressão, por
data, o anno de MCCCLXV! Este lapso, sendo tão patente,
salta para logo aos olhos de quem manuzear a obra
[38].
Continuemos agora a examinar quanto se nos offereça,
do pouco aproveitavel que nos tem sido possivel ajuntar,
que se relacione com a vida deste grande trabalhador typographo,
que tanto illustrou a sua arte, e tantos testemunhos
nos deixou, apesar das muito mais que certas lacunas
da lista das suas impressões, da
perfeição com que
sustentou os créditos da sua officina.